Carina Pascotto Garroti Arte e Ciência: A popularização do Conhecimento UMESP - Universidade Metodista de São Paulo FAJORP – Faculdade de Jornalismo e Relações Públicas Curso de Jornalismo São Bernardo do Campo, Novembro de 2004 Carina Pascotto Garroti Arte e Ciência: A popularização do Conhecimento Projeto de Monografia apresentada em cumprimento total às exigências da disciplina de Introdução aos Projetos Experimentais, do curso de Jornalismo, da Faculdade de Jornalismo e Relações Públicas, da Universidade Metodista de São Paulo, para obtenção do título de Bacharel em Comunicação Social, habilitação em Jornalismo. Orientador(a): Prof(a). Graça Caldas UMESP - Universidade Metodista de São Paulo FAJORP – Faculdade de Jornalismo e Relações Públicas Curso de Jornalismo São Bernardo do Campo, Novembro de 2004 Dedico ao meu pai “A Arte imita a vida. A Ciência imita a ficção científica” Autor desconhecido Agradecimentos Ao meu pai, que me possibilitou a Faculdade, em todos os sentidos A minha irmã gêmea, Cilene, que procurou ajudar com as fontes A minha mãe e irmã, pela compreensão Aos meus amigos de Faculdade, que souberam dividir as obrigações, aflições e alegrias, em especial: A Ju, que me forneceu o contato do Celso Sabadin A professora Rossana e aos estagiários do Lab foto, que me ajudaram na tentativa com as fotos Ao professor Rodolfo e professora Margarete, pelo apoio Ao professor Reis, pelas orientações com a diagramação e projeto gráfico Ao Fábio Massa e ao Daniel pelas dicas muito úteis de diagramação Às gentis fontes que colaboraram para que este trabalho fosse realizado, principalmente a Luisa Massarani e a Tânia da Fiocruz, que ajudaram com os contatos e A professora Graça, pela paciência e companheirismo Resumo: O trabalho analisa o processo de popularização da Ciência pela Arte. Realiza um mapeamento analítico e comparativo das diferentes linguagens presentes nas manifestações artísticas: Dança, Teatro, Música, Cinema, Quadrinhos, Charge, Carnaval, Artes Plásticas, Literatura, Poesia e Circo. Inicialmente, há uma breve conceituação sobre Arte e Ciência, observando suas relações e interdependências. Posteriormente, a abordagem recai sobre o mito da Ciência, discurso competente, a problemática do analfabetismo científico, a criatividade na divulgação e a popularização do conhecimento. No terceiro capítulo, a Educação permeando a Arte e a Ciência, o papel da mídia, das escolas e dos museus de ciências. E, finalmente, a análise de algumas das manifestações artísticas do eixo Rio-São Paulo, que colaboram para a divulgação científica no Brasil. Resumo Resumo Palavras-chave: Arte, Ciência, popularização científica Sumário Introdução....................................................................................................................1 1. Capítulo 1 - Relações e Configurações ............................................................................8 2. Capítulo 2 - Imaginário Social da Ciência ...................................................................18 2.1 2.2 2.3 2.4 - O Mito................................................................................................18 - Analfabetismo Científico .............................................................................21 - Criatividade na Divulgação .......................................................................23 - A popularização do conhecimento............................................................24 3. Capítulo 3 - Arte, Ciência e Educação............................ ...........................................26 3.1 - A descoberta da Ciência no processo educativo ............................................26 3.2 - As inteligências múltiplas ...........................................................................28 3.3 - Cultura Científica ................................................................. ........................30 4. Capítulo 4 - Formas Múltiplas de Arte................................. ......................................33 Sumário 4.1 - Ritmo da Dança .......................................................................................34 4.1.1 - A solução da Ciência .........................................................................34 4.1.2 - Outros projetos ...............................................................................36 4.2 - Na representação do Teatro ............................................................................37 4.2.1 - Ato I: Palma e Einstein ....................................................................37 4.2.2 - Ato II: “E Agora Sr. Feynman?” .........................................................48 4.2.3 - Ato III: A Cia Fábula da Fíbula ...........................................................53 4.3 - Na melodia da Música .....................................................................................61 4.3.1 - O músico da Ciência - Gilberto Gil .............................................................61 4.3.2 - Mais Música ...................................................................................65 4.4 - Nas páginas da Literatura....... ........................................................................68 4.4.1 - No futuro ........................................................................................68 Sumário 4.4.2 - Goiabada de Marmelo, Sítio do Picapau Amarelo ..................................72 4.5 - Nas cores e formas das Artes Plásticas ........................................................77 4.5.1 - A persona ........................................................................................77 4.5.2 - As artes no parque ............................................................................80 4.5.3 - Quadros para crianças? ......................................................................81 4.6 - Luz, Câmera, Ação! - O Cinema...................................................................84 4.6.1 - Claquete, cena 1: Osmose Jones .........................................................89 4.6.2 - Claquete, cena 2: Uma Mente Brilhante ...............................................93 4.6.3 - Claquete, cena 3: Procurando Nemo ....................................................96 4.6.4 - Claquete, cena 4: O vídeo-documentário .............................................99 4.7 - Pelas rimas da Poesia...............................................................................103 4.7.1 - Drummond, Bandeira e Vinicius ........................................................103 4.8 - Nas linhas críticas da Charge.....................................................................108 4.8.1 - Julio Mariano no Jornal da Ciência .....................................................108 Sumário 4.9 - Nas tiras dos Quadrinhos .........................................................................110 4.9.1 - Tira nº 01 - Os animais de Gonsales ..................................................110 4.9.2 - Tira nº 02 - João Garcia e (“) Os cientistas (“) .....................................114 4.9.3 - Tira nº 03 - O Franjinha do Mauricio de Sousa .....................................118 4.9.4 - Tira nº 04 - O Método Científico .........................................................121 Sumário 4.10 - No picadeiro do Circo.............................................................................123 4.10.1 - “Sonhos de Einstein” .....................................................................123 4.10.2 - Nas ruas, o palhaço Matraca............................................................126 4.11 - No balanço do Carnaval .........................................................................127 4.11.1 - Comissão de frente ........................................................................127 4.11.2 - Carro-chefe das Ciências: o enredo ..................................................129 Considerações Finais................................................................................................134 Referências bibliográficas..........................................................................................138 Anexos ..............................................................................................................................1 1. Entrevistas 1.1 - Carlos Palma ..............................................................................................1 1.2 - Oswaldo Mendes e Monika Plöger ................................................................11 1.3 - Sylvio Zilber ............................................................................................16 1.4 - Cauê Matos ..............................................................................................18 1.5 - BrasilConnects .........................................................................................28 1.6 - Mauricio de Sousa ....................................................................................29 1.7 - Celso Sabadin ..........................................................................................31 1.8 - Sérgio Brandão ........................................................................................32 1.9 - Yudith Rosenbaum ...................................................................................34 1.10 - Julio Mariano ..........................................................................................35 1.11 - Fernando Gonsales .................................................................................36 1.12 - João Garcia ............................................................................................39 1.13 - Marcus Campos ......................................................................................43 1.14 - Cláudio Baltar ........................................................................................44 1.15 - Casa da Ciência ......................................................................................45 1.16 - Sônia Varuzza ........................................................................................48 Sumário 2. Enquetes 2.1 - “E Agora Sr. Feynman?” .............................................................................49 2.2 - “Einstein” ................................................................................................55 Sumário Introdução O Dom das Artes As manifestações artísticas estão cada vez mais presentes no cotidiano do ser humano. Ao sair na rua, a publicidade utiliza a Arte em prol dos seus produtos – fazendo desenhos, figuras. “conversando” com ditados populares. O cinema está sempre lotado. Todas as cidades possuem programação cultural – que abrange, desde peças de teatro, a performances e shows. As bibliotecas, por sua vez, oferecem oficinas de origami e leituras variadas. O Jornalismo não poderia ficar de fora. Além de toda a programação dedicada à divulgação científica, a Arte resolveu – há muitos séculos – ajudá-lo nesta empreitada. Assim, desde os tempos mais longínquos, dos homens nas cavernas, os desenhos já eram feitos nas paredes, o que ajudou aos Introdução antropólogos a desvendar os mistérios de um passado desconhecido. A Arquitetura, também. Embora não faça parte deste trabalho, a Arquitetura se tornou Arte e profissão, contando a História de grandes governantes, como os faraós. Não é a toa que das sete Introdução maravilhas do mundo antigo, seis eram maravilhas arquitetônicas, como o Farol de Alexandria, os Jardins Suspensos da Babilônia ou a pirâmide Queóps, no Egito, a única maravilha que resistiu até os dias de hoje. A única exceção a regra é o Colosso de Rhodes, uma estátua - patrimônio da escultura. Nesta mesma linha vemos hoje todas as artes e suas devidas contribuições, agora adaptadas ao mundo contemporâneo. O teatro fala de Einstein (aliás, quanta gente fala dele!); a música, fala sobre a água; o cinema, sobre o corpo humano; as artes plásticas sobre a História; a literatura, sobre o céu e as invenções que ainda iriam surgir. E tantas outras mais. Este trabalho é dedicado a estas contribuições, até um pouco mais invisíveis do que aquelas da mídia, cuja linguagem veio antes da escrita, e junto com o instinto de preservação do conhecimento. 1 Durante a monografia há conceitos de educação formal e informal, explicados detalhadamente no capítulo 3. A análise foi baseada no artigo de Alberto Gaspar , A educação formal e a educação informal em ciências. (In: MASSARANI, Luisa; MOREIRA, Ildeu de C.; BRITO, Fátima (org.). Ciência e Público: caminhos da divulgação científica no Brasil. ) E o que é Arte e Ciência? Arte e Ciência são duas artes e duas ciências. Duas artes porque utilizam a capacidade criativa e imaginativa no seu desenvolvimento. Duas ciências porque pesquisam processos, realizam-se sob métodos, buscam uma resposta, refletem o pensamento humano. Nestas duas variáveis lança-se a vertente da descoberta; Ciência e Arte sempre foram irmãs, que foram separadas ainda crianças. Parece enredo de novela, mas não é. Agora, depois de “crescidas”, Introdução a sociedade luta para uní-las novamente. Há sempre um preço a se pagar. O da atualidade chama-se Educação. Enquanto os especialistas queimam os miolos procurando alternativas para o analfabetismo Introdução científico, a Arte – a irmã pobre - corre por fora na Divulgação Científica. Depois de todas as possibilidades de divulgação jornalística esgotadas, na História foi encontrada a solução. Este trabalho reúne iniciativas dos mais variados artistas sobre a divulgação da Ciência. Muitos sem intenção pré-determinada de fazê-lo. Mesmo assim, obtiveram um resultado comum – a popularização da Ciência através da Arte. Alguns artistas resumem o aprendizado... O que é Arte e Ciência para você? ‘ Arte eu crio. Ciência eu uso. – Mauricio de Sousa 2 Quando a Ciência inova, ela se aproxima da Arte. Quando a Arte amadurece ela se aproxima da Ciência. – Mariano, chargista do Jornal da Ciência Ciência se faz com Arte e Arte se faz com Ciência. Um exemplo de encontro das duas é o Projeto “Ver Ciência”. – Sérgio Brandão, coordenador do projeto Ver Ciência, da TV Cultura Nossa, não saberia responder. É tudo, né? Não vivemos sem elas. – Celso Sabadin, crítico de cinema É a possibilidade de aprender e praticar o conhecimento sem pressão e autoritarismo. – Marcus Campos, o palhaço Matraca, que faz trabalho de divulgação da Medicina Preventiva nas ruas do Rio de Janeiro Arte e Ciência para mim se aproximam na busca dos processos de criação. Existem caminhos, mas não existe uma fórmula que assegure o sucesso do resultado final. – Cláudio Baltar, artista da Intrépida Trupe Acho que elas são partes da mesma coisa. Elas são um arsenal de conhecimento humano. – Introdução João Garcia, cartunista É o meu trabalho – Oswaldo Mendes, ator de “E Agora Sr Feynman?” É tornar possível algo que seria destinado só para alguns, mas com essa intervenção ela pode Introdução ser vista, compreendida por todos. – Cauê Matos, da Cia Fábula da Fíbula, grupo de teatro da Estação Ciência (pausa longa) Olha, é.... rs. É essa, fazer Arte e fazer Ciência é o melhor exercício que a gente pode ter de viver. Viver é um exercício de soma da Arte e da Ciência, não tem outro jeito. – Carlos Palma, ator de Einstein ’ E para você? 3 Justificativa: a escassez de literatura acadêmica relacionando o papel da Arte no processo de divulgação científica justifica a preparação deste trabalho. Pretende, também, contribuir para a elaboração de um mapeamento preliminar das manifestações artísticas que têm a Ciência como foco. Dessa forma, espera melhorar a compreensão dos recursos artísticos na Educação da Ciência. A maioria das pesquisas acadêmicas sobre popularização da Ciência tem como objetivo sua divulgação pela mídia, sem considerar a importância da educação não formal. Objeto de estudo: relações entre Arte e Ciência e as diferentes manifestações artísticas que contribuem para a popularização da Ciência e formação de uma cultura científica. Objetivo Geral: Avaliar o papel da Arte no processo da divulgação, compreensão e no despertar de uma cultura científica. Introdução Objetivos específicos: 1. Analisar o papel da Arte na formação do imaginário popular sobre a Ciência; 2. Realizar um mapeamento das principais manifestações artísticas no eixo Rio-São Paulo, que têm a Introdução Ciência como foco; 3. Entender as manifestações artísticas como forma de minimizar o analfabetismo científico e auxiliar no trabalho dos professores, principalmente no Ensino Fundamental; 4. Examinar o aspecto lúdico e “sedutor” da linguagem artística em suas múltiplas manifestações, como facilitador e motivador do aprendizado dos conceitos da Ciência; Questões de pesquisa: 1. Qual o papel da mídia sobre o imaginário da popularização da Ciência? (abordagem preliminar) 4 2. De que maneira as diferentes manifestações (cinema, artes plásticas, música, etc) contribuem para a cultura científica do público? 3. Em que a criatividade presente nas artes atua como facilitadora no processo da compreensão do conteúdo científico e tecnológico? 4. Em que medida a linguagem lúdica das artes aproxima e integra a Ciência e o público em geral? Metodologia: Pesquisa monográfica, descritiva de caráter qualitativa. Trata-se de um estudo exploratório de múltiplos casos, numa perspectiva comparativa. Segundo Lakatos e Marconi (1995), “a monografia representa um trabalho escrito, sistemático e completo, com tema específico de uma área do conhecimento. Trata-se de um estudo detalhado, abordando vários aspectos do tema em destaque e obedecendo a determinados métodos de pesquisa. Assim, o trabalho monográfico contribui para a construção da ciência”. In Bezzon, 2004:13. Introdução Introdução Procedimentos de pesquisa: - Pesquisa bibliográfica sobre Arte, Ciência, a relação entre ambas, numa perspectiva histórica; - Pesquisa de campo sobre as diferentes manifestações artísticas que abordam temáticas científicas; - Análise documental; - Entrevistas semi-estruturadas com artistas e produtores envolvidos com a produção da Ciência pela Arte - Entrevistados: Cauê Matos – coordenador do Núcleo de Artes Cênicas da Estação Ciência; Carlos Palma – ator de “Einstein”; Oswaldo Mendes e Monika Plöger – atores de “E Agora Sr Feynman?”; Sylvio Zilber – diretor de “E Agora Sr Feynman?” e “Einstein”; 5 Mauricio de Sousa – desenhista; BrasilConnects, empresa responsável pela programação das exposições da Oca, do Parque Ibirapuera, em São Paulo, representada pelo gerente de Comunicação e Marketing José Augusto Zanforlim Porto; Celso Sabadin - crítico de Cinema; Sérgio Brandão – coordenador do projeto Ver Ciência; Yudith Rosenbawn – professora da FFLCH da USP e mestre em Manuel Bandeira; Marcus Campos – ator circense; Claudio Baltar – ator circense da Intrépida Trupe e diretor do espetáculo “Sonhos de Einstein”; Júlio Mariano – chargista do Jornal da Ciência; Fernando Gonsales – cartunista da Folha de S. Paulo; João Garcia – cartunista; Casa da Ciência – instituição responsável pela consultoria teórica do desfile da Unidos da Tijuca Introdução de 2004; Sonia Varuzza – responsável pela programação do Teatro Municipal de Santo André - SP. Introdução Percurso metodológico: Face à multiplicidade e diversidade de manifestações artísticas enfocando a divulgação da Ciência e os limites de um trabalho monográfico, escolhemos algumas das atividades para nosso estudo. Ainda sim, utilizamos amostras de cada manifestação. Não era nossa intenção analisar toda a produção cultural do eixo Rio-São Paulo, muito menos do Brasil, mas algumas de suas manifestações para compreender sua linguagem e contribuição no processo da construção de uma cultura científica. O corpus deste trabalho esteve centrado em manifestações artísticas relacionadas ao: teatro, cinema, música, quadrinhos, dança e literatura. A pesquisa de campo foi realizada nos meses de setembro e outubro de 2004. 6 Não era objeto deste trabalho mapear ou analisar a divulgação científica na mídia (jornais, revistas, rádio, TV e Internet), que vem sendo examinada em muitos dos estudos acadêmicos. Embora algumas das entrevistas consideradas importantes para o desenvolvimento deste trabalho tenham sido buscadas, nem sempre foi possível obtê-las, apesar das inúmeras tentativas de contato. Entre elas estão as de Nelly Novaes Coelho, Gilberto Gil, Guilherme Arantes, Lúmini, Luis Fernando Verissimo, Paulo Barros, José Nicolau Gregorin Filho, Alcides Villaça, Vagner Camilo, Ildeu de Castro Moreira e Luisa Massarani. O aprofundamento da temática poderá, contudo, ser realizado, no futuro, em programa de PósGraduação na área de Comunicação. Introdução Introdução 7 Relações e configurações Arte e Ciência se fundem nas suas definições há anos. Durante a produção do conhecimento, em muitos momentos da História, não havia definições do que era Arte e do que era Ciência. Muito era determinado pela Filosofia. Consideravam sempre como produção de saber, e não havia tanta preocupação de se separar as ciências. No entanto, isso mudou ao longo do tempo. Hoje, há definições específicas para cada uma, como consta no AURÉLIO (1999:469). Mas a mistura que existia no passado, mantém-se até hoje em alguns conceitos: Capítulo 1 Ciência. [Do lat. scientia.] S. f. 1. Conhecimento (3): tomar ciência. 3. Conjunto de conhecimentos socialmente adquiridos ou produzidos, historicamente acumulados, dotados de universalidade e objetividade que permitem sua transmissão, e estruturados com métodos, teorias e linguagens próprias, que visam compreender e, (possessivo), orientar a natureza e as atividades humanas. 6. Pop. Habilidade intuitiva, sabedoria: “A ciência da aranha, da abelha e a minha, muita gente desconhece” (Luiz Vieira e João do Vale, da canção popular Na Asa do Vento). [grifo meu] Ciências morais. 1. As que estudam os sentimentos, pensamentos e atos do homem, aquilo que constitui o espírito humano. Ciências normativas. 1. Aquelas que, como a lógica e a moral, traçam normas ao pensamento e à conduta humana. Relações e configurações Nota-se, primeiramente, que a Ciência não se restringe apenas às Ciências Biológicas, ao estudo do DNA, às teorias de Einstein e às de Darwin. Muito da Ciência encontra-se na História do Brasil, nas leis da gramática e nos estudos sobre a alma humana, como a Psicologia. A Ciência está inserida, ainda seguindo o raciocínio de algumas das explicações do AURÉLIO, na habilidade intuitiva de cada indivíduo, ou seja, no conhecimento que todo ser humano leva consigo, 8 independente do estudo. Seria o que chamamos de ‘conhecimento popular’. Ditados populares, folclore, músicas de autor desconhecido, o conhecimento de ervas dos índios. Tudo isso se considera como Ciência, além daquela difundidamente tecnológica, de pesquisa em laboratório, e que leva o homem à lua, ou o conecta com o restante do mundo apenas por meio de um computador. É interessante notar que até mesmo o Aurélio utiliza da Arte para explicar um dos muitos conceitos que a Ciência carrega. Já na explicação da Arte, a citação artística falta: Arte1 [Do lat. arte.] S. f. 3. Atividade que supõe a criação de sensações ou de estados de espírito de caráter estético, carregados de vivência pessoal e profunda, podendo suscitar em outrem o desejo de prolongamento ou renovação: uma obra de arte; as artes visuais; arte religiosa; arte popular; a arte da poesia; a arte musical. 4. A capacidade criadora do artista de expressar ou transmitir tais sensações ou sentimentos 9. Capacidade natural ou adquirida de pôr em prática os meios necessários para obter um resultado: a arte de viver; a arte de calar; a arte de ganhar dinheiro; escrever sem arte. 10. Dom, habilidade, jeito Capítulo 1 Portanto, em alguns momentos, ambas são Ciência, ambas são Arte. Ambas consideram a habilidade intuitiva do indivíduo como meio de conhecimento. Ambas Relações e configurações Arte Educação Ciência estudam o sentimento, sensações e a capacidade criativa do pensamento humano. Fundem-se no conceito de Educação. Partindo de um gráfico, poderíamos considerar que Arte e Ciência se entrelaçam justamente no propósito de educar. A Arte, além de produzir conhecimento, como é o caso de Leonardo da Vinci, que vamos discorrer mais adiante, também colabora para que a Ciência possa ser entendida por todos os indivíduos, independente da idade e grau de formação. A 9 Arte leva a Ciência aos livros, ao teatro, cinema, fotografia, música, artes plásticas, aos quadrinhos e a muitos outros meios – alguns em maior ou menor escala. Porém, mesmo depois de anos de estudo, artistas e cientistas possuem dificuldade em definir no que exatamente trabalham. PACHECO et al. (2003: 261) exemplifica: ‘Devo confessar preliminarmente, que eu não sei o que é belo e nem sei o que é arte!’ - afirmou Mário de Andrade. ‘Depois de exercer durante quase quarenta anos a crítica de arte [grifo meu], devo dizer que eu também não sei mais o que é arte’, concordava, tempos depois, Frederico Morais, um dos mais respeitados críticos de arte da América Latina. [até a experiência não ameniza a dificuldade]. Sobre a ciência será sempre questão de decisão ou de convenção saber o que deve ser denominado ciência e quem deve ser chamado cientista, declarou Popper. Um discurso sobre o método científico será sempre um discurso de circunstância, e não descreverá uma constituição definitiva do espírito científico, observou Bachelard No mesmo texto comenta-se que a separação das atividades artísticas e científicas se deve também aos estereótipos que cada palavra leva consigo, e do andamento da História do saber, que delimitou as funções de cada uma destas Relações e configurações ‘Artes’. Capítulo 1 Em tempos remotos, na Grécia, por exemplo, o conhecimento científico era desenvolvido pela filosofia, cabia à chamada “Filosofia da Natureza” investigar o homem e o mundo natural. Para a maioria dos autores, a separação histórica entre a Arte e a Ciência aconteceu em fins da Era Medieval, quando o homem deixou de ser encarado como unidade física, psíquica e espiritual, impregnada de natureza e divindade, para ser múltiplo, fracionado em diversos corpos que habitam um só: o corpo-que-trabalha, o homem que tem fé, a célula-família, o sábio da ciência, o homem político - e, prioritariamente para a época que se instaurava o corpo-queproduz (PACHECO et al., 2003:264). Entendemos, portanto, que a “história” de cada palavra fez nascer uma definição de conhecimento prático para Ciência e sensibilidade para a Arte, separando por completo as duas, quase que como antônimos, como razão e sentimento. Conforme o texto acima, essa separação dependeu em grande parte 10 do momento que a sociedade passava, e da necessidade de teorizar e separar as ciências. Os estereótipos foram grandes responsáveis por esta delimitação: Da cisão histórica entre arte e ciência, surgiram equívocos [grifo meu] que perduram até nosso tempo. A visão de uma atividade “racional” voltada para processos “objetivos” de pesquisa, cujos campos, objetos e metodologias estão sempre bem delineados, permeia, para o senso comum, a atividade científica. Entretanto, para aqueles que realizam pesquisa científica, não é sempre assim: sabemos que, antes de se demonstrar ciência “exata”, toda pesquisa transita por um terreno especulativo, em que o acaso e escolhas aleatórias podem ser decisivos na formulação dos rumos da investigação. [lembremos aqui da definição de conhecimento intuitivo da ciência] Ainda assim, o exercício dos processos científicos adquiriu, aos nossos olhos, o status de atividade detentora de ‘conhecimento’. Talvez por ser, freqüentemente, capaz de oferecer resultados mensuráveis, que saciam nossa histórica demanda por produção; talvez ainda por estes resultados possuírem algum grau de aplicabilidade, isto é, produzirem tecnologia e serviços. O fato é que, para nossa moralidade, uma experiência só se torna válida se tiver o aval da comprovação ‘científica’, seja por experimentos, seja pelas estatísticas (PACHECO et al., 2003:264, 265). A Ciência entra neste período como única fonte de conhecimento aplicado, Relações e configurações prático e teórico. Embasada primeiramente na teoria, entendia-se Ciência pela iniciativa do estudo. Estereótipo este, que se mantém até hoje nos personagens cientistas, como o Professor Pardal e o Franjinha, e Tíbio e Perônio, do infantil Capítulo 1 Castelo Rá Tim Bum, produzido pela TV Cultura. Diferentemente dos artistas, que receberam a missão de serem a “alma” da sociedade. Um papel oposto coube, em nossa sociedade, à arte e seus apreciadores. Como se fora veículo unicamente de uma intuição sensível, fica delegada ao processo artístico a função de expressão de uma subjetividade, que pode inclusive ser coletiva, e conseqüente fruição desta, compondo ambas uma experiência sensível que cria impressões, mas não explica fatos. O artista (e seu público, que completa sua obra) seria o criador em potencial de “outras” realidades, de realidades virtuais, paralelas, em que tempo e espaço se configuram sob leis próprias. Esta não deixa de ser uma especificidade da arte. Entretanto, os processos de criação artística supõem, também, a existência de uma metodologia, um pensamento estético que ordena forma e conteúdo, e até ajustes ao mercado (ou o desejo de confrontá-lo). Ainda que o 11 próprio campo da arte seja difícil de conceituar - o que gera uma interminável discussão sobre a validade de algum fato ser considerado “artístico’”- poder-se-ia sempre argumentar que a arte estrutura-se sobre uma linguagem - portanto requer códigos, canais e uma mensagem. Seja lá qual for o fato que uma comunidade considerar artístico, ele está inserido dentro de uma ordenação abstrata e racional de pensamento. Uma objetividade, enfim (PACHECO et al., 2003:265). Além disso, atualmente, entende-se Arte com um outro enfoque, muito mais abrangente. A começar pelo fato de que existem artes ‘novas’: é o caso da fotografia, que demorou para chegar a ser considerada uma Arte, diferentemente da pintura e da escultura, que fazem parte do cotidiano dos gregos e do império romano. Isso eqüivale a dizer que a Arte nunca ficou parada no tempo, porque nascem outras, aliadas à tecnologia. Muitas delas são reinventadas, como é o caso das regravações de filmes consagrados no cinema, e de edições reeditadas, caso de E.T. e de desenhos dos Estúdios Disney. Tudo isso remete a uma cultura mais completa e complexa, que vai desde Relações e configurações os primórdios dos desenhos nas cavernas, que ajudam hoje o homem a desvendar os mistérios da Pré-História (nesta época a Arte já ajudou a divulgar a Ciência, mesmo sem o conhecimento da escrita) às montagens teatrais de Richard Capítulo 1 Feynman, pai da nanotecnologia, nos dias atuais. Vai muito mais além, se considerarmos um conceito de Ciência e o relacionarmos à Arte: Arte também existe enrustida em qualquer ser humano, basta desenvolver (como acontece com o conhecimento popular, também há Arte que ninguém ensina, que nasce com o indivíduo pura e simplesmente). Toda criança desenha, antes mesmo de escrever. Segundo SILVA (2003:148) podemos chamar esta pluralidade da Arte de mais uma das atividades vitais do homem: 12 Pretendemos abordar nesta reflexão a conceituação de M. KAGAN, que entende a arte como uma duplicação da atividade vital real do ser humano; explica que existem na realidade social quatro atividades constituintes do sistema da vida humana: a transformadora (o trabalho), a cognitiva (o conhecimento obtido), o comunicacional (a comunicação entre os seres humanos) e a valorativa (as orientações de valores existentes entre os homens); tais relações acontecem tanto no nível prático como no espiritual. KAGAN entende a arte como sendo uma quinta atividade, na qual se combinam organicamente as demais; a arte é fruto do pensamento artístico e produto da imaginação artística, sendo uma forma de apropriação artística do mundo, que também pode ser denominada de criação artística (SILVA, 2003:147). Ao lado: Leonardo Da Vinci, 1506-07. Gioconda (Mona Lisa), Óleo sobre painel, 77 X 53 cm. Museu do Louvre, Paris Consideramos aqui que o conhecimento obtido é parte integrante do conceito de arte – no sentido cognitivo. Também destaca a parte espiritual do ser humano, presente nas demais definições. Este ponto de vista combina muito bem com a primazia da Arte, dela fazer parte tanto do trabalho – uma vez Abaixo: Eugène Delacroix, 1830. A Liberdade Guiando o Povo, Óleo sobre tela, 260 X 325 cm. Museu do Louvre, Paris Relações e configurações que existem profissionais que vivem dela, ao cognitivo – uma vez que também há produção de conhecimento na Arte, Capítulo 1 passando pela comunicacional e pela valorativa. Isso porque a Arte explica, mostra e ilustra a história, figuras e hábitos humanos, sonhos de uma sociedade e fatos que marcaram um povo. É o caso da “Gioconda” de Da Vinci, que representa a mulher do século XV, e o hábito por pintar as esposas de grandes comerciantes. Caso do quadro “A Liberdade Guiando o Povo”, de Eugène Delacroix, de 1830, que registra a vontade de um povo pelo fim da revolta parisiense do mesmo ano, ao colocar a Liberdade no centro do quadro, com a bandeira francesa nas mãos, representada por uma 13 mulher. Ou ainda Guernica, de Picasso, que retrata a devastação da Guerra Civil Espanhola, e a esperança de dias melhores, presentes na figura de uma pequena flor e de luz, vindo do alto. Impressionante como, através desses quadros, aprendese não só sobre História, mas sobre falhas humanas, e o que significava uma guerra. Mais impressionante ainda é o fato único de que a Arte consegue resumir tudo isso dentro dela. FISCHMANN (2003:62) complementa ao dizer que a “Arte é multiplicidade, Arte é criação, Arte é a grande possibilidade de expressões que brotam, que são múltiplas, que se elaboram, que são criadas, que trazem conceitos (como estes acima), que falam cores, objetos por tons de vozes, por cantos, por melodias, enfim, por muitas formas”. Importante destacar como a autora trata a Arte como sendo algo com vontade própria, que “fala”. Na verdade, isso é uma característica humana, que acaba sendo inserida no contexto artístico, tamanha a inter-relação entre a Arte e o ser Pablo Picasso, 1937. Guernica, Óleo sobre tela, 350 X 780 cm. Centro de Arte Rainha Sofia, Madri Relações e configurações humano. De qualquer modo, a expressão e a criatividade/capacidade estão presentes em todas as definições. Se considerarmos ainda a definição do AURÉLIO, como consta no início do texto, verificamos que a Arte também busca resultados, a Capítulo 1 própria palavra possui um signo de ser característica de “conseguir” fazer alguma coisa. A “arte” de viver, por exemplo. Se, inicialmente, o sentido prático permanece personificado na imagem da Ciência, o significado da Arte já possuía os estereótipos da Ciência dentro dela e vice-versa. Tudo parte, novamente, da História. Um exemplo é a época Renascentista. PACHECO et al. (2003:265, 266) garante que, se por um lado, os artistas renascentistas recorriam às ciências matemáticas, com o objetivo de projetar com precisão a imagem da figura humana, por outro, cientistas médicos aprendiam sua lição de anatomia com Mestre Rembrandt e seus quadros repletos de dissecações. O texto argumenta ainda 14 que, em tempos mais recentes, ao mesmo tempo em que existiam (e existem – comentário meu) os estereótipos, havia uma tendência a considerar, tanto a Arte quanto a Ciência, como processos criativos que alternam momentos de intuição e momentos de unanimidade. Assim como a noção de Arte como um processo ametódico foi questionada: Artistas como Stanislavsky, no teatro, ou Seurat, na pintura, por exemplo, difundiram a necessidade de um método para se exercer a prática artística. O encenador russo sistematizou as técnicas de seus atores para compor o método stanilavskiano de interpretação. Seurat, ao refletir sobre sua pintura pontilhista, declarou: Vêem poesia naquilo que eu fiz. Não, eu aplico meus métodos e isso é tudo. (PACHECO et al., 2003:266). Arte e Ciência fazem parte da cultura popular, do conhecimento adquirido, independente do método ou do modo como foi realizada. FISCHMANN, (2003:62) esclarece que o Brasil ainda está carente de conseguir enxergar, visualizar e reconhecer a diversidade cultural. Tal reconhecimento faz-se apenas por um exercício Relações e configurações muito forte, com a ajuda das diferentes disciplinas científicas, cada qual trazendo sua específica contribuição, cada qual permitindo um aprofundamento de conteúdos, 1 mundo que reconhece saberes de naturezas distintas, como os que são propriamente Capítulo um aprofundamento da visão daquela realidade. A autora diz que se trata de um universalizações. Um é o saber constituído à base do sofrimento, da conquista, da culturais e o que se produz de maneira sistemática e ordenada, buscando vida do dia-a-dia, e que tem um tipo de autoridade própria. O outro, um saber constituído dentro da metodologia reconhecida, em uma comunidade organizada que se autodenomina científica, com suas próprias autoridades e que tem outro tipo de natureza. Um não elimina o outro, são saberes que se completam porque estão na vida das pessoas de forma concomitante. 15 Exemplos podem ser observados aqui mesmo no Brasil, através do esforço de algumas comunidades indígenas em manter suas raízes e sua língua. E o esforço acaba sendo tão grande, que alguns conhecimentos dessas comunidades se incorporaram ao que temos hoje, no português, por exemplo. Palavras como abacaxi, jabuticaba, capim, mingau e socar derivam do Tupi Antigo. Ainda podemos destacar a cultura das tribos africanas, que se incorporou ao nosso país, trazendo, só para citar alguns, a capoeira e a feijoada – um dos pratos tradicionais brasileiros – à nossa cultura. Porém, todo este assunto seria para um outro trabalho. Ela diz ainda que a pluralidade cultural é o reconhecimento do ser humano como um valor, o ser humano que constrói, o ser humano que é capaz de acumular conhecimento, de criar referenciais, ainda que não esteja na escola. Isso explica o porque da Arte ser uma Ciência, mesmo que não metódica como o estereótipo insiste em afirmar. Arte cria referenciais, e Ciência acumula conhecimentos. As Relações e configurações duas são parte de uma cultura, também popular e histórica, em busca do saber: Capítulo 1 O arqueólogo Grahame Clarke afirma que as civilizações que deixaram de lado a diversidade intrínseca a elas, pereceram; afirma também que lutarmos pela diversidade é uma coisa tão importante que os ambientalistas já conquistaram, que é a luta pela bio-diversidade. Em nível global, a pluralidade cultural é uma condição para a sobrevivência da humanidade e ela é, sobretudo em nível local, uma condição para que a própria democracia se consolide. Teóricos da escola de Frankfurt trabalharam muito essa visão de como a diversidade e a pluralidade cultural acabam sendo a parte visível da democracia, e é por isso que devem ser valorizadas, respeitadas e preservadas. A Declaração de Minorias Religiosas, Nacionais, Étnicas Linguísticas e Culturais, da ONU, proclama que os grupos minoritários são a expressão objetiva e indiscutível da possibilidade do pluralismo político que guarda a democracia. FISCHMANN, (2003:62) Portanto, a Arte dos artistas democratiza a Ciência dos laboratórios, e a Ciência dos pesquisadores das Ciências Humanas. E mantém vivo o conhecimento, para que ele não fique preso somente a algumas cabeças. PACHECO et. al. 16 (2003:266) consideram, também, o fato de que atualmente é possível observar iniciativas cujo objetivo é conjugar Arte e Ciência (intenção deste trabalho). E que visa, acima de tudo, contribuir para uma compreensão global do mundo. A cooperação entre estes dois campos do conhecimento pode oferecer abordagens diferenciadas dos fenômenos, que se complementam. Garante que sobre este aspecto, Ferreira Gullar afirma que se a Ciência e a Filosofia pretendem a explicação do mundo, esse não é o propósito da música, da poesia ou da pintura. A Arte, abrindo mão das explicações, nos induz ao convívio com o mundo inexplicado, transformando sua estranheza em fascínio. A Ciência, seguindo os mesmos moldes, luta para fazer o mesmo. Deixar sua ‘cara’ de elemento químico para trás e apresentar-se diariamente como aliada da evolução. Não somente para os doutores nas universidades, mas para os índios nas tribos do Acre, no raciocínio (i)lógico das crianças, e nas cabeças dos Relações e configurações analfabetos. Isso porque, assim como qualquer elemento químico, a Ciência está em toda parte e poucas vezes se enxerga. A Arte está aí, para dar uma mãozinha. Capítulo 1 17 Imaginário Social da Ciência O Mito O mito do cientista e do artista tem se arrastado desde sempre e, sobretudo, a partir da fragmentação das duas áreas. A Ciência, como “verdade”, aquela que experimenta e prova. A Arte como expressão do ser humano, sem nenhum método. Hobsbawm (apud CALDAS 2004:31) explica que a desconfiança e o medo da Ciência eram alimentados por quatro sentimentos: o de que a Ciência era incompreensível; o de que suas conseqüências tanto práticas como morais eram imprevisíveis e provavelmente catastróficas [grifos meus]; o de que ela acentuava o desamparo do indivíduo, e solapava a autoridade. O autor ainda destaca o sentimento de que, na medida em que a Ciência interferia na ordem natural das coisas, era inerente e perigosa. Este mito parece perdurar até os nossos dias. Pesquisa realizada no final de 2002, na Argentina, Imaginário Social da Ciência e no começo de 2003 no Brasil, Espanha e Uruguai nas cidades de Buenos Aires, Campinas, Salamanca, Valladolid e Montevidéu destaca que 71% dos entrevistados brasileiros consideram-se pouco informados Capítulo 2 sobre ciência. Os altos números se mantém nos outros países: 80% na Argentina e 67% na Espanha. A única exceção fica por conta do Uruguai, onde metade se considera bastante informada, e outros 40% se considera pouco informada (VOGT, POLINO, 2003). Considerando que as pessoas geralmente se informam por assuntos que gostam, é bem razoável entender que o público em geral tem mais interesse em outros setores que não seja a Ciência. Se, a pessoa se considera pouco informada, é fato de que ela não entende muito sobre Ciência. Contraditoriamente, na mesma pesquisa, quando pergunta-se aos entrevistados quais das idéias expressam melhor a Ciência, as mais votadas pelo Brasil e pelos outros países foram “grandes descobertas”, “avanço técnico” e “melhoria da vida humana”. A frase “idéias que poucos entendem” foi a menos votada. 18 No entanto, pelo primeiro argumento ser mais embasado, é possível admitir que a Ciência continua incompreensível. Não totalmente, mas continua. Porém, este mito tem tudo para morrer por terra. Na mesma pesquisa, 64,8% dos brasileiros discordam que o mundo da Ciência não pode ser compreendido pelas pessoas comuns. Em menor escala, todos os outros países tiveram a mesma opinião, com exceção da Argentina, que tem uma maioria esmagadora acreditando que a Ciência não pode ser entendida por leigos. Sobre as conseqüências catastróficas, o público tem uma posição cautelosa. Quando foi perguntado se o desenvolvimento da Ciência trazia problemas para a sociedade, 42,6% dos brasileiros concordaram e 52,5% discordaram da afirmação. Espanha e Uruguai, ao contrário, consideram que a Ciência traz problemas – 56% e 58% de concordância, respectivamente. Já a Argentina se encontra em empate técnico. É possível notar que há um medo de que a Ciência traga conhecimentos a serem utilizados para o malefício da sociedade. Àqueles que responderam afirmativamente a questão, perguntou-se quais seriam estes problemas. Houve muita dispersão na resposta, contudo, as mais citadas, na opinião dos brasileiros foram “os perigos de aplicar alguns conhecimentos”, “a concentração ainda maior de poder e riqueza”; “a utilização Imaginário Social da Ciência do conhecimento para a guerra” e “a perda de valores morais”. Observa-se que o medo na má utilização da Ciência é generalizado. Ainda há um temor de que as conseqüências da Ciência sejam imprevisíveis Capítulo 2 e beirem à catástrofe. Sobre o desamparo aos indivíduos, parece que houve uma modificação considerável dos antigos valores. Em resposta à pergunta se a aplicação da Ciência e da tecnologia aumentaria as oportunidades de trabalho, 61,7% dos entrevistados brasileiros disseram que sim, enquanto que 37,7% não acreditavam que isso fosse possível. Se os brasileiros afirmam que a Ciência tem um potencial para colaborar com os problemas sociais, logicamente não acreditam que a Ciência possa, hoje, desamparar os indivíduos. E por último, a idéia de que a Ciência poderia solapar a autoridade parece não ter vingado. A pesquisa abordou a questão se o governo não deveria intervir no trabalho dos cientistas. Exatos 53,1% dos brasileiros concordaram. Na seqüência, indagados se a pesquisa científica não deve ser controlada 19 pelas empresas, 50,6% dos brasileiros também responderam que sim. Ambos os resultados mostram que os cientistas não possuem autonomia para decidir o quê e quando estudar, por exemplo. É fato que a autoridade não foi perdida para os cientistas, até mesmo a equipe que estruturou as perguntas tinha idéia disso. A Ciência é, portanto, uma ferramenta para os governantes, e uma evolução para a Educação. Podemos dizer que o mesmo acontece com a Arte. A Arte é considerada a linguagem da sensibilidade. Não há métodos. É pura e simplesmente a expressão humana, há abstrações que por diversas vezes o público não compreende. Principalmente no campo das Artes Plásticas. É aí que está o engano: Outro gênero importante da radicalização ocorreu em movimentos inspirados no cubismo ou no futurismo: no suprematismo de Maliévitch, que desembocou no quadrado branco sobre fundo branco; nas rigorosas composições ortogonais de Mondrian; nas abstrações de Kandinsky. Comum a todos eles, a exploração do jogo relacional de formas geométricas, linhas, e vazios. Em todas estas vertentes construtivas, e em outras gestadas na segunda metade do século, nota-se uma afinidade com o geometrismo algébrico-tensorial, que norteou teorias como a relatividade geral de Einstein, além de modelos espaço-temporais alternativos, por exemplo os de Cartan (geometrias de torção) e de Weyl (espaços com uma simetria adicional, denominada invariância conforme). (CAMPOS, 2003:23) Portanto, o mito de que Arte não pode - ou não é - uma ciência, e que não auxilia no Imaginário Social da Ciência desenvolvimento do saber é negado inclusive pela História. Algumas vezes, a Arte chega a escrever um pouco da História: Capítulo 2 Talvez outro exemplo, esse no sentido inverso, de como a arte contribui para o imaginário histórico do país: Pedro Américo pinta em Florença, Itália, Independência ou Morte, em 1888, sob encomenda do Governo Imperial de D. Pedro II; o resultado é uma pintura histórica, seguindo os padrões acadêmicos, com elementos saídos da imaginação fértil do artista: a casa ao fundo e, provavelmente, o carreiro e o carro de boi, nunca existiram. Assim, em anos recentes, a Casa do Grito foi construída dando veracidade à imagem que se encontra difundida em vários suportes: livros didáticos, tapeçaria, selos, papel-moeda. (SILVA, 2003:150) Este é um dos quadros brasileiros mais famosos, e , como disse o autor, modificou toda uma História por conta da imaginação de um pintor. Claro que a pintura do artista é romanceada, mesmo porque ela foi encomendada pelo governo. Mas, de qualquer forma, serviu para trazer a sociedade um sentimento nacionalista ainda inexistente nos cidadãos da nova terra. É um exemplo de como a História pode ser construída partindo de um sonho. É raro, mas acontece. 20 Digamos que é como a língua portuguesa: após anos de uso, algumas “invenções” são incorporadas à língua. Temos, deste modo, que tomar cuidado com a capacidade imaginativa. É bem possível que após anos de mito, ele realmente se torne real. E sem possibilidades de mudanças, a tendência é que estacionemos no tempo. O desenvolvimento está, justamente, na inovação. Enquanto houver divergências de idéias, haverá novos conhecimentos. A mídia, por sua vez, reforça alguns mitos, ao invés de esclarecê-los: Enquanto os avanços da ciência e suas aplicações forem veiculados pela mídia apenas de forma espetacular e descontextualizada, os jornalistas estarão contribuindo para a formação de um imaginário social mitificado da ciência (CALDAS, 2003:74) No mundo midiático, digital, instantâneo, a informação é cada vez mais estilizada, pasteurizada e os fatos recortados da realidade sem nexo, sem contexto, sem passado, sem história, sem memória, numa destruição clara da temporalidade, como se o mundo fosse um eterno videoclip. Dessa forma, mais confundem do que esclarecem e mais deformam do que formam. A indústria cultural ou da consciência precisa ser desvelada na sala de aula, onde é necessário entender que a mídia condiciona não pelo que informa, mas como informa. (CALDAS, 1982:140) É necessário elucidar o mito, frisar que a Ciência é tanto a Física como a História. Tanto a Imaginário Social da Ciência Biologia como a Matemática. Tanto a Química como a Antropologia. E para isso, é necessário educar. Analfabetismo científico Capítulo 2 O analfabetismo científico é um problema crônico. Crônico pelo fato de que não adianta tentar resolvê-lo do dia para a noite, antes dele é necessário resolver um problema ainda mais antigo – o da Educação. Infelizmente, uma grande parte da população só tem acesso a informações científicas na chamada educação formal – na escola. E quando tem. Pesquisa do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais, o Inep, do Ministério da Educação, divulgada em 15/10/2003 pelo atual ministro Cristovam Buarque, mostra que apenas 20% das escolas brasileiras tinham algum tipo de local que poderia ser chamado de laboratório para ensino das Ciências. 21 Só para efeito de comparação, segundo o IBGE, em 2000, o Brasil contava com quase 170 milhões de brasileiros. A Folha de S. Paulo, que segundo ela mesma é o jornal que mais vende no país, possuiu em 2003 uma tiragem de 430 mil exemplares aos domingos, quando circula a editoria de Ciência. É nítido, portanto, o pouco acesso aos textos científicos. O que talvez chega um pouco mais à população em geral são as matérias da Rede Globo, que, por ser canal de TV aberta, tem um público mais abrangente. Mas é fato que o Jornalismo Científico não é uma das prioridades da Globo, a começar pelos horários que são veiculados programas como Globo Educação, Globo Ciência e Globo Ecologia (às 06h20, às 06h40 e às 07h10, no sábado, respectivamente). Nota-se ainda, pela duração dos programas, que a temática não merece maiores investimentos. A não ser os canais de TV por assinatura, como o Canal Futura, do mesmo grupo. Definitivamente, isso não transparece uma preocupação da mídia por uma política de popularização científica, muito menos uma tentativa de minimizar o problema do analfabetismo científico. Mesmo o governo tentando popularizar a Ciência por meio da criação recente de um departamento Imaginário Social da Ciência específico para o setor no Ministério da Ciência e da Tecnologia, o Departamento de Difusão e Popularização da Ciência e Tecnologia, é imprescindível que a população saiba o mínimo das Ciências básicas para receber estes benefícios. Em 2000, haviam, segundo o MEC, 13,6% de analfabetos, de uma população Capítulo 2 de cerca de 120 milhões de brasileiros. Considerando os funcionais, este número pula para mais de 40%. De que adianta popularizar a Ciência se 30 milhões de brasileiros – estes 40% - não têm capacidade de ler um texto e escrever sinteticamente o que entendeu? Se numa peça de teatro for explicada a Teoria da Relatividade, como há possibilidades de um indivíduo nestas condições compreender o que está sendo transmitido a ele? Praticamente nenhuma. Vale o esforço dos artistas, jornalistas e professores, numa missão, quem sabe, utópica e desacreditada. Incentivar por meio da educação informal a compreensão do conhecimento científico. E dá-lhe divulgação! 22 Criatividade na Divulgação A divulgação tem sido realizada de forma tão massificada, que é bem plausível que tenha sido criada uma aversão do público a tudo o que vem dos especialistas. É a tal da discordância de opiniões – quase que sempre – do público e da crítica. O “eleitorado” prefere o filme que a crítica não gostou; a peça que a crítica não assistiu; o quadro que não foi exposto; o artista que a classe mais odeia. Com o jornalista não é diferente. É nessa hora que entra a Arte. O público não teve a chance de ter aversão à Arte, a Arte ainda não foi plenamente utilizada. E vai ser meio improvável que esta aversão aconteça. A Arte tem uma gama tão imensa de atividades diversificadas, que se uma enjoa, a outra toma o lugar, até o público pedir pela primeira novamente. Mesmo porque as pessoas possuem gostos diferentes, e a Arte tem muito mais possibilidades de satisfazer o público do que algumas outras áreas mais específicas. É importante salientar que a Arte, assim como o Jornalismo - não vamos nos iludir, também é contada a partir de um ponto de vista, quando são selecionados e enfatizados alguns fatos em detrimento de outros. (vide experiência Imaginário Social da Ciência da peça “E Agora Sr. Feynman?”, no capítulo 4, na qual fatos da vida do cientista no Brasil foram excluídos da versão teatral americana). Como nada está fora do alcance da subjetividade, a Arte não faz exceção à regra. Porém, é mais Capítulo 2 uma ferramenta na divulgação científica. E bastante criativa. Façamos um raciocínio lógico: a divulgação jornalística atende aos interessados em ler (jornais e revistas), em ver (a TV) e em ouvir (rádio). A internet – como é a mistura de todos estes meios de comunicação – mantém todos estes interessados. Passemos agora para a Arte. A divulgação científica através da Arte atende a todos os dançarinos, circenses, desenhistas, foliões, chargistas, pintores, escultores. E ainda atende os interessados em ler (literatura e poesia), em ver (teatro) e em ouvir (música). O cinema seria a internet das Artes – a mistura de todas elas – e portanto, atenderia aos mesmos interessados. Como se não bastasse, as Artes ainda interessam aos fotógrafos, por causa da fotografia artística, e portanto, aos repórteres 23 fotográficos também. A Arte ainda tem a ousadia de roubar público e os próprios profissionais do Jornalismo. Torna-se evidente o aumento de alcance de público. Outro fator interessante é o aspecto imortal da Arte na memória popular. Enquanto o jornal fica entulhado nas prateleiras, amarelando, desfazendo-se; as películas de cinema, quadros, - quando bem conservados, e ainda mais os espetáculos de teatro e dança, que podem ser remontados com outros atores permanecem praticamente “intactos”. Quantas matérias científicas ou históricas de jornal, rádio ou TV são recordadas? As que continuam na memória são devido à relevância do fato, como a morte de Getúlio Vargas, e não ao esforço e inovação da cobertura. Deve-se a educação formal. Como é de consenso, a população brasileira tem memória curta para os acontecimentos políticos, por exemplo. Se compararmos quantos filmes que venceram o Oscar que a população lembra, a competição torna-se impraticável. Nesta hora, podemos aproveitar o trunfo da Arte pelo bem da Ciência. A novidade chama a atenção – como aconteceu com o carro alegórico da dupla hélice de DNA da Escola de Samba Unidos da Tijuca, do Rio de Janeiro. Que ironia cruel – um dos princípios do jornalismo, a novidade, é o que está faltando à divulgação científica. Criatividade. Imaginário Social da Ciência A popularização do conhecimento Capítulo 2 Popularizar já começa pela divulgação. O jornal fala sobre a peça, o público lê, se interessa e vai assistí-la. Trabalho em conjunto faz com que o público saiba um pouco de Ciência lendo a matéria e um pouco mais assistindo à peça. Contudo, se considerarmos a definição de Cauê Matos, coordenador do Núcleo de Artes Cênicas da Estação Ciência da USP, tudo o que é Arte é Ciência. “Ciência é todo o conhecimento humano 1”. Por menos engajado que um espetáculo pareça, ele aborda, na pior das hipóteses, o dia-a-dia de uma família, o cotidiano de um escritório, a vida de uma empregada doméstica. E isso é conhecimento, 1 Entrevista concedida à autora em 18/08/2004, na Estação Ciência 24 segundo Matos. É o nosso modo de vida atual, que daqui a uns mil anos será de grande valia para historiadores, tamanha a diferença de como viverão no futuro. Será um documento histórico, como são os escritos de Homero hoje. Até mesmo a traição – tema comum das comédias, são reflexões das preocupações humanas, refletem uma natureza psicológica. Por isso, se levarmos em conta esta definição, raríssimas Artes não divulgariam Ciências. Todas popularizariam. Mas estamos diante de um fato ilusório: se nem os espetáculos voltados às Ciências – sejam Biológicas, Exatas ou Humanas – reconhecem o seu caráter lúdico, quem dirá peças de costumes. É fato que nada substitui a sede por conhecimento – a procura por novas pesquisas, novos livros. É importante retratarmos que a Arte tem um caráter de educação informal – não foi e não é feita, na sua maioria – com objetivos didáticos. O que não a impede de educar. Há, neste processo, uma linha muito tênue entre a educação da sala de aula, e a educação dos palcos, ou dos museus de Arte, por exemplo. O artista não se enxerga como formador de opinião e indivíduo, diferentemente do jornalista. Ambos não são educadores, mas os artistas se vêem muito mais com aquele estigma de que serve para sensibilizar ou divertir o público. Pelo menos é o que pareceu depois de uma série de entrevistas com artistas das Imaginário Social da Ciência mais diversas áreas. A função do artista é muito mais profunda do que sonha a vã filosofia deles. Uma dessas valiosas funções é a popularização da Ciência. Este trabalho traz inúmeras provas Capítulo 2 de iniciativas que, mesmo que não intencionais, dão noções científicas para o público geral. A discussão deste fenômeno tem crescido nos últimos meses, muito devido à Semana Nacional de Ciência e Tecnologia, criada pelo governo Lula, para ser comemorada todos os anos, de 18 a 24 de outubro. Com esta proposta, a popularização da Ciência deve crescer. No entanto, esta é uma expectativa a longo prazo. E vai depender, principalmente, de um investimento sistemático na educação formal, propriamente dita. Enquanto os analfabetos existirem, a popularização fica mais difícil. Não impossível, mas difícil. Um guia, em um museu pode explicar algum acontecimento histórico para um analfabeto – o que não podemos deixar de considerar como popularização. Mas, a linguagem formal continua sendo um importante meio da Ciência em particular. E essencial para a aventura científica. 