ABSTRACT: Thispaper deals with the history of the Grupo de Estudos LingiUsticos do
Estado de Slio Paulo, followed by some indications of possibly new issues to be
considered by the association.
KEYWORDS: Historiografia LingiUstica; Historia do GEL; Lingiiistica brasileira e
globaliza9lio; Tarefas da Lingiiistica em Slio Paulo.
"Sim, 0 GEL cresceu. Mas esse mesmo crescimento de que nos orgulhamos
deve tambem conduzir a rejlexiio, a analise critica e, sobretudo, a reformula9iio".
Palavras do Presidente Geraldo Cintra, na abertura do XLII Seminario, no ano em que 0
GEL fez 25 anos. "E hora de voltar os olhos para 0 futuro. Se muito foi feito, muito hil
para fazer. Creio que chegou a hora dos grandes projetos, em que colaboram
pesquisadores de diferentes Universidades para a produ9iio de trabalhos que niio
podem mais ser feitos por uma {micapessoa". Palavras de Jose Luiz Fiorin, na mesma
ocasiiio, falahdo pelos ex-Presidentes. Duas opinioes coincidentes sobre 0 futuro do
GEL. Para mim, espifito apressado, isto e ja urn consenso universal.
Tomando esses depoimentos como mote, lembrarei alguns momentos da
historia de nossa associa\liio, e apresentarei ao debate meu ponto de vista sobre a
continuayiio de nossos trabalhos, no milenio que se aproxima. Niio sem, antes, agradecer
it atual Diretoria do GEL pela oportunidade que me da de me dirigir aos associados,
nesta celebrayiio de 30 anos de atividades ininterruptas. A estabilidade do GEL e urna
vitoria dos associados e urn grande feito das Diretorias.
Esta e a quarta vez que me manifesto nurna data aniversaria: Castilho (1984,
1989), Castilho/PretiJRisso/Abaurre (1989). Temo mesmo que a benevolencia das
Diretorias do GEL va devagarinho me transformando nurna·especie de cronista de nossa
associayiio. Tenho aceito 0 encargo com urn misto de prazer e de apreensiio. Prazer pela
oportunidade de me dirigir aos jovens colegas que, por sua idade, niio presenciaram 0
nascimento e 0 desenvolvimento do GEL. Apreensiio, pelo temor de me fazer monotono
e repetitivo aos associados da primeira hora ou, pior ainda, de niio estar interpretando
convenientemente os novos ventos que sopram sobre a Lingiiistica em Siio Paulo e no
Brasil.
Dito isso, lembremo-nos de que 0 GEL nasceu precisamente no dia 29 de
janeiro de 1969, na Universidade de Siio Paulo. A USP hospedava naquele mes 0 II
Congresso Intemacional da Associayiio de Lingiiistica e Filologia da America Latina,
ALFAL, e 0 III Instituto Interamericano de Lingiiistica, promovido pelo Programa
Interamericano de Lingiiistica e Ensino de Idiomas, PILEI. A importancia dessas duas
entidades para a Lingiiistica Brasileira tem sido lembrada com freqiiencia. Por ora quero
apenas assinalar que 0 GEL resultou das preocupa~oes de estudiosos da Lingiiistica que
trabalhavam naquele momento em faculdades do interior do Estado. A iniciativa de sua
cria~Ao surgiu de alguns entAojovens lingUistas ligados as Faculdades de Filosofia,
Ciencias e Letras de Marilia, Araraquara, Assis e SAoJose do Rio Preto, hoje unidades
da Unesp. Coube entretanto a um professor da USP, 0 saudoso Prof. Isaac Nicolau
Salum, acomodar os impulsos daquelas criaturas, entre as quais eu devia ser 0 mais
atrevido. Aproveito a ocasiAopara pedir desculpas a memoria do querido Mestre pela
trabalheira que the del.
