Visão infantil sobre a mídia: contato, interesses e opiniões no ambiente escolar Mayra Fernanda Ferreira1 Loriza Lacerda de Almeida2 Resumo A presença da mídia enquanto educadora no cotidiano infantil suscita questionamentos sobre os conteúdos transmitidos às crianças e o tratamento destinado a elas. Em meio a jornais, revistas, sites e programas televisivos destinados ao público infantil, não se percebe a valorização da criança enquanto produtora cultural e não há espaço para que sua voz seja ouvida. Diante disso, neste artigo, apresentamos os resultados de uma pesquisa realizada com alunos de escolas públicas e particulares, a fim de conhecer seu universo e entender a relação com a mídia, a partir das percepções e gostos infantis. Apesar da diversidade de interesses e opiniões, verificamos que este público tem preferência pelo entretenimento. Entretanto, as crianças também têm necessidades informacionais que não são atendidas pela mídia voltada para este público. Valorizar as opiniões de crianças é fundamental para se discutir uma produção midiática infantil que contemple realmente suas características. Introdução A infância é um período importante da formação humana que merece ser tratado com compromisso, zelo e inteligência. A correria e a explosão de informações dos tempos modernos atingem esse segmento social, chegando a influenciá-lo e confiná-lo em lares e instituições. Sua relação com os adultos é ao mesmo tempo próxima e distante. A exigência de proteção é assegurada na legislação, porém o diálogo com a infância é quase inexistente. Muitos subjugam a importância das crianças, enquanto cidadãs livres e autônomas, para a formação da sociedade. Exige-se delas um posicionamento adulto para a inclusão no universo de competição e consumo. Em meio às cobranças, a infância perde sua inocência e pureza. O olhar mercadológico as persegue. Elas são atentas a toda e qualquer transformação, porém não são consultadas. Nesse cenário, a mídia, entre outras instâncias da vida social, aparece fornecendo produtos dirigidos a essa infância indefinida e, muitas vezes, desconhecida. Face à freqüente substituição da família e da escola enquanto socioeducadoras e controladoras de informação, a mídia vem desempenhando um novo papel educacional, responsabilizando-se também pela instrução das crianças. Porém, qual a percepção e opinião infantil sobre a mídia? O objetivo do presente artigo é discutir o conhecimento, a relação e os interesses que as crianças têm com a mídia, principalmente com o jornalismo impresso infantil, uma vez que observamos a crescente utilização de jornais nas escolas como suporte pedagógico. Ouvir as crianças é fundamental para que elas possam se expressar diante de produtos midiáticos destinados a elas, ao mesmo tempo em que nos permite conhecer seu universo, interesses e necessidades. Postman (1999, p. 12) afirma que vivenciamos o desaparecimento da infância devido, principalmente, ao contato das crianças com a mídia. Complementando, Block (2001, p. 243) descreve que, na contemporaneidade, observa-se um silêncio mortal em relação à infância, não dizendo quase nada sobre o que importa na vida das crianças ou na vida daqueles que se importam com elas. Este fenômeno provavelmente se justifica em função da crescente imposição do mundo adulto à criança, o que a transforma rapidamente em adulto miniaturizado. As questões privativas da infância vêm sendo tratadas sem a sua especificidade, resultado talvez de um mundo globalizado em que as tipificações tendem a se generalizar cada vez mais. Como não há valorização da produção cultural e da voz infantis, constituem-se saberes sobre a infância focados nas suas condições sociais e históricas de crianças “sem infância”, nas palavras de Quinteiro (2002, p. 22), sem considerá-las como construção cultural e sua possibilidade de criar e recriar a realidade social na qual estão inseridas. Entretanto, essas crianças devem ser pensadas como colaboradores sociais ativos que necessitam de liberdade de expressão para exprimir seus pontos de vista sobre os assuntos referentes a elas e sua sociedade. Além