Vinho&Cia Ano 7 - Número 60 - R$ 8,00 ConVisão www.jornalvinhoecia.com.br Vinhos que valem ouro! 27 vinhos até 100 reais, recém lançados, selecionados pelo custo benefício e que valem cada centavo do seu dinheiro E mais: a qualidade na altitude de São Joaquim Aperitivo A decisão pelo Pense que você está com vontade de hoje à noite comer uma pizza bem simples, sem nenhuma pretensão especial, entregue na sua casa (pelo delivery, palavra que parece “chic” para os amantes da língua, não a nossa, claro). Abre um guia de vinhos ou consulta uma revista especializada e procura um rótulo para comprar numa loja e levar para acompanhar a pizza. Folheia, pesquisa, encontra alguns produtos interessantes e se depara com pontuações: 88/100, 15,5/20, 3 estrelas... Aí você procura o preço. É dia em que você não quer gastar muito... Pense que na semana seguinte é seu aniversário e que você quer comemorar com alguém de Vinho&Cia Ano 7 - Número 60 www.jornalvinhoecia.com.br “Custo Benefício” quem gosta bastante e beber algo especial num jantar sofisticado que você mesmo vai preparar em casa. O bolso porém não está muito cheio, foram muitos os gastos nas férias. Aí folheia novamente para encontrar algo bom e levar para casa... E se depara com as pontuações... Nas duas situações você na realidade quer o melhor pelo preço que você está disposto a pagar em cada momento. É claro que um vinho de 300 reais é superior a um de 30 em qualquer lugar do mundo, e o de 300 terá uma pontuação mais alta do que o de 30. Mas é o momento de você pagar 300? E ele vale o preço? E o que dizer do vinho de 30? Vinho&Cia responde a você exatamente isso. Indicamos sempre nas nossas páginas os rótulos que valem ouro, ou seja, que têm bom custo benefício. Então não deixe de conferir nesta edição o resultado da degustação de vinhos lançados recentemente no país com valor até 100 reais e descubra aqueles que valem cada centavo do seu dinheiro. E você nem precisa olhar pontuações e fazer contas. Nós provamos antes para você beber melhor! Tim-tim! PS: Ah! É bom conferir também todos os textos da nossa equipe de colunistas, a maior especializada em vinhos no país. Um amante do vinho não vai se arrepender. Editor Regis Gehlen Oliveira Publicação ConVisão Al. Araguaia, 933, 8o. and. Alphaville 06455-000, Barueri, SP Colaboradores Adão Morellatto / Adriana Bonilha Álvaro C. Galvão / Andréa Pio Beto Acherboim / Carlos Arruda Cesar Adames / Custódio Denise Cavalcante / Didú Russo Norio Ito / Euclides Penedo Borges Fernando Quartim / Jairo Monson João Lombardo / Maria Amélia Sérgio Inglez / Walter Tommasi Regis Gehlen Oliveira, editor (11) 4192-2120 [email protected] Nas páginas desta edição... 9 Assinaturas e Propaganda 16 26 31 Vinho & Cia é uma publicação da ConVisão relativa ao segmento de vinhos e suas companhias naturais, como gastronomia, restaurantes, prazer, conhecimento, viagens e outras. Circula principalmente em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Rio Grande do Sul, nos principais restaurantes e lojas especializadas. Pode ser adquirido por assinaturas ou em bancas selecionadas. Os artigos e comentários assinados não refletem necessariamente a opinião da editoria. 4- Vinho Tinta (Custódio) 6- Vinho&Saúde (Jairo Monson) 8- Acontece No Mundo do Vinho 9- Vinhos que valem ouro! Lançamentos até 100 reais 16- Todo Vinho (Sérgio Inglez de Souza) 19- América do Sul (Euclides Penedo Borges) 20- Velho Mundo (Walter Tommasi) 21- Vinho na Academia (Carlos Arruda) 22- Que negócio é esse? (Álvaro Cézar Galvão) 24- Vinho é arte (Maria Amélia) 25- Viajando com Vinho (Adriana Bonilha) 26- Na altitude de São Joaquim (Andréa Pio) (João Lombardo) 30- Charutos & Destilados (Cesar Adames) 31- Comportamento (Didú Russo) A menção de qualquer nome neste veículo não significa relação trabalhista ou vínculo contratual remunerado. Associado à Vinho&Cia - No. 60 Vinho & Cia - No. 60 Vinho Tinta No piquenique... Vinho&Cia - No. 60 Aprecie com moderação Recém lançado, já vale ouro! Suzin Zelindo 2008 Do terroir único de 1200 m de altitude Em São Joaquim, Santa Catarina, e da safra excepcional de 2008 nasceu esse vinho reserva único, de merlot e cabernet sauvignon, que já recebeu medalha de ouro do jornal Vinho&Cia pela excepcional relação custo benefício VINÍCOLA SUZIN R. Juiz fonseca nunes, 379 São Joaquim, SC (49) 3233-1038 WWW.VINICOLASUZIN.COM.BR Vinho & Cia - No. 60 Vinho & Saúde É verdade que... Para a mudança deste conceito foram importantes os dados de um estudo de cohort feito no Reino Unido – o Estudo Millennium. Esta pesquisa foi conduzida por cientistas da Universidade de Oxford e da University College London. Eles estudaram 11.513 crianças nascidas entre setembro de 2000 e janeiro de 2002. Estas crianças foram acompanhadas por 5 anos. Os pesquisadores descobriram que os nenês nascidos de bebedoras leves eram 30% menos propensas a ter problemas comportamentais do que as crianças cujas mães não beberam durante a gravidez. Neste estudo as gestantes foram classificadas em 5 grupos: 1. Nunca beberam (5,9%); 2. Não beberam apenas durante a gestação (60,2%); 3. Bebedoras leves (25,9%), ou seja, que ingeriam uma ou duas unidades de álcool por semana ou ocasião; 4. Bebedoras moderadas (5,5%) que ingeriam 3 a 6 unidades por semana de álcool para as mulheres é uma unidade por dia. Os dados deste estudo, embora impactantes, exigem cuidados na sua interpretação. Os resultados favoráveis para os filhos de bebedoras leves podem se dever a outros fatores que não ao álcool. Estas mães, neste estudo, tinham também os melhores trabalhos e um maior nível de educação. Não é crível que o álcool ajude no desenvolvimento da criança. Mas “é inegável que as crianças nascidas de bebedoras leves não têm maior risco de dificuldades no desenvolvimento, em comparação com as crianças cujas mães não beberam durante a gravidez”, disse a autora Dra. Yvonne Kelly, do Departamento de Epidemiologia e Saúde Pública da University College London. Destaco que a intenção deste artigo é apenas informar e não aconselhar. A decisão de beber durante a gestação é Gestante não deve tomar vinho C om as evidências científicas que temos hoje é possível afirmar que doses baixas de álcool parecem não ter qualquer efeito significativo sobre o bebê e a mãe. Isso é uma mudança de conceito. Até há bem pouco tempo a recomendação era para que as gestantes se abstivessem totalmente de álcool. O consumo abusivo de bebidas alcoólicas (o equivalente a mais de seis taças de vinho por dia) durante a gestação está relacionado a várias alterações graves no cocepto – a Síndrome Alcoólica Fe- tal. Essas crianças apresentam retardo no crescimento, anomalias no sistema nervoso e alterações na face e no crânio. Alguns desses efeitos têm sido descritos com doses menores, o que preocupa. Os problemas causados por doses altas de álcool eram bem conhecidos, mas praticamente não existiam estudos com doses baixas de etanol durante a gestação. Então, diante de incertezas e do desconhecido, o mais prudente era recomendar que as gestantes se abstivessem totalmente de bebidas alcoólicas. ou 3 a 5 unidades por ocasião; 5. Bebedoras pesadas ou compulsivas (2,5%) que bebiam 7 ou mais unidades de álcool por semana ou 6 ou mais por ocasião. Uma unidade de álcool foi classificada como meio litro de cerveja, uma taça de vinho ou uma dose de destilado. Esta classificação considera valores mais baixos do que é habitual se usarmos estudos com bebidas alcoólicas. Costuma-se considerar como bebedor moderado aquele que consome uma a duas unidades por dia. Nos Estados Unidos a definição de consumo moderado ? muito complexa e individual. Mas, como salienta o National Institute for Health and Clinical Excellence do Reino Unido, a ingesta eventual de pequenas doses de álcool durante a gestação não traz dano nem à mãe nem ao feto. Desse modo é possível beber sem culpa. Jairo Monson Médico e escritor [email protected] Vinho&Cia - No. 60 Vinho está na moda eag ente faz o est ilo Vinho&Cia Vinho & Cia - No. 60 Acontece No mundo do vinho Catálogo online A Mistral acaba de lançar em seu site a versão online de seus catálogos. Por ele é possível acessar as últimas publicações da importadora e folheá-las página a página, utilizando