OS DISCURSOS SOBRE O BAIRRO SÃO PEDRO NOS TRÊS
PRINCIPAIS JORNAIS IMPRESSOS DE CHAPECÓ
SÉKULA, Ricardo José. Acadêmico do curso de Jornalismo da Unochapecó, SC.
Dentro de uma perspectiva formada a partir do senso comum, a imagem do
bairro São Pedro, em Chapecó, está intimamente ligada a elementos representativos de
negatividade, como a violência, a fome e a miséria. Tal status possui procedência a partir
do próprio processo de formação do bairro, entre as décadas de 60 e 70. Nesse período
Chapecó vivia um fortalecimento em seu setor industrial, o que ocasionou um crescimento
populacional e uma conseqüente necessidade de reformulação do espaço urbano municipal.
A estetização de uma Chapecó moderna e progressiva tendia a maquiar,
esconder todos os aspectos que traíssem essa imagem bem sucedida. A pobreza e a miséria
delatavam as desigualdades sociais e revelavam que o progresso apresentava ritmos
diferentes. Assim, o surgimento do Bairro São Pedro representa o interesse do poder
público, econômico e religioso local em ordenar, disciplinar a pobreza da cidade. A parcela
da população que estivesse em dissonância com o ritmo desse progresso era encaminhada
para o loteamento São Roque, posteriormente chamado por seus moradores de São Pedro.
Com isso, o processo histórico de dominação e de exclusão acabou por oferecer
aos moradores de Chapecó uma representação do São Pedro como um local de pobreza e de
violência, cuja população é composta de ladrões, assassinos, drogados e outros. Isso fica
claro a partir da fala de Natalício Lemes, morador do bairro São Pedro há 27 anos:
Mas o bairro São Pedro, porque foi um bairro que foi vasculado moradores de
caçamba, carregado em caçamba e vasculado ali, ele surgiu uma imagem de um
bairro tão pobre e tão violento, mas não era assim. Não é verdade o que dizem. A
gente não pode nem falar, nem dizer que não é verdade. Quem é a gente pra ir
discutir lá no... a gente é muito pequeno pra isso né. Pra contar quem era o bairro
São Pedro.(...) E assim, com essa imagem, nós fiquemo desvalorizado num termo
em geral.
Os meios de comunicação são, muitas e muitas vezes, o campo no qual os
diferentes grupos irão expor as suas visões acerca de si mesmos e dos outros. Eles possuem
assim a capacidade de estabelecer um diálogo entre os mais variados grupos sociais. No
caso desse trabalho, o que se apresenta é um estudo sobre como os três principais jornais
impressos diários de Chapecó (Diário da Manhã, Diário do Iguaçu e Sul Brasil) abordam o
bairro São Pedro, que ainda hoje carrega o estigma da pobreza e da violência, durante o ano
de 2004. Isso porque, além desses jornais serem uma das principais maneiras que os
chapecoenses têm de tomar conhecimento dos fatos que envolvem o bairro, funcionam
como um importante canal através do qual a imagem existente sobre o São Pedro pode ser
alterada ou reforçada.
O QUE É NOTÍCIA E PORQUE OS FATOS VIRAM NOTÍCIA
Existem várias definições sobre o que é a notícia e, principalmente, sobre qual é
seu verdadeiro papel diante da sociedade. Dizer que notícia é apenas um fato novo, ou
como define Turner Catledge, “algo que não se sabia ontem” (apud, LAGE, 2001, p. 53) é
simplificar em demasia sua complexidade e minimizar a importância que a mesma tem na
construção do mundo do qual está inserida e interfere diretamente. Do mesmo modo que a
proposição de Cummings, na qual o cachorro morder o homem não é notícia, mas o homem
morder o cachorro é (apud LAGE, 2001, p. 53), já não basta para explicar o que é e o que
não é notícia, tampouco oferece a possibilidade de entender como as notícias interferem na
vida, no dia-a-dia das pessoas.