Mas como um born paulista caipira, nAoresisto a tenta~Aode estabelecer um
paralelo entre 0 impeto daquele punhado de colegas, levando avante 0 que lhes parecia
ser sua missAo, e a sociedade paulista, que nos tempos mais recentes vem fazendo do
interior do Estado de SAoPaulo urn outro pais. Alias, a mudan~a do centro geopolitico
do Estado ora em curso fomece aos colegas alguns bons temas de pesquisa. Pennitindome aqui urn ataque de diacronia, apresento-Ihes esta questAo:ate que ponto 0
desenvolvimento social e economico desta parte do Estado nAomudara a avalia~Aodas
hoje discriminadas peculiaridades do falar caipira ?
Deixando de lado 0 facil memorialismo, penso que se podem reconhecer tres
fases na historia do GEL. Identifico essas fases nurna base intuitiva, sem os rigores que
podemos encontrar, por exemplo, no estudo de Altman (1995), complementado por
Fran~a et alii (1995).
1.1 - De 1969 a 1975 nos concentramos nos objetivos iniciais da associa~Ao:
compartilhar conhecimentos de Lingiiistica, veicular a informa~Aocientifica e dar os
primeiros passos na dire~Ao de projetos coletivos de pesquisa, objetivando a
profissiona1iza~Aodos lingiiistas do Estado de SAoPaulo. Estou convicto de que a ideia
era boa, ja pelo evidente sucesso do projeto, ja pe1a irradia~Aodo "modelo GEL" para
outras partes do pais. Refrro-me ao fato de que, com 0 tempo, ex-associados nossos, de
volta aos seus Estados de origem, criaram 0 GELNO, 0 GELNE e 0 CELLIP. Novas
associa~oes regionais de Lingfiistica foram surgindo, mesmo sem esse ·.vinculo, tais
como a ASSEL, no Rio de Janeiro, e 0 CELSUL, dos Estados do Parana, Santa Catarina
e Rio Grande do Sul. Nurn pais continental como 0 Brasil, foi sem duvida muito born
contarmos com urna associa~Aonacional, como a ABRALIN, fundada no mesmo ano
que 0 GEL, e com diferentes associa~oes regionais, que podem servir aos jovens
ta1entoscomo seu ponto de entrada, como sua estreia nas ciencias da linguagem. E a1em
do mais, parodiando Carlos Drummond de Andrade, 0 GEL oferece a todos nos a
adomve1chance de comel;armos como 1ingfiistasestaduais, chegando quem sabe um dia
a lingUistasfederais !
As atividades do GEL nesse periodo concentraram-se na organiza~Ao de
seminarios semestrais, de cujos programas constava a realiza~Ao de conferencias
p1enarias e de grupos de trabalho. Os temas privilegiavam as areas centrais da
Lingiiistica: a Gramatica, isto e, a Fonologia, a Morfologia e a Sintaxe, e a Semantica,
com grande preferencia pe1a Semantica Lexical. Questoes de ensino nAo ficaram de
fora, e assim tivemos varias mesas-redondas sobre
estrangeiras.
