VARGAS, EDUCAÇÃO E MEMÓRIA EM SUA TERRA NATAL Maria Izabel Guimarães Scalco UNIJUÍ – Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul Palavras chave: Getúlio Vargas; São Borja. O presente trabalho destaca desdobramento de dois capítulos nucleares da pesquisa que se encontra na fase de conclusão. O primeiro capítulo trata da investigação nas escolas e o segundo, ocupa-se da leitura da paisagem, visando-se, em ambos, verificar como a história e a memória do presidente Getúlio Dornelles Vargas fazem-se presentes na educação formal e em determinados locais de memória de sua cidade – São Borja. Metodologia e Instrumentos de Pesquisa Tomou-se como ponto de partida deste trabalho, que visa desenvolver uma pesquisa qualitativa, a seleção e elaboração de instrumentos para a realização de entrevistas informais, semi-estruturadas, as quais facilitaram as narrativas ao permitir que as falas fluíssem com maior naturalidade, sendo visto como um dos fatores que vieram a oferecer segurança na obtenção daquilo que se precisava colher. Buscou-se, basicamente para assegurar o desenvolvimento e a qualificação da pesquisa, o respaldo teórico de Jaques Le Goff, medievalista francês, e de Pierre Nora, historiador também francês, por saberem tratar com excelência a problemática da memória, do esquecimento, dos lugares de memória, aspectos interessantes, que são focados ao longo da investigação. Uma das grandes preocupações foi buscar caminhos, para que as narrativas ocorressem agradáveis e frouxas, mas, quanto possível, disciplinadas, tratando-se sempre de obter as informações quentes e adequadas à situação e à pesquisa visto que a linguagem intervém na memória por ser ela “a linguagem, própria produto da sociedade” (LE GOFF, 1996, p. 425). Como pesquisadora iniciante tentou-se também escapar das armadilhas do método que a todo o instante envolvem quem investiga no seu próprio campo de investigação, também houve especial cuidado para que não houvesse confusão entre intuição e interpretação do "real". Almeja-se que esta auto-reflexão possa ter 2 auxiliado nos enfrentamentos diante das contradições e das diferenças que se lançam contra quem pesquisa, pois pesquisar é uma aventura que nunca se sabe quando vai finalizar, mas que se torna sempre um inarredável e apaixonante desafio. A História e Memória de Vargas nas Escolas de São Borja Foram alvo da investigação as escolas municipais, estaduais e particulares da sede do município são-borjense. Após os primeiros contactos, solicitou-se a cada educandário seu histórico oficial, estudá-lo auxiliou para que se tomasse conhecimento da sua realidade o que veio a facilitar a posteriore as entrevistas e as observações não participadas, quando essas foram necessárias. Entende-se que a escola é a grande responsável pela manutenção e transmissão da história e memória de um povo, tendo entre suas tarefas não permitir que os feitos humanos caiam no esquecimento, “[...] a memória é um dos suportes essenciais para o encontrar-se dos sujeitos coletivos, isto é para a definição dos laços de identidade” (FELIX, 1998, p. 35). Esta etapa da pesquisa voltou-se essencialmente para verificar como a história e a memória de Vargas estão sendo tratadas independentemente da formação dos professores, e sim , mediante o foco que as particulariza, levando-se em conta a consciência histórica do magistério, bem como a metodologia e os recursos utilizados em sua pratica pedagógica, objetivando a construção e manutenção da história memorialística deste político, entre as crianças e jovens estudantes de São Borja. A consciência histórica que emana dos diferentes focos que a produzem é a história? Claro, ela constitui uma representação da história e define a identidade de um grupo, de uma nação de uma sociedade; contudo, permanece apenas como uma representação particular que os outros grupos sociais ou políticos não compartilham necessariamente (FERRO, 1986, p. 80). O Trabalho Investigativo nas Escolas Buscou-se operar no território dos educandários por serem estes os lugares de memória onde o ensino da história e memória fazem-se presentes, e, hoje, circulam livremente nos espaços de ensino entre os mediadores e os alunos, que devem ser construtores de seus próprios conhecimentos. 