25 Arte, Ciência e Educação A descoberta da Ciência no processo educativo Uma das maiores recompensas do meu trabalho tem sido aprender, tentando ensinar. E uma das maiores alegrias é quando escrevo por sugestão do leitor, o que não é raro, mesmo quando a pergunta está longe de minha imediata cogitação; isso me obriga a enveredar por um caminho novo, fazer meu aprendizado e transformálo depois em ensinamento. A divulgação envolve, para mim, dois dos maiores prazeres dessa vida: aprender e repartir. (In MASSARANI, 2002:77) A declaração acima é do médico e maior divulgador científico brasileiro, José Reis. É fato que, como ele, muitas pessoas aprendem sem a intenção de aprender, e isso a tornam pessoas mais bem informadas, e com uma formação sólida. A Educação está presente de diversas formas, e algumas vezes camuflada. Por isso, nem sempre se percebe a sua presença em determinadas ocasiões: A educação com reconhecimento oficial, oferecida nas escolas em cursos com níveis, graus, programas, currículos e diplomas, costuma ser chamada de educação formal. É uma instituição muito antiga, cuja origem está ligada ao desenvolvimento de nossa civilização e ao acervo de conhecimentos por ela gerados. (GASPAR, 2002:171) Arte,Ciência e Educação Esta educação milenar é reconhecida pelo governo e, por isso mesmo, pelos cidadãos. É milenar, 3 para comprar pão, as pessoas vão na escola para estudar. Óbvio que, em um ambiente onde se prolifera Capítulo tem todo um imaginário construído. É natural ser estigmatizada: assim como as pessoas vão na padaria única e exclusivamente do esforço individual de cada um. Aquele que não quer aprender pode ir todos conhecimento, a maioria das crianças aprenda. Mas como acontece em todas as demais áreas, depende os dias à escola, e nem por isso sairá de lá mais culto. Instituições como esta são importantes. Tanto que outras, com objetivos parecidos mantém-se colaborando na formação cultural da sociedade. É o caso de museus e centros de ciência, com o diferencial da experiência. Enquanto parte das escolas limita o ensino a muita teoria e pouca prática, os museus e centros partem da teoria e observação a experimentação, facilitando o exercício do raciocínio e da aprendizagem. 26 E assim como eles, outras instituições da sociedade tomaram o dever para si. Na educação informal, não há lugar, horários ou currículos. Os conhecimentos são partilhados em meio a uma interação sociocultural que tem, como única condição necessária e suficiente, existir quem saiba e quem queira ou precise saber. Nela, ensino e aprendizagem ocorrem espontaneamente, sem que, na maioria das vezes, os próprios participantes do processo deles tenham consciência. (GASPAR, 2002:173) É aqui que a Arte se encaixa. Tanto os artistas como o público não têm a noção que participam de um processo educativo. A educação informal abrange tantos lugares, pessoas, trabalhos, que não se faz idéia do processo didático ao qual se está exposto. Uma conversa com o avô sobre a formação da família é educação informal. Quantos avós não participaram da guerra, quantos pais não vivenciaram o Golpe de 64. Fatos históricos que se aprende na escola, através da educação formal. Ler a placa abaixo da estátua da Praça da República é educação informal. E tantas outras situações. Como diz GASPAR (In MASSARANI, 2002:173), essa educação também ocorre em espaços específicos como centros culturais, jardins botânicos, zoológicos, praças, feiras, estações de metrô. E por mais ínfima que possa parecer, “alguma coisa sempre fica”. Depende, novamente, de indivíduo para Arte,Ciência e Educação indivíduo. Se a criança tem gosto por Matemática, numa visita a um museu de Ciência, ela possivelmente vai se lembrar mais de tudo o que remeteu a Matemática. GASPAR ainda explica que o temor de que a aquisição de idéias errôneas poderia impedir a Capítulo 3 aquisição de idéias corretas se baseia na falsa concepção do “pacote cognitivo”, das idéias prontas e acabadas. Como é possível notar, por diversas vezes o cinema erra, a TV erra, os jornais erram. Primeiro, se o indivíduo tiver contato com idéias erradas, não significa que elas sejam mantidas por toda a eternidade. E segundo, que estes erros promovem a capacidade crítica do ser humano. Ao invés de se considerar preguiçosamente todas as informações veiculadas como “verdade absoluta”, os assuntos terão de ser pesquisados para comprovarem sua exatidão. O público vai ter que sair daquela posição cômoda, para confirmar as informações; verificar a veracidade delas; estudar diferentes ciências. Vale aqui uma outra observação de GASPAR: 27 E ambas, educação formal e informal, reforçam-se mutuamente. A mente humana não tem compartimentos estanques, guichês cognitivos que filtram ou validam conhecimentos em função da sua origem ou da forma pela qual eles são apresentados. Todo desafio e todo estímulo ao pensamento e à percepção enriquecem nossas estruturas cognitivas. (GASPAR, 2002:182) Tudo pelo bem do saber. As inteligências múltiplas A mudança do que é considerado saber, ou inteligência mudou em 1985. Howard Gardner, psicólogo da Universidade de Harvard - EUA, propôs uma teoria que modifica todo o âmbito e informações do que se considerava inteligência até então. O pesquisador afirma que todos os indivíduos ditos normais são capazes de exercer sete diferentes tipos de inteligências, e até certo ponto, independentes. Ele define inteligência como uma habilidade para resolver problemas ou criar produtos. Muito resumidamente, esclareceremos abaixo as inteligências identificadas por Gardner: • • Capítulo 3 • • • Lingüística: manifesta-se na sensibilidade para sons, ritmos e significados das palavras. É a habilidade para convencer, agradar, estimular ou transmitir idéias. Esta inteligência é exibida na sua maior intensidade pelos poetas. Musical: habilidade de apreciar, compor ou reproduzir música. Inclui reconhecimento de sons, temas musicais, ritmos e timbre. Lógico-matemática: sensibilidade para padrões, ordem e sistematização. É a habilidade para lidar com séries de raciocínios para reconhecer problemas e resolvê-los. Esta é a inteligência mais desenvolvida nos matemáticos e cientistas. Espacial: capacidade para perceber o mundo visual e espacial de forma precisa. É a habilidade para manipular formas ou objetos mentalmente, representar visual ou mentalmente. Esta é a inteligência mais apurada nos artistas plásticos, engenheiros e arquitetos. Cinestésica: refere-se a habilidade pra resolver problemas ou criar produtos utilizando o todo ou apenas parte do corpo. É a facilidade para usar coordenação, controle dos movimentos do corpo e na manipulação de objetos com destreza. kjxnanxixkasmxksmxsmxmsxmasçxasmxasxçlaçxmaxmasmxas Arte,Ciência e Educação 28 • • Interpessoal: habilidade para responder adequadamente a humores, temperamentos e motivações de outras pessoas. Está mais presente em psicoterapeutas, professores, políticos e vendedores. Intrapessoal: habilidade para reconhecer os próprios sentimentos, sonhos, idéias e desejos. É a capacidade de formular uma imagem precisa de si próprio e utiliza-la de modo adequado. Por esta inteligência ser a mais pessoal de todas, é somente observável através das outras inteligências. Todas essas inteligências vão se desenvolvendo até o indivíduo chegar à fase da adolescência e à fase adulta. Nesta época, a ocupação vocacional toma conta - o indivíduo adota um campo específico e realiza papéis que são significativos para a sua cultura. Gardner acredita que a Educação está muito voltada ao desenvolvimento exclusivo da linguagem e da lógica, em detrimento das demais inteligências. Crianças e adolescentes que possuem estas inteligências mais apuradas são beneficiadas. Ele sugere que as avaliações sejam realizadas de modo a avaliar as diferentes inteligências, e no seu convívio diário. Por exemplo, ao invés de analisar o desempenho de uma criança numa prova de vocabulário, o professor deveria se atentar como a criança Arte,Ciência e Educação conta uma história ou desenvolve um raciocínio. Gardner era contra a “educação padronizada”; a solução, segundo ele, seria tentar garantir que cada um recebesse a educação que favorecesse o seu Capítulo 3 potencial individual, que tivesse a possibilidade de escolher o que gostaria de estudar. Esta teoria explica o porquê de alguns serem gênios da música e péssimos em linguagem; ou outros serem excelentes matemáticos e negações em coordenação corporal. Se a Arte fosse utilizada no processo de aprendizagem, uma gama maior de crianças se identificaria com as respectivas inteligências das quais são mais desenvoltas. A Arte responderia pelas inteligências da lingüística – na poesia; musical, na música, claro; a lógico-matemática, no conteúdo que a Arte abordaria; a cinestésia, na dança e no circo; a interpessoal, no teatro – vide as comédias e a intrapessoal, que todas as Artes desenvolvem. Se houvesse um programa de uma arte por semana, que falasse sobre o tema aprendido em sala de aula por meio das diferentes linguagens da Arte, todas as crianças fixariam o mesmo conteúdo 29 por meio de atividades diversificadas. Nenhuma deixaria de ser atingida pelo conhecimento. A possibilidade de a criança ter dificuldades de aprendizado torna-se infinitamente menor. Porém, para que isso acontecesse, seria necessária uma reformulação na educação brasileira – professores qualificados, material didático de acordo com a programação do conteúdo a ser trabalhado e local adequado para as atividades. Como fazer isso, se no Brasil existem escolas que não possuem sequer carteiras para os alunos sentarem? Se em outras, traficantes de drogas fazem plantão nas portas? O problema pode ser catastrófico, mas não há quase nada que uma boa didática não consiga realizar. Uma boa parte das atividades artísticas podem ser realizadas no espaço físico que as escolas já possuem, e com pouco material didático. A criatividade, tão necessária na divulgação, pode ser a solução para os problemas educacionais. A Cultura Científica Arte,Ciência e Educação O linguísta e poeta Carlos Vogt, presidente da Fapesp e coordenador do curso de Jornalismo Científico do Labjor Unicamp, explica que o termo “cultura científica” engloba “alfabetização científica”, 3 a idéia do processo cultural, quer seja ele considerado do ponto de vista de sua produção, de sua Capítulo “popularização/vulgarização da ciência” e “percepção/compreensão pública da ciência”. E ainda contém divulgação na sociedade, como um todo, para o estabelecimento das relações críticas necessárias entre difusão entre pares ou na dinâmica social do ensino e da Educação, ou ainda do ponto de vista de sua o cidadão e os valores culturais, de seu tempo e de sua história. É um sentido amplo. A cultura científica abrange, não só os conceitos ligados à área de Educação, como a união da Ciência e da Arte e a parte de divulgação jornalística. São três vertentes importantes; o jornal divulga, a Educação aproveita o material – seja da reportagem ou do espetáculo cultural abordando a Ciência, a Ciência e a Arte unem-se novamente como nos velhos tempos da História. 30 Vogt é certeiro em afirmar que, com a divulgação científica, a Ciência participa mais ativamente do cotidiano das pessoas. Vale a pena destrinchar os significados, aproveitando o raciocínio de Vogt, em sua espiral de cultura científica: Quando se fala em cultura científica é preciso entender pelo menos três possibilidades de sentido que se oferecem pela própria estrutura lingüística da expressão: 1.Cultura da ciência Aqui é possível vislumbrar ainda duas alternativas semânticas: a)cultura gerada pela ciência b)cultura própria da ciência 2.Cultura pela ciência Duas alternativas também são possíveis: a)cultura por meio da ciência b)cultura a favor da ciência 3.Cultura para a ciência [grifos meus] Cabem, da mesma forma, duas possibilidades: a)cultura voltada para a produção da ciência b)cultura voltada para a socialização da ciência. Nesse último caso, teríamos em a) a difusão científica e a formação de pesquisadores e de novos cientistas e em b) parte do processo de educação não contido em a), como o que se dá, por exemplo, no ensino médio ou nos cursos de graduação e também nos museus (educação para a ciência), além da divulgação, responsável, mais amplamente, pela dinâmica cultural de apropriação da ciência e da tecnologia pela sociedade. (VOGT, 2003 1) Arte,Ciência e Educação É fato, e bastante perceptível, que a cultura científica engloba todo o trabalho da indústria cultural, Capítulo 3 da mídia, e do esforço dos museus e centros de Ciência. A espiral de Vogt dinamiza toda a tentativa de minimizar o analfabetismo científico, e todo o trabalho que há por trás dos órgãos de pesquisa. A mídia tem participação fundamental neste processo. Apesar da imprensa dar pouco espaço para as descobertas da Ciência, ela colabora e muito, quando informa sobre os eventos culturais, por exemplo. Divulga o trabalho de uma peça científica, de uma estréia de filme, da abertura de uma exposição de Artes. Indiretamente ajuda. E é uma ajuda freqüente em alguns casos. Outras Artes são 1 VOGT, Carlos. A espiral da cultura científica. Julho, 2003. Disponível em www.comciencia.br, na Seção Carta ao ao Leitor. 31 simplesmente ignoradas – mas isso não acontece somente com a Ciência, muitos fatos de política, economia, também são ignorados. Por isso, não podemos considerar como um fenômeno estritamente individual. São escolhas editoriais, e inerentes à política do veículo de comunicação. Já as escolas e museus de ciência são a alternativa para diminuir os problemas de uma educação deficiente. Carregam dentro delas boa parte do conhecimento do ensino fundamental e médio, e demonstram os princípios através de experiências fáceis e “visíveis”. A Estação Ciência, por exemplo, ampliou o atendimento até mesmo para o público infantil carente, que visitava o local freqüentemente, e que solicitava uma atenção diferenciada. Hoje, possui um projeto de inclusão digital para estas crianças, além do trabalho com exposições e experiências destinadas ao público das escolas. O atual presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), o físico e exeditor da revista Ciência Hoje, Ênnio Candotti, argumenta que esta ampliação deve ser ainda maior: Centros de ciências humanas [grifo meu] e naturais que, eu defendo, devem ser abertos às artes plásticas, ao teatro, à dança e à música. Acredito que somente assim a educação em ciências encontrará ambiente propício para florecer. (...) Creio que devemos dar maior atenção à cultura, às condições, aos hábitos, aos jogos, às histórias e às tradições locais quando ensinamos ciências. (CANDOTTI, 2002:23) Arte,Ciência e Educação Esta talvez seja a chave da germinação da cultura científica. Capítulo 3 32 Fórmas Múltiplas de Arte Este capítulo é um mapeamento geral dedicado a algumas iniciativas de popularização da Ciência através da Arte. Umas propositais, outras pela obra do acaso. Mas o fato é que, de uma maneira ou de outra, o público aprende algo novo ou consolida o conhecimento adquirido nas escolas ou nos meios de comunicação. Lembra não apenas por conta do conteúdo, mas pela forma e linguagem como é apresentado. Existem casos em que a Arte, aparentemente, não acrescenta Ciência ao público. Mas não é o que ocorre. Pelo contrário. Este trabalho procura demonstrar que esta perspectiva é só uma impressão, como a de ótica. Tudo o que é realmente popularizado acaba fazendo parte do imaginário popular e da formação do público de modo geral: estudantes, pais, professores, idosos e crianças. E por meio da Fórmulas Múltiplas de Arte sensibilidade humana. E nada melhor do que utilizar a metáfora das sete Artes 4 • Na primeira das artes – no ritmo da Dança; • Na segunda arte, na representação do Teatro; Capítulo para nortear nosso passeio pela “arte científica”: • Na terceira arte, na melodia da Música; • Na quarta arte, nas páginas da Literatura; • Na quinta arte nas cores da Pintura; e na sexta arte nas formas da Escultura, reconhecidas pelas Artes Plásticas; • Na sétima arte; a única nascida no século XX – na luz, câmera e ação do Cinema; 33 • E em tantas outras que primam pela beleza: nas rimas da Poesia, nas linhas críticas da Charge, os nas tiras dos Quadrinhos, no picadeiro do Circo e no balanço do Carnaval. Em cada final de tópico há um box com os conteúdos apresentados e apreendidos pela manifestação artística em questão. Há fios que ligam temas às fotos ou boxes com informações. Estes fios só ocorrem quando os temas são citados na mesma página. Se a figura não possui o fio, significa que a informação já foi citada na página anterior, é título do tópico ou serve apenas para ilustrar o texto. Acerte o foco. Prepare a lente, vamos mergulhar no mundo da Ciência, a começar pelo: Ritmo da Dança A solução da Ciência Arquivo/ Lúmini Fórmulas Múltiplas de Arte Até mesmo a linguagem do corpo – já retrata pelo estudo das proporções de Da Vinci - sabe falar sobre Ciência. A dança, embora não muito difundida Capítulo 4 como manifestação artística de divulgação científica, possui representações que aliam pesquisas, informações e movimentos nas coreografias. Um destes grupos é o Lúmini, do Rio de Janeiro. A Cia carioca nasceu em 1994, como resultado das pesquisas iniciadas no Núcleo de Dança da UERJ – Universidade do Estado do Rio de Janeiro. O trabalho da Lúmini é um tanto surpreendente. Em alguns determinados momentos, todos os bailarinos dançam submersos à total escuridão. No entanto, a equipe teve problemas com a falta de equilíbrio, principalmente nas seqüências de movimentos com giros, 34 pegadas, elevações de pernas. Essas dificuldades, porém, variava m sensivelmente de indivíduo para indivíduo. Ao invés de desistir da empreitada, Arquivo/Lúmini o grupo aceitou o desafio da pesquisa. A falta de equilíbrio foi solucionada quando o grupo se deparou com informações científicas sobre as condições de equilíbrio humano: O homem se equilibra devido a um trabalho conjunto da audição, visão e cérebro. Se dois destes órgãos estiverem deficientes no seu funcionamento, o indivíduo cai. O que implica em que se um destes órgãos estiverem bem, o indivíduo consegue se equilibrar. Como o Lúmini não poderia contar com a visão, porque dançam no escuro, a música teve um papel ainda mais importante na elaboração das coreografias. Esta é uma pequena amostra de muitas outras constatações e aprendizados Fórmulas Múltiplas de Arte do grupo com relação ao corpo humano, e os mais variantes movimentos. A grupo, antes de demonstrar as técnicas para o público, melhorou o seu desempenho coreográfico graças à Ciência. O Lúmini ainda estuda materiais diferenciados (química) , iluminação (aqui entra a ótica física), além de conhecimentos da Capítulo 4 Arquivo/Lúmini Biologia e Educação Física, para o corpo humano. Os ensaios possuem, além do balé, ginástica olímpica e acrobacia, porque pelas pesquisas, este tipo de trabalho melhora o tempo de reação do indivíduo. No escuro, quanto maior for a rapidez do reflexo, mais perfeito é o movimento. Sem mencionar as pesquisas com cenário, figurinos, adereços que colaboram na formação de ilusões de ótica, por exemplo. Ainda há uma infinidade de pesquisas da Cia. E depois de todo este estudo, o público compartilha delas através dos efeitos. Os espetáculos refletem a Ciência. Num deles, realizado no segundo semestre do ano passado, “Ecos”, a coreografia aborda características do brasileiro, 35 nação, mistura de raças, natureza, lendas, histórias, folclores, músicas e elementos da fauna e da flora do nosso país. Outro deles, “Eclipse”, trabalha com a ilusão e ótica do encontro dos dois astros, sol e lua. O objetivo da Cia é de sempre aperfeiçoar a técnica e, além de conquistar admiradores da Arte e da dança contemporânea brasileira, difundir o trabalho para um público não habituado a freqüentar espetáculos de dança. Para isso, o Lúmini possui dois projetos: um social, que oferece curso de dança para crianças de comunidades carentes entre 8 e 12 anos. O outro, merece destaque pelo caráter lúdico: o projeto Luminar faz dez apresentações do primeiro espetáculo do grupo, “Matéria”, para estudantes da rede pública, com palestras e oficinas e divulga resultados das pesquisas sobre os conceitos físicos, químicos, biológicos e motores. Ótima sugestão daqueles que popularizam a Ciência com a sensibilidade da dança, e que escolheram as crianças, que formarão as próximas Conhecimento adquirido: belezas do Brasil – fauna, flora, lendas, histórias, folclores, equilíbrio do corpo humano, funcionamento do olho, ilusões de ótica, estudo na química para o desenvolvimento de novos materiais que agreguem ao trabalho Fórmulas Múltiplas de Arte gerações, unindo ambos conhecimentos humanos. Outros projetos Capítulo 4 Na cidade de São Paulo, a Estação Ciência da USP também começou um trabalho voltado para a dança com o Núcleo de Artes Cênicas. Cauê Matos, coordenador do Núcleo, dirige o único espetáculo da linha, do grupo Tecnopathos, que liga dança, Ciência e tecnologia. “Gestação” fala sobre a fecundidade. As atrizes-bailarinas utilizam elementos de dança contemporânea, e interagem com imagens tridimencionais. Matos explica como ensinar Ciência pela expressão corporal: “A imagem também é muito poderosa. Mas eu digo a imagem do 36 próprio bailarino. Ele criando no movimento, determinadas imagens. Isso também já tem a compreensão do público para aquilo 1” A receptividade tem sido boa, segundo Matos. Agora o espetáculo está sendo reestruturado. Devido ao bom andamento dos trabalhos, o grupo já pensa em realizar um outro projeto, desta vez sobre a floresta amazônica, aos mesmos moldes de “Gestação”. Vem mais ciência por aí. Conhecimento adquirido: desenvolvimento da espécie humana, fecundidade Na representação do Teatro Ato I: Palma e Einstein Fórmulas Múltiplas de Arte O teatro tem uma participação considerável na popularização da Ciência pelo mundo afora. No Brasil, esse processo tem se multiplicado recentemente, com o aperfeiçoamento de atores e cientistas no denominado teatro científico. Atualmente existem grupos em várias cidades, como no Rio de Janeiro, com o grupo de teatro da Fiocruz, o Ciência em Cena, e o da UFRJ, e aqui em São Paulo, Capítulo 4 caso da Estação Ciência com o Cia Fábula da Fíbula e o Arte Ciência no Palco, entre outros tantos. De um modo geral, o teatro alcança um número grande de pessoas, e muito se deve ao esforço desses profissionais. O monólogo “Einstein”, estreado em 1998 por Carlos Palma – criador de um dos grupos pioneiros na arte teatral aliada ao uso sistemático de divulgação científica, o Arte Ciência no Palco – já conta com um alcance de público em torno de 250 mil pessoas, com uma vida 1 Entrevista concedida à autora em 18/08/2004, na Estação Ciência Albert Einstein (1879-1955): físico alemão, formulou a teoria da relatividade. Foi professor da Universidade de Zurique - Suíça e pesquisador do Instituto de Física Kaiser Guilherme, em Berlim Alemanha. Recebeu o Prêmio Nobel de Física em 1921. Suas teorias colaboraram para a contrução da primeira bomba atômica 37 ativa de seis anos. Os do Rio, e o da Estação Ciência, claro, estando ligados às Arquivo/Arte Ciência no Palco instituições que buscam a educação e cultura científica, abriram o leque para as artes e se renderam ao poder do teatro. O grupo de Palma nasceu de uma experiência bem sucedida de “Einstein”, e que acabou por ser responsável pela criação do Arte Ciência no Palco. Neste momento, havia um cenário favorável para o surgimento do projeto - poucos atores eram direcionados exclusivamente para a “arte científica”; e menos ainda voltados às Ciências Naturais. As pessoas não estavam acostumadas a assistir espetáculos sobre pesquisas e teorias de Física e Química, nem os patrocinadores investiam em projetos desta linha. Poucas são as experiências como na décade de 70, no Rio de Janeiro, quando o ator Paulo Autran encenou “Galileu”. Num levantamento comparativo de público do Teatro Municipal de Santo André - SP, das peças “E Agora Sr Feynman?” - que se apresentou nos dias 21 e 22 de agosto de 2004 (sábado e domingo) -, “Einstein” - no dia 31 de agosto em Fórmulas Múltiplas de Arte duas sessões – às 15h e às 20h de uma terça-feira -, e “A babá” - uma comédia apresentada nos dias 4 e 5 de setembro, também sábado e domingo -, o público Capítulo 4 pagante foi, respectivamente 132, 197 e 410, num teatro com capacidade para 475 pessoas. Ou seja, a comédia teve um público muito superior às outras peças. Temos que considerar, primeiramente, que o público que assiste uma comédia é, normalmente, diferenciado daquele que procura uma peça de cunho científico. Outra coisa importante é que a maioria do público de peças científicas se encontra em escolas, seja de rede pública ou particular. O trabalho de divulgação fica por conta da equipe do grupo, que precisa fazer o convite diretamente aos professores de ciências. Ao contrário das comédias, que são abertas para um público mais variado. Considerando os números, “Einstein” teve um desempenho 38 mais representativo do que “Feynman” considerando a simples contagem de público, justamente por ter se apresentado numa terça-feira, dia em que muitos trabalham, inclusive à noite. Isso também pode ter acontecido por Einstein ser mais conhecido, o que não ocorre com Feynman. Numa pesquisa aleatória realizada com 17 pessoas da platéia, apenas uma conhecia Feynman e havia ido ao teatro consciente do que iria encontrar. As outras pessoas foram assistir por incentivo de cursos ou de parentes e amigos. Além disso, as peças que possuem atores (principalmente globais) que freqüentam a mídia levam muitos mais público aos teatros por conta da exposição nesses meios de comunicação. Sonia Varuzza, responsável pela programação do Teatro Municipal de Santo André, garante que ter uma carreira calcada na televisão lota o teatro, mas a peça sem qualidade não dura. Cheguei a trazer para Santo André “Diário de um Louco” com Diogo Vilela que era um super drama, trouxe “Pérola” que juntava drama com comédia, ambas maravilhosas e com casa cheia. Trouxe “Vida Privada” com Antônio Fagundes (a peça estreou aqui) e era sofrível, mas o público lotou igualmente o teatro porque era com o Fagundes. Mas saíram falando mal do espetáculo que, aliás, não teve vida longa. (VARUZZA, 2004 2) Capítulo 4 Fórmulas Múltiplas de Arte A divulgação boca-a-boca – metodologia freqüente responsável por divulgar as apresentações de grupos como o Arte e Ciência no Palco- demora muito mais para obter resultados. Um outro agravante é o valor do ingresso. Mesmo sendo mais barato que as peças comerciais, que giram em torno de R$ 30 a 40, o custo para assistir as peças do grupo de Palma é de R$ 20 e R$ 10. Não são todos os estudantes que possuem este valor no final do mês para lazer; ou poucos são aqueles que dão prioridade para assistir uma peça científica. Preferem gastar o 2 Entrevista concedida à autora em 09/09/2004 por e-mail 39 valor indo ao cinema assistir a última saga de Senhor dos Anéis ou ir a um barzinho. O Arte Ciência no Palco, no entanto, para minimizar este processo, faz apresentações em escolas quando solicitados por preços mais acessíveis, tanto nas de ensino médio como em universidades. Além disso, o grupo tenta primar pela freqüência: a idéia é deixar todos os espetáculos em repertório, ou seja, continuar apresentando, não “aposentá-los”. Inicialmente, porque o público terá sempre chance de ver e rever, independente de quando tomou conhecimento do trabalho do grupo. Não limitaria, assim, a mensagem somente àqueles que conheceram o trabalho dos atores quando iniciaram os projetos, e desse modo colaboram para popularizar o conhecimento. No entanto, algumas peças não tiveram tanta sorte. É o caso de “Quebrando Códigos”, que se tornou inviável devido ao tamanho do elenco e complexidade técnica e cênica. Depois dessa experiência, o grupo decidiu investir em montagens que possuíam certa mobilidade; poucos atores, cenários mais fáceis; o que ajuda Fórmulas Múltiplas de Arte na produção e na viabilização para que mais pessoas possam assistir às peças, sem cair com a qualidade do produto final. Capítulo 4 Tudo isso tem sido possível com apoio de empresas ligadas a amigos, ou pessoas que conhecem o projeto e que colaboram independentemente das leis de patrocínio. Do governo ou das leis vigentes não há qualquer ajuda, apesar da propelada e recente procupação do governo com a divulgação científica. Algumas vezes o setor público cede os teatros para as apresentações, contudo, as produções são todas por conta do grupo. Apesar disso, o Arte Ciência no Palco acredita que tem atingido seus objetivos. A história das Artes Cênicas e a tentativa de popularização científica nesta área não são muito antigas no Brasil. O aparecimento de grupos voltados a Ciência 40 teve um boom mais especificamente no final dos anos 90, segundo Palma. O Arte Ciência se formou em 1999, o da Casa da Ciência no Rio em agosto do mesmo ano e o da Estação Ciência em 2000. Nada planejado: Nós somos, na verdade, o começo desse movimento no Brasil. Então, a gente começou o “Einstein” em 98, mas o projeto foi formatado, sem saber que existia essas coisas acontecendo. Isso foi um achado mesmo, de uma conclusão quando eu observava as pessoas ao redor. E um dia eu fiquei pensando: “Mas se tem o ‘Einstein’, devem ter outras. E é tão legal falar dessas coisas, eu vou continuar falando isso”. Foi assim que foi decidido o projeto. Agora, hoje, depois de todos estes grupos acontecendo de teatro, a gente acontecendo, eu assisto as peças deles, que eu começo a ver que existe distinções, existem caminhos dentro do próprio segmento de Arte e Ciência, no teatro. (PALMA, 2004 3) O reconhecimento de seu trabalho não tardou. Em 1998, Palma recebeu o Prêmio Mambembe de melhor ator pelo espetáculo “Einstein”. Hoje, a peça continua sendo apresentada por todo o Brasil. Uns dias antes da entrevista, ele estava em Belém. O sucesso da peça, o diretor Sylvio Zilber credita, principalmente, à Fórmulas Múltiplas de Arte interpretação de Palma (“Um Einstein mal interpretado resultaria em um espetáculo “comum”, sem atrativos maiores 4"). Mas esta não é a única explicação. Os outros 4 - A personagem histórica; - A simplicidade da montagem; Capítulo fatores, na opinião do diretor são: - A “simplificação” da explicação da Teoria da Relatividade; - A dramaturgia bem construída pelo autor; e - A atualidade do tema. (“Vivemos uma era de grandes inovações, na qual Einstein é um paradigma 5”. Sylvio Zilber) 3 Entrevista concedida à autora em 31/08/2004, no Teatro Municipal de Santo André 4e5 Entrevista concedida à autora em 28/09/2004, por e-mail 41 Vendo os resultados, nem parece que o texto chegou até o Palma, e não o inverso. Pois é. Um pouco antes de chegar o Einstein, eu tinha pedido um tempo para mim mesmo do teatro. E fiquei cinco anos ausente dos palcos. Até que exatamente por causa do trabalho de publicidade que eu tinha, de um cliente, fui até Santiago do Chile e lá assisti a peça Einstein. Eu parei de fazer teatro em 92, fui ao Chile em 95 e somente em 97, depois de dois anos de ter visto “Einstein”, que eu mais a minha sócia Adriana, a gente comprou os direitos dessa peça para ser representada. Confesso que não imaginava fazer o Einstein, a gente imaginou convidar um ator mais ou menos na idade aproximada [O Einstein da peça tem 70 anos], e bom ator, conhecido, etc, porque a gente acreditava que a peça fosse ter muito interesse por estar falando de Ciência. Daí o negócio digno de fazer essa peça, mas com um outro ator. Mas aí, numa circunstância bastante inusitada, num momento que estávamos falando com o autor, que é canadense, ele queria saber quem era o ator. Então a gente com medo de dizer quem era o ator que nós não tínhamos consultado, a Adriana que estava do meu lado falou ‘não, você pode fazer, eu te conheço’. E aí falou meu nome para o autor, ele pediu o currículo, e aí a coisa começou a acontecer. (PALMA, 2004 6) Imagine se a situação, inusitada, não parece um ato de um espetáculo: Fórmulas Múltiplas de Arte Cena II (depois da infância e adolescência do ator): Einstein e a Ciência escolhem Palma Capítulo 4 Luzes se acendem Entra Palma, senta em um dos lugares do teatro em Santiago do Chile Começa música – dá idéia do início do espetáculo O ator em cena bate na mesa duas vezes. Explica uma teoria de Einstein Aumenta luz no rosto de Palma e no ator em cena. Ao redor tudo se escurece Entra outra música Palma sai do teatro. Iluminação vai e volta, dando idéia de passagem de tempo. 6 Entrevista concedida à autora em 31/08/2004, no Teatro Municipal de Santo André 42 Palma se reencontra com o autor, que lhe oferece o personagem Aparece Palma no tablado, batendo a mão na mesa ... Voltando à peça original... O texto fala principalmente da vida de Einstein, e das teorias de uma forma bastante simples, bem acessível. A Teoria da Relatividade é explicada utilizando-se de uma metáfora de dois trens em movimento. Metade da platéia dentro de um deles e Einstein em outro, vindo em pistas diferentes e em sentidos opostos. E uma plataforma de trem, enquanto a outra metade da platéia supostamente aguardava a chegada dos trens embaixo de chuva. Tudo isso para explicar que, quando dois raios caem em pontos diferentes ao mesmo tempo, as pessoas do trem acharão que um caiu antes do outro. Einstein discordará, achando que foi o inverso. E as pessoas na plataforma concordarão que caíram juntos. Vale citar o que ‘Einstein’ comenta na peça: “E todos estarão certos. A única verdade objetiva do Universo é que ela é constituída pela combinação de todos os pontos de Fórmulas Múltiplas de Arte vista possíveis”. Depende do ponto de vista do observador. Esse é só um exemplo de como uma teoria de Física foi adaptada para um Capítulo 4 entendimento comum. Segundo Palma, esta é uma metáfora do próprio Einstein, presente no livro em que defende a Teoria da Relatividade. Palma acredita que o importante é o princípio, e que realmente é difícil achar alguém que tenha lido o livro e que já saiba sobre a metáfora dos trens. Uma outra teoria de Einstein explicada na peça é quando o cientista altera o princípio da gravidade de Newton. Com uma toalha de mesa, uma maça e um limão, Palma-Einstein pede a ajuda de membros da platéia e explica que os planetas giram ao redor do Sol porque o Sol é uma massa que deformou o Universo, deixando-o curvo, e que criou um campo ao seu redor, e por causa deste fenômeno, todo o sistema planetário passa a girar em torno dele. 43 Vale lembrar que todo o texto da peça é do próprio Einstein. Palma explica que o autor simplesmente editou o que havia de Einstein nos livros e em biografias. A peça é, portanto, inteiramente informativa. Até mesmo a história de vida que conduz a peça é constituída de fatos reais, como quando Einstein foi convidado a ser presidente de Israel, ou quando segura o violino nos braços. O público está diante de um ‘livro interativo’, que opina, informa, declara e explica a vida de Einstein, através do teatro. Um dos fatores que colabora para a ‘veracidade’ da peça é a caracterização do personagem. No início, o cabelo descolorido, a barba e o bigode eram do próprio Palma. Depois, o ator passou a usar peruca e outros acessórios. Mesmo assim, a caracterização é muito fiel; parece mesmo o Einstein da fotografia, aquele com a língua para fora e cabelos desgrenhados. Isso ajuda o público a acreditar que o personagem realmente se encontra lá, personificado. E reforça a imagem que o mundo tem do Einstein (Palma fez questão de mostrar a língua no final do espetáculo). Fórmulas Múltiplas de Arte O ator observa que essa caracterização faz com que o público ligue a imagem do cientista, com o ator que está no palco. É como se aquela figura que existiu tenha renascido das cinzas. Facilita para o ator criar credibilidade diante do público. Capítulo 4 Afinal, de nada adiantaria um ator simplesmente falar do personagem, seria como conversar com o vizinho sobre as suas impressões do cientista. Mas, se o ator está bem caracterizado, a chance de que o público acredite que o Einstein esteja desobedecendo as leis do tempo aumenta. Palma diz que o público vai ao teatro para ser iludido. E que sabe disso. Entretanto, somente os bons trabalhos conseguem fazer com que o espectador retire os pés da Terra, por alguns momentos. “O Teatro é a casa das ilusões 7”, resume. 7 Entrevista concedida à autora em 31/08/2004, no Teatro Municipal de Santo André 44 Porém, parece que não é só o público que cria uma identidade com o personagem e se sente conversando com ele. Palma tem uma relação com Einstein muito próxima. Hoje conhece bem a vida do cientista, por causa do espetáculo. Nos debates que algumas vezes realizam depois da peça, perguntas sobre a vida de Einstein são sempre respondidas. A vida dele basicamente eu sei muito bem porque eu li, continuo lendo e vendo o que sai de novo e tal. Tenho isso fresco na memória. Agora, às vezes, quando entra questões mais científicas eu peço ajuda para os universitários [pede para que os professores respondam alguma pergunta muito técnica]. (PALMA, 2004 8) O ator faz questão de explicar para a platéia que não é físico, e sim ator, e admite ao público que realmente não sabe tudo, aliás, essa é uma postura científica. De alguma forma, também teve a Ciência popularizada dentro dele através da Arte. Não só ele, o diretor Sylvio Zilber analisa que, em decorrência da peça, acabou por adquirir mais conhecimento. Fórmulas Múltiplas de Arte A popularização começa, portanto, de trás para frente: primeiro com o autor, que para fazer o roteiro precisa conhecer sobre o que escreve, mesmo se 4 passa o que sabe aos atores, que por sua vez também vão decorar o texto e Capítulo não chegar a ser tão fiel à obra e aos acontecimentos. Depois com o diretor, que sobre toda a vida dele – caso seja alguém que realmente existiu – suas manias, estudar para que o personagem se torne interessante e, para isso, precisa saber mistérios, e o modo como encarava a vida. Até, finalmente, chegar ao público, que também possui uma veia crítica. Isso sem contar os funcionários do teatro que assistem os ensaios, e toda a equipe de produção. Um trabalho tão imenso começa com uma única pessoa – que resolveu estudar o que gosta e escrever 8 Entrevista concedida à autora em 31/08/2004, no Teatro Municipal de Santo André 45 uma peça sobre o assunto. E tantas pessoas aprenderam tudo o que aquele primeiro se interessou em ler, porque passou adiante e se utilizou do talento de alguns, em forma de expressão corporal, para chegar a um público mais amplo. Foi o que a iniciativa de Gabriel Emanuel – é como o autor de “Einstein” prefere ser creditado – fez com Palma. Quando perguntei sobre a dificuldade em interpretar o personagem, por ser um monólogo, Palma respondeu: “Eu tenho um entendimento tão bom com ele [com o Einstein] que é muito gostoso fazer 9”. É quase como um amigo íntimo. Paixão pelo teatro científico Isso se reflete na vida real. O ator sempre recebe trabalhos de professores que buscam usar o teatro em suas aulas de ciências. Palma diz que Einstein Fórmulas Múltiplas de Arte abriu portas em diversos sentidos: conheceu pessoas ligadas à área, como o Roadl Hoffmann, vencedor do prêmio Nobel de Química e que desfilou com Palma pela Unidos da Tijuca no Carnaval deste ano. Fez amizades na comunidade Capítulo 4 judaica e em escolas. Também deve-se ao fato de Palma ser um apaixonado pelo teatro científico. Conta que havia sido convidado para atuar em Romeu e Julieta. Mas estava a ponto de recusar porque fazia outro espetáculo. Depois mudou de idéia, quando descobriu que o personagem que representaria era Frei Lourenço. Isso porque o Frei é responsável pela poção que faz Julieta adormecer, e, portanto, é o cientista da história. 9 Entrevista concedida à autora em 31/08/2004, no Teatro Municipal de Santo André 46 É bem possível que nem Einstein imaginou que poderia ensinar Ciência pelo simples fato de existir e pesquisar. Como é de conhecimento geral, Einstein era cientista e não professor. Mas foi só um ator – sozinho em cena – representálo, contar parte de sua vida e sua teoria, que muitas pessoas tiveram acesso a mais conhecimento e o próprio ator também. Não devia estar nos planos do Einstein, ainda mais depois de morto. Um outro exemplo da cultura presente na peça é quando Palma-Einstein fala sobre a bomba atômica. Interessante como três espetáculos do grupo falam sobre esta mesma temática. “E Agora Sr. Feynman?” é uma delas, que vamos comentar mais adiante. O que fica vivo para o público nessas intervenções são as conseqüências da Ciência, e o poder que a cada dia parece ser maior. Nesta pesquisa com o pouco público que assistiu o espetáculo em agosto, de 12 pessoas, 7 responderam que aprenderam sobre o poder da Ciência e/ou conseqüências. Palma diz que não foi proposital falar sobre o mesmo assunto em três peças do grupo que são apresentadas com freqüência (Depois de “Einstein” e “E Agora Sr. Feynman?”, Santo André recebeu “Copenhagen” em outubro, menos Capítulo 4 de dois meses depois). Achou engraçada a coincidência. Mas garante que isso Santos Dumont suicidou-se aos 59 anos ao se enforcar dia 23 de julho de 1932, em Guarujá. Acredita-se que Dumont entrou em depressão ao ver seu invento sendo usado para lançar bombas sobre inimigos de guerra Fórmulas Múltiplas de Arte acontece porque após a Segunda Guerra Mundial, a Ciência perde a sua ingenuidade. Era a primeira vez em que se reunia tantos gênios para realizar algo que serviu na sua primeira utilização para o mal. A busca pela descoberta e de decifrar problemas teria ofuscado as conseqüências do estudo. Apesar de algo semelhante já ter acontecido anteriormente, como no caso de Santos Dummont; Feynman, Einstein e mais uma porção de cientistas renomeados em meados do século passado tiveram contato com o projeto que viria a matar centenas de pessoas no Japão. E isso se repete em “E Agora Sr. Feynman?”. Conhecimento adquirido: Vida de Einstein, conteúdo das obras, teorias, acontecimentos políticos da época, conseqüências e poder da ciência. Mais informações no site www.arteciencianopalco.com.br 47 Ato II: “E Agora Sr. Feynman?” Feynman a princípio é um cientista desconhecido. Enquanto Einstein posa de língua de fora, Feynman não tem o mesmo espaço no imaginário popular. Isso não foi motivo, porém, para que o grupo não realizasse a montagem “E Agora Sr. Feynman?”. O roteiro foi trazido de Nova York, em 2003. Nessa época, o Arte Ciência no Palco já estava estruturado como grupo, e possuía mais peças no repertório. Aliás, uma das dificuldades tem sido exatamente essa: encontrar roteiros de Richard Feynman (1918-1988): Elaborou as teorias das Integrais e os Diagramas de Feynman. Ganhou o Prêmio Nobel de Física em 1965. Participou do Projeto Manhatan, responsável pela bomba atômica e da comissão de investigação do acidente com o ônibus espacial Chalenger peças científicas. A procura por uma dramaturgia nacional tem sido incessante, mas raramente se encontra. Uma das peças que o grupo tem apresentado ultimamente, “20 Mil Léguas Submarinas, Ufa!”, é uma adaptação do próprio Palma da obra de Júlio Verne. Uma solução encontrada pelo ator, e uma exceção, se Carina Garroti Fórmulas Múltiplas de Arte considerarmos que “Einstein” veio do Chile, “Copenhagen” de Londres, assim como “Feynman”. Capítulo 4 O texto veio dos Estados Unidos, mas foi adaptado para o público brasileiro. Oswaldo Mendes, o ator que interpreta Feynman, lembra que algumas partes foram inseridas por ele e pelo diretor na montagem. O cientista viveu por alguns anos nas terras brasileiras, e chegou a desfilar numa escola de samba em meados dos anos 50. Isso havia sido omitido na adaptação americana. A inclusão destes fatos aconteceu para que o espectador brasileiro se identificasse mais com o personagem. 48 Feynman, além de ser cientista, desenhava, era pintor e tocava bongô. Como muitos cientistas, tinha ligação direta com a Arte: Einstein tocava violino e Leonardo da Vinci pintava. Arte e Ciência não se encontram somente no nome do grupo, muito menos no fato dos roteiros abordarem temas científicos. Feynman tem momentos na peça que unem Arte e Ciência, além de ser um artista/cientista. Parece ter sido feito de modo proposital, mas não foi. Novamente, uma obra do acaso. Outro ponto que auxilia na integração com o público. Qualquer pessoa que toca percussão, bongô ou violino – no caso de Einstein - vai se identificar com um dos personagens. Ao mesmo tempo, o grupo não aborda muito esta faceta artista de Feynman, ou de Einstein. Oswaldo contou que Feynman inclusive vendeu pinturas com um pseudônimo. Nada disso é sequer citado na peça. Pura decisão editorial. Inegável, porém, a contribuição da Arte para o desenvolvimento da sensibilidade do cientista. O grupo preferiu falar mais do cientista, apresentá-lo a platéia a falar das suas habilidades artísticas. O mesmo aconteceu com Einstein Fórmulas Múltiplas de Arte na explicação simplificada da Teoria da Relatividade. Percebe-se a preocupação do grupo em levar um pouco de conhecimento, Capítulo 4 uma vez que a Arte já está sendo levada diante dos olhos do público pela dramaturgia. E por mais que isso tenha acontecido, na própria peça houve escolhas em comentar sobre determinado assunto ou não. A teoria de Feynman, diferentemente de Einstein, não é posta a prova no espetáculo. Feynman é o pai da nanotecnologia, dos estudos dos átomos da Física Quântica. As pesquisas são tão teóricas que a adaptação focou mais na vida do cientista do que na teoria da Física propriamente dita. Oswaldo acredita que a peça estimula o conhecimento da teoria de Feynman, mas que não chega a explicá-la totalmente. Não é para ser confundida com uma aula de Física: 49 O trabalho que ele desenvolve, por exemplo, na eletrodinâmica quântica é muito mais complexo do que a peça coloca, porque aí teria que ser um curso sobre eletrodinâmica quântica. Não é o caso. O que a peça faz é dar pistas, e dar indicações ou estabelecer alguns conceitos básicos do pensamento do Feynman sobre a vida, sobre a Ciência, sobre a eletrodinâmica. (MENDES, 2004 10) Mesmo assim, a peça também populariza a Ciência. A começar pelos atores que aprendem sobre a vida dos personagens antes de atuar: Oswaldo: Exatamente... Não conhecia o Feynman. E depois é um absurdo, e quando a gente começou a ler e ver a importância desse cara, diz ‘como é que eu não conhecia?’. Monika: Porque ele morou no Brasil, saiu em escola de samba... Oswaldo: E a gente não sabia. Isso que é bom do conhecimento e do teatro, não é? Você vai descobrindo as coisas 11. Para isso, a montagem do espetáculo teve a consultoria de Rogério Rosenfeld, doutor em Física pela Universidade de Chicago, professor livre-docente do Instituto de Física Teórica da Unesp – Universidade do Estado de São Paulo - e escritor de um livro sobre Feynman – “Feynman & Gell-Mann: luz, quarks, ação”, da Editora Fórmulas Múltiplas de Arte Odysseus, lançado em 2003. Os atores contaram, portanto, com as explicações teóricas dos livros, com o roteiro original, e com os conhecimentos e pesquisas do Capítulo 4 professor Rosenfeld. Uma verdadeira aula sobre Feynman. A partir daí, o trabalho focou em como transmitir o conteúdo ao público. Tanto Oswaldo como Monika foram unânimes em admitir que é bastante prazeroso participar da peça, principalmente porque os personagens são “vivos”, entendem a Ciência como forma de vida. Oswaldo resume o personagem de Monika, a aluna Miriam Campos, como um Feynman de saias. Portanto, tanto um como o outro procura trazer a vida da Ciência e a busca pelo conhecimento até a platéia. 10 e 11 Entrevista concedida à autora em 21/08/2004, no Teatro Municipal de Santo André 50 O espetáculo também colabora para quebrar a imagem e mito do cientista abilolado. Feynman conversa incessantemente pelo telefone por diversas vezes; uma aluna entra em seu escritório e em nenhuma cena ele aparece em um laboratório, muito menos de jaleco branco. Feynman parece ser um cientista do século XXI. A peça não parece retratar a época de Feynman – meados dos anos 50. O público ainda tem uma representante à altura no palco. Miriam Campos é aluna como muitos; e leiga em alguns momentos – outros nem tanto – sobre os átomos, afinal, o professor é obviamente Feynman. No entanto, Miriam acaba sendo a ponte entre o público e o cientista, e o sucesso dela em conversar com ele, entrar em seu escritório e falar de Física como uma igual colabora para reduzir a vida solitária do cientista. Oswaldo conta que em uma das apresentações no colégio ETAPA, em São Paulo, um coro de 500 alunos torcia pela personagem, e gritava todas as vezes que saía de cena. A proximidade com o público traz mais para perto e para o cotidiano a Fórmulas Múltiplas de Arte teoria científica, remove a aversão contra a Ciência pura e incentiva o conhecimento. Porém, esta destilação de conteúdo que já pertencia aos atores por conta dos ensaios e que depois foi transmitida ao público, como no caso acima, teve o Capítulo 4 seu caminho de pedras. O diretor Sylvio Zilber relata as dificuldades: Sim. Os textos “científicos” não são palatáveis para um público desavisado. Acho que é preciso o pressuposto de “estar interessado” nos temas, para então se surpreender com a “facilidade” do entendimento das peças. O público destas peças, não é o público usual das outras peças em cartaz. Curiosamente, uma boa parte de quem assistiu as nossas peças se tornou freqüentador de nosso repertório, muitos deles tendo assistido mais de uma vez cada peça. (ZILBER, 2004 12) Por isso, o “Einstein” tem uma facilidade em relação ao “Feynman”. Ser conhecido pelo público faz com que as pessoas tenham interesse em assistir a 12 Entrevista concedida à autora em 28/09/2004, por e-mail 51 peça e, como disse Zilber, se surpreendam com a facilidade do entendimento. Mas precisa haver este primeiro interesse; de nada vale tentar trazer a uma peça o caráter formativo se o público não procura o espetáculo. Aí se encontra o desafio do elenco e do grupo, que para apresentar a encenação que Oswaldo garantiu ser objetivo primordial, precisa transpor os pré-concebimentos do público e lançar mão da criatividade para chamar o público a sentar-se nas cadeiras do Teatro. Primeiro, o grupo precisa bater na porta das escolas e de todo um público que não está acostumado a unir divertimento com formação, para depois esperar por detrás das coxias que as pessoas aceitem o convite. Algumas escolas aceitam; levam seus alunos aos teatros, ou procuram trazer os atores até suas dependências. Segundo o grupo, há interesse. E não só das escolas, de empresas, congressos, simpósios, onde é atingido um público que não é habituado ao teatro. Com a procura, também por debates sobre a teoria abordada nas peças, incentivou o grupo a procurar textos na mesma linha. Fórmulas Múltiplas de Arte Depois, como diz o diretor, fica a cargo do público: existem mudanças que o público acaba fazendo nos espetáculos que não necessariamente o diretor e os Capítulo 4 atores estejam de acordo. Tudo para levar a mensagem a um maior número de pessoas. Abrir mão de alguns momentos, cenas, atitudes, músicas, falas são, como diz Zilber, os “ossos do ofício”. Mas que, se for necessário para que mais pessoas tornem-se interessadas pela teoria científica no teatro, que seja feito. Quem denomina o que faz sucesso ou não é sempre o público. Até hoje, o teatro só não foi mais eficiente divulgando ciência, por conta do desinteresse do público. Assim como diz a Economia, se houvesse demanda, o mercado trataria de produzir. Fica assim, como um desafio para o grupo de Palma fazer um trabalho de formiguinha, a cada dia levando uma folha. Zilber afirma 52 que, com algum “cabotinismo”, que sua peça preferida é a próxima (ainda inexistente). O caminho talvez seja sempre o futuro. E espetáculos como esse podem, num futuro próximo, incentivar outras formigas a levarem as folhas também. É aqui que entra a Cia Fábula da Fíbula. Ato III: A Cia Fábula da Fíbula A Cia Fábula da Fíbula da Estação Ciência é uma dessas outras formiguinhas que também leva algumas folhas. No entanto, o formigueiro do qual ela faz parte tem ajudado há muito mais tempo no processo de divulgação. A Estação Ciência procura divulgar a Ciência para a geração jovem: crianças e adolescentes de Conhecimento adquirido: Vida de Feynman, teorias, acontecimentos políticos da época, átomos, conseqüências e poder da ciência. Mais informações no site www.arteciencianopalco.com.br A Estação Ciência é um centro de ciências interativo ligado a USP, que realiza exposições nas diversas áreas do conhecimento. O público anual é de cerca de 200 mil pessoas escolas públicas ou privadas. Até determinado período, funcionava com exposições, equipamentos, planetário, entre muitos outros, até que o ator Cauê Matos decidiu abrir o leque para a arte do teatro em 1999. O primeiro espetáculo do grupo – Fórmulas Múltiplas de Arte Arquivo/Cia Fábula da Fíbula parceria com a Cooperativa Brasileira de Teatro - foi lançado em maio de 2000, “A Estrela da Manhã”. Capítulo 4 A peça é uma viagem na história do conhecimento. Rendeu muitos frutos, e, depois da experiência bem sucedida, o grupo contou com apoio institucional para novos espetáculos e hoje já apresentam em locais fora da casa. Mesmo depois do primeiro grupo se desfazer por compromissos pessoais de cada um dos atores, o trabalho continuou. A Cia tem seis espetáculos no repertório: - “A Estrela da Manhã”: aborda a história do conhecimento ocidental; - “Conexões Cósmicas”: fala sobre a teoria do Big Bang, criação e evolução do Universo; 53 - Arquivo/Cia Fábula da Fíbula “Marte – A Viagem”: explica o sistema solar e os planetas, e claro, fala sobre o planeta vermelho; - “Monocórdio de Pitágoras”: alia matemática e música. Um repentista conta em forma de cordel a história trazida por seus antepassados sobre a criação do monocórdio, um instrumento musical de uma corda só, e as deduções de Pitágoras para se chegar às escalas musicais; - “Professor Gervásio e Energia Elétrica”: e como é possível deduzir, fala da energia, históricos, usos e fenômenos físicos; - E “Gestação”: este de dança, que aborda o universo feminino. Arquivo/Cia Fábula da Fíbula Diferentemente do Arte Ciência no Palco, a Fábula da Fórmulas Múltiplas de Arte Fíbula, nasceu dentro de uma instituição de ensino: a Estação é ligada a USP, e portanto, possui Arquivo/Cia Fábula da Fíbula mais facilidades para conseguir textos Capítulo 4 sobre Ciência e consultorias com especialistas. Muitos professores colaboram com o Núcleo de Artes Cênicas da Estação, cada qual com a sua especialidade e de acordo com o tempo disponível. Todos os espetáculos são roteiros originais; não houve adaptações de outros autores. Mesmo considerando o teatro apenas como ferramenta de um trabalho para a Educação, o grupo define as peças teatrais como “aula-espetáculo”. 