disso, são poucos os que lhes dão voz, não recebendo suas mensagens com a seriedade que merecem. Estamos tratando DE e COM crianças capazes de atuar socialmente e de influenciar definitivamente no rumo das transformações das sociedades em que vivem, enquanto aprendem a apreender o mundo. As falas das crianças oferecem informações preciosas e únicas para nos auxiliar na interpretação dos fatos do mundo na medida de sua espontaneidade e capacidade criativa natural (Pacheco; Tassara, 2001, p. 193). Diante da importância e contribuição social das crianças, é necessário verificar suas opiniões quando pensamos em produtos midiáticos ou não voltados especificamente para esse público, porque são seres de vontade e com formação cultural que devem ser consideradas. Além disso, é cabível pontuar os interesses infantis e a relação que a infância mantém com a mídia, que está difundida no ambiente familiar e escolar. Uma vez que a criança é também uma usuária dos sistemas de informação, ela se coloca como pró-ativa em relação a eles, acatando ou recusando seus conteúdos. Não se trata aqui de defender uma intransigente participação da criança em todas as instâncias do processo comunicacional, mas sim de garantir seu legítimo espaço enquanto usuária cidadã. Infância e Mídia O confinamento das crianças em espaços privados, especialmente nas grandes cidades, e a larga difusão da informação contribuem para o estreitamento da relação infância e mídia, ao mesmo tempo em que não se pode ignorar as contemporâneas transformações ocorridas na cultura infantil. Kincheloe e Steinberg (2001, p.13) confirmam que “a mudança na realidade econômica, associada ao acesso das crianças à informação sobre o mundo adulto, transformou drasticamente a infância.”, mudando, assim, tal cultura que passa despercebida pelos meios de comunicação. Ao mesmo tempo em que interesses sociais, econômicos e políticos competem pelo controle do entretenimento das crianças. Interesses comerciais ditam a cultura infantil da mídia, a margem de lucro é muito importante para que se importem com o que concerne ao bem estar das crianças. Em comparação à promoção de múltiplos ‘produtos’ da cultura infantil, os protetores da criança têm acesso limitado a essas vias de promoção. Estas corporações que fazem propagandas de toda a parafernália para as crianças consumirem promovem uma ‘teologia de consumo’ que efetivamente promete redenção e felicidade através do ato de consumo (Kincheloe; Steinberg, 2001, p. 24). Concomitantemente, Sampaio (2004, p.288) afirma que se a criança e o adolescente são vistos e valorizados do seu potencial de compra, as outras questões relativas ao reconhecimento da peculiaridade da infância e ao respeito à dignidade infantil tornam-se negociáveis. Além disso, parcela da mídia, na contemporaneidade, constitui-se também como um instrumento de padronização da cultura. Porém, se considerarmos a criança como produtora e consumidora de cultura, ela se torna agente ativo na sua relação com a mídia. Quando se analisam as crianças em relação à mídia de massa e à cultura popular, nossa tendência é defini-las como consumidores, expectadores, receptores, vítimas. Mas elas também são usuários daquela mídia e daquela cultura: fazem escolhas e interpretações, delineiam o que querem [...]. Enxergar as crianças como receptoras passivas do poder da mídia nos coloca em conflito com as fantasias que elas escolheram e, portanto, com as próprias crianças. Enxergá-las como usuárias ativas permite que trabalhemos com o entretenimento que as ajude a crescer (Jones, 2004, p. 20). Entretanto, reconhecemos a influência que a mídia exerce sobre parte das crianças por meio de técnicas de sedução. Consoni (1997, p. 10) pontua que a criança como ser amável adota com carinho aquilo que lhe dá atenção e a mídia é adotada como sua protetora, embora esta corrompa seus sentimentos, seduza seus desejos e penetre em seu imaginário. Na visão desta autora, a mídia exerce forte e negativa influência. O imaginário infantil numa sociedade dependente da mídia está sujeita a manipulações que transformam os seus estágios naturais