UNIVERSIDADE DO EXTREMO SUL CATARINENSE-UNESC CURSO DE PÓS-GRADUAÇÃO EM SAÚDE COLETIVA – SAÚDE DA FAMÍLIA EDNA PEREIRA PECK O PROCESSO DE TRABALHO DE ESTRATÉGIA DE SAÚDE DA FAMÍLIA CRICIUMA, NOVEMBRO DE 2008. EDNA PEREIRA PECK O PROCESSO DE TRABALHO DE ESTRATÉGIA DE SAÚDE DA FAMÍLIA Trabalho de Conclusão de curso, apresentado para obtenção do grau de Especialista no Curso Saúde Coletiva – Saúde da Família da Universidade do Extremo Sul de Santa Catarina UNESC em parceria com o Pólo de Capacitação do Ministério da Saúde. Orientador: Profa. Ms. Giane Michele Frare Peck. CRICIUMA, NOVEMBRO DE 2008. DECLARAÇÃO DE AUTORIA Edna Pereira Peck, registrada no Conselho de Enfermagem sob nº 134423, portadora do documento de identidade nº 9070878691 emitido pela SSPRS, DECLARO para os devidos fins e sob as penas da lei que o trabalho que versa sob o título de O Processo de Trabalho de Estratégia de Saúde da Família, é de minha exclusiva autoria, estando a Universidade do Sul de Santa Catarina, autorizados a divulgá-lo , mantendo cópia em biblioteca, sem ônus referentes aos direitos autorais, por se tratar de exigência parcial para certificação no curso de especialização em Condutas de Enfermagem no Paciente Critico. Criciúma, novembro de 2008. ______________________________________ EDNA PEREIRA PECK COREN-SC Nº 134423 Dedicatória Dedico este trabalho as pessoas que sempre estão presentes em minha vida, mesmo quando a distância nos mantém longe, com amor ao meu pai e minha mãe. Mensagem “ Vou chegando, desse passito enquanto cevo o amargo de minhas confidências, porque ao romper da madrugada e o descambar do sol, preciso camperear por outras invernadas e repontar do céu a força e a coragem para o entrevero do dia que passa. Eu bem sei que qualquer guasca, bem pilchado, de faca, rebenque e esporas, se não se afirma nos arreios da vida, não se estriba na proteção do céu. Ouve, Patrão Celeste, a oração que te faço, ao romper da madrugada e o descambar do sol. Tomara que todo o mundo seja como irmão! Ajuda-me a perdoar as afrontas e não fazer aos outros o que não quero pra mim. Perdoa-me, Senhor, porque, rengueando pelas canhadas da fraqueza humana, de quando em vez, quase sem querer, eu me solto porteira-fora...êta, potrilho chucro, renegado e caboerteiro.... Mas eu te garanto, meu Senhor, quero ser bom e direito. Ajuda-me, Virgem Maria, primeira prenda do céu. Socorre-me, São Pedro, capataz da estância gaúcha. Mas pra fim de conversa, vou te dizer, Meu Deus, mas somente pra ti: que tua vontade leve a minha de cabresto pra todo sempre até a querência do céu.” RESUMO Este trabalho buscou identificar de que forma se realiza o processo de trabalho nas Unidades de Estratégia de Saúde da Família da cidade de Içara- SC. Tem como objetivo conhecer de que maneira é realizado esse processo de trabalho, observar o planejamento, promoção e avaliação de ações da equipe; relatar a questão do acolhimento pelas equipes de ESF; registrar se a equipe recebe capacitação, educação permanente.. Em seguida, é realizada uma entrevista semi-estruturada com os profissionais das equipes quanto a sua forma de trabalho , de que maneira esse se concretiza e se entra dentro dos parâmetros que o Ministério preconiza. Os dados são, então, analisados de forma qualitativa. As informações levantadas e analisadas por esta pesquisa, bem como o resultado das entrevistas, evidenciaram uma transformação satisfatória no processo de trabalho das Unidades de Estratégia de Saúde da Família. A pesquisa demonstrou também que a comunidade não tem ciência desta transformação realizada no Programa de Saúde da Família o que prejudica o avanço e também os resultados do trabalho dos profissionais inseridos nessa estratégia. Palavras-chave: Sistema Único de Saúde; Estratégia de Saúde da Família; Processo de Trabalho. SUMÁRIO INTRODUÇÃO............................................................................................... 07 1. SUPORTE TEÓRICO-TÉCNICO.............................................................. 09 1.1 Aspectos históricos do SUS................................................................ 09 1.2 Processo Saúde /Doença e Processo de Trabalho........... ................ 10 1.3 Trabalho da Estratégia de Saúde da Família...................................... 13 2. TRAJETÓRIA METODOLÓGICA............................................................ 20 2.1 Referencial metodológico e Tipo de pesquisa.................................... 20 2.2 Local de estudo................................................................................... 22 2.3 Sujeito do estudo................................................................................ 23 2.4 Procedimento de coleta de dados...................................................... 24 2.5 Analise e Interpretação dos Resultados............................................. 26 2.6 Aspectos éticos da pesquisa.............................................................. 26 3. APRESENTAÇÃO, ANALISE E DISCUSSÃO SOS RESULTADOS ..... 28 3.1 Perfil dos Sujeitos do Estudo............................................................. 28 3.2 Caracterização da Unidade de Saúde da Família............................. 29 3.3 Identificação das Diretrizes Operacionais do Modelo Saúde da Família....................................................................................................... 30 CONCLUSÃO................................................................................................. 42 REFERÊNCIAS.............................................................................................. 45 APÊNDICES................................................................................................... 48 Apêndice A..................................................................................................... 49 Apêndice B..................................................................................................... 50 Apêndice C..................................................................................................... 46 Apêndice D..................................................................................................... 47 7 INTRODUÇÃO Este estudo configura um Trabalho Monográfico e atende as exigências acadêmicas para a obtenção do título de Especialista em Saúde Coletiva, tendo como temática central o processo de trabalho em Estratégia de Saúde da Família. A escolha do tema partiu de interesse pessoal e com o objetivo de ampliar conhecimento dentro da área onde trabalho e realizar novas descobertas. Porém, acredito que a escolha do tema foi fundamentalmente definida por acreditar que os princípios do Sistema Único de Saúde – SUS e a prática preventiva podem fazer a diferença e mudar o quadro sanitário no qual nosso país se encontra. Segundo o Ministério da Saúde (2004) o Programa de Saúde da Família PSF professa as diretrizes norteadoras do SUS, a exemplo do fortalecimento do controle social e a participação comunitária nos processos de planejamento e avaliação. Ao ampliar o olhar, o programa poderá favorecer as avaliações sócio-antropológicas no contexto de vida individual e coletivo. E por apresentar tais características, contribui para o equilíbrio entre as diferentes dimensões de suporte necessárias para um desenvolvimento sustentável. A velocidade de expansão do programa, desde 1994, ao mesmo tempo em que comprova a decisão política e institucional do MS de fortalecimento da atenção básica com a adesão dos gestores estaduais e municipais, aponta necessidade de que se garanta como base de sustentação um adequado processo de implantação e que mantenha a coerência com os princípios e diretrizes do programa (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2004). O processo de trabalho em saúde faz referência à maneira como um determinado sistema de saúde, dispõe os elementos que constituem as práticas de produção de serviços de saúde que são os agentes do trabalho, os meios de trabalho, o objeto de trabalho e as relações técnicas e sociais que se estabelecem entre os vários componentes desse processo, procurando abranger a totalidade do objeto de conhecimento, conseqüente da problemática de saúde da população do distrito sanitário (FELISBINO E NUNES, 2000). 