3 Foram atores sociais, nesta etapa, as professoras de educação infantil e os professores de todas as séries do ensino fundamental e médio, diretores, coordenadoras pedagógicas das escolas investigadas, tanto no exercício de suas funções quanto de aposentadas, em alguns casos. A Analise das Investigações nas Escolas Não foi tarefa singela analisar sobre o ensino de Vargas, concluir como se exterioriza o desejo de manter sua memória presente no coletivo social dos sãoborjenses,e se há preocupação em apresentar episódios significativos de sua historiografia ou da sua própria história oral para a construção de sua memória histórica . “Pode-se imaginar a prudência daqueles que têm como profissão analisar, testemunhar [...] Um dos meios mais comuns de exprimir idéias proibidas, ou simplesmente de enunciar fatos que não estão de acordo com a idéia oficial é fazer um deslocamento do discurso [...]”. (FERRO, 1986, p. 41). Nas escolas são-borjenses, graças à prática da história oral desenvolvida pelos educadores, a história de Vargas continua sendo difundida, fazendo com isto que sua memória continue “viva” a partir dos discursos das educadoras, que atuam basicamente no ensino fundamental. Diante de seus relatos orais, foi possível viabilizar esta análise interpretativa, uma vez que “a memória com propriedade de conservar certas informações, remete-nos em primeiro lugar a um conjunto de funções psíquicas, graças as quais o homem pode atualizar impressões ou informações passadas, ou que ele representa como passadas” (LE GOFF, 1996, p.423). A memória escrita, a historiografia de Vargas foi utilizada, porém, em baixa escala e, preponderantemente, no ensino médio das escolas estaduais. Por outro lado, as visitas aos locais de memória, são freqüentes, durante o ano letivo pela maioria das turmas de alunos do ensino fundamental. A arte através de filme, caricaturas, desenhos, maquetes, montagens de filmagens e de painéis fotográficos são largamente utilizados, praticamente, em todas as escolas de São Borja, sendo que em diversas são realizadas exposições de trabalhos, geralmente em 19 de abril, data do nascimento de Vargas, ou em 24 de agosto, data e sua morte. Os educandários têm por hábito, abrir suas portas para que seu coletivo externo aprecie os trabalhos que aparecem sob forma de homenagem ao Presidente. 4 “Peneirando” as interlocuções, analisando os dados notou-se que se destacaram, entre os educandários são-borjenses, as escolas municipais, por lançarem mão de variada metodologia e de múltiplos recursos de ensino, visando à construção e manutenção da história e memória Varguista na comunidade da terra que lhe viu nascer. Volta-se o capítulo seguinte para a paisagem urbana de São Borja, a fim de verificar onde se encontram as marcas daqueles locais de memória de Vargas, que foram deliberadamente criados e conservados hoje pelos são-borjenses quase meio século após sua morte. A Memória de Vargas na Paisagem de São Borja Para finalizar a investigação, partiu-se para uma detida e minuciosa leitura da paisagem são-borjense, que foi observada e analisada com objetivo de localizar e constatar indícios diversos que pudessem e possam ser concebidos como “lugares de memória”, simples ou ambíguos, naturais ou artificiais e, ainda, em seu sentido material, funcional e simbólico, mas que traduzissem e traduzam a intenção primária ou adquirida de unir a comunidade local, sensibilizando-a a manter e dar continuidade a história e memória do presidente Getúlio Dornelles Vargas. Memória Ao chegar o momento de se voltar a atenção para a história local, que vem recentemente conquistando importante papel entre os pesquisadores, concomitantemente, nasceu na autora desse trabalho as labaredas do fascínio de mexer com a memória de sua cidade, sentindo-se o desafio de aguçar os ouvidos, tornar o olhar mais penetrante, mais agudo e desarmar o espírito para melhor ver, observar, ler, escutar e interpretar sobre