Na tentativa de encontrar uma definição para notícia Lage (2001, p.49) expõe
que, “no sentido mais amplo e desde o tempo mais antigo, tem sido o modo corrente de
transmissão da experiência – isto é, a articulação simbólica que transporta a consciência do
fato a quem não o presenciou”. Tendo isso em mente podemos dizer que a notícia faz uma
ligação direta da natureza dos acontecimentos os quais retrata com os receptores aos quais
informa. Sendo assim, antes mesmo de pensar a notícia existe uma necessidade de pensar o
acontecimento do qual ela se usa e que a justifica enquanto ao fato de ser notícia. Segundo
Oliveira da Silva,
Há uma dificuldade muito grande para se chegar a uma concepção do que seja
fato jornalístico. E isto porque a sua substância ou ‘essência’ está ligada e
relacionada com a do leitor... este mesmo leitor carrega consigo diferenças
sociais, econômicas, políticas e até geográficas, ficando quase impossível
encontrar uma definição satisfatória de fato jornalístico. (OLIVEIRA DA
SILVA, 1998, p. 13)
Essa complexidade em se definir o que é o fato jornalístico, ou quais
acontecimentos merecem virar notícia, é o que dificulta também a construção de um
conceito único do que venha a ser notícia. O que existe, na verdade, são discussões sobre o
assunto. Nenhuma delas, porém, o encerra ou lhe oferece um sentido em caráter definitivo.
Essa constatação se fortalece ainda mais quando levamos em consideração que nenhum
acontecimento é um fato isolado, mas sim resultado de um contexto no qual estão
envolvidos fatores das mais diversas naturezas. Esse pensamento é fundamental para a
análise dos acontecimentos do bairro São Pedro foram retratados nos três principais jornais
impressos de Chapecó no ano de 2004, principalmente no que diz respeito à abordagem dos
mesmos, pois o simples fato de terem virado notícia lhes confere uma importância que até
então não lhes era dada. E o que vai determinar isso são justamente uma série de
referenciais históricos, sociais, culturais e também circunstanciais.
Um fato vira notícia, portanto, devido a uma série de fatores, que vão desde as
condições nas quais deu-se o acontecimento, passando pela maneira com que o mesmo foi
apurado e indo até a forma com que foi recebido pelo receptor final. É preciso ter em mente
que, antes de mais nada, milhares de coisas acontecem diariamente. Porém, somente alguns
deles serão eleitos para ganharem o status de notícia e serem transmitidos através dos meios
de comunicação, ganhando uma importância momentânea que irá contribuir para a
“construção de um mundo possível”. (ALSINA, in PEREIRA Jr., 2001, p. 67)
Sendo assim, as notícias sobre o São Pedro, enquanto mensagens repassadas ao
público interferem diretamente na compreensão e na transformação da própria realidade do
bairro. Segundo Sousa (2002. p.121), os meios jornalísticos, ao mesmo tempo em que
tornaram a “sociedade tendencialmente mais conhecida e reconhecível por ela própria,
contribuíram, desde que apareceram, para a ocorrência de modificações sociais profundas.”
As relações estabelecidas dentro desse convívio, portanto, passam a ser diretamente
influenciadas pelas formas de comunicação que ocorrem dentro do mesmo. Tal aspecto
abre procedência para que a estrutura social seja constantemente recriada, e nesse processo
a notícia, a informação, é fundamental, pois aparece como a voz oficial e legítima da
sociedade e do que acontece nela.