8 O processo de trabalho busca estimular reflexões sobre a organização do trabalho, no sentido de buscar como o trabalho poderia ser organizado para oferecer um atendimento de qualidade e efetivo, mas que ao mesmo tempo, possibilite a realização de um trabalho coletivo engajado na diversidade de profissionais na área de saúde (LEOPARDI et al,1999). A avaliação do Programa de Saúde da Família é uma tarefa primordial para todos aqueles, sejam profissionais; acadêmicos e a própria comunidade,envolvidos na consolidação deste programa e os avanços do Sistema Único de Saúde (MINISTÉRIO DA SAÚDE,2004). Espero, portanto, com este estudo, descrever como esta sendo realizado o processo de trabalho em unidades de Estratégia de Saúde da Família - ESF, levando-se em conta as diretrizes propostas pelo Ministério da Saúde a fim de que a sociedade tenha o conhecimento para propor mudanças e alcançar os resultados adequados às exigências e necessidades da comunidade que utiliza o serviço. Além disso, penso que este trabalho por se constituir em uma referência bibliográfica, poderá subsidiar pessoas interessadas em ampliar conhecimentos no processo de trabalho que a equipe desenvolve na ESF. O objetivo geral desse estudo foi o de conhecer o processo de trabalho das equipes de Estratégia de Saúde da Família no município de Içara – SC. Os objetivos específicos foram: • Observar o planejamento, promoção e avaliação de ações da equipe; • Relatar a questão do acolhimento pelas equipes de ESF; • Registrar se a equipe recebe capacitação, educação permanente. A questão que se pretende responder com este estudo, diz respeito ao processo de trabalho da equipe de Estratégia de Saúde da Família, como o Ministério preconiza que seja organizado esse processo e como este realmente está sendo realizado nas unidades estudadas. 9 1. SUPORTE TEÓRICO-TÉCNICO 1.1 Aspectos históricos do SUS A Constituição Federal de 1988, em seu artigo 196 estabelece que, “saúde é direito de todos e dever do estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação “. Filgueiras e Andrade (2004) relatam que, após a criação do SUS nos anos 90, o MS implanta o PSF, visando a priorização das ações de proteção e prevenção à saúde dos indivíduos e das suas famílias de forma integral e contínua contribuindo portanto, para o desenvolvimento dos sistemas locais de saúde, com o objetivo de promover a atenção primária de boa qualidade e incentivar a participação da comunidade no planejamento e execução das ações em saúde. Dessa forma, estas ações não deveriam ficar restritas ao nível primário de atenção, porém provocariam reflexos em todos os níveis de atenção. Segundo Hammes (2002, p. 11): “A Norma Operacional Básica (NOB) 01/96 traz importantes inovações e processos mais simplificados de adesão ao processo de municipalização permitindo um avanço considerável da descentralização. Dentre essas inovações precisa ser destacada a introdução do Piso de Atenção Básica – PAB, que destina um valor per capita, depositado mensalmente na conta do Fundo Municipal de Saúde, para financiamento da assistência básica, que se traduz em um conjunto de procedimentos ambulatoriais que, por sua natureza, devem ter sua oferta disponível em todas as localidades. Complementam o PAB fixo, outros programas que se deseja estimular: combate a carências nutricionais, vigilância sanitária, vigilância epidemiológica, vigilância ambiental, assistência farmacêutica, programa de agentes comunitários e da saúde da família”. De acordo com Gil (2006), a mudança do modelo de atenção à saúde é hoje o principal desafio do SUS e indica nas diretrizes gerais, o aconselhamento de ampliação da cobertura dos serviços em todos os níveis de complexidade, com ênfase na Atenção Básica, dando prioridade a estratégia 10 Saúde da Família e outras semelhantes que possibilitem a mudança de orientação do modelo de atenção. Ainda segundo a mesma autora, na NOB-96 é onde se encontra as primeiras citações sobres a mudança do modelo de atenção à saúde, destacando nesse momento o PSF como opção. Na NOB-96 é citada Saúde da Família, recomendada para a reordenação do modelo de atenção centrada não apenas no financiamento, mas também nos resultados esperados, prioriza a importância de vínculo entre serviços e usuários, privilegiando os núcleos familiares e comunidade; ressalta a integridade das ações e necessidade de incorporar no modelo clínico, o modelo epidemiológico. 1.2 Processo Saúde/ Doença e Processo de Trabalho Várias definições têm sido utilizadas nos meios técnicos e científicos para o processo saúde-doença. Primeiramente, é necessário deixar claro que esta concepção está diretamente ligada à forma como o ser humano está relacionado com a natureza e como busca transformá-la para atender suas necessidades. Outro fato importante é que a concepção de saúde-doença dá suporte a projetos que buscam transformar a realidade. Portanto, a prática da assistência junto aos indivíduos é orientada pela visão que se tem de saúde, doença, trabalho, modo de vida, e tudo que faz parte da vida deste indivíduo. Significa que saúde-doença compõe momentos de um processo maior, que se refere á vida das pessoas, por sua vez, está intrinsecamente, ligada ao potencial que elas têm ao acesso ás necessidades para viver a vida, seja a moradia, a alimentação, a educação, a saúde, o lazer, etc. Ter acesso, numa sociedade como a brasileira, depende da inserção no mercado de trabalho. Portanto, saúde-doença depende muito do lugar que o indivíduo ocupa na sociedade, não deixando de lado as características de cada um como sua carga genética. Essa concepção de fazer/ promover saúde, se dá através de um quadro que evidencia dois planos: o da realidade atual dos serviços de saúde e 11 o que se propõe com a abordagem da saúde-doença nos grupos sociais e sua resolutibilidade. A vida humana não é estática, e sim, dinâmica e contraditória. Desta forma, a saúde não se reduz à aparição de um transtorno e à busca de um serviço de saúde. Os problemas de saúde são resultados de um processo complexo e dinâmico que se produz no interior da sociedade. Como exemplo, as condições de saúde dos trabalhadores se produzem no local do trabalho, no âmbito familiar do domicílio em que residem, na sua vida organizativa e cultural, entre outros. Em cada um desses espaços fatos que possivelmente sejam destrutivos para o funcionamento de seu corpo biopsíquico. Em todos esses locais também pode