0
ensino do Portugues e de linguas
1.2 - Uma segunda fase compreende os anos de 1976 a 1987. Rodolfo Ilari, na
presidencia em 1978, fundou a revista Estudos Lingiiisticos, depois subtitulada "Anais
dos Seminlirios do GEL", hoje com 28 volumes publicados, varlos deles com dois
tomos. Os seminlirios passaram a acolher tambem as comunica~oes cientificas de seus
associados, prlitica que teve inicio no X Seminlirio de Avare, realizado em 1974. E
chegaram os estudos sobre 0 Discurso, vasta area na qual estou capitulando as
disciplinas Analise do Discurso, Analise da Conversa~ao, Lingiiistica do Texto,
Semantica Argumentativa, Teoria dos Atos de Fala, os herdeiros, enfim, da Ret6rica e
da Estilistica, operando agora num campo muito mais ampliado. E curioso lembrar que
a introdu~ao dos estudos sobre 0 texto coube a uma pessoa inteiramente avessa as
novidades, e que mantinha pelo menos no nivel de seu discurso serias restri~oes ao que
ele chamava as "modas passageiras da Lingiiistica". Estou falando do Prof. Salum. A
partir de 1971 ele apresentou em mais de uma oportunidade seu processo de
desfrasamento e recomposi~ao do texto, ao longo do qual ele ia evidenciando diversos
fenomenos que ultrapassam os limites da ora~ao, tais como a afinidade estrutural, 0
ritmo, as oposi~oes semanticas, os processos ret6ricos e estilisticos. A SociolingOistica,
a PsicolingOistica, a LingOistica Indigena e outras dire~oes da indaga~ao lingOistica
foram igualmente desftlando seus desafios a um mimero crescente de associados. De
fato, os 12 da primeira fase tinham-se multiplicado nesta segunda fase em 350 - mais
uma prova da fecundidade do GEL!
1.3 - A partir de 1989 ingressamos na terceira e atual fase do GEL. Essa fase
vem sendo assinalada pelo irrup~ao de grandes projetos coletivos, pelo ingresso da
Tradu~ao, da LingOistica Aplicada e da LingOistica Cognitiva no universo tematico dos
seminlirios. A Lingiiistica Historica, tiio forte nos anos 50, retorna com toda for~a, ap6s
as pesquisas do grupo da Bahia, liderado por Rosa Virginia Mattos e Silva, e, em nosso
Estado, 0 trabalho de Fernando Tarallo e de Mary Kato, com seu famoso casamento da
Gramlitica Gerativa com a Teoria da Varia~ao e Mudan~a.
Vlirios associados do GEL, operando em certos casos com colegas· de outros
Estados, ou simplesmente contando com a prata da casa, capitanearam projetos
coletivos da mais aha relevancia para a forma~ao de uma cultura lingiiistica mais
afinada com as demandas da sociedade brasileira. Lembro 0 pioneiro Projeto NURC,
que se cindiu nesta fase hist6rica em duas grandes dire~oes.
A primeira dire~ao privilegiou a pragmatica do discurso oral, sob a
coordena~ao de Dino PretL Surgiram daqui vlirias publica~oes, ap6s editados os
materiais para estudo: Preti-Urbano (Orgs. 1990), Preti (Org. 1993, 1997, 1998). 0
pr6prio Dino Preti, em depoimento dado por ocasiao dos 25 anos de nossa associa~ao,
mostra como os trabalhos desse Projeto come~aram a entrela~ar-se com as atividades
mesmas do GEL ja a partir de 1978: Castilho/Preti/Risso/Abaurre (1995). Ele mostra
nesse estudo que a publica~ao das entrevistas gravadas em Sao Paulo determinou 0
surgimento de um mimero crescente de pesquisas, quantificadas em seu trabalho numa
tabela que cobre os anos de 1987 a 1993. Esperemos que estas constata~oes enterrem de
vez a mania de nao divulgar amplamente materiais de pesquisa recolhidos com dinheiro
publico. a Projeto NURC/SP, sempre fmanciado pela Fapesp, posicionou-se
contrariamente a esse mau costume.
A segunda dire~ao recuperou os objetivos descritivos do projeto original, a
partir, porem, de outros recortes te6ricos. Falo do Projeto de Gramatica do Portugues
Falado, baseado nos dados do Projeto NURClBrasil, e que se consolidou a partir de
1988. E um enorme prazer falar disto em Bauru, nesta Universidade do Sagrado
Cora~ao. Pois foi aqui mesmo, em 1985, durante 0 XXIX Seminlirio, numa mesaredonda sobre descri~ao gramatical, que pela primeira vez propus a realiza~ao de um
projeto coletivo de reda~ao de uma gramlitica de referencia sobre a lingua falada. E
verdade que foi necesslirio aguardar mais 3 anos para que tudo come~asse. Mas isso nao
importa. A primeira vez foi no GEL, foi em Bauru, e isso deu uma sorte danada, como
relatei no Seminario de Taubate: Castilho (1997). a Projeto de Gramlitica do Portugues
Falado encerrou sua agenda de pesquisas em 1998, e agora os Grupos de Trabalho estao
consolidando em 5 volumes os resultados obtidos, que foram sendo publicados numa
serie homonima, constante de seis volumes, com mais dois no prelo: Castilho (Org.