Quando ignora o caráter social de seu trabalho, o jornalismo acaba por
estabelecer uma espécie de funcionalismo comunicacional, no qual a notícia aparece com
um papel pré-definido e já formatada: o de levar até às pessoas uma democracia apoiada
nas regras de mercado, a qual não possui o conhecimento necessário para que as pessoas
formem um senso crítico e tenham elementos suficientes para transformarem o mundo a
sua volta. Nesse sentido, segundo Park (in PEREIRA Jr., 2001, p. 65), a função da notícia
seria a de “orientar o homem e a sociedade num mundo real”, e não apenas informar. Na
medida em que conseguisse cumprir tal objetivo contribuiria para “preservar a sanidade do
indivíduo e a permanência da sociedade”.
REPRESENTAÇÕES: OS DISCURSOS SOBRE O SÃO PEDRO
Ao refletir sobre os discursos jornalísticos sobre o São Pedro estamos colhendo
indícios que permitem desenhar um mapa social do próprio bairro. Conforme Gomes (2000,
p. 21), “o jornalismo vai fazendo o desenho do espaço social, uma vez compreendido que
esse desenho, o traçado desse espaço, é a afirmação/confirmação do próprio espaço”. Esse
desenho, por sua vez, apresentará uma hierarquia, definida a partir da ordem de importância
dada a partir da escolha e priorização dos aspectos escolhidos.
É na tentativa de decifrar, decodificar esse mapa que se propõe a analise das
notícias a cerca do bairro São Pedro. Tendo em vista que os objetos de estudo são os textos
produzidos pelos três principais jornais impressos de Chapecó, destacamos Foucault
(1997), para quem as palavras não são neutras e os discursos são produzidos, pensados e
comunicados constituindo um sistema de pensamento e produzindo um tipo de
conhecimento que atribui sentido e explica a realidade em questão.
A análise se guiará pela análise de discurso, para a qual, segundo Orlandi
(2003, p. 21), a comunicação não dispõe de uma linearidade em seus elementos nem a
língua é apenas um código entre outros, não havendo “essa separação entre emissor e
receptor”. Eles não operam numa seqüência onde antes um fala e depois o outro escuta,
mas numa relação onde ambos “estão realizando ao mesmo tempo os processos de
significação e não estão separados de forma estanque”.
O primeiro passo para a realização da pesquisa foi a decupagem das notícias
sobre o bairro São Pedro nos jornais Diário da Manhã, Diário do Iguaçu e Sul Brasil no ano
de 2004. Devido ao grande universo pesquisado, e principalmente ao fato de que a proposta
aqui não é analisar a quantidade de notícias sobre o São Pedro, mas sim os discursos que as
mesmas trazem sobre o bairro, foram selecionados os exemplos julgados mais
significativos para o trabalho.
Das notícias encontradas sobre o bairro São Pedro no ano de 2004 nos três
principais jornais impressos de Chapecó (total de 51 notícias), 49% (25 notícias) estavam
no jornal Diário do Iguaçu. Desse percentual, 92% (23 notícias) estavam na editoria de
Polícia do jornal. O Sul Brasil apresentou 33,3% (17 notícias) do montante final de notícias
que citaram o bairro São Pedro em 2004, as quais 70,6% (12 notícias) encontravam-se nas
páginas policiais. Por fim, o Diário da Manhã ficou com 17,7% (09 notícias), das quais
44,5% (04 notícias) estavam na editoria Geral, espaço no qual o jornal publica as notícias
relacionadas a polícia. No Diário do Iguaçu apenas 01 notícia (4% do total de notícias
encontradas no jornal) estava na editoria Geral, e no Sul Brasil, esse número era de 02
notícias (11,76%).
O fato da grande maioria das notícias encontradas sobre o bairro estarem nas
páginas policiais dos jornais é aqui percebido como um recorte previamente feito, que irá
interferir na interpretação da notícia e da informação nela contida. Isso porque não existe,
dentro dessa proposta de trabalho, como extrair essas notícias do contexto no qual se
encontram e se apresentam ao público. Assim, a primeira reflexão proposta aqui diz
respeito à própria polícia, e aos significados que essa palavra denota dentro da sociedade
atual.