a função ‘zoom’ ou ‘tela inteira’. Os catálogos online dispõem de uma rápida ferramenta de busca a partir de palavras chaves. Com ela é possível a pesquisa de vinhos por nome, produtor, código ou qualquer outro termo relacionado ao produto. Também há a opção de compartilhar os arquivos por e-mail e ainda imprimir todas as publicações. www.mistral.com.br Vinhos franceses no Rancho do Vinho Ao lado de Celso Frizon, Jean Lucien Cabirol, embaixador de vinhos franceses, comandou no restaurante Rancho do Vinho Morumbi, em São Paulo, uma degustação de 9 rótulos da região de Bourdeaux. Entre os vinhos estavam Château de Respide Graves Blanc 2010, Château Pailhas Saint Emilion Grand Cru 2008 e Château l’Ermitage Sauternes 2008. Malbec Day A Wines of Argentina e as suas bodegas associadas realizaram em São Paulo o “Malbec World Day” (Dia Mundial do Malbec), evento que acontece quase simultaneamente também em Londres, Nova York e Mendoza. Na celebração do dia no Brasil, foram selecionados 36 Malbec´s ícones para degustação por seis especialistas e críticos de vinhos: Arthur Azevedo, Guilherme Correia, Jorge Lucki, Mário Telles Junior, Ricardo Castilho e Suzana Barelli. O evento na capital paulistana foi no Bar des Arts. Vinho & Pizza é na Prestíssimo! Mais pizza A Pizzeria 1900 inaugura mais uma unidade em São Paulo: agora no bairro do Morumbi, na rua Dr. Fonseca Brasil, 282. Franceses Wine Bar - Carta com 200 rótulos - Taças especiais Cotação no Guia Onde Beber do Vinho&Cia para importação Em mais uma ação promocional dos seus vinhos, a Ubifrance, braço promocional da Embaixada da França no país, trouxe a São Paulo diversos produtores para expor seus rótulos ainda não importados. O evento, antes da Expovinis, foi no Charlô. Wine Bar divino São Paulo tem agora mais um wine bar: o Divine, na al. Jaú, 1,844. Destaque para o ambiente aconchegante, os rótulos pouco comuns e a máquina Enomatic com diversas opções de vinhos em taça. Al. Joaquim Eugênio de Lima, 1135, (11) 3885-4356, Jardins, São Paulo Vinho&Cia - No. 60 Vinhos Que Valem Ouro! Vinhos até R$100 V que valem ouro inho&Cia reuniu a sua equipe para provar vinhos lançados no Brasil nos últimos 6 meses com preços ao consumidor nas lojas de até 100 reais. Convidou importadoras, distribuidoras e vinícolas a encaminhar rótulos. Chegaram na redação do jornal 57 garrafas de 22 fornecedores, que enviaram no máximo 3 vinhos, entre espumantes, brancos, rosés e tintos. No Wine Bar da Pizzaria Prestíssimo em São Paulo, a equipe provou os rótulos às cegas, conhecendo somente o preço de cada vinho, e para cada um respondeu à seguinte pergunta: você compraria a garrafa por esse valor? Com certeza, talvez ou não?... Os vinhos com as respostas positivas ganharam medalha, estão apresentados na sequência e com certeza valem ouro, ou cada centavo do seu dinheiro. Vinho & Cia - No. 60 Vinhos Que Valem Ouro! 18 18 R$ 35 R$ R$ Panceri Espumante Moscatel Panceri Sauvignon Blanc Suzin Espumante Rosé Brut Tipo: Espumante Branco Fornecedor: Panceri Produtor: Panceri Uva: Moscato Gialo Safra: Não Indicada Origem: Brasil Região: Santa Catarina Tipo: Branco Fornecedor: Panceri Produtor: Panceri Uva: Sauvignon Blanc Safra: 2010 Origem: Brasil Região: Santa Catarina Tipo: Espumante Rosé Fornecedor: Suzin Produtor: Suzin Uva: Cabernet Sauvignon Safra: 2010 Origem: Brasil Região: São Joaquim, SC 37 42 R$ 43 R$ R$ Penedo Borges Rosé Malbec JP Palmela Private Selection Traversa Noble Alianza Reserva Tipo: Rosé Fornecedor: ASA Gourmet Produtor: Finca Don Otaviano Uva: Malbec Safra: 2010 Origem: Argentina Região: Mendoza Tipo: Tinto Fornecedor: Portus Cale Produtor: Bacalhôa Uva: Castelão e Merlot Safra: 2008 Origem: Portugal Região: Palmela Tipo: Tinto Fornecedor: Mr. Man Produtor: Traversa Uva: Tannat, Marselan, Merlot Safra: 2008 Origem: Uruguai Região: Canelones 10 Vinho&Cia - No. 60 Vinhos Que Valem Ouro! 45 48 R$ 49 R$ R$ RAR Collezione Merlot Salton Virtude Chardonnay Tomero Malbec Tipo: Tinto Fornecedor: Miolo Produtor: Miolo / RAR Uva: Merlot Safra: 2009 Origem: Brasil Região: Campos de Cima da Serra Tipo: Branco Fornecedor: Salton Produtor: Salton Uva: Chardonnay Safra: 2008 Origem: Brasil Região: Serra Gaúcha Tipo: Tinto Fornecedor: Domno Produtor: Vistalba Uva: Malbec Safra: 2009 Origem: Argentina Região: Alto Valle de Uco 49 55 R$ 57 R$ R$ La Celia Heritage Malbec Le Petit Jaboulet Viognier Miolo Cuvée Giuseppe D.O. Chardonnay Tipo: Tinto Fornecedor: Interfood Produtor: Finca La Celia Uva: Malbec Safra: 2007 Origem: Argentina Região: Valle de Uco Tipo: Branco Fornecedor: Mistral Produtor: Paul Jaboulet Ainé Uva: Viognier Safra: 2009 Origem: França Região: Cotes du Rhône Tipo: Branco Fornecedor: Miolo Produtor: Miolo Uva: Chardonnay Safra: Não informada Origem: Brasil Região: Vale dos Vinhedos Vinho & Cia - No. 60 11 Vinhos Que Valem Ouro! 58 60 R$ 60 R$ R$ Sibaris Undurraga Reserva Especial Syrah Don Laurindo Reserva Merlot Vernus Santa Helena Malbec Tipo: Tinto Fornecedor: Mr. Man Produtor: Undurraga Uva: Syrah Safra: 2008 Origem: Chile Região: Valle del Maipo Tipo: Tinto Fornecedor: Don Laurindo Produtor: Don Laurindo Uva: Merlot Safra: 2009 Origem: Brasil Região: Vale dos Vinhedos Tipo: Tinto Fornecedor: Interfood Produtor: Santa Helena Uva: Malbec Safra: 2009 Origem: Chile Região: Valle del Colchagua 66 66 R$ 69 R$ R$ Yali Gran Reserva Syrah Mundus Chile Cabernet Sauvignon Penedo Borges Gran Reserva Malbec Tipo: Tinto Fornecedor: Domno Produtor: Ventisquero Uva: Syrah Safra: 2008 Origem: Chile Região: Valle del Maipo Tipo: Tinto Fornecedor: Casa Valduga Produtor: Casa Valduga Uva: Cabernet Sauvignon Safra: 2006 Origem: Chile Região: Valle del Maipo Tipo: Tinto Fornecedor: ASA Gourmet Produtor: Finca Don Otaviano Uva: Malbec Safra: 2007 Origem: Argentina Região: Mendoza 12 Vinho&Cia - No. 60 Vinhos Que Valem Ouro! 80 80 R$ 83 R$ R$ Perini Quatro Suzin Zelindo Luigi Bosca de Sangre Tipo: Tinto Fornecedor: Perini Produtor: Perini Uva: Ancellota, Merlot, Cabernet Sauvignon, Tannat Safra: 2008 Origem: Brasil Região: Vale Trentino Tipo: Tinto Fornecedor: Suzin Produtor: Suzin Uva: Merlot, Cabernet Sauvignon Safra: 2008 Origem: Brasil Região: São Joaquim, SC Tipo: Tinto Fornecedor: Decanter Produtor: Luigi Bosca Uva: Cabernet Sauv., Merlot, Syrah Safra: 2008 Origem: Argentina Região: Lujan de Cuyo 85 88 R$ 88 R$ R$ Château Marjosse Rouge Keller Riesling Trocken Paul Mas Estate Pinot Noir Tipo: Tinto Fornecedor: World Wine Produtor: Pierre Lourton Uva: Merlot, Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc, Malbec Safra: 2008 Origem: França Região: Bordeaux Tipo: Branco Fornecedor: Decanter Produtor: Keller Uva: Riesling Safra: 2009 Origem: Alemanha Região: Rheinhessen Tipo: Tinto Fornecedor: Decanter Produtor: Paul Mas Uva: Pinot Noir Safra: 2007 Origem: França Região: Coteaux du Languedoc Vinho & Cia - No. 60 13 Vinhos Que Valem Ouro! 93 94 R$ 94 R$ R$ T.H Undurraga Syrah Esporão Reserva Tinto Crasto Superior Tipo: Tinto Fornecedor: Mr. Man Produtor: Undurraga Uva: Syrah Safra: 2008 Origem: Chile Região: Valle del Limari Tipo: Tinto Fornecedor: Qualimpor Produtor: Esporão Uva: Aragonês, Trincadeira, Cabernet Sauvignon Safra: 2008 Origem: Portugal Região: Alentejo Tipo: Tinto Fornecedor: Qualimpor Produtor: Quinta do Crasto Uva: Touriga Nacional, Tinta Roriz Touriga Franca, Souzão Vinha Velha Safra: 2009 Origem: Brasil Região: Serra Gaúcha Como são escolhidos os vinhos que valem ouro Os vinhos são encaminhados ao jornal por livre escolha das importadoras, vinícolas e distribuidoras. Na redação, em cada garrafa é colocado o seu preço. Antes da degustação, a equipe do Wine Bar da Pizzaria Prestissimo em São Paulo embala cada garrafa, deixa os rótulos totalmente ocultos e coloca em destaque apenas o seu preço. Somente o editor do jornal e algumas pessoas da redação têm conhecimento dos rótulos que serão degustados, mas não sabem a ordem de serviço. No momento da prova, cada degustador recebe uma taça com o vinho e anota o preço da garrafa. Com base apenas nestas informações e no tema da degustação, anota suas impressões, avalia o vinho e faz a análise de custo benefício. Em função da qualidade do vinho, ele escolhe uma das três opções: 1- não gostou do vinho, 2- talvez pagasse o preço da garrafa, 3- pagaria o preço da garrafa. Feita a avaliação final, o editor junta a opinião de todos. Os rótulos para os quais a maioria dos degustadores pagaria o preço da garrafa são escolhidos para receber a medalha e indicados como “valem ouro!”