A LITERATURA ENTRE OS GÊNEROS ÚTEIS: SOBRE A ABORDAGEM DO TEXTO LITERÁRIO POR LIVROS DIDÁTICOS DO ENSINO FUNDAMENTAL I Angela Rodrigues da Silva (Letras Vernáculas e Clássicas – UEL) Henrique Furtado de Melo (Aluno especial PPGL – UEL) Orientadora: Profª. Drª. Sheila Oliveira Lima RESUMO: O projeto de pesquisa “Leitura Literária no Ensino Fundamental – Ciclo 1: concepções e práticas”, vinculado à Universidade Estadual de Londrina, vem, dentre suas discussões, encontrando tendências com relação à forma de abordagem do texto literário feita por livros didáticos, direcionados ao ciclo 1 do ensino fundamental, aprovados pelo PNLD. Uma das tendências de abordagem que nossas pesquisas têm identificado nos parece fazer referência à busca por trabalhar, na escola, o maior número possível de gêneros textuais, visando tornar o aluno hábil a lidar com esses diferentes gêneros em seu cotidiano. Neste trabalho propomos a discussão acerca do modo como o texto literário é apresentado, num dos livros didáticos em análise pelo projeto de pesquisa pré-citado, dentro dessa demanda pela presença de uma diversidade de gêneros no ensino. Partindo de uma perspectiva de leitura literária a qual dialoga fortemente com a subjetividade do leitor (Todorov, Candido, Barthes, Jouve), indo, então, para além do mundo objetivo para o qual o aluno deve, também, ser preparado no ensino básico, procuraremos dar destaque, em orientações presentes no livro didático, à maneira como o “mundo útil” parece, por vezes, suplantar o diálogo subjetivo instaurado pela leitura efetiva de um texto literário. Palavras-chave: Livros didáticos. Leitura Literária. Utilitarismo. 221 INTRODUÇÃO Uma das preocupações iniciais dentro do projeto de pesquisa “Leitura Literária no Ensino Fundamental – Ciclo 1: concepções e práticas” tem sido a compreensão de tendências de abordagem de textos literários por livros didáticos direcionados ao alunado dos anos iniciais do Ensino Fundamental. Este trabalho, como recorte de nossas pesquisas, propõe uma discussão em torno da maneira como a literatura é apresentada dentro de um dos livros que vêm sendo pesquisados pelo projeto. É importante observar que nossas discussões firmam-se ao redor de tendências, portanto nossa intenção não é apontar uma ou outra coleção de livros didáticos como sendo problemática, tencionamos estabelecer diálogos a cerca de concepções e práticas que vêm se mostrando frequentes nos livros em análise. O trabalho com gêneros do discurso, refletido a partir os estudos bakhtinianos, atualmente é apontado, tanto por estudiosos da educação e da língua quanto pelos documentos oficiais de parâmetros (1997) e diretrizes (2008) curriculares para a educação, como sendo forma bastante eficaz de ensino de língua materna. Nos livros didáticos, nosso corpus de análise, o que esses estudos parecem provocar, é um aumento da presença de uma variedade de gêneros discursivos, no objetivo de preparar a criança para lidar com a diversidade de textos e discursos com os quais ela terá contato na vida prática. A posição que a literatura ocupa (ou deveria ocupar) em meio a essa gama de gêneros discursivos com os quais a escola passou a lidar, tem sido bastante discutida em estudos recentes. Neste artigo, inicialmente, apresentaremos nossas concepções a respeito da leitura literária e sua importância na formação humana, dialogando com as orientações dos documentos oficiais. Apontaremos, em seguida, alguns exemplos que nos ajudarão a compreender uma das tendências de concepção de leitura observadas nos livros em análise pelo projeto de pesquisa vinculado à Universidade Estadual de Londrina, para que, assim, possamos construir reflexões acerca de como essa tendência parece lidar com a literatura. 