54 O grupo nasceu naturalmente, como o de Palma. Da necessidade de um fazer artístico. Matos, coordenador do Núcleo de Artes Cênicas da Estação, começou e continua coordenando eventos. Até que conversando com Ernst W. Hamburger, ex-diretor da Estação Ciência, sugeriu a Divulgação Científica através do teatro. Por estar em um ambiente em que o objetivo é ensinar de modo divertido, a Cia Fábula da Fíbula encontrou terreno fértil para a inspiração e criação dos Professor Gervásio e Energia Elétrica - Arquivo/Cia Fábula da Fíbula conteúdos apresentados nas peças. “Conexões Cósmicas”, por exemplo, foi um espetáculo baseado em um painel exposto no local. O grupo também possui o interesse de sempre manter as peças no repertório, mas passam por problemas parecidos com os do Arte Ciência no Palco. Das cinco peças teatrais, a única que não teve vida longa foi justamente “Conexões Cósmicas”, devido ao grande número de atores e equipe técnica que sobrecarregava a produção, inviabilizando as apresentações. Mesmo assim, a realidade das apresentações da Cia é um pouco diferente Fórmulas Múltiplas de Arte do Arte Ciência no Palco: primeiro porque possuem apoio da Estação Ciência para testar todas as peças, verificar o que dá certo ou não; não há pressão das partes Capítulo 4 em lançar espetáculos. Segundo porque a instituição oferece toda a infra-estrutura, como um teatro com capacidade para 200 pessoas, a consultoria com os professores, telefone, fax, etc. A Cooperativa Paulista de Teatro – que se responsabiliza pelos atores, colabora na execução e produção do espetáculo. Até determinado montante – cerca de R$ 15 mil reais, fica tudo por conta da Estação. Passando disso é necessário procurar patrocínio, ou, como já aconteceu algumas vezes, recorrer ao Fundo de Cultura e Extensão Universitária da Pró-reitoria de Cultura e Extensão da USP, que oferece apoio financeiro. Este Fundo, ligado à Universidade, financia projetos 55 resultantes de pesquisa. Como o Núcleo realiza estudos teatrais e divulga conhecimento, é possível solicitar a verba. Percebe-se que, portanto, uma colaboração institucional grande para a realização dos espetáculos, um investimento considerável. Além disso, conta com o apoio de empresas públicas e privadas, como já aconteceu com a Santista e com a Nossa Caixa. Matos garante que todo o processo é como um laboratório mesmo, onde tem a possibilidade da experimentação, e neste ponto é que se encontra a qualidade do trabalho. A equipe tem tempo e recursos para deixar o espetáculo como o público gosta, e com a devida qualidade de conteúdo. O público atingido já beira a 40 mil pessoas. Só “A Estrela da Manhã”, que possui quatro anos de vida, atingiu 28 mil, sozinha. Parte deste público é resultado de uma parceria do grupo com a Secretaria Municipal de Educação e Cultura da cidade de São Paulo. Num projeto chamando “Recreio nas Férias”, a Cia apresentou um dos espetáculos, Fórmulas Múltiplas de Arte “Conexões Cósmicas”, nas escolas municipais. O alcance, neste caso em específico, ultrapassou os limites do tablado e caiu na sala de aula. Ponto para a Educação. Capítulo 4 Matos diz que um espetáculo de teatro, por mais que transpareça somente falar sobre um assunto específico é muito mais abrangente: Ela é multidisciplinar. A partir do teatro você trabalha questões transdisciplinares ou interdisciplinares, multidisciplinares, porque é possível. Então o espetáculo de teatro nunca vai ser só para abordar um assunto de Matemática, por exemplo. Naquele assunto de Matemática entra uma vida, entra toda uma questão de literatura, história, relação social, relação com outras áreas. (MATOS, 2004 13) Por este motivo há tanto interesse e tanto sucesso no trabalho teatral. A possibilidade de uma pessoa não gostar do espetáculo chega a ser pequena, uma 13 Entrevista concedida à autora em 18/18/2004, na Estação Ciência 56 vez que a Arte da expressão une diversos conteúdos, atitudes, disciplinas. Quanto A Estrela da Manhã - Arquivo/Cia Fábula da Fíbula mais recursos diversificados o grupo utilizar, menor a chance do público não gostar do espetáculo, maior será o público atingido pelas teorias científicas. “Marte – A Viagem” foi um destes espetáculos lançado justamente no momento em que a Nasa estava enviando sondas ao planeta. Novamente, por obra do acaso e sem nenhum planejamento, enquanto Marte aparecia nos jornais, a Cia tratava do assunto à luz dos holofortes. Coincidência, ou como diria Zilber, diretor do Arte Ciência no Palco, sincronicamente aconteceu. Matos explica que tudo se resume no “como fazer”. O simples “fazer” cai no comum. Aquele que inova, seja no teatro, na sala de aula, ou em qualquer umas das Artes traz a atenção de um público para si. Então, o processo da Divulgação Científica não se estabelece somente no conteúdo; se não há Fórmulas Múltiplas de Arte receptividade, o conteúdo não é transmitido. Para se chegar a um denominador comum, a um objetivo – que neste caso é a popularização da Ciência – é necessário buscar horizontes, outras formas de enxergar a Ciência, diferentemente daquela mantida pelo mito. Capítulo 4 A Estrela da Manhã - Arquivo/Cia Fábula da Fíbula Depois de todo este trabalho, o grupo resolveu avaliar as peças que apresentava. Dos três mil questionários respondidos, apenas uma única pessoa respondeu não ter gostado do espetáculo que assistiu. Uma porcentagem ínfima perto da quantidade de pessoas que gostaram do conteúdo e do espetáculo. Graças a este trabalho, um outro objetivo do grupo tem sido alcançado: incentivar outros grupos de teatro a fazerem o mesmo, pesquisar teatro em favor da Arte. Há cerca de três anos Matos e seu grupo apresentaram um espetáculo em Ribeira – SP. Hoje existe um grupo de teatro voltado para a interface Ciência, Arte e teatro na cidade de Ribeira. 57 Quanto mais grupos se dedicarem à divulgação divertida da Ciência, mais pessoas terão acesso. Aquela visão de que Ciência não podia passar dos livros aos poucos vai se esvaindo, a ponto de ser algo normal assistir uma peça científica, como é hoje assistir uma comédia. Depende, primeiramente, da formação cultural do público, e que estes grupos estão ajudando a construir. Temos que considerar, também, que essa boa receptividade tenha relação direta com a parte didática. Dificilmente as pessoas ligam Educação ao lazer. Por isso, se o espetáculo se diz didático, a procura por ele talvez não seja tão grande como daquele que não possui preocupações culturais. Enquanto houver o mito de que Educação é chata, a recepção torna-se mais difícil. Matos conta que uma das crianças, ao assistir “A Estrela da Manhã” comentou que não acreditava ser possível um grupo fazer um espetáculo que não lhe interessava nada. Ao mesmo tempo, agradecia à professora por ter levado a classe ao teatro da Estação porque a peça tinha sido muito legal. Fórmulas Múltiplas de Arte O teatro tem um papel muito importante na destruição desse preconceito. Cada vez mais o conceito de Arte/Educação vai se consolidando. Como dissemos Capítulo 4 anteriormente, os recursos são tantos e tão diversificados da sala de aula, que as pessoas não ligam ao fato de que aprendem tanto nas carteiras de uma escola como nas cadeiras de um anfiteatro. Somente caem em si depois que se conta para elas. Palma defende que o teatro é a casa das ilusões e, talvez, essa ilusão realmente se encontre também no campo educativo do teatro, por mais que a peça não tenha sido realizada com o intuito de ensinar qualquer conteúdo. A Cia Fábula da Fíbula faz muitas apresentações em escolas. Algumas montagens tinham problemas de locomoção de cenário; iluminação; o que dificultava circular com o espetáculo em lugares diferentes. “A Estrela da Manhã” é uma 58 delas, Matos imagina que este fato cria um grupo privilegiado, aquele que tem condições de se locomover e pagar para assistir as peças em teatros com os devidos recursos. A Cia passou então a mudar de foco. “Monocórdio de Pitágoras” e “Professor Gervásio” já são peças que têm uma mobilidade incrível, pode ser apresentada em qualquer localidade, parte do sucesso se deve justamente a isso. A Magia do Teatro Se a infra-estrutura pode dificultar as apresentações, o mesmo não se pode dizer do conteúdo. Nunca tiveram alguma idéia de roteiro para a peça que não tenha necessariamente se transformado em espetáculo por conta da dificuldade do tema. Tudo depende exclusivamente da adaptação, e da faixa etária ao qual se destina. É a magia do teatro. A Estrela da Manhã - Arquivo/Cia Fábula da Fíbula Fórmulas Múltiplas de Arte Se você pensar na complexidade que é falar sobre a história do conhecimento acumulado, puxa, enorme. Ou a complexidade de tratar o Big Bang em palco. (...) Depois desses dois espetáculos, dessas duas abordagens, o que vier a gente traça. Não tem complexidade, porque o teatro, a Arte, te oferecem possibilidades infinitas. Capítulo 4 (...) Um professor mesmo, Oscar, que vai trabalhar no planetário municipal, (...) ele falou: ‘Cauê, eu queria falar sobre a Lua’ Então, olha só. Que tal a gente pegar uma lenda indígena falando sobre a Lua e a partir dessa lenda a gente fazer todo um tratamento cênico, das fases, do que isso representa para os índios e para o ser humano, então, criar essa relação. (...) e a gente colocar isso em situações de teatro de sombras, onde podemos criar toda uma atmosfera bem onírica, e com um recurso maravilhoso. Então você pode passar mesmo de um estágio real e dar vazão a toda a sua imaginação. Ele adorou. Então, quer dizer, o que parece difícil a Arte consegue mexer daqui pra lá, de lá pra cá e também e resultar em algo compreensível, lúdico, prazeroso e consistente, também em termos de trabalho científico, Divulgação Científica. (MATOS, 2004 14) 59 Como aconteceu com o grupo de Palma, esse entendimento da Ciência parte primeiro dos atores, que precisam estar preparados para os debates nos finais dos espetáculos. A pesquisa, portanto, não se limite somente ao autor e ao professor que orienta o roteiro, mas a todo o elenco. Este fenômeno da popularização da Ciência nos atores e na equipe técnica se repete em todos os grupos e espetáculos que consideram o conteúdo e a mensagem transmitida como algo essencial. Para se ter uma idéia deste compromisso, o grupo originalmente nasceu como Grupo de Teatro Estação Ciência. Matos há muito queria mudar o nome do grupo, e conversando com uma amiga bailarina, se deparou com “fíbula”, um osso do corpo. Daí nasceu o nome, Cia Fábula da Fíbula: Isso dá um nome excelente para o grupo, Cia Fábula da Fíbula. Porque entra a questão da fábula, da recreação, da alegoria, da Arte, e a fíbula, um osso, anatomia humana. Então, Ciência e Arte presente neste nome, e ao mesmo tempo é sonoro. E geralmente, as pessoas quando eu comento perguntam, mas o que é isso? O próprio nome já está funcionando em termos de Divulgação Científica. (MATOS, 2004 15) Fórmulas Múltiplas de Arte Até “Marte”, o grupo ainda era conhecido como Grupo de Teatro Estação Ciência. A partir do próximo espetáculo em processo de produção, “O Poeta e o Capítulo 4 Vento”, que irá abordar sobre a energia eólica, adotarão o novo nome. Durante um período irão usar: Cia Fábula da Fíbula, ex-grupo de teatro Estação Ciência. Conhecimento adquirido: história do conhecimento ocidental; Marte; planetas; sistema solar; Energia Elétrica, teorias de Pitágoras, Escalas Musicais; teoria do Big Bang, criação e evolução do Universo. Mais informações no site www.eciencia.usp.br 14 e 15 Entrevista concedida à autora em 18/18/2004, na Estação Ciência 60 Na melodia da Música O Músico da Ciência - Gilberto Gil A ciência e a música parecem ter uma relação superficial, na maioria das vezes. As letras citam simplesmente qualquer fato científico e basta, salvo algumas exceções. No entanto, numa busca mais cuidadosa nota-se uma quantidade razoável de músicas que têm como objeto a Ciência. É o caso do CD Quanta, de O CD Quanta foi lançado em 1997 pela Warner Music Gilberto Gil. Das músicas que chegaram ao grande público, ele é um dos poucos que realiza um trabalho mais profundo ao ligar Ciência, Arte e música. Abaixo, faremos uma pequena análise das músicas de Gilberto Gil, o mais representativo nesta questão, e sobre outros artistas que eventualmente tenham tocado no assunto. Esta primeira canção não está no CD Quanta. Está no CD “Louvação”, de Fórmulas Múltiplas de Arte 1967. Mas é muito clara ao relatar um dos eventos mais famosos da Ciência: Capítulo 4 Lunik 9 Um fato só já existe que ninguém pode negar, 7, 6, 5, 4, 3, 2, 1, já! E lá se foi o homem conquistar os mundos lá se foi Lá se foi buscando a esperança que aqui já se foi Nos jornais, manchetes, sensação, reportagens, fotos, conclusão: A lua foi alcançada afinal, muito bem, confesso que estou contente também A mim me resta disso tudo uma tristeza só Talvez não tenha mais luar pra clarear minha canção Nesta música, Gilberto Gil escolheu uma das grandes conquistas humanas. E aliou-a à realidade dos poetas, que sempre tiveram a Lua como musa inspiradora. Por isso, a preocupação de perder a inspiração. Ligação perfeita entre a música, a literatura e uma das ciências que mais fascina o homem – a Astronomia. 61 Do CD Quanta, de Gilberto Gil, a música tema fala do Latim. Alguns trechos seguem abaixo: Quanta Quanta do latim Plural de quantum Quando quase não há Quantidade que se medir Qualidade que se expressar (...) Sei que a arte é irmã da ciência Ambas filhas de um Deus fugaz Que faz num momento E no mesmo momento desfaz Gil canta nesta música o latim, uma língua praticamente morta, que deu origem a muitas das línguas atuais. Discutí-la numa música foi ousado, uma vez que a população brasileira mal sabe falar o português. Segundo o Ministério da Fórmulas Múltiplas de Arte Educação, O Brasil tinha, em 2000, 27,8% de analfabetos funcionais. Mesmo assim, Gilberto Gil toma a liberdade não só de falar do latim, como de unir a Arte e a Ciência e chamá-las de irmãs. A música “Pela Internet”, por sua vez, alia Capítulo 4 Ciência, música e tecnologia. Criar meu web site Fazer minha home-page Com quantos gigabytes Se faz uma jangada Um barco que veleje Que veleje nesse infomar Que aproveite a vazante da infomaré Gil utiliza-se nesta música – e é bem característico neste trecho – a literatura e a metáfora. “Navegar” na internet se tornou recurso lingüístico. 62 Uma outra metáfora muito bonita do Gil nesta música é a parte final: Que o chefe da polícia carioca avisa pelo celular Que lá na praça Onze tem um vídeopôquer para se jogar Esta frase remete ao primeiro samba brasileiro gravado que se tem notícia, “Pelo Telefone”. Gil atualiza a informação, mas mantém a melodia do verso. Junta as novidades dos dias atuais – o computador – com a criatividade do antigo – a invenção do samba. Valoriza assim, as duas criações, independente do tempo. No mesmo CD ainda aparece a música “A Ciência em Si”. É uma composição do Gil e de Arnaldo Antunes, que relata o caminho da experimentação: Se o que se pode ver, ouvir, pegar, medir, pesar Do avião a jato ao jaboti Desperta o que ainda não, não se pôde pensar Do sono eterno ao eterno devir Como a órbita da terra abraça o vácuo devagar Para alcançar o que já estava aqui Se a crença quer se materializar Tanto quanto a experiência quer se abstrair Fórmulas Múltiplas de Arte A ciência não avança A ciência alcança A ciência em si Capítulo 4 A música inteira trata da Ciência da forma como se encontra neste trecho. De tantas coisas que o homem quis descobrir e que já estava ali, o que ainda não era imaginado, não era provado, a Ciência alcança. O fato dos autores considerarem que a Ciência não avança é curioso. Pela letra é possível analisar que como tudo já estava ao alcance do homem, a Ciência nunca poderia avançar em algo que já existia, mas só o homem não enxergava. Por isso, era o tempo de esperar, que a Ciência um dia enxerga. Podemos considerar como uma alusão ao método científico. Já “Átimo de pó” é uma composição de Gil e Carlos Rennó. Segue o trecho: 63 Entre a célula e o céu O DNA e Deus O quark e a Via Láctea A bactéria e a galáxia (...) Eu e o nada, nada não O vasto, vasto vão Do espaço até o spin Do sem-fim além de mim Ao sem-fim aquém de mim Den’ de mim A mensagem não poderia ser mais clara. Gil inicia a narrativa da imensidão das criações e das mais pequenas coisas. Até se deparar que tudo, inclusive ele, é feito da mesma coisa: átomos. E que há um universo dentro dele mesmo. Por meio de alguns pequenos comentários de cada uma das músicas, notase a qualidade do trabalho de Gilberto Gil e a preocupação constante com o tema. Fórmulas Múltiplas de Arte Claro, a linguagem da música é muito subjetiva, assim como a poesia. Mas, por outro lado, abre um leque para que o ouvinte pense no tema, tire suas próprias Capítulo 4 conclusões. Nada nas músicas de Gilberto Gil é definitivo. Muito menos delimitado, no vasto campo da música. Ainda neste mesmo trabalho, Gil canta uma música de Cartola e Carlos Cachaça – “Ciência e Arte”. Típico samba. É uma homenagem aos cientistas e aos artistas. Quase um hino. Esta segue inteira: Tu és meu Brasil em toda parte Quer na ciência ou na arte Portentoso e altaneiro Os homens que escreveram tua história Conquistaram tuas glórias Epopéias triunfais Quero neste pobre enredo 64 Reviver glorificando os homens teus Levá-los ao panteon dos grandes imortais Pois merecem muito mais Não querendo levá-los ao cume da altura Cientistas tu tens e tens cultura E neste rude poema destes pobres vates Há sábios como Pedro Américo e Cesar Lattes Basta dizer que a música considera cientistas e artistas heróis. Pelas obras que realizam. Gil está entre eles, não resta dúvidas – por ser artista e por divulgar Ciência. Mais Música Conhecimento adquirido: conquista do homem a Lua, tecnologia da Internet, 1º samba brasileiro, método científico, átomos, latim Fórmulas Múltiplas de Arte Além de Gilberto Gil, há outros artistas que dedicaram uma ou outra música de suas carreiras. Raul Seixas foi um deles, na música de título sugestivo,“Todo Mundo Explica”: Capítulo 4 Mas todo mundo explica. Explica Freud, o padre explica Krishnamurti tá vendendo a explicação na livraria Que lhe faz a prestação, que tem Platão Que explica (que explica) tudo tão bem vai lá que E todo mundo (todo mundo) explica O protestante, o auto-falante, o Zen-budismo, Brahma, Skol Capitalismo oculta um cofre de fa, fe, fi, finalismo Hare Krishna, e dando a dica enquanto aquele papagaio curupaca e implica. E te explica com o carimbo positivo da ciência Que aprova e classifica Mas o que é que a ciência tem? Tem lápis de calcular Que é mais que a ciência tem? Borracha prá depois apagar Você já foi ao espelho, nego? Não? Então vá! “Todo Mundo Explica” encontra-se no LP Mata Virgem, de 1979, pela Warner Discos 65 Seixas discute aqui a banalização da Ciência. Muitos se fazem de entendidos no assunto, falam sem embasamento teórico. E, no final, a Ciência pode ainda estar errada. Apaga e refaz. Mais uma menção ao método científico. Por sua vez, Roberto Carlos também discorre sobre a Ciência na música “Seres Humanos”. Segue trecho: E as mudanças desse mundo O ser humano é que faz “Seres Humanos” está no CD homônimo de Roberto Carlos, lançado em 2003 pela Som Livre Estamos sempre em busca de uma solução Queríamos voar, fizemos o avião O telefone, o rádio, a luz elétrica A televisão, o computador, progressos na engenharia genética Maravilhas da ciência prolongando a vida Nós temos amor, ninguém duvida Fórmulas Múltiplas de Arte Somos seres humanos Só queremos a vida mais linda Não somos perfeitos Roberto Carlos argumenta a incessante busca pelo homem em favor da comodidade. Este também é o foco do livro “a História das Invenções”, de Monteiro Capítulo 4 Lobato, que comentaremos mais adiante. Já Gal Costa se ateve à formação do povo brasileiro em “Canta Brasil”: As selvas te deram nas noites ritmos bárbaros Os negros trouxeram de longe reservas de pranto Os brancos falaram de amores em suas canções E dessa mistura de vozes nasceu o teu pranto “Canta Brasil” está no LP Fantasia, de 1981 pela Philips No entanto, uma das músicas mais famosas que fala de ciência é extremamente didática. Esta segue na íntegra: (ao lado, alguns breves comentários) 66 Planeta Água – Guilherme Arantes Água que nasce na fonte serena do mundo — ciclo dos rios – nascente e foz E que abre um profundo grotão Água que faz inocente riacho e deságua na corrente do ribeirão Águas escuras dos rios que levam a fertilidade ao sertão — função da água Águas que banham aldeias e matam a sede da população Águas que caem das pedras no véu das cascatas, ronco de trovão — ciclo da E depois dormem tranqüilas no leito dos lagos, no leito dos lagos evaporação Água dos igarapés, onde Iara, a mãe d’água é misteriosa canção — folclore Água que o sol evapora, pro céu vai embora, virar nuvem de algodão Gotas de água da chuva, alegre arco-íris sobre a plantação — “conseqüências” Gotas de água da chuva, tão tristes, são lágrimas na inundação da água Águas que movem moinhos são as mesmas águas que encharcam o chão E sempre voltam humildes pro fundo da terra, pro fundo da terra - término do ciclo Terra, planeta água Terra, planeta á...gua (2x) — menção de que 3/4 do planeta é água “Planeta Água” se encontra em um compacto do cantor lançado pela WEA em 1981 Fórmulas Múltiplas de Arte A música destrincha toda a importância do “petróleo” dos próximos séculos. Todo o ciclo da água foi poetizado, além de passar algumas informações adicionais, Capítulo 4 como o globo terrestre ser mais água do que terra. A música foi composta em 1981 pelo cantor e desde então mantém a sua vivacidade e atualidade, diante dos problemas enfrentados pelo meio ambiente. Contudo, é possível perceber que canções como esta são raras. Na música, tudo é muito rápido, sintético. São citações de fatos que aconteceram, ou de alguma teoria das Ciências. Mas isso se deve a própria natureza musical: a letra não pode ser muito extensa, na maioria das vezes deve apresentar rima, deve tocar o público. Com tantas condições, não é para qualquer um tentar popularizar Ciência através da 67 música. Apesar de todos estes fatores, a música tem um poder que nenhuma outra Arte possui: a repetição. Por este motivo propaganda tem tantos jingles. A música bem elaborada e com uma finalidade específica pode, como no cinema, transcender sua época e “viver” por longas décadas – senão mais - na mente da população. Nas páginas da Literatura Conhecimento adquirido: banalização da Ciência, invenções humanas, formação do povo brasileiro, belezas naturais do país, (em “Canta Brasil” e músicas nacionalistas, como “Aquarela do Brasil” ou o próprio hino nacional, que ensina vocabulários menos utilizados), ciclo, função e importância da água A literatura é uma das grandes aliadas da Divulgação Científica. Muitos autores dedicaram suas narrativas para explicar fenômenos científicos, experiências e suposições de inventos que aconteceriam anos mais tarde. Dois, dos muitos autores que falam de Ciência serão comentados neste trabalho: Monteiro Lobato (1882-1948) e Júlio Verne (1828-1905). Notem como os livros possuem conteúdos diversificados e em grande quantidade. É prova de que a Arte ensina. Fórmulas Múltiplas de Arte No Futuro Capítulo 4 Júlio Verne foi um homem muito a frente de seu tempo, a exemplo de que a ficção muitas vezes se transforma em realidade. Em “20.000 léguas submarinas”, previu o escafandro e o submarino. Como fala Nelly Novaes Coelho, professora da Faculdade de Letras e Ciências Humanas da USP e ex-presidente da APCA – Associação Paulista de Críticos de Arte, as aventuras de Júlio mesclavam as conquistas da civilização da Ciência e da técnica com a imaginação criativa. No entanto, toda a sua imaginação era calcada em realidade, havia possibilidade de acontecer, tinha um raciocínio lógico. 68 Foi um incansável escritor: escreveu mais de 50 obras em quase 50 anos de carreira. E em todos eles, há muita informação de locais desconhecidos na época, outros em expansão e desenvolvimento. Júlio era um estudioso nato, entendia de Geografia, Geologia, Astronomia, Química e Física. Por isso, dava apoio científico a suas “invenções”. A partir de agora, seguem trechos e comentários de dois livros de Verne – “Da Terra a Lua” e “A Volta ao Mundo em Oitenta Dias” -, e toda a explicação da Ciência ao qual se destina. Da Terra a Lua Neste livro, Verne antecipa o princípio de duas invenções: o foguete e o satélite. O enredo se resume a um grupo de amantes da balística que resolvem realizar um evento sem proporções: enviar um projétil a Lua, como bala de canhão. Fórmulas Múltiplas de Arte No meio do caminho, ainda aproveita para informar ao leitor várias características da Lua e do espaço. Numa delas, cita os autores que antes dele fizeram ficção Capítulo 4 com a Lua – uma metalinguagem muito bem construída. Ainda chega a ser didático. Em determinado momento da história, o Observatório de Cambridge responde algumas perguntas aos membros do Gum Club, estes homens que realizam a empreitada. Depois de um capítulo inteiro dedicado às explicações científicas, faz um resumo no final para mais fácil entendimento. Entre os históricos, segue o das descobertas da Lua: Tales de Mileto, por exemplo, 460 anos antes de Cristo, emitiu a opinião de que a Lua era iluminada pelo Sol. Aristarco de Samos deu a verdadeira explicação das suas fases. Cleômenes ensinou que ela brilhava de uma luz refletida. O caldaico Berose descobriu que o tempo do seu movimento de rotação era igual ao do seu movimento 69 de revolução, explicando desse modo a circunstância da Lua apresentar sempre a mesma face. (VERNE, 1ª ed. 1865, 1968:26) Um outro recurso interessante é como Verne insere a mídia nas histórias. Em determinados momentos, para realizar uma explicação científica, usa a mídia como divulgadora, num recurso lingüístico notável: Quando os ignorantes chegaram a saber tanto quanto o diretor do Observatório de Cambridge sobre o movimento de rotação da Lua, passaram a preocupar-se muito com o seu movimento de revolução à volta da Terra, mas logo vinte revistas científicas se apressaram a instruí-los. Aprenderam então que o firmamento, com a sua infinidade de estrelas, pode ser considerado um vasto mostrador sobre o qual passeia a Lua, indicando a hora certa a todos os habitantes da Terra; que é nesse movimento que o astro noturno apresenta as suas diferentes fases; que a Lua é cheia quando está em oposição ao Sol, ou em outras palavras, quando os três astros estão na mesma linha, ficando a Terra no meio; que é nova quando está em conjunção com o Sol, isto é quando se acha entre a Terra e ele; e enfim que está no primeiro ou no último quarto quando faz com o Sol e a Terra um ângulo reto cujo vértice ela ocupa. (VERNE, 1ª ed. 1865, 1968:31) O mesmo acontece com os cientistas. Júlio Verne os coloca em igualdade Fórmulas Múltiplas de Arte de condições em prol da Divulgação Científica: Capítulo 4 Quando à linha seguida pela Lua na sua revolução em volta da Terra, o Observatório de Cambridge explicou suficientemente, mesmo aos ignorantes de todos os países, que essa linha é uma curva reentrante, não um círculo mas uma elipse de que a Terra ocupa um dos focos. Tais órbitas elípticas são comuns tanto aos planetas como aos satélites, e a mecânica racional prova rigorosamente que não podia ser de outro modo. Ficou bem entendido que a Lua ficava mais afastada da Terra no apogeu, e mais próxima no perigeu. (VERNE, 1ª ed. 1865, 1968:32) A empreitada, Verne oferece aos americanos. Mesmo assim, cita os russos, e ainda fala sobre a cultura em outros países: A Rússia contribuiu com o enorme contingente de trezentos e sessenta e oito mil, setecentos e trinta e três rublos. Se alguém se admira é porque desconhece o gosto dos russos pelas ciências e o progresso que eles imprimem aos estudos astronômicos, graças aos seus numerosos observatórios, o mais importante dos quais custou dois milhões de rublos. 70 A Turquia portou-se com generosidade, mas estava diretamente interessada no caso, pois a Lua regula o curso dos seus anos e o seu jejum do Ramadão. (VERNE, 1ª ed. 1865, 1968:70) É evidente o interesse do escritor em informar, e colaborar com o raciocínio do leitor, ao supor teorias “praticáveis”. Por todos estes fatores, Júlio foi muito adaptado para crianças. Olavo Bilac confessa tê-lo lido muito, e outros grandes escritores, como Monteiro Lobato – que vamos comentar mais adiante. A Volta ao Mundo em 80 dias Neste livro, Verne se atém às culturas e geografias do mundo. É importante ressaltar que o personagem não viaja num balão, algumas adaptações uniram as duas aventuras de Verne, “A Volta ao Mundo em 80 Dias” e “Cinco Semanas em um Balão”. Por isso, a confusão freqüente. Verne se aproveita da viagem do protagonista para abordar os mais diferentes meios de transportes – dos comuns, como trem e navio, aos extravagantes, como os elefantes. O livro é regado a Capítulo 4 aventuras, confusões e torcidas pelo mocinho. As informações que Verne inclui ao enredo são das mais variadas: Todos sabem que a Índia – este grande triângulo inverso cuja base está ao norte e a ponta ao sul – compreende uma superfície de um milhão e quatrocentas mil milhas quadradas, sobre a qual espalha-se desigualmente uma população de cento e oitenta milhões de habitantes. O governo britânico exerce uma dominação real sobre uma certa parte desse imenso país. (VERNE, 1ª ed. 1865, 2002:56) Chavemestra passeou durante algumas horas em meio àquele baralhamento imenso de pessoas, olhando as curiosas e opulentas barracas de venda, os Conhecimento adquirido: escritores antigos que narraram aventuras na Lua; gravidade lunar; distâncias entre a Terra e a Lua; ponto em que trações da Terra e da Lua se equilibram; criação do Universo; formação do Sol (com leis da Física); formação dos planetas; formação dos satélites; nomes da Lua; povos antigos e suas explicações mitológicas para a Lua; linha temporal sobre as descobertas dos cientistas sobre a Lua e suas particularidades; citações das colaborações de Copérnico, Galileu, Halley e muitos outros; diâmetro e superfície lunar; geografia lunar; luz lunar; movimentos de rotação e revolução; satélites de Júpiter; fases da Lua; eclipses; influência da Lua na Terra; diferença entre telescópios e lunetas e o seu funcionamento, baseado nas leis de refração e reflexão; resistência do ar, atmosfera terrestre e força de impulsão; lei da gravidade terrestre; características químicas do alumínio e do ferro; características da pólvora; geografia, história e características dos estados da Flórida e Texas; citação das grandes cidades do mundo (coloca o Rio de Janeiro) e moedas dos países (da época); distância entre os planetas; distância das estrelas; explicações sobre a atmosfera da Lua Fórmulas Múltiplas de Arte 71 bazares onde amontoam-se as bigigangas reluzentes da ourivesaria japonesa, os “restaurantes” enfeitados com flâmulas e bandeiras – nos quais lhe era vedada a entrada -, aquelas casas de chá onde se bebe uma taça de água quente aromática com o “saquê” – o licor extraído do arroz fermentado – e os confortáveis fumadouros, onde fuma-se um tabaco finíssimo, e não o ópio, cujo consumo é relativamente raro no Japão. (VERNE, 1ª ed. 1865, 2002:163) Percebe-se a importância que o autor dá para a cultura de cada um dos países. E como é conhecedor de diversas partes do mundo. O final do livro é emocionante, e prima pela Ciência. Num capítulo tem-se a vontade de jogar o livro longe; no outro, de abraçar o autor. Quando nada mais parece surpreender, porque já se está no final do livro, Verne lança sua trinca de ases. E isso também acontece em “Da Terra a Lua”. O bom escritor é aquele que, como Verne, ensina e mantém a atenção do leitor até a última linha. E isso, Verne faz muito bem. Goiabada de Marmelo, Sitio do Picapau Amarelo Conhecimento adquirido: informações de território, população e cultura de Índia, China, Estados Unidos, Inglaterra, e cidades como Hong Kong, Londres, Nova York, Bombaim, entre muitas outras Fórmulas Múltiplas de Arte 4 e da educação infantil. Nelly Novaes Coelho afirma em seu livro “A Literatura Capítulo Monteiro Lobato é o nome da Literatura na Divulgação Científica no Brasil, tem uma infinidade de livros infantis, reacendeu a produção nacional e inclui Infantil”, de 1981, que Lobato é como o “divisor de águas”. Também pudera: conteúdos aprendidos nas escolas de ensino fundamental nas aventuras do Sítio do Picapau Amarelo. Neste tópico seguem alguns exemplos do que Monteiro é capaz de fazer com as palavras. E com sua imaginação, que criou o reino doce do sítio. 72 O Poço do Visconde O livro é um aviso para os brasileiros aproveitarem a riqueza do subsolo, antes de mais nada. A obra mistura Ciência com fantasia. Lobato considera que o primeiro poço de petróleo foi aberto no Sitio do Picapau Amarelo, em 1937/1938. Lobato descarrega todas as suas opiniões sobre a dependência econômica do Brasil em relação aos EUA, por causa do petróleo. O primeiro campo produtor de petróleo no Brasil só foi perfurado em 1941. Na época em que Monteiro Lobato escreve o “Poço”, havia uma discussão sobre nacionalizar os bens do subsolo. Outras tentativas de localizar petróleo em 1897 teriam encontrado só água sulfurosa, de acordo com a Petrobrás. Considerando o conteúdo, é uma aula de Geologia para as crianças – explica desde rochas metamórficas até o tipo de equipamento utilizados para furar a terra. Além de visconde (suponho que Lobato escreva sempre visconde em caixa baixa porque ele é o menor dos personagens – um sabugo de milho), o cientista Capítulo 4 da história tem a responsabilidade de trazer informações na maioria dos casos. Em qualquer perfuração profunda observa-se muito bem esse fato. O termômetro, que é o instrumento de medir temperatura, sobe de um grau a cada 25 metros de descida. Nessa marcha, a dois ou três quilômetros de fundo temos a temperatura da água em ebulição; e a trinta ou quarenta quilômetros temos a temperatura em que os metais se derretem (LOBATO, 1ª ed. 1937, 1952:10) Lobato arrisca ainda profetizar onde o Brasil abriria poços de petróleo. Mas o primeiro, foi no Sítio, o Caraminguá nº 01. E foi este que trouxe o Brasil para a era do desenvolvimento. Ele pode não ter furado o poço, mas pelo menos para a formação das crianças, ele foi um importante explorador. Conhecimento adquirido: origem da Terra; rochas sedimentares, igneas e metamórficas; formação dos mares, oceanos e rios; erosão; minerais; origem da vida; fósseis; matéria orgânica e matéria inorgânica; formação dos golfos; química (hidrocarbonetos); formação das terras do Brasil; ferrugem (oxidação); pressão atmosférica; formação do petróleo; história do petróleo; função do petróleo – para quê serve; força (elétrica, mecânica, eólica, etc); eras primitivas da Terra (Azóica, Paleozóica, Mesozóica, Cenozóica, Quaternária); materiais para retirada de petróleo e sistemas de perfuração do solo (sondas, trepanos, batagens, etc); produtos derivados de petróleo; pirataria de petróleo Fórmulas Múltiplas de Arte 73 Viagem ao Céu O livro de Monteiro Lobato é uma viagem ao conhecimento astronômico. A linguagem é completamente diferente da utilizada por Júlio Verne em “Da Terra a Lua”. Enquanto a viagem de Verne é possível, a de Lobato fica somente no campo da imaginação, nem por isso é menos interessante. Neste livro, visconde pouco aparece. Fica a cargo de Dona Benta fornecer as explicações. E é justamente o que não falta: (das falas de Dona Benta) Um dos maiores sábios do mundo foi Galileu, o inventor da luneta astronômica, graças à qual afirmou que a Terra girava em redor do Sol. (LOBATO, 1ª ed. 1932, 1971:21) Olhem lá aquelas quatro formando uma cruz. É a constelação do Cruzeiro do Sul. Constelação quer dizer um grupo de estrelas. Esta constelação do Cruzeiro é a de maior importância para os povos que vivem do equador para o sul, como nós. Tem a mesma importância da célebre constelação da ursa Maior para os povos que vivem ao norte do equador, como os europeus e norteamericanos. O Cruzeiro do Sul é o nosso relógio noturno. No dia 15 de maio de cada ano essa constelação fica bem a prumo sobre as nossas cabeças, como o sol ao meio-dia, e então sabemos que são exatamente 9 horas da noite. (LOBATO, 1ª ed. 1932, 1971:25) Capítulo 4 Fórmulas Múltiplas de Arte Pedrinho ainda cita Robinson Crusoé, por causa da explicação de Dona Benta acima. Ele diz que o personagem via o Cruzeiro, porque a ilha dele era a de Juan Fernández, que fica ao sul do Equador, perto das costas do Chile. Portanto, Lobato não se limita somente às Ciências a que o livro se propõe. Vai muito mais além. Em determinado momento, cita Júlio Verne, quando São Jorge conversava com as crianças: 74 O santo [São Jorge] admirou-se da maravilha e disse: - Estimo muito, mas saiba que inúmeros homens têm tentado vir à Lua e bem poucos o conseguiram. O último veio dentro de uma bala de canhão, num tiro mal calculado. A bala passou por cima da Lua e ficou rodando em redor dela. Não sei quem foi esse maluco. - Eu sei! – gritou Pedrinho. Foi um personagem de Júlio Verne, no romance DA TERRA A LUA. Vovó já nos leu isso. (LOBATO, 1ª ed. 1932, 1971:46 e 47) Além de todas essas explicações, Lobato preocupa-se em explicar as origens das palavras, a Geografia do mundo, e até mesmo a história de Napoleão. Uma história muito interessante é do cometa Biela, que se separou às vistas dos homens em 1846. Pedrinho fala sobre o acontecido, que mais parece ter saído de um livro de ficção mesmo. A fantasia está presente em todos os minutos, desde o pó de pirlimpimpim, que faz com que as crianças possam viajar pelo Universo, até cavalgar em cometas e pegar estrelas com as mãos. Coisas de criança, que qualquer uma daqui da Terra gostaria de fazer. Capítulo 4 Conhecimento adquirido: Sócrates; Giordano Bruno; constelações (Ursa Menor, Escorpião, Leão, Peixes, etc); princípios da gravidade e gravidade lunar; definição de planeta; idade dos astros; dias lunares; geografia lunar; origem das crateras da Lua; geografia mundial – localização dos países e relevos importantes, como as Rochosas; citação dos planetas do sistema solar; distância entre Marte e a Terra; condições e geografia de Marte; Luas de Marte; definição de nebulosa; informações sobre a Via Láctea; dados sobre o Sol; número de estrelas que vemos no céu (40 bilhões de estrelas); diferença de cósmico e cômico; definição e cometas; definição de órbita; informações de Vênus, Mercúrio, Júpiter, Saturno, Urano, Netuno, Plutão; luas e anéis de Saturno, definição de sistema planetário; história da aparição do cometa Halley; importância da matemática na astronomia Fórmulas Múltiplas de Arte 75 A História das Invenções Neste livro, Lobato coloca a história e evolução do homem às vistas do leitor. Lembra o início de “O Método Científico”, de Leopoldo de Meis e talvez “A Estrela da Manhã”, da Cia Fábula da Fíbula. Desta vez a participação do visconde também é discreta. Tudo é contado por Dona Benta, a sábia avó de Pedrinho e Narizinho. Lobato aproveita alguns momentos para analisar a Ciência e a Arte da humanidade. A porcentagem dos inventores, pintores, músicos e artistas de outros tipos é mínima. Em cada cem homens haverá um desse gênero, de modo que ele tem sempre contra si os noventa e nove restantes. O menos que esses noventa e nove dizem do um por cento que não pensa como eles, é que são loucos. E são mesmo aloucados. O fato de sacrificar a vida para benefício futuro dos noventa e nove por cento dos ingratos, é coisa mesmo de louco. Mas, que há de fazer? Seu destino é produzir invenções de obras de arte, assim como o destino duma roseira é produzir rosas. (LOBATO, 1ª ed. 1935, 1969:106) Fórmulas Múltiplas de Arte O livro mantém sempre a linha de falar das invenções ligando aos órgãos do corpo. A teoria de Lobato é de que o homem só inventou coisas para aumentar o poder dos sentidos. Capítulo 4 Lobato ainda inclui informações de inventos recentes: - Podemos até transmitir daqui para a Europa um desenho, uma imagem qualquer. Como? Pelo telefone. Ali na Enciclopédia Britânica há a reprodução duma vista fotográfica transmitida da cidade de Cleveland, nos Estados Unidos, para a de Nova Iorque. Perfeita. Pura maravilha. E esse serviço já está organizado por lá. Um banqueiro de Londres que quer transmitir com urgência um documento para Nova Iorque, chega à estação telefônica e manda transmitir o documento fotograficamente. Instantes depois a cópia iqualzinha está em Nova Iorque. (LOBATO, 1ª ed. 1935, 1969:106) Lobato se referia ao fax, que havia sido inventado no final do século XIX. Porém, a invenção sempre demora um tempo até chegar a ser utilizado por um 76 grande público. Quem dirá no Brasil, no começo do século XX, quando os meios de comunicação eram ainda rudimentares perto dos atuais. Mas o que são eles diante do fascínio dos livros? Que ensinam e informam há muito tempo, que acolhem as Ciências dentro de suas páginas e que registram as mais recentes descobertas? Ao livro, a Ciência agradece, por guardar as gerações futuras as pesquisas do conhecimento humano. Nas cores e formas das Artes Plásticas A persona O curriculum vitae de Leonardo da Vinci (1452-1519) seria, aos moldes de hoje, do tamanho de um livro. Leonardo foi arquiteto, mecânico, urbanista, engenheiro, pintor, fisiológo, químico, escultor, botânico, geólogo, cartógrafo, físico, matemático, geômetra, precursor da viação, da balística, da hidráulica, inventor Capítulo 4 do escafandro, do pára-quedas e do isqueiro. É a Arte e a Ciência em pessoa. Pelas suas habilidades, percebe-se que a Ciência estava para ele como o ar está para nós. Curiosamente, foi como artista que obteve reconhecimento em vida. E mesmo quando encarnava o artista, não deixava o cientista de lado. Quando Conhecimento adquirido: evolução do homem; invenção das roupas e tecidos – algodão, seda, linho; invenção das casas; invenção do fogo; invenção do fósforo; agricultura, explicação do que é nômade, aparecimento de ferramentas – martelo, machado, lâminas, enxada, escafandro, alavanca, corda, roda, roldana, vasilhas, cerâmica, porcelana, vidro, chaves, armas, rede de pesca, anzol, ratoeiras, arco e flecha, pilão, moinho, máquina a vapor, navios, locomotivas, teares, petróleo, eletricidade, canhão, automóvel, trenó, avião, pontes, trem, navio, canoa, vela, balão, dirigíveis, linguagem, megafone, faróis, telefone, telégrafo, escrita, alfabeto, fotografia, cinema, microfone, cornetas acústimas (surdos escutam alguma coisa), estetoscópio, velas, gás, óculos, telescópio, microscópio; crítica em favor do progresso; inventores: Watt, Hertz, Da Vinci, Santos Dumont, Fleming, Morse (pintor americano, inventou o telégrafo elétrico), Graham Bell, Galileu Fórmulas Múltiplas de Arte pintava, desenvolvia um projeto, um esboço ou um estudo prévio para a obra. Isso era uma inovação para a época. Naqueles tempos, os pintores usavam o traço direto na tela, o que impedia correções. Com apenas meia dúzia de quadros - os únicos que podem ser atribuídos com toda a certeza e exclusividade a ele – conseguiu ser um marco na pintura. 77 Muitos ele deixou inacabados. Até hoje, críticos discutem se era de Leonardo a obra “A Ceia”, o quadro mais reproduzido da História da Arte. O seu quadro mais famoso, Mona Lisa, foi concluído em 1507 (suas obras possuem cronologia mal estabelecida). Para retratar o sorriso enigmático mais famoso da Arte, Leonardo empregou músicos e cantores para Leonardo da Vinci entretê-la durante as sessões. Ironicamente, o quadro é conhecido como La Gioconda, e não somente pelo marido de Lisa ter por sobrenome Giocondo. La Gioconda é um trocadilho, que significa em italiano, a alegre. Para deixar suas obras tão próximas da realidade, era natural que tivesse muitos conhecimentos de anatomia. O pintor realizou estudos sobre o esqueleto, desenvolvimento embrionário, ossos, órgãos – inclusive os órgãos dos sentidos, além de analisar o desenvolvimento do corpo de crianças, homens e mulheres. Fórmulas Múltiplas de Arte Além disso, dissecava cadáveres ... Capítulo 4 Assinala também, num desenho de crânio cortado em plano vertical mediano, um estudo de dentes, deixando bem preciso o caráter do seio maxilar, redescoberto cem anos mais tarde (SOMOGY, 1965:74) Aprendeu latim e grego, estudou zoologia, hidrologia, aerologia, música e canto; tocava alaúde e temeu que os homens utilizassem o escafandro para “assassinar o fundo dos mares”. (é notável como já conhecia a natureza humana; foi o que aconteceu com a bomba atômica e com o avião). Também era investigador do campo da ótica e da física atmosférica. Observava as modificações de cor e da nitidez das formas na visão a longa distância. Sugeriu a perspectiva atmosférica e a graduação da luz denominada “sfumato”. Para ele, as imagens baseadas na 78 Leonardo da Vinci realidade não eram só admiráveis na estética, mas motivadas pela extrema precisão científica. É bem verdade que antes dele, outros artistas se interessaram pelas Ciências: Brunelleschi (1377-1446), meio século antes inventou a perspectiva e interessou-se pelos problemas da gravidade e da mecânica. “Os famosos projetos de Leonardo não passam de variações interessantes dos de Bramante (14441514)” (SOMOGY, 1965:75). De qualquer forma, foram as quatro mil folhas de rascunhos de Da Vinci que ainda conservam a experimentação do Renascimento, desde tratados de pintura, escultura e Arquitetura, à cartografia e mecânica. E é fato que Leonardo, através da sua Gioconda, popularizou a Arte e a Ciência, e resistiu ao tempo, até chegar aos nossos dias. Fórmulas Múltiplas de Arte São obras dotadas de poderoso efeito, algumas delas causando, junto à população renascentista, impacto tão grande quanto as imagens da mídia atual. Consta que o cartão Sant’ana, a Virgem e o Menino (1501, Galeria Nacional de Londres) motiva filas para a sua visitação, logo depois de sua execução. (AJZENBERG, 1995:12,13) Que façam filas de visitação à frente da Mona Lisa. E que sirvam de Capítulo 4 inspiração para as novas gerações, como Mauricio de Sousa vai explicitar mais adiante. Ao pintor, que se manteve vivo nas cores da sua obra. Conhecimento adquirido: perspectiva, hábitos e cotidiano da época do Renascimento, proporções corporais, escafandro, isqueiro, páraquedas e outros inventos, estudos que colaboraram com outros inventos ou descobertas na medicina 79 As artes no parque A Oca do Parque Ibirapuera em São Paulo traz a arte de outrora para os dias de hoje. Desde a exposição do aniversário de 500 anos de descobrimento do Brasil, a Mostra do Redescobrimento, uma série de exposições apresenta a arte através dos tempos mais longínquos até aos atuais. Quem realiza a programação das exposições é uma instituição independente, sem fins lucrativos. A BrasilConnects procura preservar, apoiar, celebrar e disseminar os bens culturais e ecológicos do Brasil. Muitos assuntos já foram abordados, mais de 50: de Aleijadinho a leituras cartográficas históricas; de arte milenar chinesa ao Cangaço e à arte popular. Tudo para mostrar o Brasil para o mundo e o mundo para o Brasil, segundo Jose Fórmulas Múltiplas de Arte Augusto Zanforlim Porto, gerente de comunicação e marketing da Brasil Connetcs. A instituição possui uma política de democratização da arte. Além de deficientes físicos, crianças com menos de 6 anos e idosos acima de 65 anos não pagarem entrada, e estudantes e crianças entre 6 e 12 anos pagarem meia, Capítulo 4 durante uma semana da exposição, todos entram de graça. Normalmente as exposições na Oca têm uma semana promocional gratuita oferecida pela BrasilConnects e pelos patrocinadores como forma de democratizar e facilitar ainda mais o contato do público com a arte e com as nossas realizações (PORTO, 2004 16). Ao todo, as exposições atraíram 80 empresas patrocinadoras, 150 milhões de reais em mídia espontânea e foram visitadas por cerca de 5 milhões de pessoas no Brasil e no mundo, o que possibilitou o contato com os mais diversos assuntos de Ciências Humanas, Exatas, Biológicas e com a Arte, por ela mesma. 16 Entrevista concedida à autora em 23/09/2004 por e-mail Conhecimento adquirido: 100 anos de Moda, Arte Contemporânea Brasileira em Tóquio e Kioto, Arte indígena e arqueologia no Museu Imperial, Picasso, arte pós-guerra, fotografia, Oscar Niemeyer, Barroco, Amazônia e objetos arqueológicos, arte parisiense, aquarelas, Carta de Pero Vaz de Caminha, Cinqüenta anos de TV no Brasil, Modernismo 80 Quadros para Crianças? Arquivo/Antoniolli Assessoria Se existe alguma iniciativa que revitalizou as Artes Plásticas e levou o grande público de volta às galerias de Arte, foi a exposição “Quadrões”, realizada pelos estúdios Mauricio de Sousa. Mauricio pesquisou durante 14 anos, e repintou obras de artistas consagrados com os personagens da turminha. A idéia surgiu quando o desenhista visitava ao Masp, no final dos anos 80, e observou jovens copiando o quadro Rosa e Azul, de Renoir (18411919). Algum tempo depois, quando visitava o Museu do Louvre, a mesma coisa aconteceu com Mona Lisa. O que começou com uma brincadeira - as primeiras pinturas só eram vistas nas paredes dos corredores dos estúdios – terminou em coisa séria. A exposição já foi vista por quase um milhão de pessoas. Ao todo, são 49 obras Fórmulas Múltiplas de Arte dos mais diversos pintores da História, e uma escultura: O Pensador de Planos Infalíveis – com o Cebolinha – numa releitura de O Pensador, escultura de Auguste Rodin (1840-1917). Capítulo 4 Devido ao sucesso do projeto, outra exposição está sendo montada com previsão para 2006, somente com obras de pintores das Américas. Mauricio acha que as Artes Plásticas são pouco incentivadas no país. Imagina que poderíamos estar em melhores condições, e que falta divulgação para a população em geral. Em oposição a este contexto, a exposição já passou pelas cidades de São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba, Salvador, Brasília, Belo Horizonte, Goiânia e Recife. Há planos da exposição chegar a Paris e algumas cidades dos Estados Unidos. A entrada sempre foi gratuita, aberta a todo o público. Mauricio afirma que em 81 alguns casos teve que insistir bastante para que os museus mantivessem a política. Adultos e crianças têm prestigiado o trabalho: “Nossos padrões artísticos têm alcançado ambos. Felizmente ”. 17 A temática foi baseada nas pinturas de renome: Nessa primeira exposição escolhi as obras mais conhecidas e divulgadas junto ao grande público. Fui buscar os quadros mais famosos da pintura européia para atender aos objetivos de uma divulgação mais facilitada. (SOUSA, 2004 18) Só para se ter uma idéia da relevância do projeto, todo o público teve acesso gratuito a obras de Renoir, Pedro Américo (1843-1905), Van Gogh (1853-1890), Leonardo da Vinci (1452- Mauricio de Sousa, 1989. Magali e Mônica de Rosa e Azul. Acrílica sobre tela, 115 X 95 cm 1519), Monet (1840-1926), Manet (1832-1883), Degas (18341917), Anita Malfatti (1889-1964), Michelangelo (1475-1564), Goya (1746-1828), Rembrandt (1606-1669), Gauguin (18481903), Portinari (1903-1962), Velázquez (1599-1660), Albert Pierre-Auguste Renoir, 1881. Rosa e Azul, Óleo sobre tela, 119 X 74 cm. Assis Chateaubriand, São Paulo - SP Fórmulas Múltiplas de Arte Eckhout (1610-1666), Botticelli (1445-1510), Almeida Júnior (1850-1899), Di Cavalcanti (1897-1976) e muitos outros. Todas as obras tinham uma Capítulo 4 réplica da original para comparação. No meio do caminho – como diria Drummond, o público tem acesso a obras dos mais diferentes períodos, como o Renascimento de Leonardo da Vinci e Michelangelo, chegando ao Modernismo, na figura de Anita Malfatti e Di Cavalcanti. Há uma obra, por exemplo, de Pedro Américo, “Independência ou Morte”, que remete a um dos fatos mais importantes da História do Brasil. 