. 14 Vinho&Cia - No. 60 Vinhos Que Valem Ouro! Os outros vinhos provados (Não significa que são inferiores em qualidade aos vinhos que receberam medalha) Dos 57 vinhos provados pela equipe do Vinho&Cia, os 27 selecionados nas páginas anteriores receberam medalha de ouro pelo critério de custo benefício. Cada garrafa foi provada pelos degustadores conhecendo o preço, e cada um respondeu à pergunta se pagaria esse valor pelo vinho. Assim, as medalhas são dadas aos vinhos bons e “baratos”, mesmo que seu preço não seja baixo. Um vinho na tabela seguinte pode ser superior em qualidade a um que recebeu medalha. no. tipo fornecedor produtor vinho safra uva origem R$ 1 Tinto Panceri Panceri Panceri 2006 Merlot Brasil 18 2 Tinto Campos de Cima Campos de Cima Campos de Cima 2009 Shiraz, Cabernet Franc Brasil 18 3 Tinto Garibaldi Garibaldi Granja União 2009 4 Espumante Garibaldi Garibaldi Granja União Moscatel 5 Espumante Garibaldi Garibaldi Granja União Brut 6 Branco Dunamis Dunamis Dunamis Ser 2010 7 Tinto Dunamis Dunamis Dunamis Cor 8 Tinto Miolo Miolo Miolo Reserva Tempranillo 9 Espumante Pizzato Pizzato Fausto Demi-Sec 10 Tinto World Wine Bodegas Borsao Viña Borgia 11 Rosé Suzin Suzin Suzin Rosé 12 Tinto World Wine Caitec 13 Tinto Pizzato Pizzato 14 Branco Pericó 15 Espumante Valmarino 16 Branco 17 18 Tannat Brasil 19 - Moscato Gialo Brasil 24 - Chardonnay Brasil 24 Sauvignon Blanc, Chardonnay Brasil 27 2010 Merlot, Cabernet Sauvignon Brasil 27 2009 Tempranillo Brasil 29 Chardonnay, Pinot Noir Brasil 34 2009 Garnacha Espanha 35 2010 Cabernet Sauvignon, Merlot Brasil 37 Caitec 2008 Malbec Argentina 39 Pizzato Reserva Cabernet Sauvignon 2004 Cabernet Sauvignon Brasil 40 Pericó Basaltino 2010 Chardonnay Brasil 42 Valmarino Valmarino & Churchill 2009 Chardonnay, Pinot Noir Brasil 45 Sanjo Sanjo Núbio 2010 Sauvignon Blanc Brasil 45 Tinto Pericó Pericó Basaltino 2010 Pinot Noir Brasil 47 Tinto Valmarino Valmarino Valmarino XIII 2008 Cabernet Franc Brasil 48 19 Tinto Mistral Montes Montes Seleccion Limitada 2009 Carmenère Chile 48 20 Tinto ASA Gourmet Finca Don Otaviano Penedo Borges Reserva 2008 Cabernet Sauvignon Brasil 48 21 Tinto Portus Cale Quinta dos Loridos Quinta dos Loridos 2008 Castelão e Merlot Portugal 49 22 Espumante Pizzato Pizzato Pizzato Brut Chardonnay, Pinot Noir Brasil 52 23 Tinto Sanjo Sanjo Maestrale 2006 Cabernet Sauvignon Brasil 55 24 Tinto Qualimpor Quinta dos Murças Assobio 2009 Touriga Nacional, Tinta Roriz, Tinta Barroca Portugal 57 25 Espumante Valduga Vaduga Casa Valguga Premium 2008 Cabernet Sauvignon Brasil 60 26 Tinto Valmarino Valmarino Valmarino Reserva da Família 2005 Cab. Sauv., Cab Franc, Merlot, Tannat Brasil 70 27 Tinto Domno Caves Velhas Magna Carta 2008 Syrah, Aragonês, Alicante Bouchet Portugal 70 28 Tinto Portus Cale Mantellassi San Giuseppe Morellini di Scansano 2006 Sangiovese, Cab. Sauv. e Canaiolo Nero Itália 80 29 Branco Sanjo Sanjo Mastrale Integrus 2008 Chardonnay, Sauvignon Blanc Brasil 85 30 Tinto Salton Salton Salton 100 anos 2008 Cab Sauv e Franc e Merlot Brasil 100 - - Os degustadores foram o editor Regis Gehlen Oliveira, os colunistas Adriana Bonilha, Álvaro Galvão, Beto Acherboim, Denise Cavalcante e Walter Tommasi, o sócio da Prestissimo Alexandre Levy e os convidados Flávio Lantelme e Gilberto Ulanin. Vinho & Cia - No. 60 15 Todo Vinho 80 anos de liderança A história da Vinícola Aurora foi marcada por altos e baixos, porém a cooperativa sempre esteve na liderança na produção de vinhos no Brasil. Alguns dos seus rótulos alcançaram enorme sucesso no mercado, como o Clos de Nobres e o Marcus James, este líder nos Estados Unidos. Acompanhe nas páginas seguintes a retrospectiva histórica preparada por um dos maiores conhecedores de vinhos brasileiros, Sérgio Inglez de Souza. 16 Vinho&Cia - No. 60 Todo Vinho B ento Gonçalves, Rio Grande do Sul, 14 de fevereiro de 1931. Dezoito pessoas promovem reunião oficializando a Cooperativa e integralizando suas cotas de capital. O dinheiro arrecadado não era tanto e, por isso, num terreno tomado por brejo, “canta rana”, foi iniciada a implantação. Na construção havia um pedreiro, Luiz Cao, cujas duas filhas gêmeas Alba e Aurora, chamavam a atenção quando levavam o almoço para o pai. Numa reunião para discutir a consolidação da Cooperativa, alguém sugeriu o nome de uma delas para a denominação da empresa, sugestão aprovada que deu o nome Sociedade Cooperativa Vinícola Aurora. Incêndio e solidariedade A Aurora cresceu muito e foi ocupando o seu espaço. Vinte anos mais tarde aconteceu um grande incêndio, que consumiu boa parte das suas instalações. Todo vinho estocado jorrou pelas ruas colorindo-as de tragédia. A solidariedade e a união de todos lograram resgatar em curto tempo a operação nas instalações. Estoque e crise Mais adiante, o excesso de estoque de vinho da região impôs grave crise. Era urgente escoar o vinho guardado para liberar os tanques para a nova safra. Ao invés de trabalhar pelo coletivo, a Vinícola Riograndense iniciou em janeiro de 1958 gestões sigilosas junto a importadores argentinos. A notícia correu e os demais produtores foram atrás de obter exportações e, por feliz coincidência, a França havia sofrido sucessivas quebras de safra e vieram buscar vinho brasileiro. As amostras fornecidas foram aprovadas pelos importadores franceses como a Les Vins d’Orannie, e foi fechada a venda de 30 milhões de litros, que foram divididos entre Companhia Riograndense, Cooperativa Garibaldi, Cooperativa Aurora e outras. O vinho exportado era do tipo comum, um corte de Herbemont e Isabel! Vinho & Cia - No. 60 Do vinho comum para os finos Nesta época a Aurora baseava sua produção nos vinhos comuns de uvas americanas e o contato com os europeus abriu perspectivas e planos para entrar no mundo dos vinhos de viníferas. Nesse contexto foi assinado em 1962 um acordo comercial com a Bernard Tailland Importadora Ltda. para fornecer os vinhos finos comercializados por aquela empresa. A Aurora cumpriu até 1969 o contrato que alimentou a comercialização no Brasil e as exportações para a Venezuela. Em 1969, como acertos de dívidas, a Aurora assumiu a Bernard Tailland. A partir de 1972, criação dos funcionários Rinaldo Dal Pizzol e Gay de Cará, lançou o Clos de Nobles no mercado interno e nas exportações para a Venezuela e Estados Unidos. Em 1982, o diretor Alberici foi para os Estados Unidos, criando o projeto Marcus James, em parceria com a United Liquors, de Boston, que mais adiante vendeu sua parte para o grupo Canandaigua Wine Company, de Nova York. Em 1986, Alberici assumiu a superintendência da Aurora e acelerou a consolidação do projeto Marcus James. De um volume inicial de 220.000 caixas anuais, as vendas atingiram 1.100 containers por ano, ou seja, 1.100.000 caixas de vinho anuais, um dos maiores negócios de vinho do mundo. Em termos brasileiros, as exportações da Cooperativa representavam 99,9% vendas externas brasileiras de vinho. A presença em cartas de vinhos de muitos restaurantes dos Estados Unidos e a imagem criada pela propaganda, fizeram a marca Marcus James ser eleita pela revista americana Impact, por cinco anos seguidos, a “hot brand” dos vinhos no mercado daquele país. As exportações da Aurora tinham em clientes belgas e alemães um importante grupo comprador até 1993, ano em que medidas protecionistas da Comunidade Européia criaram barreiras e inviabilizaram as exportações. Felizmente a partir deste ano o mercado inglês se abriu e absorveu esses volumes, com a aprovação sólida do consumidor inglês. As vendas cresceram até ultrapassar os 500 mil litros no ano de 1998. Neste ano a legislação inglesa tornou-se protecionista e todas as transações foram prejudicadas. Sem perspectivas, a Aurora mergulhou em grave crise. O começo das dívidas As exportações tinham por base contratos em dólar, e quando em 1994 o governo fixou artificialmente o câmbio por decreto cortou a lucratividade da Aurora, que mesmo com