222 LEITURA LITERÁRIA PARA ALÉM DO MUNDO PRÁTICO A concepção de ensino de leitura literária presente nos Parâmetros Curriculares Nacionais para a Educação (1997) tem sido, desde a publicação do documento oficial, constantemente rediscutida e reelaborada no âmbito da educação. Após destacarem, na literatura, seu caráter de “diálogo regido por jogos de aproximações e afastamentos” (BRASIL, 1997, p.30), os PCN argumentam que o ensino de leitura literária envolve um “exercício de reconhecimento das singularidades e das propriedades compositivas que matizam um tipo particular de escrita” (BRASIL, 1997, p.30), em seguida afirma-se que é preciso se esquivar do uso da literatura como “expedientes para servir ao ensino das boas maneiras, dos hábitos de higiene, dos deveres do cidadão, dos tópicos gramaticais, das receitas desgastadas do prazer do texto, etc.” (BRASIL, 1997, p.30), uma vez que: Postos de forma descontextualizada, tais procedimentos pouco ou nada contribuem para a formação de leitores capazes de reconhecer as sutilezas, as particularidades, os sentidos, a extensão e a profundidade das construções literárias. (BRASIL, 1997, p.30) Desta forma, os Parâmetros Curriculares Nacionais parecem sustentar uma concepção de ensino de Literatura que visa capacitar o aluno a reconhecer as sutilezas, as particularidades, os sentidos, a extensão e a profundidade das construções literárias, que talvez possa ser associada às críticas de Tzvetan Todorov, em A literatura em perigo (2010), quanto a um ensino de literatura que tem como objetivo primeiro o de nos fazer conhecer os instrumentos dos quais se servem [os escritores]. Ler poemas e romances não conduz à reflexão sobre a condição humana, sobre o indivíduo e a sociedade, o amor e o ódio, a alegria e o desespero mas sobre as noções críticas, tradicionais ou modernas. (TODOROV, 2010, p.26-27, grifo nosso) Nesse sentido, o ensino de literatura é entendido como um meio de compreender como ela é escrita, como ela dialoga com a vida humana e o quão 223 profunda é sua construção. O que leva Todorov a afirmar que “na escola, não aprendemos acerca do que falam as obras, mas sim do que falam os críticos.” (TODOROV, 2010, p.27), ou seja, essa concepção de ensino parece não tencionar provocar diálogos entre a subjetividade do aluno e a vida humana, mas apenas mostrar que isso ocorre, atribuindo ao professor a função de expor o valor da literatura aos alunos, por meio do conhecimento de suas técnicas, em vez de conduzi-los ao encontro de suas humanidades no texto literário para que se estabeleça, efetivamente, esse diálogo do qual apenas fala-se. Todorov ainda ressalta: Sendo objeto da literatura a própria condição humana, aquele que a lê e a compreende se tornará não um especialista em análise literária, mas um conhecedor do humano. Que melhor introdução à compreensão das paixões e dos comportamentos humanos do que uma imersão na obra dos grandes escritores que se dedicam a essa tarefa há milênios? (TODOROV, 2010, 9293) E acrescentamos: introduzir-se na compreensão das paixões e dos comportamentos humanosnão seria também uma forma de compreensão de si mesmo? Sobre este ponto, ainda nos deteremos mais à frente. As Diretrizes Curriculares para a Educação do Paraná (2008) trazem outras observações quanto ao ensino de literatura; considerando a Estética da Recepção e a Teoria do Efeito, em seus apontamentos o documento oficial confere destaque à proposta metodológica de Bordini e Aguiar, tendo como objetivos: efetuar leituras compreensivas e críticas; ser receptivo a novos textos e a leitura de outrem; questionar as leituras efetuadas em relação ao seu próprio horizonte cultural; transformar os próprios horizontes de expectativas, bem como os do professor, da escola, da comunidade familiar e social. (PARANÁ, 2008 p.74) Nessa esteira as DCE parecem buscar resgatar a leitura do texto literário e os diálogos incitados por ela no contexto escolar, reduzindo aquele destaque às técnicas e à análise e contemplação delas, atribuído pelos PCN, como vimos. A perspectiva apresentada pelas DCE aproxima-se de nossas concepções, no entanto acreditamos ser importante refletir mais profundamente sobre questões referentes ao lugar da literatura na formação humana e na manutenção do 224 equilíbrio psíquico e social da humanidade. Sobre esse aspecto, Antonio Candido afirma que: A literatura pode formar; mas não segundo a pedagogia oficial, que costuma vê-la ideologicamente como um veículo da tríade famosa, - o Verdadeiro, o Bom, o Belo [...] Longe de ser apêndice da instrução moral