Num primeiro momento, a palavra polícia, ou a imagem a que nos remete a
palavra polícia, aparece como o símbolo da lei e da ordem. Pelo menos espera-se que a
polícia, ao desempenhar seu papel, ofereça à população o bem da segurança. Sendo assim, a
polícia também estaria diretamente ligada a elementos representativos de negatividade,
como crimes, violência, armas, drogas, tráfico, assassinatos, etc., uma vez que, em sua
função primária, deveria evitar tais acontecimentos, tidos pela sociedade como males.
Contudo, existe atualmente uma representação de polícia que oferece outros
significados à palavra. A violência institucionalizada, abrangendo crimes cometidos pelos
próprios policiais, dos quais a chacina da Candelária é um dos exemplos mais
representativos, ou mesmo o envolvimento da polícia com o tráfico de drogas, acabaram
por produzir uma nova significação ao termo.
A divisão de permitido e proibido manteve, entre um e outro século, certa
constância. Em compensação o objeto "crime", aquilo que se refere a pratica
penal, foi profundamente modificado: a qualidade, a natureza, a substância, de
algum modo, de que se constitui o elemento punível, mais do que a própria
definição formal. A relativa estabilidade da lei obrigou um jogo de substituições
sutis e rápidas. Sob o nome de crimes e delitos, são sempre julgados corretamente
os objetos jurídicos definidos pelo código. (FOULCAULT, 2000, p. 19)
No caso do São Pedro, devido ao próprio processo histórico do qual foi
formado, e do qual não podemos fugir, a notícia sobre um crime cometido por um de seus
moradores acaba, mesmo que inconscientemente, por estender-se ao próprio bairro. Dessa
forma, a população do bairro, frente aos estigmas negativos atribuídos a ele, tem que estar
constantemente enfatizando sua honra, alegando idoneidade, já que os olhares inquiridores
da alteridade geralmente revelam a desconfiança na medida em o morador do São Pedro
pronuncia o nome do bairro, seja preenchendo um cadastro, seja numa conversa informal
com um desconhecido.
A história do bairro se solidifica num processo de exclusão, no entanto, esse
processo é imperceptível por boa parte da população chapecoense. A história oficial se
caracteriza por apresentar uma única versão dos fatos, além de ser única, se institui como a
verdadeira. Dessa forma nega outras histórias, a versão das pessoas que vivem no bairro. A
forma pela qual as autoridades locais, a mídia apresentam o bairro é reveladora da
subjetividade cultural que atribui aos próprios moradores a responsabilidade pela imagem
caótica do mesmo. As identidades sociais se constituem, portanto, a partir das relações
hierárquicas estabelecidas na cidade de Chapecó. Nesse sentido, para Certeau,
o bairro se inscreve na história do sujeito como a marca de uma pertença
indelével na medida em que é a configuração primeira, o arquétipo de todo
processo de apropriação do espaço como lugar da vida cotidiana pública.
(CERTEAU, 1996, p. 44)
Assim, o fato da grande maioria das notícias encontradas sobre o São Pedro
aponta, num primeiro momento, para uma leitura do bairro que confirma o processo
histórico ligado à exclusão e à violência. Isso porque, conforme vimos anteriormente, não
existe como separar a análise do discurso da atualidade da análise do discurso
historicamente construído e já assimilado pela população.
O BOLETIM DE OCORRÊNCIAS
Um significativo número de notícias sobre o São Pedro aparece nos jornais
como reprodução do boletim de ocorrências da polícia ou dos bombeiros. São furtos,
homicídios, brigas familiares e várias outras ocorrências, algumas delas sem um valor
jornalístico mais consistente.
Ocorrências.
“Á noite, no Bairro São Pedro, foi detido e conduzido ao 1 DP, V.R. 47 anos, por
estar bêbado e agredir familiares, causando ferimentos.” (Jornal Sul Brasil, dia 09
de junho de 2004. Editoria de Polícia.)