1990, 1993), l1ari (Org. 1992), CastilholBasilio (Orgs. 1996), Koch (Org. 1996), Kato
(Org. 1997), Neves (Org., no prelo), Abaurre/Rodrigues (Orgs., no prelo). Uma vez
publicada, a Gramatica do Portugues Falado sera 0 primeiro empreendimento do genero
entre as linguas romanicas.
Mas a decada de 80 - conhecida por nosso pessimismo como a decada perdida foi para os associados do GEL uma das decadas mais achadas. Mais dois trabalhos de
relevo foram entAoplanejados e vem sendo executados. Francisco da Silva Borba, que
foi nosso primeiro Tesoureiro, planejou e executou seu Dicionario Gramatical de
Verbos: Borba (Org. 1990). Ampliando enormemente seu banco de dados, ele avan~a
agora na conclusao do Dicionario de Usos do Portugues. Com base no mesmo corpus,
Maria Helena Moura Neves preparou uma grande gramlitica do portugues escrito, que
sera publicado sob 0 titulo de Gramatica de Usos do Portugues. Nos intervalos, ela
coordenou um dos grupos de trabalho do Projeto de Gramlitica do Portugues Falado,
concorrendo de modo decisivo para 0 exito desse empreendimento. De onde ela tira
tempo para tudo isso foi sempre um grande misterio para seus amigos.
Enquanto tudo isso acontecia, 0 nUmero de associados saltava de 350 para 700,
ultrapassando aqueles da Associa~ao Brasileira de Lingiiistica. E para que nao fiquemos
desocupados de uma hora para outra, 0 que seria horrivel, passo a fazer alguns
exercicios sobre os novos compromissos cientificos do GEL, tema desta palestra.
Nunca e demais relembrar que os tempos mudaram, e que agora nao basta mais
que pessoas de boa vontade se reUnampara falar de Lingiiistica e para pesquisar temas
lingiiisticos. Requer-se um projeto de inser~ao do GEL num quadro de tarefas
claramente estabelecidas, que 0 afastem dos grandes temas da cultura em que estamos
integrados.
.
Nos anos 60, Aryon Dall'Igna Rodrigues escreveu seu ensaio Tarefas da
LingiUstica no Brasil, que serviu de incentivo a tantos dentre n6s: Rodrigues (1966).
Penso as vezes que e preciso retomar esse tipo de preocupa~ao, e discutir as Novas
tarefas da Lingiiistica no Brasil. A Lingiiistica em nosso Estado e no pais ingressou
num novo patamar, caracterizado pela extraordiruiria muItiplica~ao das areas de atua~ao
e pelos requisitos de uma forma~ao cientifica cada vez mais exigente. Planejar a
continua~ao das pesquisas lingiiisticas nao e mais tarefa para um s6. E e preciso ter em
mente algo que 0 GEL aprendeu em sua hist6ria, e que foi assim formulado por Altman
(1995: 16): "A busca de homogeneizacao de conhecimentos e uniJormizacao de
informacoes que motivou os criadores do GELja nascia com muito poucas chances de
sucesso. Os alunos, graduandos e pos-graduandos. formados nas diversas instituicoes
do Estado nao compartilhavam (e nao compartilham ate hoje), desde os primeiros anos
da sua formacao, das mesmas informacoes. da mesma concepcao de ciencia e pratica
de analise lingiiistica ".