e cívica (esta apoteose matreira do óbvio, novamente em grande voga), ela age com o impacto indiscriminado da própria vida e educa como ela, - com altos e baixos, luzes e sombras (CANDIDO, 1999, p.84). A leitura literária, portanto, para além de uma atividade de lazer, entretenimento, ou de apreensão de conhecimento através de uma análise sistemática das técnicas de escrita, pode ser compreendida como um elemento fundamental na formação do indivíduo, no adensamento da sua condição humana, justamente pelo seu potencial de vivência das emoções mais fundamentais para a formação do sujeito. Quanto ao processo da leitura literária, podemos recorrer, neste ponto, às palavras de Vincent Jouve (2002), quando aponta que a expulsão da identificação, do emocional da experiência estética condena-a ao fracasso, uma vez que, para ele, “mais do que um modo de leitura peculiar, parece que o engajamento afetivo é de fato um componente essencial da leitura em geral” (JOUVE, 2002, p.20-21). Nesse sentido, existe, ainda nas palavras de Jouve, “um nível de leitura em que, por meio de certas 'cenas', o leitor reencontra uma imagem de seus próprios fantasmas”, e, nesse processo, “o que está em jogo (…) é a relação do indivíduo com ele mesmo, de seu eu com seu inconsciente” (JOUVE, 2002, p.52). Nessa compreensão é possível perceber então que, considerando as palavras de Roland Barthes (2004), em congruência com outros diversos olhares sobre o processo de leitura, quando aponta que ler extrapola o decodificar e compreender de textos, uma vez que o leitor: “não decodifica, ele sobrecodifica; não decifra, produz, amontoa linguagens, deixa-se infinita e incansavelmente atravessar por elas: ele é essa travessia” (BARTHES, 2004, p. 41), ao identificar-se no texto literário, ao ler-se na leitura, como trazem as palavras de Jouve, o leitor sobrecodifica-se, ou, retomando Antônio Candido (1995) e Tzvetan Todorov (2010), humaniza-se, dá forma aos sentimentos que experimenta, ressignifica as memórias e a própria narrativa de vida. 225 Dessa forma, o que estamos tentando esboçar é uma perspectiva que entende a leitura literária na escola como algo que vai muito além de estimular a posição crítica do aluno diante dos textos; o contato, sobretudo guiado, dialogado, com a literatura, pode fazer do leitor não apenas um sujeito crítico, mas também um sujeito criativo – sobre este ponto devemos nos ater em seguida. Todorov afirma que: Ao dar forma a um objeto, um acontecimento ou um caráter, o escritor não faz a imposição de uma tese, mas incita o leitor a formulá-la: em vez de impor, ele propõe, deixando, portanto, seu leitor livre ao mesmo tempo em que o incita a se tornar mais ativo. (TODOROV, 2010, p.78) Winnicott, após apontar correspondências entre o brincar criativo da criança e o ato criativo em si ao longo da vida, ressalta que: “É no brincar, e somente no brincar, que o indivíduo, criança ou adulto, pode ser criativo e utilizar sua personalidade integral: e é somente sendo criativo que o indivíduo descobre o eu (self).” (WINNICOTT, 1975, p.80, grifo nosso). Sendo assim, a literatura, ao incitar o leitor a formular suas próprias teses, impulsionando-o ao ato criativo, impulsiona-o também à descoberta contínua do Eu, intrínseca à necessária posição de narrador da própria história de vida, capaz de ressignificar suas memórias de si e do mundo. Ainda sobre a importância do impulso criativo, Winnicott aponta que “é possível estabelecer, e estabelecer utilmente, um vínculo entre o viver criativo e o viver propriamente dito.”, atentando para uma possível redução desse impulso, uma vez que, com essa redução “pode desaparecer o sentimento que o indivíduo tem de que a vida é real ou significativa (WINNICOTT, 1975, p.100-101). Nesse sentido, Winnicott (1975) vem ao encontro dos dizeres de Candido (1999) e Todorov (2010): a literatura, incitando o leitor a formular a sua 226 própria tese, a sobrecodificar o texto (BARTHES, 2004), a criar, torna-se essencial no processo de descoberta do eu de formação de sua humanidade. Zumthor (2007), acerca do conceito de performance, ao refletir sobre como o olhar do leitor/ouvinte de