17 e 18 Entrevista concedida à autora em 15/09/2004, por e-mail Almeida Júnior, 1893. Caipira picando fumo. Óleo sobre tela, 202 Mauricio de Sousa, 2000. Chico tirando X 141 cm. Pinacoteca do Estado de palha de milho. Ácrílica sobre tela, 164 São Paulo, São Paulo X 125 cm 82 Outras, como é o caso de O Mestiço (Primo Mestiço do Jeremias) destaca a representatividade e a mistura do negro na população brasileira. Ou ainda o trabalho no campo, tão importante na economia do país até os nossos dias, e o caipira (como o Jeca Tatu de Lobato) em Caipira picando Fumo (Chico tirando palha de milho - na página anterior). E por último, ainda podemos destacar a pintura de Michelangelo, A Criação de Adão. O pintor estudava anatomia, dissecava cadáveres e fazia desenhos com modelos para retratar pessoas nas telas com todos os seus movimentos. Na versão do desenhista, A Mauricio de Sousa, 2001. Primo Mestiço do Jeremias. Acrílica sobre tela, 135,3 X 116 cm Cândido Portinari, 1934. Mestiço. Óleo sobre tela, 81 X 65 cm. Pinacoteca do EStado de São Paulo, São Paulo Fórmulas Múltiplas de Arte Criação do Cebolinha. Tantas pinturas recordam um passado repleto de Arte e História. E falam sobre o pensamento do homem a cada Capítulo 4 época em que foi realizado. Digamos que é a evolução do pensamento humano Mauricio de Sousa, 1994. A Criação do Cebolinha. Acrilica sobre tela, 109 X 209 cm contada em forma de imagens. Incentivar a divulgação das artes, como fazem alguns poucos, é valorizar o patrimônio Michelangelo, 1510. A Criação de Adão. Afresco, 570 X 280 cm. Cappela Sistina, Pallazo del Vaticano, Cidade do Vaticano, Roma histórico da humanidade. Ter uma visão geral da produção artística forma culturalmente um público crítico. E essa também é a intenção das Ciências Humanas. Conhecimento adquirido: Períodos da história, pinturas famosas, Renascimento, Modernismo, características do povo brasileiro, fatos importantes da História do Brasil (como a Independência) 83 Luz, câmera, ação! - O Cinema O Cinema é um grande divulgador científico, e também trabalha com sonhos. Talvez por este motivo seja tão bom para contar histórias. Algumas vezes, o cinema deixa a desejar: passa informações incorretas pelo bem da trama. Mesmo assim, os benefícios podem ser vistos de perto. O critico de Cinema Celso Sabadin analisa que a formação sempre existe. Eu diria que o cinema ajuda na formação cultural do público. Tanto para o bem, como para o mal. Se o sujeito passa a vida toda vendo filmes sem conteúdo, ele está se submetendo a uma formação cultural vazia. E, por outro lado, se a pessoa se propõe a ver filmes de alto nível cultural, ela está colaborando para ser uma pessoa melhor. Mas o cinema, sozinho, não faz muita coisa. (SABADIN, 2004 19) No entanto, o cinema tem um alcance imenso: existem filmes direcionados a crianças, idosos, mulheres, homens, gays, e mais uma infinidade de público que não se consegue enumerar. Não há público que não seja representado. Como se não bastasse, ainda existem os documentários, dramas, comédias, aventuras, desenhos animados, musicais, biografias, tudo para todos os gostos. Isso explica porque a indústria cinematográfica cresce tanto. O cinema é uma dos poucos que agrada gregos e troianos, Capítulo 4 Sabadin é jornalista especializado em crítica cinematográfica desde 1980. Já trabalhou em veículos como Folha de S. Paulo, Folha da Tarde, O Estado de São Paulo e Istoé. Atualmente é crítico do site Cineclick (cineclick.com.br) e da TV CBI. Fórmulas Múltiplas de Arte graças a sua mobilidade e facilidade de adaptar-se a todas as situações. O cinema nasceu de uma outra Arte, a Fotografia. Até mesmo o título deste tópico – Luz, Câmera, Ação -, se analisarmos ao pé da letra, tem os princípios da foto – a luz, formadora de imagens, e a câmera – aquela que capta. A Ciência na fotografia nem sempre é popularizada. As fotos de Ciência disponíveis ao público se limitam, na sua maioria, às fotos do espaço – às descobertas da Nasa, fotos do planeta vermelho, fotos das crateras da Lua, a formação de uma 19 Entrevista concedida à autora em 01/10/2004, por e-mail 84 nebulosa, o nascimento de uma estrela e por aí vai. Revistas como a Superinteressante e Galileu são recheadas de fotos, mas pouco se vê de trabalhos fotográficos que somente pela imagem faz com que um público leigo entenda um conteúdo. Funcionam apenas como ilustração. A popularização pelo simples uso da foto ainda é discreta. Porém, se considerarmos que sem a foto, não existiria o cinema, a fotografia tem papel fundamental na Divulgação Científica. A sua participação é acoplada ao cinema. Aliás, o cinema é uma parceria de diversas artes: a fotografia, para a filmagem; a literatura, para realizar o roteiro; o teatro, na interpretação dos atores; a dança e a música no caso de musicais; artes visuais, para os efeitos especiais e realizados no computador; e as artes plásticas para a construção dos cenários. O cinema é a mistura de todas elas, por isso foi a última a ser criada. O homem precisava do embasamento e do aprendizado nas outras Artes para a criação do cinema. Quando se começa a enumerar os filmes que de alguma forma ensinam, Fórmulas Múltiplas de Arte nem que seja sobre um capítulo da história; as galáxias do Universo; ou uma simples citação de um escritor famoso; perde-se de vista devido a infinidade de Capítulo 4 filmes que utilizam a Ciência em seus roteiros. Neste trabalho enumeramos alguns; é claro que muitos deles pecam em algum momento no conteúdo, mas os benefícios que eles proporcionam justificam as falhas. Na pior das hipóteses, incentiva o público a estudar o tema para ver se o filme retratou corretamente. No meio do caminho, o público já aprende o conteúdo. O cinema também é um recurso de fácil utilização para a Educação. Basta um vídeo e uma TV. Para uma visualização melhor da imensidão do cinema, fizemos uma pequena lista daqueles direcionados a conteúdos científicos, seja nas Humanas, Exatas ou Biológicas. Claro, sem a pretensão de listar todos os filmes que formem o público: 85 Históricos: Capítulo 4 Tempos Modernos - 1936 Hércules - 1997 Diretor: Charles Chaplin Diretor: Ron Clements e John Musker Assunto: Revolução Industrial Assunto: Mitologia grega O Grande Ditador - 1940 Amistad - 1997 Diretor: Charles Chaplin Diretor: Steven Spielberg Assunto: crítica a nazi-fascismo Assunto: Escravidão Ben-Hur - 1959 Mulan - 1998 Diretor: William Wyler Diretor: Tony Bancroft e Barry Cook Assunto: Escrituras sagradas Assunto: Lenda chinesa A noviça rebelde - 1965 Gladiador - 2000 Diretor: Robert Wise Diretor:Ridley Scott Assunto: Holocausto Assunto: Império romano O nome da Rosa - 1986 Pearl Harbor - 2001 Diretor: Jean-Jacques Annaud Diretor: Michael Bay Assunto: Idade Média Assunto: Ataque japonês a base americana A Lista de Schindler - 1993 A Era do Gelo - 2002 Diretor: Steven Spielberg Diretor: Chris Wedge Assunto: Holocausto Assunto: Formação da Terra/ Era Glacial Carlota Joaquina - 1995 O pianista - 2002 Diretor: Carla Camurati Diretor: Roman Polanski Assunto: História do Brasil (D. João VI) Assunto: Segunda Guerra Mundial O Quatrilho - 1994 A Paixão de Cristo - 2004 Diretor: Fábio Barreto Diretor: Mel Gibson Assunto: Imigração no Brasil Assunto: Escrituras sagradas Guerra de Canudos - 1997 Tróia - 2004 Diretor: Sérgio Rezende Diretor: Wolfgang Petersen Assunto: Episódio da História brasileira Assunto: Guerra entre gregos e troianos Titanic - 1997 Diários de Motocicleta - 2004 Diretor: James Cameron Diretor: Walter Salles Assunto: Acidente de transatlântico Assunto: Viagem de Che Guevara Fórmulas Múltiplas de Arte 86 Adaptações Literárias 20.000 Léguas Submarinas - 1954 O Auto da Compadecida - 2000 Diretor: Richard Fleischer Diretor: Guel Arraes Assunto: baseado no texto de Júlio Verne Assunto: adaptação do texto de Ariano Volta ao Mundo em 80 dias - 1956 Suassuna Diretor: Michael Anderson, Kevin McClory Caramuru – a invenção do Brasil - 2001 e Sidney Smith Diretor: Guel Arraes Assunto: baseado no texto de Júlio Assunto: baseado no texto de Santa Rita Verne Durão Gabriela – 1983 Rei Artur - 2004 Diretor: Bruno Barreto Diretor: Antoine Fuqua Assunto: texto de Jorge Amado Assunto: sobre a lenda inglesa Ficção Científica Capítulo 4 Guerras nas Estrelas - 1977 Trilogia de Jurassic Park - 1993/1997/2001 Diretor: George Lucas Diretor: Steven Spielberg (os dois primeiros) Assunto: Viagens espaciais e Joe Johnston (o último) Trilogia De Volta para o Futuro Assunto: Experiências genéticas com dinossauros 1985/1989/1990 O Dia Depois de Amanhã - 2004 Diretor: Robert Zemericks Diretor: Roland Emmerich Assunto: Viagens no tempo Assunto: Conseqüências da destruição da natureza Fórmulas Múltiplas de Arte Biológicos Rei Leão - 1994 Osmose Jones - 2001 Diretor: Roger Allers e Rob Minkoff Diretor: Peter Farrelly e Bobby Farrelly Assunto: Ciclo da vida Assunto: Infecção viral Gattaca - Experiência Genética - 1997 Procurando Nemo - 2003 Diretor: Andrew Niccol Diretor: Andrew Stanton Assunto: Experiências genéticas Assunto: Fauna e flora Marinha 87 Crítica Social Cidadão Kane - 1941 JFK – 1991 Diretor: Orson Welles Diretor: Oliver Stone Assunto: História de um garoto pobre Assunto: Assassinato do presidente do interior que se transforma em um Kennedy magnata de um dos impérios de O Show de Truman - 1998 comunicação Diretor: Peter Weir Todos os homens do presidente - 1976 Assunto: Mídia e os realites shows Diretor: Alan J. Pakula O Informante - 1999 Assunto: Caso Watergate e governo de Diretor: Michael Mann Richard Nixon Assunto: Mídia e a indústria do tabaco Biografias Capítulo 4 Amadeus - 1984 Uma Mente Brilhante - 2001 Diretor: Milos Forman Diretor: Ron Howard Assunto: Vida de Mozart Assunto: Vida de Jonh Nash, vencedor do Infinity - 1996 Prêmio Nobel de Economia em 1994 Diretor: Matthew Broderick Olga - 2004 Assunto: Richard Feynman Diretor: Jayme Monjardim Shakespeare Apaixonado - 1998 Assunto: Ditadura Militar no Brasil Fórmulas Múltiplas de Arte Diretor: John Madden Assunto: Sobre o escritor inglês Sabadin explica os motivos dessa incrível parceria entre o cinema e a Ciência: Tanto cinema como a Ciência são fascinantes. E o mundo inteiro produz um média de 2 mil filmes por ano! Haja assunto, né? E a Ciência é uma gigantesca fornecedora de assuntos dos mais interessantes para os cineastas. (SABADIN, 2004 20) 20 Entrevista concedida à autora em 01/10/2004, por e-mail 88 Devido a este fato, escolhemos, aleatoriamente, alguns para comentar, desde que discutam conceitos sobre Ciência. Outros iremos apenas citar. Aconchegue-se na poltrona, a película já está rodando... Claquete, cena 1: Osmose Jones Este filme já inova ao fazer do mocinho da história um leucócito (a célula branca do sangue responsável pela defesa do organismo). É criativo ao misturar filme com desenho animado. Inteligente ao fazer uma comédia: brinca com os órgãos do corpo, explica suas funções. A identificação do público torna-se imediata: todos têm cérebro, bexiga e garganta. Além disso, são três os públicos satisfeitos - os que gostam de filmes sobre o corpo humano; os que gostam de desenho animado e os que gostam Osmose Jones/Warner Bros. Fórmulas Múltiplas de Arte de comédias. Logo no início do filme, ainda quando passam os créditos da produtora e dos estúdios, o público vê uma imagem Capítulo 4 que simula a natureza microscópica, fazendo menção ao roteiro. A primeira cena do filme é responsável por toda a trama. O protagonista, Frank (interpretado por Bill Murray), pai de uma garota de 13 anos, Shane, encontra-se com ela no zoológico, muito próximo da cela do macaco. Numa das primeiras falas de Shane, a menina conta ao pai que, geneticamente, os macacos são nossos primos em primeiro grau, e que se alimentam melhor do que os humanos (fazia referência ao pai). 89 Quando Frank iria comer um ovo, o macaco o rouba e tenta comê-lo também. Neste momento, Frank briga com o macaco, até o ovo cair no chão. Frank pega o ovo e o come, apesar da insistente tentativa da filha de avisá-lo para não comer. Frank está infectado e doente. Esta simples cena lembra o público do cuidado com a alimentação e higiene. Não precisou necessariamente ter um conteúdo científico profundo. Ensinou, mais ainda do que aquela mãe que tenta por inúmeras vezes fazer o filho lavar as mãos antes das refeições. Depois disso, nasce uma história nova, a história de dentro do corpo de Frank, que o filme chama como “Cidade de Frank”. O corpo todo é uma metáfora de uma cidade. O cérebro é a prefeitura; a bexiga é uma espécie de porto; as artérias e veias são como as ruas da cidade. Assim que o ovo entra na boca de Frank, o “barco da saliva” entra em ação. Lá já se encontram os germes que Frank comeu junto com o ovo. Fórmulas Múltiplas de Arte Este é outro exemplo claro de que a comédia ajudou a explicar uma lição de moral que dificilmente as crianças gostam de ouvir. Não é o única: (retirado do filme legendado): “Atenção células de gordura, dirijam-se para os Capítulo 4 pneuzinhos. Obrigada” ou “Pneuzinhos, o bairro que mais cresce em Frank” É fato que o corpo possui reservas de gordura. A informação foi trabalhada de modo que seja divertido entender de Biologia. Depois que o ovo entra com os germes e com o vírus no corpo de Frank, outras situações são descritas que informam as funções dos órgãos e o que ocorre no corpo humano. Seguem algumas explicadas no filme: - Pedras nos rins são expelidas; 90 - As células brancas – que são a “polícia” - Osmose Jones/Warner Bros. perseguem os vírus, que são os “bandidos”; - Vírus mata célula branca; - Estômago tem conexão com o cólon; - Há um “vírus amigo” (palavras do filme), que veio numa vacina contra a gripe; - Leucócito tem estrutura celular maleável (o que faz o personagem mudar de forma); - Remédio chega pelo estômago e depois de realizar sua função, sai pela urina; - Álcool mata vírus; - A glândula hipotálamo, que se localiza no cérebro, controla a temperatura do organismo. Fórmulas Múltiplas de Arte Algumas merecem um comentário a mais: num determinado momento do filme, o leucócito que está atrás do vírus e o remédio que Frank tomou para curar Capítulo 4 a gripe, Osmose Jones e Drix (que possui cheiro de cereja, numa metáfora sobre os remédios da atualidade que possuem sabores e cores), chegam ao nariz. Depois do remédio perguntar o que estava acontecendo por ali, Jones explica: “Só estão cobrindo o pó de meleca”. Além de explicar a função da “meleca” presente no nariz humano, ele utiliza disso como uma ponte para avisar Drix que Frank é alérgico a pó. Algo muito natural no organismo humano. Toda vez que aparece o pó, Frank espirra. Os próprios leucócitos têm cuidados redobrados com ele. Outra cena interessante é da perseguição do vírus. A “Cidade de Frank” teria, supostamente, um telejornal que narrava a correria. O apresentador do jornal 91 localiza o telespectador informando “há uma perseguição na veia cava superior”. Ou seja, por mais ruas que pareçam as veias e artérias de Frank, o nome correto foi informado. Em outro momento da trama, os microorganismos da “Cidade de Frank” se atentam para bolachas em formato de ursinho que chegaram ao estômago. Outra crítica sobre a quantidade e criatividade de alimentos que possuímos nos supermercados, e a má alimentação. Uma informação da película, porém, não foi feliz. Quando o vírus chega ao hipotálamo, destrói algumas partes com o intuito de aumentar a temperatura do corpo. Porém, os vírus não têm este poder. A temperatura do corpo aumenta com o objetivo de proteção, é uma estratégia de defesa do próprio organismo. A mudança de temperatura procura retirar o vírus do ambiente que é agradável Fórmulas Múltiplas de Arte para o seu desenvolvimento. Mas ainda assim, os benefícios, visto todas as informações do filme, são evidentes. O filme ainda reserva tempo para citar Titanic. No momento em que Frank se encontra em estado grave de saúde, alguns organismos do sangue começam a Capítulo 4 tocar instrumentos e comentar falas que remetem ao filme original. O mesmo acontece com o “prefeito” da cidade, que vê pela janela o caos que acontece no corpo de Frank, mas mantém-se na sala, na mesma atitude do comandante do transatlântico. Cenas que informam fatos históricos, na melhor representação da comédia. Conhecimento adquirido: função celular, função dos órgãos, saliva, “meleca” do nariz, urina, funcionamento do corpo, importância da higiene e boa alimentação, a alergia como algo comum, reservas de gordura 92 Claquete, cena 2: Uma Mente Brilhante “Uma Mente Brilhante” deu margens para a discussão da esquizofrenia. O filme abocanhou os Oscares de melhor filme, melhor atriz coadjuvante para Jennifer Connelly, melhor direção e melhor roteiro adaptado. Alguns críticos acreditam que Russel Crowe só não levou a estatueta para casa porque já havia ganho Uma Mente Brilhante / Universal Pictures um ano antes por “Gladiador”. O filme sobre Nash teve uma repercussão de forma que a sociedade passou a entender melhor sobre a esquizofrenia, seus efeitos, sintomas e tratamentos. O filme, como documento, não tem relevância. Muitos fatos da vida de John Forbes Nash Jr foram modificados ou simplesmente ignorados: um filho antes do casamento, o divórcio e um segundo casamento com Alicia, a esquizofrenia do segundo filho, este legítimo, e a esquizofrenia auditiva e não Fórmulas Múltiplas de Arte visual de Nash, apenas alguns para ilustrar. Outros foram modificados, como o período em que a doença surgiu. No filme as alucinações começam no período da faculdade, antes da elaboração da teoria pela qual Nash recebe o Prêmio Nobel de Capítulo 4 Economia décadas depois. Na vida real, a esquizofrenia inicia-se por volta dos 30 anos. O crítico de Cinema Celso Sabadin justifica: A adaptação é inevitável e necessária. É impossível sintetizar a vida de uma pessoa importante em apenas duas horas de filme. O roteiro tem que fazer opções, cortar fatos, resumir informações. Não tem jeito. O cinema é a arte da síntese. (SABADIN, 2004 20) Mas como diz o próprio prêmio recebido, o roteiro é adaptado. Foi baseado na vida de Nash, portanto, não tem compromisso com a veracidade dos fatos. 20 Entrevista concedida à autora em 01/10/2004, por e-mail 93 Segundo Sabadin, o público é sempre manipulado, porque o Cinema precisa de um herói, de uma idealização que foge da realidade. É a adaptação, aos moldes hollywoodianos. Sabadin analisa que o cinema indiretamente incentiva ou ensina ciência. Acredita que um bom filme pode acender a vontade do público de pesquisar mais sobre determinado assunto. O cinema seria como um catalisador do aprendizado. Porém, algumas passagens do filme provam o contrário. Na cena em que Nash finalmente descobre sua idéia original, cita Adam Smith: “Numa competição, a ambição individual serve ao bem comum”. Na seqüência, com os amigos no bar e conversando sobre uma moça loira no final do salão, explica em detalhes a teoria que modificou o mundo da Economia: (trecho retirado das legendas do filme) Capítulo 4 Se todos forem atrás da loira, bloquearemos uns aos outros e nenhum de nós ficará com ela. Vamos atrás das amigas. Elas nos darão gelo. Ninguém gosta de ser a 2ª opção. E se ninguém for atrás da loira? Não obstruiremos uns aos outros e não insultaremos as outras. É a única forma de vencermos. (...) Adam Smith disse que o melhor resultado se obtém quando todos do grupo fazem o melhor para si? Incompleto, incompleto. Porque o melhor resultado virá quando todos do grupo fizerem o melhor para si e para o grupo. Dinâmicas governantes, senhores. Adam Smith estava errado. Fórmulas Múltiplas de Arte O filme então, ensina exatamente como Nash chegou a teoria, e explica de forma simples e didática a teoria revolucionária. E com ajuda de elementos gráficos durante a cena. Efeitos visuais que facilitam o entendimento do público. Esta cena reflete que alguns poucos minutos de artes com conteúdo de qualidade fazem toda a diferença. É nela que se entende o verdadeiro gênio que Nash foi. Da nossa ótica de divulgação científica, a cena vale praticamente pelo filme – salvo a esquizofrenia, claro. Além disso, o filme ainda cita Einstein e Isaac Newton. 94 O jeito como o filme se desenrola, romantizado, como Sabadin coloca, pode ter um efeito positivo. As pessoas se solidarizam com o drama do personagem, sentem suas dificuldades e agonias. A película foi filmada de modo que, em algumas circunstâncias, o público vê o que Nash vê, sem saber o que é ilusão ou não. O público descobre junto com o personagem a doença e luta com ele pela cura. A partir deste filme, é compreensível que a esquizofrenia tenha sido melhor entendida. Não no sentido de conceitos biológicos, psicológicos ou comportamentais, mas no sentido de como um esquizofrênico vê o mundo em que vive. Quando perguntei a Sabadin o que ele tinha achado do filme, ele respondeu: “Interessante, inteligente, me mostrou uma série de coisas que eu não sabia.21” Fórmulas Múltiplas de Arte Ainda no final do filme, a informação – real – colabora para a formação do público: (retirado das legendas do filme, na parte final) “As teorias de Nash influenciaram o comércio mundial, as relações trabalhistas e até mesmo os avanços da biologia evolutiva.” E desta vez, não são sonhos do cinema. Aqui não precisou de romance. Capítulo 4 Conhecimento adquirido: Esquizofrenia, teoria e alguns fatos da vida de Nash, teoria de Adam Smith 21 Entrevista concedida à autora em 01/10/2004, por e-mail 95 Claquete, cena 3: Procurando Nemo A animação da Pixar e dos Estúdios Disney fez uma pesquisa grande para realizar o filme. Foram bem fiéis – salvando alguns deslizes – à Biologia Marinha. Seguem alguns ensinamentos do filme sobre o mundo das águas: - O peixe palhaço mora em uma anêmona - Mostra o modo como o peixe palhaço se protege dos predadores – vai e volta para a anêmona várias vezes. (quando Marlin ensina a Nemo no começo do desenho) - Procurando Nemo/Walt Disney Pictures Fala sobre a CLA – a Corrente Leste Australiana. Esta corrente realmente existe e leva as tartarugas marinhas até a Austrália - Anêmona e águas vivas queimam - Crush (a tartaruga que leva Marlin pela CLA) fala sobre o ciclo de vida Fórmulas Múltiplas de Arte das tartarugas, e da independência dos filhotes. (retirado das falas do filme – “Acham o caminho de volta para a imensidão azul ” – se refere ao caminho das tartaruguinhas depois de eclodirem os ovos) Capítulo 4 - Informa quantos anos vivem as tartarugas marinhas, e que “viajam” freqüentemente - Avisa que bater o dedo no aquário faz um barulho insuportável para os peixes (na cena em que a sobrinha do dentista bate nos vidros do aquário onde está Nemo) - Sidney realmente possui a Opera House, o local que aparece no desenho assim que Marlin e Dori chegam a cidade. É um dos grandes ponto turístico do local 96 - Polvos soltam um líquido preto quando estão em perigo - O PH normal da água é 28° (quando o limpador automático verifica as condições da água do aquário) - Todo o esgoto vai dar no mar Além disso tudo, ainda aparecem no desenho raias, cavalos marinhos, caranguejos, peixes espadas, cardumes de sardinhas, baleias, tubarões, golfinhos, estrelas do mar, pelicanos, peixes com iluminação própria, águas vivas e lagostas. São citados ainda, nas piadas de Marlin e nas canções do Tio Raia, pepinos do mar, políferos, celenterados, moluscos e protozoários. Por mais que o filme não se aprofunde nas características de cada ser vivo, o contato com as diferentes formas de vida já são importantes. Sabadin afirma que os estúdios só utilizaram todas essas informações Fórmulas Múltiplas de Arte para tornar o filme mais atrativo. Contudo, de todos estes animais que aparecem na tela, algum é o preferido da criança, algum tocou mais. E este, a criança vai saber como vive. Vale ainda comentar os nomes de alguns dos personagens. Nemo é, antes Capítulo 4 de ser um peixe palhaço filhote, o capitão de 20.000 léguas submarinas de Júlio Procurando Nemo/Walt Disney Pictures Verne. Os desenhistas ainda colocaram, propositalmente, o nome de Bruce no tubarão branco, em referência ao filme de Steven Spielberg. O robô do tubarão utilizado nas filmagens possuía este nome. No entanto, em alguns momentos o filme fez modificações estruturais de conteúdo. Por exemplo, a fêmea do peixe palhaço é muito maior do que o macho. Na animação se encontram em igualdade. Outro fato é que os filhotes de Marlin e Coral foram atacados por uma barracuda, que não é predador da espécie. São conceitos de apenas uma cena que – se realizados aos moldes da realidade – não 97 modificaria o andar do roteiro. A Coral aparece apenas na primeira cena, poderia ser maior. E realizar o ataque com um predador da espécie não modificaria a trama. Mas foram escolhas da equipe. Novamente, voltamos à adaptação do cinema. Procurando Nemo/Walt Disney Pictures Porém, além dos conteúdos biológicos que o filme aborda, existem outros mais consistentes. Mais para o final do filme, Dori e Nemo são pescados junto com um cardume numa rede. Estavam a ponto de morrer quando Nemo lembrou o que aprendeu com Gill - o peixe com a barbatana machucada do aquário. Começou a falar para todos os peixes nadarem para baixo. Aqui podemos aplicar a teoria de Nash. De início, os peixes pensavam como Adam Smith: “Numa competição, a ambição individual serve ao bem comum”. No entanto, nunca conseguiriam escapar sozinhos. A idéia de Gill era justamente a utilização da Fórmulas Múltiplas de Arte teoria revolucionária de Nash – o melhor resultado virá quando todos do grupo fizerem o melhor para si e para o grupo. Muito possivelmente a idéia do desenho era simplesmente falar sobre o conceito de que “a união faz a força”. Mas aprofundando mais esta questão, Nash também está presente, como disse no Capítulo 4 final de “Uma Mente Brilhante”, na Biologia. Um último conceito que é passado ao público é o fato de Nemo ter uma barbatana atrofiada. O desenho animado revela que os deficientes físicos têm uma capacidade tão igual ou superior a qualquer pessoa com formação corpórea perfeita. O que acontece é, por ele ser um peixe, a ligação entre o peixinho e o ser humano não é feita de modo direto. Não há, pelo menos naqueles desenhos famosos e que estão sempre em evidência, uma animação em que o protagonista seja um deficiente. A Pixar e a Disney acertaram o alvo da cidadania, sem humilhações desnecessárias. Conhecimento adquirido: oceanografia, biologia marinha (espécies de animais), geografia (Sidney/Austrália) 98 Claquete, cena 4: O vídeo-documentário Sabadin garante que a fidelidade ao tema é obrigação única e exclusiva dos documentários. Mas que cada vez mais aparecem documentários manipuladores. Porém, também há aqueles que trabalham em prol da ciência, sendo fiéis e buscando a divulgação científica. Estamos falando do projeto Ver Ciência, hoje em parceria com a TV Cultura. O projeto se iniciou em 1994, com o intuito de produzir documentários científicos e rodar as cidades do país realizando mostras. Dez anos se passaram, e o balanço é muito positivo: 457.000 expectadores, 340 programas internacionais e 180 brasileiros, exibidos em 155 amostras. 35 cidades percorridas, 204 veiculações semanais em rede nacional de TV, para uma audiência média mensal de 2,4 milhões de telespectadores. Fórmulas Múltiplas de Arte Estes números são resultado de duas frentes: o “Circuito Nacional de Mostras” e a série semanal de TV “Ver Ciência”. Vamos nos ater mais ao circuito, que deu origem à ampliação da cobertura através da televisão em 2000. Capítulo 4 Todas as mostras são gratuitas, abertas ao público em geral. Há ainda um tratamento especial para alunos e professores da rede pública, que recebem sessões particulares com atividades interativas. A programação de vídeos das mostras está, na sua maioria, baseada no Festival Internacional “Image & Science”. Hoje, o Ver Ciência se considera engajado pela inclusão social do conhecimento. As Mostras possuem patrocínio do Banco do Brasil, e são exibidas em seus Centros Culturais (BB), que percorrem o país. Há ainda outras 55 instituições parceiras, e o apoio da Petrobrás. 99 Para servir de exemplo, em setembro de 2004, entre os dias 05 e 12, o Ver Ciência produziu mostras em diversas localidades da cidade do Rio de Janeiro: Fundação Planetário, Museu da Vida, Instituto de Ciências Biomédicas, Casa da Descoberta, Clube de Astronomia, entre outras. Nesta mostra, foram exibidos filmes como “O mistério das constelações”, alemão, que explica porque cada constelação tem nomes com figuras que nem são parecidas. Outro foi “O cérebro”, canadense, em que três especialistas explicam seus estudos sobre o órgão humano. Já representando os brasileiros, o vídeo “Vôo ultra-sônico: Morcegos”, da série Globo Ciência, do Canal Futura, informava como os sons emitidos pelos morcegos serviam de guia para a orientação durante o vôo. Estes são apenas alguns dos exemplos. Seguem mais títulos de representantes brasileiros: - Série Globo Ciência, do Canal Futura: Balões (2003) – 27min. Equipe de pesquisadores do Globo Ciência Fórmulas Múltiplas de Arte descobre a importância dos balões na criação e desenvolvimento do transporte aéreo. - Série Globo Ecologia, do Canal Futura: Capítulo 4 Parque da Tijuca (2003) – 27 min. Mostra o trabalho de recuperação da memória do parque integrante da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica, que há mais de 150 anos sofre com ações predatórias. Peixe-Boi Marinho, desafio do litoral nordestino (2003) – 26 min. Única espécie de mamífero aquático brasileiro ameaçado de extinção (sobram cerca de 400 indivíduos), o vídeo conta o sofrimento dos animais com a poluição e assoreamento dos mangues. 100 - Série Micro-Macro, da TV Cultura: Energias Limpas (2003) – 25 min. Apresenta as idéias criativas do ser humano para contribuir com o meio ambiente como fonte de energia: fogão solar, na Costa Rica, bagaço de cana, no Brasil e frutas secas, no Suriname. - Série Expedições, da RW Video: Águas (2003) – 30 min. Traça um panorama da situação da água no Brasil e no mundo, e investiga crimes ambientais. O número de assuntos abordados é gigantesco: Não temos um levantamento quantitativo. Mas praticametne cada programa é um assunto, e como tem sido cerca de 50 programas por ano, creio que devamos ter apresentado cerca de 500 programas nos últimos dez anos, sobre os assuntos mais diversos nos campos da Ciência, da tecnologia, saúde, medicina, meio ambiente, história da Ciência, etc. De “A” de astronomia e antropologia à “Z” de “zoologia”. (BRANDAO, 2004 22) Fórmulas Múltiplas de Arte Segundo Sérgio Brandão, coordenador do Ver Ciência, os vídeos são principalmente documentários e jornalísticos. Os critérios de escolha para um Capítulo 4 vídeo fazer parte do projeto são a qualidade da produção, originalidade do tema central, interesse para o público-alvo do programa – jovens e estudantes, disponibilidade de direitos para o Brasil e custos destes direitos. A cada dia, as parcerias aumentam mais. Além das mostras e do programa de TV, o Ver Ciência tem o incentivo do Ministério da Cultura e fornece material para a TV Escola, do Ministério da Educação, que vem inserindo os vídeos há cinco anos. A programação é veiculada para 35 mil escolas públicas. No Rio de 22 Entrevista concedida à autora em 30/09/2004, por e-mail 101 Janeiro, o “Circuito CECIERJ” e o Centro de Ciências do Estado do Rio de Janeiro vão levar os vídeos a todo o interior do estado. Já em São Paulo, o “Circuito Estação Ciência” apresenta o material para a rede escolar. O projeto só tem crescido. Este ano comemora 10 anos de sucesso com mais conquistas e idéias novas: O simples fato de termos chegado aos 10 anos já é uma grande vitória para nós. O que temos procurado – e foi a maior inovação deste ano – foi termos conseguido que nossos parceiros internacionais nos enviassem seus vídeos em DVD ou em fitas digitais, ao invés de em fitas VHS, o que melhorou sensivelmente a qualidade técnica das projeções em telão. Quanto aos conteúdos, todos os anos temos tido programas excelentes. Estamos pensando em criar um Prêmio Ver Ciência de reconhecimento das melhores produções nacionais e estrangeiras da Mostra. (BRANDAO, 2004 23) E o que a Arte tem a ver com tudo isso? Brandão explica que o trabalho tem, certamente, uma forte componente artística, no campo das artes audiovisuais, Fórmulas Múltiplas de Arte do design gráfico e da comunicação. E garante que, se a Arte é algo que desperta a atenção, o interesse, e o prazer das pessoas, é parte essencial do processo de comunicação, dentre os quais se inclui a popularização da Ciência. E como. Capítulo 4 23 Entrevista concedida à autora em 30/09/2004, por e-mail Conhecimento adquirido: (alguns temas dos vídeo-documentários) câncer, cérebro, deserto da Namíbia, constelações, osteoorose, dinossauros, marimbondos gigantes japoneses, Mal de Parkinson, Mal de Alzheimer, alimentação, morcegos, peixe-boi, insetos, água, obesidade infantil, robótica 102 Pelas rimas da Poesia Drummond, Bandeira e Vinicius A poesia emprestou sua musicalidade e também canta Ciência. Ildeu de Castro, diretor do Departamento de Difusão e Popularização da Ciência do Ministério da Ciência e da Tecnologia, relata que a Ciência e a poesia pertencem a mesma busca imaginativa, embora ligadas a domínios diferentes de conhecimento e valor. “A visão poética cresce da intuição criativa, da experiência humana singular e do conhecimento do poeta. A Ciência gira em torno do fazer concreto, da construção de imagens comuns, da experiência compartilhada e da edificação do conhecimento coletivo sobre o mundo circundante” . 24 Neste trabalho, citaremos apenas alguns poemas, mas que não estarão Fórmulas Múltiplas de Arte abrangendo o corpus que envolve toda a poesia como meio de Divulgação Científica. O universo da poesia que fala de Ciência é infindável. Abaixo, segue trecho de Carlos Drummond de Andrade: Capítulo 4 A suposta Existência Como é o lugar quando ninguém passa por ele? Existem as coisas sem ser vistas? (...) Que fazem, que são Do artigo Poesia na sala de aula de ciências? A literatura poética e possíveis usos didáticos, no site www.educacaopublica.rj.gov.br, acessado em 08/10/2004 24 103 as coisas não testadas como coisas, minerais não descobertos - e algum dia o serão? Estrela não pensada, palavra rascunhada no papel que nunca ninguém leu? Existe, existe o mundo apenas pelo olhar que o cria e lhe confere espacialidade? (...) Eis se delineia espantosa batalha entre o ser inventado e o mundo inventor. Sou ficção rebelada contra a mente Universal e tento construir-me de novo a cada instante, a cada cólica, na faina de traçar meu início só meu e distender um arco de vontade para cobrir todo o depósito de circunstantes coisas soberanas. Capítulo 4 Fórmulas Múltiplas de Arte Drummond coloca em pauta a relação de inventos e descobertas que não existem, e se um dia o homem vai desvendá-las. Entra no mesmo tema enfocado por Gilberto Gil e Arnaldo Antunes, quando questionam o que pode ser uma descoberta, se o objeto estudado já se encontrava no mundo há milênios. Drummond argumenta que há ainda muitas coisas a serem desvendadas. E quantas outras informações não se escondem atrás de uma primeira leitura. Quantas interpretações possíveis, quantas possibilidades Drummond colocou nas palavras. Segue abaixo, a linguagem simples de Manuel Bandeira: 104 Satélite Fim de tarde. No céu plúmbeo A lua baça Paira Muito cosmograficamente Satélite. Desmetaforizada, Desmitificada, Despojada do velho segredo de melancolia, Não é agora o golfão de cismas, O astro dos loucos é dos enamorados, Mas tão-somente Satélite. Ah Lua deste fim de tarde, Demissionária de atribuições românticas, Sem show para as dìsponibilidades sentimentais! Fatigado de mais valia, Gosto de ti assim: Coisa em si, - Satélite. Fórmulas Múltiplas de Arte Bandeira, na sua simplicidade, dá objetivamente a definição da Lua – Capítulo 4 satélite natural da Terra. Une a beleza da Lua, a sua função. Une a sensibilidade da poesia com a certeza da Ciência. (pelo menos neste fato de que a Lua é satélite). A professora de Literatura Brasileira da Faculdade de Letras e Ciências Humanas – FFLCH, da USP - Yudit Rosenbaum e especialista na obra do autor diz que Bandeira não quis explicar Ciência, mas sim desmistificar a Lua. Mas qual Lua? A dos cientistas? Também não. Se já não é mais a Lua dos clichês, tampouco é a Lua asséptica da ciência, pois no poema ela vira essência, “coisa em si” e não um objeto retirado de seu contexto para ser investigado em seus elementos 105 constituintes. (...) Bandeira quer captar o que faz as coisas serem o que são. Talvez só a poesia consiga desentranhar do caos da vida a significação maior do ser. A ciência, frente à poesia, faria um outro movimento: decompõe para estudar, propõe experimentos para medir e quantificar, perdendo de vista a totalidade do objeto. (ROSENBAUM, 2004 25) Porém, ao mesmo tempo em que a poesia possui a função explicitamente literária, numa aula sobre a Lua, a repetição no poema de Bandeira de que a Lua é satélite pode ajudar uma criança a fixar a informação dada na aula de Ciências. Vale lembrar que toda ou qualquer citação sobre as Ciências em meios diferentes aos dela é capaz de atingir determinado indivíduo pela identificação com determinada Arte. Abaixo, segue trecho da obra do músico-poeta Vinícius de Moraes: A Bomba Atômica I e = mc EINSTEIN Deusa, visão dos céus que me domina ...tu que és mulher e nada mais! (“Deusa”, valsa carioca.) 2 Dos céus descendo Meu Deus eu vejo De pára-quedas? Uma coisa branca Como uma fôrma De estatuária Talvez a fôrma Do homem primitivo A costela branca! Talvez um seio Despregado à lua Talvez o anjo 4 Capítulo Fórmulas Múltiplas de Arte 25 Entrevista concedida à autora em 14/10/2004, por e-mail 106 Tutelar cadente Talvez a Vênus Nua, de clâmide Talvez a inversa Branca pirâmide Do pensamento Talvez o troço De uma coluna Da eternidade Apaixonado Não sei indago Dizem-me todos É A BOMBA ATÔMICA (...) Bela é a visão de Vinicius quando conta sobre a bomba atômica durante todo o poema, e que impagável idéia essa de começar com a equação de Einstein. Percebe-se o quão vasto é a poesia aliada a Ciência. O poeta, ensaísta e diretor da Biblioteca Nacional Affonso Romano de Sant’Anna, em entrevista ao Jornal da Ciência em 2001, afirma que a rigor, poeta e cientista têm em Fórmulas Múltiplas de Arte comum o fato de que navegam na neblina. Aceita ser uma ilusão achar que o cientista enxerga seu horizonte com clareza, ele vai enxergando enquanto vai Capítulo 4 procurando sua visão. Segundo Sant’Anna, até em grego a palavra poeta significa “inventor”. É como diz a poesia de Drummond. Não é porque o homem não viu, que não existe. O poeta afirma que Ciência pode, não só inspirar poesia, como ser poesia: Certos livros de/sobre ciência eu os leio como livro de poesia. Foi assim como “Breve storia della scienza - la ricerca della veritá” do norueguês Eirik Newth. De repente, ao ler um trecho pareceu-me que era poesia, pura, basta reagrupar as palavras. Aparentemente existe um número de seres vivos que seguem a lei da probabilidade. 107 O astrônomo pode calcular onde se encontrará o planeta Júpiter em mil anos. Mas nenhum biólogo pode prever onde uma borboleta pousará. (JORNAL DA CIÊNCIA, 2001 26 ) Ainda sim, não podemos deixar de citar “A Máquina do Mundo”, que Sant”Anna relata, aproximando Camões de Drummond e outros poetas da Ciência, principalmente pela questão do tempo. Variável que ainda consta no imaginário Conhecimento adquirido: bomba atômica, Einstein, planetas, método científico, Lua da Arte e da Ciência como sonho do imaginário, como tantas outras invenções. Nas linhas críticas da Charge Julio Mariano no Jornal da Ciência Fórmulas Múltiplas de Arte A charge também tem a sua parcela de colaboração com a Ciência. Apesar de não ser plenamente difundida, existem aquelas que honram a temática das 4 Ciência – também pelo interesse da linha editorial. Júlio Mariano faz cartuns há Capítulo pesquisas. Um dos jornais que apostaram na linguagem da charge foi o Jornal da Jornal do Brasil, O Globo, para a revista Pasquim, entre outros. Hoje mantém o 35 anos, 12 deles dedicados à Ciência. Mariano já publicou seus trabalhos no site “Charge Online”, principal referência do humor gráfico de opinião no Brasil, segundo ele. Mariano explica que segue a pauta do jornal para criar as charges. A receptividade tem sido boa. “Já recebi elogios de um ministro pelas caricaturas 26 Jornal da Ciência, 23/02/2001, ano XV, nº 453, captado em www.cciencia.ufrj.br/publicacoes/artigos O site Charge Online reúne charges de cartunistas dos mais diversos jornais brasileiros, desde o Diário de Pernambuco a Folha de S. Paulo. O endereço é www.chargeonline.com.br 108 (críticas) que eu fazia dele 27”, comenta. Uma das criticas pode ser exemplificada através do desenho ao lado. Mariano critica o governo Lula através das teorias de Richard Feynman – a nanotecnologia. Porém, o caráter crítico não se limita somente a pessoas públicas. Na charge da página anterior, a crítica é feita aos pesquisadores, numa conversa cifrada, cheia de códigos e fórmulas que só mesmo eles entendem. Esta outra, retrata a importância das pesquisas para os cientistas e a preocupação com a escassez de recursos (a ciência náufraga). É importante destacar que o jornal é direcionado a pesquisadores e profissionais da área. E Fórmulas Múltiplas de Arte mesmo assim, cumpre o papel de divertir e refletir sobre as notícias veiculadas. Um dos cuidados de Mariano é justamente o conteúdo: Não cometer equívocos conceituais é uma preocupação. Certamente as charges são um poderosíssimo instrumento de comunicação. Com orientação teórica consistente podem ser um meio eficientíssimo de divulgação científica. (MARIANO, 2004 28) Capítulo 4 Conhecimento adquirido: dificuldade do linguajar dos cientistas, pouco apoio à pesquisa no Brasil, a importância da Ciência para os cientistas 27 e 28 Entrevista concedida à autora em 30/08/2004, por e-mail 109 Nas Tiras dos Quadrinhos Tira nº 01 - Os animais de Gonsales Personagem – Fernando Gonsales Criações: Niquel Náusea; Benedito Cujo; animais diversos. Formação: veterinário e biólogo Jornais em que publicou: Folha de S. Paulo; Zero Hora (Porto Alegre); Diário do Comércio (Recife); Correio Brasiliense (Brasília), entre outros. Gonsales já está no ramo dos quadrinhos há 20 anos. Tem trabalhos publicados nos mais diversos e importantes jornais do país, um livro e um site na Internet. O alcance de suas tiras é enorme: se considerarmos só as tiragens da Fórmulas Múltiplas de Arte Folha de S. Paulo, em um único dia útil, 350 mil pessoas teriam lido seus quadrinhos. Considere agora que ele publica desde 1985, diariamente, na Folha. 4 em quase 20 anos, de 7.300 tiras, vamos supor que 200 tivessem qualquer Capítulo Óbvio que nem todos os quadrinhos têm uma relação direta com a Ciência, mas caso do cartunista. Por formação na Biologia e Veterinária, insere muitos animais alusão. Chega a ser inimaginável. Essas 200 tiras não são algo impossível, no nas tirinhas. Possui conhecimento acadêmico e gosta de abordar a natureza. Seu mais famoso personagem, por exemplo, é um rato, o Níquel Náusea. Até no nome há uma referência à Química. O trabalho de Gonsales busca o divertimento. Se para fazer o leitor rir, for necessário explicar alguma teoria de Ciência, que seja feito. Acredita que a Ciência 110 serve para “produzir assunto”, como subsídio para criar alguma coisa em cima. Ao mesmo tempo em que, por conta do quadrinho, acha que pode incentivar o leitor a procurar informações, também porque o quadrinho possui uma linguagem lúdica. Não há necessidades de descrições, a imagem já está “pronta” para o leitor. Por escolha própria, sempre utiliza o espaço da Folha para tratar de animais. “É uma opção minha mesmo, para criar um vínculo, uma identidade com o leitor. Mas eu não tenho nenhuma obrigação de fazer isso não ”. E essa escolha faz 29 com que o leitor tenha mais contato com a Biologia. Mesmo sem objetivo aparente, a Ciência aparece nos quadrinhos como algo natural: Nem todo mundo sabe que se cortar o rabo da lagartixa, vai nascer de novo, por exemplo. Então, você tem que gastar o primeiro quadrinho explicando isso, e aí você faz a piada nos dois quadrinhos seguintes. (...) Se eu acho que é uma coisa que o público geral não conhece, então eu tenho que dar uma explicaçãozinha, porque se não ele não vai entender a piada. (...) Acho que você abordar um tema um pouco diferente, mimetismo, predação, qualquer coisa assim, no final, você atiça a curiosidade. Você falar sobre uma curiosidade qualquer sobre um ser vivo, acho legal isso. Não é a função primordial, não faço pensando nisso, mas é um efeito colateral daquilo. (GONSALES, 2004 30) Fórmulas Múltiplas de Arte Gonsales toca num ponto crucial: “gastar quadrinho”. O cartunista precisa Capítulo 4 explicar ao público coisas que muitas vezes o pouco espaço não permite. Um dos grandes trunfos das tiras torna-se o poder da síntese. Em Folha de São Paulo - 11/jan/1997 dois ou três desenhos, passar uma idéia, quem dirá conceito científico, não é das tarefas mais fáceis. Apesar disso, algumas vezes o cartunista consegue ser perfeito: 29 e 30 Entrevista concedida à autora em 17/08/2004, por telefone 111 A tira da página anterior sintetiza e “conversa” com a teoria européia de que a Terra era quadrada. E mais: lida com a percepção humana, acredita sempre que o que parece e o que vê é real. Se formos mais longes, ainda podemos falar que esta tira está relacionada com Copérnico e Galileu, pelas descobertas de que o Sol que era o centro do Universo, e que quem girava em torno dele era a Terra e não o inverso. Tudo isso era negado pela sociedade; e Gonsales demonstra muito bem que tudo depende de ponto de vista. Mostra a superficialidade (em ambos os sentidos) de idéias; uma simplificação generalizada que o homem esteve submerso durante séculos, e que devido a insistência em não enxergar Mickey é a vovozinha, Editora Circo -1991 as evidências (ora, era só olhar para baixo!), demorou ainda mais para crescer cientificamente. Então, até antes de falar sobre as teorias da Astronomia, a tira aborda os fatos históricos; a manipulação dos governantes em vendar os olhos para o esclarecimento científico. Como aconteceu com o julgamento de Galileu. Este é o poder de dois Fórmulas Múltiplas de Arte quadrinhos. Um outro exemplo é um quadrinho do Niquel Náusea. Capítulo 4 Nele, duas teorias importantes são mencionadas: a cadeia alimentar e a Lei da Gravidade. Temas que dificilmente aparecem nos jornais brasileiros, uma vez que as informações veiculadas são quase sempre factuais, o que não se aplica a Gonsales, que procura fazer sempre um quadrinho atemporal. Só pela citação do quadrinho vale mencionar como Isaac Newton descobriu a Lei da Gravidade, através da queda de um objeto. Poucos cartunistas se dão ao trabalho de citarem ou comentarem descobertas feitas em séculos anteriores, mas que são parte fundamental da formação do público. Mesmo garantindo o quão formadores de opinião são os veículos de comunicação, como fazê-lo se o 112 embasamento cultural não é sequer citado? Comentar assuntos da atualidade Folha de São Paulo, entre set e nov de 1985 só forma o caráter opinativo se for aliado às teorias, e às Ciências, como a História, Geografia, e por aí afora, o que faz entendermos o que se passa nos dias atuais. Outras tiras que continuam sempre atuais de Gonsales são as do Benedito Cujo (ao lado). O personagem foi criado por volta de 1985 para um Idem caderno de vestibular. Obviamente, são as tiras que mais carregam conteúdos culturais, a rotina do vestibulando se limita muito ao mundo das Ciências. Há uma diferença nítida de abordagem com relação aos pingüins (da Terra quadrada) ou ao Níquel. O Benedito é o personagem que prova que é possível aliar humor, Ciência, Arte e manter a síntese necessária do quadrinho. “Como o universo do vestibulando era uma matéria, acabava sempre envolvido Idem com estes temas. Mas ela não tinha uma função didática não ”. Sem intenção, 31 Fórmulas Múltiplas de Arte mas muito útil. Não há tiras de quadrinhos que abrangem palavras como “oligoqueta”. Nem as que ensinam que a Química está na cozinha, e quantos dos vestibulandos não se perguntam por qual motivo os vestibulares querem Capítulo 4 saber quantas patas possuem uma aranha. Ao ler conteúdos como este, o aluno se recorda das lições em sala de aula. Apesar do interesse, o caderno de vestibular acabou, o jornal não Folha de São Paulo - 29/fev/2000 pediu mais para o cartunista fazer o personagem e o Benedito deixou de existir. Uma pena, hoje não há outro personagem com a mesma função e com o mesmo carisma. A receptividade do público jovem é muito mais fiel e positiva, do ponto de vista de Gonsales. 31 Entrevista concedida à autora em 17/08/2004, por telefone 113 O grupo mais adulto vê um pouco com preconceito o quadrinho, como sendo uma coisa que não é importante. Eu acho que neste sentido, você apresentar ciência em quadrinho, acho que vai ter resistência com um certo grupo. (GONSALES, 2004 32) Grupo que não percebe a importância do quadrinho, que abre portas e ganha força nos livros didáticos. O cartunista mesmo acredita que as tiras podem ser um importante meio para a Educação, se inseridas em livros didáticos, logo após a teoria sobre o assunto abordado. Essa é uma “funçãozinha” que ele acredita ter na Divulgação Científica. Servir de complemento para jornalistas especializados, por exemplo. No entanto, exerce um papel mais importante do que aparenta: ajuda na educação informal do leitor. Tira nº 02 - João Garcia e (“) Os cientistas (“) Personagem: João Garcia Conhecimento adquirido: biologia, diversidade animal, lei da gravidade, teoria do Heliocentrismo, pronome oblíquo, conteúdo de ensino médio (vestibular) Fórmulas Múltiplas de Arte Criação: “Os cientistas” Formação: Jornalismo e Biblioteconomia Jornais em que publicou: Correio Popular de Campinas, Folha da Região Capítulo 4 (Araçatuba), jornais institucionais e no informe do Núcleo de Divulgação Científica José Reis, da USP João Garcia acredita ser pioneiro no Brasil na divulgação direcionada à Ciência através das tiras. Os personagens “os cientistas” tratam somente de conteúdos científicos, sejam das Ciências Naturais, sejam sobre as dificuldades de pesquisa dos estudiosos. Por conta deste direcionamento, “os cientistas” passaram a ser publicados, também, pelo Núcleo de Divulgação Científica José Reis. 32 Entrevista concedida à autora em 17/08/2004, por telefone 114 A criação dos personagens, segundo o autor, teve Núcleo de Divulgação Científica José Reis - USP/ Notícias ABRADIC - nº 36 - maio/04 colaboração de diversas pessoas. A idéia surgiu muito antes, nos anos 80, enquanto Garcia procurava um modo de falar sobre a Ciência que não fosse maçante para aqueles que não são professores, pesquisadores ou profissionais da área. A concepção foi baseada em opiniões dos mais diferentes tipos de pessoas, inclusive crianças. Foi uma espécie de “criação coletiva”. O perfil dos personagens partiu da visão que cada um possuía dos cientistas. Seu trabalho foi, porém, lançado somente em 1994. Depois, outros personagens foram criados, como bactérias, vírus e átomos. Ao contrário de Gonsales, Garcia trabalha com os quadrinhos na intenção direta de ensinar Ciência, criticar Ciência e divulgar Ciência. Possui mais de três mil tiras só da série “Os cientistas” falando de assuntos diversos do universo Fórmulas Múltiplas de Arte científico. Capítulo 4 A graça, o humor é a ferramenta para atingir as pessoas e cativar o leitor. Agora o tema, o que está na raiz mesmo, são os temas de Ciência e tecnologia. Então, a área de conhecimento é o diferencial neste trabalho, eu cuido muito dele. Eu acho que a alma é essa. (GARCIA, 2004 33) Este trabalho teve a possibilidade de ser divulgado com a ajuda do redator- chefe do Correio de Campinas na Núcleo de Divulgação Científica José Reis - USP/ Notícias ABRADIC - nº 38 - jul/04 época, que, como afirma Garcia, comprou a idéia. Os temas vêem de muita pesquisa, acompanhamento das descobertas científicas e conversas com cientistas, que Garcia tem contato direto. Por isso, os personagens são, como o 33 Entrevista concedida à autora em 25/08/2004, por telefone 115 cartunista resume, de “carne e osso”. Procura mostrar que a Ciência é o trabalho do cientista, como a madeira é o trabalho do carpinteiro. “É desmistificar um pouco essa visão que se tem do cientista, da Ciência ”, argumenta. 34 Um dos outros projetos de Garcia para a mudança do imaginário social sobre a Ciência são suas colaborações para o caderno infantil “Folhinha”, da Folha de S. Paulo, na produção de brincadeiras da série “Humor com Ciência”, como no jogo dos sete erros abaixo: Capítulo 4 Solução Folha de S. Paulo/Sem data 1. Tacape na mão do homem das cavernas 2. Flor no canto inferior, à direita do quadro 3. Taboas - plantas aquáticas préhistóricas ainda hoje muito comuns nos brejos - embaixo, à esquerda do quadro 4. Raio na lateral à esquerda do Sol 5. Pata superior direita do Tiranossauro 6. Coco na planta ao fundo, à esquerda 7. Apesar de até hoje aparecerem juntos em muitas histórias em quadrinhos e desenhos animados, homens e dinossauros não se encontraram em momento algum, por mais remoto que seja. As evidências colhidas por estudiosos do assunto indicam que os dinossauros foram extintos há quase 65 milhões de anos. Desapareceram por completo da superfície da Terra, deixando apenas restos e rastros. Já o mais antigo ancestral do Homem, uma variedade africana do gênero Australopithecus, data de aproximadamente um milhão e setecentos e cinqüenta mil anos antes de Cristo. A nossa variedade, chamada Homo sapiens, teve seus primeiros registros somente 50 mil anos antes de Cristo. Não dá para comparar e muito menos colocar homens e dinossauros juntos na mesma fotografia da História, não é mesmo? Nos próximos jogos tem mais descobertas! Fórmulas Múltiplas de Arte Garcia consegue, por meio de imagens sem qualquer linguagem escrita, explicar conceitos de Ciência. A brincadeira combina seis erros gráficos e um conceitual, em oposição aos tradicionais jogos dos sete erros. No caso dos desenhos acima, seria a falsa idéia que houve, em tempos mais remotos, o encontro de homens com dinossauros. O erro se encontra na resposta, junto com os demais 34 Entrevista concedida à autora em 25/08/2004, por telefone 116 erros gráficos. Quando possível, o cartunista informa mais um pouco o público infantil, como aconteceu com a planta, do lado esquerdo. Nas respostas, ele informa que a planta é sobrevivente Cortesia Núcleo de Divulgação Científica José Reis/ inédito de longos períodos. Além das informações tradicionais voltadas ao campo do conhecimento, Garcia aproveita para criticar algumas pesquisas. É exatamente o que ocorre com a tira ao lado. Nota-se, portanto, que seu trabalho tende a focar em três princípios: críticas ou elogios aos cientistas; criticas ou elogios às pesquisas ou informação científica. Nas três, há preocupações evidentes de formação cultural do público. Eu acho que, mesmo porque é uma concepção, mas eu vejo a Arte como uma Ciência. Ela tem ferramentas diferentes das Ciências Exatas, Biológicas, etc; ela trabalha muito mais com intuição, e hoje em dia você vê algumas das Ciências, como a própria Física na área de Exatas que apostam na intuição também e conquistam avanços importantes a partir desta ferramenta. Então eu acho que a Arte tem muito, muito a dar a Ciência e mais ainda à Divulgação Científica, que poderia se valer dessas ferramentas para serem mais eficazes. (GARCIA, 2004 35 ) Capítulo 4 Idem Fórmulas Múltiplas de Arte Garcia analisa que este trabalho de divulgação da Ciência pelos quadrinhos ou pela Arte chega pouco ao público. Imagina ser um caminho muito amplo a seguir; há ainda muito a se fazer. Para ele, falta um livro com as tiras de “Os cientistas”. Visto por este ângulo, até que não parece muito... 35 Entrevista concedida à autora em 25/08/2004, por telefone Conhecimento adquirido: cotidiano dos cientistas (quebra do mito do cientista), pesquisas científicas, críticas a pesquisas atuais, antropologia 117 Tira nº 03 - O Franjinha do Mauricio de Sousa Personagem: Maurício de Sousa Criação: Turma da Mônica – Franjinha Formação: sem formação acadêmica Jornais em que publicou: Diário do Grande ABC, Folha da Manhã, revistas do próprio estúdio Para Mauricio, divulgação não parece ser problema. É um desenhista que dispensa apresentações. Seu trabalho, hoje, ultrapassa as barreiras das revistas e do pouco espaço dos jornais e alça vôos Mauricio de Sousa/Manual do Cientista do Franjinha. Globo, 2003 em direção a cinema, televisão, parques e livros. Mauricio e toda a sua equipe focam trabalhos diversificados com o intuito de divertir, informar e entreter (como a exposição dos Quadrões, já mencionada neste trabalho). Fórmulas Múltiplas de Arte Graças ao carisma e a toda a credibilidade dos seus personagens, pode realizar diversos projetos que colaboram com Capítulo 4 a qualidade de vida, Educação e cultura de crianças, jovens e adultos. Dois dos muitos projetos que os estúdios estão envolvidos são o Dicionário Aurélio Turma da Mônica, e um programa educativo para TV. O Dicionário é ilustrado e com 3 mil verbetes, e possui a qualidade das informações do Aurélio. Imagine para uma criança que está aprendendo a ler encontrar seus personagens favoritos nas aulas de português. Incentiva ainda mais a busca pelo conhecimento, e pelas palavras. Já o programa educacional é um projeto que será voltado para crianças em idade pré-escolar, no 118 estilo “Vila Sésamo”. Sem contar as campanhas contra o fumo, drogas, ou para Idem esclarecer sobre doenças como o autismo, por exemplo. É o que Mauricio chama de política de prestação de serviços. Um trabalho em equipe: Há alguns setores da empresa que se dedicam a esse trabalho - o Instituto e o Departamento de Serviços Especiais - onde nascem as campanhas geralmente após contatos que mantemos com órgão governamentais, ONG´s, organismos internacionais e eventualmente empresas comerciais. Depois todo o estúdio trabalha para a produção de revistas, filmes, cartazes, etc.. (SOUSA, 2004 36) E haja trabalho. Tudo isso só foi possível graças aos quadrinhos, e aos desenhos dos primeiros personagens, Bidu e Franjinha. Como todos os seus personagens, o Franjinha também foi inspirado em pessoas que existiram. Mais especificamente em duas pessoas: no próprio Mauricio, que, na altura dos seus 12 anos ou 13 anos, curtia ficção científica e estudar Fórmulas Múltiplas de Arte Ciências e Carlinhos, um sobrinho que morava em Bauru. Dessa mistura nasceu o pesquisador da turminha, e um objetivo: Eu gostaria de explorar ainda melhor esse jeitão de cientista mirim do Franjinha. E o objetivo seria divulgar Ciência, sim. (SOUSA, 2004 37) 4 da Mônica ou do Cebolinha, onde raramente a Ciência é discutida. Entretanto, o Capítulo Muito provavelmente Mauricio se refere a citação das Ciências nas revistas Os Estúdios Mauricio de Sousa publicaram uma série de manuais da turminha Idem Manual do Cientista do Franjinha vem firmar a divulgação que falta nas revistas. pela Editora Globo: O manual de Brincadeiras, do Cebolinha, o Manual de Receitas da Magali, entre muitos outros. O do Franjinha traz, de modo esclarecedor, ilustrado e interessante a Ciência, de maneira lúdica. Através de aventuras da Turma, o Franjinha fala das invenções, do corpo humano, dos grandes cientistas da História, 36 e 37 Entrevista concedida à autora em 15/09/2004, por e-mail 119 Idem das ciências práticas dos laboratórios e da tecnologia do computador. Alia, ainda, experiências de fácil aplicação para serem realizadas pelas crianças, brincadeiras, música, ficção, poesia e literatura – para citar alguns, quando adapta a história “O Médico e o Monstro” ou quando cita a poesia “Modéstia”, de José Paulo Paes. Obviamente, o livro prima pela ilustração, e até mesmo nelas faz citação com passagens e descobertas da Ciência, o que acontece com freqüência. Não significa, porém, que o conteúdo é deixado de lado, longe disso. Por meio das explicações Idem do Franjinha, princípios de Física, como a Lei da Inércia, ou a descoberta da eletricidade por Benjamin Franklin são explicados. O texto é leve, recheados de exemplos, com uma linha de raciocínio muito bem estruturada. - - - Capítulo 4 - Ele foi apresentando o seu equipamento de estudos: tubos de ensaio, espátulas, balanças...Até que chegou na frente do seu equipamento preferido: O microscópio! – anunciou o Franjinha. A turma ficou animada com o aparelho. E todos, de uma só vez, queriam ver o que tinha lá dentro. Espera aí, gente! – disse o Franjinha. – Um de cada vez! O Cascão foi escolhido para começar. O Franjinha pediu licença e arrancou um fio do seu cabelo. AIIII! O Cascão ficou um pouco bravo, mas depois adorou ver o seu cabelo aumentado 300 vezes no microscópio! Uau! – disse ele. – Eu nunca imaginei que o cabelo tivesse escamas! O microscópio é maravilhoso! – disse o Franjinha. Foi com ele que o homem descobriu os microorganismos e mudou sua maneira de ver o mundo! (SOUSA, 2003:156,157) Fórmulas Múltiplas de Arte Idem Pelo trecho é possível notar que há uma preocupação em manter as características das crianças sempre vivas, como a afobação em ver o microscópio, e explicar alguns conceitos científicos. Aqui, especificamente, as funções de um microscópio. Todo o texto também se utiliza muito da ficção, de viagens no tempo e de robôs falantes. Mauricio acredita que a ficção só facilita o entendimento: 120 Idem A fantasia ainda é um dos melhores recursos para você aproximar a criatividade da realidade. pode gerar contextos intelectuais de onde podem brotar grandes idéias, projetos concretos, invenções. (SOUSA, 2004 38) Nesta viagem, o Franjinha encontra, só para citar alguns, Einstein, Leonardo da Vinci, Descartes, Galileu, Arquimedes (como foi possível ver em algumas figuras), inventa um robô que analisa o corpo humano, uma máquina do tempo, e explica muitos conceitos. Além disso, no final de cada capítulo há explicação de vocabulário. Tira nº 04 - O Método Científico Personagem: Leopoldo de Méis/UFRJ Criação: O Método Científico (original – 59 páginas); A Respiração e a 1ª Lei da Termodinâmica ou... A Alma da Matéria (91 páginas) Leopoldo de Méis e o Departamento de Bioquímica Médica da UFRJ – Universidade Federal do Rio de Janeiro – apostaram nos quadrinhos (e no teatro, Conhecimento adquirido: inventos, corpo humano, teoria dos cientistas (Einstein, Issac Newton, Descartes, Arquimedes, Leonardo da Vinci, Galileu, Benjamin Franklin, Darwin), laboratórios, computador e informática Fórmulas Múltiplas de Arte 4 Núcleo de Educação em Ciência do Departamento da UFRJ procurava trabalhar Capítulo diga-se de passagem) como divulgação e ensino da Ciência. A partir de 1995, o Escolheram por iniciar com o “Método Científico”, depois de constatar o com uma nova linha de elaboração de livros ilustrados, com qualidade artística. desconhecimento do tema por parte dos alunos. Após entrevistar cerca de 50 estudantes pós-graduados do Departamento de Bioquímica Médica da UFRJ, do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho da UFRJ e do Instituto de Química da USP, nenhum deles sabia do que se tratava. 