haver fatos que sejam benéficos para a saúde. Nos vários momentos da vida poder predominar um dos pólos: de fortalecimento ou de desgaste do corpo humano e isso se dá através da manifestação de saúde-doença, como estado de saúde ou de doença. Essa abordagem que busca a integralidade orienta uma nova intervenção que transcende ao fazer tradicional que impera na história natural da doença, vinculada aos atributos integrantes da cadeia de enfermidades, ou seja, o ser humano, denominado hospedeiro, o agente etiológico e o meio ambiente. Segundo esta abordagem, as intervenções são focais e dizem respeito ao restabelecimento do reequilíbrio dessa cadeia. A atuação do profissional de saúde deve ir de encontro às necessidades dos usuários de dos serviços de saúde, individualmente ou nos grupos sociais a que pertencem, entendendo seu processo saúde-doença em primeiro lugar, uma vez que se deve partir este marco para superar o entendimento tradicional. Entendendo-se que a doença não esta somente ligada à exposição ao agente etiológico ou a alguns fatores, é preciso disponibilizar a população informações de como operam a saúde e a doença, ou seja, como se originam efetivamente. Convém enfatizar que o entendimento da saúde e da doença não deve deixar de lado o conhecimento sobre como ocorrem para além das questões biológicas. Assim, aspectos relativos ao agente biológico são fundamentalmente importantes, mas não reduzem a ele. (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2001, pág. 5). 12 Os profissionais de saúde, na sua prática diária, exercem a lógica médica e medicalizante, preponderante na sociedade ocidental, atuando segundo as teorias da uni ou multicasualidade do processo saúde-doença; atuando muitas vezes desse modo sem que se dêem conta. As consultas estão pautadas sobre o eixo da queixa-conduta, sendo que os indivíduos só comparecem ao atendimento porque de alguma forma estão vivenciando um processo de sofrimento naquele momento, através de um sintoma ou sinal físico. O processo de adoecer sobre a ótica da determinação social do processo saúde-doença, em que as condições de vida e trabalho deste indivíduo são determinantes do seu perfil de saúde muitas vezes é deixado de lado em detrimento das causas biológicas da doença. De acordo com Gil (2006), no período anterior à criação do Sistema Único de Saúde, a Atenção Primaria à Saúde representa um marco referencial para a organização dos serviços em um raciocínio que tinha como proposta ser uma das alternativas primordiais de mudança do modelo assistencial. Após sua criação e o desenvolvimento de seus mecanismos financeiros e operacionais, cada vez tem sido mais repetido o uso do conceito Atenção Básica como referência aos serviços municipais. Ultimamente, vimos crescer no cenário brasileiro o Programa de Saúde da Família que fecundou este debate ao explicitar a superposição destes referenciais que permeiam a organização dos sistemas locais. O avanço do PSF trouxe para o centro dos debates a insuficiência das disposições organizacionais atuais e a falência das práticas profissionais e de gestão no que se refere propriamente à mudança dos paradigmas que regem o modelo tradicional de atenção à saúde. Dessa forma, pode-se considerar que o PSF avançou de programa para estratégia em parte devido ao acúmulo subjacente ao debate e experiências em torno destes referenciais. Em nosso entendimento, o PSF é apoiado mais no referencial da Vigilância à Saúde (organização das ações a partir do território e problemas de saúde, intersetorialidade, descriminação positiva de saúde, paradigma da produção social da saúde) que sustenta a Saúde da Família como estratégia de organização da Atenção Primária, contrariando as versões de que esta seria uma disposição contemporânea da medicina simplificada, um programa, apenas de medicina familiar e somente atenção materno-infantil.( GIL.2006). 13 Ainda segundo Gil(2006), a proposta Em Defesa da Vida, com seu foco principalmente voltado aos processos de trabalho em saúde, ao investir em métodos, instrumentos de gestão e de organização do trabalho coletivo com o intuito produzir mudanças no interior do sistema e mudanças das pessoas e de suas práticas, favorece o acolhimento, o vínculo, o contrato e a autonomia dos sujeitos na organização progressiva do cuidado como estratégias de transformação do sistema e, como as anteriores, estas formulações estão bastante contidas nas reflexões contemporâneas e nos debates que permeiam a estruturação da Saúde da Família. 1.3 Trabalho da Estratégia de Saúde da Família A criação do PAB permitiu mudanças e inovações em aspectos de gestão, organização e financiamento dos serviços prestados pelo SUS, respondendo aos princípios de universalidade, eqüidade, integralidade e participação social. Nesse contexto, destaca-se a implementação e expansão da estratégia Saúde da Família no âmbito da atenção básica (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2004). Segundo Souza (2002), a estratégia de saúde da família, passa a ser um projeto estruturante e provocador de transformações internas no sistema. A reformulação do modelo de atenção a saúde, com profissionais preparados para o exercício de um novo processo de trabalho objetivando uma prática ética, humana, cuidadosa, vinculada ao exercício da cidadania, baseada na compreensão de que as condições de vida determinam os processos de saúde/doença dos indivíduos/famílias/comunidades. Conforme Guia Prático do PSF, editado pelo Ministério da Saúde (2001), alguns dos pontos básicos do programa, são a integralidade e a resolubilidade. Nos territórios onde estão implantadas, as Unidades de Saúde da Família são as responsáveis pela atenção básica das comunidades, não devendo ocorrer paralelismo na assistência prestada. A partir da NOB 01/2001 ampliam-se as responsabilidades dos municípios na Atenção Básica. Essa norma define o processo de regionalização da assistência, cria mecanismos para fortalecimento da gestão 14 do SUS e atualiza os critérios de habilitação nas diferentes formas de gestão, para os estados e municípios. Como enfatiza Ribeiro (2003), as equipes de saúde da família, formadas basicamente pelo médico generalista ou de família, enfermeiro, auxiliar de enfermagem e agentes comunitários de saúde, têm como objetivos centrais a prestação de assistência integral, contínua, com resolutividade e qualidade, às necessidades de saúde da população adscrita ,baseando-se na territorialização, no vínculo, na participação da comunidade no controle social. Segundo o Guia Prático do PSF (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2001), as atividades esperadas a todos os profissionais que integram as equipes da programação são: conhecer a realidade das famílias; identificar os problemas de saúde; elaborar com participação da comunidade um plano local para enfrentamento dos fatores de risco e problemas de saúde; executar procedimentos de vigilância a saúde e de vigilância epidemiológica; realizar visitas domiciliares; resolver os problemas de saúde no nível de atenção básica; garantir o acesso a continuidade do tratamento dentro de um sistema de referência e contra-referência; prestar assistência integral a população adscrita; coordenar, participar ou organizar grupos de educação para saúde; promover ações intersetoriais; incentivar a participação