prejuízo continuou honrando os contratos. Quadro internacional negativo, planos econômicos brasileiros e algumas iniciativas mal calculadas pela Aurora, geraram problemas graves e uma dívida de 127 17 Todo Vinho milhões em 1996, que, contra faturamento de R$ 43 milhões, consolidou rombo de R$ 84 milhões, paralisando a empresa. O Conselho de Administração teve que intervir e trouxer o líder e deputado federal Hermes Zaneti para o comando geral. Em 1997, a Aurora ainda cumpriu as obrigações contratuais da Marcus James, comprando todo vinho disponível nos produtores, aumentando seus prejuízos. Para dar continuidade seria necessária adquirir vinhos argentinos e uruguaios. A autorização foi solicitada ao Ministério da Agricultura, mas a mobilização dos concorrentes contra esta operação atrasou o processo em quatro meses, tempo suficiente para que a detentora da marca Marcus James no Exterior fechasse o fornecimento total da Argentina, descartando a Cooperativa Aurora. O volume comprado para atender ao contrato sobrou como estoque sem pedido, o que obrigou ao diretor de marketing, Alem Guerra, empreender um enorme trabalho pelo qual ele conseguiu alocar todo este vinho, garantindo fatura de R$57 milhões para 1998. Do Brasil para o Uruguai A compra de vinho no Uruguai mostrou-se um interessante nicho de negócio, e em 1998 foi fundada a Aurora Uruguai S.A., braço controlador da elaboração dos vinhos uruguaios para a Aurora. De maior exportadora, tornou-se grande importadora de vinhos! Em busca da qualidade O diretor operacional Carlos Zanotto trabalhou sobre a qualidade dos vinhos e a partir de 1996, em que não teve nenhuma premiação, começou uma nova fase de evolução da qualidade, com o que tornou-se rotina trazer prêmios dos grandes eventos internacionais: 1997 – 2, 1998 – 16, 1999 – 16 e 2000 – 23. Em fevereiro de 2007, assume como diretor-superintendente, Carlos Zanotto, que veio a ser vitimado no acidente aéreo da TAM no aeroporto de Congonhas. Zanetti foi reconduzido ao cargo. Ao completar 80 anos em fevereiro passado, esta senhora Vinícola Aurora mostra muita juventude para continuar trilhando a trajetória de liderança e de sucesso. Em 2009 houve reformulação na Aurora, e o cargo de diretor superintendente passou a diretor geral, preenchido por Alem Guerra, que impôs ritmo de crescimento com solidez. Em 2010 o faturamento superou a marca dos R$ 200 milhões. Além de manter-se na liderança da comercialização de vinhos finos, continua com excelente performance nas exportações, que atendem a vinte países, entre os quais, Estados Unidos, França, Japão, Holanda, Bélgica, Alemanha e Rússia. 18 Sérgio Inglez de Souza Escritor e consultor [email protected] Vinho&Cia - No. 60 América do Sul Duas expressões Q do Valle del Aconcagua uando da realização do Mundial de Sommeliers, em maio do ano passado, saímos de Santiago por via terrestre e seguimos em direção ao norte, entrando na “Región V” do Chile até encontrar o Rio Aconcágua, pequeno curso de água que flui de leste para oeste, da Cordilheira para o mar, desembocando no Pacífico poucos quilômetros ao norte de Valparaiso. Em seu percurso ele forma o belo “Valle del Aconcagua”, com áreas planas entrecortadas de ondulações verdes, onde se localizam microclimas e terrenos adequados para o cultivo da vitis vinifera e elaboração de vinhos finos. Encontramos então, prazerosamente, duas diferentes expressões dos terroirs dessa região em exemplares brancos e tintos das vinícolas Arboleda e Errazuriz, distinguindo-se os brancos do litoral, conhecido como Aconcagua Costa, e os tintos do Aconcagua Central. O lugar das gaivotas Pelo que nos disseram, Chillué significa “o lugar das gaivotas” em linguagem indígena. Pois foi na Chillué Estate, uma propriedade de mil hectares a apenas 14 km do oceano, com altitudes de 100 a 400m, que a vinícola Arboleda decidiu plantar 20 hectares de Sauvignon Blanc em 2005. Vinhas novas, portanto, com produção iniciada em 2008. Com temperaturas mais baixas do que as do Vale de Casablanca, Chillué dispõe de um terroir mais parecido com os de Vinho & Cia - No. 60 Marlborough, na Nova Zelândia, do que com Casablanca, seu vizinho ao sul. O verão é moderadamente quente com névoa matinal e brisas vespertinas. Além do que, a camada superficial margosa com 60cm de espessura sobre substratos de argila e pedra, faz da área um lugar adequado para o cultivo de variedades de clima frio. Pode até parecer informação demais, mas tudo isso é para chegar ao “Arboleda Sauvignon Blanc Aconcagua Costa 2009”, um vinho branco 100% Sauvignon Blanc, com 13,5% de álcool, pH 3,24 e menos de 2 gramas por litro de açúcar residual, aromático, com pleno de frescor, sem nenhum traço de fermentação malolática, que se mostrou capaz de enfrentar com galhardia o ataque cítrico de um ceviche, a gota de limão sobre os mexilhões ou o queijo de cabra na salada. Manzanar perto do mar Mais perto do mar ainda, no terroir do Manzanar Estate, a 12 km da costa, a centenária Errazuriz cultiva 30 hectares do Chardonnay, que originou o “Errazuriz Chardonnay Wild Ferment Aconcagua Costa 2009”, algo mais potente e um pouco mais alcoólico (14%) do que o anterior, com mais açúcar residual (2,64 gramas por litro) e pH mais alto (3,27), ou seja, um pouco menos ácido, macio, amanteigado, algo untuoso. Nada de surpresas: um terço do vinho passou pela malolática e todo ele adormeceu sobre as borras, estacionado em barricas de carvalho por 12 meses. Pudemos então nos atrever com algo mais substancioso: as lagostas requintadas com molho cremoso ou as centollas e frutos do mar chilenos, estranhos para “nosotros”, mas não menos apetitosos. Aconcagua Centtral Passando para o setor central, com as cidades de Llayllay, Panquehue e San Felipe, encontramo-nos diante um clima semi desértico, ensolarado e cálido, sem surpresas pela proximidade com o Atacama ao norte, ainda que temperado pela proximidade dos Andes a leste e pela brisa oceânica do oeste. Lá mais de 80% dos vinhos são tintos, e com razão. Carmenère, Merlot e Cabernet Sauvignon seriam apostas evidentes, mas nos dedicamos a dois varietais da Syrah, praticamente uma novidade. No vinhedo “Las Vertientes”, a altitudes entre 380 e 590m, a Arboleda cultiva Syrah desde 2000, com mudas adquiridas na França, em solo de beira de rio muito pedregoso, com boa drenagem e vigor apenas médio, conveniente para essa variedade demasiado produtiva. Teve origem ali o “Arboleda Syrah 2008”, fermentado em inox, parcialmente com leveduras nativas, entre 24 e 28ºC. Resultou um tinto com 14% de álcool, pH 3,5 e açúcar residual 2,8 g/l, rubi escuro com reflexos púrpura, frutado e condimentado, com taninos refinados e maciez adequada. Já a Errazuriz preferiu usar a denominação Shiraz, mais usada no Novo Mundo, em seu “Shiraz Max Reserva 2008”. As uvas provêm de dois vinhedos, Max e Ocoa, em terrenos de cascalho, argilo-arenosos, bem drenados. Um pouco mais alcoólico do que o anterior (14,5%), apresenta-se também com algo mais de acidez. Foi maturado por doze meses, 40% em carvalho americano, 60% em carvalho francês. Resultou em um tinto rubi muito escuro, com nariz de frutas negras, especiarias, estruturado, longo, com muitos anos pela frente. Depois do terremoto Expressões significativas da área marítima e da área central do Valle del Aconcagua, os tintos e brancos acima exaltam a conhecida e elogiada produção chilena de vinhos de qualidade, e foram um dos pontos altos das incursões, minha e de meus amigos sommeliers de todo o mundo, pelo Chile vinícola, de norte a sul, pós terremoto. Euclides Penedo Borges Diretor da ABS-Rio [email protected] 19 Velho Mundo Dominic Symington, um dos membros da PFV Famílias: a União da Tradição P ouca gente sabe, mas durante o mês de novembro do ano passado o Brasil foi palco do encontro anual dos membros da PRIMUM FAMILIAE VINIS (PFV). Muitos se perguntarão: O que vem a ser a PFV? Pois bem, ela é uma associação que reúne algumas das mais renomadas famílias do mundo do vinho e reconhecidas como líder em sua respectiva região de atuação. São vinícolas tradicionais e que ainda têm as famílias fundadoras diretamente envolvidas na administração da empresa. Elas compartilham firmemente de alguns princípios básicos como: promover a viticultura tradicional, a alta qualidade dos produtos e o terroir, fortalecer os valores morais e éticos, compartilhar conhecimentos e experiências de vinicultura e enologia, fazer benchmarking de seus negócios e promover o conceito de que as empresas familiares são as que têm melhor estrutura para alcançar um padrão crescente de qualidade dos vinhos, mantendo as tradições pelas quais chegaram ao atual status. Como homem de marketing achei o conceito genial, pois já vimos muitas empresas familiares sendo adquiridas por conglomerados multinacionais e terem toda a história, assim como o padrão de qualidade, perdido pelo gerenciamento muitas vezes mais voltado para o resultado do que para a manutenção das tradições e dos altos padrões de qualidade que só mesmo a presença dos proprietários fundadores pode trazer. em vinícolas no novo mundo. Mas esta idéia da PFV para mim é corretíssima, uma união de forças de alguns ícones do vinho no mundo na manutenção de suas tradições. Com esta união cria-se massa crítica e inteligência de negócios que às vezes só mesmo as grandes corporações conseguem ter. Certamente não quero ser injusto com os grandes conglomerados, pois alguns deles têm feito trabalhos excepcionais, respeitando os terroirs e os conceitos muitas vezes ditados por seus enólogos, e vejo até resultados mais destacados deste bom trabalho Vejam na tabela a lista dos produtores, seus representantes no evento e o site de suas empresas, para aqueles que se interessem um pouco mais e que possam ter mais detalhes da importância de cada um deles no cenário mundial do vinho. Vida longa à tradição! Vinícolas do Primum Familiae Vinis (PFV) no Brasil Antinori – Firenze – Itália – Sra Albiera Antinori – www.antinori.com Château Mouton Rothschild – Sr Philippe Sereys Rothschild – www.bpdr.com Egon Muller Scharzhof – Saar – Alemanha – Sra Valeska Muller – www.scharzhof.de Graham’s – Dow’s – Warre’s – Vila Nova de Gaiz – Portugal – Sr. Dominic Symington – www.symington.com Hugel & Fils – Riquewihr – França – Sr. Etienne Hugel - www.hugel.com Joseph Drouhin – Beaune – França – Sr. Laurent Drouhin - www.drouhin.com Miguel Torres – Penedés – Barcelona – Espanha. Sr. Miguel Torres – www.torreswines.com Perrin & Fils (Beaucastel) – Orange – França – Sr. Françoise Perrin – www.beaucastel.com Pol Roger – Eperny – França – Sr. Hubert de Billy - www.polroger.com Tenuta San Guido – Bolgheri – Itália – Sr. Sebastiano Rosa – www.sassicaia.com Vega Sicília – Duero – Espanha – Sr. Pablo Álvarez – www.vega-sicilia.com Walter Tommasi Consultor e palestrante de vinhos [email protected] 20 Vinho&Cia - No. 60 Vinho na Academia 1 U m importante quesito na avaliação de um vinho tem sido a sua tipicidade, ou quão típico é um vinho. Explicando melhor, isso quer dizer que avaliamos as características da personalidade aromática e gustativa de um vinho e comparamos com outros vinhos de uma mesma região, ou de uma mesma variedade de uva (ou corte de uvas). Se as características de um vinho estão dentro do que se espera nessa comparação, dizemos que ele é típico, ou não. A evolução da vinicultura mundial nos tem trazido atualmente vinhos que podemos dizer únicos, pois sua “personalidade” (gosto de usar esse termo, apesar de não ser um consenso entre os conhecedores) é ímpar, não há outro igual ou parecido. Atenção, não estamos falando diretamente da qualidade de um vinho, mas do seu estilo, do seu ”jeitão”, que pode ser uma marca registrada de uma região, ou de uma variedade de uva, ou o estilo de um enólogo. Alguns exemplos podem ajudar a compreender em que quero chegar: a uva Malbec foi levada da França para a Argentina e lá se aclimatou muito bem, passando a gerar vinhos tintos que hoje são a marca registrada da região de Mendoza. Pois bem, os vinhos de Malbec são ainda produzidos em sua região de origem, Cahors, no sudoeste da França, mas os argentinos definitivamente não se parecem com seus irmãos europeus. Podemos então dizer que os Malbecs de Mendoza não são típicos, mas com a sua personalidade marcante e a importância que já conquistaram no mercado mundial, quem é a referência para compararmos em termos de tipicidade, Cahors (foto 1) ou Vinho & Cia - No. 60 2 A tipicidade dos vinhos Mendoza (foto 2)? Muitos hoje dizem que a referência mudou de hemisfério, devido à importância no mercado atual. A uva Sauvignon Blanc produz belíssimos brancos no Val de Loire, França, vinhos de uma elegância, mineralidade e frescor inconfundíveis. Os vinhos da mesma uva produzidos no Chile têm em geral maior teor alcoólico, acidez mais pesada e notas explosivas de frutas tropicais. Essas diferenças se devem ao clima bastante diferente, e também ao solo. Nesse caso dizemos que os vinhos dessas regiões têm tipicidade diferente, apesar de produzidos com a mesma uva. Na Nova Zelândia, encontramos na mesma uva uma tipicidade bem mais européia, porém com explosão aromática bem típica do Novo Mundo. Nas regiões tradicionais da Europa, o sistema de DOCs (Denominações de Origem) impõe regras rígidas para que os vinhos ali produzidos mantenham sua tipicidade (ou personalidade), mesmo existindo diferenças nos níveis de qualidade entre produtores. Com isso, o estilo permanece (quase) imutável. Venho observando algumas mudanças importantes nos tintos do Chile, onde o sol poderoso sempre impôs níveis alcoólicos altos (chegando a 15%) e as temperaturas pouco baixas durante a noite não permitem o desenvolvimento de bons níveis de acidez, tão necessária ao equilíbrio e elegância dos vinhos. Lá, 2007 foi considerada uma ótima safra, produzindo vinhos inusitadamente mais elegantes, pois foi um ano mais fresco. Tudo isso porque a Cabernet Sauvignon é uma uva tardia, a última a amadurecer. Dos últimos 6 tintos chilenos que provei, dos quais 2 são lançamentos, 5 deles mostraram níveis de acidez mais altos que o usual, trazendo aos vinhos melhor equilíbrio e por conseguinte, mais elegância. Um trabalho pormenorizado nos vinhedos é a explicação dessa mudança, que também é uma importante guinada positiva na tipicidade dos tintos chilenos. No Médoc, na sofisticada região de Bordeaux, a Cabernet Sauvignon também recebe muito sol, mas a brisa fresca do Atlântico durante a noite garante um desenvolvimento delicado de acidez, que é um dos elementos fundamentais para a elegância dos seus Crus mundialmente famosos. Com esse breve passeio pelo mundo, quero frisar que cada região vinícola tem em suas características de clima, solo e estilo de produção – conjunto a que chamamos terroir – uma personalidade única para marcar seus vinhos. A nós cabe experimentar, conhecer e escolher nossos preferidos. Os há para todos os gostos, posso garantir. Uma tremenda contramão nesse processo é a tentativa de “construir” vinhos de uma certa personalidade para agradar (ou explorar) uma preferência de consumidores, pois em vez de explorar a tendência natural – que é única – se pretende industrializar um sabor da moda. Acredito que as personalidades serão cada vez mais a principal mercadoria no mundo dos vinhos, pois tudo igual cansa. Carlos Arruda Academia do Vinho [email protected] 21 Vinho: Que Negócio é Esse? C Vinhos em bolsa, ou na Bolsa? Entrevista com Alexandre Záckia Albert, da Cultinvest Vinho & Cia: Como surgiu a idéia do fundo em vinhos? Alexandre Zákia: Tomando vinho com nossos amigos e parceiros da Wine Stock, que comentaram a incrível valorização dos grandes vinhos de Bordeaux nos últimos dez anos. Já que a cota mínima é bastante alta, o que esperam os investidores em termos de retorno? AZ: Nós usamos como parâmetro comparativo (benchmark) do fundo o índice Fine Wine Investables da bolsa eletrônica de vinhos de Londres (LIV-ex). Como o horizonte de retorno sinalizado para o investidor é de 5 anos, podemos pegar esse índice como referência, lembrando sempre que para qualquer tipo de fundo performance passada não é garantia de performance futura. E a valorização? AZ: O índice citado valorizou em média 11,35% ao ano em Euros no período de 1999 a 2010, tendo alcançado 18,70% ao ano em Euros no melhor período, de 2005 a 2010. Cabe lembrar que os chamados Investment Grade Wines possuem baixa 22 correlação com ativos tradicionais (ações e renda fixa), o que os