38 Entrevista concedida à autora em 15/09/2004, por e-mail 121 Todo um trabalho foi desenvolvido para criar imagens, adequá-las a Meis/O Método Científico, ed. do autor, 2000 linguagem dos quadrinhos e contar a história da evolução do conhecimento até os experimentalistas, descrever o Método de Descartes e enfatizar o impacto causado na sociedade. Para isso, utilizaram a mesma estratégia do grupo Cia da Fábula: experimentação. Apresentaram as figuras para um grupo de pessoas e perguntaram a elas o que entendiam. De acordo com cada resposta, as figuras eram refeitas, modificadas até alcançarem um consenso entre os entrevistados. O “Método Científico” esgotou-se um ano após a sua publicação, em 1997, e rendeu uma reedição em 2000, com acréscimo de 25 páginas. Professores e Universidades de diversas partes do país solicitaram e receberam os livros. Devido ao sucesso, o Departamento tornou a realizar o mesmo trabalho, desta vez para informar sobre a composição da matéria orgânica; a alquimia e noções de energia – “A Respiração e a 1ª Lei da Termodinâmica ou ... A Alma da Idem Fórmulas Múltiplas de Arte Matéria”. Este foi caracterizado pelo artista plástico Marcos Varela. O bom andamento dos trabalhos transformou o livro em peça de teatro, abrindo as Capítulo 4 possibilidades de Divulgação Científica para os mais diversos públicos. Numa das páginas do “Método”, algumas dúvidas são comuns na peça “A Estrela da Manhã”, do Cia Fábula da Fíbula. “Quem somos? De onde viemos? Para onde vamos?” As Artes se intercalam e falam sobre os mesmos assuntos, mas com visões diferenciadas. Ambas as obras relatam a história do conhecimento. Além disso, podemos criar a relação de igualdade que as obras do “Método Científico” e do “Manual do Franjinha” fazem por serem fiéis às imagens dos cientistas. A história do desenvolvimento humano também é trabalhada em A “História das Invenções”, de Monteiro Lobato. 122 Idem A divulgação dos resultados científicos torna-se importante para que o público perceba a importância de todo o conhecimento adquirido ao longo dos séculos, e também para modificar o imaginário de cientista louco, trancafiado nos laboratórios. Ter uma visão geral do processo garante o entendimento de cada fase de descobertas, e que cada contribuição tem o seu papel nas invenções e facilidades do mundo atual. Esta é uma das possibilidades da verdadeira formação cultural e científica. No Picadeiro do Circo “Sonhos de Einstein” Se o humor está em todo lugar, nas charges, nos quadrinhos, no teatro, e na Ciência também, não demoraria muito até o universo dos cientistas se juntar aos dos palhaços. Até mesmo o circo abriu as portas (ou a lona), na luta da Capítulo 4 popularização científica. Conhecimento adquirido: inventos, desenvolvimento do homem, a comunicação (escrita e matemática), Aristóteles, crescimento da medicina, Leonardo da Vinci, Nicolau Copérnico, Johannes Kepler, Galileu Galilei, René Descartes, método científico, Isaac Newton, Charles Darwin, Albert Einstein, Tutancamon, chegada do homem a Lua, Peste Negra, doenças, Louis Pasteur, Alexander Fleming, Penicilina Fórmulas Múltiplas de Arte Um dos grupos que realiza um trabalho de popularização da Ciência através do circo é a Intrépida Trupe. O grupo carioca nasceu em 1986 e desde então une circo, teatro e dança. Em 2003 resolveram montar o espetáculo “Sonhos de Einstein”. O espetáculo alia técnicas circenses a teorias sobre o tempo e a física, e foi baseado no livro homônimo do norte-americano Alan Lightman. Mas antes de falar sobre um dos magos da Ciência, a Intrépida Trupe realizou outros espetáculos que falavam sobre a área de humanas, principalmente sobre mitologia. Um deles foi “Flap”, que discutia o desejo do homem de voar O livro “Sonhos de Einstein” é uma edição da Companhia das Letras, lançado em 1993. O autor conta trinta historietas sobre a temática do tempo, inspiradas nos sonhos de Albert Einstein quando ele estava muito próximo de formular a teoria da relatividade 123 através do mito de Ícaro, em 2001. Antes dele veio “Kronos”, que pelo nome já está ligado a Einstein, mas que como “Flap”, trabalhava com mitologia com o acréscimo da teoria do Big Bang. Isso foi em 1999 e 2000. Claudio Baltar, diretor do espetáculo “Sonhos de Einstein” esclarece que a partir do livro foram descobrindo as possibilidades de juntar técnicas acrobáticas, trabalho corporal e Física. Segundo ele, a idéia não é ser um espetáculo didático, há apenas a citação de teorias sem maiores aprofundamentos durante a performance. Mesmo assim, a mensagem volta-se a Ciência. “O mundo da Física é fascinante e está presente no nosso dia-a-dia, por mais que a gente esqueça disso ”, lembra o diretor. 39 É importante salientarmos que talvez a impressão de que não seja didático se deva ao formato do espetáculo. Algumas Artes, devido a sua linguagem, permitem que um conteúdo seja transmitido com mais profundidade, o que não significa que os demais não façam o mesmo, dentro das suas possibilidades. A De acordo com a lenda grega, Dédalo e seu filho Ícaro, para fugirem de um labirinto, contróem com uma armação, penas e cera dois pares de asas. Antes de “decolarem”, Dédalo avisa o filho de que não deve voar muito baixo para que as ondas do mar Egeu não o atinja, nem muito alto, para que o sol não derreta a cera. Ícaro não ouve o pai e voa mais alto, até os raios solares derreterem a cera, caindo no mar. A ilha que supostamente recebeu o corpo de Ícaro é chamada de Ícara, em homagem ao mito Fórmulas Múltiplas de Arte literatura, por exemplo, possui mais recursos no âmbito da linguagem para abordar um tema de Ciência. O circo já não a possui de modo tão intenso. Entretanto, o Capítulo 4 público que gosta de circo jamais vai ser tocado com um livro como é assistindo um espetáculo circense. É aqui que se encontra a magia da linguagem do circo. Todos do elenco e diretor aprenderam novas informações por causa do espetáculo, ao conversarem com o cientista Luiz Davidovich, professor do Instituto de Física da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). Foi uma conversa ótima, passeamos pelos mais diversos temas da Física, de Einstein à queda dos corpos, da entropia ao teletransporte. A utilização da voz do cientista, registrada naquela conversa, no espetáculo, criou um efeito muito interessante, como 39 Entrevista concedida à autora em 14/10/2004, por e-mail 124 se Einstein, ou Davidovich, estivesse onipresente e observasse o mundo com as lentes da física, ou o que está por trás do trabalho acrobático e aéreo realizado pela Intrépida. (BALTAR, 2004 40) Na pior das hipóteses, se o público não aprendesse nada – o que não deve acontecer – a montagem já valeu a pena por popularizar a Ciência nos atores. A receptividade, ainda segundo Baltar, tem sido a melhor possível. Ele deve o resultado à inovação do espetáculo, e sem sombra de dúvida, uma evolução na linguagem e na dramaturgia da Intrépida. O diretor não conhece nenhum grupo que realiza trabalho semelhante a este. Não somente na novidade da linguagem e teor, a Ciência veio acrescentar à Intrépida, como também no próprio trabalho diário. A ciência faz parte do nosso trabalho e da nossa pesquisa, o que talvez seja o grande diferencial da Intrépida em relação a outros grupos que trabalham com técnicas circenses. O aprofundamento técnico que chamamos de engenharia circense, tem influência direta na construção das cenas e acredito que também na dramaturgia.(BALTAR, 2004 41) O sucesso do trabalho, portanto, é a soma de todas as “Ciências”: a Ciência ela mesma (como Fernando Pessoa) , a Ciência do teatro e a Ciência do circo. Capítulo 4 Todos produzem novos conhecimentos, e por isso, são Ciências. O escritor teve muitos heterônimos. Os principais foram Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis. Quando a obra é assinada pelo nome original do autor, diz-se Fernando Pessoa, ele mesmo Conhecimento adquirido: teorias de física, tempo, mitologia, Einstein 40 e 41 Entrevista concedida à autora em 14/10/2004, por e-mail Fórmulas Múltiplas de Arte 125 Nas ruas, o palhaço Matraca Arquivo/Marcus Campos Já Marcus Vinicius Campos, mestre em Medicina Preventiva e educador da Fiocruz - RJ, utiliza o carisma do palhaço para melhorar a qualidade de vida da população de baixa renda do Rio de Janeiro. Campos se transforma no palhaço Matraca, e por meio da música e do circo, orienta moradores de rua e profissionais do sexo sobre a prevenção da AIDS e DST’s, meio ambiente, participação popular e temas ligados ao conceito de Saúde Coletiva. As apresentações são sempre na rua; Campos espera no próximo ano realizá-las também na favela da Rocinha. O apoio não existe: “Comecei a realizar este trabalho pela simples vontade de mudar o meu meio. Faço na raça 42”, explica. Fórmulas Múltiplas de Arte Faz um ano que Campos mantém o trabalho e a receptividade tem sido excelente, na sua avaliação. A figura do palhaço é muito querida e tem um poder de comunicação fantástico.(...) O universo lúdico neste momento da História torna-se um mecanismo muito poderoso de comunicação. Eu escolhi a linguagem do palhaço para falar de saúde, mas poderia ser o cinema, teatro, Artes em geral. Não me preocupo em passar teoria, me preocupo em passar a importância do auto cuidado. (CAMPOS, 2004 43) Capítulo 4 Campos não tem conhecimento de nenhum grupo que realize um trabalho como o dele. Tem um parecido no Amazonas, um circo chamado Saúde e Alegria, mas não acontece nas ruas, e sim na região do médio Amazonas. De qualquer forma, esta é só mais uma das iniciativas que prova ainda existe cidadania, e o que a Arte e a Ciência podem fazer juntas. 42 e 43 Entrevista concedida à autora em 29/09/2004, por e-mail Conhecimento adquirido: medicina preventiva, participação popular, AIDS e DST’s, meio ambiente 126 No balanço do Carnaval Comissão de frente Uma das maiores descobertas da popularização da Ciência foi o Carnaval. Em 2004, a Escola Unidos da Tijuca apresentou o enredo “O Sonho da Criação e a Criação do Sonho: a Arte da Ciência no Tempo do Impossível”. Se todos os Arquivo/Casa da Ciência brasileiros estivessem assistindo à Rede Globo no momento do desfile da Escola, 98% do território nacional teria sido atingido pela Ciência transformada em samba. Durante 50 minutos, a mesma música contando a história da Ciência badalava nos ouvidos da comunidade da Unidos, no público presente na avenida, e em todos que assistiam a transmissão pela TV. As fantasias e carros alegóricos tiveram que se adequar aos temas da Fórmulas Múltiplas de Arte Ciência. Para isso, o carnavalesco Paulo Barros e a Casa da Ciência, ligada a UFRJ – Universidade Federal do Rio de Janeiro – trabalharam juntos. A parceria iniciou- 4 no Carnaval de 2003 (a Escola ficou no 1º lugar no Grupo de Acesso A). Quando Capítulo se depois que Paulo fez um desfile sobre Portinari para a GRES Paraíso do Tuiuti a equipe da instituição convidou o carnavalesco para realizar um desfile para o Barros participou de uma exposição sobre o desfile que a Casa da Ciência realizou, grupo especial. A idéia da Casa da Ciência foi genuína – a Casa procura utilizar linguagens diferenciadas para popularizar a Ciência. Com muitas idéias, poucos profissionais e pouquíssimo dinheiro, a criatividade é a válvula de escape para que a Ciência seja divulgada. 127 Arquivo/Casa da Ciência O enredo abordou alguns dos grandes avanços e descobertas científicas que marcaram a história do homem, mas que foram sonhos durante muito tempo. É por este motivo que consta no nome do enredo “No tempo do impossível”. Como exemplificou a Casa da Ciência, há sempre um sonho de novas criações e invenções para o futuro. O homem vive numa busca incessante pelo que ainda não descobriu. Por este motivo, a ficção serviu de base e como fio condutor do espetáculo. A idéia era unir Arte, Ciência e fantasia. (como no “Manual do cientista do Franjinha”, salvo as devidas proporções) Por isso, a comissão de frente faz a primeira das muitas perguntas que a Unidos da Tijuca traz no desfile: A Ciência move o homem, ou o homem move a Ciência? A fantasia representava o sonho da invenção – o corpo movimentava peças e engrenagens. Já o carro abre-alas personificou um dos mais antigos desejos do homem Fórmulas Múltiplas de Arte – a criação de uma máquina do tempo – talvez a mesma que o Franjinha usou na sua viagem para ver de perto os mais famosos cientistas. A máquina do tempo, considerada um dos grandes sonhos da humanidade, inspirouse nas teorias de Einstein sobre o tempo e o espaço e na ficção científica. O enredo foi conduzido por ela, permitindo uma viagem pelo passado, presente e futuro, para mostrar como o homem através da Ciência, da técnica e da Arte foi capaz de superar os limites do corpo, da gravidade, do tempo, do espaço e da própria vida. (CASA DA CIENCIA, 2004 44) Capítulo 4 Dirigindo a máquina do tempo da Tijuca, ninguém menos que Albert Einstein, personificado na figura do ator Carlos Palma, que foi convidado por já estar “íntimo” do personagem. 44 Entrevista concedida à autora em 04/10/2004, por e-mail 128 Eu devo muito ao pessoal do Rio de Janeiro. (...) Foi lá que eu tive a idéia do projeto [do grupo Arte Ciência no Palco]. Aí eles me chamaram, eu topei na hora. Desde outubro que eu comecei a trabalhar lá com eles, fui ao Canecão participar da apresentação do samba-enredo, eles vieram para São Paulo, discutimos coisas juntos, e fui para lá. E de repente eu estou lá na avenida de Einstein, pô, puxando o Carnaval. E é genial, maravilhoso, inesquecível. (PALMA, 2004 45) Carro-chefe das Ciências - o enredo Arquivo/Casa da Ciência O Carnaval da Unidos da Tijuca fez referência há muitos dos conteúdos das mais diversas atividades artísticas. A começar pelo trabalho do Palma, Einstein, e a energia nuclear. No meio do desfile, a Escola cita também “20.000 léguas submarinas”, de Júlio Verne. Além disso, a Tijuca destaca o pára-quedas e o sonho de voar de Leonardo da Vinci. O Arte Ciência do Palco possui dois espetáculos teatrais, um já mencionado, o “20.000 léguas submarinas, ufa!”, Fórmulas Múltiplas de Arte e “Da Vinci Pintando o Sete”, pouco apresentado atualmente. Além destes, possui uma ala de Santos Dummont, alquimia, corpo humano, pára-raio e sobre a criação da vida, – com as devidas alusões no Capítulo 4 “Manual do Franjinha”, embora com outra concepção. A viagem pelo corpo humano que a Unidos levou à avenida também é tema de Osmose Jones, do cinema. As alas da energia e do conhecimento popular são as mesmas temáticas de “Professor Gervásio e Energia Elétrica” e “Monocórdio de Pitágoras” (lembram do repentista?), respectivamente, da Cia Fábula da Fíbula. A utilização da energia mecânica da água é outra vez mencionada na música Planeta Água, de Guilherme Arantes. 45 Entrevista concedida à autora em 31/08/2004, no Teatro Municipal de Santo André 129 As viagens à Lua, interplanetárias e ao fundo do mar, presentes nas obras de Monteiro Lobato – “Viagem ao Céu” e a “História das Invenções”; e Júlio Verne, em “Da Terra a Lua” e “20.000 léguas submarinas”. Além da visão futurista que ambos os autores possuem e que foi transformada em alegoria no final do desfile da Unidos da Tijuca. a conexão entre os temas e entre as Artes é total. A sintonia das artes Estes são apenas alguns exemplos de como a popularização da Ciência através da Arte está em sintonia – pensada numa mesma freqüência pelos mais diversos grupos de pessoas, em diferentes localidades do país e do mundo (no caso do cinema). Nada premeditado, simplesmente transparece a tendência do Fórmulas Múltiplas de Arte mundo atual. A Arte se aproveita cada vez mais do conhecimento científico para dar asas à imaginação. Conforme apresentado acima, os temas do desfile foram muito bem Capítulo 4 amarrados; muito bem conectados. Não só contabilizando o momento propício da mistura entre Arte e Ciência que passamos atualmente, mas pela relevância de toda a temática presente no desfile. A elaboração do enredo teve consultoria permanente do físico e professor Ildeu de Castro Moreira, do Instituto de Física da UFRJ, atual diretor do Departamento de Difusão e Popularização da Ciência do Ministério da Ciência e da Tecnologia, além do professor Antonio Carlos Pavão, do Espaço Ciência de Pernambuco, que auxiliou o setor que falava de alquimia e Química. Algumas 130 escolhas foram propositais, como a não linearidade cronológica do desfile. O imaginário conduzia todo o enredo, não houve intenção de mostrar a Ciência como um ciclo. Algumas particularidades merecem mais atenção. É interessante destacar como a Casa da Ciência considera a Ciência como todo e qualquer conhecimento humano, como Matos igualmente define. Caso contrário, não teriam inserido o conhecimento popular, nem a ala das baianas cobertas de plantas que simbolizavam a alquimia e o conhecimento antigo. Para brindar o público, ainda conseguiram linkar a Ciência natural da Química com a História. Logo após as alas da alquimia, havia os “guardas da Inquisição”. A alquimia, naquele tempo, era considerada heresia. Em apenas duas ou três alas, a formação cultural foi reforçada na união das disciplinas. Outro fator importante foi ligar a figura de Sherlock Holmes à Ciência. Originalmente, o personagem de Arthur Conan Doyle é um detetive que vive à Fórmulas Múltiplas de Arte procura de assassinos e ladrões. No entanto, a Casa associou Holmes na resolução de mistérios, na investigação policial e, conseqüentemente, aos testes de Capítulo 4 paternidade. Daí vem a ligação com a criação da vida e as recentes descobertas dos códigos genéticos, do DNA humano e do Projeto Genoma. Por falar em DNA, o carro alegórico da dupla hélice foi um dos que mais causou impacto, e, portanto, fixou o conhecimento. A idéia surgiu do carnavalesco, que resolveu fazer uma homenagem à criação da vida. Os bailarinos ensaiaram em segredo durante quatro meses, até resultar no espetáculo que transcendia as telas da televisão e rotatorizava aos moldes da cadeia genética original. Vendo o resultado, não se percebe as dificuldades encontradas por Barros e pela Casa da Ciência: 131 No início, houve um certo receio de que o tema fosse muito complexo e de difícil entendimento. Afinal, a Ciência ainda é vista como algo inacessível ao grande público. Aos poucos, a forma como o enredo estava sendo tratado foi conquistando e dando mais segurança à comunidade da Escola. (CASA DA CIÊNCIA, 2004 46) A colaboração da comunidade, depois que aceitaram a sugestão, foi na escolha pelo samba-enredo. Os músicos da Escola compuseram 20 músicas. Todas passaram por um processo de seleção, que contou com jurados e com a participação dos membros da escola. O resultado final procura brincar com o imaginário do homem como o enredo, une Arte e Ciência numa única frase (“O Sonho da Criação e a Criação do Sonho: a Arte da Ciência no Tempo do Impossível”) e relata os fatos narrados pelas alegorias através do ponto de vista do homem. O Carnaval criou, além de um desfile de qualidade, a música que resiste às ações do tempo, ao contrário das fantasias, que podem ser efêmeras. Diferente de muitas que não possuem a preocupação de divulgar Ciência ou ter uma linha de raciocínio, o samba-enredo é quase como que o desfile musicado. Nessa máquina do tempo, eu vou Vou viajar... (com a Tijuca te levar) À era do Renascimento De sonhos e criação Desejos, transformação Acreditar, desafiar Superar os limites do homem Brincar de Deus, criar a vida Querer voar e flutuar 4 Capítulo Fórmulas Múltiplas de Arte É tempo de sonhar... É tempo de alquimia Querer chegar à perfeição Com tecnologia (bis) 58 Entrevista concedida à autora em 04/10/2004, por e-mail 132 Na arte da ciência A busca continua Na luta incessante pra vencer o mal E no vaivém dessa história O velho sonho de ser imortal Profecia, loucura, magia A vontade de explorar A lua, a terra e o mar Pro futuro viajar, eu vou Mistérios que ainda quero desvendar, levar O destino é quem dirá O amanhã, como será Sonhei amor e vou lutar Para o meu sonho ser real Com a Tijuca, campeã do Carnaval (bis) Através da letra, todos os integrantes da escola poderão lembrar dos Fórmulas Múltiplas de Arte conceitos ensinados no dia do desfile. Porque, samba-enredo pode grudar mais na memória do que imagem, que com o tempo vai se esvaindo. E é ele o recurso que mantém o imaginário da Arte, da Ciência e da fantasia vivo na mente do público. Capítulo 4 E essa conquista transpareceu no dia do desfile. Pelos cálculos da Casa da Ciência, o desfile foi transmitido para quase 200 países e aproximadamente a 1 bilhão de pessoas. No entanto, o mais importante, do ponto de vista da Casa da Ciência, foi o encontro entre as Ciências e as manifestações populares. Encontro dos conhecimentos formal – a Ciência dos laboratórios – e do conhecimento informal – a Ciência popular herdada dos índios, negros, alquimistas e de todos os representantes das raças humanas. Que a Arte e a Ciência trabalhem juntas em busca dos sonhos humanos. Conhecimento adquirido: Albert Einstein, conhecimento popular, literatura (Júlio Verne e Edgar Alan Poe, representado por Sherlock Holmes), Leonardo da Vinci, Energia Nuclear, Mecânica e Elétrica, Benjamin Franklin, alquimia, corpo humano, Santos Dummont, criação da vida, clonagem, transgênicos, DNA 133 Considerações Finais O trabalho mostra que existem muitas iniciativas sobre a popularização da Ciência. Algumas bastante evidentes, outras nem tanto. De qualquer forma, todas colaboram, a seu modo, para que a Ciência seja entendida por leigos e melhor compreendida pelos iniciados. Os artistas, por sua vez, na sua maioria, não fazem Arte com objetivos Considerações Finais didáticos, embora reconhecem que os aspectos lúdicos das manifestações artísticas podem contribuir para a formação de uma cultura científica. Acreditam que incentivam que o próprio público vá em busca de mais informações. Opinião equivocada, tendo em vista o conceito de educação informal. Na verdade, o aprendizado pela Arte é bem mais amplo. A Arte, também, como foi possível verificar, e a exemplo do que ocorre Considerações Finais com a Ciência e com a mídia, não é passível de erros. Existem casos até propositais, como exemplificamos no Cinema. Por este motivo, a Arte não está livre de uma visão crítica sobre o tema que está sendo abordado. É função também do público não encarar as informações como verdade absoluta, mas como uma representação da realidade. Ainda mais considerando que existem Artes que não foram desenvolvidas com o propósito de educar. Isso não impede o caráter lúdico da Arte. Conforme discorremos no capítulo 3, muitas crianças, segundo a teoria das inteligências múltiplas de Gardner, aprendem mais se o conteúdo for abordado artisticamente, por terem esta linguagem melhor desenvolvida. A Arte é recurso para educadores e mídia. 134 Ao mesmo tempo, a Arte amplia o público que normalmente não tinha acesso às informações científicas. Possui o dom de tocar desde crianças à idosos. Além do que não é vista como Ciência por não ser uma obrigação, e sim como diversão cultural. Enquanto a Arte for considerada lazer, a facilidade em aprender com ela será sempre maior. Embora pareça recente, a Divulgação Científica pela Arte é bastante antiga. Vide Leonardo da Vinci e todas as obras que Mauricio de Sousa recriou. Mais: o número de pessoas envolvidas na Divulgação Científica pela Arte é Considerações Finais substancial. Algumas pessoas sequer imaginam que fazem parte deste trabalho, como demonstramos nos quadrinhos (através das tiras de Fernando Gonsales). Outros fazem anos de esforço para conseguir realizar uma divulgação, como aconteceu com João Garcia. Há ainda aqueles que lutam sozinhos, como o palhaço Matraca. Existem também os com melhor sorte, como o Cia Fábula da Fíbula, que possue apoio de instituições públicas e privadas, dentro das possibilidades Considerações Finais econômicas do nosso país. O mesma participação intensa de público acontece com o número de pessoas atingidas pela popularização da Ciência através da Arte. Não chega a ser possível somar as pessoas que assistiram uma peça de teatro científico, ou de dança do Lúmini e do grupo da Estação Ciência, mais todos os leitores dos jornais de grande e pequena veiculação que leram um quadrinho de Gonsales ou Garcia. E o público que assistiu a exposição dos “Quadrões”, mais a vendagem do “Manual do Franjinha” e do “Método Científico”, ou dos livros de Júlio Verne e Monteiro Lobato (dos quais muitos estão em bibliotecas, o que aumenta ainda mais o alcance). Do público que ouviu uma música do Gilberto Gil, ou que estava com a TV ligada no Festival da Música Brasileira quando Guilherme Arantes apresentou 135 “Planeta Água”. São incontáveis as pessoas que foram uma vez na Oca ver alguma exposição, assistiram a um filme que citasse a História. Quantos leram a poesia de Drummond, ou a charge de Mariano no Jornal da Ciência. E aqueles que viram “Sonhos de Einstein” da Intrépida Trupe, ou esbarraram com o palhaço Matraca pelas ruas? Ou quantos ainda assistiram o Carnaval enquanto os bailarinos da Unidos da Tijuca faziam o movimento da dupla hélice do DNA? Ou leram a matéria sobre o desfile no dia seguinte. Isso para apenas citar alguns dos trabalhos presentes nesta monografia. Ainda há um número infindável de outros nos mesmos Considerações Finais moldes, distribuídos nas mais longínquas cidades do país, como Cauê Matos disse que viu acontecer com uma das cidades onde foram apresentar espetáculos do Núcleo da Estação. A mídia, por sua vez, colabora quando divulga estas manifestações, quando analisa, quando tira fotos, quando apresenta. Além da divulgação propriamente dita que ela já faz nas matérias veiculadas sobre as descobertas, estudos e Considerações Finais afins, a mídia é responsável pelo conhecimento do público sobre as Artes. Tem estes dois papéis importantes, e não somente aquele primeiro, como é de consentimento geral. Não adianta nada ter um espetáculo lindo sobre o conhecimento científico, se as pessoas não têm conhecimento da qualidade do trabalho, nem sabem quando e onde serão apresentados. A participação da mídia é indispensável e fundamental para que a Arte seja bem sucedida. E como os meios de comunicação, toda a produção da indústria cultural da humanidade ajudou no imaginário científico que o público tem hoje, que aos poucos está se desviando dos pré-julgamentos com relação à Ciência. Há ainda muita coisa a se fazer. Comparando os números de público das peças de teatro, como fizemos no início do capítulo 4 comprovamos que o trabalho 136 ainda não terminou. Falta ainda muitas outros espetáculos “martelarem” Ciência na cabeça do público para que se acostume com a temática e caminhe em direação a novas descobertas. É questão de costume, sim. Monteiro Lobato foi um inovador na sua década, e hoje é reconhecido pelo que fez, justamente porque todos se acostumaram com o tipo de escrita e conteúdo que apresenta. O mesmo deveria acontecer com as outras Artes. É um movimento que cresce a cada dia, dos mais diferentes modos e caminhos. Ora, e é fácil entender o porquê. A criatividade e a imaginação continuam Considerações Finais trabalhando firme, seja em sonhos, seja em realidade. E chega uma hora que elas brotam, como as nascentes fazem nos solos rochosos das montanhas, e vão descendo, levando vida a lugares desacreditados. Vai chegar o tempo que a água daquele rio vai encontrar o seu destino. E vai desaguar todo o seu conhecimento naquele maior, que é oceano do conhecimento humano, que há milênios é renovado Considerações Finais diariamente. Talvez este riozinho seja um pouco diferente dos demais, como é o Rio Negro. Mas o que é a evolução sem a diversidade... É quase como a Ciência sem a Arte. 137 Referências bibliográficas AJZENBERG, Elza. (org.). Arte e ciência – mito e razão. São Paulo: ECA/USP, 2001 AJZENBERG, Elza. (org.). Arte e ciência – qualidade de vida. São Paulo: ECA/USP, 1997 AJZENBERG, Elza. (org.). Arte e ciência. São Paulo: ECA/USP, 1995 BEZZON, Lara Crivelato (org). Guia Prático de Monografias, Dissertações e Teses. Ed. Alínea, 2004 CALDAS, Graça. Comunicação pública e ciência cidadã. In OLIVEIRA, Maria José da C. Comunicação pública. Campinas: Alínea, 2004 CALDAS, Graça. Comunicação, educação e cidadania: o papel do jornalismo científico. In GUIMARAES, Eduardo. Produção e circulação do conhecimento. Campinas: Pontes Editores, 2003 Referências bibliográficas Referências bibliográficas CALDAS, Graça. Leitura crítica da mídia: educação para a cidadania. In COMUNICARTE. Campinas: Pontifícia Universidade Católica, 1982 CAMPOS, Roland de A. Arteciência: afluência de signos co-moventes. 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Carlos [compositores] In: Roberto Carlos: Sony, 2002 1 CD, Faixa 1 (5 min e 45 s) 140 COSTA, GAL. Canta Brasil. D. Nasser; A. Pires Vermelho [compositores] In: Fantasia: Philips, 1981. 1 LP. Faixa 1, lado A GIL, Gilberto. Lunik 9. G. Gil. [compositor] In: Louvação: Philips, p1967. 1 LP GIL, Gilberto. Quanta. WEA, 1997 SEIXAS, Raul. Todo mundo explica. R. Seixas [compositor] In: Mata Virgem: Warner Discos, 1979. 1 LP. Faixa 10, lado 2 Imagens Fotos de cinema retiradas do site: www.allmoviephoto.com Referências bibliográficas Referências bibliográficas 141 Anexos Entrevista com Carlos Palma Ator de Einstein – 49 anos – dia 31/08, no Teatro Municipal de Santo André Anexos 1. Há quanto tempo que você está no teatro? Eu comecei a fazer teatro na adolescência, no interior, em Ribeirão Preto. E aí eu comecei a fazer teatro quando estava com meus 14 anos no ginásio. E na escola onde eu estudava, escola do Estado, havia um grupinho de teatro, pessoas mais velhas do que eu que faziam e tal e ali eu comecei a prestar atenção nisso. Outro dia teve um curso de teatro lá em Ribeirão de um professor daqui de São Paulo, e eu fui fazer. Aí eu gostei muito, curso aberto assim de alguns dias, e tinha muitos estudantes, alunos das escolas do Estado, naquela época o Estado ... o curso era bastante bom, o ginásio, e aí eu tive contato naquele curso com alguns grupos de teatro amador que já existiam em Ribeirão Preto. Isso foi em 1969, 68, 69. Até que eu imediatamente entrei em um grupo de teatro lá, aí comecei a fazer teatro amador lá em Ribeirão, peças infantis, peças adultas, e ali foi meu começo de teatro. Depois eu precisava arrumar uma profissão, trabalhar, e eu sempre fui desenhista e gostava de desenho então precisava achar uma profissão que desse prazer. Aí eu pensei em Publicidade. Durante quase 30 anos eu exerci a profissão de publicitário. Recentemente que eu parei para ser só ator. 2. Você é formado em Publicidade? É. Aí eu estudei Comunicação em Ribeirão, comecei a minha atividade de publicitário de fato, diretor de arte. Trabalhava para a Anchieta mesmo, na época que existia isso, comecei na verdade em 1973, 19 anos, comecei a trabalhar com Propaganda, estudava e assim foi. Em Ribeirão Preto foi o meu começo de profissão tanto como publicitário como apaixonado pelo teatro. Até que eu vim para São Paulo em 78. Quando eu mudo para cá a intenção era realmente fazer teatro. Porque eu já vinha muito para São Paulo acompanhar aqui o que se fazia em teatro no começo dos anos 70 em São Paulo, acompanhava muito teatro profissional que ia para Ribeirão Preto, fazia teatro lá, então essa coisa foi me envolvendo de tal forma que eu queria vir para São Paulo para ser ator. E aqui é muito difícil. Você chega na cidade e fala ‘eu sou ator’? É difícil o processo de começar a fazer. E aí, logo que eu cheguei, eu vim para cá em 1978, eu entrei, tinha um vestibular na Escola de Arte Dramática, eu prestei o vestibular nos primeiros meses de 79, e tive a felicidade de entrar. Então ali, eu achei que a escola me serviria para várias coisas, eu aprenderia teatro de uma maneira mais disciplinada, etc, e ao mesmo tempo ter contato com pessoas de teatro. Eu terminei a escola em 81 e isso foi a minha vida na década de 80, fiz muito teatro e sempre trabalhando em agência de propaganda aqui em São Paulo. Eu tive que conciliar a necessidade de salário, de sobreviver e fazer teatro, que nunca me deu dinheiro na verdade e nunca foi uma atividade que compensasse financeiramente. Por isso, eu ficava na Propaganda. Essa foi a minha história até chegar no Einstein. 3. Como foi isso? Pois é. Um pouco antes de chegar o Einstein, eu tinha pedido um tempo para mim mesmo do teatro. Porque a essas alturas eu já tinha montado um escritório de Comunicação, estava casado, com filhos, etc. A situação do escritório era difícil, o teatro que eu fazia não era nenhum teatro que fosse importante, era importante só para mim mesmo, o exercício de interpretação. Mas não era uma coisa fundamental. Eu resolvi parar, e fiquei cinco anos ausente dos palcos. Até que exatamente por causa do trabalho de Publicidade que eu tinha, de um cliente, eu fui até Santiago do Chile e lá assisti a peça “Einstein”. E aí a coisa foi começando a acontecer. Dois anos depois, eu parei de fazer teatro em 92, fui ao Chile em 95 e somente em 97, depois de dois anos de ter visto “Einstein”, que eu mais a minha sócia Adriana, a gente comprou os direitos dessa peça para ser representada. Confesso que não imaginava fazer o Einstein, a gente imaginou convidar um ator mais ou menos na idade aproximada [O Einstein da peça tem 70 anos], e bom ator, conhecido, etc, porque a gente acreditava que a peça fosse ter muito interesse por estar falando de Ciência, por Einstein, porque seria um bom negócio. Daí o negócio digno de fazer essa peça, mas com um outro ator. Mas aí, Anexos 1 numa circunstância bastante inusitada, num momento que estávamos falando com o autor, que é canadense, ele queria saber quem era o ator. Então a gente com medo de dizer quem era o ator que nós não tínhamos consultado, a Adriana que estava do meu lado falou “não, você pode fazer, eu tenho conheço”. E aí falou meu nome para o autor, ele pediu o curriculum, e aí a coisa começou a acontecer. Ensaiamos durante seis meses... Anexos 4. Digamos que o Einstein te escolheu... É... eu não sei, tem essa coisa muito misteriosa que a própria peça fala, que se as coisas fossem lógicas e previsíveis, não tinha graça. O interessante às vezes na vida é o acaso, são essas surpresas boas, e as ruins também, mas essas coisas que acontecem e você não sabe porque aconteceram. Eu digo que foi um acaso feliz. 5. Você acha que é esta peça do grupo que tem melhor receptividade? Depende um pouco porque essa é uma peça que mais fazemos do repertório. Algumas razões são claras: é um espetáculo que tem uma qualidade, nem vou ser falso em dizer, ele tem uma qualidade sim. Agora, ele fala do Einstein, e o texto é maravilhoso porque o texto nos provoca a ficar pensando sobre o que estou fazendo aqui, devo buscar o novo, a vida, as coisas não se repetem na vida, então, estão acontecendo novidades na vida e eu tenho que ter consciência disso, eu tenho que procurar este novo para a vida ser mais vivida, a peça está falando sobre Ciência, que é uma questão muito importante. Sempre foi, mas hoje adquiriu uma responsabilidade maior no avanço tecnológico que a gente vive e nas mudanças mesmo que são rápidas na vida, né? Então, “Einstein” tem uma responsabilidade, a peça está falando sobre isso, está questionando não o valor da Ciência, mas a atitude da Ciência, os limites, sua responsabilidade, os cientistas, etc. E está mostrando o personagem que é um ícone mesmo da inteligência humana, da capacidade criadora do homem, é um ícone de reverência, é um ícone de uma luta insana a favor do pacifismo. Então ele é uma marca, o Einstein é importante e super representativo na nossa vida contemporânea. Por isso acho que as pessoas querem [ver] porque elas já sabem que a peça é um pouco tudo isso, tem uma visão bem geral da vida dele, da Ciência, algumas revelações importantes e curiosas, a sua vida, o seu trabalho, a sua história. Então, é a peça que mais fazemos. Agora, eu não diria, eu acho que tem algumas peças como Copenhagen que é uma peça muito mais chocante do que “Einstein”. Porque o Copenhagen está falando de coisas que de fato aconteceram da vida, no período da história do século passado que determinou um pouco o que nós vivemos hoje. Então ela é uma peça que coloca em xeque várias questões, a questão dos preconceitos. O Copenhagen, na cultura que a gente tem, que é uma cultura muito estratificada ou através de um poder econômico. Então a peça, com muita sutileza é uma brilhante dramaturgia, o Michael Frayn e o Copenhagen conseguem questionar uma série de coisas que a gente às vezes nem presta atenção. Questiona uma coisa importante que está falando de um físico que é o Heisenberg, que foi muito criticado na história da Ciência, na política, por ter ficado na Alemanha na Segunda Guerra Mundial e por ter chefiado o programa nuclear de Hitler, mas ali você tem que entender os vários ângulos a atitude do Heisenberg, o autor coloca uma coisa muito legal, não do nacionalismo, mas a questão do sentido de pátria. E isso para gente é uma surpresa, porque a gente tem umas idéias preconcebidas a respeito de pátria, de nação, de povo, né? E o Michael Frayn coloca isso tudo em xeque em Copenhagen. Então eu acho que Copenhagen é mais profundo, ela vai numa discussão mais forte sobre a vida, o livre-arbítrio, as decisões que você toma e que você é responsável por elas. Agora, tudo isso varia. Por Exemplo, o Copenhagen eu fiz muito mais festival do que o “Einstein”, o “Einstein” tem seis anos de temporada, já de carreira e não fiz o número de festivais que o Copenhagen fez. Viajei muito mais com o “Einstein” para instituições científicas, escolas, empresas, eventos para o Brasil inteiro. Agora, assim, o infantil Da Vinci, por exemplo, era uma peça que a gente não imaginava que fosse acontecer muita coisa, tivemos uma vida longa com Leonardo Da Vinci, “Da Vinci Pintando o Sete”, que era infantil. Então essas coisas você não sabe, o teatro é uma aventura no escuro. É claro que você se prepara, busca qualidade, busca fazer o melhor para que tenha uma vida longa e você seja bem sucedido. Mas você não sabe, de repente... 6. Ao que você deve estes seis anos de “Einstein”? É um pouco tudo isso que eu falei e, porque eu acho que o pensamento dele é um pensamento de uma atualidade, assim, de um grande impacto. Porque ele morreu em 1955 e as coisas que ele Anexos 2 Anexos disse ainda, nos últimos anos da sua vida, durante o período da guerra, as coisas que ele fala sobre a religião, as coisas que ele fala sobre criatividade são coisas que estamos vivendo hoje. E na peça ele fala que quando ele é convidado a ser presidente de Israel, ele recusa porque ele fala que não acreditava num mundo com fronteiras. Quer dizer, estamos vivendo hoje um início de globalização, não sabemos aonde vai parar isso, mas ele já previa assim, um mundo sem Estado. Então ele tem uma visão bastante iluminada, o Einstein, sobre o ser humano. E isso a peça é provocante porque pega desde o adolescente e vai até as pessoas de mais idade, eu acho que tem um pouco disso. 7. Você adaptou o roteiro da peça original para o público brasileiro? Teve pequenas mudanças. E essas mudanças porque o texto original, o autor, que assina como Gabriel Emanuel, tem um grupo de teatro judaico, em Toronto. Então, muitas coisas que eram ditas na peça e que nós tiramos é porque ele entrava numa questão do judaísmo, a questão da condição de ser judeu, que era umas reflexões que o Einstein fez, muito mais tarde na vida, e que pra gente era demais para o resultado que a gente queria de uma peça de um ato. Originalmente ela é de dois atos, um monólogo seria difícil dois atos, a gente já perdeu um pouco este costume de dois atos, apesar que Copenhagen são dois atos. Mas para monólogo ia ser meio complicado. Então o Silvio [Zilber, diretor da peça], acho que teve o bom senso de tirar o excesso de coisas que não poderia ser muito atraente e iria cansar a platéia, para deixar aquilo que era importante mesmo para nós. Então a peça teve estas pequenas intervenções no texto, mas o texto eu sempre lembro que o texto é do Einstein. O que o autor fez foi editar as principais coisas que o Einstein disse, pensou, escreveu, que estava registrado em biografias que ele leu sobre o Einstein. Ele fez essa edição. 8. Igual ao Feynman... Um pouco como o “Feynman”, são palavras dele. O “Feynman” um pouco menos, apesar que as coisas relatadas estão ali, no Feynman, né? Mas a fala do Einstein é que... Por exemplo a frase “Deus não joga dados com o Universo” ou “A imaginação é mais importante do que o conhecimento” ou uma série de outros grandes textos que têm na peça e que são literalmente textos escritos pelo Einstein. Não dá pra você deixar de fora ou inverter alguma ordem de construção da frase porque às vezes pode mudar o sentido. Então eu acho que o “Einstein” tem mais coisas assim em termo de palavras do Einstein do que o “Feynman”. O “Feynman” tem a vida dele sim, mas ela tem uma literatura que é melhor trabalhada no sentido de tornar não obrigatoriamente uma regra. 9. E foi por causa do “Einstein” que acabou surgindo o grupo... Exato. O “Einstein” deu início ao projeto, que foi quando a gente pensou em continuar fazendo teatro falando de Ciências Naturais. Um pouco até, pode parecer mais ‘pôxa, porque tão fechado, Ciências Naturais’. Eu digo, é claro, Ciência é tudo, é tudo o que o homem descobriu, pensou acumulou de conhecimento a gente chama de Ciência. É tudo aquilo que tem uma possibilidade de ser comprovado, você fala isso é Ciência, né? É aquilo que é possível de ser experimentado, e na visão das Ciências Naturais é um pouco complicado porque é um assunto tão rico, a vida destes cientistas, o que eles fizeram, principalmente aqueles que lidam com Ciência básica, aqueles que trabalham com Física pura, com Ciência pura. Porque a aplicação, isso é uma outra parte da Ciência que exige inteligência, exige criatividade, mas não é a base, não. A originalidade toda está em quem consegue descrever um fenômeno e formular um padrão, uma teoria. E aí sim isso vai ser aplicado em algo a ser produzido para o nosso conforto. Então, a Ciência base, a Ciência pura é um negocio muito interessante porque está muito ligado a Filosofia, está muito ligado ao pensamento existencialista também. Tanto é que estes grandes cientistas ao passar do tempo vão se tornando grandes filósofos, porque ao observar a matéria, ao observar a natureza, ao observar o Universo e como as coisas acontecem você começa a fazer conexões com a sua vida, com o seu jeito, com a sua sociedade. E você vê que as coisas estão super relacionadas e eles viraram então grandes filósofos dando palpites em tudo o que é coisa. Então a gente resolveu falar dessa Ciência. Dessa Ciência que é responsável, a base da nossa existência. Tudo que a gente vive na Medicina, na Química, na Física, na Astrologia, na Geologia. Tudo isso vem dessa curiosidade, dessa loucura desses homens que quer observar. E começar a formular hipóteses. E começar a testar suas hipóteses. Anexos 3 Anexos E o que é genial nesses autores da Ciência pura, por isso que eu sou apaixonado por eles, também sou daqueles que aplicam, que são estes grandes artesãos da tecnologia, conseguem criar programas de computador, chips, máquinas, mas essas pessoas da Ciência pura, elas têm uma coisa que é um descompromisso. Elas têm um descompromisso, elas têm uma liberdade de agir. Eles têm que observar um fenômeno da natureza e vão descobrir como ele acontece. Isso é um trabalho maravilhoso dessas pessoas e que vai, ao passar do tempo este conhecimento vai se acumulando ou então vão se fazendo grandes revoluções na Ciência quando se derrubam os velhos paradigmas e se constroem, colocam novos. Essas coisas são esses homens da Ciência pura que fazem. Quebram paradigmas, a descoberta de como o mundo acontece. E é interessante todas essas coisas que eu estou falando porque você vê assim, os cientistas chegam a conclusão de que o Universo começou no grande Big Bang. Só que é simples. Aí a velha pergunta “E o que veio antes?”. Essa é uma pergunta metafísica: “O que veio antes?”. Essa pergunta não tem sentido cientificamente falando, porque ela não é algo a ser simulado e nem testado em laboratório. É uma impossibilidade científica de acontecer. Então o que é genial é o seguinte: eu não quero, a questão metafísica ela vem depois, você entendeu? O porquê, essa coisa é metafísica, não é? Enquanto você trabalhar na questão da Ciência mesmo, os fatos que são colocados diante de você, que são desvendados, que são explicados, são de uma genialidade muito grande. Agora, a maneira de como você lida com essas coisas, o porque que você consegue chegar a tal coisa, essa é uma outra questão. Uma questão mais filosófica. E que o teatro, por tratar, e não ser lugar de você dar aulas de Ciência, mas de tratar de questões existencialistas, de questões morais, você consegue fazer com o teatro essa ponte entre a Ciência e a Filosofia. A Ciência, a religião, a Física, e o fato científico. Então, por isso que eu acho que esse é o teatro que o Brecht falava muito, né? O teatro da era científica. Quer dizer, quando o Brecht coloca isso, e já em Galileu ele coloca isso fortemente. Quer dizer, eu preciso estar sempre pensando no que eu faço com o meu conhecimento. Do que eu sou capaz como homem dotado de inteligência, de percepção, e de resolução de problemas, como é que eu posso viver com essa minha capacidade. O Einstein fala isso na peça, né, ele fala “Pra quê inteligência se eu não tiver sabedoria para utilizar essa inteligência?”. Isso vem um pouco lá trás com o Brecht, quando ele coloca em Galileu. Então eu acho que o teatro que a gente está fazendo hoje é um teatro sintonizado com essa situação que estamos vivendo hoje de mudanças rápidas e contínuas. 10. Você mencionou isso agora, e o “Einstein” tem isso, no “Feynman” tem isso e no “Copenhagen” tem isso, que é falar sobre as conseqüências da Ciência e da bomba atômica. Foi proposital? Não. Engraçado, não é? Muito engraçado. O “Einstein”, claro, ele fala porque ele assinou a carta, quando veio “Copenhagen” a gente viu que a peça acontecia durante a Segunda Guerra Mundial e toda a razão entre a discussão de Boehr e Heinsenberg era a questão da fissão nuclear, portanto, da bomba atômica. E no “Feynman”, ele participou dos testes em Trity, esteve nos Alamos, enfim. Tem uma certa, uma grande coincidência nisso. Agora, apesar da coincidência, tem uma coisa importante que a questão da bomba atômica. É uma questão que naquele momento, a Ciência perde a sua ingenuidade. Porque é a primeira vez na história do homem que se reúne tantos gênios ao mesmo tempo para se construir algo que eles não sabiam o que era, tinham uma certa possibilidade de ser, mas eles não sabiam o que era e que serviu na sua primeira utilização para o mal. Quer dizer, se antes a gente já tinha tido uma história da Ciência algum outro momento, você construir armas também nas guerras, na Idade Média, no caso os artesãos faziam suas armas que era um tipo de desenvolvimento científico, mas era uma coisa ligada a, não tinha esse valor de que a Ciência tem hoje. Então, na nossa era moderna, a mesma questão da explosão das bombas atômicas, é um momento de separação mesmo. A partir dali, o homem deixou de ser aquele homem de antes. O homem adquiri uma capacidade de destruição através da Ciência imensurável. Até aquele momento, mesmo o avião, durante a Primeira Guerra Mundial, o avião foi a grande descoberta, e Santos Dummont até se mata porque uma das questões, pensa assim... essa coisa do avião na guerra, né? Você já tem uma utilização prática da Ciência, não é? Agora, a fissão nuclear era algo terrível. A bomba atômica é algo de total destruição que acaba com isso aqui tudo em fração de segundos e duas, três delas explodindo em cada lugar do planeta. Quer dizer, essa dimensão é tão marcante na história da Ciência , da Anexos 4 política e da nossa vida. O século XX na verdade, a partir dali passa a ser outro, porque o mundo todo com o pensamento na Ciência, na Economia, a questão geopolítica começa a adquirir um outro contorno. Então a Ciência, no nosso caso, está coincidentemente falando sobre disso. Podemos continuar falando porque não vai se esgotar. Acho que o alerta tem que ser dado sempre. 11. Existe algum critério para um texto virar peça? Olha, a gente pesquisa. Hoje a gente dá uma pesquisada, a gente recebe textos, a gente também espera que caia na cabeça alguns textos geniais, porque é difícil. Uma dramaturgia que fale disso que nós estamos falando é muito difícil trabalhar. É muito complicado. Apesar de já ter seis anos, a gente começou esse movimento de Arte e Ciência. Nós somos, na verdade, o começo desse movimento no Brasil. Porque quando a gente começou com isso, a Estação Ciência em São Paulo também começou a fazer teatro voltado com os olhos para a Ciência. No Rio de Janeiro a Fiocruz também começa... Anexos 12. Vocês começaram em 97? Noventa e... Na verdade a peça estreou em 98, o “Einstein”. 99 é que a gente começa o projeto, que a gente tem a idéia do projeto. Primeiro teve a peça. A Casa da Ciência no Rio de Janeiro foi em 99, agosto de 99. 13. A Estação Ciência foi em 2000. Foi tudo junto então... É. A Estação Ciência começou em 2000 [Segundo Cauê Matos, da Estação Ciência, a idéia surgiu em setembro de 1999, e a primeira peça foi estreada em maio de 2000]. Então, a gente começou o “Einstein” em 98, mas o projeto foi formatado, sem saber que existia essas coisas acontecendo. Isso foi um achado mesmo, de uma conclusão que eu observava as pessoas ao redor. E um dia eu fiquei pensando: “ Mas se tem o ‘Einstein’, deve ter outras. E esse é um papo, é tão legal falar dessas coisas, eu vou continuar falando isso”. Foi assim que foi decidido o projeto. Agora, hoje, depois de todos estes grupos acontecendo de teatro, a gente acontecendo, eu assisto as peças deles, que eu começo a ver que existe distinções, existem caminhos dentro do próprio segmento de Arte e Ciência, no teatro. São sutilezas assim, de atuação, de escolha de texto principalmente. Então a gente começa a ver, porque esse caminho está se construindo sempre. Vai ter que mudar um pouco, voltar, enfim. Mas a gente já sabe mais ou menos o que a gente está querendo, essa coisa da Ciência. A gente está relacionado com outros países, os textos encenados em outros países. E lutando para que tenha uma dramaturgia nacional falando disso, porque senão ninguém escreve. Quando se escreve você fica até numa situação delicada, porque você é obrigado a montar porque não tem outro que escreve, não tem muita opção aqui [Brasil]. E a gente está tentando, num próximo espetáculo com dramaturgia nacional. O infantil, os dois infantis, Da Vinci [Pintando o Sete] é uma dramaturgia nacional, e o último espetáculo, Vinte Mil Léguas Submarinas[, Ufa!] também á uma adaptação que eu fiz do Júlio Verne. A gente está aí. É muito interessante porque hoje recentemente [agosto/setembro] o Sesc Ribeirão Preto está dando palestras sobre o projeto, sobre ficção científica e Ciência no teatro. Estive em Cuiabá mês passado. É uma coisa interessante pois isso passou a ser algo novo, da necessidade das pessoas e o teatro, porque é legal, porque a pessoa se diverte, tem Arte, tem representação, e tem um texto, que acrescenta e bom. 14. Vocês têm consultoria com professores, sobre a teoria apresentada em cena? Pois é. Claro que toda vez, lá trás já com o “Einstein” eu tive a ajuda de amigos, ligados á Educação, que dão aulas e tal. E isso foi se ampliando. E hoje a gente tem pessoas maravilhosas, desde o Marcelo Gleiser, que está lá nos Estados Unidos e que colabora via internet. Então quando ele vem para o Brasil, ele fala “tô indo para São Paulo, vamos nos encontrar”. A gente se encontra, troca idéias. Ou às vezes participamos de eventos juntos. Tiveram grupos de Carnaval no Rio de Janeiro, estava lá eu, Marcelo, Roadl Hoffmann, Prêmio Nobel de Química também. Quer dizer, então eu comecei a ter uns relacionamentos muito legais, não só eu como outras pessoas do grupo com pessoas ligadas à Ciência porque eles também estão, da mesma maneira que nós. Nos apropriamos do conhecimento que estes homens têm e que podem nos passar, eles também estão, de certa forma, vendo como é que a gente, pessoas leigas em Ciência, estão falando de Ciência. É que isso também é importante na construção da comunicação que eles fazem com os seus alunos. Anexos 5 Anexos 15. Você acha que a Arte ensina Ciência? Ou simplesmente complementa? Olha, a Arte ensinar Ciência? Eu acho que a Arte pode ajudar no aprendizado científico. Ela pode ser também um instrumento de facilitação do aprendizado científico por parte do estudante. Primeiro que ensinar compreende uma vocação de professor, de instrutor, de facilitador. E o artista não, o artista não pode se preocupar com isso. O artista tem que estar preocupado em fazer uma Arte que seja sempre nova, provocando mesmo, porque se não a Arte vai ficar enfadonha. A Arte verdadeira é aquela Arte que rompe padrões, que provoca, que transgride. Mas ela ao fazer isso, a Arte tem um negócio interessante que se chama emoção. Se você vê um quadro, claro que você está de tantas formas condicionado a vida que você passa pelo quadro e nem percebe, ás vezes. Mas se você vê um Picasso. Picasso? Que quadro? Vamos ver este quadro. E ao parar em frente a este quadro você pode se emocionar sim, né? Ao ver o quadro, uma peça de teatro, um filme, uma literatura. A Arte tem este componente fundamental e principalmente no teatro, ele deixa de ser [teatro] se não tiver emoção. Então, quando a gente fica falando: “é, mas a Ciência não pode ter emoção. A Ciência é o delírio da razão, né? A Ciência tem que ser lógica, exata, certa”. Olha, talvez, e essa é a proposta do nosso trabalho, que é uma proposta em profundidade de quem faz isso. Que é você fazer a pergunta que eu não sei a resposta que é “eu posso através da emoção facilitar o esclarecimento da razão?” Quer dizer, eu acho que elas não estão separadas, a razão e a emoção. Elas estão juntas, atuando permanentemente, uma colaborando com a outra. Então, se ensinar, se aprender, compreende na utilização de todas as suas capacidades de pensar e de utilizar a razão, eu acho que posso através do teatro, através da emoção do teatro. Quem tem como básico facilitar essa compreensão da Ciência, da utilização da razão. Isso também não é coisa nossa, né? É uma discussão muito complexa, mas que você já tem isso na história da Filosofia, grandes filósofos pensando nessa relação. E hoje a coisa vai ficando mais funda, porque ao estudar o cérebro humano, eles [os cientistas] estão vendo onde se localiza determinada atitude que você toma. E através de estudos feitos com pessoas doentes, com pessoas sadias, pessoas que têm acidentes, eles vão observando o que é que falta no cérebro, e o que uma coisa tem conexão com outra. E eles não conseguem negar que a emoção, que o sentimento está presente nas decisões, por mais frias que devem ser tomadas. Não há maneira de você deixar de lado um sentimento, uma paixão. Então é aí que entra este projeto, que tem a ver com isso. É uma discussão permanente, é uma pergunta permanente. Eu não tenho a resposta, a Ciência não tem a resposta disso. Será que um dia a Ciência vai explicar o amor? Também eles estão tentando, isso é que é legal. Vamos tentar, vamos brincar de descobrir, mas não sabemos. Mas a gente sabe que o amor ajuda a aprender a Ciência, a aprender a utilizar a sua razão com mais sabedoria. Então o amor, que tem um ingrediente a mais, que é a emoção, tá junto. Então isso é que é o legal. 