ATIVIDADES DE PRODUÇÃO TEXTUAL EM LIVROS DIDÁTICOS DE LÍNGUA PORTUGUESA DO ENSINO MÉDIO Rebeca Rannieli Alves Ribeiro (UEPB) [email protected] 1. Introdução Os gêneros sempre foram alvo de pesquisas, questionamentos e discordâncias entre teóricos que abordaram esse tema. Desde que a humanidade passou a existir, os gêneros permeiam a comunicação escrita, uma vez que se realizam no texto. Já na Antiguidade, na Grécia Clássica, Aristóteles dividiu os textos literários em três gêneros, que representavam as manifestações literárias da época, são eles: o gênero épico, o gênero lírico e o gênero dramático. Esta divisão do filósofo grego indica que, no início das abordagens, os gêneros correspondiam a categorias de literatura. Hoje, a noção de gênero ampliou-se e toda produção textual representa um gênero. O marco teórico sobre gêneros no ocidente foi os estudos de Bakhtin ([1979] 2000), em que ele apresenta, a partir da análise de um romance, noções teóricas sobre gêneros discursivos. Aquelas sempre norteiam as discussões sobre gêneros. Essas discussões representam duas noções de gênero, a discursiva e a textual, as quais serão abordadas no próximo item. A teoria dos gêneros, então, desperta em muitos pesquisadores o desejo de investigar, em diversos corpus, sobre a produção e os usos dos textos. No entanto, observa-se um interesse maior em pesquisar sobre a produção dos gêneros na escola, uma vez que esta se configura como a principal agência de letramento, sendo assim responsável por trabalhar a produção textual, especialmente, nas aulas de língua portuguesa. Para a condução destas aulas, a grande maioria dos professores utiliza apenas o livro didático (doravante LD) como sendo o único recurso didático e metodológico, por não dispor de outros recursos ou por só se sentirem “seguros” para lecionar se estiverem com um LD em mãos; além de ser o LD presença obrigatória em quase todas as salas de aulas brasileiras. Sendo desta forma o LD um protagonista ou coadjuvante (quando o professor assume o seu papel) no processo de ensino e de aprendizagem, torna-se importante verificar como estão sendo trabalhadas as propostas de produção textual nos LDs, uma vez que os documentos oficiais, como os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) e as Orientações Curriculares para o Ensino Médio (OCEM), também orientam um ensino pautado na produção dos gêneros. Nos anos de 2009, 2010 e 2011, algumas escolas do cariri paraibano adotaram os três volumes do LD Português: língua, literatura e produção de texto1, para as aulas do Ensino Médio. Sendo, pois, o item que trata da produção de texto o corpus da presente pesquisa, uma vez que fora observada, em algumas propostas deste material didático, a indistinção entre gêneros e tipos textuais. Mediante este cenário, os objetivos desta pesquisa centram-se em analisar as propostas de produção textual dos LDs de língua portuguesa do Ensino Médio, os quais são adotados em escolas da rede pública do cariri paraibano; a fim de verificar a teoria sobre gêneros e tipos textuais apresentada nestes LDs e quais gêneros são solicitados. Para o desenvolvimento da análise, a metodologia utilizada centrou-se em 1 ABAURRE, Maria Luiza; PONTARA, Marcela Nogueira; FADEL, Tatiana. Português: língua, literatura e produção de texto. 1. ed. Volumes. 1, 2, 3. São Paulo: Editora Moderna, 2005. catalogar as propostas, numa perspectiva quantitativa, para em seguida avaliá-las qualitativamente. Os critérios de análise foram estabelecidos, portanto, a partir de uma comparação entre o que o livro didático apresenta de teoria sobre gêneros e tipos textuais e o que os enunciados de produção textual solicitam. 2. A teoria dos gêneros A depender da corrente teórica que se segue, tem-se apresentado teorias sobre os gêneros denominando-os como discursivos ou textuais. Sendo assim, os próximos dois subitens apresentam noções teóricas sobre cada uma dessas perspectivas, definindo qual seria mais adequada para o presente trabalho. 2. 