Assim, movido apenas pelo desejo de desencadear um debate intemo sobre 0
futuro do GEL,
lan~o aqui alguns temas a considera~ao dos associados. Agrupei-os em tres t6picos: (i) a
necessaria e continuada aten~ao aos dominios centrais da cultura lingiiistica brasileira,
(ii) 0 impacto da globaliza~ao no dia-a-dia dos lingiiistas, e (iii) as questoes do ensino.
2.1 - Apesar do muito que se fez, nao e possivel descontinuar as pesquisas
sobre 0 Portugues Brasileiro em sua manifesta~iio atual e em sua forma~ao hist6rica.
Impensavel, tambem, desmontar as pesquisas em Lingiiistica Indigena.
Para a continua~ao dessas tarefas sera necessario que os associados reflitam
sobre 0 investimento de tempo na amplia~iiode sua cultura individual e na execu~ao do
que gostaria de chamar "os projetos centrais para a consolida~iio da cultura lingiiistica
brasileira". E fundamental encontrar aqui um ponto de equilibrio. Operando na periferia
dos grandes centros de gera~iio da reflexao te6rica, ha uma natural preocupa~ao em
"acompanhar 0 movimento cientifico", e niio ficar por fora da marcha da ciencia. Temo
porem que aplicar toda uma vida nesse acompanhamento e tomar tempo aos tais
projetos centrais, e adiar a realiza~iio de tarefas inadiaveis. E born nao esquecer que os
mencionados centros de gera~ao do pensamento te6rico de ha muito venceram uma
agenda basica, que lhes permitiu dar 0 saito para outras esferas de considera~ao.
Americanos, ingleses e franceses procederam ja a uma descri~ao satisfat6ria de suas
linguas. Grandes obras de referencia - gramaticas e dicionarios - foram cuidadosamente
escritas. Partindo de tal volume de conhecimento, 0 saito interpretativo se impoe, e uma
conseqiiencia natural. Essa nao e ainda a situa~ao do Portugues Brasileiro.
Urn dialogo firme e ao mesmo tempo respeitoso entre modelos te6ricos.podera
assinalar nossos pr6ximos movimentos cientificos. Estou falando da teoria gramatical
gerativa, bem implantada no Estado e no pais, e da teoria gramatical funcionalista, que
se tomou mais visivel depois dos debates entre Sebastiao Votre, Anthony Naro e
Milton do Nascimento. Em nosso pais, temos urn jeito especial de sentar lado a lado
pesquisadores de diferentes orienta~oes te6ricas. Essa peculiaridade nao deve ser
esquecida pelas pr6ximas lideran~as. Alem do mais, Mary Kato, casamenteira
juramentada, jli estli apontando para urn bom dililogo gerativismo/funcionalismo: Kato
(1998). De modo que so faltam algumas propostas, urna agenda factivel e urn corpus
bem organizado para que tudo de certo. De novo.
Ora, a experiencia do GEL jli demonstrou 0 efeito multiplicador dos grandes
acervos de dados da lingua. Um passo necessario sera que 0 GEL assurna 0
compromisso, juntamente com a ABRALIN e outras associa~oes regionais, de
implementar urn megabanco de dados sobre 0 Portugues. No ano passado foi fundada a
Associa~AoInternacional de Lingiiistica Portuguesa, presidida por Isabel Hub Faria, da
Universidade de Lisboa. Entre os objetivos dessa Associa~Aoestli 0 de montar urn banco
de dados do Portugues europeu, brasileiro e africano. Pe~o que nossa associa~Ao
movimente todo seu potencial para darmos logo conta desse recado, e aprofundarmos 0
conhecimento da gramlitica e do lexico do Portugues Brasileiro, sem falar no estudo de
sua historia.