de formação e crescimento e os direciona para uma existência servil e utilitária, num interesse agressivo de perpetuação do ‘modus vivendun’ até então estabelecido (Consoni, 1997, p. 06). Nesta influência, a mídia apresenta sub-representações da infância, além de não retratar o ponto de vista da própria criança. Contudo, há uma exceção: a presença de crianças em anúncios publicitários. Segundo Sampaio (2004, p.152), a criança tem forte apelo comercial porque tem empatia para os anunciantes, emociona e sensibiliza o adulto com seu ‘apelo mágico’, rejuvenesce a marca do produto e, principalmente, fazse ouvida por outra criança, já que uma é sensível à interpelação da outra. Nestas mensagens publicitárias, utilizam imagens de crianças felizes, espertas, sapecas, meigas e inocentes. Nas demais mensagens não aparecem quaisquer inferências sobre crianças marginalizadas sem a utilização de recursos sensacionalistas e apelativos. As crianças são geralmente invisíveis na mídia, exceto quando estão envolvidas em um acontecimento especial ou drama sensacionalista. Muito frequentemente, a imagem da criança inocente e do adolescente rebelde e agressivo predominam na mídia. De forma sistemática, as crianças são tratadas como objetos pela mídia, que ‘fazem vista grossa’ a seus direitos à dignidade e integridade, bem como a seus interesses maiores (David, 2002, p. 40). Feilitzen (2002, p. 24) explica que uma das justificativas para essa subrepresentação é que as crianças são difíceis de controlar e não são capazes de se expressar com facilidade. Porém, a realidade é que “as crianças não são só raramente vistas, como também suas vozes raramente ouvidas. Ademais, os adultos na mídia dificilmente falam com crianças. [...]. As crianças não estão nem mesmo presentes nos pensamentos de muitos adultos.” (Feilitzen, 2002, p. 22; 25). Complementando, “as crianças em si não são levadas a sério o suficiente pelos profissionais de mídia, [...] são vistas como um subgrupo da sociedade a ser protegido e não acariciado.” (Jempson, 2002, p. 122). Esta percepção nos indica que se houver um maior envolvimento dos profissionais da mídia com as crianças, teremos a possibilidade de construir outros modelos de mídia, com conteúdos diversificados, em relação ao que temos hoje estabelecido, o que seria relevante do ponto de vista da formação destas crianças. Para Buchot e Feilitzen (2002, p. 224), o fato da sub-representação da infância na produção de mídia é uma forma de violência simbólica ou de opressão cultural contra as crianças, uma vez que a participação ‘real’ na mídia fortalece a capacidade e a curiosidade das crianças. A maior participação das crianças significaria, de modo geral, maior cultura de mídia, contrabalançando também a escassez de representações da criança nos conteúdos. As imagens insatisfatórias das crianças podem ser melhoradas por meio de medidas para concretizar os direitos das crianças à liberdade de expressão e à participação na mídia e na sociedade (Buchot; Feilitzen, 2002, p. 128). Na mesma linha de raciocínio, Pereira e Souza (2001, p. 31) afirmam que atualmente os profissionais da mídia assumem a função de caracterizar a criança e suas necessidades, definindo metas para sua educação e seu desenvolvimento. Este fato condiz com a implosão das fronteiras entre comunicação e educação, que são áreas de aprendizado, conhecimento e atuação. Assim, “o comunicador deixa de ser um mero formador de opinião para ser um formador de consciências.” (Mídia, 2002, p. 25). Desta forma, a relação da mídia com a infância não deve ser fundamentada em falsas representações do real, já que as crianças estabelecem um grande vínculo com a mídia e direcionam muitas de suas ações a partir dessa interação. Ao interagir, as crianças buscam romper com o controle dos adultos. O convívio virtual, através das mídias, obriga as crianças e os adolescentes a considerar regras e convenções, tendo a oportunidade de ratificar ou pôr em questão conhecimentos e práticas a que tiveram acesso pela mídia. Nesta, eles se descobrem como membros de uma sociedade global de muitas escolhas. Descobrem