Ocorrências.
No bairro São Pedro, R.S. 34 anos foi detido por embriaguez e causado danos nos
móveis da esposa. (Jornal Sul Brasil, dia 16 de março de 2004. Editoria Polícia.)
Nos exemplos, trechos que causam mais constrangimento aos familiares,
vítimas das ocorrências, do que informação útil e importante aos leitores do jornal.
Entramos aqui numa discussão sobre público e privado, e nos limites entre a informação e a
curiosidade. Pode até ser que alguém tenha curiosidade para saber sobre isso, como um
vizinho ou um parente, por exemplo. Porém, até que ponto é legítimo que a imprensa utilize
seu espaço para simplesmente “matar” a curiosidade dessas pessoas?
Aqui valem as discussões sobre notícia feitas anteriormente. Situações como
essas não informam a população, não apresentam um caráter de interesse público. Por sua
vez, tais exemplos ajudam a naturalizar esse tipo de prática no São Pedro, pois além de
aparecerem totalmente extraídas de um contexto, funcionam aqui, mesmo estando num
jornal, como um registro, e não como um acontecimento que mereça de fato estar ai.
Amador (2001) acredita
que a simples divulgação dos fatos, sem uma mínima contextualização e reflexão,
leva ao agravamento da situação. Noticiar violência, seja uma bala perdida na
cidade grande ou uma chacina na favela, não é o mesmo que falar sobre a queda
da bolsa ou a decisão do campeonato. A banalização da criminalidade pela
imprensa provoca um sentimento de naturalidade para quem consome a
informação. (in ANDRADE, 2002, p. 15)
Assim, a ausência de contextualização e reflexão conferem ao bairro São Pedro
a legitimidade de que lá a violência está freqüentemente associada ao cotidiano. A repetição
dos fatos propicia a naturalização de que no São Pedro tudo pode acontecer.
Internados e óbitos no HRO.
Luciana Fátima Livi de 17 anos, baleada na perna direita na Servidão Caic no
bairro São Pedro. (Jornal Sul Brasil, dia 27 e 28 de janeiro de 2004. Editoria de
Polícia.)
Polícia Militar registra ocorrências diversas no fim de semana.
No bairro São Pedro um adolescente de 15 anos foi baleado na costela e no braço
esquerdo por E. do S., 18 anos. A arma utilizada era de calibre 32, que foi levada,
junto ao autor do crime, à 1a DP. (Jornal Sul Brasil, dia 23 de março de 2004.
Editoria de Polícia.)
Nesses casos o fato registrado envolve menores, expostos aqui a uma leitura de
violência que ignora seus direitos. Na primeira nota nem o nome da adolescente é colocado
com iniciais, mas exposto com todas as letras. Assim, independente do motivo dela ter sido
baleada, a forma crua com que isso foi relatado faz referência direta a violência, ou a um
ato violento cometido contra ela. Por mais que ela tenha sido a vítima, são possíveis várias
suposições a cerca do que aconteceu antes disso, dos motivos do ato.
Sendo que aconteceu no São Pedro, teremos também interpretações que não
ficam isentas do imaginário construído a respeito do bairro. Assim, o envolvimento de
crianças e adolescentes em crimes pode ser visto como uma cena normal, uma vez que,
dentro da representação simbólica, o ambiente é propício para isso.
A cobertura a imprensa é fundamental na construção de leituras como essa. Não
só pelo que expõe, mas principalmente pelo que deixa de expor e de discutir. Segundo
Amador (2001), na grande maioria das vezes a imprensa não ouve fontes importantes,
como por exemplo, os Conselhos de Direitos e Tutelares em casos de envolvimentos de
menores.