16. Você teve dificuldades em fazer o “Einstein”? Ah, sempre você não sabe o que você vai fazer. 17. Porque as pessoas já tem uma idéia do Einstein. Ele é um cientista conhecido, digamos. Vou fazer uma comparação, mas é verdade. Eu fiz uma pesquisa antes. O Feynman as pessoas não conhecem... É verdade. Ninguém sabe. Anexos 18. Agora o Einstein todo mundo conhece. As pessoas esperam ver alguma coisa conhecida. A gente teve. Muitas pessoas perguntaram assim pra mim:”‘mas você não tem medo de cair no ridículo?”. Quando você viu a peça pela primeira vez eu já era caracterizado, com peruca? 19. Sim... No começo era meu cabelo, descolorido e com bigode. Eu estava tentando uma aproximação, que é o que a gente faz no espetáculo, de uma... porque as pessoas têm uma imagem. Mas para mim não interessa a imagem, em um primeiro momento. Me interessa é que elas [as pessoas, o público da peça] vão entrando aos poucos na vida deste homem, no sentimento, nas suas dores, na sua inteligência. Agora, se eu conseguir, mesmo que em um primeiro momento, um “ah, que engraçado, ele se caracterizou bem’”e aí elas vão no seu inconsciente associar aquela figura que ela sabe que existiu, que ela já viu em fotos, publicações, etc, ela pode, na mágica do teatro, alguns minutos depois sentir-se diante dele. 6 É esse o fenômeno que a gente queria alcançar. É claro que eu já ouvi uns comentários: “ah, você poderia fazer um palhaço, falar este texto que seria mais interessante, seria genial”. Isso é outra concepção artística, a nossa do naturalismo mesmo, para poder fazer, é assim, para a própria platéia mesmo, de repente, pensar o seguinte: “peraí, onde eu estou. Estou no teatro mesmo, estava na casa dele...” Esse é uma aposta difícil de fazer porque você não se desprende do seu pé aqui na Terra, mas alguns trabalhos conseguem tirar você desta realidade. Principalmente um melodrama, né? Você se espelha, vibra com aquele personagem. Você está na sala da sua casa, vendo um vídeo. Mas no teatro não, fica dentro da pessoa. É uma outra comunicação que se estabelece, é um outro código, então é brincar. Teatro é um trabalho de pesquisa também. “Então ele resolveu se caracterizar de Einstein, vai falar de Einsten, e quer me enganar que é o Einstein”. Não é que eu quero enganar, eu te engano. (risos). O jogo é esse: você vai no teatro para ser enganado. Não é essa palavra, é para ser iludido. Senão você não vai ao teatro. Teatro é a casa das ilusões. Anexos 20. O “Einstein” tem muito disso de aproximar o cientista do público... É um ser comum como a gente. Então daí a pouco é um jogo que se estabelece de que eu estou aqui para iludí-los. E vocês vieram aqui porque vocês querem ser iludidos. Então, vamos ver se funciona a mágica? Tem toda aquela caracterização, tem todo o jeito de falar, a interpretação, os resmungos, a luz, o som, a xícara. Tem tudo isso para formar algo que possa realmente te encaminhar para uma outra dimensão, um outro estado. 21. Você acha mais complicado fazer um monólogo e ter que manter a atenção do público sozinho, ainda mais numa peça científica? (como “Copenhagen”, que tem três atores...) “Copenhagen” é difícílima. “Copenhagen” pra mim dá um desgaste maior do que o “Einstein”. O personagem é muito difícil, o Heisenberg. O Einstein não é que é fácil, mas é que eu fui aos poucos eu acho que ele... (risos) não tenho como explicar essas coisas. Eu tenho um entendimento tão bom com ele [o Einstein] que é muito gostoso fazer. Mas monólogo é difícil porque você está sozinho, hoje chamei atenção, duas vezes, né, a sua deixa para lá [eu estava tirando fotos para este trabalho, e o Palma me chamou a atenção do palco. Por este motivo que não tem fotos minhas deste espetáculo], e os dois meninos que estavam conversando, você viu. No meio da frase eu já falei ‘”vocês dois fiquem quietos” e continuei falando o texto. Porque você usa daquilo que eles já estão acreditando que é o professor. Então você fala com a autoridade de um professor e isso eu fiz muito em espetáculos nas escolas e tal. Pára a peça, chama a atenção, eu domino o texto, eu sei retomar e aí fica aquela coisa como se fizesse até parte, como você chamasse a atenção de um aluno que não está prestando atenção na aula. 22. Como foi adaptar a Teoria da Relatividade? Na peça ela parece tão simples... Mas não é minha adaptação. É do texto original. O que eu explico para você é que o que interessa nessa peça, e o que interessa no Einstein, o que interessa na Divulgação Científica e que hoje eu me incluo é que o que importa é o princípio. A questão matemática é muito técnica para alguns. O que eu preciso saber é como é que funciona a coisa. Qual é o princípio que rege essa história da energia, da massa, do movimento. Anexos 23. Essa metáfora é dele? (há uma metáfora da peça em que o Einstein utiliza um trem para explicar o princípio da relatividade) É dele, é do livro dele. Eu aconselho a ler. A Teoria da Relatividade do Einstein é um livro complicado. É fininho, é pequeno, é a teoria dele. Essa metáfora está no livro dele, explica do trem em movimento e o que acontece com quem está fora olhando e com quem está dentro em movimento. 24. Da chuva ele também fala? (essa metáfora conta que as pessoas do lado de fora estão tomando chuva durante a experiência toda. Algumas vezes tira risadas da platéia. É por conta da chuva que as pessoas verificam dois raios caindo em pontos diferentes, e cada um acredita que um caiu primeiro, ou que caíram juntos, dependendo do local onde estavam vendo os raios) (risos) A chuva é porque precisa ter um fenômeno simultâneo, a simultaneidade. Tem que ter um fenômeno simultâneo e que ele é 7 Anexos visto de tempos diferentes da pessoa que está em movimento. Na verdade é isso que ele explica. Mas o que está por baixo disso é que quando ele termina a frase, ele fala assim: ‘A única verdade objetiva do Universo é que ela é constituída pela combinação de todos os pontos de vista possíveis’. Ou seja, com a Teoria da Relatividade, ele quebra as leis que regiam absolutas, que o tempo e o espaço eram absolutos, tudo aquilo que era absoluto a partir daquele momento é colocado para baixo e até o nosso linguajar comum traz a palavra relativo. Porque o absoluto deixa de existir, o movimento, o tempo não é absoluto, ele é diferente aqui, ali, em outro lugar. E essas implicações que o Einstein coloca são geniais. Tanto é genial porque se você for viajar em tudo isso que eu estou falando, você vai muito longe e chega a fugir do bom senso do nosso pensamento linear, cartesiano, e entra em outras esferas, alguns nas esferas esotéricas, etc, nessa questão da relatividade. Ele é um homem incansável, porque quando ele explica a Teoria da Relatividade ele explica primeiro a restrita, que é a em linha reta e depois ele enlouqueceu de vez, o Einstein, né, quando ela fala: “então peraí. Tem algumas coisas para serem explicadas, a partir desse raciocínio. Eu estou vendo que uma massa, enorme, ela deforma o espaço a sua volta. Ela cria um campo onde ele vai alterar a teoria da gravidade proposta por Newton”. Então há uma coisa aqui e essa coisa ela está permanentemente em movimento e acho que conduz as coisas. Então, o espaço é curvo. [outra parte da teria explicada na peça, com uma maçã, um limão e uma toalha de mesa]. Então o tempo, ele é curvo também. Porque ele é deformado pelo tamanho de uma massa. Arrebenta com tudo o que se pensava antes. Então, essas explicações de espaço e tempo curvos, e com uma simples toalha, maçã e limão ele faz uma experiência. Mas olha “com essa coisa pesada, altera ...” 25. Essa experiência ele também fala no livro? Essa não. Talvez seja dele, não tenho certeza. Fantástica. Mas você vê, estou fazendo a metáfora do espaço com uma toalha, uma maçãzinha é o sol e veja como alterou. E tudo o que estiver ao redor será alterado. Inclusive o tempo. Então a partir daí milhões de coisas aconteceram e a revolução que o Einstein coloca é assustadora porque ele não ganhou inclusive nenhum Nobel pela Teoria da Relatividade, ele ganha pelo efeito foto-elétrico. E é o primeiro passo da Física Quântica. Que ele vai recusar, que ele vai voltar atrás quando ele fala ‘a menor parte da matéria não me interessa. Me interessa as grandes massas’. As grandes coisas, os grandes movimentos. 26. Isso ficou para o Feynman, né? (Feynman é o pai da nanotecnologia, a ciência das ‘coisas pequenas’) (risos). Ficou mesmo. 27. Você desfilou este ano pela Unidos da Tijuca, num enredo sobre a Ciência, na qual você foi caracterizado de Einstein. Como foi? Foi uma diversão. Primeiro que olha, eu devo muito ao pessoal do Rio de Janeiro. 28. Da Federal? (Universidade Federal do Rio de Janeiro) Da Federal. Foi lá que eu tive a idéia do projeto [do grupo Arte Ciência no Palco]. O Rio de Janeiro eu não sei, tem uma coisa muito especial comigo, com o “Einstein”, o Einstein esteve no Rio por duas vezes, vai ver se ele está lá ainda. 29. O Feynman quando veio para o Brasil foi para o Rio de Janeiro... isso está virando uma constante. O Einstein também... (risos) Capital, não é? Mas o pessoal da Federal é muito atirado. Eles têm iniciativa, muito inteligentes, eles se envolvem. E é um espaço... Eles não têm nada. É um espaço menor do que isso aqui vazio. [se referia ao saguão do Teatro Municipal de Santo André]. Só que nesse espaço vazio, eles tem uma sala, bonitinha, charmosa, tem um jardim em volta, árvores, uma casa velha e um casarão vazio. E um escritório. Só que eles pensam tanto e vão atrás, sem dinheiro, eles vão se metendo. Então eu devo a eles a primeira temporada do “Einstein” lá que foi também por acaso. E depois o “Copenhagen” que nós voltamos lá em 2001, onde nós fizemos “Copenhagen”, “Da Vinci Pintando o Sete” e o “Einstein” novamente. E eles reformaram, abriram o teatro, um investimento fabuloso. Um patrocínio nós conseguimos aqui, o outro eles conseguiram lá, e fizemos uma temporada do “Copenhagen” com grande sucesso no Rio de Janeiro, e aí é um negócio legal porque eles não param de pensar. Eles tem atividades permanentes, vai começar uma exposição exatamente do desfile, não é? “Ciência dá Samba”. Eles fazem todas Anexos 8 Anexos as coisas e vão assim, não perdem tempo. Eles acham que é legal, eles vão investir. Investem. Temos várias pessoas, é um grupo de pessoas, funcionários públicos, que decidiram também mexer com a Ciência. E daí eles deram todo o suporte, O Paulo Barros [carnavalesco da Unidos da Tijuca no desfile de 2004] na Escola, a Escola é uma das mais antigas do Rio de Janeiro; uma Escola que nunca chegou aonde chegou; já tinha chegado em cinqüenta e ..., né, nunca assim... Uma Escola de portugueses, e aí eles lá resolveram apostar nisso, sem muitos recursos, não é de bicheiros. Eles então resolveram comprar a idéia do Paulo, o pessoal da Casa da Ciência [ligada a Federal do Rio] deu subsídios, muita discussão, para aprender o que que é Carnaval e o Carnaval aprender o que que é Ciência, como é que se faz este casamento para se transformar em uma exposição de uma hora e meia na avenida. Sem texto; só uma música que fica se repetindo. Mas imagem, né? Bom, logo de cara quando eles pensaram nisso, pensaram na máquina do tempo, e quem dirigiria isso? Tem uma máquina e quem pilota a máquina? Aí chamaram o Einstein [Palma se dirige ao convite como que se fosse ao Einstein mesmo] por ser assim, responsável por essa grande mudança. Então chamaram o Einstein. “Vamos chamar o Palma, que é amigo, já faz este Einstein, tem este sentimento do pouco o que é o personagem, e vamos fazer com ele”. Aí eles me chamaram, eu topei na hora, não ganhei nada. Fui desde outubro que eu comecei a trabalhar com isso lá com eles, fui ao Canecão participar da apresentação do samba-enredo, eles vieram para São Paulo, discutimos juntos coisas, e fui para lá. E aí foi... o Carnaval para mim já uma coisa mais da minha adolescência que eu gostava, tal, parei, não vou mais em salão, lugar nenhum e de repente eu estou lá na avenida de Einstein, pô, puxando o Carnaval. E é genial, maravilhoso, inesquecível. Duas horas antes de você entrar na avenida você já está lá, na concentração, né? E a concentração é genial também porque todas aquelas pessoas que vão entrar de várias escolas misturadas; [nessa parte ele começou a gesticular como era] as escolas têm os carros, e ficam um, que vai entrar, uma escola fica aqui no canto aqui do lado, de fora, aqui. Oposto a isso tem outra escola, então entra essa, depois entra essa, eles vão intercalando. Então tem uma escola aqui, uma escola ali atrás, e outra ali. E aquela coisa toda, ninguém vendo o que está acontecendo lá dentro. Lá, concentrado. E eu ali, e ali não tem camarim para você se trocar, tive que sair do hotel como Einstein para chegar até ali. Aí eu pensei, eu não vou sair daqui [do teatro onde conversávamos] de Einstein e vou andar pela rua, aqui em Santo André. Mas ali no Carnaval não tem problema nenhum, sabe? Saí, o pessoal falava assim: “alô Einstein” e lá estava o cara fantasiado de imperador romano, andando junto com ... (risos) e uma mulata quase nua. É uma alegria. Então este momento de antes de entrar na avenida foi muito curtido, onde eu nunca tirei tanta foto na minha vida [das pessoas pedirem para tirar fotos dele], porque, não de jornalista, mas do próprio sambista que está ali. Naquelas fantasias que você olha na televisão todos tem uma máquina fotográfica escondida na fantasia. Mas é. Ainda mais hoje com essas máquinas pequenininhas. Você está lá como Einstein, esperando, conversando com um e chega uma outra escola e fala assim: “Ô, Dr. Einstein, uma foto sua?”. “Vem cá”. Aí a outra vai: “você fotografa pra mim?” Então hoje eu tenho fotos minhas espalhadas no mundo todo porque o turista estava ali também na concentração, ele vai na concentração. A concentração é livre, você pode andar. E eu fui dois dias, a noite da apresentação e a noite dos desfiles das campeãs [a Unidos da Tijuca foi vice-campeã do Carnaval 2004]. Multidão. Assim, conversando, querendo fotografar... Anexos 30. Você acha que eles linkaram bem a Ciência no desfile? Porque tem Júlio Verne lá, tem Júlio Verne aqui. Einstein lá e Einstein aqui. (me referia ao enredo dos carros e das peças do Arte Ciência no Palco) Muito, muito. Maravilhoso. Mas também não foi “O Palma está montando 20 mil léguas” ou seja, foi coincidência. Porque a gente está trabalhando com esses símbolos mesmo da Ciência, do conhecimento. Tinha mais coisas... 31. Tinha o Leonardo Da Vinci... Tinha o Da Vinci, também está aqui. Foi inesquecível, inesquecível. É claro que na segunda noite, porque você estava mais relaxado. Já peguei a bandeirinha. A segunda noite, a bandeirinha está lá no meu escritório, pendurada na parede. A bandeirinha do Unidos da Tijuca. Uma delícia. E engraçado que eu encontrei amigos nos camarotes, atores de televisão, porque eu tenho amizades com o pessoal da classe. E é muito próximo, a avenida é estreita. Eu fui com 9 o personagem. E é uma avenida. Não é muita coisa, é um pouquinho maior, talvez. E aí já começa a arquibancada aqui, os camarotes ali. Então você está olhando a cara das pessoas quando você passa. Aí eu vi assim, dois atores amigos, “O Palma ali! Ô Palmaaaaaa!” Você entendeu? Gritava, no meio daquele barulho você ouve. O som ele sai, no meio da avenida você ouve outra pessoa conversando na arquibancada. Com todo aquele barulhão. E eu vou sair de novo. O Paulo continua na Unidos, ele tá fazendo um tema, é um pouco baseado naquele livro que tem sobre cidades imaginárias, eu não sei o nome do enredo, compriiiido... Não tem problema. Aí eles me chamaram de novo: Palma, você vai sair de destaque de novo abrindo o Carnaval. Falei: que maravilha. Qual que é o personagem? Dom Quixote. E também sempre sonhei em fazer porque é um maluco sonhador. Anexos 32. Digamos que a Ciência está abrindo portas... Vai... O Einstein... as amizades que eu fiz na comunidade judaíca, na área científica, escolas. Eu fui para Belém há duas semanas atrás, tô aqui em São Paulo, me liga no celular, vejo o telefone, código de Belém. “O Palma, aqui é fulano, vou te buscar no aeroporto”. Aí depois ele falando, o cara viu a peça, e como você, a gente conversando, o cara mora lá em Belém, quando ele viu a notícia na televisão que a peça ia lá ele ficou louco, ele tinha meu telefone. Você começa a fazer amizades assim, espalhadas. Você não lembra o nome das pessoas, infelizmente. 33. Vamos voltar para a peça. Você acha então que o teatro científico está abrindo para o Brasil... É. Hoje tem vários, Espírito Santo, Sul, Paraná, tem aqui em São Paulo gente, a Estação Ciência, no Rio de Janeiro a Fiocruz, e outra coisa, tem alguns trabalhos de teatro que são feitos de outra maneira, ele é muito mais voltado para o didático na tentativa de passar o conhecimento científico que faz parte de uma grade curricular, o que é diferente do que a gente faz. Então eu recebo trabalhos de professores que me mandam assim: “olha, eu expliquei lá o teorema de Pitágoras e fiz essa encenação. O que você achou?”. Me passa, aí eu leio. Porque é legal. Mas, o teatro tem essa coisa, serve para tudo isso. 34. Esta pergunta eu também fiz para o Oswaldo. Eu perguntei qual era o real objetivo do grupo. Ele me respondeu que era fazer teatro, primeiramente. A Ciência acaba sendo um subsídio. É isso mesmo? Você compartilha da mesma opinião? É. Mas eu acho aí é aquilo que nos une e dá coesão para o trabalho, e a paixão em estar presente, é ... claro que tem algumas coisas nas pessoas que variam. Eu acho que o teatro que eu faço é um teatro que (pausa) que eu descobri essa missão. Quer dizer, eu faço teatro, faço comédia, mas tenho que falar de Ciência assim, total. Eu fui convidado a fazer um espetáculo há dois anos atrás. Quando eles me convidaram, no teatro lá do Sesi [de São Paulo] o Willian Pereira, diretor, me ligou. Saiu o ator da produção, a peça ia estrear dentro de um mês e falou: “Palma, eu pensei em você, como é que está a sua vida?” “Puxa, tá complicada, estou ensaiando um outro espetáculo. Não, mas o que você quer Willian?” E ele falou: “Eu quero que você faça o Frei Lourenço no Romeu e Julieta”. Falei: deixa eu pensar... E ele disse: Preciso da resposta amanhã. Vou pensar. Quando eu lembrei que o Frei Lourenço representa o conhecimento científico. Ele prepara aquela poção que vai deixar a Julieta anestesiada. Faço. Eu quero falar de Ciência, que é um negócio bacana, digno e que tem mercado. Anexos 35. Você ganhou o prêmio Mambembe de melhor ator em 98 por “Einstein”. Como foi? É... Principalmente porque eu tinha parado de fazer teatro, voltei a fazer teatro, de repente, assim? Ganho o prêmio. E naquele ano o prêmio Mambembe era Prêmio São Paulo e Prêmio Rio. E quem ganhou o prêmio no Rio foi o Marco Nanini! Mas não significa nada, não se estresse. 36. Ah, mas é porque eu achei interessante, porque eu não me lembro de nenhum ator que tenha ganho o prêmio por uma peça com cunho científico... Essas coisas de prêmio, ano passado eu fui indicado ao Shell. Por “Quebrando Códigos”. Quase ganhei o Shell. Aí, antes de “Copenhagen” eu fui indicado para o Qualidade Brasil, o “Copenhagen” foi indicado pelo Shell várias vezes. Então, se vê? Porque que isso acontece? Porque você faz com vontade de fazer. E vai. Eu acho que é o caminho. (não quis falar dele) 37. O espetáculo mudou alguma coisa desde a primeira apresentação aqui no Brasil? 10 Não. Ele foi adquirindo mais organicidade. Ficou mais orgânico, ele fica mais, foi adquirindo coisas assim, desmundos, que antes não dava. Antes não, era o texto falado. Então essa coisa é o exercício do teatro que te proporciona. O que é legal é que você não pode perder a energia de fazer, manter vivo o personagem, a sua vontade de fazer. Então é isso que não poder perder. Poucos espetáculos duram muito tempo, e eles duram às vezes por causa disso: dá uma vontade de fazer. Você vê, hoje, pouca gente. Tem vezes que apresento para 10, você entendeu? Às vezes, multidão. Três mil no Anhembi, por exemplo, num evento. Daria muito, né? Mas hoje eu tenho insegurança, claro, menos. Mas o personagem não pode sumir, ficar o Palma. Tem todo este controle que faz parte do negócio da técnica de fazer teatro. Mas você vai dominando isso mais com o personagem e jogando, fazendo este encontro. 38. Quantas pessoas já assistiram o Einstein? Acho que umas 250 mil, por aí, acho. 39. Um belo alcance, hein? Momentos extraordinários mesmo. Numa das apresentações, não faz muito tempo, o teatro tinha 500 lugares, tinha 700 pessoas. Anexos 40. Vocês fazem debates depois do espetáculo... Quando é possível sim. Por exemplo, não posso propor um debate e não ficar ninguém. 41. Tem interesse por parte das escolas? É. As escolas pedem muito debate, empresas. Mas também eu faço que nem o Einstein: não sei tudo. Tem coisas que eu não sei. A vida dele basicamente eu sei muito bem porque eu li, continuo lendo e vendo o que sai de novo e tal. Tenho isso fresco na memória. Agora, as vezes quando entra questões mais científicas eu peço ajuda para os universitários (risos) eu falo: Alguém aqui sabe explicar isso para aquela pessoa? E faço mesmo. Para professores de Física, eles não fazem. Mas vem um idiota fazer pergunta para te deixar de sai justa, eu não perco tempo: tem algum professor aqui, por favor, explique porque eu não sou professor. 42. O que é Arte e Ciência para Você? (pausa longa) olha, é.... rs. É essa, fazer Arte e fazer Ciência é o melhor exercício que a gente pode ter de viver. Depois a gente não sabe porque que as coisas acontecem e vai buscar explicação. Você vai buscar uma razão científica. Mas você também faz Arte, você se veste, você se olha no espelho, você quer ser original. Então, essa coisa... Viver é um exercício de soma da Arte e da Ciência, não tem outro jeito. Eu acho que é mais por aí, viu... Entrevista com Oswaldo Mendes e Monika Plöger Atores de “E Agora Sr Feynman?” Realizada em 21/08, no Teatro Municipal de Santo André 1. Falem um pouco sobre o histórico do grupo. Oswaldo: Bem, o grupo existe, já vai para o sexto ano, começou com um monólogo, o Palma fazendo um monólogo, Carlos Palma fazendo o Einstein, que continua em cartaz até agora, e a partir da experiência com “Einstein” que se criou, que ele teve a idéia, ele e Adriana Cardin, que era sócia dele já nesse início, de criar um grupo de teatro voltado para a Ciência. Eu me aproximei do trabalho seguinte dele, que foi o “Copenhagem”, e estou no final de 2000, 2001 a gente estreou, no começo do ano, e eu estou desde 2001 junto com o Palma, e agora a Monika chegou também, já no ano passado, começou a trabalhar em cima do “Feynman”. Então essa é mais ou menos a história da gente dentro do grupo. Quer dizer, é um grupo voltado para a uma dramaturgia, para um teatro de temas ligados à Ciência. Ciências Naturais: Física, Química, Biologia, essa área. 2. Vocês tem consultoria para os temas? Oswaldo: Ah, sim. Cada peça que a gente faz, dependendo do tema que a gente vai tratar a gente sempre tem colaboração de professores, de universidades, físicos. A gente conversa, esclarece as dúvidas sobre as questões ligadas estritamente à Ciência. Nos dão essa assessoria, essa palavra é meio feia, mas esse embasamento teórico para as peças que a gente faz. Então a gente Anexos 11 tem um conhecimento, no caso da Física, por exemplo no “Feynman”, Monika e eu a gente teve que ler as coisas do Feynman, os conceitos de Física, e tivemos um professor, no caso o professor Rogério Rosenfeld, que é da Unesp, que é físico teórico da Unesp, conhecedor do Feynman, claro, que nos orientou, quer dizer, para evitar de você falar às vezes uma batatada qualquer, entendeu? Então essa assessoria a gente tem permanentemente. 3. Como vocês escolhem os temas? Oswaldo: Não, são as peças que caem... Anexos 4. Porque o “Feynman” e o “Einstein” também são textos que vieram de fora (do exterior)... Oswaldo: É... no caso do “Copenhagem” é uma peça que tinha sido estreada em Londres que a gente ficou sabendo, o Palma comprou os direitos, e a gente fez aqui. No caso da outra peça que a gente fez que era uma comédia, “Perdida, uma Comédia Quântica”, “Perdida Em Los Apalaches”, que é de um autor espanhol muito ligado ao Brasil, Sinester, e essa tinha sido feita há muito tempo atrás no Rio de Janeiro, numa montagem pequena lá, e a gente soube disso e a gente foi atrás do texto. No caso do “Feynman” também. Enfim, a gente está sempre fuçando, as informações chegam. Tem várias peças que a gente está lendo, e fica vendo qual a peça mais oportuna para fazer. O “Feynman” é um caso desse. A peça estreou em 2000/2001 nos Estados Unidos, um amigo nosso de teatro, o Eduardo Tolentino do Grupo Tapa viu o espetáculo em Nova York e falou para a gente dessa peça. O negócio de ir atrás, traduzir, estudar e decidir se é o caso de fazer ou não, se há oportunidade de fazer. Então o caminho é mais ou menos esse. De prospecção mesmo. É ficar pesquisando, levantando o que têm de peças, porque não tem muito. Tem, mas é uma quantidade ainda pequena 5. Como é atuar na peça do “Feynman”? Oswaldo: É uma delícia. Monika: também acho. (risos) Oswaldo: é muito prazeroso porque é um personagem tão vivo, embora ele seja colocado num momento da vida dele que tem uma decisão muito importante para tomar em relação a sua saúde, em relação a sua vida. É um personagem vital, um personagem que aposta no conhecimento o tempo todo, até no último momento ele vai querer. E a aluna é um pouco isso também, né, é um pouco o Feynman no dia em que a Miriam Campos, que é a personagem da aluna do Feynman que entra na peça é um pouco o Feynman de saias. Ela tem o mesmo entusiasmo, a mesma paixão pelo conhecimento, pelas Física e pela vida que o Feynman tem. Então é prazeroso, muito prazeroso. Monika: E ela arrisca, mesmo sem ter marcado hora, nada, vai na casa dele, insiste, aí no final ele não deixa ela entrar, ela entra. (risos) Oswaldo: Ela vai atrás... Monika: Vai atrás, não desiste fácil 6. É um pouco cientista também... Oswaldo: É, acaba sendo cientista. 7. Vocês atuaram em peças que não tinham teor científico. Qual é a diferença em atuar numa científica e em uma dita ‘comum’? Oswaldo: Para mim, nenhuma. Monika: Nenhuma também. Você diz trabalho de ator? (fiz que sim com a cabeça, os dois concordaram) 8. E a receptividade, tem diferença? Oswaldo: O problema é o seguinte: cada peça que você pega você tem que estudar. Não interessa se o tema é futebol ou é Física Quântica. Se o tema for futebol, não vou pode ficar confiando só nos meus conhecimentos de futebol. Vou ter que ir atrás, ler um pouco mais, me aprofundar um pouco mais. No caso de Física, também, talvez dê um pouco mais de trabalho, mas como em qualquer peça você tem que estudar a peça, você tem que saber do que se trata, enfim, é o mesmo tipo de esforço. E a receptividade tem sido muito boa, não é, porque a gente está trabalhando. Agora começou a surgiu uns grupos também preocupados também com esta questão. Mas a gente atrai não só o público de teatro normal, mas um público que normalmente não iria ao teatro porque é atraído pela questão da Ciência. É isso que tem feito o trabalho, é um trabalho realmente de formiguinha, vai pulando... A cada trabalho vai se somando um público novo. E esse público é um público de jovens também que chega, ligado às escolas, as universidades. Não necessariamente ligado à Física. Anexos 12 9. O objetivo do grupo é Divulgação Científica? Oswaldo: Não, é fazer teatro. Nós somos todos atores, atrizes, gente de teatro que faz teatro, com um tema ligado especificamente a área da Ciência. Mas não quer dizer que a gente só..., a gente faz a Divulgação Científica indiretamente. Mas o nosso objetivo não é, o nosso trabalho é viver de teatro. Se não a gente poderia fazer outras coisas na área de Divulgação Científica. Não, a gente só faz teatro. Anexos 10. Então, a Divulgação Científica é um objetivo secundário... Oswaldo: Não, vai junto. Acho que vai junto. Quer dizer, quando você faz teatro você está fazendo todas as coisas. Uma boa peça de teatro, um bom espetáculo de teatro serve a mil funções. Por isso é ridículo quando vejo governos, pessoas falando “Ah, qual é o objetivo, a contrapartida social de uma peça de teatro numa obra de arte”, é a própria obra de arte. Ela acrescenta um outro olhar para quem assiste a peça. Melhora a sua visão de mundo, enriquece a sua relação com o mundo. Então, se a gente colabora, eu acho que também o trabalho da gente colabora para a Divulgação Científica, é por conseqüência do trabalho. Não porque a gente esteja querendo fazer Divulgação Científica. Não, a gente quer fazer teatro. E se possível, bom teatro. Que as pessoas sentam lá para assistir uma peça de teatro e se emocionar. Eventualmente se emocionam com a história de um cientista, com um tema ligado a Ciência. 11. Então a ciência foi escolhida para ser abordada porque não existia grupos que fizessem teatro com este tema... Oswaldo: Aí não foi só porque não tinha, porque pareceu ao Palma naquele momento que era um caminho possível. Já existiam alguns grupos dentro da própria universidade, como o próprio teatro científico no resto do mundo também ligado à Ciência, chamado teatro científico, é ligado a instituições, à universidades, a centros de pesquisa. Mas como grupo profissional de teatro, acho que o Arte Ciência no Palco é pioneiro, no mundo. Acho que no mundo. Porque os outros que existem, os outros grupos que fazem um trabalho parecido, na mesma linha, são ligados a instituições mesmo. A gente sabe que são todos ligados. Monika: Ou então são grupos que de vez em quando, no repertório, eles fazem uma peça ligada à Ciência, mas não fazem só isso. 12. Vocês conheciam o Feynman antes de terem contato com o texto? Oswaldo: Eu tinha uma vaga lembrança, quando eu comecei a ler não. Mas depois eu me liguei com o fato que é de 86 com a questão da Chalenger, que é citado na peça, “ah, esse é aquele cara da Chalenger”. Monika: também não, não sabia. 13. Então vocês aprenderam por conta da peça, antes de apresentá-la... Oswaldo: Exatamente... Não conhecia o Feynman. E depois é um absurdo, e quando a gente começou a ler e ver a importância desse cara, diz “como é que eu não conhecia”. Monika: Porque ele morou no Brasil, saiu em escola de samba... Oswaldo: E a gente não sabia. Isso que é bom do conhecimento e do teatro, não é? Você vai descobrindo as coisas. 14. Muitas das pessoas que vêem assistir a peça, como vocês, não conheciam ou conhecem o Feynman. Vocês acham difícil explicar a teoria dele? Oswaldo: Não. Não porque a gente entendeu exatamente, acho que isso já está respondido no que a gente falou antes. O fato de você estudar, aquilo fica tão claro pra gente, quer dizer, então, como isso faz parte do texto, não tem dificuldade nenhuma. Se tivesse dificuldade a gente não estaria fazendo, entendeu? Tem que ser fácil pra gente no sentido de estar compreendido para a gente. Se pra gente está compreendido, é fácil fazer você compreender. Então, essa dificuldade não existe. 15. Porque a teoria dele é bem complexa no sentido da Física. Vocês foram aproximando a teoria dele do público de modo geral. Oswaldo: É, eu acho que a gente na verdade, estimula o conhecimento dessa teoria, porque falar, o trabalho que ele desenvolve, por exemplo, na eletrodinâmica quântica é muito mais complexo do que a peça coloca, porque aí teria que ser um curso sobre eletrodinâmica quântica. Não é o caso. O que a peça faz e dar pistas, e dar indicações ou estabelecer alguns conceitos básicos do pensamento do Feynman sobre a vida, sobre a Ciência, sobre a eletrodinâmica. Mas não é uma aula, em nenhum momento a gente tem a preocupação de dar uma Anexos 13 aula. Há exemplos, são citados exemplos de como a Ciência funciona, de como o seu olhar para o mundo está contaminado de Ciência, de conhecimento. Se este seu olhar estiver contaminado de conhecimento você vai entender melhor a sua relação com as coisas, com o mundo, com a natureza, com as pessoas. 16. Então o Feynman caiu como uma luva, porque ele tenha um pouco a ver com Arte, saiu em escola de samba e era físico... Oswaldo: É, claro. Perfeito. Anexos 17. Tem uma parte que ele fala sobre Arte e Ciência no roteiro... Oswaldo: É que ele vivia discutindo isso. E ela entra pedindo para ele desenhar. Ele não era só um tocador de bongô, ele pintava, ele era um pintor que chegou até a ganhar dinheiro expondo suas pinturas. Tinha um pseudônimo, ele fazia os seus quadros e pintava com o pseudônimo. Descobriu que as pessoas compravam os quadros dele então ele se interessava por tudo, era um espírito aberto para o conhecimento. E a Arte era uma coisa presente, entendeu? Então, como você falou, casa com uma luva até com o projeto, quer dizer, de ver como que a Ciência e a Arte caminham juntas. A gente estreou ... foi em abril? (Monika confirma). Começo de abril, fomos até maio, daí fomos para São Paulo, agora estamos fazendo uma série de apresentações fora de temporada fixa, e vamos voltar em cartaz em setembro em São Paulo e vamos ficar até o final do ano num teatro lá. 18. As peças tem um limite para ficar em cartaz, ou são como a do Einstein? Oswaldo: Depende do público. “Einstein” vai ficar até quando o Palma estiver velhinho, vai poder fazer no palco. Monika: Não vai precisar de peruca... (risos) Oswaldo: Não vai precisar de peruca, nada. A não ser que os cabelos caiam (risos). 19. Vocês estão apresentando todas? Porque “Copenhagen” eu sei que vocês vão reapresentar em outubro... Oswaldo: A gente fez essa semana passada, vamos apresentá-la aqui de novo... Copenhagen sempre volta mesmo. A idéia é manter os espetáculos em repertório. De tempos em tempos voltar. Ou de apresentar os espetáculos em cidades onde os espetáculos são solicitados. A gente vai apresentar o “Copenhagen” aqui, (no Teatro Municipal de Santo André) em outubro. 20. Vocês não tem nenhuma na gaveta? De parar de apresentar? Oswaldo: Não, não. Tem um infantil, um primeiro infantil “Da Vinci” que parou. “Perdida, uma Comédia Quântica” que também está meio... “Quebrando Códigos” já é um espetáculo que exigia muita gente, então a tendência é da gente fazer espetáculos que possam ter essa mobilidade. Esses três tem com certeza: O “Einstein”, o “Feynman” e o “Copenhagen” tem uma mobilidade. A idéia é de fazer espetáculos que você possa circular com eles. E possa estar sempre no repertório. 21. Mobilidade você diz de ter poucos atores... Oswaldo: Não, de facilidade de você andar com eles. Porque se você tem um cenário muito complicado, um elenco muito grande, esse elenco se dispersa, você não tem como segurar este elenco. Se você tem um elenco de três, quatro pessoas, você segura. Se você tem um elenco de sete, que era o caso de “Quebrando Códigos”, que foi feita o ano passado, é quase impossível. Que você teria que ter patrocínio tão alto que você pudesse pagar esses atores só trabalhando na cia. Não é o caso. Monika: E tiveram atores convidados, que foram especialmente para fazer este espetáculo. Oswaldo: Então funciona para aquele espetáculo. (“Quebrando Códigos”) 22. Vocês tem algum apoio ou é tudo por conta da cia? Oswaldo: Temos alguns apoios sim de algumas empresas que são ligadas a amigos, pessoas que conhecem o projeto e que colaboram com a gente independente de leis de patrocínio e tudo mais, mas que dão um apoio. O Etapa, curso pré-vestibular, que nos apoia sempre, os diretores lá, assistem os espetáculos lá de Ciência desde o ínicio e então estão acompanhando. O outro é de uma empresa do ABC, da Interprint, que é uma empresa de impressos de segurança, também diretor presidente e diretores assistem os espetáculos da cia há muito tempo, então eles acabam ajudando a gente, colaborando para que a gente passe. E a Mana-key que é uma empresa de desenvolvimento Anexos 14 de Educação também que está desde o início com o “Einstein” e que também dá apoios. Então essas três têm sido o apoio... 23. Do governo... Oswaldo: Do governo, nada. O município de São Paulo nada. O máximo que a gente consegue é que eles nos cedam teatro para a gente fazer uma temporada durante um mês, dois meses. Mais nada. Essas leis todas que existem para nós, não nos ajuda. Ao contrário. Se fôssemos depender delas, só nos desanimaria. Anexos 24. As escolas têm interesse em procurar o grupo? Oswaldo: Tem. Depende sempre da escola. Têm escolas que são voltadas para isso, têm escolas que são fábricas de dinheiro de seus donos. Essas realmente não têm interesse. Mas eu digo que uma boa quantidade de escolas já com uma preocupação pedagógica essas sim, essas nos procuram, vêm assistir os espetáculos, ficam atentos. A gente tem vários professores, né, que vem assim: “qual é a próxima?” Quando a gente estréia, leva os seus alunos, faz trabalhos, a gente vai às escolas, a gente não se nega a ir às escolas. Ao contrário. A gente vai... Monika: A USP também... Oswaldo: O pessoal da USP... Então tem muito assim de cada. Tanto escolas privadas como públicas. Agora, tem aquelas de sempre que enfim... Mas essas daí não contam. 25. Mas tem uma procura grande? Oswaldo: Tem, tem. De escola tem. Felizmente tem. Eu digo que depende sempre da escola porque é uma coisa espontânea, por mais que a gente procure, se não tiver o professor ligado, os alunos ligados, a orientação pedagógica, a diretoria da escola não tiver atenta a importância que é essa ligação com seus alunos, de teatro, nãnãnã, é, o trabalho fica inútil, né? Mas felizmente a gente não tem encontrado. Uma resposta muito boa. E a garotada que curte muito, né? Quer dizer, isso que estusiasma muita gente. 26. As pessoas voltam para assistir de novo? Monika: Tem gente que acompanha, que liga para saber onde está o novo, quando que vai entrar em cartaz. Tem um menino que acompanhou agora que viu no (teatro em São Paulo) João Caetano e foi também ver o “Copenhagem”. Tem sim. Oswaldo: Já quer saber “onde vocês vão depois, que teatro vocês vão estar”. Existem pessoas sim. São muitos estudantes, é engraçado que isso é bom, são jovens. São pessoas que são tocadas e pessoas que algumas delas nem iriam ao teatro e descobriram o teatro pela via da Física, do Feynman, ou do Einstein, quer dizer, vê o” Einstein” e descobre o teatro, vê o “Copenhagem” e descobre o teatro. 27. Vocês acham que o personagem da Monika é um pouco isso, acaba aproximando o público jovem e estudante? Oswaldo: eu acho que é, agora ... Monika: tem isso, mas eu não acho é só isso, porque no “Einstein” não tem ninguém, é só o Einstein, no “Copenhagen” também não... 28. Mas não cria uma identidade do público com a personagem? Oswaldo: Ah, isso sim... Isso a gente fez uma apresentação no Etapa com 500 alunos, não é? Que era evidente a preferência, a torcida pela Miriam Campos, sabe, quando ela não consegue falar com o Feynman a platéia “Ahhhhh”, entendeu? Claro, porque eles queriam ver, porque um pouco eles se viam na Miriam, né? Naquele embate professor e aluno. Tem o caso do fascínio do professor pelos seus alunos, mas também tem esse lado da aluna que vai atrás, como ela disse. Não se contenta. Então tem sim, a garotada se identifica na verdade com o Feynman via Miriam Campos. Essa aluna que bate de frente com o professor, sabe? Mas na busca do conhecimento é igual. Um tem já um pouco mais porque tem mais idade, então já aprendeu um pouco mais, mas ela tem a mesma desesperada busca pelo conhecimento. Então isso aproxima esses dois personagens. É um gosto da vida de jogar, ter uma relação pessoal, que a Miriam tem, que a Miriam faz isso. Tanto que ela insiste. 29. O cientista tem uma imagem de que está longe do público. E no começo da peça acontece justamente isso, até a aluna se aproximar do Feynman. Você acha que a peça ajuda nisso também, de aproximar as pessoas? Oswaldo: Se tem isso de quebrar essa imagem, como Einstein quebra, quebra a imagem do cientista trancado , só pensa naquilo, só fica pensando em fórmulas, não , é o cara que está aberto, quanto mais genial o cara, mais ele está aberto a vida. E se servir de exemplo, Anexos 15 eu acho que a Miriam Campos é a mesma coisa. É aquela que está vindo com a mesma abertura pela vida. Tanto é que eu falo [para a personagem] , “você pode ser uma boa cientista, uma boa professora”, com essa sua inquietação. Pode chegar lá, vai depender de você. Então não é o ideal do cientista fechado, trancado no laboratório como o Professor Pardal das histórias infantis que a gente aprendeu a ler. Anexos 30. Vocês sempre abrem para debates também... Oswaldo: Sempre que há interesse, que é pedido, a gente abre, mas depende sempre do público. É questão do tempo, do horário da peça, no caso do “Feynman ” até dá para abrir debate, “Copenhagen” é praticamente impossível, são três horas de duração. E quando termina as pessoas querem conversar, mas a gente até conversa no saguão, continua conversando, mas fazer debate a gente acaba fazendo fora do espetáculo, nas escolas que chamam, constantemente o assunto está sendo discutido, não necessariamente após o espetáculo. Quando tem grupo de pessoas interessadas, a gente até se abre para isso. Mas depende sempre do público, porque a gente não pode impor também. Você faz isso as pessoas falam “ah, isso eu já assisti, não quero”. Fica parecendo que você está ..., mas sempre que pedem, a gente faz. 31. O que é Arte e Ciência para vocês? Oswaldo: É o meu trabalho. O meu trabalho é teatro e hoje ligado, com essa conexão da Arte/Ciência. Entendendo que hoje o teatro , cada vez mais, deixa de ser mero entretenimento e é mais um lugar onde o homem reflete sua condição humana, o seu estar no mundo, até as últimas conseqüências como dizia o Plínio Matos. Então, Arte e Ciência para mim é isso, é a possibilidade do teatro voltar às suas origens, de discutir as questões essenciais do ser humano. Divertindo, emocionando, tudo mais, mas teatro sem, não é mais um entretenimento, entretenimento fica por conta da televisão, cinema, do parque de diversões, da internet, ao teatro sobra um novo campo. Isso é o que eu penso. Monika: Isso não quer dizer que é uma coisa fria, né? Não é Ciência assim de laboratório, acho que tem uma paixão dos cientistas, porque eles são apaixonados. O “Feynman “é uma pessoa super vibrante, não é o que se imagina de cientista dessa idéia do cara frio. Ele é o oposto, né? Acho que isso é o trabalho também. Essa paixão que a gente tem também, de estar fazendo isso, o amor pelo teatro, que na verdade a gente faz teatro, né? E agora juntar as duas coisas, Arte com Ciência Oswaldo: Que o público tenha essa mesma paixão. Se a gente conseguir despertar nas pessoas essa mesma paixão, que a Ciência e o teatro despertam na gente o conhecimento, estamos felizes. Pra quê querer mais? Entrevista com Sylvio Zilber Diretor de Einstein e E Agora Sr Feynman, dia 28/09 – por e-mail Nome completo: Sylvio Zilber - 68 anos 1. Como você “descobriu” o teatro científico? Eu não “descobri” o teatro científico. Acho que ele surgiu como conseqüência do sucesso do “Einstein”. Não foi programado. Convidado pelo Palma para dirigir, fiz uma adaptação do texto, uma concepção e direção visando alcançar um público diferenciado daquele que somente freqüenta os teatros. A montagem foi concebida por mim para ser mostrada em teatros, em escolas e também em Convenções, Empresas, Simpósios, Congressos, etc. Nestes eventos é alcançado um público que, a princípio, não é freqüentador assíduo de teatro. O sucesso deste “filão”, que continua a ser prospectado até hoje, é que nos levou a procurar outros textos nesta direção e surgiu a idéia (do Palma) de criar um repertório “científico”. Surgiu então “Copenhagen”, com direção do Marco Antonio Rodrigues e as outras peças a seguir. Anexos 2. Como foi dirigir “Einstein”? Foi uma experiência “diferente”. Eu estava sem dirigir a muito tempo e o convite do Palma me pegou de surpresa. Os ensaios foram se espaçando no tempo e, como é um monólogo, a nossa relação foi se estreitando. Ao entendimento “racional” do texto foi se acrescentando uma visão do “homem Einstein”, que o Palma soube expor brilhantemente. Sou a única testemunha da transmutação do Palma em Einstein, que resultou na criação de uma personagem densa e comovente, que ele vive até hoje. 3. Como foi dirigir Feynman? 16 Anexos O Oswaldo tinha sido meu aluno, nos idos dos anos 70, na EAD [Escola de Arte Dramática]. Nunca tínhamos nos cruzado profissionalmente desde então. Não conhecia a Monika. Foi também um trabalho diferenciado (acho que todos em teatro o são), abordado pelo seus enfoques “pensamento” e “emoção”. O Feynman (o cientista) aparece como uma pessoa extremamente “racional”, mesmo quando trata de sua doença terminal. Foi por este caminho que busquei trabalhar a personagem com o Oswaldo. O trabalho da personagem da Monika é extremamente importante como contraponto e complemento do protagonista e ela o desenvolve com competência e empenho. Posso dizer que ela é co-protagonista do Oswaldo. Se a peça fosse um monólogo, pelo tipo de conflitos que ela envolve, acho que seria menos interessante. das personagens pelo Oswaldo e pela Monika, que somente uma carreira mais longa pode propiciar. Mas posso dizer, com algum cabotinismo, que a minha preferida é a próxima. 4. Algumas delas teve alcance maior? (desconsiderando que “Einstein” está há mais tempo em cartaz). Alguma delas alcançou algum objetivo que a outra não? O “Einstein” já pode ser avaliado na sua trajetória, que vem desde 1998 e posso dizer que ele alcançou (e superou) seus objetivos. O “Feynman” ainda não teve a necessária quilometragem percorrida para que esta avaliação possa ser feita. Daqui a algum tempo, poderemos comparar (se é que isto é possível) as duas encenações. 8. Quais são as diferenças em dirigir um texto científico de um comum - uma comédia, um drama, por exemplo? Quaisquer direções são diferentes umas das outras, independente do gênero do espetáculo. A diferença fundamental, neste particular, é que estamos trabalhando com conflitos (como qualquer peça) e também [grifo dele] com idéias e pensamentos, que precisam ser entendidos pelos espectadores. 5. Há dificuldades em tentar aproximar a Ciência - e o cientista - do público? Sim. O textos “científicos” não são palatáveis para um público desavisado. Acho que é preciso o pressuposto de “estar interessado” nos temas, para então se surpreender com a “facilidade” do entendimento das peças. O público destas peças, não é o público usual das outras peças em cartaz. Curiosamente, uma boa parte de quem assistiu as nossas peças se tornou freqüentador de nosso repertório, muitos deles tendo assistido mais de uma vez cada peça. 6. Qual das duas é sua preferida? Porquê? Prefiro o “Einstein” pelo sucesso que resultou, abrindo um caminho novo e estimulante. Prefiro o “Feynman” pelo potencial que ele embute na montagem e pelas possibilidades da aprofundamento 7. Teve dificuldades em dirigir? Sim e não. Como todo diretor, é sempre um desafio trabalhar qualquer texto, com qualquer ator e ver resultar um espetáculo. Depois do ensaio geral e da estréia, o diretor tem uma sensação de impotência, pois tudo aquilo que foi trabalhado por ele nos ensaios passa para os espectadores pela interpretação dos atores, que a partir daí têm um novo “diretor” : o seu público, ao qual eles procuram agradar e que determina mudanças que não necessariamente são de agrado do diretor. Mas isto são os “ossos do nosso ofício”. Anexos 9. A sua concepção de Ciência mudou depois de dirigir estes dois espetáculos? Aprendeu conceitos que não conhecia? Claro que sim. O mundo científico sempre foi curioso para mim mas, ao dirigir as duas peças, precisei me aprofundar em seus conceitos e raciocínios, o que ampliou bastante meus conhecimentos sobre os assuntos. 10. Depois destes trabalhos, você pode dizer que a Arte colabora para ensinar Ciência? É relativamente ‘mais fácil’ ensinar Ciência pela Arte? Sem nenhuma dúvida, é “mais fácil” ensinar qualquer coisa através da Artes. Torna todos os assuntos mais interessantes de serem abordados. O denominador comum entre as Artes e as Ciências é que ambas se defrontam com as fronteiras do desconhecido. Qualquer pesquisa científica e qualquer manifestação artística pressupõe o enfrentamento do desconhecido, do ainda não dominado e medido, do risco inerente à experimentação e à busca. 17 11. Você acha que a Arte ajuda a retirar o mito de que cientista é louco e que a Ciência é sempre confiável? Não necessariamente. Depende da peça, do cientista, da montagem. Ela pode ir a favor e/ou contra esta visão. Mitos são difíceis de serem apagados. Preconceitos também. 12. Houve realmente uma escolha em discutir as conseqüências da Ciência? (já que em ambas as peças há uma discussão de que tanto Einstein quanto Feyinman colaboraram com a descoberta da bomba atômica). Como foi isso? A escolha decorreu dos próprios textos escolhidos. Coincidentemente (ou sincronicamente) os dois textos (e também “Copenhagen”) tratam de temas correlatos. Mas estas “escolhas” nos levaram a discutir com profundidade a ética das inovações e suas conseqüências. Anexos 13. Em uma das falas de Feynman há uma citação entre a Arte e a Ciência. O objetivo é fazer a ligação direta de que ambas auxiliam o conhecimento? A citação decorre de uma “brincadeira” entre Feynman e um amigo. Mas, sem dúvida, elas se unem na busca por ampliar limites (dos conhecimentos, das emoções) 14. O tema de “Feynman” é bem mais distante do público geral do que o de “Einstein” (distante no sentido de que Feynman tem um estudo que as pessoas não tem tanto conhecimento. No caso de Einstein, a Teoria da Relatividade do texto parece bem mais próxima e simples. E as pessoas conhecem o nome de Einstein como o de um grande cientista, diferentemente do Feynman que dificilmente é conhecido da população alheia a Física). Você acha que isso reflete no público que procura para assistir as peças, e portanto, no conhecimento que a Arte pode ensinar ao público? Claro que o nome de Einstein é sobejamente conhecido, ao contrário de Feynman. Também os fenômenos científicos que os dois abordaram têm graus de conhecimento diferentes. Isto evidentemente determina uma abordagem diferenciada dos dois pelo público. É, mais fácil divulgar o “Einstein”. Não me preciso explicar quem ele foi, diferentemente do Feynman. Eu mesmo, até ler a peça, praticamente não sabia nada sobre o Feynman. 15. “Einstein” aproxima a teoria famosa do público. Você acha que foi isso que criou o sucesso da peça? Não. O sucesso da peça está, primeiramente, na brilhante interpretação do Palma. Um Einstein mal interpretado resultaria em um espetáculo “comum”, sem atrativos maiores. Depois, o sucesso se deve a um conjunto de fatores – a personagem histórica / a simplicidade da montagem / a “simplificação” da explicação da teoria da relatividade / a dramaturgia bem construída pelo autor / a atualidade do tema (vivemos uma era de grandes inovações, da qual Einstein é um paradigma). E, principalmente, da famosa corrente do “boca a boca”, que determina qualquer sucesso em teatro 16. Aliás, o que você considera como uma peça de teor científico de sucesso? A que agrada gregos (público leigo) e troianos (os iniciados). 17. Acha que o Arte e Ciência no Palco conseguiu ter o sucesso esperado? Há mudanças e críticas para o trabalho? Estamos engatinhando. Há mudanças (sempre) críticas (revisão permanente de nossos enfoques) mas somente o tempo poderá dizer se o que estamos fazendo será lembrado como sucesso. Anexos 18. O que é Arte e Ciência para você? Tudo que foi dito nas respostas anteriores. Entrevista com Cauê Matos Coordenador do grupo Cia Fábula da Fíbula, da Estação Ciência Entrevista em 18/08, na Estação Ciência. Perfil: 42 anos, há 22 no teatro. Formado em Artes Cênicas (Universidade São Judas Tadeu). Faz teatro científico desde o nascimento do grupo, há cinco anos. 1. Como surgiu o grupo? O grupo é ligado à Cooperativa Paulista de Teatro. Mas este primeiro grupo acabou, em função de cinema, de televisão, Plínio foi fazer novelas na Rede Globo, aquela Malhação, acho que é isso, o Eduardo propagadas e também filmes, o Caliu, outros trabalhos... Enfim, aí foi substituído este primeiro elenco, permanecendo só a 18 Regina. Mas, o segundo elenco é o que permanece até hoje. Então, eu, a Regina Arruda, Antônio Veloso, Elton Benini e Aline Correia. São cinco atores, personagens são mais de trinta. 2. O grupo existe faz quanto tempo já? A idéia é de 99, setembro de 99, né? Foi o nosso primeiro encontro, mas o grupo começou a existir mesmo a partir da estréia do espetáculo “A Estrela da Manhã”, que foi maio de 2000. E de lá pra cá, montamos “A Estrela da Manhã”, montamos “Conexões Cósmicas”, “Marte – A viagem”, “Monocórdio de Pitágoras”, “Professor Gervásio e Energía Elétrica” e “Gestação”. Seis espetáculos, sendo cinco de teatro e um de dança. Anexos 3. Tudo é parceria com a Estação... É, a Estação Ciência, ela tem este trabalho de dentro dos seus projetos e atividades, possuir um Núcleo de Artes Cênicas. Este Núcleo de Artes Cênicas tem coordenação geral do diretor da Estação Ciência e a minha coordenação de planejamento e execução. E a partir do momento que nós temos algumas idéias sobre determinado assunto e o fazer teatral, aí o Grupo de Teatro Estação Ciência, da Cooperativa Paulista de Teatro entra em ação. Então a gente entra com a idéia, com a infra-estrutura e com a consultoria científica. E os artistas da Cooperativa Paulista de Teatro com a produção e execução da obra. Então o grupo é independente da Estação Ciência. É uma parceria entre a Estação e a Cooperativa Paulista de Teatro. Mas as ações dentro da Estação Ciência de teatro tem o início com o Núcleo de Artes Cênicas mesmo. 4. Quanto tempo cada peça fica em cartaz? O que nós queremos é que elas permaneçam para sempre, que o grupo seja um grupo estável de repertório, e que as peças estejam sempre a mão, para que a gente poder usar quando necessário. “A Estrela da Manhã” mesmo: nós tínhamos encerrado uma temporada longa o ano passado, mas mês passado eu recebi uma proposta de trabalhar com várias secretarias levando o espetáculo, e vamos retomar o trabalho da “Estrela”, e já são quatro anos de “A Estrela da Manhã”. O único espetáculo nosso que não vai acontecer, pelo menos no formato que foi originalmente é “Conexões Cósmicas”. Essa está suspensa mesmo, um número muito grande artistas no palco, técnicos. E isso sobrecarregou demais a produção, e nós tivemos problemas mesmo de conduzir o espetáculo, de tanta gente. Então este, com certeza, não vai ser mostrado novamente. Mas as outras peças sim, “Marte”, “Estrela” agora em junho. E pretendemos que ela fique aí até chegarmos a Marte realmente. Tem o “Monocórdio de Pitágoras”, que estreamos em abril, que também já temos um calendário de apresentações até o final do ano, “Professor Gervásio” também... “Gestação”, esse faz parte do grupo Tecnopathos da Estação, da Cooperativa. Mas o “Gestação”, como foi mostrado em abril e maio não vai ser mais possível. Nós estamos reformulando e refazendo uma série de novas cenas, dados para o espetáculo. Então, quando nós apresentaremos novamente o “Gestação” já como um outro espetáculo, mas o nome vai permanecer o mesmo e as atrizes-bailarinas também, que é a Andréia Fraga e a Marinez Calaio. 5. A Estação Ciência ajuda na produção? Vocês têm apoio? Sim e não. A Estação dá a infra-estrutura, teatro, telefone, fax, computador, consultoria científica com os professores da USP e meu salário como funcionário da Estação e alguns aspectos também de produção. Mas quando chega no montante mesmo, de valores acima de R$ 15.000,00 (reais), nós temos que correr atrás de apoios, patrocínios, até dentro de órgãos dentro da USP mesmo, como o Fundo de Cultura de Extensão Universitária da Pró-reitoria de Cultura e Extensão. Este fundo se presta mesmo para financiar, para viabilizar estes projetos resultantes de pesquisa. Então, o Fundo de Cultura nos ajudou em “Marte – a viagem”, e espero que nesse próximo espetáculo que vamos começar em setembro, que é “O Poeta e o Vento”, esteja conosco também. Mas independente do Fundo, tivemos a Nossa Caixa, Nosso Banco; Banespa; Finep, orgão do governo federal; MCQ, Ministério da Cultura. 