uma representação teatral é responsável por teatralizar essa representação, evoca o conceito de espaço transicional de Winnicott: A condição necessária à emergência de uma teatralidade performancial é a identificação, pelo espectador-ouvinte, de um outro espaço; a percepção de uma alteridade espacial marcando o texto. Isto implica alguma ruptura com o “real” ambiente, uma fissura pela qual, justamente, se introduz essa alteridade. (…) A situação performancial aparece então como uma operação cognitiva, e eu diria mais precisamente fantasmática. Ela é um ato performativo daquele que contempla e daquele que desempenha. Falaríamos nesse sentido de uma audição performativa. Essa situação performancial “[…] cria o espaço virtual do outro: o espaço transicional de que falava Winnicott. Isto é dizer que a teatralidade não tem manifestações físicas obrigatórias. Ela tem propriedades qualitativas que permitiriam demarcá-la de vez. Ela não é um dado empírico, ela é uma colocação em cena do sujeito, em relação ao mundo e a seu imaginário.” (FÉRAL apud ZUMTHOR, 2007, p.41-42, itálicos do autor, negritos nossos) Essa colocação em cena do sujeito faz referência a, ainda nas palavras de Zumthor: “um Dasein comportando coordenadas espaço-temporais e fisiopsíquicas concretas, uma ordem de valores encarnada em um corpo vivo” (ZUMTHOR, 2007, p.31). Diante dessas considerações, trazendo-as para o ensino de literatura, podemos compreender então que ser capaz de criar – preenchendo os vazios do texto no ato da leitura –, ou melhor, de recriar, sobrecodificar – o texto, o espaço, a memória –, identificando essa fissura no “real”, pela qual vislumbramos a alteridade, é, efetivamente, colocar-se em cena, ser. Portanto é estritamente necessário que se valorize a voz do aluno, não apenas no sentido de incentivá-lo a analisar o texto, a ser crítico diante dele, mas um passo à frente disso: estabelecer conexões, criar suas ideias, seus textos (ainda que não materializados graficamente), imprimir a sua subjetividade, a sua memória, a sua voz, naquilo que está sendo lido; nenhum texto é absolutamente novo, mas toda memória é, e é a partir da memória, do eu, do subjetivo, desse Dasein do qual Zumthor fala, que o aluno pode criar e, enfim, ser. 227 Feitas nossas observações acerca de nossas concepções de leitura, buscaremos, em seguida, observar dois textos apresentados como literários por um dos livros didáticos em análise pelo projeto de pesquisa da Universidade Estadual de Londrina, intentando perceber como se dá essa tendência de abordagem utilitarista a partir da qual visamos tecer nossas reflexões. A LITERATURA COMO TEXTO ÚTIL O primeiro texto em torno do qual traremos nossas observações tratase de um poema intitulado “A Escola”, cuja autoria é de Claudio Thebas. Nele é exposta a rotina diária das crianças na escola, brincadeiras que vivenciam e atividades comuns ao ambiente escolar, como podemos ver no trecho a seguir: Todo dia, na escola, a professora, o professor, a gente aprende, e brinca muito com desenho, tinta e cola. “A Escola” é abordado por orientações destinadas ao professor, que consistem, de modo geral, no enfoque de uma possível análise estrutural do texto, fazendo com que o aluno com base em seus conhecimentos, diferencie o gênero poemático de outro, pensando em elementos como “título”, “versos” e “rimas”. Além disso, o livro orienta o professor a chamar a atenção dos alunos para os nomes próprios que o texto apresenta, partindo, em especial, das letras iniciais dos substantivos. Nesse aspecto, podemos perceber um forte investimento num trabalho de alfabetização num sentido bastante restrito, partindo de nomes próprios (tendência de abertura da maioria dos livros em análise), no entanto não indo além do código e da estrutura. 