tudo o que, na paisagem de São Borja atualmente apresenta vestígios ou presença marcante de memória, tendo Vargas como foco. Procurou-se vencer as dificuldades apresentadas nesse trabalho, que se espraia parcialmente em base empírica. Trabalhar com e sobre a memória não é apenas contextualizar o desenvolvimento da pesquisa emoldurando-a com o factual, procurando situar o texto no tempo cronológico, vai além – é trabalhar com a expressão do tempo histórico – que por ser histórico é complexo, denso e contraditório. Para Pierre Nora, historiador francês, é fundamental clarificar a diferença 5 entre memória e história, e isto se impõe para evitar que seja estabelecida maior confusão do que a já existente. Memória e história: longe de serem sinônimos, tomemos consciência que tudo opõe uma à outra. A memória é a vida, sempre carregada por grupos vivos, nesse sentido, ela está em permanente evolução, aberta a dialética da lembrança e do esquecimento, inconsciente de suas deformações sucessivas, vulnerável a todos os usos e manipulações, susceptível de longas latências e de repentinas revitalizações. A história é a reconstrução sempre problemática e incompleta do que não existe mais. A memória é um fenômeno sempre atual, um elo vivido no eterno presente; a história uma representação do passado. Por que é afetiva e mágica, a memória não se acomoda a detalhes que a confrontam; ela se alimenta de lembranças vagas, telescópicas, globais ou flutuantes, particulares ou simbólicas, sensível a todas as transferências, cenas, censuras ou projeções. A história, porque operação intelectual e laicizante, denominada análise e discurso crítico. A memória instala a lembrança no sagrado e a história a liberta e a teoria prosaica (NORA, 1993, p. 9). Conhecer a sua própria história deveria ser uma preocupação constante de cada sociedade, pois é ela que gera e alimenta a memória local, que é absorvida e continuada pelos atores sociais que dela fazem parte, sem falar da importância dessa, devido ao peso que ela apresenta na constituição das identidades de seus sujeitos sociais. No que diz respeito a atores sociais, entendo por identidade o processo de construção do significado com base em um atributo cultural, ou ainda um conjunto de atributos culturais inter-relacionados, o(s) qual (is) prevalece(m) sobre outras fontes e significado [...] a construção das identidades vale-se da matéria-prima fornecida pela história, geografia, biologia, instituições produtivas e reprodutivas, pela memória coletiva e por fantasias pessoais, pelos aparatos de poder e revelações de cunho religioso (CASTELLS, 1999, p. 22-3) Investigação na Paisagem de São Borja Julgou-se interessante buscar, no espaço/tempo de São Borja, locais e recintos, capazes de consolidar achados de memória, nesta histórica cidade missioneira. Houve muito empenho para “tentar analisar esses acontecimentos como mera observadora, posterior mas que procurou bem informar-se [...]” (BURKE, 1992, p. 337) 6 Para que a memória possa vir a se corporificar, é necessário que antes, por detrás, alguém interfira na criação e construção de algo que, materializado, independente de sua forma ou local, oportunize elementos capazes de influenciarem na memória coletiva, lembrando que “a memória coletiva passou a fazer parte dos estudos históricos por muitos meios e formas [...]” (FERREIRA, 1996, p. 75). Um Olhar Voltado para Memória de Vargas na Paisagem de São Borja Ao se desenvolver um estudo sobre a memória histórica de uma cidade, nesse caso, especificamente a de São Borja, está-se também revolvendo a sua história local, ocasião oportuna para fazer a verificação de alguns dos aspectos que a constituem. Considera-se que o objeto da investigação é certificar-se junto às fontes primárias e através dos atores sociais como e através de quê a presença de Vargas evidencia-se como “viva” entre os são-borjenses, sabendo-se que ele morreu em 1954 e que, em agosto próximo, irá completar-se meio século de sua ausência no cenário político nacional. Como uma história e destinos comuns, memórias podem ser mantidas vivas e a glória