1. Sobre os gêneros discursivos Desde que Bakhtin iniciou os estudos sobre os gêneros, muitas são as pesquisas que abordam esse tema e muitos são os pesquisadores que buscam nesses estudos embasamento teórico. A obra Estética da Criação Verbal ([1979]2000) apresenta uma abordagem a respeito dos gêneros discursos os quais receberam esse nome por questão de tradução, mas são assim conhecidos os gêneros estudados por Bakhtin. Todas as atividades humanas são mediadas por algum tipo comunicação que utiliza a língua em suas mais variadas formas de interação. Os modos de utilização da língua são tão variados assim como são as atividades humanas, ou seja, cada atividade possui uma realização específica da língua. Essa realização específica da língua, de acordo com Bakhtin ([1979]2000), efetua-se por meio de enunciados (orais e escritos), concretos e únicos, que são formulados pelos integrantes de cada esfera da atividade humana. O enunciado reflete as especificidades e intenções de cada uma dessas esferas, por meio de três elementos: o conteúdo (temático), o estilo verbal e a construção composicional. Esses três elementos, além de construírem o todo enunciativo, indicam especificidades de cada enunciado produzido em dada situação. Estas especificidades constroem enunciados relativamente estáveis que se repetem sempre que usados em atividades humanas semelhantes. Bakhtin ([1979]2000, p.279) define que “qualquer enunciado considerado isoladamente é, claro, individual, mas cada esfera de utilização da língua elabora seus tipos relativamente estáveis de enunciados, sendo isso que denominamos de gêneros de discurso2”. Rodrigues (2005), discorrendo sobre a noção bakhtiniana de gêneros, diz que Os gêneros, com seus propósitos discursivos, não são indiferentes às características da sua esfera, ou melhor, eles as ‘mostram’. Todo gênero tem um conteúdo temático determinado: seu objeto discursivo e finalidade discursiva, sua orientação de sentido específica para com ele e os outros participantes da interação [...] Os próprios gêneros ‘modulam’ a maior ou menor possibilidade de tratamento exaustivo do objeto e do sentido na interação. (p.167) Os gêneros de discurso são infinitamente variados, uma vez que as atividades humanas também são infinitas. Deste modo, uma série de gêneros do discurso são 2 Grifos do autor. produzidos em cada esfera da atividade humana, com isso surge uma imensa heterogeneidade destes gêneros, no âmbito do oral e escrito. A título de exemplo, tem-se a curta réplica, o relato familiar, a carta, os documentos militares, as variadas formas de exposição científica, todos os modos literários. Devido à imensa heterogeneidade, Bakhtin diferencia os gêneros em primários e secundários. Estes últimos aparecem em situações que envolvem um certo grau de complexidade, principalmente as que são mediadas pela escrita, por exemplo, as científicas, ideológicas, sociopolíticas, culturais, etc. Enquanto que os gêneros primários compreendem uma realidade mais imediata; normalmente compõem enunciados mais “simples”, como os usados no cotidiano, em uma comunicação verbal espontânea, por exemplo, a conversa familiar. Sendo que muitos outros gêneros surgem com a hibridização dos gêneros primários e secundários. Furlanetto (2005) apresenta a visão teórica de Dominique Maingueneau sobre os gêneros discursivos. Não muito diferente da noção divulgada por Bakhtin, Maingueneau estuda os gêneros inseridos em situações sociais concretas e apresenta o termo competência comunicativa que compreende o domínio que os membros da sociedade devem possuir dos gêneros. No entanto, isso não significa o conhecimento de todos os gêneros, uma vez que, em muitos casos, precisa-se de uma formação especifica para dominar determinar gênero. Porém isso não isenta os indivíduos, segundo o teórico, de conhecerem como certos gêneros são produzidos, principalmente aqueles que fazem parte de seu cotidiano. Como dito anteriormente, discussões teóricas apresentam duas noções de gêneros, a discursiva e a textual. Diante disso, Rojo (2005) se propôs a analisar essas duas noções, e questiona se ambas podem ser consideradas como sinônimas e se não, quais as diferenças entre elas. Em seu artigo, a autora se fundamenta, principalmente, na teoria dos gêneros de discurso de Bakhtin, e chega a conclusão de que essas noções trabalham com objetos diferentes. Rojo (2005) afirma que a noção teórica de gêneros textuais se preocupa com a descrição mais propriamente textual e com a materialidade linguística