2.2 - Em que pesem as dificuldades economicas por que passam nossos paises,
urna nova conjuntura, assinalada pelo impulso da globaliza~Ao,apresenta serios desafios
aos lingiiistas de hoje. 0 desafio de atender nosso indeclinlivel papel social para com
nossas comunidades mais proximas e para com a comunidade maior em que estamos
localizados deve ser cuidadosamente examinado. Ate hli pouco tempo os paises
buscavam sua identidade no antagonismo de uns contra outros. Atualmente, as na~oes
parecem firmar-se em outro dominio, mais aberto a aceita~Ao das diferen~as, mais
determinado a urn discurso com as outras identidades. Aparentemente, elas se mostram
mais seguras de sua propria complexidade e da complexidade alheia, mais convencidas,
enfun, das enormes oportunidades que essa conjuntura oferece aos· espiritos
empreendedores.
Entender 0 papel do GEL nessa nova conjuntura podera ser urn excelente plano
para a escritura da terceira fase de sua hist6ria, aquela que os associados comporAo na
entrada do proximo milenio.
A Ultima decada testemunhou alguns fatos politicos impensliveis ate pouco
tempo atrlis. Na America Latina, deu-se inicio a integra~Ao das na~oes do cone suI,
reunindo paises que se guerrearam no passado, e que ate bem pouco tempo nutriam
grandes desconfian~as uns em rela~Aoaos outros. 0 MERCOSUL e hoje uma realidade
de que devemos nos orgulhar, apesar das naturais trepida~oes em empreendimentos
desse genero. Alem das atividades economicas, esse organismo debate hoje uma politica
cultural gerida em grande parte pela "Associa~Ao das Universidades do Grupo de
Montevideu", AUGM. Uma politica lingiiistica vai se delineando nesse 6rgAo,pois 0
mundo globalizado reclama a intensifica~Ao do ensino das linguas. As linguas do
MERCOSSUL simam-se entre as grandes linguas do mundo. 0 GEL nAodeveria ficar a
margem dessa nova conjuntura, oferecendo seu concurso para esse debate.
Conhecendo-se melhor as manifesta~oes lingilisticas da America Latina,
pIanos de melhoria do ensino de linguas indigenas, do espanhol e do portugues
deveriam ser estudados, informando-se os jovens a~iados
sobre as oportunidades de
trabalho que dai derivam. A Lingiiistica Aplicada tern aqui urn grande papel, a ser
apoiado pelo GEL.
Cinco anos antes do GEL, fundava-se a ALFAL, que tern aberto suas portas ao
encontro cientifico com hispano-americanos, talvez nao com a agressividade possivel. A
ja mencionada AILP permitira urn acesso mais estavel aos nossos colegas portugueses e
africanos. Tudo e uma questao de ousar. A ALFAL podera fazer outro tanto com nossos
vizinhos. Urn born come~o seria que as universidades oficiais paulistas firmassem
convenios com as universidades hispano-americanas e africanas de expressao
portuguesa, recebendo alunos em seus cursos de p6s-gradua~ao, ajudando na cria~ao de
novos quadros junto aos paises concernidos. Falando apenas de nossos vizinhos, quem
acompanhar numa forma comparativa os estudos lingiiisticos na America Espanhola e
na America Portuguesa constatara uma grande virada de perspectivas. Ate os anos 60, a
lingiiistica hispano-americana era mais rica e dimlmica que a brasileira. Grandes mestres
europeus foram trazidos, grupos de pesquisa foram organizados, e muitas publica~oes
logo come~aram a sair. A partir daquele marco as coisas se inverteram, e hoje nossos
vizinhos nao puderam substituir seus quadros, as bibliotecas se desatualizaram, e raros
cursos de p6s-gradua~ao foram implantados. Ora, compartilhamos uma mesma heran~a
iberica, e temos muitos problemas em comurn. Esses problemas poderiam ser
equacionados, e solu~oes encaminhadas. 0 GEL precisaria ter uma politica cientifica
internacional. Esta e minha segunda sugestao.