Por não duvidar do BO, e praticamente se limitar a transcreve-lo, a cobertura da
imprensa brasileira sobre a violência juvenil não contribui com reflexões em com
idéias para o debate e por conseqüência não interfere nas políticas públicas. (in
ANDRADE, 2002, p. 00)
A falta de critérios ao abordar casos como esses podem ajudar a reforçar os
estereótipos historicamente construídos, representados também na falsa verdade contida em
ditos populares como “filho de peixe peixinho é” ou “a fruta nunca cai longe do pé”.
Leituras como essas expressam valores subentendidos que têm como intuito, deixar claro o
lugar social de cada um.
“EM DIREÇÃO AO BAIRRO SÃO PEDRO”: A DIREÇÃO QUE DÁ SENTIDO À
MARGINALIDADE
Jornal Diário do Iguaçu, 13 e 14 de março de 2004. Editoria de polícia. Título
da notícia: “PM prende segundo envolvido no assalto de Xaxim”. A notícia diz respeito a
um assalto, seguido do seqüestro da primeira dama do município de Xaxim. Os envolvidos
são um menor de 17 anos, de Chapecó e um rapaz de 18 anos de Balneário Camboriú, os
quais invadiram a Rede Feminina de Combate ao Câncer de Xaxim, realizaram o assalto e
na seqüência o seqüestro, fugindo no próprio veículo da vítima. E prossegue a notícia:
“Nas proximidades de Chapecó o carro foi interditado em uma barreira policial,
momento em que os dois envolvidos abandonaram o veículo e a vítima, fugindo
em direção ao São Pedro. Todos os trabalhos foram direcionados naquele bairro e
na Vila Betinho. O adolescente foi detido na quarta-feira no bairro Esplanada e na
casa dele...”
Podemos ler, interpretar a fuga para o São Pedro como uma interpretação por parte
do jornalista ou policial que leva em consideração o contexto, a classificação consciente ou
inconsciente dos lugares sociais de Chapecó. Assim, embora o fato dos envolvidos irem
“em direção ao São Pedro” não significar que estavam indo até o bairro, acaba por
confirmar a idéia do senso comum, a qual aponta o bairro como um local de bandidos. A
direção na qual iam os infratores só poderia ser dita por eles, porém, o que acontece aqui é
uma dedução precipitada, a qual podemos ler da seguinte forma: a rota de fuga dos
bandidos coincidia com a posição geográfica do São Pedro, como o São Pedro é um lugar
onde vivem marginais, os rapazes só poderiam estar indo para lá porque, por extensão,
eram de lá.
A notícia avisa ainda que “todos os trabalhos foram direcionados” no São Pedro e
na Vila Betinho, indicada em algumas notícias como parte do próprio bairro. Tal
informação confirma a certeza da polícia de que os bandidos estavam e/ou eram moradores
do São Pedro, uma vez que nem se preocuparam em realizar as buscas em outros bairros.
Um suspeito, entretanto, é preso no bairro Esplanada em sua casa. Porém, a sensação de
que ele, de alguma forma foi para o São Pedro, mesmo que fosse para esconder-se e fugir
da polícia, não consegue ser desfeita com essa informação. Mesmo morando em outro
bairro, a relação rapaz e seu ato criminoso permanecem, mesmo que subjetivamente,
ligados ao São Pedro.
Na mesma notícia segue:
Segundo a polícia militar, a segunda detenção foi realizada por volta das 6h,
sexta-feira no bairro São Pedro. O envolvido estava com a cabeça já raspada. A
PM informou que o rapaz já possuía mandado de busca e apreensão por três
crimes praticados quando ainda menor de idade. Ele estava residindo em Chapecó
há cerca de quatro meses.
O fato de um dos suspeitos ter sido de fato encontrado no São Pedro atesta a
primeira leitura feita e dá o aval para que novas interpretações do gênero sejam repetidas. O
infrator foi detido no bairro, portanto, a polícia ou o jornalista estava certo em deduzir, na
notícia, que os envolvidos fugiram em sua direção, mesmo não podendo saber disso com
exatidão.