do texto, não sobrando espaço para abordar a significação. Enquanto que a noção teórica de gêneros discursivos se preocupa em analisar enunciações em situações concretas de comunicação. Segundo esta autora aqueles que adotam a perspectiva dos gêneros do discurso partirão sempre de uma análise em detalhe dos aspectos sócio-históricos da situação enunciativa, privilegiando, sobretudo, a vontade enunciativa do locutor [...] e, a partir desta análise, buscarão as marcas lingüísticas (formas do texto/ enunciado e da língua – composição e estilo) que refletem, no enunciado/texto, esses aspectos da situação. (p.199) Visto que os professores tendem a fazer, em suas aulas, exaustivas análises estruturais, Rojo (2005) defende que a noção teórica sobre gêneros discursivos é a que deve ser adotada no ensino de língua portuguesa, uma vez que parece ser mais útil e necessário explorar com eles as características das situações de enunciação – relacionadas às marcas lingüísticas que deixam como traços nos textos – que fazermos análises completas e exaustivas dos textos, introduzindo uma nova metalinguagem. (p. 207) Os documentos oficiais orientam o trabalho com os gêneros discursivos em sala de aula, nas OCEM (2006), por exemplo, ressalta-se que “a ênfase que tem sido dada ao trabalho com as múltiplas linguagens e com os gêneros discursivos merece ser compreendida como uma tentativa de não fragmentar, no processo de formação do aluno, as diferentes dimensões implicadas na produção de sentidos” (p. 28). Isto porque o ensino de língua portuguesa, muitas vezes, é dividido em língua, literatura e produção de textos, assim como o fazem os LDs. 2. 2. Sobre os gêneros textuais A escrita na concepção interacionista sócio-discursiva (doravante ISD) perpassa às teorias dos gêneros e letramentos, não sendo possível desarraigar estas três abordagens teóricas – concepção ISD, gêneros e letramentos –, visto que representam perspectivas de ações sociais, pois o letramento requer práticas sociais de escrita que se configuram nos gêneros. As práticas sociais, que são formas culturais pelos quais os indivíduos organizam, administram e realizam suas ações, mudam de acordo com o evento em que estão inseridas. Isto ocorre, por exemplo, quando os sujeitos estão em contato com as diversas possibilidades de interação presente no cotidiano como a ministração de uma aula, uma sessão jurídica, uma conversa informal, a exposição de um relatório. Segundo Xavier (2005) As práticas sociais e os eventos em geral (não só os de letramento) são mediados e efetivados por gêneros orais, escritos e, agora também, os digitais. Esses assumem um caráter essencial dentro das atividades específicas de letramento, já que estudar os tipos de letramento é uma parte do estudo dos gêneros de texto, para se saber como eles são produzidos, utilizados e adaptados a cada situação vivida pelo indivíduo pertencente a uma dada comunidade que está em processo constante de interação entre seus membros. (p.6) De acordo com o autor, as práticas sociais e os eventos em geral são mediados pelos gêneros. Então, saber usar adequadamente os gêneros quando se vivencia um evento é importante para que se tenha um bom desempenho no campo em que se está atuando, seja ele cultural, econômico, político, empregatício, escolar, de entretenimento. Quando em determinadas situações se recorre a textos típicos e padronizados àquele momento, fica mais fácil a interação, uma vez que está se usando um texto familiar ao momento, e as pessoas envolvidas no evento compreendem facilmente o que está se dizendo e o que se pretende realizar. Deste modo, podem-se antecipar as reações das pessoas se seguir essas formas padronizadas e reconhecíveis. “As formas de comunicação reconhecíveis e auto-reforçadoras emergem como gêneros”, de acordo com Bazerman (2005, p.29). Os meios de comunicação quando são criados geram novas necessidades para o seu uso, assim ocorreu com o advento da escrita. Segundo Marcuschi (2005): todas as tecnologias comunicacionais novas geram ambientes e meios novos. Assim, foi a invenção da escrita que gerou um sem-números de ambientes e necessidades para seu uso, desde a placa de barro, passando pelo pergaminho, o papel, até a invenção da imprensa com os tipos