popular, discutindo com a comunidade conceitos de cidadania, de direito a saúde e suas bases legais; estimular a formação ou participação ativa da comunidade no conselho municipal de saúde; auxiliar a implantação do cartão nacional de saúde Organizar a atenção a partir do núcleo familiar é enfatizar as ações de promoção à saúde e prevenção de riscos e doenças. Essas ações não se centram exclusivamente no serviço de atendimento primário, mas estendem-se ao meio social e familiar. Esta visão diferencia-se do modelo hegemônico de atenção à saúde pois, não se baseia unicamente na cura da doença do indivíduo (MINISTÉRIO DA SAÚDE,2004). Neste processo de mudança do modelo assistencial, o PSF surge como uma estratégia efetiva na busca da consolidação do SUS. De acordo com Ribeiro e Andrade (2004), o PSF constitui-se numa mudança de enfoque nas políticas sociais de saúde, propondo uma prática de assistência com novas bases estruturais que devem alterar o modelo tradicional de cuidado centrado na cura das doenças e substituir pelo modelo onde o enfoque 15 principal é a família e a forma como estas interagem com o meio e as condições de risco a saúde. Hammes apud Paula (2001) coloca que, o PSF possui como estratégia fundamental a criação, por parte do serviço/profissionais, de vínculo, acolhimento e compromisso com a família e a comunidade, resultando em uma assistência mais humanizada, estreitando o relacionamento entre profissionais de saúde e a população. Segundo Gil(2006), considerando que a organização dos serviços não acontece ao acaso e que as práticas profissionais, na sua essência, ocorrem articuladas a um corpo de idéias, a um conjunto de ações coordenadas que representam um determinado processo de trabalho em saúde estruturado pela forma como os serviços estão organizados, geridos e financiados, esse é o posicionamento do Ministério da Saúde. Para o programa “a comunidade é a razão da existência do mesmo e deve ser identificada como sujeito capaz de avaliar e intervir, modificando o próprio sistema, fortalecendo, assim, o fazer democrático da saúde”. (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2004, p.80) O Ministério da Saúde(1997, p.23) reforça a participação da comunidade quando diz que, “ o controle social do sistema de saúde é um princípio e uma garantia constitucional regulamentada pela Lei nº 8.142/90.” Dessa forma as ações desenvolvidas pelo PSF devem seguir as diretrizes estabelecidas pela legislação no que se refere à participação popular e a comunidade deve estar presente de forma efetiva no funcionamento do programa, participando dos conselhos de saúde do município e exigindo que se faça cumprir o que diz a constituição e os princípios que regem o PSF. Conforme descreve Franco et al (1999, p.5): “ O acolhimento propõe inverter a lógica de organização e funcionamento do serviço de saúde, partindo dos seguintes princípios: atender a todas as pessoas que procuram os serviços de saúde, garantindo a acessibilidade universal; reorganizar o processo de trabalho, a fim de que este desloque seu eixo central do médico para uma equipe multiprofissional equipe de acolhimento, que se encarrega da escuta do usuário, comprometendo-se a resolver seu problema de saúde; qualificar a relação trabalhador-usuário, que deve dar-se por parâmetros humanitários, de solidariedade e cidadania.” No PSF se trabalha com um território definido, uma área de abrangência onde as equipes atuam com a clientela; porém o território não 16 pode ser visto somente na concepção limitada de espaço, área estática, não assumindo o dinamismo da construção deste espaço. Na concepção adotada pelo setor saúde, o território constitui o lugar onde vários sujeitos sociais, profissionais de diferentes setores, movimentos populares, organizações não governamentais, conselhos e o estado atuam coletivamente com a intenção de promover a melhoria das condições de vida e saúde (RIBEIRO e ANDRADE, 2004). Outro conceito norteador do programa é o de adscrição que, segundo Ministério da Saúde (2004), refere-se à organização dos distritos sanitários em base territorial objetivando a responsabilidade política, jurídica, administrativa e técnica dos serviços de saúde e das autoridades sanitárias locais frente a população que nasce, vive, adoece e morre naquele espaço. Segundo o Ministério da Saúde (MS), (2004 p.7): “O Programa Saúde da Família (PSF), configura uma concepção de trabalho, uma nova forma de vinculo entre os membros de uma equipe, diferentemente do modelo biomédico tradicional, permitindo maior diversidade das ações e busca permanente do consenso. Tal relação, baseada na interdisciplinaridade e não mais na multidisciplinaridade, associada a não aceitação do refugio da assistência no positivismo biológico, requer uma abordagem que questione as certezas profissionais e estimule a permanente comunicação horizontal entre os componentes de uma equipe. Assim, fazem-se necessárias mudanças profissionais significativas nas abordagens individual,da família e da comunidade , para que ocorra , de fato, a efetiva implantação de um novo modelo de atenção a saúde”. No modelo vigente, a atenção é centrada no caso clínico, na relação individual entre profissional e paciente, na intervenção terapêutica cirúrgica ou medicamentosa específica. Tal modelo necessita, então, ser associado, enriquecido e transformado em um modelo de atenção que visa a qualidade de vida das pessoas e do meio a qual estão inseridas, e também na relação da equipe de saúde com a família e comunidade como um todo, favorecendo e impulsionando, inclusive, mudanças globais e intersetoriais (NORMA OPERACIONAL BÁSICA DO SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE 01/96,1997). Segundo Ministério da Saúde(2004), a qualificação dos profissionais das equipes de Saúde da Família constitui-se em uma estratégia para transformação nas práticas de saúde, levando a mudança do modelo atual de 17 atenção centrada no indivíduo, buscando o caminho da integralidade e uma maior resolubilidade da atenção básica. O Sistema de Informação da Atenção Básica – SIAB é um mecanismo que foi criado para permitir o acompanhamento contínuo da população adscrita e a avaliação das atividades desenvolvidas pelas equipes da USF, servindo como importante ferramenta para o planejamento das ações destas, pois agrega os dados e processa as informações da população acompanhada (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2004). Ministério da Saúde (2000,p.26) refere que: “Deve-se ter em mente que o objetivo geral da estratégia saúde da família é de contribuir para a reorientação do modelo assistencial a partir da atenção básica , em conformidade com os princípios do SUS, imprimindo uma nova dinâmica de atuação nas unidades básicas de saúde , com definição de responsabilidades entre os serviços de saúde e a população . E , para atingi-lo , a Equipe de Saúde da Família – ESF precisa conhecer a realidade da população sob sua responsabilidade : os contextos familiares e a vida comunitária desenvolvendo um processo de planejamento pactuado em cada uma das fases: sua programação, na execução e na avaliação”. Dependendo das necessidades loco-regionais, as áreas temáticas do elenco de capacitação das equipes de Saúde da Família são bastante diversificadas, porém, a partir da definição do território adscrito, o