2.3 - Finalmente, creio que esta mais que na hora de suspender esse velho
interdito segundo 0 qual ocupar-se do ensino e urna "questao menor" . Nao deveriamos
ter medo de lidar com esse assunto. Durante toda nossa historia os associados
promoveram iniciativas nessa dire~ao. Durante a primeira fase do GEL, foram
realizados encontros de mestres, minicursos e conferencias voltadas para a atualizac;ao
dos conhecimentos dos professores de Portugues do primeiro e segundo graus. Depois,
por iniciativa da Coordenadoria de Normas Pedag6gicas da Secretaria da Educa~ao, urn
grupo de professores preparou e publicou os Subsidios a Proposta Curricular de
Portugues para 0 segundo grau. Finalmente, a Lingiiistica Aplicada fez sua forte
apari~ao entre nos, institucionalizou-se, tern sua associac;ao, sua revista e seus
congressos.
A autoridade central tern ouvido os lingiiistas - nao tanto quanto os banqueiros,
e claro - e os Pardmetros Curriculares Nacionais repercutem nossos debates, nossos
pIanos na area.
Mas sabemos qual e a situac;aodo magisterio de primeiro e segundo graus entre
nos. E tamoom sabemos que sem urna forte atua~ao no sentido de sua melhoria, a
cidadania continuara sem possibilidades de inserir-se no mercado de trabalho. Tanto
num caso como noutro, a competencia e fundamental.
Poderiamos preparar, com a ajuda dos colegas de primeiro e segundo graus,
materiais didaticos de apoio - nlIo 0 manualzao didatico unico -, mas urn conjunto de
pequenos livros tematicos, propondo novas atividades em sala de aula. 0 GEL poderia
administrar isso, fazendo uma media~ao entre 0 corpo associativo e as Secretarias
Municipais da Educa~do. A crise nacional e tamanha que ndo e mais possivel
continuarmos a dirigir nossos esfor~os unicamente para a academia. E preciso atuar
tambem fora dela.
Nesta fala, relembrei os passos dados pelo GEL em seus 30 anos de existencia,
e sugeri a discussdo alguns temas importantes para a continua~do de suas atividades. 0
clima democnitico que se instalou no interior de nossa associa~ao e 0 certo penhor de
que essas iniciativas terdo condi~oes de sucesso.
Sumarizando tudo, gostaria de formular a seguinte sugestdo: que 0 GEL
identifique juntamente com 0 corpo associativo os temas pendentes, e passe a promover
pesquisas, em lugar de apenas - 0 que ja ndo e pouco ! - arranjar 0 palco para as
pesquisas prontas. 0 GEL poderia nesta virada de milenio tentar jogar nos dois times.
Continuar a ofereeel' a moldura para que nossos jovens pesquisadores, e tambem os
"seniors", prossigam apresentando 0 resultado de suas investiga~oes, obtido
solitariamente ou em grupo. E ir ao encal~o do que ndo se esta fazendo. Isso obrigaria 0
GEL talvez a alterar ligeiramente seu arranjo interno, de forma a acomodar Grupos de
Trabalho. Ndo os Grupos de Trabalho de nossos seminarios - que devem continual', e
claro -, nem aqueles como os concebeu a Anpoll, correspondentes as disciplinas da
Linguistica. Mas Grupos de Trabalho voltados para tarefas especificas, como aquelas
sugeridas no item anterior, e muitas mais, que, espero, ja estejam fervilhando na cabe~a
de nossos associados.
RESUMO: 0 texto e uma breve histaria do GEL no momenta de seu 300 aniversario.
formulando-se hipateses a respeito de suas praximas atividades. num mundo
globalizado.
PALAVRAS-CHAVE: Histaria da Lingiiistica no Estado de Sao Paulo; areas centrais
e areas de contacto na Lingiiistica; Lingiiistica Brasileira numa perspectiva
globalizada.
ABAURRE, Maria Bernadete Marques / RODRIGUES, Angela Cecilia de Souza.
(Orgs., no prelo). Gramatica do Portugues Falado, vol. VIII. Campinas: Editora da
Unicamp.