Dentro dessa leitura chama-se atenção também para a informação dada pela
PM, a qual o rapaz já havia cometido outros três crimes ainda quando era menor de idade.
O que num primeiro momento apresenta-se como um dado complementar do caso, serve
para atestar a marginalidade do rapaz. Uma vez que a história da vida dele está baseada no
crime, não restam dúvidas quanto a sua culpa e quanto a necessidade de puni-lo.
É possível perceber uma certa naturalidade na exposição dos crimes cometidos
pelo rapaz. Assim, o fato dele já ter matado três pessoas torna normal o ato de um novo
crime, em outras palavras, já se espera que ele haja dessa maneira. Por extensão desses
atos, deduz-se que o rapaz foi criado em meio à violência e, embora estivesse morando em
Chapecó há apenas quatro meses, foi o São Pedro o local que escolheu para viver. Logo, é
possível interpretar que o São Pedro é um local violento. Para Certeau,
“Um indivíduo que nasce ou se instala em um bairro é obrigado a levar em conta
seu meio social, inserir-se nele para poder viver aí. “Obrigado” não deve ser
entendido só em sentido repressivo, mas também enquanto “isso o obriga”, lhe
cria obrigações, etimologicamente laços/vínculos. A prática do bairro é uma
convenção coletiva tácita, não escrita, mas legível por todos os usuários através
dos códigos da linguagem e do comportamento.” (CERTEAU, 2000, p. 47)
Assim, embora não tivesse nascido no bairro, o rapaz lá se instalou. Isso,
segundo a imagem historicamente construída do São Pedro, pode, dentro de uma leitura
simplista, significar duas coisas: ele fez isso ou por ser pobre ou por ser bandido, ou ainda,
por ser os dois.
No mesmo jornal, também na editoria de Polícia, dia 25 de março, uma nova
notícia sobre o caso volta a citar o bairro São Pedro. Com a chamada: “Suspeito de
envolvimento no assalto em Xaxim é preso”, a notícia traz informações sobre a detenção de
um segundo suspeito de envolvimento com o caso, e esclarece que o menor preso
anteriormente no bairro Esplanada não foi reconhecido pela vítima. No trecho em que cita o
São Pedro, temos uma repetição da informação dada anteriormente, na notícia de 13 e 14 de
março, agora, porém, dando o nome do rapaz que foi preso:
Dois dias depois, na sexta-feira, dia 12, a polícia fez a detenção, no bairro São
Pedro, de Wagner Rodrigues, de 18 anos, que foi reconhecido pelas vítimas. A
informação é que ele já possuía mandado de busca e apreensão por ter praticado
três homicídios quando era menor de idade. A polícia informou que o rapaz deu
indicações erradas sobre o outro envolvido, mas através de informações, a PM
chegou até Leomar e fez a detenção.
Aqui, além de reproduzir parte da informação apresentada dias antes, a notícia
reforça a idéia da marginalidade do rapaz, que agora tem um nome: Wagner Rodrigues. Sob
um primeiro aspecto, diz-se que ele foi reconhecido pelas vítimas, o que é, dentro da
notícia, um fato incontestável. Em contraposição à palavra vítima, ele passa a ser o
bandido, o mau elemento. Porém, não se contesta se ele próprio, em algum momento de sua
vida, não foi também vítima, da fome, da miséria, do sistema ao qual foi submetido, enfim,
a possibilidade de ser ele um indivíduo o qual as circunstâncias e o contexto vitimizaram,
resultando nos atos de violência os quais cometeu.
Por último, tomemos a informação de que “o rapaz deu indicações erradas
sobre o outro envolvido”. Embora a notícia não diga que ele mentiu, a sensação imediata,
devido ao contexto no qual essa fala está inserida, não nos permite pensar que ele pode ter
se enganado. Assim, a primeira impressão, é a de que ele está protegendo o parceiro. Uma
vez que ele é ladrão, assassino e seqüestrador, é natural que seja também mentiroso. Essa
seria, aliás, a menor de suas faltas.