que há limites e barreiras econômicas, sociais, políticas e culturais em pleno exercício de tais escolhas (Sampaio, 2004, p. 73). Devido a essa interação, é necessária uma educação para a mídia que valorize a participação e as vozes infantis, respeitando os pontos de vistas de crianças e a fala de que “querem ser levadas a sério e que querem ter permissão por falarem por si mesmas.” (Feilitzen, 2002, p. 26). Os jornalistas nessa missão educacional devem manter padrões éticos e, segundo as “Diretrizes e Princípios para Matérias sobre Questões que envolvem crianças” (apud Carlsson; Feilitzen, 2002, p.473), dar às crianças acesso à mídia para expressar suas opiniões sem indução de qualquer tipo. Ao mesmo tempo, a educação para a mídia é essencial para a democracia, uma vez que possibilita às crianças e aos adultos participar crítica e criativamente da comunicação e de outros processos sociais. A participação seria fundamental para que as representações da infância deixassem de ser estranhas às próprias crianças, revelando o que permeia a situação infantil, de problemas a curiosidades típicas das crianças. Conforme relata o Relatório da ANDI: “é fundamental observar até que ponto as questões sobre desenvolvimento humano estão sendo absorvidas na prática cotidiana do jornalismo e, conseqüentemente, transpostas para as matérias sobre infância e adolescência. 1” (ANDI; IAS, 2003, p. 08). Tendo em vista, a importância da mídia no cotidiano infantil, e embora a representação infantil aí demonstrada seja construída em falsos parâmetros, é fundamental verificar os conteúdos que ela transmite sobre a realidade. Quando eu me pergunto sobre como meus filhos construirão suas versões da realidade, penso sobre o meu próprio conflito entre experiência pessoal e a ‘realidade’ representada na mídia [...] meus filhos nunca experimentarão essa angústia, embora venham a ter seus próprios problemas, para alguns dos quais a mídia indubitavelmente contribuirá (Allie apud Kincheloe; Steinberg, 2001, p. 367). Entretanto, antes de analisar o conteúdo midiático, faz-se necessário verificar qual é a relação que as crianças têm com a mídia e os seus interesses e percepções sobre o universo midiático. Metodologia Como partimos da hipótese de que as crianças são um público com o qual a mídia deve se preocupar, atendendo seus interesses e suas necessidades informacionais e comunicacionais, adotamos como critério metodológico uma pesquisa de campo com crianças a fim de verificar seu contato com a mídia e interesses. Esta etapa é relevante, 1 No Relatório “Infância na Mídia”, da ANDI / IAS (2003), constatou-se que entre as pautas esquecidas na mídia impressa sobre infância estão: a exclusão social, AIDS, exploração do trabalho infantil, orientação sexual e deficiências. Os assuntos mais abordados são a inclusão na rede de ensino e a social, educação, violência, saúde, direitos & justiça, internacional e cultura/entretenimento. visto que a voz infantil precisa ser ouvida com respeito e sinceridade, valorizando sua relação com um produto jornalístico a elas destinado. Ao mesmo tempo em que “as crianças são os únicos leitores honestos.” (Singer apud Jones, 2004, p. 62). Desta forma, consideramos as crianças como receptoras críticas e não passivas. “As crianças têm uma abordagem ativa da mídia; elas abordam a mídia com sua ‘história pessoal’ com as ‘construções sociais’ que cultivaram na família, na comunidade e em seu ambiente jovem.” (Arnaldo, 2002, p. 448). Ao mesmo tempo, valorizamos a importância de orientar as crianças, de forma apropriada, em relação ao seu conhecimento sobre a mídia, a fim de desenvolver sua leitura e consciência críticas. Elas [as crianças] podem desenvolver sua própria consciência crítica daquilo que as mensagens da mídia estão tentando dizer, da informação que a mídia não está dando, ou está tentando esconder ou desviar, daquilo que a mídia quer dizer com o uso de certas palavras e mesmo de quais são as orientações gerais da mídia, como se pode vislumbrar pelos interesses políticos e comerciais de seus sócios, patrocinadores e proprietários (Arnaldo, 2002, p. 