MS estimula às equipes a capacitação em um elenco mínimo de conteúdos, estabelecidos no processo de discussão para a reestruturação da Atenção Básica: saúde da criança, saúde da mulher, controle da hipertensão, diabetes, tuberculose e hanseníase e saúde bucal, entre outros (MINISTÉRIO da SAÚDE, 2004). Souza (2002) considera que, esses programas propiciam maior abrangência do atendimento, no que se refere à atenção básica em saúde. Todavia, da maneira como vêm sendo implantados, existe o risco de uma limitação de ações ao atendimento em nível primário. Outro agravante que vem dificultando uma ação mais efetiva e resolutiva do PSF, constitui a falta de garantia nos serviços de saúde para atender os casos mais complexos. Essa mesma autora (p.138) destaca ainda que: “ A multiplicidade de ações e serviços propostos pelo PSF tem implicações sobre o elenco de eventos de saúde que podem ser estudados. Diferentemente dos programas de intervenção sobre ações específicas(programa de redução da mortalidade infantil, programa de humanização do parto e da atenção pré-natal, dentre 18 outros), o PSF, tendo como propósito a reorganização da atenção básica e , mesmo, o impulsionamento da reorientacão dos sistemas locais de saúde, apresenta múltiplos efeitos potenciais a serem pesquisados. “ Como proposta de desenvolvimento, o PSF, em âmbito local, vêm se mostrado um dos mais avançados programas em direção à promoção de saúde e tendo, nos seus princípios a operacionalização, vinculação, responsabilização e resolutividade com um olhar amplo sobre o ambiente em suas dimensões físicas, culturais, biológicas e sociais (MINISTÉRIO da SAÚDE, 2004). No contexto de saúde no Brasil, a estratégia saúde da família vem trazendo mudanças substanciais, porém, um dos maiores desafios enfrentados para o desenvolvimento das atividades propostas está na formação dos profissionais, que tem estado estagnada nas concepções que sustentam e orientam modelos de atenção à saúde, centrada no biológico, curativo e individual (RIBEIRO e ANDRADE, 2004). O PSF vem contribuindo para dar um salto de qualidade no processo de desenvolvimento do SUS. Este programa possui uma característica importante: a do trabalho inter e multidisciplinar, onde há uma definição de competência e co-responsabilidade por parte de todos os seus membros. Assim, a implantação do PSF coloca um novo desafio para os profissionais de saúde que consiste na revisão de suas práticas diante de novos paradigmas, exigindo a esses profissionais e aquele em formação, o repensar crítico do processo e da atividade humana (RIBEIRO e ANDRADE,2004). Ribeiro (2003, p. 9) refere: ” Que o trabalho em equipe de modo integrado significa conectar diferentes processos de trabalhos envolvidos, com base em um certo conhecimento acerca do trabalho do outro e valorizando a participação deste na produção de cuidados ; é construir consensos quanto aos objetivos e resultados a serem alcançados pelo conjunto dos profissionais , bem como quanto à maneira mais adequada de atingi-los.” Leopardi et al (1998) relatam que um processo de trabalho em que a necessidade é apresentada por um sujeito e o trabalho executado por outro é chamado prática social. Considerando ainda que o projeto não têm sido 19 pensado pelo sujeito que possui a necessidade mas por um especialista que visa a interassistência no sistema de saúde. Segundo Ribeiro (2003), a partir de sua expansão e difusão, pelo seu potencial de inclusão de parcelas crescentes da população brasileira na assistência em saúde e pelo considerável contingente de trabalhadores envolvidos o PSF adquiriu significativa importância, pois preocupa-se em refletir sobre o trabalho das equipes utilizando como referência a teorização sobre o processo do trabalho em saúde. A mesma autora aponta ainda que tal trabalho é coletivo, realizado por diferentes profissionais de saúde como também por outros trabalhadores capazes de desenvolver uma série de atividades necessárias para a manutenção da estrutura institucional e envolve características do funcionalismo assalariado, da divisão parcelar do trabalho e algumas características do trabalho profissional do tipo artesanal. Schraiber et al. apud Ribeiro (2003, p. 4) comenta que: “ No modelo assistencial, há a tendência de se adotar políticas que passem tanto a desproteger o trabalho e o trabalhador, quanto, no caso da saúde, a regular diretamente o produtor direto de cuidados, interferindo imediatamente em seus processos de trabalho”. Campos apud Ribeiro (2003) aponta os resultados desse modelo que é baseado na especialidade e na diminuição crescente da capacidade de cada profissional resolver problemas, ocasionando tratamentos cada vez mais longos e que requerem inúmeros especialistas, aumentando custos, sofrimento e restrições ao cliente além de uma perda da visão integral do indivíduo que necessita de cuidados em saúde. Ribeiro (2003, p. 9) reforça que: “A construção de um novo modelo assistencial em saúde, no sentido dos valores propostos pelo SUS e que aparecem, em parte, no PSF, é um desafio. É essencial um modelo de organização dos serviços de saúde alicerçado em condições sócio-políticas, materiais e humanas, que viabilize um trabalho de qualidade para quem o exerce e para quem recebe a assistência”. “A tarefa é desafiadora, já que requer rompimentos, enfrentamentos, criação, opção, ação nas macro, intermediária e micro dimensões” (RIBEIRO,2003, p.10). 20 2. TRAJETÓRIA METODOLÓGICA 2.1 Referencial Metodológico e Tipo de Pesquisa Devido à natureza do fenômeno estudado e do objetivo proposto, o estudo teve uma abordagem qualitativa, segundo Minayo (1998), a abordagem qualitativa deve ser empregada para “a compressão de fenômenos específicos e delimitáveis mais pelo seu grau de complexidade interna do que pela sua expressão quantitativa”. Ainda afirma que não se pode ficar restrito ao referencial quantitativo ao se tratar de qualquer pesquisa social que pretenda um aprofundamento maior da realidade. Ainda segundo Minayo (1998) coloca a pesquisa qualitativa como àquela que se preocupa em estudar a realidade social dos indivíduos, com riqueza de significados. Aborda o conjunto de expressões emergidos do processo em estudo e dos significados a elas atribuídos. Esta abordagem da pesquisa trabalha dados que não podem ser quantificados, pois utiliza um universo de significados, motivos , atitudes, valores e utiliza uma dimensão mais profunda da compreensão da realidade. Dessa forma, a abordagem metodológica qualitativa se justifica por focalizar a compreensão do problema. Sintetizando as características da abordagem, temos: Qualitativos: - Busca descrever significados que são socialmente construídos, e por isso é definida como subjetiva; - Tem características não estruturadas, é rica em contexto e enfatiza as interações. O estudo apresentado, classifica-se em uma pesquisa descritiva e exploratória. 