CONSIDERAÇÕES E APONTAMENTOS
A leitura que fica mais presente com o encerramento da pesquisa é a de que as
notícias veiculadas nos três principais jornais impressos de Chapecó sobre o São Pedro
durante o ano de 2004, ajudaram confirmar a imagem de miséria e violência historicamente
construída. E isso menos tem a ver com a constatação de que da maioria das notícias foi
sobre violência do que pelo fato delas não apresentarem um contexto capaz de satisfazer
outros olhares.
A forma com que se apresentam as notícias analisadas não contribui para que os
leitores lancem uma nova leitura sobre o São Pedro. O que se percebe, é, na maioria dos
casos, um jornalismo que quer falar o mesmo pra todos, sem levar em consideração que
todos são muitos, e que cada um irá receber a informação de uma maneira diferente. Assim,
a notícia pode até ser uma, mas as interpretações serão inúmeras. E se o conceito de notícia
atual não comporta isso, é preciso, portanto, procurar por novos significados e novas
significações às notícias, subvertendo a regra pelo bem social.
É preciso, urgente, conforme nos coloca Andrade (2002), substituir o
sensacionalismo das abordagens pela busca e divulgação das causas da violência através de
depoimentos de especialistas, pesquisas e estudos aprofundados, além de mostrar a
importância de investimentos em áreas como educação. Acrescento ainda a importância
urgente de contextualizar, de abordar assuntos tão delicados como este a partir de um viés
mais criterioso e menos preconceituoso.
Conforme já se afirmou durante o trabalho, tudo é uma questão de
interpretação. O que se propôs aqui foi levantar algumas hipóteses e algumas análises
conforme determinadas linhas de pensamento. O que não quer dizer que as mesmas estejam
certas, muito menos erradas. Quer dizer apenas que existem outras formas de abordagem.
Conforme nos coloca Orlandi,
"uma vez analisado, o objeto permanece para novas abordagens. Ele não se
esgota em uma descrição. E isto não tem a ver com a objetividade da análise mas
com o fato de que todo discurso é parte de um processo discursivo que
recortamos e a forma do recorte determina o modo da análise e o dispositivo
teórico da interpretação que construímos".
Assim, abrem-se procedentes para novos trabalhos que possam vir a aprofundar
a análise proposta nesse trabalho e mesmo apresentar outros recortes a cerca do tema. Cito
alguns exemplos, ainda que não delimitados, mas que podem vir a inspirar novas pesquisas
na área. Uma delas seria a análise das notícias de outros bairros durante esse período, o que
ofereceria um interessante panorama comparativo, uma vez que o presente trabalho se
propôs a debruçar-se somente sobre as notícias do São Pedro.
Outro ponto que pode gerar um interessante trabalho de pesquisa é a correlação
entre as notícias sobre o bairro e os acontecimentos não noticiados do mesmo. Embora essa
proposta exija a presença do pesquisador no próprio bairro, para levantar quais
acontecimentos ficam alheios à imprensa, poderia oferecer dados interessantes,
principalmente no que diz respeito aos porquês da classificação que transformam um fato
em notícia.
Há também os estudos de recepção, que podem averiguar como os moradores
do São Pedro percebem as notícias sobre o bairro e como as significam, utilizando-se das
mesmas para a construção de suas identidades. Ou ainda junto ao aos leitores, levantando as
diferentes significações a cerca da mesma notícia. Enfim, a sensação que fica é a de que
tem muito mais a se fazer, que existem mais e mais coisas para serem descobertas, lidas,
interpretadas. E depois de um breve instante de frustração, pela sensação de que nunca se
faz o bastante, descobre-se o maravilhoso estímulo de se dedicar a novos projetos.
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os discursos sobre o bairro são pedro nos três principais jornais