6. Vocês têm apoio na iniciativa privada? “A Estrela da Manhã” teve apoio da Lenos, uma editora que fez todo o material gráfico, muito bonito, e da Nossa Caixa, mas aí já é público. “Conexões”: nós temos coisas pontuais, então a Santista deu o figurino para “Conexões”, uma outra loja de uma outra empresa deu toda a parte de tecidos. Então a gente ia juntando tudo isso, mas valores mesmo, nós só conseguimos, por enquanto, com órgãos de governo e órgãos da USP, não Estação Ciência, mas órgãos da USP. Anexos 19 7. Tem uma participação considerável, o apoio para o teatro... Se nós fomos levar em conta que sem esse apoio não teríamos conseguido absolutamente nada, é muito importante. Porque assim, não é só um apoio, “faça, que bom que vocês estão fazendo”, não, é todo uma possibilidade de você pesquisar mesmo, experimentar, você está ali lidando com o teatro, a música, a dança, a tecnologia, conceitos científicos. E isso tudo amplia, às vezes você acerta, às vezes você erra, você planeja acontecer a atividade em três meses, mas só vai acontecer daqui a seis meses. E tudo isso, se nós estivéssemos em uma instituição particular, privada, teríamos dificuldades em estar desenvolvendo desta forma. A Estação Ciência não, acompanha todo o processo, orienta e espera acontecer realmente. Não tem... se em determinado momento aconteceu de forma que não foi a prevista, a gente tem possibilidade de refazer, experimentar de outra forma. É um laboratório mesmo de pesquisa, de experimentação. E quando levamos o espetáculo para o público, aí sim, já concebemos a forma mais próxima do ideal para que as pessoas vejam mesmo o espetáculo. Anexos 8. Como surgiu a idéia? A Estação Ciência não tinha idéia exata assim de fazer um Núcleo de Artes Cênicas quando eu entrei, naquele momento que eu estava aqui. Mas aí o professor Hamburger perguntou isso. Ele perguntou logo quando eu entrei na Estação Ciência: “o que você está achando da Estação?” “Pôxa, interessante, muito bom mesmo, um local onde todos deveriam conhecer, mas eu sinto falta de atividades artísticas, principalmente de teatro aqui”. Aí ele falou: “Ah, porque você não propõe?” E daí foi que veio a idéia mesmo de tentar criar este Núcleo de Artes Cênicas. 9. Então você não veio exatamente para fazer teatro... Não, eu além da coordenação da planejamento e execução do Núcleo de Artes Cênicas, eu sou o coordenador de Eventos da Estação Ciência. Eu entrei na Estação para produzir e realizar um projeto em torno de Zumbi, que rememorava os 300 anos da morte de Zumbi. Fizemos livros, duas exposições, cursos, etc. E algo que ficou faltando mesmo foi esse trabalho voltado aí a alguma linguagem artística. Foi por isso que eu até comentei com o Hamburger que estava faltando realmente um trabalho nessa área. Mas eu entrei para a coordenação de eventos, e ainda permaneço coordenando os eventos. E paralelamente desenvolvendo os trabalhos com o Núcleo de Artes Cênicas. Um produto interessante do grupo e que eu ainda não comentei é justamente este livro [Ciência e Arte: imaginário de descoberta]. A publicação também é fruto do trabalho e do pensar Ciência e Arte na Estação Ciência. É o Núcleo de Artes Cênicas foi que fez o evento em 2000, e resultou numa publicação. Foi responsável pela publicação. 10. Porque você decidiu trabalhar com Arte e Ciência? Eu estando num ambiente de Divulgação Científica, com todo este espaço, 4.000 metros quadrados, com exposições, diversas áreas e vendo o atendimento dos monitores, tratando de determinados assuntos, eu pensei: pôxa, nada melhor do que de repente, a gente pegar uma linguagem artística e não exatamente só teatro, mas a gente já teve como experiência na área de música e em várias outras linguagens, Artes Plásticas, e tentar fazer com que essa divulgação, essa transmissão de conhecimento possa também acontecer a partir da Arte, ou estou dizendo a Arte como um meio para isso. Então foi só aproveitar o espaço e o que ele já oferecia e adaptar isso para uma linguagem artística. E uma necessidade pessoal também porque como artista, ver um ambiente como este recebendo 1200 pessoas diariamente e a necessidade de colocar também nesse espaço o seu fazer, a sua vocação. Foi deste ponto de vista que partimos para fazer o núcleo. 11. Você acha que facilita justamente estar na Estação, porque as pessoas já vem aqui sabendo que vão aprender Ciência, na própria recepção do público? Não é uma atividade que vai substituir as outras, é mais uma ferramenta só. Uma ferramenta muito importante, porque você lida aí com sentimentos, lida muito com abstração, com a emoção e isso sempre sugere uma apreensão maior, e uma interação maior também com aquilo que está sendo mostrado e transmitido. A Arte tem esta vocação. Por ser ao vivo, tem a vocação de aproximar demais as pessoas, com o que está acontecendo no palco, em cena. São seres humanos que estão apresentando e seres humanos que estão vendo. Daí cria a relação de identidade e a relação emotiva também. Isso certamente é uma ferramenta muito forte para apreensão do conhecimento. Não é a única, nem deve substituir outras, né, mas com certeza é uma ferramenta muito importante sim para a Educação. Anexos 20 Anexos E outro dado também: não só pela essa relação da razão, emoção, sentimentos e tal, mas porque ela também quando está em ação, não acontece de uma maneira específica, é sempre abrangente. Ela é multidisciplinar. A partir do teatro você trabalha questões transdisciplinares, ou interdisciplinares, multidisciplinares, porque é possível, né? Então o espetáculo de teatro nunca vai ser só pra abordar um assunto de Matemática, por exemplo. Naquele assunto de Matemática entra uma vida, entra toda uma questão de literatura, História, relação social, relação com outras áreas. Então é sempre multidisciplinar e aí um enfoque importante para a Educação. Você pode trabalhar de uma maneira mais abrangente com o teatro, ou com a Arte. possibilidade da gente refazer determinadas situações. E aí levamos para o palco. Aí teve a greve [da USP, no primeiro semestre de 2004] que suspendeu tudo, e só foi possível reestrear agora em julho. E o teatro, como está em reforma, suspendemos novamente. Mas ele volta também em setembro. Mas é um espetáculo que nós vamos levar aí por muito tempo. Por enquanto três, mas nós vamos chegar aí numas 300 apresentações. Tem “Gestação”. Este que é o de dança que funde Ciência, Arte e tecnologia. As atrizes bailarinas interagem com imagens tridimensionais, criadas no computador. Essa aí nós tivemos, com a greve também desandou um pouquinho, nós tivemos cinco apresentações. Mas, tivemos aí, 1100 pessoas, por aí. 12. Qual foi o público atingindo? “A Estrela da Manhã” apresentamos para aproximadamente 28.000 pessoas. Aqui em São Paulo, no interior de São Paulo e em alguns estados também. “Conexões Cósmicas” ficou em cartaz três meses, foi vista por 3.000 pessoas. Além de apresentar aqui, também a gente apresenta em outros locais, e geralmente em teatros grandes para aproveitar, e não só uma apresentação, mas várias. E outra coisa: a gente costuma participar de projetos da Secretaria do Estado da Educação ou da Cultura e também a Secretaria Municipal de Educação e Cultura. Então, a “Conexões Cósmicas” participou da “Recreio nas Férias”. E só nesse projeto nós fizemos 14 apresentações. E, quer dizer, para todas as apresentações pro nosso espaço são 200 lugares, 220, aí você já tem quase 3000 pessoas. Estou contando 3000 mas foram mais, viu? É porque agora eu lembrei que só nesse projeto nós tivemos quase 3000 pessoas. “Marte” estreou dia 20 de junho. Por enquanto nós temos um público de 1000 pessoas. “Monocórdio de Pitágoras”, hoje, você tem em torno de 3000 pessoas. “Professor Gervásio” nós fizemos só três apresentações, 600 pessoas. 14. E os assuntos abordados, quais foram? “A Estrela da Manhã” abordamos o conhecimento científico acumulado, desde a Grécia até os dias atuais. Então era a história do conhecimento, só que o conhecimento ocidental. Em “Conexões Cósmicas” comentamos sobre a teoria do Big Bang, então a criação e a evolução do Universo a partir da teoria do Big Bang. Em “Marte” falamos sobre sistema solar e os planetas. Principalmente sobre o planeta Marte mesmo. “Monocórdio de Pitágoras”, aí a gente faz um trabalho de tentar unir a música e a Matemática. Então, a partir de uma intervenção de um cordealista, um personagem repentista, conta a história de como o Pitágoras chegou até as escalas musicais a partir de equações e frações matemáticas. “Professor Gervásio e Energia Elétrica”, então é área de Física. Então a gente fala do uso, fenômenos em relação à energia elétrica, e segurança também. Então “Olha crianças, cuidado com ...” mas não fica tão chatinho assim não, é um espetáculo de teatro. As pessoas adoram este espetáculo também. O “Gestação” o próprio nome já tem muito a ver, então é a questão feminina mesmo, da fecundidade, o ser biológico, mas isso interagindo mesmo com imagens virtuais. Então tem essa abordagem de conteúdo com relação a “Gestação”, a fecundidade feminina, mas também do uso do computador como elemento de ampliação da percepção humana. E a partir do uso do computador você criar novos horizontes aí para a Arte mesmo. 13. Porque só três apresentações? Nós tivemos alguns problemas, era para estrear em abril, mas dentro da Estação Ciência, mas nós percebemos que tínhamos problemas com relação a intervenção do público, muitas falas paralelas, barulhos externos e o personagem se perdeu um pouco, não ficou interessante. Aí fizemos adaptação para o teatro. Aí nessa adaptação tivemos que mudar cenário, mudar figurino. É isso que eu estou te falando para você, dessas experimentações que em outro local teria que fazer de qualquer jeito onde foi planejado, e aqui não, há 15. Você tem um número de pessoas envolvidas (contando o pessoal de produção)? O grupo da Estação Ciência são os atores e eu na produção, além de atuar, coisa e tal. Mas quando nós vamos fazer um Anexos 21 Anexos espetáculo, aí você convida outros artistas a participarem desse espetáculo também. Por exemplo, você chama o cenógrafo, figurinista, o iluminador, e essas pessoas tem uma participação só no início bem pontual. “Fiz meu projeto, tá aqui, agora é com vocês”. E aí os nomes deles ficam registrados, mas eles não tem mais uma participação direta no grupo, eles só colaboraram com o projeto. E quem é o grupo são os atores que vão tocar o projeto e os técnicos. Nesse caso nós temos 9 pessoas permanentes do Núcleo, o grupo mais os técnicos: 2 técnicos e 7 atores/atrizes. 16. Como vocês fazem para selecionar os temas das peças? Tem um processo de seleção? Não. Não é bem assim não. Até semana passada o professor Hamburger mesmo comentou: “vocês estão marcando toca”, né? Fez esse comentário. “Com tantas exposições legais na Estação Ciência, vocês tem que criar boas intervenções para essas exposições, e essas intervenções acontecerem junto com o público”. Então nós temos uma maquete interessante aqui que dá para fazer isso, aí seriam intervenções pontuais mesmo, não dá para fazer um espetáculo, mas uma intervenção cênica pra falar sobre determinado assunto. Mas os espetáculos, por exemplo “Marte - a viagem”, eu estava lendo sobre o Keppler, e aí notei que muito da teoria dele, foi baseada na observação de Marte. Do planeta Marte, aí eu falei: “puxa, há quanto tempo o ser humano olha para esse planeta e deseja conhecer, visitalo, estar próximo e tal, não é?” E aí começou essa coisa das sondas, tanto a americana quanto a européia chegar a Marte e falar de água. E foi uma coincidência muito grande mesmo, então a partir daí eu falei, “vamos montar Marte”. Mas a nossa idéia de montar um espetáculo foi anterior a todas essas reportagens, matérias que saíram sobre as sondas. Mas coincidiu, foi um momento muito propício para isso mesmo. Então, foi a partir de uma leitura, Keppler, Marte, “opa, vamos eu acho interessante falar, vamos falar desse planeta para as crianças”. “A Estrela da Manhã”, já foi um trabalho mais amplo mesmo, de pesquisa, que nós falamos com o Calixto: “Calixto, você vai fazer um texto pra gente inédito, sobre Ciência”. Aí falou: “mas o que sobre Ciência?” “Ah, se vira”. Aí ele leu bastante livros, pesquisou, a gente se reuniu bastante aqui na Estação Ciência, com a Amélia Império Hamburger, com outros cientistas e resultou na idéia dele mesmo, ele mesmo concebeu esta idéia, de falar sobre a história do conhecimento. Então foi ele que, e nós apostamos nisso porque tem muito a ver com a Estação Ciência também. “Conexões Cósmicas”... Tem um painel aqui na Estação Ciência que fala sobre o Big Bang. E é do Augusto Dominelli que é um dos maiores astrônomos do mundo e é uma pessoa muito amável. E olhando para esse painel que eu gosto muito, falei “pôxa, acho que podemos conceber um espetáculo a partir disso”. Porque o Dominelli concebeu este painel em seis partes, e aí nós percebemos que as seis partes poderiam estar sendo trabalhados em forma de personagens, e criando um conflito entre eles. Foi a partir da observação do painel do Dominelli que nós concebemos o espetáculo. “Monocórdio de Pitágoras”: eu pensei na exposição de Matemática aqui, muito boa, só com jogos, brincadeiras, tal. “Puxa, nós podemos fazer uma intervenção aí”. Mas era uma intervenção simples, só para aproveitar os jogos que estavam lá. Mas cresceu a idéia e acabou se transformando também em um espetáculo. Mas foi na observação da exposição de Matemática, apesar da exposição não falar de Pitágoras e da música. Mas foi pensando na exposição. “Professor Gervásio” é, aí também era tentar fazer com que o que está sendo apresentado na Estação Ciência pudesse ter uma interatividade maior em palco. E levar essas informações para outros lugares o teatro facilita bastante. Então foi pensando nisso também. E “Gestação” a gente quis fazer uma pesquisa sobre essa relação mesmo de Ciência, Arte e tecnologia. E pegando a professora Tânia Fraga que é da Universidade de Brasília, é hoje considerada uma das grandes cybers, ela não gosta que fala cyber, ela gosta de falar “ciber” (pronúncia) mesmo, do mundo assim, está entre as dez melhores, e ela concebe grandes imagens mesmo sendo projetadas em telas, criando ambientes tridimensionais. E ao perceber essas imagens eu pensei “puxa, a gente poderia brincar em cima disso”. Aí a Andréia que é sobrinha da Tânia e a Marinez já desenvolviam essa pesquisa, mas assim, mas voltada ao corpo mesmo, né? Então ao trazer para a Estação Ciência, nós buscamos essa relação maior com tecnologia, e o que ela pode oferecer realmente. Foi aí que foi concebido o espetáculo e mostrado aqui. Foi legal porque, ao conceber o espetáculo, ele tinha uma sintonia com essa exposição do corpo humano. Então aí casou e tanto é que “Gestação” foi apresentado na abertura da exposição “Corpo Humano”. E “O Poeta e o Vento” que está vindo, nós vamos falar sobre transformações de energia. E nós pensamos na energia eólica. A Anexos 22 questão do vento. Será estreada em janeiro do próximo ano [2005]. As transformações de energia, a força eólica, os ventos sempre sugerem muita mudança. Trazem muito a transformação de poesia. Aí veio a idéia, “O Poeta e o Vento”. Então, conceber realmente um fenômeno da natureza, né, conceber a partir de uma linguagem artística, e de que forma? De uma forma bem poética mesmo. Bem livre, aí, “O Poeta e o Vento”. Anexos 17. Você tem dificuldade de roteirizar temas de Ciência? Você disse que tem uma equipe, né? Não, não tenho. Talvez em outro ambiente, em outro local eu tivesse essa dificuldade. Mas dentro da Estação Ciência... Agora, as transformações de energia. Aí você já pensa, O Hamburger é físico, experimental, então já é uma pessoa que vai nos ajudar na consultoria. Professor Alberto Gaspar, amigo nosso, esteve outro dia aqui, é outro que também vai estar conosco. Enfim, você pensa no assunto, e já vê, já pensa também, já relaciona com os especialistas das áreas e a aceitação desses especialistas de fazer, de se sujeitar a uma obra artística. É impressionante, é algo assim quase inerente, vai por inércia mesmo até . As pessoas curtem, gostam de estar participando dessas iniciativas. Nunca tive problema. Ninguém nunca falou “Olha Cauê, não. Convida outro”. Pelo contrário: “Opa, tô aí, quero fazer, quero estar com vocês sim”. Augusto Dominelli, Enios Picazzo, Amélia, o professor Hamburger, Ernst Hamburger, e quem mais, o Jefferson Delquizo, a professora Dilma, ah, todos, muito tranquilo. Uns participam mais, outros menos, mas ninguém diz não, tá ali. E também depende do produtor, depende aí da equipe cobrar essas pessoas, se elas não podem vir até a Estação Ciência, a gente se desloca até lá, vai na sala de aula deles, depende muito da equipe também. 18. Toda a equipe são professores da USP... Hum... deixa eu ver... São, são sim. Todos da USP. Mas isso não impede de que tenham outros. 19. É uma equipe fixa? Todos os professores ajudam? Geralmente eu consulto. “O Poeta e o Vento” eu consultei o professor Gaspar, ele é da Unesp de Guaratinguetá. Ele é um grande especialista em física experimental e amigo nosso também. Eu liguei pra ele: “professor, poderia vir aqui participar de um projeto nosso, assim, assim assim” “Que ótimo Cauê, estou com vocês”. Então há uma consulta e talvez para o próximo espetáculo não esteja, talvez seja uma outra pessoa, né? 20. Você acha mesmo que as peças auxiliam no ensinamento científico? Auxiliam, auxiliam, divertem... tornam o fazer artístico, o conhecimento científico, a pesquisa ou a própria Ciência mais humana, né? Ah, e tem uma coisa muito interessante, e isso eu até coloco em algum artigo, não nesse, em um outro livro tem um artigo também, que eu coloco como um ponto de partida, um ponto de partida não, mas a referência para esse meu trabalho. Que é o como fazer. Uma criança veio assistir uma peça nossa aqui, “A Estrela da Manhã”, e falou assim: “como é que vocês tem coragem de fazer um espetáculo desse que não me interessa nada, falar de um assunto desse que não me interessa nada. Mas por um outro lado eu quero agradecer a professora que me trouxe porque se não eu teria ficado em casa e não teria assistido a um espetáculo tão legal”. Aí eu falei: “coragem, porque a gente acredita e gosta do que faz, e não têm medo de fazer. Outra questão é que olha só a transformação que houve em você. Um assunto que certamente você não teria interesse em sala de aula ou em outro espaço, aqui você falou que agradece até a professora por o ter convidado para estar conosco”. Isso quer dizer o que, não é o “fazer”. Não é o “fazer” que vai te agradar, ou seja importante aquilo que está sendo colocado para você. Mas “como fazer”, né? O “como fazer” é o que transforma realmente. Então esse “como” é , ele é um elemento essencial mesmo para a Educação, independente de ser o teatro. Mas se o professor não tem uma estratégia de como fazer aquele assunto se tornar interessante para os seus alunos, acaba passando, acaba sendo por imitação, acaba seja algo memorizado para uma prova e acabou. Enquanto que se houver realmente este “como” na atuação do professor ou do teatro e dos atores, haverá uma apreensão por parte dos alunos, porque ele foi tocado, chegou para ele. Ampliou, não ficou restrito a uma situação de imitação. Mas deu margem para que ele pudesse ir além, não é? 21. Então é esse “como” que fixa então o conhecimento? É... “A Estrela da Manhã”, pra agradá-lo (a criança), nós poderíamos ter colocado a Xuxa, ter colocado Renato Aragão ali, e eles iriam morrer de rir e iam gostar e coisa e tal. Mas o que nós Anexos 23 fizemos? Nós pegamos um assunto delicado, chato, Ciência, Física, Química, Matemática, História, tarará e colocamos no palco. Como colocamos no palco, toda aquela poética que envolveu o espetáculo, situação dos personagens, a identificação platéiapersonagens... Esse “como” é que chegou até ele e o tocou. E a partir daí ele gostou do espetáculo. Como certamente alguns professores conseguem também em sala de aula transformar um assunto que poderia ser massante em algo interessante mesmo. Porque ele criou esse elemento de “como” fazer. 22. Esse é o objetivo do grupo? Esse é o objetivo do grupo, sim. Um dos objetivos. Anexos 23. Vocês possuem pesquisas com o público? Sim... eu acho que sim, nós temos aí um levantamento, pesquisas, temos 3.000 questionários respondidos, perguntas abertas. E desses 3.000 questionários respondidos, só um, alguém respondeu lá que não gostou do espetáculo, do trabalho. Quer dizer, é insignificante este número diante de 2.999. Então acho que estamos conseguindo. Nós temos emocionado as pessoas, nós temos possibilitado conhecimento dos conteúdos que estamos trabalhando em cena, e outra coisa, estamos fomentando também novos grupos de teatro a praticar essa relação, essa interface Ciência e Arte. Nós começamos em 2000, quem é que existia, o Carlos Palma, que nem era ligado a um centro de Ciências, era mais independente. Ah, e hoje nós vemos que quase todos os centros de Ciência tem lá seu grupo de teatro ou sua pesquisa de interface Ciência e Arte. Há uns anos atrás eu iniciei uma pesquisa para saber quais os centros que desenvolviam atividades e surpreendente, viu, muitos estão desenvolvendo. 24. A Estação foi pioneira? Não. Pioneiro mesmo nós temos o pessoal do Rio de Janeiro, Ciência Viva, que nos anos 70 já levava o público a fazer intervenções na praia, à noite e tal. Tem o Ciência em Cena, na Fiocruz, que é um espetáculo também que eles desenvolvem :“Galileu, mensageiro das estrelas”, que eles já fazem há algum tempo. Mas a partir do nosso trabalho aqui, sim, isso aí começou despertar mais interesse. Até em Ribeira, eu fiquei sabendo que na cidade de Ribeira, onde nós fomos apresentar lá há três anos trás, surgiu um grupo de teatro também e eles relacionam pesquisas e teatro, e a Arte. Então, é outro objetivo nosso também, fazer com que a Divulgação Científica, por meio de atividades artísticas aconteçam em maior número no país mesmo. 25. As pessoas voltam para assistir de novo, chamam a família? Acontece muitas vezes. O “Monocórdio de Pitágoras”, nossa, o pessoal tem voltado sempre. Muito gostoso. A “Estrela” acontecia demais isso. É um espetáculo que tocava mesmo. Só para você ter idéia, ele inicia o espetáculo, o personagem falando que era uma estrela, e que os deuses o separaram da sua outra metade que ficou no céu. E ele quer voltar a essa outra metade, ele quer se completar. Só que para ele encontrar a sua amada, o complemento dele, a alma gêmea, tem que saber quem somos, da onde viemos e para onde vamos. E aí começa essa trajetória dele desde a Grécia até aos dias atuais. E nessa trajetória, essa busca incessante, esse questionamento, inquietações, e daí essa coisa do ser humano estar presente no palco mesmo, e uma pergunta levando a uma resposta, mas essa não é a resposta, e já levando a uma outra situação de pergunta também. E no final, tudo que ele procurava na verdade sempre esteve ao lado dele, não é? Que era a companheira, a personagem que o acompanha durante todo o espetáculo. E isso cria uma catarse muito forte, e o público se emocionava bastante, e se identificava também, e quanto mais velho o público, mais emocionado ele ficava. A gente fala muito do ser humano mesmo, dessas inquietações. É um espetáculo filosófico, não é um espetáculo didático, é um espetáculo filosófico mesmo. Questionador. E aí, as pessoas mais velhas, sempre aquela idéia do que produzi, do que eu fiz, e o que isso resultou e porque, será que ainda tenho muito a dar, foi interessante, não foi, e isso está presente no espetáculo. E o público se identificava demais mesmo. E lágrimas rolavam, muito choro, emoção e daí a volta para ver de novo o espetáculo. 26. E as escolas vem assistir os espetáculos, ou vêm só para ver a Estação? Vocês vão até as escolas, caso elas não possam trazer as crianças até aqui? Nós fazemos muitas apresentações nas escolas, o problema , assim, por exemplo, “A Estrela da Manhã” é que nós precisamos de um Anexos 24 Anexos espaço mesmo de teatro, luz, som, platéia ali e isso poucas escolas oferecem, né? Já “Monocórdio de Pitágoras” não. Esse nós podemos fazer em qualquer lugar, por isso até está fazendo bastante sucesso aí em vários lugares. O “Professor Gervásio” também pode ir em qualquer situação. O que eu notei é que, um dos nossos objetivos também é Divulgação Científica, é popularizar a Ciência mesmo, o processo científico. E “A Estrela da Manhã” na verdade não estava divulgando nessa amplitude. A gente estava criando na verdade um grupo privilegiado, que é ter a oportunidade de assistir o espetáculo no teatro, ou ser levado no espaço teatral das escolas. E aí eu falei “não, os próximos espetáculos a gente tem que fazer com que ele aconteça ao ar livre, na sala de aula” aí veio “Monocórdio”, veio “Professor Gervásio”. “Marte” permanece ainda dentro do espaço limitado, né? 27. E tem algum assunto que vocês decidiram não abordar por conta da complexidade, alguma coisa que vocês tenham deixado de lado? Não. Nós não pensamos em nada ainda “isso não, isso não vamos fazer”, porque se você pensar na complexidade que é falar sobre a história do conhecimento acumulado, puxa, enorme. Ou a complexidade de tratar o Big Bang em palco. A partir deles, tudo o que vier agora. Depois desses dois espetáculos, dessas duas abordagens, o que vier a gente traça. Não tem complexidade, porque o teatro, a Arte, te oferecem possibilidades infinitas, enfim, você pode abordar ... Um professor mesmo, Oscar, que vai trabalhar no planetário municipal, a partir de outubro, vai abrir se não me engano. Aí ele falou: “Cauê, eu queria falar sobre a Lua”. Então, olha só. Que tal a gente pegar uma lenda indígena falando sobre a Lua e a partir dessa lenda a gente fazer todo um tratamento cênico, das fases, do que isso representa para os índios e para o ser humano, então, criar essa relação. “Puxa, que ótimo” e a gente colocar isso em situações de teatro de sombras, onde podemos criar toda uma atmosfera bem onírica, e com um recurso maravilhoso. Então você pode passar mesmo de um estágio real e dar vazão a toda a sua imaginação. Ele adorou. Então, quer dizer, o que parece difícil a Arte consegue mexer lá daqui pra lá, de lá pra cá e também e resultar em algo compreensível, lúdico, prazeroso e consistente também em termos de trabalho científico, Divulgação Científica. Não vamos substituir a sala de aula, a sala de aula está lá, o professor tem que dar aula mesmo, os assuntos abordados em sala de aula são bem diferentes do que aqueles abordados em cena. 28. E tem algum tema que o grupo ou que o público prefira? Não, não tem. Até as seis peças que nós montamos são bem diferentes, não é? Os assuntos mesmo... nosso mesmo é essa questão de buscar soluções no palco para divulgação científica. 29. Geralmente as pessoas tem aversão a Física, Matemática... teve casos de uma peça que fale de história, como a Estrela da Manhã tenha melhor receptividade do que outra que fala de física, por exemplo? Mas na “Estrela” a gente fala sobre Física também. Tinha um momento do Galileu, inquisição, que a gente fala sobre Física e toda a situação dele, conceitual. E uma das cenas mais elogiadas, mais recomendadas foi justamente essa falando sobre Física. Outra, “Conexões Cósmicas”, pura Física. Pura Física não, muito de Física. E fala sobre teorias astronômicas e isso quer dizer, Matemática e Física. Ah, que mais... “Professor Gervásio e Energia Elétrica”, é Física também. É difícil, e olha que eu falei de três espetáculos situando a Física. É porque possibilita outras abordagens também. No caso da “Conexões”, tinha a questão da vida, entra em Biologia, uma série de assuntos. Então não tem um assunto específico a ser tratado, mas toda a complexidade que é o fazer artístico e o que ela traz ou torna complexo. Às vezes um assunto como o nós queríamos de Matemática e Música que era uma coisa simples se tornou complexo, porque daí você envolveu várias outras áreas. Ela [a Arte] que torna complexa, né? Mais compreensível e prazerosa também, não é? Anexos 30. Você dirige todos os espetáculos? Eu dirigi o espetáculo “Monocórdio de Pitágoras” e “Gestação”. A “Estrela” eu produzi e atuei, fui ator do espetáculo. “Conexões Cósmicas” eu produzi e atuei, “Marte” eu só produzi e “Professor Gervásio” eu escrevi o texto. Agora, “O Poeta e o Vento”, eu vou atuar e produzir também. 31. É mais complexo dirigir um espetáculo científico? Se nós fôssemos partir do zero mesmo, conceber o conteúdo do espetáculo, talvez aí fosse bem difícil. Mas a partir do momento que 25 você tem esses colaboradores disponíveis, você tem uma idéia, escreve o texto. Para você ter uma idéia, eu escrevi “Professor Gervásio e Energia Elétrica”, e aí eu pedi para o professor Gaspar dar uma olhadinha, né? , “verifique aí o conteúdo”. “Ah, aqui você tem que mudar, porque está muito complexo, muito difícil para uma criança entender”. E aí ele foi dando os toques, e eu fui mudando o conceito, determinadas palavras, ou mesmo ações. Mas a encenação permanece a mesma, não é? Se você tem uma equipe, você resolve tudo tranquilamente. 32. Vocês têm um público alvo específico? Ou todas as peças são para todas as faixas etárias... A gente direciona os espetáculos principalmente para o público infantil/juvenil. Então de 7 a 14, 16 anos. Porém, por experiência, todos os que assistiram os espetáculos gostaram muito. A partir de 7 anos, todos podem assistir. Anexos 33. Vocês fazem grupos de estudo sobre o tema que vai ser abordado por uma peça? Já que o objetivo é popularizar a Ciência, o grupo acaba aprendendo antes o conteúdo, portanto, a popularização acontece primeiro internamente... Sim... geralmente os espetáculos levam de três a cinco meses para serem montados. Nesse período, muita pesquisa. Geralmente o que a gente faz também: a gente apresenta e depois abre para debates. E no debate, as pessoas perguntam muito sobre a Ciência mesmo, sobre o conteúdo científico. Se nós não estivermos preparados...Não tem essa de “eu sou ator, isso não é comigo”. A gente tem que responder sim. 34. Então tem um crescimento científico por parte do grupo? Sim, com certeza. Daí o encontro com os consultores, pesquisa em livro, pesquisa em internet, pesquisa... 35. Você acha fácil popularizar a Ciência? Fácil, difícil eu não sei. Mas a partir do momento que você se determina a fazer, você tem que fazer. Parte para ela e faz a sua contribuição a esse projeto, a essa idéia. É aquela coisa de que estou tentando fazer a minha parte. Falar de ser fácil ou difícil a gente acaba entrando em questões bem maiores, de política, de governo, vem a questão econômica, o desenvolvimento tecnológico, enfim. Se a gente for pensar mesmo politicamente para a popularização, isso tem uma dimensão enorme, né? Mas como indivíduo, cidadão, e pensando mesmo em tentar colaborar com tudo socialmente, é uma questão de você se determinar e partir para fazer mesmo. 36. O governo dá apoio? (podemos considerar que um pouco tem porque a USP é Estadual e a Estação Ciência está ligada a ela) A USP se caracteriza por ser uma universidade e há informação. Mas a Divulgação Científica isso é uma coisa muito recente. E o atual governo é o que mais se projeta no sentido de falar sobre popularização de Ciência. Ações ainda são incipientes, mas já acontecem, né? A gente vê órgãos como a Finep se voltar para isso, ou o Ministério de Ciência e Tecnologia, até fundações como a Fundação do Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo também nas últimas edições de sua revista vem falando sobre a questão da popularização da Ciência. Então está sendo um momento muito propício para se falar, não é, se discutir sobre e também criar ações importantes para que isso aconteça. Anexos 37. O que o grupo considera como Ciência? Ciência pra gente é o conhecimento humano. Todo o conhecimento humano. Todo o conhecimento acumulado para a gente é Ciência. 38. Vocês já fizeram mudanças de texto e de roteiro por sugestão da platéia? Não, depois que nós estreamos não. Porque antes da estréia oficial, a gente convida professores, estudantes, o pessoal da Estação Ciência, apresentamos espetáculos e ensaios abertos. E sempre discutindo com as pessoas: “e aí, aquilo lá não sei, não entendi”, e a gente vai transformando, até chegar ao que nos parece mais ideal e apresentar. Aí quando acontece, já não tem mais essa modificação. 39. Vocês “testam” a peça antes? Bastante, bastante. A gente faz muitos ensaios abertos. 40.O que é Arte e Ciência para você? Olha, é tornar possível algo que seria destinado só para alguns, mas com essa intervenção ela pode ser vista, 26 compreendida por todos. E também é uma forma de tentar chegar a uma idéia até anterior ao século XX mesmo, onde a Ciência e a Arte não eram duas áreas distintas, mas uma complementava a outra. E é isso que a gente busca mesmo. Tentar voltar a essa idéia, tentar resgatar essa idéia, e fazer com que ela aconteça, porque nós sabemos que uma é complemento da outra sim. A Arte precisa da Ciência, como a Ciência também precisa de muita imaginação para acontecer. Anexos 41. Desses, quais são comédia? “Marte” é uma comédia, “Monocórdio de Pitágoras” faz um trabalho com repentistas, portanto também é uma comédia, as pessoas dão muitas risadas. “Conexões Cósmicas” nem tanto. Mais estes dois. é algo assim, impossível, distante. Não. Talvez até por minha formação de teatro, né, é que eu penso que a dança é mais difícil. Talvez para o bailarino, para a Andréia e para a Marinez poderiam responder de outra forma. Mas eu vejo que ao falar de “Gestação”... Se bem que a imagem é muito poderosa também, não é? Então quando ela traz o braço e coloca sobre a barriga, está ali, carinho, proteção, afeto. A imagem também é muito poderosa. Mas eu digo a imagem do próprio bailarino. Ele criando no movimento, determinadas imagens. Isso também já tem a compreensão do público para aquilo. Mas você tem que abordar de outra maneira. É bem diferente mesmo do teatro. 45. Você consegue passar o conceito do mesmo modo? Sim, sim... 42. Como é passar o conceito científico e ao mesmo tempo fazer o público rir e entender o conceito correto? A gente não leva em conta esse conceito sério da Ciência, justamente isso que eu estava falando, de tentar fazer com que algo frio e sempre tido como sério, né, aconteça de uma maneira prazerosa, lúdica, divertida, então aí a idéia de sério já foi, foi para o espaço mesmo. Em nenhum momento a gente pensa que a Ciência é séria. Porque o que nós estamos fazendo é teatro. O conteúdo, aí sim, é científico. Mas o que nós estamos fazendo é teatro. E teatro é sempre prazeroso, lúdico, emocional, transformador, e é isso que a gente leva em conta. 46. O que elas dançam? É mais contemporâneo mesmo. Técnicas contemporâneas, com Nando Klas Viana. Dança 48. Do seu ponto de vista teve uma boa receptividade... Sim, sim. 43. Sobre o “Gestação”. É o primeiro espetáculo de dança do grupo? É o primeiro espetáculo de dança. Até então, nós tínhamos feito só espetáculos de teatro, teatro popular, teatro convencional, mas o “Gestação” é o primeiro que a gente coloca duas bailarinas fazendo coreografias, né, e interagindo no palco. 44. Como é colocar o conceito científico num espetáculo de dança? É, a palavra ajuda muito. Palavra ajuda bastante, você resolve situações dificílimas só com uma palavra, no teatro. A dança é pouca, o movimento. É mais difícil mesmo. Agora esse difícil não 47. E a recepção do público? Sobre este espetáculo vocês possuem pesquisa ou não? “Gestação” só no olhômetro mesmo. E após o espetáculo, os comentários. Sim, as pessoas gostam muito. Ainda mais pensar em dança que é algo que parece tão distante de todos, não é, estão vendo o espetáculo acontecer, as bailarinas, é sempre prazeroso, as pessoas gostam muito. Anexos 49. Há projetos de outros espetáculos de dança? Nós estamos pensando, como eu te falei, nessa reestruturação do “Gestação”, nós temos um projeto sobre a floresta Amazônica também, e vamos continuar com o grupo. 50. No mesmo esquema de utilizar a tecnologia aliada à dança? Sim. Mote deste grupo Tecnopáthos será sempre a pesquisa envolvendo a tecnologia. 51. São grupos diferentes dentro de um mesmo núcleo. 27 Isso mesmo. O grupo de teatro chama-se Grupo de Teatro Estação Ciência. Mas a partir da próxima semana nós vamos mudar para Cia Fábula da Fíbula. 52. Da onde surgiu este nome? Coisas de pessoas de teatro. Para você ter uma idéia, essa pesquisa de interface Ciência e Arte é algo muito prazeroso mesmo. Porque o nome eu queria mudar há muito, né, tirar o Estação Ciência, e colocar um outro nome, mas que tivesse muito a ver com essa interface Ciência e Arte. E há mais de um ano que eu estou buscando este nome. Aí veio arte.com.ciência, Arte não sei o quê, Ciência e Arte, e nenhum assim, não, não é esse. E conversando com uma bailarina, “olha, trabalhei tanto hoje, a minha fíbula, a minha tíbia e fíbula ...” eu gostei, né? “Tíbia e Fíbula”? E ficou a Fábula da Fíbula. Puxa, isso dá um nome excelente para o grupo, Cia Fábula da Fíbula. Porque entra a questão da fábula, da recreação, da alegoria, da Arte, né, e a fíbula, um osso, anatomia humana. Então, Ciência e Arte presente neste nome, e ao mesmo tempo é sonoro. E geralmente, as pessoas quando eu comento perguntam, mas o que é isso? O próprio nome já está funcionando em termos de Divulgação Científica. [eles terão uma entrevista com a Companhia Paulista de Teatro, e lá que vai ser registrado. Até “Marte” , o grupo credita-se como Grupo de Teatro Estação Ciência. A partir do próximo, “O Poeta e o Vento”, adotarão o novo nome. Durante um período irão usar: Cia Fábula da Fíbula, ex-grupo de teatro Estação Ciência] Anexos Entrevista com BrasilConnects Empresa responsável pelas exposições da Oca, no Parque Ibirapuera, em São Paulo 1. Nome completo do entrevistado: Jose Augusto Zanforlim Porto Cargo na empresa: Gerente de Comunicação e Marketing Sobre a empresa Brasil Connects: A empresa presta serviços de quê? Há quanto tempo atende a Oca? Há quanto tempo fornece assessoria na área da Arte? A BrasilConnects é uma instituição independente, sem fins lucrativos, cujos principais objetivos são preservar, apoiar, celebrar e disseminar os bens culturais e ecológicos do Brasil. Para maiores informações sobre os projetos ja realizados pela BrasilConnects favor acessar www.brasilconnects.org 2. Como são decididas as exposições da Oca? São por temas? Em sua missão de mostrar o Brasil para o mundo e o mundo para o Brasil, a BrasilConnects mantém intenso intercâmbio cultural com empresas e instituições culturais de vários países, sempre em harmonia com a política externa brasileira. 3. Geralmente possuem algum motivo especial (aniversário de 50 anos da morte, por exemplo...) idem acima 4. Vocês têm um programa de incentivo na qual idosos e estudantes pagam meia entrada. Como funciona? Deficientes físicos, crianças com menos de 6 anos e idosos acima de 65 anos não pagam entrada nas exposições da Oca. Estudantes e crianças entre 6 e 12 anos pagam meia entrada. Anexos 5. E durante a exposição, durante uma semana, por exemplo, todos entram de graça. Qual é o objetivo? Esta é uma política de levar a cultura para pessoas que não tem acesso às Artes? Normalmente as exposições na Oca tem uma semana promocional gratuita oferecida pela BrasilConnects e pelos patrocinadores como forma de democratizar e facilitar ainda mais o contato do publicom com a Arte e com as nossas realizações. 6. Acreditam que estes projetos colaboram para divulgar a Ciência pela Arte (sejam exatas, humanas ou biológicas)? (não respondeu) 7. Vocês possuem um levantamento de quantos assuntos, obras já passaram pela Oca? Quais foram? A BrasilConnects já realizou mais de 50 exposições no Brasil e no mundo. Todas as exposições realizadas na Oca se encontram registradas no nosso site. 28 8. E levantamento de quantos autores, escolas - de Artes Plásticas, como o Abstracionismo, por exemplo, foram expostos? Não há tal informação 9. Quantas pessoas já visitaram as exposições, ao todo? As exposições já atrairam 80 empresas patrocinadoras, 150 milhões de reais em mídia espontânea e foram visitadas por cerca de 5 milhões de pessoas no Brasil e no mundo. Entrevista com Mauricio de Sousa “Pai” da Turma da Mônica 1. Como foi a idéia de realizar a exposição dos “Quadrões”? Da onde surgiu? Vi crianças copiando a Mona Lisa, a Rosa e Azul, nos Museus do Louvre, no Masp, e imaginei que poderia fazer a mesma coisa com a utilização da Turma da Mônica e mais sofisticação. Anexos 2. Qual foi o objetivo? O objetivo seria juntar uma boa quantidade de quadros bem cuidados, bem produzidos até mesmo nos trabalhos de moldura, para atrair crianças e seus pais, familiares, para freqüentarem os museus onde exporíamos. 3. No Brasil, você acha realmente as Artes Plásticas pouco incentivadas? Poderíamos estar em melhores condições. Falta divulgação para a população em geral. 4. E quanto ao resultado? Chegou ao esperado? Estamos atingindo os objetivos. Nas capitais por onde passamos com a exposição, nossa mostra tem batido recordes de freqüência. Estamos com quase um milhão de visitantes. 5. Os seus personagens tiveram função de aproximar a Arte, história e Ciência do público? Eles já fazem isso nos quadrinhos, nas animações e até mesmo em produtos industrializados. Agora chegamos às pinturas. 6. Como foram selecionadas as obras de arte? Qual foi o ‘processo de seleção’? Nessa primeira exposição ( haverá outras ) escolhi as obras mais conhecidas e divulgadas junto ao grande público. Fui buscar os quadros mais famosos da pintura européia para atender aos objetivos de uma divulgação mais facilitada. 7. Tem algum levantamento de quantas pessoas visitaram a exposição? Quanto custou a entrada? Teve alguns locais que vocês não cobraram? A partir de Goiânia, nossa última exposição, devemos beirar os 900 mil visitantes. Quanto à entrada, sempre foi grátis. Embora em alguns casos eu tenha insistido bastante para que os museus mantivessem essa política. 8. Tem algum outro projeto de continuação dos Quadrões, ou algum outro nos mesmos moldes? Temos sim. Já está em andamento a produção de uma segunda série de quadros. desta vez, de pintores das Américas. Devemos começar a preparar essa exposição para o ano de 2006. Anexos 9. Ao todo, onde a exposição passou pelo Brasil? E pelo exterior? Começamos pela Pinacoteca do Estado, em São Paulo. Depois passamos pelo Rio de Janeiro, Curitiba, Salvador, Brasília, Belo Horizonte e recentemente Goiânia. Agora vamos para Recife. Ainda não chegamos ao exterior. Mas há planos consistentes para estarmos em Paris e algumas cidades dos Estados Unidos. 10. Vocês também possuem há bastante tempo encartes de campanhas, que informam o público sobre drogas, campanhas de vacinação de animais, fumo, etc. Como você avalia este trabalho? São ações do nosso instituto, ligado aos estúdios. E fazem parte de nossa política de prestação de serviços, apoiados na popularidade e “credibilidade” dos nossos personagens. Temos tido bons resultados com esses trabalhos nos mais diversos setores em que atuamos. 29 11. Como são selecionados os temas para as campanhas? Há uma equipe somente para isso? Há alguns setores da empresa que se dedicam a esse trabalho - o Instituto e o Departamento de Serviços Especiais - onde nascem as campanhas geralmente após contatos que mantemos com órgão governamentais, ONG´s, organismos internacionais e eventualmente empresas comerciais. Depois todo o estúdio trabalha para a produção de revistas, filmes, cartazes, etc.. 12. Têm alcançado os objetivos? (porque os gibis têm objetivo claro de divertir, as campanhas de ensinar e/ou alertar para determinado tema. É isso mesmo?) Os objetivos são alcançados porque não nos atemos somente à diversão ou ao ensinamento. Todas as nossas produções têm o cuidado de inserir, aqui ou ali, uma mensagem, uma sugestão de conduta ou valores. 13. No caso dos quadrões e das campanhas, como adaptar o tema para adultos e crianças? Nossos padrões artísticos têm alcançado ambos, adultos e crianças. Felizmente. Anexos 14. Sobre o Franjinha... Conte um pouco da história do personagem, como foi criado, se foi baseado em alguma pessoa - como na maioria dos seus personagens ... Franjinha foi mais ou menos o menino que eu fui quando andava pelos meus 12 ou 13 anos. Curioso, gostando de ler e estudar Ciências, curtindo ficção científica e por aí vai. Mas a figurinha foi baseada num sobrinho meu - o Carlinhos - que morava em Baurú. Com alguma coisa da estilização que eu via, também, nos desenhos da Marge, autora das histórias em quadrinhos da Luluzinha e Bolinha. Ciência das crianças? (principalmente explicar que é preciso muito estudo antes de uma invenção dar certo?) Tento divertir enquanto passamos, sim, essa “mensagem”. 17. O Franjinha é apaixonado pela Marina, uma desenhista. Esta também foi uma das formas de unir Arte, na figura da Marina, e Ciência, na figura do Franjinha? Não foi proposital. Mas achei que seria natural um rapazinho ficar impressionado por uma bela menina de cabelos crespos. Se vai unir Ciência à Arte, fica ainda melhor. 18. Com o Franjinha você fez um manual do cientista. A idéia era ensinar a criançada sobre a Ciência que não aparece nos quadrinhos? Sim. Aproveitar a aura que cerca o Franjinha para passar algo de Ciência acessível e simples. 19. No manual, há uma mistura nítida entre a Ciência real aquela que realmente aconteceu - e a Ciência ficcional - aquela que faz o Franjinha visitar e conversar com o Einstein, por exemplo. Você acha que essa mistura entre ficção e realidade atrapalha para contar fatos reais da Ciência para as crianças? De forma nenhuma. A fantasia ainda é um dos melhores recursos para você aproximar a criatividade da realidade. pode gerar contextos intelectuais de onde podem brotar grandes idéias, projetos concretos, invenções. Anexos 20. O que é Arte e Ciência para você? Arte eu crio. Ciência eu uso. 15. Há um objetivo definido no Franjinha? Você acha que ele ensina Ciência através dos quadrinhos? Eu gostaria de explorar ainda melhor esse jeitão de cientista mirim do Franjinha. E o objetivo seria divulgar Ciência, sim. 16. Geralmente as experiências do Franjinha não dão certo. E ele sempre inventa coisas aparentemente impossíveis para o dia de hoje. Isso é feito de modo proposital para aproximar a 30 Entrevista com Celso Sabadin Entrevista com o crítico de cinema Celso Sabadin – dia 01/10/2004 – por e-mail Qual é a sua formação acadêmica? Publicitário pela ESPM e Jornalista pela Cásper Líbero. Idade: 46 5. Há algum filme que você acredita que tenha sido muito feliz em explicar informações que geralmente o público é leigo? Qual e porque? Na parte científica, não me recordo de nenhum. Mas na parte histórica acho que eles contribuem muito. Coisas tipo “O Pianista”, “O Último Imperador”, e tantos outros. Mas o seu trabalho não é sobre História, né? 1. Você acha que o cinema educa ou incentiva a Ciência? Diretamente não, mas indiretamente sim. Dificilmente uma pessoa vai aprender sobre Ciência indo ao cinema, mas um bom filme pode acender no público a vontade de pesquisar mais sobre determinado assunto. Eu diria que o cinema é um catalisador do aprendizado. 6. Em compensação, tem algum filme que você acha que informou erroneamente o público e teve conseqüências consideráveis? Acho que “Epidemia”, com Dustin Hoffman, é um show de desinformação científica. Mas sem conseqüências, pois trata-se apenas de uma mera diversão. 2. Você acredita que os filmes formam culturalmente o público? Eu diria que o cinema ajuda na formação cultural do público. Tanto para o bem, como para o mal. Se o sujeito passa a vida toda vendo filmes sem conteúdo, ele está se submetendo a uma formação cultural vazia. E, por outro lado, se a pessoa se propõe a ver filmes de alto nível cultural, ela está colaborando para ser uma pessoa melhor. Mas o cinema, sozinho, não faz muita coisa. ele ajuda, mas por si só não é suficiente para uma formação cultural. 7. Muitos filmes modificam as histórias originais nas suas películas. Caso de “Uma Mente Brilhante”, onde algumas partes importantes da vida de Nash foram ignoradas, como o seu divórcio de Alicia, e o segundo casamento com ela anos depois. Ou a própria esquizofrenia - que era auditiva. Você concorda com adaptações como essa? Acha que são justificáveis? A adaptação é inevitável e necessária. É impossível sintetizar a vida de uma pessoa importante em apenas duas horas de filme. O roteiro tem que fazer opções, cortar fatos, resumir informações. Não tem jeito. O cinema é a arte da síntese. 3. Como você criticaria: (no conteúdo; e nas imagens que colaboram para isso) Osmose Jones - não assisti.: Uma Mente Brilhante:- interessante, inteligente, me mostrou uma série de coisas que eu não sabia, embora ele romantize um pouco a figura do protagonista. Aliás, o cinema sempre romantiza. Não deve ser tomado como “verdade” absoluta. Procurando Nemo:- Achei divertidíssimo, alto astral, super bem realizado... mas não sei se vi no filme algum conteúdo mais profundo (sem trocadilho...) científico ou cultural. 8. Ao mesmo tempo, o público fica com uma visão distorcida da realidade. (quando o público entende o filme como verdade absoluta). E isso não parece ser exceção; muitos filmes adaptam a história real como querem. O cinema tenta rever estes erros, ou consertá-los? Não, salvo os documentários, o cinema não tem a intenção nem a pretensão de ser verdadeiro. O que vale é a emoção, a romantização dos fatos. Não podemos tomar o que vemos num filme como verdade absoluta, jamais. Nome: Celso Sabadin Há quanto tempo trabalha com Cinema? Desde 1980. Anexos 4. Acredita que o cinema ajuda a popularizar a Ciência para o público? (como a vida de Nash, que pouca gente conhecia antes do filme). Sim, embora com a ressalva já feita na primeira resposta. Anexos 31 9. Há uma explicação (não sei se é realmente verdade) de que os produtores modificaram a vida de Nash no filme para as cenas não ficarem ainda mais fortes. No entanto, no caso de “A Lista de Schildler”, Spielberg foi muito fiel a história, através da sua pesquisa de anos sobre os fatos do Holocausto, e possui cenas bastante fortes. Há um risco do público ser “manipulado”, pelos estúdios que contam as histórias da forma que quiserem? Há algum exemplo disso ter acontecido alguma vez? O público é sempre manipulado. Mesmo a história de Schindler, muita gente diz que ele foi um grande sacana, no plano pessoal. A mulher dele, por exemplo, nem falava com ele após a separação. Não tenha dúvidas: todo e qualquer filme precisa de um “herói”, de uma idealização, que foge - e muito - da realidade. Cinema é uma fábrica de sonhos, sem compromisso com a realidade. 10. Você acredita que essa fidelidade sobre a história é obrigação única e exclusivamente dos documentários? Sem dúvida. E mesmo assim vemos cada vez mais documentários manipuladores também. Anexos 11. Em “Procurando Nemo”, houve uma preocupação muito grande em retratar o fundo do mar a sua imagem e semelhança. Acredita que estas iniciativas colaboram na formação das crianças? Na verdade acho que não. Colaboram apenas para tornar o filme mais atrativo. 12. O que você diz das falhas dos filmes (no quesito de conteúdo, como o tamanho dos peixes palhaços - que no filme parece o mesmo, mas a fêmea é muito maior do que o macho; ou o fato da Coral ter sido morta por uma barracuda, que não é predador da espécie do peixe palhaço). Acha que são propositais, para ficar melhor no vídeo, por exemplo? (alguns filmes passam do número de 100 falhas!) Posso ser repetitivo? Cinema é uma fábrica de sonhos, sem compromisso com a realidade. 13. Muitos filmes misturam fatos reais com ficção. Você acha que isso atrapalha a compreensão do que é real e do que é ficcional? (como a esquizofrenia de Nash, no caso dos adultos ou do comportamento humano dos peixes em “Procurando Nemo”, para as crianças?) (não respondeu) 14. O cinema tem uma gama de filmes que informam sobre as mais diferentes Ciências que é gigantesco [históricos (“Olga”, “Gladiador”, “Tróia”, “Guerra de Canudos”...), ficção científica (“De Volta para o Futuro”, “Guerra nas Estrelas”...), biografias (“Amadeus”, “Shakespeare Apaixonado”...), biológicos (como “Philadelphia”, “Procurando Nemo”, “Gattaca”), baseados em obras literárias - ensinam literatura, etc, “O Auto da Compadecida”, “Tieta”). Ao que você deve este fato? Como você acredita que esta mistura entre cinema e Ciência aconteceu? Porque tanto cinema como Ciência são fascinantes. E o mundo inteiro produz um média de 2 mil filmes por ano! Haja assunto, né? E a Ciência é uma gigantesca fornecedora de assuntos dos mais interessantes para os cineastas. 15. O que é Arte e Ciência para você? Nossa, não saberia responder. É tudo, né? Não vivemos sem elas. Anexos Entrevista com Sérgio Brandão Coordenador do Ver ciência. Entrevistado em 30/09, por e-mail 1. Qual a importância de utilizar a Arte no processo de popularização da Ciência? Acredito que a Arte – entendido como algo que desperta a atenção, o interesse e o prazer das pessoas - é parte essencial do processo de comunicação, dentre os quais se inclui a popularização de Ciência. 2. Como começou seu envolvimento na divulgação da Ciência? Em 1974, quando comecei a trabalhar na Rádio BBC, em Londres, onde a divulgação de Ciência é uma tradição e um dos objetivos principais da emissora em sua missão de bem informar o público. 32 3. Antes da TV, você trabalhou em outra mídia? Divulgou Ciência? De 1974 a 1981 trabalhei como produtor, repórter e apresentador de programas nas transmissões de rádio da BBC para o Brasil, com destaque para programas de Ciência, tecnologia e medicina. Os programas são todos “não-ficção”, em diferentes formatos, principalmente documentários e jornalísticos. Eventualmente pode haver, aqui ou ali, algumas inserções de ficção, como apoio à narrativa ou para ilustrar algum tópico. 4. Qual a diferença em divulgar Ciência pela TV (considerando a linguagem, o alcance, etc) e outras mídias (incluindo reportagens – como era o caso do Globo Ciência – e os vídeo-documentários) Cada meio de comunicação tem sua linguagem própria. Minha experiência é em comunicação por rádio (BBC) e TV. Em ambos os veículos devemos evitar termos, expressões e palavras que normalmente não utilizamos na comunicação oral e coloquial. Na TV, podemos ser mais econômicos de palavras e descrições, já que as imagens normalmente falam por si mesmas. Vale a máxima (provérbio chinês) que “uma imagem vale mais do que mil palavras”. 8. Como surgiu a parceria com a TV Cultura? Ela foi responsável por ampliar a divulgação científica dos temas selecionados? A parceria com a TV Cultura surgiu naturalmente, a partir da identidade de propósitos em relação à necessidade de divulgação de ciência pela TV. Anexos 5. Como surgiu a idéia e o formato do Ver Ciência? Considera esta modalidade mais eficaz que os outros meios, por reunir documentário e entrevistas com pesquisadores num formato híbrido para TV? O Ver Ciência compreende dois projetos: a mostra anual internacional de Ciência na TV (este ano em sua décima edição: Ver Ciência 2004) e o programa de TV com o mesmo nome, transmitido pela TV Cultura. Se sua pergunta se refere ao programa de TV, este surgiu a partir de nossa parceria com a TV Cultura. Nós selecionamos e fornecemos os conteúdos, normalmente programas que foram exibidos na Mostra Internacional de Ciência na TV, cujos direitos para TV são adquiridos pela Videociência. A TV Cultura fica a cargo de apresentar os programas e comentá-los com a ajuda de cientistas convidados. 6. O objetivo do projeto é alcançar crianças e jovens. Há a preocupação de, através do processo de produção de roteiro, conteúdo, imagens, etc, educar o público? O público alvo principal do programa Ver Ciência na TV Cultura são jovens, estudantes, mas nossa proposta não é de produzirmos um “programa educativo” ou “didático”, com a preocupação de “ensinar” Ciências. 7. Os programas são todos documentários, ou há inserção de ficção para motivar o interesse do telespectador? 9. Como são realizados os vídeos? Como são produzidos? Como são escolhidos os temas? (estão em sintonia com a ciência divulgada pela mídia ou trabalha também temas básicos que contribuem para a formação de uma cultura científica)? Os conteúdos dos programas Ver Ciência na TV Cultura, como disse anteriormente são principalmente programas de TV produzidos por emissoras de outros países, e que foram primeiramente exibidos na nossa Mostra Internacional de Ciência na TV (Ver Ciência). Dentre os critérios de escolha incluimos: qualidade da produção, originalidade do tema central, interesse para o público alvo do programa, disponibilidade de direitos para o Brasil e custo desses direitos. Anexos 10. Em quais locais geralmente são feitas as mostras? (em museus, escolas, etc...) As Mostras Ver Ciência percorrem todo o Brasil através do Circuito Cultural do Banco do Brasil e também outras instituições credenciadas, parceiras do Projeto Ver Ciência. 11. Quais são os vídeos que você acredita que tiveram um resultado mais evidente? Porque – do seu ponto de vista, foi este e não aquele vídeo? Depende do que você entende por “resultado”. Mas certamente algumas produções se destacam pela beleza e originalidade das imagens e pela qualidade do roteiro. Uma história bem contada, inclusive com lances de “suspense” sempre agrada o público. 