21 O estudo descritivo, conforme Cervo e Bervian (1996), caracterizase pela observação, registro e análise dos fatos vivenciados. Busca descobrir como ocorre o fenômeno e conhecer a diversidade do contexto social. Os estudos exploratórios, segundo Triviños (1995) permitem ao investigador aumentar sua experiência em torno de uma determinada problemática. Para ambos os autores, o estudo exploratório permite ao investigador aprofundar o conhecimento da realidade específica, através de um levantamento do material necessário para investigação, oportunizando maior experiência em torno da problemática em questão. Realiza descrições precisas da situação vivenciada, a fim de definir os objetivos e buscar maiores informações acerca da temática em estudo. Contribuição muito importante a este estudo nos traz Mattar (2003, p. 45), ao abordar um aspecto importante na identificação de uma pesquisa descritiva. Esse tipo de pesquisa "responderá a questões como: quem, o quê, quando e onde”. Dessa forma, o autor ressalta a inter-relação com o problema de pesquisa, ao afirmar que sua utilização deverá ocorrer quando o propósito de estudo for descrever as características de grupos, estimar a proporção de elementos que tenham determinadas características ou comportamentos, dentro de uma população específica, descobrir ou verificar a existência de relação entre variáveis. Pode-se observar que os autores não se reportam a questão da formulação de hipóteses para sustentar a pesquisa descritiva, o que parece indicar que não seja elemento essencial no desenvolvimento da referida pesquisa, ou que até mesmo seja inexistente. Sob esse aspecto, Lakatos e Marconi (2001, p. 76) fazem referência expressa à formulação de hipóteses no estudo descritivo, ao afirmar que uma pesquisa descritiva pode ser um estudo de verificação de hipóteses, o qual contém hipóteses explícitas a serem verificadas, derivadas da teoria, consistindo-se em caso de associação de variáveis. Trata-se, portanto, de uma modalidade de pesquisa cujo objetivo principal é descrever, analisar ou verificar as relações entre fatos e fenômenos (variáveis), ou seja, tomar conhecimento do que, com quem, como e qual a 22 intensidade do fenômeno em estudo. A pesquisa descritiva pode também ser utilizada para avaliação de programas; sendo que tais estudos podem ou não trabalhar com a formulação de hipóteses e muitas vezes podem servir de base para estudos de relações causais. No entanto, devido à fonte de informação, foi utilizada também a pesquisa bibliográfica, aquela em que se utiliza a análise de publicações, para reconhecer sua freqüência, regularidade, tipos, assuntos examinados, métodos empregados em texto para estudar determinado tema. Requer o acesso à bibliografia prevista para análise do tema, tempo e precauções sobre a uniformidade dos registros. Que consiste na busca de dados a partir do acervo bibliográfico existente, isto é, em toda espécie de informação registrada em bibliografias e que pode, em tese, ser arquivada numa biblioteca. (RAUEN, 1999, pág. 31). Diante da citação acima, a pesquisa ficou classificada em bibliográfica, pois para a elaboração do presente estudo utiliza o acesso à biblioteca, revistas, internet, enfim, diversas publicações sobre o assunto. 2.2 Local de Estudo Este estudo foi realizado em cinco Unidades de Estratégia de Saúde da Família no município de Içara – SC. A origem do nome de Içara deve-se à palmeira juçara ou jiçara, conhecida popularmente como içaroba, muito comum na região quando se iniciava por aqui a construção da Estrada de Ferro Dona Tereza Cristina. Içara foi distrito de Criciúma desde 1944, emancipado em 20/12/1961 (Lei 796). O município de Içara possui uma população de 55646 habitantes, localiza-se no litoral sul do Estado de Santa Catarina, pertence à AMREC – Associação dos Municípios da Região Carbonífera – 21ª GERSA (Gerência Regional de Saúde), com sede em Criciúma. Faz limites ao norte com Criciúma e Morro da Fumaça, ao sul com o município de Araranguá e Oceano Atlântico, a leste com o Oceano Atlântico e Jaguaruna e a oeste com Criciúma. A BR 101 23 corta o município, que possui a SC 444 como principal via de acesso, que liga suas praias aos municípios da região carbonífera e pela estrada de Ferro Dona Tereza Cristina que escoa a economia regional até o Porto de Imbituba. As Unidades se Saúde estudadas localizam-se em diferentes locais do município essa escolha deve-se ao fato de entrevistar diferentes realidades e demandas de serviço. Todas as Unidades pesquisadas estão credenciadas na Estratégia de Saúde da Família, no Ministério da Saúde, e fazem atendimento exclusivamente pelo SUS. O município de Içara conta com dezesseis Unidades, sendo sua área totalmente abrangida por Unidades de Estratégia de Saúde da Família. Também conta com dez Unidades Subordinadas. A Estratégia conta com suporte de cinco carros para realização de visitas domiciliares, sendo que esses são designados uma vez por semana para cada unidade durante um dos períodos de atendimento, a Secretaria Municipal de Saúde também dispõem de uma ambulância UTI móvel equipada, adquirida em 2005 em convênio com a Cooperativa Mista Aliança de Içara. As Unidades são compostas por equipes multiprofissionais que compreendem um médico, um enfermeiro, um dentista, dois a quatro técnicos de enfermagem, um auxiliar de serviço odontológico e um agente comunitário por microárea. 2.3 Sujeito do Estudo Trata-se de uma pesquisa qualitativa, pois foi levado em consideração o conteúdo das respostas cedidas durante as entrevistas, evidenciando assim, a forma de processo de trabalho dos profissionais que trabalham em Unidades de Estratégia da Família. A pesquisa foi realizada com todos os profissionais da equipe da Unidade de Saúde da Família - USF, constituída por médico, enfermeira, técnicas de enfermagem, e agentes comunitárias de saúde. 24 Os sujeitos foram identificados com a letra “E”, seguido do algarismo arábico em ordem crescente (E1, E2, E3, E4, E5, E6, E7), de acordo com a realização das entrevistas. Fizeram parte do estudo somente os sujeitos que preencheram os seguintes requisitos abaixo: - Integrar uma equipe do Programa Saúde da Família; - Concordar em participar do estudo; - Permitir que os dados analisados possam ser divulgados. Aos sujeitos que participaram do processo de entrevista foram expostos os objetivos do estudo e o que pretendia com o mesmo, ressaltando os seus benefícios e, garantindo o anonimato dos participantes. Foi solicitada a coordenação da Secretaria Municipal de Saúde de Içara - SC, o seu consentimento formal para a utilização de dados seguindo as normas de pesquisas com seres humanos do Conselho Nacional de saúde (CNS), atendendo à resolução 196/96. Formalizando assim, as exigências éticas de um protocolo de pesquisa. 2.4 Procedimento de Coleta de Dados Para coleta de dados, foram utilizados dois instrumentos: questionário individual auto-aplicado ( Apêndice B), que teve o objetivo de descrever o processo de trabalho das equipes pesquisadas; e a observação não participante com registro em diário de campo (Apêndice A) onde neste estudo o pesquisador também é um instrumento de coleta de dados, pois as informações obtidas provém, inclusive, da observação realizada já que nesse caso o pesquisador traduz os dados observados, à luz de sua percepção. Conforme Marconi e Lakatos (1999), na observação não participante o pesquisador presencia o fato mas não participa dele, permanece de fora com papel de espectador, entretanto, a observação não quer dizer que seja de forma desordenada ou inconsciente. 