móveis. (p.26) Esses ambientes abrigam os gêneros textuais, que “são fenômenos históricos, profundamente vinculados à vida cultural e social” (MARCUSCHI, 2002, p. 19). São eles: as cartas, os telegramas, as receitas culinárias, as leis, os anúncios, os folhetos, os artigos científicos. Ainda, de acordo com Marcuschi (2002, p. 19): “os gêneros contribuem para ordenar e estabilizar as atividades comunicativas do dia-a-dia. São entidades sóciodiscursivas e formas de ação social incontornáveis em qualquer situação comunicativa”. Os gêneros traduzem as necessidade e ações humanas, no âmbito linguístico, oral e escrito, exercendo funções comunicativas, cognitivas e institucionais. Deste modo, “caracterizam-se como eventos textuais altamente maleáveis, dinâmicos e plásticos” (MARCUSCHI, 2002, p. 16). Marcuschi (2005, p. 27) também ressalta o fato de um gênero textual ser composto por uma heterogeneidade tipológica e justifica isso dizendo que “entre as características básicas dos tipos textuais está o fato de eles serem definidos por seus traços lingüísticos predominantes”. A história mostra que os gêneros surgem de acordo com as necessidades e atividades sócio-culturais. No período em que a oralidade predominava, eles eram mínimos. Com o alfabeto, surgem os gêneros típicos da escrita. Com o advento da cultura impressa, ocorre a expansão dos gêneros, pois com a industrialização é possível a publicação em massa de textos, como os jornais e os livros. Desde então, os gêneros não pararam de se multiplicar. Os gêneros constituem atividades mais amplas do que a relação interpessoal, envolvendo um número maior de atividades e sujeitos. Para caracterizar como os gêneros se configuram e se enquadram em organizações, são propostos vários conceitos que se sobrepõem. O primeiro conceito corresponde ao conjunto de gêneros que é a coleção de tipos de textos que uma pessoa num determinado papel tende a produzir; o segundo, sistema de gêneros, compreende os diversos conjuntos de gêneros utilizados por pessoas que trabalham juntas de uma forma organizada; e o terceiro, sistema de atividades que compreende sistema de gêneros, observa as realizações das pessoas e como os textos as ajudam a executarem suas atividades (BAZERMAN, 2005). Sobre o termo gênero, Bronckart (1999) tece algumas considerações sobre a noção apresentada por Bakhtin e afirma serem sinônimos os termos gêneros do texto e gêneros do discurso. Para o teórico, a terminologia bakhtiniana é muito oscilante, devido à evolução interna de sua obra e a problemas de tradução, na maioria das vezes os gêneros são considerados como gêneros do discurso, mas também pode ser lido o termo gênero do texto. Bronckart (1999) propõe a seguinte equivalência para os termos: os gêneros do discurso, gêneros do texto e/ou formas estáveis de enunciados de Bakhtin podem ser chamados de gêneros de textos; os enunciados, enunciações e/ou textos bakhtinianos podem ser chamados de textos, quando se trata de produções verbais acabadas, associadas a uma mesma e única ação de linguagem ou de enunciados, quando se trata de segmentos de produções verbais do nível da frase.3 (p.143) Marcuschi (2006) também considera equivalentes os termos gêneros textuais e gêneros discursivos. Para o linguista, muitos têm sido os esforços para categorizar a noção de gênero e as suas classificações, mas hoje já se sabe que estas classificações são 3 Grifos do autor. falhas e não aparece mais prioritário classificar e sim determinar os critérios da categoria gênero textual ou gênero discursivo. Marcuschi (2006) escreve O certo é que as dimensões geralmente adotadas para a identificação e análise dos gêneros são sócio-comunicativas e referem-se à função e organização, ao conteúdo e meio de circulação, aos atores sociais envolvidos e atividades discursivas implicadas, ao enquadre sócio-histórico e atos retóricos praticados e assim por diante. (p. 26) Percebe-se então que esses teóricos consideram sinônimos os termos gênero do texto e gênero do discurso, sendo que o uso de qualquer um desses termos não mudaria o olhar sobre o objeto a ser analisado, pois os pressupostos para identificação e análise dos gêneros são da ordem sócio-comunicativa. Mediante a oscilação da terminologia de gênero, e considerando