228 A atividade destinada diretamente ao aluno propõe um exercício de caráter visual, em que a criança deve associar atividades presentes em sua rotina com as imagens que constituem o exercício. O conjunto do poema com as orientações e atividades ao aluno parece limitar-se a um caráter prático e superficial, a partir do momento em que não estabelece um diálogo com imaginário da criança. Neste ponto vale nos questionarmos se o próprio texto proposto deveria ser apresentado pelo livro didático como poesia, uma vez que não parece lidar com as especificidades do gênero poético, apenas apropriando-se da estrutura poemática e de rimas bastante simples. Dentro desse campo, o texto parece não possuir um caráter que possibilite uma leitura literária, pois não dá abertura suficiente, e não lida, então, com a subjetividade da criança e com sua relação de ser no mundo. Desta forma o poema parece surgir como um pretexto para se trabalhar os nomes próprios no início da alfabetização, ao mesmo tempo em que supostamente contribui para suprir a demanda por trabalhar-se o gênero poesia. Em geral, os textos vêm acompanhados de orientações que acabam restringindo a leitura do aluno, dando enfoque no conhecimento de técnicas, como no vocabulário ou em pretexto de alfabetização, trazendo, assim, textos que são mal explorados, que poderiam também tratar a literatura como campo passível de índice criativo. A leitura literária tem papel fundamental na formação do sujeitoleitor, que é aquele que pode se reportar ao imaginário, aquele que não apenas compreende e absorve, mas aquele que, com certo engajamento afeiçoado, cria e vive. De acordo com Barthes, “a leitura permite que a subjetividade desenvolva no aluno quota de humanidade na medida em que se torna mais compreensivo e aberto para a natureza, a sociedade e o semelhante” (CANDIDO, 1995, p. 249). E não apenas de forma exterior, mas como aludido anteriormente, a subjetividade quando em alcance da criança, se dá em processo criativo, que reflete, inclusive, em sua relação consigo mesma. Dentro de nossos registros aqui expostos, 229 sobre a problemática da subjetividade amparada muitas vezes por processos metodológicos, Caio Meira, no prefácio de A Literatura em Perigo se posiciona da seguinte forma: […] para que o próprio leitor não morra como leitor, a arte poética e ficcional deve ser apresentada em seu primeiro lugar em seu estranho poder imprevisto, encantador, emocionante, de forma a criar raízes profundas o suficiente para que nenhum corte analítico ou metodológico venha a podar sua presença criadora, para que nenhuma de suas partes essenciais seja amputada antes que ela aprenda a se mover e nos acompanhe pelos que sentidos que damos à vida à medida que vivemos.(MEIRA, 2010, p.12) Com o agrupamento do que foi proposto até agora, podemos nos direcionar a uma possível problematização. Seguindo certa superficialidade e praticidade, nesse utilitarismo que nos conduz a uma negação da subjetividade do aluno, como resultado empurramos-lhes a uma leitura não literária. E, como educadores, não nos deve ser possível fugir das palavras de Candido: negar a fruição da literatura é mutilar nossa humanidade (CANDIDO, 1995). O segundo texto que selecionamos nos pareceu bastante interessante para o ensino de leitura literária. Trata-se do poema Sobrenome, de José Paulo Paes: Sobrenome Como vocês sabem Frankenstein foi feito com pedaços de pessoas diferentes: a perna era de uma, o braço de outra a cabeça de uma terceira e assim por diante Além de o resultado ter sido um desastre houve um grave problema na hora em que Frankenstein foi tirar carteira de identidade. Como dar identidade 230 a quem era uma mistura de várias pessoas? A coisa só se revolveu quando alguém lembrou-se que num condomínio cada apartamento é de um dono diferente. Foi assim que Frankenstein Condomínio ganhou nome e sobrenome como toda gente. O poema aparece, no livro didático, seguido de orientações ao professor, sem questões diretas no livro do aluno. As primeiras orientações ao professor destacam que se deve atentar para a letra de imprensa comum, na qual o texto foi formatado, ou seja, começa-se observando a estrutura visual, não o texto em sua potencialidade significativa. Em seguida o professor é orientado a observar, com os alunos, a importância de se ter nome, sobrenome, certidão de nascimento e carteira de identidade, para garantir direitos como acesso à escola e serviços de saúde. Sobrenome lida com a questão da identidade, como dar sobrenome, ou seja, como