25 Enquanto técnica de coleta de dados, a entrevista é bastante adequada para a obtenção de informações acerca do que as pessoas sabem, crê, esperam, sentem ou desejam, bem como acerca de suas explicações ou razões a respeito das coisas precedentes. (SELLTIZ apud LEOPARDI, 2001, pág.64). Segundo a citação acima, podemos considerar essa metodologia de coleta de dados com uma vantagem essencial, pois os mesmos atores sociais proporcionam os dados relativos. Ninguém melhor do que os profissionais que trabalham na Estratégia de Saúde da Família para relatar o processo de trabalho no qual estão inseridos. Foi utilizada também a observação direta por meio de diário de campo como outro meio de coleta de dados a fim de reconhecer na realidade o que nem sempre é muito visível. Sabino (apud LeopardI, 2001, pág. 193) diz que “a observação pode ser definida como o uso sistemático de nossos sentidos, na busca de dados que necessitamos para resolver um problema de investigação.”. Portanto, através da observação se obtém informações no momento em que os eventos ocorrem, pois o observador, esteve presente registrando os dados. • Resultados: corresponde ao produto final do processo de trabalho realizado, considerando o conhecimento dos profissionais em relação a esse. Foi avaliada a visão dos profissionais através de entrevista (apêndice A), quanto aos seguintes tópicos: • Planejamento, programação, avaliação das ações das equipes; • Relato sobre a questão do acolhimento por parte dos profissionais; • Registro sobre cursos de capacitação e educação permanente. Para a confiabilidade dos dados coletados, será utilizada uma metodologia chamada Triangulação, pois como Leopardi (2001, pág. 253) se refere “esse é o processo relacionado à coleta de dados em que o investigador procura utilizar fontes diferentes, ou técnicas diferentes, ou ambas, obtendo três vias diferentes de acesso aos dados.” Entre as formas de fazer 26 triangulação será utilizada a entrevista associada a observação nãoparticipante. 2.5 Analise e Interpretação dos Resultados Após leitura e organização dos dados, estes foram analisados dentro do contexto da Unidade. As respostas que possuíram características comuns e que se relacionaram entre si, foram agrupadas por meio de levantamento das falas estabelecendo-se categorias, que conforme Minayo (1998,p.70), “ Trabalhar com categorias significa agrupar elementos, idéias ou expressões em torno de um conceito capaz de abranger tudo isso”. Para Triviños (1995), não existe a possibilidade de analisar as informações da forma restrita como elas se apresentam. É preciso organizálas, classificá-las e interpretá-las em um contexto amplo, distinguindo o fundamental do desnecessário, buscando explicações e significados de pontos de vista. O isolamento dos materiais reunidos só pode ser compreendido, num primeiro momento, para melhor atingir suas conexões dentro de um quadro maior de um contexto mais abrangente. 2.6 Aspectos Éticos da Pesquisa A pesquisa envolvendo seres humanos deve atender às exigências éticas e científicas fundamentais de acordo com a Resolução 196/96 descrito no Conselho Nacional de Saúde do Brasil. Segundo Leopardi (2001, pág. 158) “toda pesquisa tem uma interferência direta ou indireta na vida humana, por isso, independente de sua metodologia e objetivo é preciso estar atento e crítico para avaliar os danos que elas podem causar a vida, nas suas diferentes dimensões.” Reforçando a ética deste estudo, faz-se necessário apresentar algumas definições da resolução: 27 • II.1 – pesquisa: classe de atividades, cujo objetivo é desenvolver e contribuir para o conhecimento generalizável, o qual consiste em teorias, relações, princípios e no acúmulo de informações sobre as quais estão baseadas, que possam ser corroborados por métodos científicos aceitos de observação e inferência; • II.2 – pesquisa envolvendo seres humanos: pesquisa que, individual ou coletivamente, envolva o ser humano de forma direta ou indireta, em sua totalidade ou partes dele, incluindo o manejo de informações ou materiais; • II.10 – sujeito da pesquisa: é o participante pesquisado, individual ou coletivamente, de caráter voluntário, vedada qualquer remuneração; • II.11 – consentimento livre e esclarecido: a anuência do sujeito da pesquisa e/ou do seu representante legal, livre de vícios, simulação, fraude ou erro, dependência, subordinação ou intimidação, após a explicação completa e pormenorizada sobre a natureza da pesquisa, seus objetivos, métodos, benefícios previstos, potenciais riscos e o incômodo que esta possa acarretar, formulada em um termo de consentimento, autorizando sua participação voluntária na pesquisa. Durante esse processo, foi garantido aos pesquisados o sigilo quanto à autoria das respostas aferidas nas entrevistas, assim como, a honestidade na transcrição das mesmas, pois estas permearão o estudo. 28 3. APRESENTAÇÃO, ANALISE E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS Neste capítulo, apresento o perfil dos entrevistados , seguindo-se da análise e confrontamento das falas dos sujeitos com a literatura consultada somando-se às reflexões da autora. Os dados mais significativos que emergiram das questões norteadoras, foram agrupados em categorias, referenciadas a seguir: - Perfil dos sujeitos do estudo; - Caracterização da USF; - Identificação das diretrizes operacionais do modelo Saúde da Família. 3.1. – Perfil dos sujeitos do estudo O tipo de vínculo contratual de todos os funcionários das equipes é o regime de contrato temporário e ingressaram nesse emprego através de seleção interna na instituição. Os PSFs estão implantados em sua maioria oito anos; O estudo contou com o depoimento de vinte e quatro agentes comunitárias de saúde, cinco médicos, cinco enfermeiras, doze técnicas de enfermagem e dois dentistas. Uma questão com relação a todas as equipes entrevistadas, que acredito não poder deixar de fora da análise dos dados deste estudo com relação ao vínculo empregatício, todos os profissionais das equipes são contratados em regime de contrato temporário, e como o período de estudo coincidiu com o momento de grande tensão política no município, pude vivenciar a preocupação e pressão em que as equipes estavam submetidas, isso gerou grande insegurança nos profissionais das USF de Içara, pois além destes estarem lidando com situações novas, o fato de terem agregado uma inserção profissional insegura é problemático. Passando por salários, 29 condições de trabalho, modalidade de contratação e também com falta de recursos humanos. Isso conseqüentemente vai repercutir na forma de trabalho. As falas a seguir vem confirmar a insegurança dos profissionais: “ Assim não tem como a gente trabalhar direito, não sei se amanha vai sair a lista com o nome das pessoas que vão ser demitidas, não tenho nem como planejar algo pois não sei se vou estar aqui semana que vem”. (E6) “Não dormi esta noite, tô mal, até quando eles vão deixar a gente nesta agonia”. (E1) “ Na reunião do conselho eles disseram que a gente fica, que eles não vão deixar ninguém da equipe sair daqui, nem que tenha que fazer abaixo assinado e ir pra rádio”. (E4) O estudo de Avaliação Normativo do PSF no Brasil (2004), revelou que entre 20% e 30% de todos os profissionais das equipes de saúde, com exceção do técnico de higiene dental, tinham vínculos trabalhistas precários, o que provavelmente tem contribuído para a alta rotatividade e insatisfação profissional. Segundo o Ministério da Saúde (2004, p.18), “ A fragilidade das modalidades de contratação deve comprometer a dedicação dos profissionais, com conseqüências para a qualidade do trabalho das equipes de saúde”. 