tornam alternativa de diversificação para uma carteira de investimentos. Já foram estudados fundos em que as cotas sejam mais “modestas”, podendo assim democratizar esta modalidade de aplicação e os vinhos, ou isto é inviável como investimento, e o público alvo será sempre o que conhece investimentos de risco e vinhos, portanto, bem mais esclarecido? AZ: O valor mínimo alto se deve a uma restrição legal. O Bordeaux Wine Fund Multimercado é um fundo doméstico (aberto a investidores locais) que aplica num fundo off-shore (chamado Bordeaux Wine Fund), que, por sua vez, compra o vinho físico e “en primeur”. Pela legislação brasileira de fundos, ele é classificado como um fundo multimercado que pode aplicar 100% de seus ativos no exterior e só pode ser oferecido a investidores superqualificados, cuja aplicação mínima é de R$1 milhão. No caso do fundo offshore, essa restrição legal não existe, e a aplicação mínima cai para 100 mil Euros, mas só está disponível para investidores estrangeiros. A equipe da Cultinvest conhece vinhos? Quem escolhe o investimento? AZ: As decisões de investimento são tomadas de maneira colegiada por um Comitê de Investimentos formado pelos gestores da Cultinvest (Walter Mendes, Filipe Albert e eu), mais os especialistas (advisors), que são o Douglas Andreghétti (da Wine Stock, especializada em importação de vinhos finos de Bordeaux) e o Aguinaldo Záckia. Os gestores da Cultinvest fazem desde a análise macro-econômica dos principais países compradores de vinhos finos de Bordeaux até indicadores micros, como evolução histórica do preço de cada vinho, avaliações do Robert Parker (RP), rating, longevidade, etc. Já os especialistas fazem uma análise mais fundamentalista dos produtores e safras. omo minha coluna neste periódico é relacionada ao negócio do vinho, fiquei sabendo que aqui no Brasil já podemos ter aplicações com rendimentos futuros em vinhos Premium de Bordeaux. Esta aplicação é o Bordeaux Wine Fund (Fundo de Investimento Multimercado – Investimento no Exterior). Produto inédito entre nós, até 100% da sua carteira é aplicado em um fundo off-shore composto por investimentos em vinhos finos de produtores consagrados da região de Bordeaux conhecidos como “Investment Grade Wines”. Como são vinhos de produtores consagrados e de pequenas produções, sua valorização se dá pelo eterno mecanismo regulador da oferta e da procura. O fundo se baliza pela bolsa eletrônica de Londres especializada em vinhos. A maior parte da carteira é composta por vinhos já engarrafados e a outra parte, de até 20% da carteira, com vinhos ainda por engarrafar, “em primeur”, que já foi motivo de uma coluna minha anterior. Os vinhos já engarrafados ficam fisicamente no Bordeaux City Bond, armazém especializado pertencente à Câmara de Comércio e Indústria de Bordeaux e à Vinexpo, empresa organizadora da maior e mais reconhecida feira mundial de vinhos, em condições ideais e todos segurados. Só para se ter uma idéia, a cota mínima para participar deste fundo é de um milhão de reais. Para não ficarmos aqui descrevendo tecnicidades, fiz a entrevista ao lado com o CEO da Cultinvest, empresa responsável pelo Bordeaux Wine Fund, Alexandre Zákia Albert, que por feliz coincidência é irmão de um grande conhecedor de vinhos e amigo pessoal deste colunista. E o que compra o fundo? AZ: Só compra os vinhos que compõem o índice, ou seja, os 24 principais vinhos da região de Bordeaux, de safras a partir de 1982 que tenham no mínimo 90 pontos do RP (no caso de Lafite, Latour, Margaux, Cheval Blanc, Haut Brion, Mouton, Petrus e Ausone), ou 95 pontos para os demais 16 vinhos do índice. Sendo assim, o fundo só pode ter grandes vinhos de grandes safras. Álvaro Cézar Galvão Colunista [email protected] Vinho&Cia - No. 60 Vinho está na moda e a gente faz o estilo Vinho&Cia Vinho & Cia - No. 60 23 Vinho é Arte Antropologia do vinho M uito se fala, no mundo do vinho, na palavra terroir. Sem uma única tradução ou interpretação, este termo francês quer significar o conjunto de clima, solo e planta, além da interferência humana. Especialistas analisam ao degustar a influência do calcáreo, das pedras basálticas, a exposição solar norte ou sul das videiras; questionam o clone cultivado, a poda aplicada, o sistema de condução. Se choveu na primavera, houve seca no verão ou se os pássaros comeram os grãos mais adocicados. Tecnologia, equipamentos de frio, barricas tostadas, francesas, americanas... Agora, começa-se a estudar cada vez mais o elemento humano do vinho. Todos os aspectos culturais, filosóficos, religiosos que formam a essência destas comunidades, que são o que compõe a vida diária das mesmas, acabam por interferir em tudo o que a mesma realiza. Desde o preparo dos alimentos, o cultivo da terra e, claro, a elaboração dos vinhos. Assim como o pão melhora conforme o conhecimento de quem o amassa e prepara, o vinho é uma bebida repleta de segredos, peculiaridades, tradições familiares. Em Champagne, o trabalho de quem faz a “remouage” é visto como arte e tradição: o segredo do toque exato, que agita com sutileza e força cada garrafa nos pupitres, favorecendo o amadurecimento da bebida, é passado de pais a filhos, por séculos. Identificar as diferentes variedades em meio a vinhedos antigos, que geralmente misturam mais de quarenta tipos de castas, é parte da sabedoria daqueles que nascem e crescem no Douro, em Portugal, brincando entre as vinhas, observando folhas e cores. Estes mesmos sentimentos e instintos podem ser observados na Serra Gaúcha: 24 Maria Amélia Duarte Flores Enóloga [email protected] beber vinho era o hábito alimentar na Europa, terra dos imigrantes. Mas era hábito na época de riqueza, tornando-se cada vez mais difícil de ser mantido conforme as guerras e a pobreza começaram a assolar este território. Ao chegar no Brasil e construir as cidades, o imigrante queria ter vinho para celebrar sua identidade, não esquecer de suas origens. No Vale das uvas Goethe, em Santa Catarina, a uva foi como alicerce para segurar o homem no campo, em tempos de auge de mineração e êxodo rural. Ela foi como uma motivação de não renegar as raízes, não ceder. Já, na Argentina, a Igreja também teve forte influência sobre a elaboração do vinho: os hábitos religiosos e salutares incluíam o vinho; foram os freis alguns dos grandes responsáveis pelo desenvolvimento da enologia na região de Mendoza. A relação próxima de “bodegas” e igreja é possível de ser observada na literatura, nas artes, no patrimônio histórico, além de em todos os elementos religiosos existentes na Festa da Vindima. Em todo o mundo, com suas paisagens, as necessidades comerciais e as relações de trabalho, o vinho acaba sendo um elemento de transformação. E talvez seja esta uma das partes mais lindas do conceito de terroir: em comum, as comunidades de vinho sabem bem receber, abrir suas portas e corações. Seja no Vêneto, na Califórnia, na África do Sul ou na Campanha Gaúcha, plantar a uva e elaborar vinho envolve mais do que uma planta e um solo: há que se ter a paixão não só pelo tema, mas pela natureza e a região. A mão que colhe é geralmente a que bem acolhe, sempre com mesas fartas, taças cheias e muitas histórias a contar. E um tremendo orgulho daquilo que se faz, que ultrapassa crises, gerações e merece ser cada vez mais valorizado. É esta a verdadeira “arte do vinho”. Vinho&Cia - No. 60 Viajando com Vinho O reencontro eo C onfesso que não sou (ou não era) adepta às rede sociais. Talvez pelo fato de trabalhar o dia todo em frente a uma tela, o meu lazer nunca incluía o computer. Por uma necessidade de um curso, entrei no Facebook e para minha surpresa me apaixonei. Pelo Face? Não! Pela simples possibilidade de reencontrar velhos amigos... Colegas de escola, de faculdade... Nossa! Gente que eu não via há muito tempo! E por que estou lhes contando isto? Porque como amante de Baco, ao pensar nestas vivências não pude deixar de relacionar à bebida que tanto aprecio. As minhas amizades, as pessoas como quem convivo eventual ou cotidianamente, são como os vinhos do Vinho & Cia - No. 60 Velho Mundo! Novo Mundo, diversos e surpreendentes. Novas descobertas a cada gole. Novas emoções e possibilidades. Sem regras. Já as antigas e resgatadas amizades