das nações preservada. Porque somente na seqüência de gerações daqueles que compartilham os laços históricos, quase familiais é que os indivíduos podem alimentar a esperança de conquista de uma noção de imortalidade, ainda que inseridas em eras de horizontes puramente terrenos (SMITH in CASTELLS, 1999, p. 47). A seguir, passam a ser pontuados os locais de memória da paisagem de São Borja, que evocam e/ou cultuam a memória de Vargas, possivelmente, para exteriorizar sua admiração e justificar a pretensão de manter permanentemente fortalecida a memória do homenageado entre os habitantes de sua terra. Locais de Memória Mencionam-se alguns exemplos de “locais de memória”. Entre os diversos componentes, que pontuam a paisagem local e que, indiscutivelmente, ligam-se à memória de Vargas, foi escolhida para figurar em primeiro plano a Avenida Presidente Vargas. O motivo inicial é por constarem nos registros que a primeira manifestação que surgiu em São Borja para homenagear Vargas, logo após sua morte, ocorreu no dia 9 de setembro de 1954: proposição de Florêncio Aquino Guimarães (PTB), vereador na época, tendo o prefeito Ory Dornelles (PTB) assinado a lei municipal 111, que mudou a denominação da rua 7 de Setembro para Avenida 7 Presidente Vargas. Essa avenida tem movimentação intensa, por estarem nela concentrados muitos pontos que vão ao encontro das necessidades e interesses da sociedade de São Borja. O outro motivo é por ser a mais importante avenida da zona urbana são-borjense. A segunda homenagem a Vargas, em São Borja, ocorreu em 1956, com a instalação, no centro da Praça XV de Novembro, de um monumento com a estátua do ex-presidente, a qual ainda hoje, lá se encontra. Sendo um local de memória e ponto de atração para estudantes, historiadores, jornalistas, repórteres fotográficos, pintores e turistas. Quem tomou a iniciativa e coordenou a campanha para a construção do monumento foi o líder político do antigo Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), o médico reconhecido como humanitário pelos são-borjenses, Mauá Benjamim da Costa Ferreira, que assumiu a coordenação da campanha na cidade para a implantação da estátua e seu pedestal (com altura de 4 metros). Tal atitude, é provável que, possa ser considerada como fonte de alternativa e resistência aos não varguistas. Em 27 de novembro de 1963 foi inaugurada uma biblioteca. Essa instituição recebeu a denominação de Biblioteca Municipal Getúlio Vargas, mediante Lei n0 437, sancionada pelo então prefeito Florêncio Aquino Guimarães (PTB), cujo projeto de também foi de sua autoria. Inicialmente, a Biblioteca funcionou em um salão na Prefeitura Municipal, estando hoje instalada em prédio próprio na Travessa Albino Pffaifer nº 1115, sendo que, em uma de suas dependências, funciona o Museu Apparício Silva Rillo, que reúne considerável acervo de peças da arte sacra missioneira do período jesuítico em São Borja, constando de muitas de estátuas de santos, tocheiros, lápides e objetos sacros. Fazem parte também desse acervo uma réplica da máscara mortuária de Vargas e fotos inéditas do ex-presidente. Nas paredes da sala do Museu, aparecem muitas fotos de Getúlio durante sua carreira política. O prédio da Biblioteca é bastante amplo. Seu funcionamento dá-se pela manhã e tarde, aos sábados, seu atendimento restringe-se ao turno da manhã. É a Biblioteca Getúlio Vargas um “local de memória” muito freqüentado por pessoas comuns da comunidade, por pesquisadores locais e forasteiros, por alguns professores habituais e, principalmente, por estudantes. Inegavelmente, esse “local de memória” varguista é um espaço muito concorrido. 