439- 440). A pesquisa de campo realizada para este trabalho teve como eixo os pressupostos básicos da pesquisa-ação, proposta por Thiollent (1992, p. 16), especificamente no que se refere ao objetivo de ampliar o conhecimento do pesquisador e o nível de consciência das pessoas com as quais se realiza a pesquisa. A metodologia da pesquisa-açao pressupõe ainda que as pessoas envolvidas ao longo da pesquisa expressam um aprendizado coletivo tanto na sua tomada de consciência quanto no seu comprometimento com a ação coletiva, o que significaria, caso tivéssemos aprofundado nesta perspectiva metodológica, a elaboração de um jornal “com e para” as crianças. “Na comunicação, trata-se de fazer com que aqueles que não têm voz possam gerar informações significativas sobre suas condições ou sobre seus próprios relacionamentos com outros interlocutores.” (Thiollent, 1992, p. 79). Para dar espaço à voz infantil, na pesquisa, utilizamos como técnicas a aplicação de questionários, entrevistas e a observação, uma vez que a “atitude dos pesquisadores é sempre uma atitude de escuta e de elucidação dos vários aspectos da situação, sem imposição unilateral de suas concepções próprias.” (Thiollent, 1992, p. 17). Como público para esta etapa, definimos alunos da 5ª série, visto que abrange crianças de 10 a 12 anos, público-alvo de suplementos infantis. Segundo Postman (1999, p. 08), crianças de 5ª e 6ª séries estão numa idade em que não sofrem apenas os efeitos da vida adulta precoce, mas são capazes de falar e refletir sobre esses efeitos, sem mascarar sentimentos. Além disso, a relação dessa faixa etária com a mídia é movida pela curiosidade, já que o meio fornece subsídios para a compreensão da realidade. “A criança amplia, nessa fase, o horizonte de seus interesses, antes focalizado no âmbito da família, e desloca sua atenção para descoberta do mundo que se constitui para ela num grande mistério e onde ela pretende vivenciar inúmeras aventuras.” (Sampaio, 2004, p. 183). Para a realização da pesquisa de campo, contatamos escolas públicas e particulares nas cidades de Araraquara e Bauru. O ambiente escolar foi propício para o desenvolvimento da pesquisa, concordando com Ijuim (2005, p. 49) que afirma que a escola deve propiciar o aprender a aprender e, por meio de pesquisas, desenvolvem-se hábitos de observação, reflexão e expressão do mundo. As escolas selecionadas e o conjunto de alunos de cada uma delas são2: Colégio Interativo de Bauru, com 26 alunos; Escola Estadual Professora Mercedes Paz Bueno (E.E. Mercedes), em Bauru, com 30 alunos; Colégio Anglo, em Araraquara, com 31 alunos e Escola Estadual João Manuel do Amaral (E.E. JMA), em Araraquara, com 35 alunos. Os jornais selecionados para análise foram os suplementos infantis dos jornais Folha de S. Paulo (Folhinha), Jornal da Cidade de Bauru (JCCriança) e Tribuna Impressa de Araraquara (Tribuninha). Esta análise, envolvendo crianças provavelmente oriundas de realidades diferentes, é importante, como escreveu Elza Pacheco, “conhecer a criança é pensá-la não apenas numa perspectiva evolutiva. Conhecer a criança é pensá-la, num determinado tempo, em espaços públicos e privados, interagindo dinamicamente”. (Pacheco, 1991, p.06). Desta forma, as crianças precisam ser reconhecidas também pelo ambiente onde se encontram, seja público ou privado. Sendo assim, os resultados da pesquisa serão apresentados quantitativamente, por meio de tabelas subdivididas em escolas públicas e particulares, e qualitativamente, com síntese dos resultados. Nas questões abertas estão apresentados os resultados reincidentes. Visão Infantil e Mídia O questionário apresentado abaixo verificou o contato das crianças com alguns veículos impressos, seus interesses e opiniões. As perguntas específicas e diretas explicitaram a peculiaridade do universo infantil e as respostas obtidas possibilitaram 2 Segundo o método da pesquisa-ação, a pesquisa é feita dentro de um número pequeno de unidades, escolhidas aleatoriamente, que é estatisticamente representativo do conjunto da população. uma representação deste universo, ao mesmo tempo em que