os dados em questão, adota-se como termo o gênero textual, por considerar que este abriga as formas estáveis de enunciados presentes nas práticas e eventos sociais, sem desconsiderar, é claro, a importância dada às discussões sobre a perspectiva discursiva. Em relação ao processo de ensino e aprendizagem, os estudos sobre gêneros contribuem significativamente para que se perceba o ambiente de sala de aula como o local adequado para as discussões e aprendizado sobre aquilo que acontece na sociedade. Defende-se, então, que as aulas de Língua, aliadas ao estudo dos gêneros textuais ou discursivos, podem viabilizar processos de socialização e de sociabilidade de indivíduos, contribuindo para a formação de sujeitos reflexivos e conscientes de suas ações. 3. A produção textual nos livros didáticos Os três volumes analisados da coleção para o Ensino Médio – Português: língua, literatura e produção de texto – priorizam em seus capítulos as noções teóricas sobre tipologia textual, podendo isto ser observado a partir dos seus títulos, a saber, “o texto”, “procedimentos de leitura” e “a narrativa” (Vol. 1); “a exposição”, “a elaboração da dissertação” e “argumentação e persuasão” (Vol. 2); “a articulação textual”, “o texto persuasivo” e “dissertação: revisão geral” (Vol. 3). Em cada um desses volumes, os gêneros textuais são abordados por meio de charges, tirinhas, propagandas, mas sem nenhum aprofundamento, quer seja teórico quer seja na produção de texto. O volume 1 apresenta noções de texto e textualidade, e 08 (oito) propostas de produção de texto. No entanto, o seu foco está em apresentar a narração, sem dar muita importância aos gêneros que apresentam esta tipologia, sendo trabalhada apenas a crônica. Gênero este mais complexo de ser elaborado se comparado a um relato ou notícia. O volume 2 apresenta 12 (doze) propostas de produção de texto, sendo o seu conteúdo referente ao texto expositivo, com destaque para o texto instrucional; ao texto descritivo e ao dissertativo, no qual há ênfase na argumentação e persuasão. O volume 3, por sua vez, apresenta 10 (dez) propostas de produção de texto, detendo-se estas apenas ao texto dissertativo. No capítulo sobre “o texto persuasivo”, trabalha-se com o texto publicitário e a carta argumentativa, sendo solicitada a produção desta por três vezes. Percebe-se, portanto, nestes LDs uma abordagem sobre os gêneros, porém uma preferência pela noção de tipologia textual, a qual fica evidente a partir das propostas de produção textual apresentadas resumidamente logo acima. A título de aprofundamento da análise, selecionou-se o volume 2 por este apresentar uma incoerência com relação ao texto dissertativo, ora apresentado-o como gênero ora como tipo. O fragmento abaixo transcrito do LD em análise apresenta a definição teórica sobre dissertação: [...] Os usos sociais da linguagem vão sendo alterados nas sociedades complexas. Em lugar e apenas contar histórias, relatar acontecimentos importantes, os seres humanos passaram a sentir a necessidade de, em determinadas circunstâncias, falar de modo a convencer seus companheiros. Em outras ocasiões era preciso explicar algo, ensinar um procedimento ou uma técnica nova. A estrutura narrativa não se mostrava a mais eficiente para desempenhar tais funções [...] Na escrita, o gênero textual correspondente a essa maneira de olhar e enfrentar de modo mais objetivo e direto determinadas questões é o dissertativo4. (p. 206) Fragmento 1 – Definição do gênero dissertativo Nesta definição fica clara a noção de que o texto dissertativo seria um gênero textual, apesar de alguns autores o considerarem como tipologia, assim como também a preferência por esta perspectiva de gênero a qual contraria a orientação dos PCNs para trabalhar com os gêneros discursivos. No entanto, uma proposta de produção textual solicitada 14 páginas após esta definição contradiz o que fora apresentado: [...] Com base na leitura da charge, do artigo da Constituição, do depoimento de A.J. e do trecho do livro O cidadão de papel, redija um texto em prosa, do tipo dissertativoargumentativo, sobre o tema: Direitos da criança e do adolescente: como enfrentar esse desafio nacional? Ao desenvolver o tema proposto, procure utilizar os conhecimentos adquiridos e