33 12. As apresentações dos vídeos são seguidas de debates? Qual a participação da platéia? Raramente promovemos debates após a exibição dos vídeos, mas achamos que esta é uma boa idéia que procuraremos implementar quando tivermos mais recursos. 13. Vocês têm algum feedback sobre a assimilação do conhecimento pelas crianças e jovens que assistiram as mostras? Há espaço para sugestões e interação com o público? Nosso “feedback” tem sido puramente observacional e empírico. Os “ahs” e “ohs” da platéia, os comentários ao final das exibições, nos dão a certeza que estamos no caminho certo. 14. E os professores? Assistem os vídeos antes da apresentação aos alunos? Normalmente assistem junto com os alunos. Anexos 15. A parceria com TV Escola tem demostrado resultados? Vocês já obtiveram retorno das escolas sobre o trabalho, e no que colaboram dentro da sala de aula? Possuem pesquisas a este respeito? Acreditamos que os resultados das apresentações na TV Escola sejam positivos, pois há 5 anos que a TV Escola vem inclusindo os vídeos do Ver Ciência em sua programação. 16. Como você avalia estes 10 anos de programa? Houve mudanças importantes? Quais? O simples fato de termos chegado aos 10 anos já é uma grande vitória para nós. O que temos procurado – e foi a maior inovação deste ano – foi termos conseguido que nossos parceiros internacionais nos enviassem seus vídeos em DVD ou em fitas digitais, ao invés de em fitas VHS, o que melhorou sensivelmente a qualidade técnica das projeções em telão. Quanto aos conteúdos, todos os anos temos tido programas excelentes. Estamos pensando em criar um Prêmio Ver Ciência de reconhecimento das melhores produções nacionais e estrangeiras da Mostra. 17. Há um levantamento de quantos assuntos de Ciência foram abordados? Quais foram os principais? Não temos um levantamento quantitativo. Mas praticamente cada protrama é um assunto, e como tem sido cerca de 50 programas por ano, creio que devamos ter apresentado cerca de 500 programas nos últimos dez anos, sobre os assuntos mais diversos nos campos da Ciência, da tecnologia, saúde, medicina, meio ambiente, história da Ciência,, etc. De “A” de astronomia e antropologia à “Z” de “zoologia”. 18. No que a Arte influencia o seu trabalho? Nosso trabalho certamente tem uma forte componente artística, no campo das artes audiovisuais, do design gráfico e da comunicação. 19. O que é Arte e Ciência para você? Ciência se faz com Arte e Arte se faz com Ciência. Um exemplo de encontro das duas é o Projeto Ver Ciência. Entrevista com Yudith Rosenbaum Professora da FFLCH - Faculdade de Letras e Ciências Humanas e mestre em Manuel Bandeira. Entrevista em 14/10/2004 por e-mail Anexos 1. Fale um pouco sobre o poema “Satélite”, de Manuel Bandeira, e sua relação com a ciência. Não me parece que esse poema informe o leitor de questões científicas. Embora ele se proponha a desmetaforizar, desmitificar a Lua de suas “atribuições românticas”, ou seja, “despoetizar” essa figura tão poética por excelência, o que se vê é justamente um poema sobre a lua. Mas qual Lua? A dos cientistas? Também não. Se já não é mais a Lua dos clichês, tampouco é a Lua asséptica da ciência, pois no poema ela vira essência, “coisa em si” e não um objeto retirado de seu contexto para ser investigado em seus elementos constituintes. Podemos dizer que Bandeira faz as palavras girarem em torno da Lua como ela, satélite, em torno da Terra. Ela começa no céu pairando, depois é despojada das antigas signiifcações (não é mais “golfão de cismas”, astro dos loucos, objeto melancólico) para pousar de novo mais pura e natural: satélite simplesmente. Ele faz o mesmo processo descrito no poema “Maçã”, fazendo a fruta passar por várias faces diferentes - seio murcho, ventre, ser divino - e depois pousar “tão simples/ ao lado e um talher/ Num quarto de hotel”. 34 Bandeira quer captar o que faz as coisas serem o que são. Talvez só a poesia consiga desentranhar do caos da vida a significação maior do ser. A ciência, frente à poesia, faria um outro movimento: decompõe para estudar, propõe experimentos para medir e quantificar, perdendo de vista a totalidade do objeto. Bandeira fala de uma poesia simples e humilde, capaz de revelar o ser na sua imanência, sem transcendência, sem adornos, sem utilidade. Entrevista com Júlio Mariano Entrevista com Mariano, chargista do Jornal da Ciência 1. Nome completo: Julio Mariano - 54 anos 2. Há quanto tempo faz cartuns? Mais ou menos 35 anos 3. Formação (acadêmica): Engenharia / Comunicação Social (incompleto) Anexos 4. Trajetória profissional: onde trabalhou, como chegou a fazer charges... Jornal do Brasil, O Globo, Última hora, Opinião, Pasquim, etc. Comecei fazendo charges para o jornal do Diretório Central dos Estudantes da PUC/RJ (do qual fui vice-presidente) no início dos anos 70. Em seguida comecei a publicar alguns cartuns no Pasquim (onde colaborei ininterruptamente até o seu fechamento). Depois fiz charges para o JB, Última Hora, ilustrações para O Globo, Veja, etc.. Hoje mantenho o site www.chargeonline.com.br, que é a principal (única, na verdade) referência do humor gráfico de opinião no Brasil, onde são exibidas diariamente todas as charges dos principais jornais de todo o país. 5. Há quanto tenho desenha sobre Ciência? Como começou a publicar no Jornal da Ciência? Há uns 12 anos. Comecei por convite do então presidente da SBPC, Ênnio Candoti, e do José Monserrat. 6. As publicações foram exclusivamente no Jornal da Ciência ou aconteceram em outro veículo? No JC o que é para o JC. 7. Onde você se inspira? Nas notícias atuais? Faz coisas ligadas ao dia a dia ou prefere desenhar sobre temas atemporais? Sigo a pauta do jornal. 8. Acha difícil fazer charges sobre Ciência e cientistas? Tem a sua especificidade, mas é como outro assunto qualquer. 9. Em algumas charges você ‘brinca’ com o mito do cientista (caso daquela que o cientista está morrendo afogado com os apetrechos, ou daquela que os dois falam fórmulas). Como é tratar disso num veículo onde o público é cientista também? Minha praia é o humor. Sempre que dá, acho que funciona. 10. Como é a receptividade do seu desenho? Às vezes recebo algumas críticas, que corrigem minha abordagem (já tirei a gravata dos cientistas, e aumentei a importância das mulheres no meio acadêmico). Mas em geral, acho que meu trabalho é bem recebido. Áté pelos criticados: já recebi elogios de um ministro pelas caricaturas (críticas) que eu fazia dele. Anexos 11. Nestas suas charges, há uma preocupação maior com a crítica, seja ao governo, ou ao próprio cientista (como é o caso daquela do Lula e das nanobolsas). Você acredita que é possível ensinar Ciência ao público pelas charges ou não? De ensinar não. Mas são um grande instrumento de crítica e mobilização. 12. Qual é o principal objetivo das suas charges? Divertir criticamente e provocar reflexão. 13. Quais são suas maiores preocupações quando desenha sobre Ciência? Não cometer equívocos conceituais é uma preocupação. 14. Você acredita que as charges são um meio eficiente de Divulgação Científica, ou acredita que as pessoas não tenham muito acesso? Certamente as charges são um poderosíssimo instrumento de comunicação. Com orientação teórica consistente podem ser um meio eficientíssimo de Divulgação Científica. 35 15. O que é Arte e Ciência para você? Quando a Ciência inova, ela se aproxima da Arte. Quando a Arte amadurece ela se aproxima da Ciência. Entrevista com Fernando Gonsales Entrevista com Fernando Gonsales – cartunista do Niquel Náusea 1. Você é cartunista há quanto tempo? E sou cartunista profissionalmente há 20 anos, mas desenho desde criança. 2. Qual que é sua formação? Eu sou formado em Veterinária e Biologia. 3. É por isso que nos seus desenhos tem muitos animais... É, verdade... é por aí mesmo. 4. Você publica na Folha de S. Paulo desde quando? Desde 1985 5. Quais os outros jornais que você publicou também? Olha, tem um monte de jornais pelo Brasil, o Zero Hora, de Porto Alegre, Diário do Comércio em Recife, Correio Brasiliense, é por aí, muitas capitais. 6. O Níquel tem 20 anos? Quase isso, né? Anexos 7. Ele foi seu primeiro personagem? É, profissionalmente sim... foi meu primeiro personagem. Eu acho que pode colaborar sim. Alguém pode se interessar pelos assuntos a partir de uma história em quadrinho, ou um cartum. Pode querer saber mais, aquilo pode servir de chamariz para alguma coisa mais científica. 10. Você acha que a linguagem do quadrinho pode auxiliar o ensino da Ciência? Eu acho. Acho que a principal função é despertar. Uma coisa que seja muito científica é difícil você abordar em forma de quadrinho. Você sempre vai ter que simplificar, dar uma estilizada. Eu acho que não é uma linguagem mais apropriada para você divulgar Ciência mesmo, mas assim, há um nível mais superficial, acho que sim, é legal. 11. Qual é a diferença da linguagem do quadrinho e da linguagem escrita? O quadrinho chama mais a atenção, e teoricamente o texto tem um conteúdo dependendo da abordagem mais denso... Acho que em principio isso que você falou está certo, apesar de existirem exceções. Tem gente que faz quadrinhos com uma profundidade bem grande. Mas no geral, os quadrinhos são mais aventura, uma coisa mais visual, mais humor. Eu acho que a diferença básica está na forma mesmo, com os quadrinhos você pode usar muito mais imagem, o que na literatura você não tem este recurso. Em compensação, na literatura você pode se aprofundar em outras áreas, fazer um perfil psicológico do personagem, mas você (o desenhista) pode fazer isso também. Anexos 12. Você acha que o quadrinho tem uma linguagem lúdica? É, mais fácil você ler quadrinho. Você não precisa ficar descrevendo uma casa, você desenha logo a casa. É mais rápido. 8. Para você, o que é a junção da Arte com a Ciência? Olha, eu acho assim, no caso, a Ciência serve para criar assunto. Quer dizer, você ter o conhecimento da Ciência, ela serve como subsídio para você criar alguma coisa em cima. É mais ou menos isso. 13. Você acredita que exista mais receptividade do público para o quadrinho do que para a linguagem escrita? Eu acho que sim, mas acho que depende muito do grupo, da faixa etária. O grupo mais adulto vê um pouco com preconceito o quadrinho, como sendo uma coisa que não é importante. Eu acho que neste sentido, você apresentar Ciência em quadrinho, acho que vai ter resistência com um certo grupo. 9. E a Arte aliada a Ciência, você acha que a Arte colabora com ela? 14. Tem mais receptividade por parte das crianças, então? É, dos jovens em geral 36 15. Como você seleciona o conteúdo para as suas tiras? No conteúdo de Ciência mesmo... Factual ou aleatório? É mais aleatório... Bem aleatório. Até eu prefiro não tratar de muito tema de atualidades. Porque como a minha tira é um produto que eu posso reutilizar daqui a cinco, dez anos, então eu gosto de deixar ela sempre atual, para ela não se perder. 16. Digamos, atemporal? Isso mesmo, é a palavra certa. 17. Mas você acaba falando de Ciência com o Benedito Cujo. É, o Benedito Cujo era uma coisa mais específica para vestibular... Acaba falando. 18. O Benedito foi criado com o objetivo de aproximar o jovem da tirinha, ou em ensinar o público alguma coisa? Não, o Benedito , o objetivo dele era entrar num caderno de vestibular. Eu fazia ele que era um personagem vestibulando. Como o universo do vestibulando era uma matéria, acabava sempre envolvido com estes temas. Mas ela não tinha uma função didática não. 19. Faz quanto tempo que o Benedito existe? Ele foi feito lá para (19)85. Eu fiz pouco, referente a uns dois ou três anos. 20. Porque foi tão pouco tempo? Ah, o caderno acabou, ou mudou o patrocinador, nem lembro. Mas daí eles não me pediram mais, aí eu não fiz. Anexos 21. Daí você manteve o Níquel... É, o Níquel tem que manter. 22. Mas você não tem como fazer na tira, por exemplo, sai uma do Níquel, depois uma com outro personagem? Ou tem a ver com contrato, tem que fazer uma tirinha do Níquel. Não, se eu quisesse eu poderia fazer, mas na verdade eu prefiro manter a mesma linha, sempre tratar de animais naquele espaço. É uma opção minha mesmo, para criar um vínculo, uma identidade com o leitor. Mas eu não tenho nenhuma obrigação de fazer isso não. 23. Você acha que os artistas podem ajudar a divulgar ou a despertar a Ciência? Eu acredito. Eu acho que você abordar um tema um pouco diferente, sei lá, você falar sobre, sei lá, qualquer coisa, mimetismo, sobre predação, sei lá, qualquer coisa assim, no final, você atiça a curiosidade. Você falar sobre uma curiosidade qualquer sobre um ser vivo, acho legal isso. Não é a função primordial, não faço pensando nisso, mas é um efeito colateral daquilo. 24. Qual que você acha que a função primordial do quadrinho? Do meu quadinho, acho que a função primordial é divertir. 25. Você acha então que dá para fazer um quadrinho que fale de Ciência e seja divertido... Eu acho que dá. 26. Você acha que isso dificulta? Porque algumas pessoas vêem a Ciência como uma coisa chata, ela vê dois quadrinhos, mas escolhe aquele que não fala de Ciência? No meu caso ajuda, o fato de eu tratar com assuntos de Biologia. Pra mim ajuda, porque eu gosto muito do tema e sempre está me dando subsídios, dá bastante lenha para a minha fogueira. Agora, se eu estivesse um tema muito específico, falar sobre aminoácidos essenciais, aí seria difícil. Quanto mais em três quadrinhos. A dificuldade do quadrinho é você explicar para o leitor o que está acontecendo. Nem todo mundo sabe que se cortar o rabo da lagartixa, vai nascer de novo, por exemplo. Então, você tem que gastar o primeiro quadrinho explicando isso, e aí você faz a piada nos dois quadrinhos seguintes. Mas se for uma coisa simples que nem essa, corta o rabo da lagartixa, nasce de novo, você explica rápido, aí você manda a sua piada depois. Agora se for uma coisa muito complicada, aí é difícil neste espaço. Se eu acho que é uma coisa que o público geral não conhece, então eu tenho que dar uma explicaçãozinha, porque se não ele não vai entender a piada. Mas tem muitas vezes que eu não uso porque ou não tem nada desconhecido, ou é uma coisa muito normal, aranha come mosca, por exemplo. 27. Foi uma coisa proposital você fazer tantos personagens animais? Porque o Níquel já é um ratinho... Foi. Anexos 37 28. Tem muitos que não chegam a ser personagens, eles aparecem... Exato, eles não são protagonistas, são figurantes. O que acontece é assim, o personagem principal é um rato, mas depois que você começa a fazer centenas de tiras, você começa a esgotar, e você começa a querer fazer sobre outros assuntos. Então, eu comecei a fazer tiras de animais em geral. Mas eu não quis sair dos animais, para o leitor não perder o fio condutor da tira. Mas agora eu posso fazer qualquer tira sobre qualquer animal, sem nenhum problema. É uma tira sobre animais, mas aparece o rato com bastante freqüência. 29. O conteúdo acaba sendo algo coadjuvante. O objetivo sendo divertir, algumas vezes você informa para que o público se divirta. Exato, exato... (risos) Você tem que informar para que a pessoa possa entender a piada. Anexos 30. Tem uma das tirinhas do Níquel (porque o Níquel não tem muito esta preocupação em informar), as do Benedito tem mais por ser um vestibulando. Mas as do Níquel são uma coisa mais de cotidiano mesmo, não tem nenhum tema que você aborde muito. Tem uma que você fala sobre a Lei da Gravidade. E você acha que isso colabora, para a criança que não tem noção do que seja, porque ela só vê o gato caindo. Você acha que incentiva a criança a estudar por conta disso? Eu acho que depende de como a tira é apresentada. Se ela estiver no meio do jornal, passa até batido. Mas o que acontece é que ultimamente muitos livros didáticos, não sei se você já viu isso, estão utilizando a tirinha no meio do livro. Então, está apresentando a Lei da Gravidade, e coloca a tira no meio do material didático. Quando ela é apresentada assim, eu acho legal. Força ainda mais o caráter didático da tira. 31. Mas ao mesmo tempo a sua tira tem um alcance muito grande, baseando na tiragem da Folha... Eu acho que sim... 32. Como você analisa essa divulgação da Ciência no Brasil? De alguma forma, você colabora com isso. Eu acho que posso ter uma funçãozinha sim... Nada muito importante. Eu acho que na Divulgação Científica é importante ter jornalistas especializados e tudo. Mas o que eu faço pode criar um interesse, pode até servir para quem está querendo divulgar um assunto e utilizar a minha tira como suporte, como um complemento. 33. Tem uma tira sua sobre os pinguins, em cima da geladeira. Esta tirinha sintetiza muitos conceitos (lei de Galileu, história do povo da Europa acreditar que a Terra era quadrada, e a percepção humanade como percebe o mundo). Como você sintetiza tantos conceitos em apenas dois desenhos? Essa calhou. Não tem muita fórmula não. Normalmente você fica pensando em um tema qualquer, por isso que eu acho legal. A função primária é você fazer uma piada, mas se tiver alguma informação a mais, é melhor ainda. Ela fica com mais estofo, a tira fica com mais conteúdo. Mas nem sempre é possível. Às vezes fica a piada pela piada, sem grandes pretensões. 34. Já fica difícil sintetizar até a piada em três quadrinhos, ou não? Daí já é a prática. Quando você começa a pensar na piada, você já está pensando em, dois, três quadrinhos. É como se você tivesse no seu cérebro um molde assim, e se ela não vai se encaixando você vai cortando, até encaixar. 35. Você acredita que a imagem forma o público, partindo do ponto que uma parcela da educação no Brasil não fixa o conteúdo como deveria? Por exemplo, tem uma tira sua que o personagem fala “me salvem” e o livro, no terceiro quadrinho corrige. Supondo que um estudante vê isso na sala, mas só “fixa” depois de ler o quadrinho. É, isso acontece. Se você colocar o conceito corretamente, você acaba formando, no sentido de educar. Mas também é muito raro uma tira ter este caráter. Nas tiras de vestibular acaba tendo mais, o vestibulando está estudando Português, Matemática, você acaba usando este assunto. Mas numa tira normal é mais difícil acontecer. Acontece, como nesta, por exemplo, que é totalmente didática. Mas tinha uma piada. Ás vezes você não acha uma piada para o conceito, daí fica uma coisa meio chata, você só querer explicar sem ter uma piada. Pode até ficar mais bonitinho, você ler a matéria, em forma de quadrinhos, mas não fica engraçada. Anexos 38 36. Você acha que a receptividade do quadrinho está no humor? É a palavra chave. Porque se não fica assim, como uma coisa descritiva, as figuras ficam só como apresentadoras de conceitos de matéria. 37. Você acha difícil fazer humor com Biologia? Não, eu acho a melhor coisa que tem, é o mais fácil. É o universo que eu gosto de trabalhar, sempre me interessei. Às vezes até dá vontade de mexer com outros universos. 38. Mas aí você faz? Eu faço, mas na tira eu já fechei: tem que ser animal. Eu abri exceção para seres fantásticos, por exemplo, duendes, fadas, bruxas, eu ponho também, mas para me dar mais uma aberturinha. É como eu vejo o universo de tira. A tira é uma por dia. O público espera encontrar naquele lugar uma tira sobre animais. Para ficar mudando... tem autores que mudam, mas eu prefiro não mudar. Entrevista com João Garcia Entrevista com João Garcia, cartunista e desenhista de “Os cientistas” Anexos 1. Há quanto tempo que você faz quadrinhos? Olha, quadrinhos eu faço desde o começo da década de 80. Eu sou, o que chamam de autodidata, eu acho um termo impreciso porque você acaba aprendendo com outra gente, eu não freqüentei escola para aprender a desenhar. Mas desenho desde criança, acho que toda criança desenha, eu só não parei de desenhar. 2. Você é cartunista há quanto tempo, desde os anos 80? Desde os anos 70. Eu comecei a batalhar, publicar alguma coisa na mídia nos anos 70. Mais cartum, ilustração, né? Quadrinhos eu fui iniciar com personagens e tudo mais, não era nessa área de Ciência, comecei no começo da década de 80, que são uns personagens que são mecânicos de um jornal dirigido aos mecânicos mesmo, ligado a Volkswagem esse jornal. 3. Quantos anos você tem? Estou com 51 anos. 4. Daí você começou a fazer tirinhas mesmo no meio dos anos 70... Todas elas com longa duração. Eu faço personagens longevos, assim... espero ser como eles, também viver bastante (risos), com saúde. 5. Você é formado? Sou jornalista. 6. Você se formou aonde? Na ECA. Eu sou da turma de 81. Eu fiz Biblioteconomia e Jornalismo aí na ECA. Sou bibliotecário não-praticante. 6. Você já publicou no Correio de Campinas, não foi? A série “Os cientistas” essa começou em 94, maio de 94. E o primeiro jornal que ela saiu foi o Correio Popular de Campinas, diariamente, desde maio de 94 a janeiro de 2002. O redator-chefe que foi quem comprou e topou a idéia, ele é um cara que milita aí no jornalismo científico também, né, então é cara sintonizado com este tipo de tema. Anexos 7. Ele que incentivou... Incentivou e topou a idéia, né? Era uma parceria de várias pessoas aí, porque eu sempre digo que “os cientistas” é uma obra produzida a ‘n’ mãos. Eu sou desenhista, acabo sendo um rosto desse trabalho, mas na verdade os temas, os aperfeiçoamentos que a gente teve e tal, tem jornalistas, pesquisadores, professores, crianças, um público muito variado que contribuiu e contribui para que o trabalho ande. 8. Hoje ele é publicado no Núcleo (de Divulgação Científica) José Reis ... (na USP) Então, no Núcleo, está na Folha da Região em Araçatuba e pinta em publicações especializadas. 9. Tirando estes jornais, em quais outros você já publicou? Você diz com os cientistas? 10. De modo geral... Ah, já fiz colaborações em vários lugares, já fiz cartum e ilustração em publicações e fascículos da Editora Abril, o antigo 39 Anexos folhetim da Folha de S. Paulo no fim dos anos 70, comecei a desenhar na revista Balão, que era uma revista de quadrinhos dos alunos da FAU e da ECA, na época que eu entrei na ECA, era o quê? 74... Comecei a desenhar quadrinhos ali. Eu publiquei depois trabalhos também, tem o Notícias da Oficina, que é esse jornal que eu te falei de mecânicos, um veículo importante na minha vida profissional. Publiquei aí, nos veículos chamados da grande imprensa, eu fiz assim, pouca coisa, ilustração para o Jornal da Tarde, o folhetim que eu já mencionei... Atualmente estou fazendo colaborações de jogos dos sete erros, eles chama genericamente de brincadeiras, na “Folhinha”, da Folha de São Paulo, e enfim, po aí afora. 11. Como foi a construção dos “cientistas”? Você disse que todo mundo ajudou a construir... A idéia dos “cientistas” nasceu bem antes, nos anos 80. Eu vinha desenvolvendo nessa época um trabalho de comunicação aqui na IPT (Instituto de Pesquisa Tecnológicas da USP), né, na assessoria de imprensa, e convivendo com temas de pesquisa, contradições que rolam, as bobagens que rolam, e coisas também brilhantes, heróicas, não é, que são temas constantes que são sugeridos pra gente. Então a idéia de fazer quadrinhos, de fazer humor com essa área de pesquisa, ela brotou ainda nos anos 80, mas eu ainda não tinha uma forma para isso. Então eu fiz alguns cartuns, alguma coisa didática assim, chata, difícil você colocar uma coisa assim “agora vou ensinar para os meninos como é que se faz isso”, você vira um tremendo de um chato, você não faz humor. Até chegar, com muita conversa e mais gente sugerindo coisas, eu falei de crianças, até crianças pelo tipo de foco que elas dão nas coisas sérias, né? Mas enfim, essa visão da criança no assunto dito sério coloca a graça, coloca o humor pela forma inusitada que eles abordam as coisas e tem uma visão muito própria. Então é um enfoque pouco habitual para quem está acostumado com a Ciência, com a tecnologia aí, séria entre aspas. Eu devo ter hoje, sei lá, em torno de umas 3.000 tiras prontas. 12. De todos os personagens? Dos “cientistas” só. É um volume grande. Se botar na mão de alguém para editar esse material, eu falando criticamente assim, eu acho que salvaria umas 300 (risos)... 13. Você já publicou livros de quadrinhos? Ainda não, não. Foi uma coisa interessante que você perguntou pelo seguinte: quando eu estava fazendo este trabalho ainda no Correio, não me lembro exatamente em que ano foi, mas ainda era na versão preto e branco, publicamos lá em preto e branco e depois que o jornal passou a imprimir a página de tiras em cores, aí o trabalho virou cores. Mas, na época ainda do preto e branco, então, da primeira fase dos cientistas, eu fiz algumas exposições do trabalho, viraram painéis, etc. Muita gente viu, de vários lugares do país, muita gente comentou, criticou, enfim, deu contribuições, foi um negócio legal. E aí fizeram uma ‘materinha’ num boletim, e eu recebi contato de gente, de brasileiros que estavam vivendo, estudando no exterior, e o pessoal maluco para comprar o livro. Queriam saber do livro. Então no começo já existia uma demanda para reunir esse material em um livro. É uma coisa que uma hora tem que batalhar um patrocínio, e alguma coisa. Hoje nesse batepapo surgiu de novo essa pergunta: ‘E livro’? Porque é um risco de dispersar mesmo. 14. Como você faz os quadrinhos? Como são escolhidos os temas? Isso está ligado intimamente, o cartunista e o jornalista. Um não viveria sem o outro. Porque por ofício mesmo de jornalista eu acompanho os temas de pesquisa, leio muito na internet, o dia-adia aqui na assessoria do IPT, tenho um volume muito grande dessa informação, e também no aspecto humano dela. Convivo com pesquisadores, convivo com quem administra essas pesquisas, com a burocracia dela, é por isso que eu te disse no começo que a gente convive com as coisas positivas e negativas, o que há de bom, o que há de ruim e o que há de mais ou menos. Isso tudo dá um caldo cultural muito rico, e é daí que vem os temas. Então muitas vezes por exemplo, vejo uma notícia que uma nova forma de vida inteligente foi descoberta no planeta X. Já puxo isso aí para o nosso dia-a-dia que está aqui, uma coisa dessa já vira tema, com certeza. 15. Como foi fazer o personagem cientista sem cair no mito de cientista de jaleco branco explodindo um laboratório? E os cientistas tem uma característica critica, de criticar a própria Ciência... Exatamente. Alguns estereótipos a gente até caiu de produzir cenas de laboratório nos quadrinhos. Mas são coisas que acontecem Anexos 40 nos laboratórios reais também. O cara usa avental, uma dentro de um laboratório também, não usa no dia-a-dia, né? Então algumas dessas coisas que a gente pode considerar estereótipos às vezes estão presentes também nesses quadrinhos. O que nunca está presente, é um ponto de honra, a gente condena e pula fora, é essa história de cientista maluco, aquela idéia de cientista associado ao Professor Pardal, o cara aloprado que vive alienado ao mundo, das coisas. Então, a série de quadrinhos que “os cientistas” procura apresentar é o cientista de carne e osso, é um cara que tem a vida dele no trabalho que é de pesquisa e tem uma vida privada também, tem problemas como todo mundo tem, não é? É desmistificar um pouco essa visão que se tem do cientista, da Ciência. Anexos 16. Qual é o objetivo principal do seu quadrinho? É a divulgação científica ou é a diversão? Ah... olha, eu acho que combina um pouco das duas coisas, hoje me perguntaram isso e eu respondi para a pessoa que a graça, o humor é a ferramenta para atingir as pessoas e cativar o leitor. Agora o tema, o que está na raiz mesmo são os temas de Ciência e tecnologia. Então a área de conhecimento é o diferencial neste trabalho, então eu cuido muito dele. Eu acho que a alma é essa. É a divulgação de noções, não só de informações, que um trabalho desses com humor não dá para ser só informação, né, mas também a visão diferenciada de um fato, às vezes também é um modo, como você perguntou um pouco antes, uma das fontes é a própria imprensa. Muitas vezes saem matérias sobre temas científicos de uma forma meio distorcida, amalucada, às vezes a notícia que é maluca (risos). 17. Você então acredita que os artistas possam incentivar a Divulgação Científica... Eu acredito. Eu acho que, mesmo porque é uma concepção, mas eu vejo a Arte como uma Ciência. Ela tem ferramentas diferentes das Ciências Exatas, Biológicas, etc; ela trabalha muito mais com intuição, e hoje em dia você vê algumas das Ciências, como a própria Física na área de Exatas que apostam na intuição também e conquistam avanços importantes a partir desta ferramenta. Então eu acho que a Arte tem muito, muito a dar a Ciência e mais ainda a Divulgação Científica, que poderiam se valer dessas ferramentas para serem mais eficazes. 18. Como você analisa essa divulgação das Ciências pelos artistas no Brasil? Olha, eu acho que não tem muito artista no Brasil focado na questão da Ciência. E isso se reflete quando muitos deles metem o pé na estrada da Divulgação Científica. O que a gente vê muito é reprodução de chavões, o que não é apresentar a coisa de uma forma crítica, que informe criticamente as pessoas. 19. Você acha que não chega na população? É, eu acho que chega pouco. Acho que teria muito a se fazer. Acho que o caminho a frente é muito amplo. Eu me considero um dos pioneiros no sertão brasileiro, fazendo este tipo de trabalho, Humor, um temperinho de Arte. 20. Como você consegue sintetizar esses conteúdos em três quadrinhos? Isso é um exercício. Eu vim de um exercício um pouquinho antes que é essa história do cartum. O cartum uma vez, quando eu estava começando a fazer colaboração em um jornal, um cartunista que estava na estrada há bem mais tempo e ele me definiu o cartum como uma xícara de café. Você toma e deixa uma gota. A gota que sobrou é o cartum. Fato. Então você aprende a começar a pensar os fatos que você tem, como você está se preparando para ser uma jornalista, você procura, quando você vê um fato, você procura logo o seu lead. A gente procura este mesmo lead nos fatos que para gente é a xícara de café, e daí a gente tem que “enxugar” essa xícara de café, porque o nosso espaço pra gente contar essa história numa imagem ainda é menor do que você tem para escrever uma matéria. Então, a gente procura tirar, se possível, a essência. Nem sempre a gente consegue, né, claro. Só os bons (risos). Então, entre erros e acertos, de vez em quando a gente acerta uma bolada ou outra, e aí adquire essa prática de esquematizar os fatos e de procurar a essência deles. Sabendo de que não é a verdade, a gente está dando um foco numa versão. Eu tenho a visão jornalística sobre este trabalho de quadrinhos e cartuns, só um aspecto, na verdade. Não é a verdade pronta, nua e crua. 21. Como você define os seus personagens, “os cientistas”? Eles procuram ser um retrato dos cientistas, do trabalho científico, eles procuram ser um retrato mais psicológico. Então, a Anexos 41 carinha deles, tudo isso é esquematizado, são fisionomias que não existem na vida real. Mas as situações, as explosões, as idéias que eles têm são coisas reais. Então eu imagino que é assim que essas pessoas vêem esses personagens também. 22. Você acha que isso se deve ao fato de muitas pessoas terem colaborado para a criação de “os cientistas”, como você disse antes? Ah, sim. Eu tenho certeza. Anexos 23. Como foi todo mundo “colocar o dedo” nos personagens? Ah, foi muita conversa antes de conceituar, de ter um foco sobre uma questão. Você pega, por exemplo, pesquisadores experientes, gente que já tem muita estrada. Deram opiniões de como viam a Ciência, os cientistas. Ouço sempre até hoje várias opiniões, dessas que estão na origem, deram o alicerce deste trabalho. Tinha gente enfanhada com a pesquisa que dizia “olha, não tenha dó do cientista que ele é um canalha”, outro dizia “não, o cientista aqui no Brasil é um herói porque trabalha com poucos recursos”, outro dizia “pô, piada sobre Ciência só cientista vai entender e cientista é um bicho sem graça, não vai dar risada porque é tudo bolha, bobo”. E então os próprios cientistas, pesquisadores emitiram várias opiniões a respeito da própria categoria, do trabalho, etc, que ajudaram a formar um perfil psicológico de cada um dos personagens. Cada um tem uma versão psicológica. E sem ter a pretensão de ter retratado todos, né? Qualquer hora surge mais personagens, novas situações e tal. Inclusive os personagens que surgiram com o tempo, só para completar, que não tinha previsão nenhuma de que eles viessem existir no começo, são os personagens do micromundo, né? Então entraram bactérias, vírus, átomos. Tem historinhas que eles são os personagens. 24. Como você acabou publicando no Núcleo (de Divulgação Científica da USP, que tem toda uma pesquisa voltada nessa linha) Isso foi uma história interessante. Por uma questão de trabalho daqui do IPT, envolveu uma possível parceria que enfim aconteceu. Um dia tive uma reunião lá no Núcleo com os professores Osmir e a Glória. E estava o Mauro também. Mauro Destácio. Eu estava conversando com os dois e a Glória estava ocupada com alguma outra coisa, e aí enquanto a gente conversava eu vi em cima da mesa um esboço de histórias em quadrinhos. Aí eu falei “pôxa que interessante isso aqui, eu faço quadrinhos”, e na hora que a Glória ouviu ela falou “você caiu do céu”. “Porquê?”. Aí ela explicou que eles tinham um projeto lá no Núcleo que previa várias modalidades de Arte , de meios de comunicação, que deveriam ser contemplados no projeto maior que ela estava preparando. E ela estava sem um trabalho específico dedicado a Ciência que ela conhecesse em quadrinhos, cartuns, coisas do humor gráfico. Estava faltando para completar o arsenal que ela estava montando. Aí comecei a colaborar com o Núcleo também, uma parceria legal também. 25. Faz quanto tempo que você está publicando no Núcleo? Desde o final do ano passado. Não tenho esta data especificamente. Mas faz mais de seis meses já. 26. O que é Arte e Ciência para você? Arte e Ciência? Eu, como havia te dito antes, acho que elas são partes da mesma coisa. Elas são um arsenal de conhecimento humano. Eu vejo a Arte como Ciência também. São ferramentas diferentes que você usa com a mesma finalidade que é conhecer o mundo, desvendar e ter o melhor proveito. Aí depende de uma questão ética, ao meu ver, sem sacanear o mundo. Tem gente que acha que tem que tirar o máximo. Eu acho que são coisas fáceis, diferentes, são ferramentas diferentes para tratar a mesma coisa que é o conhecimento. Anexos 42 Entrevista com Marcus Campos Entrevista com Marcus Campos – circo em 29/09 – por e-mail Perfil: Nome completo Marcus Vinicius Campos - 33 anos Há quanto tempo trabalha com “circo científico”: Como Palhaço há 1 ano. 1. Como surgiu o “circo científico” no Brasil e como você começou a realizá-lo? Não sei se existe circo cientifico, eu comecei a realizar este trabalho pela simples vontade de mudar o meu meio. 2. Como funciona o trabalho? Você realiza sozinho ou em grupo? Saio para a rua de palhaço (Palhaço Matraca) e por meio da música falo sobre prevenção, paz, participação popular e cultura de Paz, e trabalho sozinho, Eu e Deus, essa força criadora. A população que alcanço concentra-se entre moradores de rua e profissionais do sexo. 3. Como são as apresentações? São performances circenses? Não sei te dizer ao certo. É tudo muito intuitivo, depende da hora e lugar. Anexos 4. Quais são os temas que você desenvolve? São só ligados à Medicina Preventiva? Os temas soão Prevenção de DST/AIDS, cultura de Paz, Meio Ambiente e Participação Popular, temas ligados ao conceito de Saúde Coletiva. 5. Qual é o objetivo principal do trabalho? Divertir ou educar? Os dois, como acreditar numa verdade se ela não vem acompanhada de uma boa gargalhada. 6. Quais são os conceitos que o público aprende quando vê uma apresentação? (no caso do objetivo ser educar também) Respeito, Cuidado, afeto, carinho, alegria e saúde além dos citados nas questões anteriores. 7. Como é a receptividade do público? Nota mil. A figura do palhaço é muito querida e tem um poder de comunicação fantástico. 8. Você leva os espetáculos para o público que possui pouco acesso a cultura e Educação? Como são escolhidos os locais das apresentações? Apresenta na periferia? Apresenta em escolas? Apresento na Rua e no próximo ano na Rocinha que é parte do meu objeto de estudo do doutorado. 9. Há intensão em ampliar o programa? Sim para o mundo inteiro (rs,rs,rs) é verdade, acredito que temos que ampliar o numero de palhaços de rua que trabalham questões de saúde coletiva. 10. Existem apoios da Fiocruz ou de outras instituições públicas ou privadas que colaboram com o trabalho? Não, faço na raça, chega de esperar a Unicef, Unesco mandar a verba, o mundo se muda de onde estamos. 11. Como alia-se circo e Ciência? Como passar conteúdo teórico nas apresentações? O universo lúdico neste momento da história torna-se um mecanismo muito poderoso de comunicação. Eu escolhi a linguagem do palhaço para falar de saúde, mas poderia ser o cinema, teatro, artes em geral. Não me preocupo em passar teoria, me preocupo em passar a importância do auto cuidado. Anexos 12. Tem conhecimento de outros grupos que fazem trabalhos semelhantes? Como eu não, no Amazonas tem um grupo chamado Saúde e Alegria, um circo que faz um trabalho no médio Amazonas muito bacana, mas na rua só conheço o meu trabalho. 13. O que é Arte e Ciência para você? É a possibilidade de aprender e praticar o conhecimento sem pressão a autoritarismo. Temos que ter o desejo de nos cuidar e nós como profissionais da saúde temos que criar condições para promover saúde. Saúde é alegria e a vida é encantamento, acredito que promovendo condições onde cada ser humano descubra sua forma de encanto o mundo fica pouco mais feliz. Temos que agir. 43 Entrevista com Cláudio Baltar Entrevista com diretor de “Sonhos de Einstein”, espetáculo circense da Intrépida Trupe Nome completo: Cláudio Gioseffi Baltar Nome artístico: Cláudio Baltar - 46 anos Formação Acadêmica: Superior incompleto (engenharia UFRJ). Diversos cursos e work-shops envolvendo teatro, dança, circo, capoeira, ginástica olímpica. Há quanto tempo trabalha com circo? Sou ator há 27 anos. Meu primeiro contato com o circo foi há 23 anos. 1. A Intrépida Trupe já faz um trabalho que alia circo, dança e teatro. Como surgiu a idéia de unir a Ciência? O ponto de partida foi o livro “Sonhos de Einstein” de Alan Lightman. Anexos 2. Este trabalho “Sonhos de Einstein” é relativamente novo (2003). Como surgiu a idéia de realizá-lo? Porque escolheram Einstein? A partir do livro fomos descobrindo como o nosso trabalho físico e acrobático poderia se relacionar às diversas possibilidades do tempo e da Física. Li este livro há muitos anos atrás, gostei tanto que dei de presente para algumas pessoas do grupo. Comparamos os capítulos que cada um mais gostava e deixamos de lado. E, no momento de escolher o tema do espetáculo, tive a feliz idéia de optar por este livro para ser o mote da minha primeira direção na Intrépida. 3. O que o público aprende ao assistir este espetáculo? Não se trata de um espetáculo didático. Os temas da Física são apenas mencionados, sem maiores aprofundamentos. 4. Tem objetivo de ensinar ou de divertir? O nosso objetivo é estimular a capacidade de imaginar e sonhar. A realidade do cotidiano endurece as pessoas. O mundo da Física é fascinante e está presente no nosso dia-a-dia, por mais que a gente esqueça disso. 5. No espetáculo vocês utilizam princípios das teorias de Einstein? O público entende quando estão citando o cientista ou é algo subjetivo? Quando estávamos pesquisando e aprofundando o tema do espetáculo, tivemos uma conversa com o cientista Luiz Davidovich, professor do Instituto de Física da UFRJ. Foi uma conversa ótima, passeamos pelos mais diversos temas da Física, de Einstein à queda dos corpos, da entropia ao teletransporte. A utilização da voz do cientista, registrada naquela conversa, no espetáculo, criou um efeito muito interessante, como se Einstein, ou Davidovich, estivesse onipresente e observasse o mundo com as lentes da Física, ou o que está por trás do trabalho acrobático e aéreo realizado pela Intrépida. 6. Como tem sido a receptividade? Têm planos em realizar outros espetáculos nessa mesma linha? A receptividade tem sido a melhor possível. Acho que foi um espetáculo inovador, diferente dos anteriores e, sem dúvida uma evolução a nível de linguagem e dramaturgia para a Intrépida Trupe. Ainda é cedo para falar de um próximo espetáculo, mas acho que será bem diferente do anterior, pelo menos eu o imagino assim, “surpreendente”. Anexos 7. O Espetáculo “Kronos” também gira na linha da Ciência: Big Bang e mitologia, e explicações sobre o tempo. “Flap” também, no mito de Ícaro e na Lei da Gravidade. Essa aliança com a Ciência tem sido cada vez mais próxima? A Ciência foi sendo incorporada aos poucos nos espetáculos? Foi algo programado? “Kronos” partiu do próprio mito para dar vida aos deuses e suas batalhas e, sobretudo as belas imagens do homem e sua relação com o Universo. “Flap” também partiu do mito de Ícaro e Dédalo, seu pai, que era um grande cientista. Falava então do homem e seu eterno desejo do impossível. Esses dois espetáculos tinham uma relação mais com a mitologia do que com a Ciência propriamente dita, mas se você quiser generalizar, a mitologia e a Filosofia podem ter uma estreita relação com a Ciência. No entanto, não foi pré-programada uma temática relacionada à Ciência, mas sim com a mitologia. 8. Você acredita que uma parte da inovação que realizam nos espetáculos se deve a abordagem científica? 44 Anexos A Ciência faz parte do nosso trabalho e da nossa pesquisa, o que talvez seja o grande diferencial da Intrépida em relação a outros grupos que trabalham com técnicas circenses. O aprofundamento técnico que chamamos de engenharia circense, tem influência direta na construção das cenas e acredito que também na dramaturgia. a rotina implacável relega estas características aos tempos da infância, como se as adultos fosse vetada esta possibilidade. Arte e Ciência para mim se aproximam na busca dos processos de criação. Existem caminhos, mas não existe uma fórmula que assegure o sucesso do resultado final. 9. Como foi feito o roteiro de “Sonhos de Einstein”, “Kronos” e “Flap”? O roteirista aprendeu Ciência por estar estudando para criar o espetáculo? E os artistas, tiveram uma proximidade maior com a Ciência e um conhecimento adquirido graças aos espetáculos? Eu, como principal roteirista de “Sonhos de Einstein” e diretor do espetáculo, posso dizer que aprendi bastante estudando e pesquisando sobre o tema. Os artistas também, através dos temas abordados e, sobretudo com a conversa que tivemos com Luiz Davidovich. Entrevista com a Casa da Ciência 10. Você tem conhecimento de algum outro grupo de circo que tenha realizado um trabalho semelhante aliando a Ciência ao circo? Não. 2. Como é o trabalho diário da Casa da Ciência? Estamos ao lado do Hospital Philippe Pinel e temos uma parceria muito grande com a equipe da TV Pinel. Eles dizem que a Casa da Ciência é quase uma extensão deles... Ou seja, é tudo uma grande loucura. Temos muitas idéias, poucos profissionais e pouquíssimo dinheiro... Talvez essas dificuldades façam com que nossa criatividade, nosso dinamismo e nosso idealismo aflorem todo o tempo. De um modo geral, cada um tem sua responsabilidade, mas todos fazem de tudo um pouco. Gostamos de experimentar, de acertar, de errar, de trocar, de encontrar, de pesquisar, de escrever e de realizar sonhos. 11. O que é Arte e Ciência para você? Esta é uma pergunta difícil. Se você me perguntasse o que é Arte? Ou o que é Ciência? Já seria muito difícil. Nunca havia participado antes de nenhum encontro que aproximasse estes dois universos tão maravilhosos e tão complexos. Gostaria de citar uma frase do filósofo “Bachelard” que muito me inspirou durante as pesquisas de “Sonhos de Eintein”: “A Ciência existe porque existe o sonho. A sua matriz não é o método, mas o devaneio.” Quando Einstein questionou a natureza fixa do tempo, indo contra toda uma geração de cientistas, inclusive Newton, ele deve ter sonhado e imaginado muito antes de formular suas teorias. Da mesma forma, acredito que um dia irá surgir um cientista que questionará a natureza fixa da velocidade da luz, desbancando as teorias de vários cientistas. Este deverá ser um homem ou uma mulher com a mente fértil, capaz de desconstruir para recriar, partindo do zero. Igualmente, tenho às vêzes, repetido para mim mesmo a mesma pergunta: “Qual é o ofício do artista?” A resposta que encontrei que mais me parece satisfazer é estimular nas pessoas a capacidade de sonhar e exercitar a imaginação, o que considero um dos maiores dons do ser humano. No entanto, a dura realidade dos nossos dias e 1. Perfil da Equipe de Pesquisa Responsabilidade no Desfile: Pesquisa e Elaboração do Enredo Fatima Brito – Direção Executiva Isabel Azevedo – Gerência de Projetos Simone Martins – Coordenação Editorial Ana Paula Trindade – Pesquisa e Edição de Projetos Digitais 3. O objetivo principal é popularizar a Ciência? Como fazem isso, além do Carnaval? Quais são as medidas tomadas? A Casa trabalha mais sob a perspectiva da provocação da curiosidade do outro. Nos sentimos felizes quando os visitantes saem daqui com mais perguntas do que no momento em que entraram. Para isso, optamos por não ter uma exposição permanente, queremos falar de todas as áreas da Ciência e sempre que possível de forma interdisciplinar e relacionando ao cotidiano das pessoas, entender a expectativa e os interesses diferenciados do público, busca de intercâmbio com outras entidades e instituições. Utilizar linguagens diferenciadas e relacionadas (exposição, audiovisual, música, teatro, cursos, palestras, seminários, workshops...) tem sido um caminho Anexos 45 constante em nossas atividades. Mas, sempre que possível, saímos do nosso espaço para buscar novos encontros (carnaval, exposições itinerantes, palestras em escolas, chopp científico e outros). 4. Por que o enredo chama-se “No tempo do impossível”? É uma referência às coisas que o homem ainda não realizou? Refere-se ao tempo do sonho, que é todo tempo: passado, presente, futuro. Sempre estamos sonhando com novas possibilidades de criação e invenção, que não sabemos ainda se vão se tornar realidade. A Arte de transformar o impossível em Ciência é a Arte de transformar sonhos em realidade. 5. Como foi escolhido o enredo? Paulo Barros participou da realização da nossa exposição “Portinari nos Ateliês do Samba”, que tratava do processo de construção do carnaval a partir do enredo da GRES Paraíso do Tuiuti, que ele elaborou para o carnaval de 2003. Naquele período fizemos uma proposta para que ele pensasse na idéia de falar sobre Ciência no próximo carnaval e ele aceitou o desafio. Anexos 6. E como sintetizar a história do conhecimento em 50 minutos? O enredo não foi sobre a história do conhecimento, mas sim sobre alguns dos grandes avanços e descobertas da Ciência e da técnica que marcaram a história do homem, mas que foram, em algum tempo, sonhos. A relação entre Ciência, fantasia e Arte era o que se pretendia enfatizar. 7. O desfile começou e terminou no imaginário (sonhos, como no caso da máquina do tempo, e do carro futurista). A idéia foi de dar a impressão de que tudo na Ciência é sempre um ciclo? O imaginário percorria todo o enredo, não estava apenas no início e no fim. Não havia a intenção de mostrar a Ciência como um ciclo. A possibilidade de ir e vir no tempo através da máquina do tempo permitiu que o enredo não ficasse restrito a um esquema linear ou de causa e efeito. A máquina do tempo, considerada um dos grandes sonhos da humanidade, inspirou-se nas teorias de Einstein sobre o tempo e o espaço e na ficção cientifica. O enredo foi conduzido por ela, permitindo uma viagem pelo passado, presente e futuro, para mostrar como o homem através da Ciência, da técnica e da Arte foi capaz de superar os limites do corpo, da gravidade, do tempo, do espaço e da própria vida. 8. Como foi organizar as alas e os carros alegóricos? Com a orientação de Paulo Barros e com o material pesquisado, depois de muitas discussões, idas e vindas, fomos definindo os setores, as alas em termos teóricos e conceituais e ele fez a criação das mesmas. 9. Qual foi o conceito científico mais complicado em transformar em alegoria? A melhor pessoa para responder essa questão é Paulo Barros, pois foi quem as criou. Apesar de discutirmos todas as idéias, a criação é dele. Mas, as possibilidades futuras da Ciência foram bem difíceis de representar no setor Ficção Futurista. 10. Como foi a consultoria científica? Houve um debate entre os professores da UFRJ e da Casa? Foi bastante informal. A equipe da Casa da Ciência participou não apenas da pesquisa, mas também da elaboração do enredo. Contamos com a consultoria permanente do professor Ildeu de Castro Moreira (Instituto de Física da UFRJ) e do professor Antonio Carlos Pavão, do Espaço Ciência de Pernambuco, que nos auxiliou na discussão do setor que falava de alquimia e Química. Para a pesquisa, foram utilizados livros, revistas e sites sobre Ciência, Arte, literatura, cinema, entre outros. A pesquisa não visava apenas textos. Houve também uma grande pesquisa de imagens para a criação das fantasias e alegorias. Anexos 11. Qual foi a receptividade da comunidade da escola pelo tema? No início, houve um certo receio de que o tema fosse muito complexo e de difícil entendimento. Afinal, a Ciência ainda é vista como algo inacessível ao grande público. Aos poucos, a forma como o enredo estava sendo tratado foi conquistando e dando mais segurança à comunidade da escola. 12. E qual foi a receptividade dos cientistas e professores? É difícil avaliar esse impacto ou dimensionar o que os assistentes do desfile pensaram. O resultado final do desfile foi surpreendente para 46 todos, inclusive para a comunidade da Unidos da Tijuca. Recebemos muitas mensagens pela Internet, lemos algumas entrevistas e artigos escritos que nos parecem ter considerado como uma experiência bem positiva. 13. Como vocês analisam o resultado da escola, como vicecampeã? Ao que devem o sucesso? (talvez a criatividade, que está tanto na Ciência quanto na Arte) Usar a Ciência como tema de um enredo de carnaval foi algo novo no mundo do carnaval carioca. Além disso, Paulo Barros é um carnavalesco inovador, ousado, experimentador e que possui uma estética muito própria. Talvez essa química tenha sido fundamental para esse sucesso. Anexos 14. Acreditam que este foi um dos eventos que mais tenha popularizado a Ciência, devido ao alcance da TV no território nacional? (e pela cultura brasileira pela festa do Carnaval propriamente dita?) Talvez tenha sido um dos mais ousados. Com certeza, o número de assistentes na passarela e o número de espectadores pela televisão amplia em milhões de vezes, pois o desfile é transmitido para quase 200 países e aproximadamente 1 bilhão de pessoas o assistem. Mas, o mais importante é essa aproximação e o encontro entre a Ciência e as manifestações populares. Que o carnaval, o repente, a literatura de cordel e tantas outras manifestações possam cada vez mais se encontrar com o mundo da Ciência. 15. Como foi feito o carro de DNA (dupla hélice)? Foi o maior desafio do desfile? (se não foi, qual foi o maior desafio)? Como fizeram aquele movimento? A idéia desse carro é totalmente do Paulo Barros, que, após ler todo o nosso material de pesquisa e ver as muitas imagens que pesquisamos, resolveu fazer uma homenagem à criação da vida. Os bailarinos ensaiaram durante quatro meses, em segredo, os movimentos que foram criados pelo coreógrafo Marcelo Sandrini. Todo o enredo foi um grande desafio, mas sabíamos que aquela criação do Paulo Barros causaria muito impacto na avenida. 16. A escolha por começar com uma máquina do tempo foi proposital? (uma vez que este invento está no imaginário humano há muito tempo, e é um desejo antigo do homem? Ou foi também pela participação do Carlos Palma como Einstein? - estou analisando este espetáculo na minha pesquisa também) Sim, foi proposital e um grande recurso como fio condutor do enredo (ver resposta à pergunta nº 7). A questão da viagem pelo tempo é discutida nas teorias de Einstein sobre o tempo e o espaço. Portanto, ninguém melhor para conduzí-la. A Casa da Ciência já apresentou os espetáculos da Cia de Teatro do ator Carlos Palma, como “Einstein”, “Copenhagem” e “Da Vinci Pintando o sete”. Por sua caracterização magnífica do cientista, resolvemos convidá-lo para o desfile. Ele adorou! 17. Por que optaram pela não-linearidade de tempo na ‘viagem’ (do desfile)? (este fato de estarem no século III e pularem para o XX e depois voltarem ao XIX) Essa questão também foi respondida na pergunta nº 7. 18. Como vocês uniram o conhecimento popular e os guardas da inquisição à alquimia? O setor Da Alquimia à Química pretendeu mostrar que a química bebeu na fonte da alquimia, ressaltando que em todos os tempos há a busca incessante de combinar e transformar elementos e substâncias, alterando a matéria. Era importante ressaltar também a importância do conhecimento popular nessa busca. Afinal, a Ciência está em toda parte. O uso de produtos naturais para fins medicinais, como plantas e flores, faz parte da tradição dos mais variados povos. Suas propriedades terapêuticas também foram estudadas e utilizadas por alquimistas ao longo dos séculos. Os resultados obtidos são valiosos para a farmacologia moderna. O traje das baianas, ornado com flores e plantas, simbolizou a importância do conhecimento popular para pesquisas científicas. Os guardas representam a perseguição aos chamados “bruxos” ou “magos”, durante a Santa Inquisição, que proibia a prática da manipulação de substâncias, sendo a alquimia considerada heresia. 19. Como uniram Sherlock Holmes na criação da vida? A relação entre Arte e Ciência, conforme foi dito, está na base do enredo. Sherlock Holmes, personagem eternizado pela ficção e ícone da investigação e decifração de enigmas, foi uma das formas Anexos 47 de mostrar que as questões que envolvem o conhecimento do DNA estão no imaginário e no cotidiano das pessoas há muito tempo. Nada melhor que a figura de Sherlock Holmes para relacionar solução de mistérios, investigação policial e testes de paternidade, entre tantos outros exemplos. Afinal, o DNA está sendo utilizado para desvendar os mais variados casos. 20. Por que existe uma ala de futuro decadente? Por que não houve outra com uma visão otimista também? O setor Ficção Futurista não pretendia dar apenas uma visão, mas variadas, do que se espera em relação ao futuro, tanto no imaginário (ficção), quanto nas previsões e expectativas da Ciência. Além do futuro decadente, inspirado em filmes como Mad Max, há andróides, viajantes do espaço, além de possíveis figurinos futuristas, com elementos que a Ciência e a tecnologia poderão produzir para facilitar a vida do homem. Sem falar na última ala, Unidos da Tijuca Campeã, que trazia o sonho da comunidade da Escola com esse desfile. Um sonho que praticamente se concretizou com o título de vicecampeã. De qualquer forma, o importante era mostrar que continuamos a sonhar e a tentar concretizar idéias, mesmo incertos com os seus possíveis usos e realizações. de um Louco” com Diogo Vilela que era um super drama, trouxe “Pérola” que juntava drama com comédia, ambas maravilhosas e com casa cheia. Trouxe “Vida Privada” com Antônio Fagundes (a peça estreou aqui) e era sofrível, mas o público lotou igualmente o teatro porque era com o Fagundes. Mas saíram falando mal do espetáculo que, aliás, não teve vida longa. Comédia sempre tem público, ainda mais no caso de “A Babá” que tinha gente conhecida. Agora, pagar para saber sobre a Teoria da Relatividade e outra coisa. Anexos 21. Por que não foi incluída “Viagem ao centro da terra” na parte do Júlio Verne? (senti falta dela) Também sentimos!!!! Tentamos até o fim, pois é uma ficção maravilhosa, mas não foi possível transformá-la em fantasia. Foi uma pena mesmo. Anexos Entrevista com Sonia Varuzza Responsável pela programação do Teatro Municipal de Santo André Entrevista em 09/07/2004 no Teatro 1. Fale sobre o seu trabalho Cada grupo é responsavel pela divulgacao de seu espetáculo. No caso de uma peça comercial o grupo só precisa divulgar bem com cartazes, out doors, jornais, etc. No caso de uma peça como “Einstein” o pessoal precisa ir as escolas, falar com os professores, etc. E um trabalho de corpo a corpo. Cheguei a trazer para Santo André “Diário 48 Enquetes Respondidas pelo público de “E Agora Sr. Feynman?” e “Einstein” nos dias 21 e 31 de agosto, respectivamente, no Teatro Municipal de Santo André - SP Anexos Anexos 49 Anexos Anexos 50 Anexos Anexos 51 Anexos Anexos 52 Anexos Anexos 53 Anexos Anexos 54 Anexos Anexos 55 Anexos Anexos 56 Anexos Anexos 57 Anexos Anexos 58