permitiram a comparação entre as percepções de alunos de escolas públicas e particulares de duas cidades do interior de São Paulo, Araraquara e Bauru, sobre a mídia. Nosso universo de sujeitos estava constituído por 65 alunos da rede pública e 57 da particular. Questão 1: Você conhece os jornais dedicados às crianças? Quais? Suplemento Folhinha Estadinho JCCriança Tribuninha Nenhum Públicas 09 06 26 28 07 % 13,8 9,2 40,0 43,0 10,8 Particulares 19 11 21 23 09 % 33,3 19,3 36,8 40,3 15,8 Observamos que as crianças da rede particular (52%) têm contato maior com os suplementos editados pelos jornais da capital em comparação com a rede pública (22%). Já os suplementos locais pertencem ao universo dos dois grupos de alunos, mesmo tendo jornais específicos em cada cidade do interior. Questão 2: Você lê esses jornais? Todo dia, uma vez por semana, uma vez por mês? SIM NÃO Todo dia Uma vez por semana Uma vez por mês Às vezes Públicas 51 14 Públicas 05 28 13 06 % 78,4 21,5 % 7,6 43,0 20,0 10,7 Particulares 38 19 Particulares 01 23 04 08 % 66,6 33,3 % 1,7 40,3 7,01 14,0 Os alunos das escolas públicas apresentam um índice de leitura próximo a 80%, sendo que 43% lêem semanalmente e ao mesmo tempo, 20% lêem apenas uma vez por mês. Já nas particulares a diferença entre os que lêem e não é de 33%, além de 14% lerem os suplementos esporadicamente. Os resultados indicam que a leitura é mais assídua nos alunos das escolas públicas. Há uma importante participação de leitura semanal para ambos os grupos. Questão 3: Você lê o jornal inteiro ou algumas partes? Quais? Inteiro Partes O que lêem Quadrinhos Brincadeiras Piada Públicas 21 30 Públicas 08 06 09 % 32,3 46,1 Particulares 12,3 9,2 13,8 Particulares 17 19 Particulares 07 06 02 % 29,8 33,3 % 12,2 10,5 3,5 Desenhos Curiosidades Matérias/Textos 06 02 09 9,2 3,0 13,8 03 05 04 5,2 8,7 7,0 A respeito da leitura, nas particulares há uma pequena diferença entre os que lêem no todo ou em partes, sendo que se destacam os quadrinhos (12,2%) e as brincadeiras (10,5%). Estas preferências também são indicações das escolas públicas, somado ao interesse por piadas e matérias/textos, com o mesmo índice percentual (13,8%). Este índice revela a preocupação desses alunos com assuntos informativos, embora a preferência resida no entretenimento. Cabe destacar o interesse por curiosidades entre os alunos das particulares. Questão 4: Quais os temas da realidade mais agradam você? Preferência Brincadeiras Cultura Esporte Escola Sua cidade Saúde Meio Ambiente Programação da TV Outros Públicas 52 25 46 23 20 23 33 47 14 % 80,0 38,4 70,7 16,9 30,7 26,1 50,7 72,3 21,5 Particulares 30 14 40 11 09 17 25 39 24 % 52,6 24,5 70,1 19,2 15,7 29,8 43,8 68,4 42,1 As temáticas preferenciais entre os dois grupos se completam: brincadeiras, esporte e TV. Os outros temas, com exceção de cultura, também apresentam índice equivalente. Nas escolas particulares, entre as outras temáticas que agradam estão os jogos de computador. Estes temas denotam o declarado desejo de conteúdos para esta faixa etária, o que não se apresenta como novidade, no entanto, se as crianças são chamadas a participar da construção destes conteúdos, talvez houvesse uma especialização dos mesmos. Questão 5: Como você tem contato com as notícias, fatos da realidade? Veículo de Comunicação TV Rádio Jornais Revistas Internet Públicas % Particulares % 63 29 34 26 34 96,9 44,6 52,3 40,0 52,3 54 24 21 17 38 94,7 42,1 36,8 29,8 66,6 O contato com as informações pela TV também é semelhante nos dois grupos. Porém, a leitura de material impresso se destaca nas públicas, indicando novamente interesse desses alunos pela leitura e informações mais aprofundadas. A Internet tem índice mais elevado no grupo das particulares, devido às características econômicas deste grupo, além do acesso nessas escolas. Nas públicas, o valor percentual desse veículo também é relevante, corroborando para a tendência de crianças eletrônicas na sociedade atual. Questão 6: Você acha os programas, revistas e jornais infantis atraentes para você e para seus amigos? Por quê? Gosta ou não sim não mais ou menos Públicas 56 06 03 % 86,1 9,2 4,6 Particulares 32 18 07 % 56,1 31,5 12,2 A atratividade para as crianças das públicas é 30% maior do que nas particulares, valor que indica que este grupo já manifesta interesse por outros programas, principalmente os relacionados aos adolescentes, como se pode inferir das respostas: “os produtos infantis são chatos e sem temas interessantes, principalmente “teens”. Uma das respostas no Anglo resume essa classificação: “São pouco interessantes e as notícias, além de chatas, são relatadas para nós como se tivéssemos 2 anos, por isso prefiro os jornais adultos, ou seja, esses jornais infantis são muito infantis”. O mesmo grupo também manifestou dúvidas quanto aos interesses de amigos, uma vez que há gostos diversos entre crianças desta faixa etária e classe social. Síntese dos Resultados Tratando a hipótese de que crianças pertencentes a diferentes camadas econômicas consomem produtos distintos de diferentes formas, construímos dois grupos de análise partindo de diferentes realidades econômicas, sociais, culturais e educacionais das escolas públicas e particulares. Este é um pressuposto analítico, que não foi aprofundado nesta pesquisa, mas que estava indicado na formação dos grupos selecionados. Considerando nossa proposta, observamos que os suplementos infantis dos jornais de grande circulação Folha de S.Paulo e O Estado de S. Paulo pertencem ao universo das escolas particulares (52%), ao mesmo tempo em que neste grupo verificamos o maior índice de “desconhecimento” de qualquer jornal infantil. Sobre a leitura, no grupo das escolas públicas a diferença entre os alunos que lêem e os que não lêem os suplementos é de 37 alunos contra 19 da particular. Em relação à periodicidade de leitura, os dois grupos mantêm o semanal como índice de maior representatividade. Contudo, nas escolas públicas, verificamos que 20% dos alunos lêem apenas uma vez por mês. A diferença entre a leitura do jornal inteiro e em partes é de aproximadamente 14% nas públicas e 23% nas particulares. Destacam-se, nos dois grupos, os quadrinhos e as brincadeiras como seções com maior índice de leitura. Já em relação com o conteúdo jornalístico/informativo e as piadas há uma diferença de 20% entre as escolas públicas e particulares. A temática cidade á mais freqüente entre os alunos da escola pública, 30% contra 19% na particular, assim como as brincadeiras, 80% versus 53% respectivamente. Meio ambiente e cultura se destacam no grupo de alunos da rede pública, já na particular manifesta-se o interesse por computador, filme e moda. O contato com a televisão apresenta grande indicação nos dois grupos. Os jornais são de interesse e contato maiores no grupo da escola pública, aproximadamente 15,5% a mais dos alunos. Já com a Internet, a diferença é de 67% na particular contra 52% na pública. Além disso, a mídia infantil agrada 86% dos alunos das escolas públicas, enquanto 31,5% na particular estão descontentes com os produtos. Os dados revelam que há características nítidas que identificam os alunos dos grupos, como o interesse pela leitura e mais informações atuais nas públicas e o descontentamento com o conteúdo infantil nas particulares. Os resultados apontam para a presença da mídia no cotidiano infantil, embora elas tenham interesse por temáticas não abordadas em produtos midiáticos específicos para este público. Considerando a diversidade de alunos com os quais trabalhamos, verificamos que a atratividade pela mídia reside no entretenimento e lúdico oferecidos, reforçados pela linguagem visual no caso de suplementos infantis. Concomitantemente, observamos nas entrevistas qualitativas realizadas com os grupos de alunos, que as crianças sentem a ausência de um conteúdo informacional, principalmente com questões da realidade, em um meio infantil, seja jornal, revista, programa televisivo ou site. Evidenciamos este interesse, durante as entrevistas, quando as crianças manifestaram seu contato com o “jornal de adulto” e citaram problemáticas que as interessa como política e violência. Entretanto, elas argumentam que um produto infantil deve trazer essas informações de uma