8 O Parque Florestal Getúlio Vargas recebeu esta denominação em cumprimento ao disposto no Artigo 58, Inciso III, da Lei Orgânica do Município de São Borja, aprovada pela Câmara Municipal de Vereadores, denominando este logradouro público “de que trata a Lei nº 1.152/83 de 21 de setembro de 1983, tendo sua promulgação, em 30 de agosto de 1985, pelo então prefeito Arneldo Matter” (PDS). Segundo o atual secretário municipal do meio ambiente, o projeto inicial do Parque foi descaracterizado e sua área de 50 hectares está localizada em uma área de preservação ambiental, conforme determina o Plano Diretor do Município, sendo bastante arborizada com plantas nativas, possui também uma vegetação remanescente de mata siliar e área campestre, sendo habitada por diferentes espécies de aves. Localiza-se em zona de várzea. Para que possa vir a ser concretizado, seu projeto atual, que foi encaminhado para o Fundo Nacional do Meio Ambiente e obteve há 2 anos aprovação, é necessária a liberação de verba para sua implementação, que deverá vir a ser liberada no momento em que estiver disponível. Não são muitas as pessoas de São Borja que têm conhecimento desse Parque e de sua finalidade, verificou-se que ele é praticamente ignorado pela comunidade. Em 1982, foi concluída a construção de um edifício, localizado com a face principal para a Praça XV de Novembro com saída para a Rua Cândido Falcão. A obra totaliza 4.500 metros quadrados, é o prédio mais alto de São Borja e recebeu a denominação de Galeria Presidente Vargas. A escolha do nome surgiu de uma iniciativa de caráter particular, através de um condomínio liderado por Jorge Flores Vargas, empresário, e pelo engenheiro Kalil Zachia. Pela imponência do prédio, aliado a sua privilegiada localização e ao nome que lhe foi designado, o edifício tornou-se um destacado local de memória. Ao completar-se cem anos do nascimento de Vargas (1983), a primeira homenagem oficial à sua memória partiu da Câmara de Vereadores. Era prefeito Hildebrando Aquino Guimarães (PDS) que sancionou a Lei número 1.128, cujo projeto foi apresentado pela Mesa Diretora da Câmara de Vereadores, denominando “Palácio Presidente Getúlio Dornelles Vargas” a sede da Câmara Municipal, cito na rua Olinto Aramy Silva, 1043, em zona central da cidade. Ao se voltar mais uma vez a atenção para este lugar monumental – o Cemitério Jardim da Paz – onde esta localizado a Alameda dos Presidentes, o 9 interesse concentra-se na “História que fermenta a partir dos ‘lugares’ da memória coletiva” (LE GOFF, 1996, p. 473). Espaço esse que, antes de ser criado, gerou muita polêmica política, mas que, sem dúvida, hoje, distingue-se como um local de memória que exerce muita atração turística. Esse monumento arquitetônico une os mausoléus dos presidentes Vargas e Goulart. O Museu Municipal Getúlio Vargas está situado na Avenida Presidente Vargas, número 1772, centro da cidade de São Borja-RS. O prédio onde se encontra instalado o museu foi propriedade de Getúlio, que providenciou em sua construção em 1910, pensando em um lugar para residir, ao casar-se com Darcy Sarmanho e, também, para instalar seu escritório advocatício. Esse museu foi idealizado por um filho de Vargas, Lutero Sarmanho Vargas, que, após o falecimento de sua mãe, passou a residir em São Borja. Foi fundado em 17 de fevereiro de 1982. Em 1995, esteve com suas portas fechadas, face à precariedade de suas instalações, tendo sido restaurado na administração do prefeito Luiz Carlos Heinze (PPB). Sua reabertura ocorreu em 24 de agosto deste mesmo ano, com reinauguração festiva. Recebe esse lugar de memória constante visitação de pesquisadores, jornalistas e turistas. A Escola Estadual Getúlio Vargas teve Vargas como seu fundador e o tem como patrono. O “Getúlio”, como os são-borjenses costumam referir-se a esta escola, uma das mais antigas da cidade, também é lembrança viva da memória do estadista. Fundada em 1913, inicialmente funcionou com a denominação de Colégio Elementar, tendo sido sediada em três diferentes locais. Seu prédio hoje está situado na Avenida Presidente Vargas. Sua construção foi iniciada em 1930 e, em 1937, sua denominação foi alterada para Grupo Escolar Getúlio Vargas. Sua denominação atual é Colégio Estadual Getúlio Vargas, é escola de referência no Estado. Diante do que foi verificado, são perceptíveis, na paisagem de São Borja, muitas marcas existentes desta figura histórica, cuja memória converge para espaços diferenciados, físicos ou simbólicos que, numa conjugação de idéias simpáticas a Vargas, fizeram com que sua memória continuasse sendo reverenciada e preservada ao longo do tempo. Por certo descobriram os são-borjenses múltiplas formas de cultuar sua história e memória, mesmo após quase meio século de sua morte. Desde 1955, elevado número de são-borjenses, independente de ideologia ou facção partidária e até mesmo aqueles que pensam ser politicamente neutros não abrem mão da visitação ao branco jazigo de mármore, onde está sepultado Vargas. 