são como o Velho Mundo, mais precisamente os vinhos de guarda. Que estão lá na nossa adega, guardados com cuidado, para serem apreciados em momento de celebração. E nesta estória a grande celebração é a amizade. Já foi oficializado o “Dia do Amigo”, em julho... Ainda está longe?! Mas não precisamos aguardar esta data para pequenas e grandes confraternizações. Toda hora é hora de você abrir um vinho, assim como de estar com amigos. Do Novo Mundo, um argentino, chileno ou mesmo um dos nossos belíssimos nacionais da Campanha ou de altitude de Santa Catarina, são o nosso dia-a-dia, aquela taça, e aquele amigo, que está ao nosso lado, que conhece todos os nossos segredos, assim como nós os deles, suas características e seus aromas, que pela convivência, nos surpreende a cada gole, a cada conversa. Com mais ritual (mas não necessariamente com mais valor, somente com gostinho de retrospectiva) é poder redescobrir aqueles amigos, aquele sabor e aroma tradicionais. É poder decantar, fazer com que esta amizade amadureça, e possa ser curtida e celebrada. Viva o reencontro. Vinha o VINHO em sua plenitude! Adriana Bonilha E um brinde a todos meus velhos, novos e, por que não, futuros amigos! [email protected] Colunista 25 Vinhos na Altitude O s vinhos de altitude de Santa Catarina a cada dia ganham mais espaço no mercado. Preconceituosos, alguns brasileiros torcem o nariz quando ouvem falar de vinhos dessa região ainda pouco conhecida. Quando provam os produtos, contudo, mudam de ideia. A mineira Andréa Pio foi conferir o que há de bom em um dos territórios da altitude catarinense, São Joaquim, e viu de perto a vinícola Pericó. Direto do terroir, João Lombardo traz a novidade da Coopervitis... 1 Na altitude de 26 São Joaquim Vinho&Cia - No. 60 Vinhos na Altitude Por Andréa Pio Eleve-se ao céu. Quando atingir a altitude de 1.360 metros, preste atenção: bem adiante despontarão os picos da serra catarinense. Lá está São Joaquim da Serra, a Cidade da Neve. Aí, cuidado para não colidir com a igreja de pedra, porque a cidade estará ao nível dos seus olhos. 2 Nesse lugar, além do clima, da cordialidade do povo e das maçãs mais saborosas do Planeta, há um outro encanto: os vinhais de onde saem os Pericó, Quinta Santa Maria, Sanjo, Suzin, Villa Francioni e outros vinhos de altitude que andam (muito naturalmente) nas bocas de enófilos e demais segmentos do universo vinhateiro. Escrevi na edição 49 de Vinho&Cia: se você ainda não conhece, deve provar com urgência os espumantes das montanhas de Santa Catarina. Todos de estirpe e acostumados a fazer bonito em jantares de estilo. Vinhos de altitude... Pois é. São especiais. Mas... ora, especiais não são os vinhos de Champagne? Os californianos de boa cepa e o fabuloso Tokay também são! Eram especiais os Verdes de Amarante (quando tinham “agulhas” e um colar duradouro). Alguém discorda? No entanto, Aurélio informa que “especial” é termo de muitas acepções e aqui ele é empregado no sentido de diferente. Mas, diferente em quê? Diferente no processo natural a que se submetem as parreiras, desde o surgimento dos brotos até a entrega das uvas prontas para a vinificação. No clima das terras de altitude (noites frias e dias ensolarados) as uvas amadurecem mais lentamente. A diferença já começa por aí. A maturação sem pressa, de sorte, confere aos frutos uma estrutura química diferenciada: eles armazenam maior teor de açúcar, condição fundamental e notória para a obtenção de um bom vinho. ► Técnica nos vinhos de altitude e nos vinhedos da Pericó: 1- Vinhedos perfeitamente alinhados 2- Pulverizador a Túnel 3- Mini Trator ergonométrico Vinho & Cia - No. 60 3 27 Vinhos na Altitude 4 Pericó e detalhes O Vinhedo Pericó começa a seduzir na sua formação. Embora plantado em encosta vagamente acentuada, não se dispõe em socalcos, mas em leiras perfeitamente alinhadas, como numa parada militar. A forma como ele é manejado até a colheita comprova que a Pericó está além do tempo ao importar equipamentos made in Itália, os primeiros a serem utilizados em solo sul americano. O pulverizador a túnel funciona com dois painéis: enquanto um lança o fungicida o outro suga as gotículas não aderidas pelas folhas. O sistema, ao sugar e reciclar, reduz em 95% a contaminação do ambiente (solo e ar). Igualmente inéditos são os mini tratores de esteiras, eficientes e ergonômicos, que facilitam a desfolha, desbrote e colheita das uvas. Os funcionários trabalham sentados, distantes 50cm do solo e defronte à espaldeira. Com a novidade, a lida no campo, com qualidade e sem fadiga, aumentou em 45% o desempenho. Se os vinhedos seduzem, o que dizer do resultado deles, os 11 rótulos? As Caves: Brut Branco (Champenoise), Brut Branco e Rosé, Demi-sec Branco e Rosé (estes Charmat); Taipa, Rosé e Sauvignon Blanc; Basaltinho, Chardonnay e Pinot Noir; Icewine; Basalto Tinto e a nova taça com anel no bojo (foto) a serem lan- 5 çados na Expovinis; confirmam que eles são frescos, frutados, equilibrados e, sem dúvida, desbancam os rótulos reluzentes e duvidosos de acolá. Capítulo à parte para apresentação dos vinhos (foto 4) , durante almoço harmonizado na sede, cuja propriedade é uma sucessão de surpresas (foto 5). Cuidado, extremo bom gosto e receptividade irrepreensíveis (foto 6, Wander com bandeja) são marcas registradas dos proprietários. Agora digo e repito: se você não conhece a Pericó Valley deve ir. E já! Com a quinta safra, em plena maioridade, a Pericó já está aberta para visitas guiadas, seguidas de degustações. O prazer da acolhida, capitaneada pelo proprietário, o arrojado e entusiasta Wandér Weege e sua simpática esposa Laurita (foto 7), ou pelo enólogo e agrônomo e Jefferson Sancineto Nunes (cozinheiro de quando em vez), vale os quilômetros percorridos do trajeto (cerca de 300) entre Florianópolis e São Joaquim. Depois até a Pericó, parte deles em chão batido, é a compensação maior para ver de perto a razão pela qual tudo lá é especial, em todos os detalhes. Em breve o percurso poderá ser feito de avião. O mega-empresário Wandér é presidente da Malwee Malhas (uma das mais modernas indústrias têxteis do mundo, com 42 anos de existência) e se aposentou ao montar a Pericó; sua esposa Laurita foi diretora de criação e estilos da Malwee. Hoje, quem comanda a Malwee são os filhos do casal. A continuar assim, seguindo a vocação empreendedora e o espírito visionário aplicados na Malwee, cuja gestão empresarial é inovadora, os vinhos Pericó serão preferência nacional. Agora, que minha ficha caiu, ressalto que savoir faire, bom gosto e arrojo são uma exclusividade de poucos. Andréa Pio Jornalista e editora do guia Uai [email protected] 7 6 28 Vinho&Cia - No. 60 Vinhos na Altitude Vinhedos da Quinta Santa Maria, em São Joaquim Vinhos de altitude para todo o Brasil Os vinhos de altitude de Santa Catarina poderão ser adquiridos de maneira mais fácil, em todo o Brasil. A partir do mês de maio, terão início as vendas coletivas dos vinhos produzidos nas regiões de São Joaquim, Caçador e Campos Novos. As vendas serão promovidas pela Coopervitis, o braço comercial da Associação Catarinense dos Produtores de Vinhos Finos de Altitude – Acavitis. De imediato, a comercialização será feita a partir de um Centro de Distribuição Acavitis – CDA, na cidade de São Joaquim. “Vamos melhorar a oferta dos vinhos de altitude de Santa Catarina para todo o Brasil”, garantiu Walter Kranz, presidente da Cooperativa dos Produtores de Vinhos Finos de Altitude – Coopervitis. A partir da cooperativa, a comercialização será realizada sem intermediários e de maneira conjunta. Isso tornará os vinhos mais competitivos no quesito preço, disse Kranz. A logística também irá melhorar, segundo o diretor comercial da Coopervitis, Guilherme Grando. A intenção é fazer com que o período máximo para a entrega dos vinhos a Vinho & Cia - No. 60 qualquer lugar do Brasil não ultrapasse quatro dias. Segundo Grando, na grande maioria dos casos, a intenção é fazer as entregas em 24 horas. De partida, serão 140 rótulos na comercialização coletiva. Vinhos elaborados por 16 produtores filiados à Coopervitis e selecionados por um comitê de degustação integrado por enólogos, sommeliers e representantes dos consumidores. Até o final do ano, o número de rótulos