forma atraente e fácil de entender. Além disso, observamos que as crianças percebem o papel pedagógico da mídia, ao utilizarem-na em pesquisas pessoais e escolares. Essa utilização é reforçada entre os alunos da rede pública que têm um interesse maior por informações mais aprofundadas e necessidade de entender e discutir essas temáticas com colegas e professores. Os alunos da rede particular estão bastante interessados nas tendências “teens”, como moda e baladas, além de pontuarem que a linguagem verbal utilizada pelos produtos midiáticos infantis o tratam como bebês, sem fornecer aquilo que os interessa. No grupo das escolas públicas também houve manifestações sobre a participação na produção de produtos infantis, seja enviando desenhos ou textos. Na E.E. Mercedes, um aluno sugeriu a elaboração de um jornal para a escola: “Folhinha do Mercedes”. Já na E.E. JMA, os alunos debateram a importância da própria criança ir à banca para comprar seu jornal ou revista infantil. Diante dos dados apresentados, as crianças se relacionam com a mídia, sem que seja um vínculo apenas de consumo ou dependência. Elas se sentem incluídas na mídia, mesmo que seja por meio de representações com pequena correspondência em seu universo de vida, e têm uma necessidade informacional que acreditam poder ser sanada a partir da mídia. Considerações Finais A estreita relação entre mídia e infância merece atenção porque a primeira ocupa os ambientes freqüentados pelas crianças, ao mesmo tempo em que estas aprendem e se divertem com os produtos midiáticos. Porém, além de verificar o que a mídia está oferecendo à infância, torna-se fundamental descobrir e compartilhar os interesses e as opiniões das crianças. Ao longo deste artigo, refletimos esta relação e pontuamos a presença da mídia no cotidiano infantil. É inegável, portanto, o contato que as crianças estabelecem com a mídia, seja como verdade absoluta como afirmam Pacheco e Tassara (2001, p.193) ou não. Desta forma, conhecer o que ela sabe sobre a mídia e o que a interessa é extremamente relevante para estabelecer os parâmetros de qualidade e atratividade dos produtos midiáticos infantis. Embora tenhamos um público infantil heterogêneo, observamos que as crianças têm interesses próximos, principalmente focados no entretenimento. As diferenças que encontramos nos grupos de escolas públicas e particulares evidenciam a realidade das crianças no convívio familiar e escolar. Ao se interessarem mais por informações e leitura, os alunos da rede pública manifestam a carência que possuem e a necessidade de conhecimento. Já os alunos da rede particular, evidenciam seu contato próximo com outra realidade, a dos jovens. Esta questão foi explicitada durante as entrevistas, uma vez que as crianças demonstraram interesses pelos assuntos “teens”. Entretanto, os dois grupos mantêm uma relação estreita com os produtos da mídia, seja para se divertir ou aprender. Além disso, verificamos a presença do lúdico e do humor como fundamentais para as crianças, ao mesmo tempo em que as temáticas culturais, ambientais, esportistas e políticas despertam sua atenção. Diante deste interesse infantil pelos acontecimentos da realidade, é importante pensar em um produto que forneça informações para este público de uma maneira didática e atraente, o que não significa simplificações ou superficialidades. Considerando ainda o papel pedagógico da mídia, também reforçado pelas crianças, é necessário que haja uma maior preocupação na elaboração e difusão dos produtos midiáticos infantis. Assim, permanece como aventura mergulhar neste universo para conhecer os dilemas e gostos das crianças, para então oferecer-lhes um produto de maior qualidade, que contribua para sua formação enquanto cidadãs críticas, valorizando sua voz e produção cultural, além de poder se transformar em um instrumento de apoio qualitativo nas atividades de formação. Referências bibliográficas ANDI; IAS. Infância na mídia: a criança e o adolescente no olhar da imprensa brasileira. Relatório 2002/2003. São Paulo: Salesiana, 2003. ______. 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