ALTMAN, Cristina. Trinta anos de Lingiiistica no Brasil: 0 caso do GEL, Sdo Paulo,
Estudos Lingiiisticos [Anais dos Seminarios do GEL], vol. 34, p. 6-18, 1995.
BORBA, Francisco da Silva. Dicionario Gramatical de Verbos do Portugues
Contempordneo do Brasil. Sdo Paulo: Editora Unesp, 1990.
CASTILHO, Ataliba T. de. Quinze anos de Grupo de Estudos Lingiiisticos do Estado de
Siio Paulo. Estudos Linguisticos [Anais dos Semimirios do GEL], Batatais, vol. IX,
p. 10-20, 1984.
-----.0 papel do Grupo de Estudos Lingiiisticos do Estado de Siio Paulo, de 1969 a
1971. Estudos Linguisticos [Anais dos Semimirios do GEL], Lorena, vol. XVIII, p.
14-20, 1989.
-----. (Org.). Gramatica do Portugues Falado, vol. I, A Ordem. Campinas, Editora da
UNICAMPIFAPESP, 1990, 2a. ed., 1991, 3a. ed., 1997.
-----.(Org.). Gramatica do Portugues Falado, vol. III, As Abordagens. Campinas:
Editora da Unicamp/Fapesp, 1990.
----- / BASILIO, Margarida. (Orgs.) Gramatica do Portugues Falado, vol. IV, Estudos
Descritivos. Campinas: Editora da Unicamp/Fapesp, 1996.
-----/ PRETI, Dino / RISSO, Mercedes Sanfelice / ABAURRE, Maria Bemadete M.
GEL, novos caminhos. Estudos Linguisticos [Anais dos Semimirios do GEL], Siio
Paulo, vol. XXIV, p. 19-35, 1995.
-----. Projeto de Gramatica do Portugues Falado. Estudos Lingiiisticos[Anais
dos
Seminarios do GEL], Taubate, vol. XXVI, p. 62-73, 1997.
FRANCA, Angela Maria Ribeiro et alii. Mapeamento historiogratico da prodUl;iio
lingiiistica nos 25 anos do GEL, Siio Paulo, Estudos Linguisticos [Anais dos
Seminarios do GEL], vol. 34, p. 50-57, 1995.
ILARI, Rodolfo. (Org.) Granuitica do Portugues Falado, vol. II, Niveis de Analise
Lingiiistica. Campinas: Editora da Unicamp, 1992.
KATO, Mary A. (Org.). Gramatica do Portugues Falado, vol. V, Convergencias.
Campinas: Editora da UnicamplFapesp, 1997.
-----. Formas de funcionalismo na sintaxe, D.E.L.T.A., vol. 14, mimero especial, p. 145168,1998.
KOCH, Ingedore Gnmfeld Vilac;a. (Org.). GramMica do Portugues Falado, vol. VI.
Campinas: Editora da UnicamplFapesp, 1996.
NEVES, Maria Helena Moura. (Org., no prelo). Gramatica do Portugues Falado, vol.
VII. Siio Paulo/Campinas: HumanitaslEditora da Unicamp.
-----. Gramatica de Usos do Portugues, no prelo.
PRETI.Dino / URBANO, Hudinilson. (Orgs.). A Linguagem Falada Culta na Cidade de
Sao Paulo. Siio Paulo: TAQIFapesp, vol. IV, Estudos, 1990.
PRETI, Dino. (Org.). Analise de Textos Orais. Siio Paulo: FFLCH/USP, 1993; 2a. ed.,
1995.
PRETI, Dino. (Org.). 0 Discurso Oral Culto. Siio Paulo: Humanitas, 1997.
RODRIGUES, Aryon Dall'Igna. Tarefas da Lingiiistica no Brasil. Estudos Lingiiisticos
[Instituto de Idiomas Yazigi], Sao Paulo, vol. I, tomo 1, p. 4-15, 1966.