10 Para Le Goff “os fenômenos da memória, tanto nos aspectos biológicos, como nos psicológicos, mais não são do que os resultados de sistemas dinâmicos de organização e apenas existem na medida que a organização os mantém e os constitui”. (1986, p. 424). Com segurança, é possível afirmar que o costume de visitar, levar flores e/ou orar pelo morto, que jaz na Quadra dos Jazigos nº 01, sepultura nº 01, faz parte dos hábitos adquiridos e que estão enraizados na memória e traduzidos em gestos pelos são-borjenses e até mesmo por políticos de destaque nacional, que não esquecem de homenageá-lo, reverenciando sua memória. Ao concluir, convém ressaltar, não fora a força da história oral e o poder da memória, muitos capítulos da história, hoje estariam completamente apagados, não fariam parte da história viva das aldeias, das metrópoles, das grandes nações e quiçá da humanidade. A investigação permitiu, com o respaldo majoritário da história oral, perceber claramente que cada instituição escolar tem características muito próprias na maneira de educar, desenvolvendo de forma peculiar os conteúdos e atividades referentes à história varguista. Há, na maioria das escolas municipais, na sala principal de cada educandário, em lugar destacado, a fotografia do presidente Vargas, sendo isso considerado como um evidente culto a sua memória. Por outro lado, algumas escolas estaduais destacam-se pelas atividades realizadas nas comemorações varguistas, as quais envolvem seus coletivos interno, externo e também a comunidade. Como exemplo citam-se as gincanas culturais com tarefas voltadas para a história e memória de Getúlio. Notadamente todas as instituições de ensino buscam formas variadas de práticas pedagógicas, realizando um trabalho educativo, visando clarificar e nutrir a história de Getúlio Vargas e, simultaneamente, descobrir meios que levem o alunado a cultuar e preservar a memória do são-borjense que se manteve, pelo mais longo período de nossa história, como supremo mandatário da nação. Não há dúvida de que os conterrâneos de Vargas dedicaram-se e dedicam-se a cultuar e reverenciar a sua memória sempre que lhes é oportuno. Olhar a paisagem de São Borja, pontuada por “locais de memória”, que a todo o instante evocam a presença de Getúlio e, ao mesmo tempo, enfatizam sua importância no cotidiano dos são-borjenses de todas as classes sociais, é testemunho vivo da “devoção varguista”. 11 São Borja, que foi inicialmente povoada por Tapes, Charruas e Minuanos, fundada pelo padre argentino Francisco Garcia, sendo o primeiro dos Sete Povos das Missões Orientais do Rio Uruguai, em sua segunda fase (1682), é uma cidade histórica, é uma cidade de memória, que não se cansa de dar atenção, de criar ritos e homenagens ao maior de seus filhos pelo que ele representou e representa não só para a história do Brasil, mas também no concerto de outras nações. 12 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BURKE, Peter (org.). A escrita: nova perspectivas. São Paulo: Editora da Universidade Estadual Paulista, 1992. CASTELLS, Manuel. O poder da identidade. 3.ed. São Paulo: Paz e Terra, 1999, col. A era da informação: economia, sociedade e cultura. FELIX, Loiva Otero. História e Memória: a problemática da pesquisa. Passo Fundo: EDIUPF, 1998. FERREIRA, Marieta de Moraes. O inventário das idéias: história e sociologia. São Paulo: Brasiliense, 1996. FERRO, Marc. A história vigiada. São Paulo: Martins Fontes, 1986. LE GOFF, Jaques. História e Memória. Traduzido por Bernardo Leitão. 4. ed. Campinas: UNICAMP, 1996. NORA, Pierre. Entre memória e história. A problemática dos lugares. In: Projeto História São Paulo. São Paulo: [s.ed.], 1993.