as reflexões feitas ao longo e sua formação. Selecione, organize e relacione argumentos, fatos e opiniões para defender o seu ponto de vista, elaborando propostas para a solução do problema discutindo em seu texto5. (p.220) Fragmento 2 – Proposta de produção de textual: tipo dissertativo-argumentativo Após a definição de gênero dissertativo, observa-se a solicitação de um tipo dissertativo-argumentativo, o que se configura numa contradição teórica que vai de encontro ao que os documentos oficiais e os estudos sobre a teoria dos gêneros apregoam, que todo texto se realiza por meio dos gêneros, que os sujeitos produzem e se comunicam por meio dos gêneros, não de tipos textuais. Por outro lado, pode-se pensar que definir dissertação como gênero ou como tipo textual não tem muita importância, que o importante é produzir um texto coerente, mas se assim o for não seria preciso discorrer e investigar sobre os gêneros. Ou seria simplesmente rever a forma como está elaborado este enunciado da proposta de produção textual (Cf. Frag. 2), excluindo qualquer dubiedade teórica. Uma outra proposta de produção textual solicita a elaboração de gênero dissertativo. Veja: [...] Como se observa nos textos apresentados, a oposição entre verdade e mentira 4 5 Grifo do autor. Trecho extraído do Volume 2, página 206. Grifo do autor. Trecho extraído do Volume 2, página 220. tem sido um dos temas mais discutidos em todos os tempos e constitui uma das maiores preocupações da humanidade. Partindo da leitura dos textos e considerando sua formação religiosa, familiar e escolar, bem como a sua personalidade e suas projeções para a futura vida particular e profissional, faça uma redação de gênero dissertativo sobre o tema: A verdade ou a mentira: uma questão de convivência?6 (p. 228) Fragmento 3 – Proposta de produção de textual: gênero dissertativo No fragmento acima, observa-se uma proposta de produção textual semelhante a que está representada no Frag. 2, por utilizar-se de textos para contextualizar o tema indicado, assim como por estimular o uso dos conhecimentos de mundo que o aluno detenha. A única diferença está ao propor a produção de um gênero dissertativo. Tal proposta leva a outra reflexão, a saber, aquela concorda com a teoria apresentada no próprio LD e com as diretrizes curriculares, apenas por usar em seu enunciado o termo “gênero”, porque não há o desenvolvimento de um projeto ou de uma sequência didática que aborde este gênero. Além disso, percebe-se nos Volumes 2 e 3 a solicitação de aproximadamente 20 propostas de produção de dissertação, as quais variam a terminologia entre tipos e gêneros. A partir da análise destas propostas não é possível depreender o efeito causado nos alunos, se estes percebem a diferença entre os enunciados, se têm consciência do que seja produção de um gênero textual, se apesar das incoerências entre teoria e enunciados de propostas de produção textual os textos elaborados pelos alunos cumprem o papel comunicativo. No entanto, independente de qualquer um desses resultados, não se pode compreender um LD atual (2005) que priorize o ensino dos tipos em detrimento dos gêneros textuais e que apresente, em um único volume, uma duplicidade terminológica. 4. Considerações finais Os LDs que foram analisados representam uma realidade atual e recorrente nas salas de aulas brasileiras, especialmente nas aulas de língua portuguesa/produção textual/redação, em que, independente de como se intitulam, permanecem pautadas no ensino da tipologia textual ou da estrutura dos gêneros, sem a preocupação de desenvolver nos alunos a capacidade de comunicação clara, coerente, objetiva e consciente. Além de se verificar os livros didáticos, precisa-se rever a formação de muitos professores que saem da academia sem dominar, eles próprios, a produção de gêneros escolares e acadêmicos, gerando assim um círculo vicioso entre aluno-professor-aluno. O professor consciente dos princípios que regem o ensino de língua portuguesa poderá, aos poucos, mudar essa realidade, inclusive a dos materiais didáticos que dispõe. 5. Referências ABAURRE, Maria Luiza; PONTARA, Marcela Nogueira; FADEL, Tatiana. Português: língua, literatura e produção de texto. 1. ed. 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