descobrir quem é, alguém que é uma mistura de outras pessoas? Esse é um tema rico para se gerar reflexões que não são, de maneira alguma, tão distantes do universo infantil quanto se possa pensar. A título de exemplo, podemos imaginar que a criança que terá contato com esse texto no livro didático em análise, tem muitas chances de já ter ouvido a expressão “tem os olhos da mãe”, ou outras variações. Não seria esse um ponto interessante para se buscar na memória da criança e propor a ela a reflexão sobre a própria identidade? CONSIDERAÇÕES FINAIS Neste trabalho procuramos refletir sobre uma das tendências de abordagem de textos literários observadas no conjunto dos livros didáticos em análise pelo projeto de pesquisa Leitura literária no Ensino Fundamental – ciclo 1: concepções e práticas. 231 Por meio de dois exemplos de abordagem, buscamos destacar como essa tendência parece tentar encaixar a literatura em meio aos gêneros úteis, procurando, nela, uma utilidade ao mundo objetivo, prático, ignorando, ou reduzindo, a potencialidade (trans)formadora da leitura literária. Ao trazermos as considerações dos parâmetros e diretrizes curriculares nacionais e estaduais, tentamos observar uma correspondência entre as orientações dos documentos oficiais e a tendência de tratamento da literatura observada no livro didático. No decorrer das reflexões, pudemos nos deparar com a ideia de um leitor crítico, apresentada pelas orientações das secretarias de educação, que, sem dúvida, deve ser uma meta no ensino de leitura, no entanto, ao prosseguirmos com as palavras de Candido (1995; 1999) e Todorov (2010) compreendemos que o ensino de leitura literária pode levar o sujeito além da criticidade, a um ato, como vimos em Winnicott (1975; 2010), indispensável à vida: o criar. Ao analisarmos o primeiro exemplo de abordagem que apresentamos, pudemos perceber que, além de as orientações e questões que o livro apresenta levarem o aluno a apenas observar a vida prática, percebendo nomes e referências gráficas, alfabéticas, o próprio texto pareceu-nos não trazer grandes possibilidades de leitura e adensamento da condição humana. Já no segundo exemplo, ainda que o poema de José Paulo Paes apresente boas possibilidades de leitura profícua, as orientações ao professor detêm-se à estrutura visual do texto e a uma aplicação temática na vida prática, desvinculando-o completamente daquilo que o constitui como poesia. Tanto no primeiro como no segundo exemplos, vimos que a abordagem do livro didático não parece sequer chegar a contribuir para a formação de um leitor crítico, e menos ainda a de um leitor-autor, capaz de colocar-se em cena (ZUMTHOR, 2007), criar e criar-se a partir do texto. À frente de nossas reflexões em torno da tendência à utilitarização do texto literário, reafirmamos, apoiados em Cândido, Todorov e Winnicott, a imprescindibilidade de se considerar o texto literário em suas potencialidades de 232 formação humana e manutenção do equilíbrio psicossocial, contribuindo para a formação de um leitor crítico e criativo, um leitor-autor. 233 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BARTHES, Roland. O rumor da língua. Tradução de Mario Laranjeira. São Paulo: Martins Fontes, 2004. BRASIL. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros curriculares nacionais: língua portuguesa. Brasília: MEC/SEF, 1997. CANDIDO, Antonio. Vários escritos. São Paulo: Duas Cidades, 1995. ________. A literatura e a formação do homem. In: Remate de males. Departamento de Teoria Literária IEL/Unicamp, Número Especial Antonio Candido. Campinas, 1999. JOUVE, Vicent. A leitura. Tradução de Brigitte Hervot. São Paulo: Unesp, 2002. PARANÁ. Secretaria do Estado da Educação. Diretrizes Curriculares da Educação Básica: Língua Portuguesa. Curitiba: SEED, 2008 TODOROV, Tzvetan. A literatura em perigo. Tradução de Caio Meira. Rio de Janeiro: Difel, 2010. WINNICOTT, Donald Woods. O Brincar e a Realidade. Tradução de Jose Octávio de Aguiar Abreu e Vanede Nobre. Rio de Janeiro: Imago, 1975. ZUMTHOR, Paul. Performance, recepção, leitura. Trad. Jerusa Pires Ferreira e Suely Fenerich. São Paulo: Cosac Naify, 2.ed., 2007. 234