comercializados deverá ser de 180, com os vinhos das novas safras, informou Walter Kranz. Algumas vinícolas estão chegando agora ao mercado, são novas para o público consumidor. Entre elas estão a Abreu Garcia, Hirgami’s, Villaggio Bassetti, Casa Pisani e Vinhedo do Monte Agudo. A Coopervitis será estruturada em torno dos Centros de Distribuição Acavitis – CDAs. O primeiro deles já está em operação na cidade de São Joaquim, em Santa Catarina. As compras podem ser realizadas pelo telefone (49) 3233-3870 ou pela internet, no site www.coopervitis. com.br. O pedido mínimo é de uma caixa ou seis garrafas de vinhos. Em maio, entrará em operação um CDA na cidade de Campinas, para atender os mercados de São Paulo e estados vizinhos, informou Walter Kranz. Há projetos para a criação, ainda este ano, de CDAs em Florianópolis, Curitiba e Brasília. Está previsto também o desenvolvimento de lojas franqueadas Coopervitis em capitais e cidades brasileiras. Segundo Walter Kranz, a Coopervitis não vai prejudicar outros canais de distribuição dos vinhos de altitude de Santa Catarina, como importadoras ou distribuidores. “Pelo contrário, eles serão beneficiados pela estrutura e logística da Coopervitis”, afirmou. A Coopervitis informou que fará, também, a exportação conjunta dos vinhos produzidos dentro da área da Acavitis. Coopervitis Escritório Central Avenida Ivo Silveira, 340, Sala 6 Bairro Jardim Minuano CEP: 88600-000, São Joaquim, SC (49) 3233-3870 www.coopervitis.com.br Vinícolas da Coopervitis Abreu Garcia Casa Pisani Hiragami’s Panceri Quinta da Neve Quinta Santa Maria Serra do Sol Vinhos Finos Sp Bianco Atividades Agrícolas Suzin Villaggio Bassetti Villaggio Grando Vinicampos Vinhedo do Monte Agudo Vinícola Kranz Vinícola Pericó Vinícola Santa Augusta João Lombardo Jornalista e sommelier [email protected] 29 Charutos & Destilados Izakaya, o bar dos japoneses I zakaya” é o termo que se usa para designar um pequeno bar em geral comandado por membros de uma mesma família, que tem bebidas alcoólicas e serve pequenas porções, como se fossem “tapas. Espécie de pub nipônico, os izakayas são comuns e numerosos nas grandes cidades japonesas (Tóquio e Kioto, especialmente), e há cerca de dez anos ganharam similares “mais modernos” em Los Angeles, San Francisco e Nova York. Em São Paulo existem alguns poucos izakayas na Liberdade, que seguindo o modelo japonês são bem pequenos e familiares. Um Izakaya que foi aberto recentemente e não está no bairro é o Itigo Sake House, que fica na Alameda Lorena, 871, onde é possível degustar e comprar sakês nacionais, japoneses e americanos, bebidas especiais e diferenciadas, com diferentes níveis de álcool, de acidez ou polimento dos grãos de arroz. A casa tem mais de 30 rótulos, que podem ser apreciados ao lado de petiscos japoneses que passam longe do combinado sushi e sashimi. A idéia do Itigo Sake House surgiu pouco depois de Ana Toshimi Kanamura 30 apresentar seu trabalho de conclusão do curso de Administração Pública da Getúlio Vargas. Além de fazer Administração, Ana também estudou Gastronomia na Anhembi-Morumbi. Ela tornou-se especialista em sakês após viagens aos Estados Unidos e Japão, onde participou de cursos do especialista John Gauntner, considerado o maior expert não japonês da bebida. Como o sakê ainda é novidade para muitos brasileiros, a presença de Ana na casa é constante para explicar e sugerir os rótulos de acordo com as preferências de cada cliente. Para introduzir o cliente no universo do sakê, a especialista criou réguas de degustação que apresentam a bebida de forma bastante didática. A régua básica inclui três pequenos copos onde são dispostos sakês da mesma categoria (com mesmo nível de polimento de arroz e fermentação), um neutro, um suave e outro seco. Como têm sabor e aromas muito diferentes, é possível perceber o perfil do cliente pela sua preferência. Estabelecido o gosto pessoal, Ana sugere uma segunda régua, mais elaborada, que trabalha com um sakê especial, um premium e outro super-premium. Passada a fase de experimentação, o cliente pode optar por doses de 180ml (chamadas “itigo”, origem do nome do bar) ou garrafas de 300ml, 720ml ou 1,8 litro. Os preços variam de R$15,50 a R$464,00. A casa oferece ainda drinks especiais feitos com sakê e shochu, um importante destilado japonês. Destaque para os drinks “Aka” (shochu, morangos, monin red passion fruit e geléia de framboesa com romã - R$20); “Midori Sea” (sakê, licor midori, licor de kiwi e limão - R$18); “Ringo Chai” (sakê, suco de soja de maçã e monin chai - R$18); e o refrescante “Samurai” (frozen de sorvete melona sabores melão, morango ou banana - com sakê ou shochu - R$20). O Itigo Sake House traz em seu cardápio releituras modernas de receitas tradicionais japonesas, com uma leve influência das cozinhas vietnamita, peruana e tailandesa. Entre os pratos frios, destaque para Hitokuchi Ceviche (peixe marinado com limão, cebola roxa, pimenta e ervas sobre batata doce grelhada - R$18,50); Natsumaki (rolinhos de folha de arroz, com camarão, folhas, ervas e molho estilo tailandês - R$18); e Shime Tataki (tiras de peixe do dia, marinadas em shoyu, gengibre, alho, sakê e shissô – R$16,50). Cesar Adames Consultor gastronômico [email protected] Itigo Sake House Alameda Lorena, 871, Jardins São Paulo (11) 3062-7875 De terça a quinta das 19h às 23h Sextas e sábados, das 19h à 1h. Tem 50 lugares em dois ambientes Vinho&Cia - No. 60 Comportamento “ Da sua infância, há muito tempo, Didú Russo se lembra de muitos fatos. Inesquecível eram os domingos na casa da mamãe, ao som de música lírica italiana, com conservas, pasta e vinho, que nesse dia eram... Domingos da infância O s domingos da minha infância nunca sairão da minha memória. O cheiro do molho de macarrão que a mamãe fazia invadia todas as salas e se misturava ao som de Beniamino Gigli cantando canzonetas italianas. Muitas vezes era o Domenico Modugno, ou o Luciano Tajolli, o Carlo Butti, mas o Gigli era o preferido do papai, pois ficaram amigos pessoais, e eu inclusive tenho alguns discos autografados pelo Gênio da música lírica da década de 50. Em casa sempre se bebia vinho. Durante a semana era vinho barato, papai era pão duro, veio de baixo e não gostava de gastar, pois não sabia o dia de amanhã. Fui criado assim. Mas aos domingos não, era o dia especial, nós praticamente não saíamos Vinho & Cia - No. 60 da mesa do almoço até o jantar. Nesse dia abriam-se bons vinhos, quase sempre italianos, quase sempre Chianti. Íamos então de automóvel até a São Domingos pegar uns pães fresquinhos, um taralo e umas picicatelas. O taralo, como todo italiano sabe, é uma rosquinha salgada para se comer de aperitivo e tem erva doce. Aliás, naquela época toda lingüiça calabresa tinha erva doce, por que não têm mais?... O taralo era uma rosca grande e com açúcar de confeiteiro, ótima para gulosos comer com um copo de leite tipo A gelado. Mamãe, que fazia tudo como ninguém e que foi das mulheres mais bonitas que conheci, fazia conservas de beringela, de abobrinha e de pimentão. Cada uma tinha uma receita própria, não eram iguais, não. Então, essas conservas – mais as lingüiças que o papai cortava tão fininhas que dava para ver seu rosto do outro lado - faziam o antipasto da domenica. Essas lingüiças nós mesmos fazíamos em casa. Era um programão encher as tripas que se comprava no mercado e deixá-las curando na despensa esperando o momento certo. Quando vinha a pasta, quase que nem precisava, mas era impossível não comer, afinal era o prato principal que perfumava a rua, deixando os vizinhos com água na boca. Acabava o almoço, tirava-se tudo e deixava-se o feltro do forro da mesa, pois uns jogavam baralho, outro lia o jornal, outros apenas conversavam... Sempre havia algum tio, um amigo, sempre. E a tarde se passava, o Gigli cantava, o vin santo acabava, até que dava aquela fome novamente e tudo voltava para a mesa. Afinal somos italianos, ora... Didú Russo Confraria dos Sommeliers [email protected] 31 Espumante Cave Pericó Branco Brut 1º espumante da altitude catarinense Medalha de Ouro no 7º Concurso Nacional de Vinhos Finos & Destilados do Concurso Mundial de Bruxelas - Safra 2010 8750_Anuncio_BrancoBrut_245x298mm_A2.indd 1 06/04/11 11:32