3.2 - Caracterização da Unidade Saúde da Família O atendimento das USF em Içara é de oito horas diárias, totalizando quarenta horas semanais. As Unidades iniciam a jornada de trabalho as oito horas até as dezessete horas com uma hora de intervalo para almoço. Quanto a estrutura física, algumas não seguem a rigor os parâmetros iniciais do Ministério da Saúde, ou seja, não atendem às especificações para construção de Unidade de Saúde da Família. Notou-se que algumas unidades que foram construídas mais recentemente se enquadram nas especificações do Ministério, porém isso foi observado em apenas duas das cinco Unidades estudadas. Existem problemas na Unidade quanto a área física pois algumas não possuem consultório de enfermagem, sala de observação, banheiro para funcionários, sala de pesagem, sala de vacina pequena, farmácia , 30 almoxarifado. Já foi requisitado a Secretaria de Saúde do município tais ampliações. 3.3 - Identificação da Diretrizes Operacionais do Modelo Saúde da Família De acordo com Leopardi (1999), O produto é indissociável do processo que o produz,é a própria prestação da atividade, a realização do serviço de assistência a saúde. Sendo esse processo unidirecional, ou seja, sujeito-objeto e a comunicação multidirecional o problema maior está no fato do profissional de saúde e o usuário não se conhecerem inicialmente, mas que continuem sentindo-se dessa forma durante toda a relação. Nesse sentido, a estratégia do Programa de Saúde da Família – PSF de conhecimento da população, de seu território, de controle social e de ações desenvolvidas na perspectiva da integridade da atenção à saúde torna o processo de trabalho mais fácil e com um retorno por parte dos usuários mais efetivos (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2001). Conforme Felisbino e Nunes (2000), o processo de trabalho em saúde tem como objetivo o processo saúde-doença abrangendo o individual e o coletivo, caracterizando seu meio, sua cultura, formas de organização, seu conteúdo técnico e social já determinado. Dessa forma, pude perceber que o processo de trabalho das equipes das Unidades de Saúde da Família da Içara observadas ainda estão sendo construído, até mesmo porque algumas Unidades apresentam déficits de funcionários o que prejudica de forma preocupante o processo de trabalho das equipes pois sobrecarrega a rotina de trabalho. Porém, essas equipes tem buscado alternativas para que o trabalho realizado possa ser motivado, satisfatório e criativo, para isso é necessário realizar alianças entre as equipes para juntas essas nutrirem mutualmente e fortalecer seus próprios espaços de luta. 31 3.3.1 Territorialização e Adscrição Na questão territorialização, segundo o Ministério da Saúde(2002), o conceito de território ultrapassa as delimitações geográficas em duas Unidades das cinco estudadas, abrangendo as dinâmicas organizacionais da população e seus fenômenos sociais, fatores fundamentais para a compreensão do processo saúde-doença. O primeiro passo na elaboração da proposta de implantação do PSF é a seleção das áreas prioritárias que serão atendidas pelas equipes essa seleção é baseada em critérios estabelecidos para cada município, na maioria das vezes baseados em indicadores epidemiológicos, sociais e de acesso; não importam quais sejam esses critérios, a definição do território e o levantamento de sua população residente são a base para o planejamento, determinando qualquer atividade a ser implantada. Durante a realização do estudo, baseada nas diretrizes do Ministério da Saúde de que a delimitação do território de responsabilidade da equipe da Unidade é a base para a estratégia e também sendo uma das diretrizes do Programa, verifiquei que todas as equipes possuem área delimitada. Todas as cinco Unidades estudadas possuem o mapa geográfico da área de delimitação, esse mapa é fornecido pela Secretaria Municipal de Saúde.Também consta na ata de nomes das famílias das agentes comunitárias de saúde um mapa da respectiva micro-área em que atuam. Baseado nisso apresento a seguinte fala: “ Precisamos de um mapa aéreo não por estética da Unidade, mas porque isso facilita nosso trabalho, e também não se pode esquecer que aqui no posto sempre tem acadêmicos em estágio e para eles que não conhecem o bairro esse mapa é bem melhor em termos de visualização” (E7) Segundo o Ministério da Saúde (2002), a definição do território pode ser representada através de mapas, esses destacam a área atuante das equipes. Mesmo sendo construídos de maneira artesanal, servem como ferramenta de visualização e identificação da situação de saúde na área de cobertura. 32 O mapa da área adscrita , que é utilizado nas Unidades de Saúde da Família de Içara, com a identificação dos logradouros que são necessários para que se possa localizar as informações epidemiológicas, como por exemplo doenças de notificação compulsória e óbitos. Essa informação permite a equipe observar os eventos epidemiológicos e concentrações de doenças em determinadas microáreas. Porém, as Unidades não dispõem de informatização o que retarda esse e outros avanços no trabalho das equipes. A fala a seguir vem confirmar tal citação: “A demanda aqui no posto é muito grande, sobrecarrega todos os funcionários. O médico que no turno da manhã já atendeu até 45 pacientes; a enfermeira que além de consulta de enfermagem, visita domiciliar, atendimento ainda tem mais a parte burocrática; os agentes que não conseguem dar conta pois para seis microáreas tem três agentes; e as auxiliares que tem todo dia curativo domiciliar e o atendimento no posto” ( E20) Felisbino e Nunes (2000), ratificam essa idéia afirmando que “ o território adscrito é entendido como o espaço do município, que é o território político-administrativo com autonomia decisória, voltado para as mudanças das práticas sanitárias.” O Ministério da Saúde (2002) relata que a adscrição de clientela é o vínculo que da população com a unidade, é também o que permite delinear a situação em que se encontra a saúde dessa área que está em movimento permanente, segundo essa adscrição organizar o enfoque por problemas e assim atender às necessidades de saúde da população. O território é o lugar onde é gerada a demanda de saúde, não somente em termos físicos, mas como atuante social em seu meio com suas necessidades e demandas. Por esse motivo é que o território é definido em cima de critérios sociais, econômicos, culturais e epidemiológicos. 3.3.2 O Trabalho da Equipe de Saúde da Família e as Ações de Planejamento De acordo com o recomendado pelo Ministério da Saúde, as USFs de Içara são compostas por equipes dispondo de: médico clínico geral, enfermeira, duas a três auxiliares de enfermagem e quatro a cinco agentes 33 comunitárias de saúde( ACS). Em relação ao número de agentes esse é insuficiente em algumas Unidades para a população adscrita e também se viu necessidade de mais uma auxiliar de enfermagem em algumas Unidades devido a demanda de serviço. Pode-se comprovar isso através dos seguintes depoimentos: “Preciso de mais uma auxiliar, uma fica na unidade e a outra realizando curativos no domicílio, a demanda é muito grande acaba que todos ficam envolvidos em atender todo mundo e ninguém realiza seu respectivo trabalho” (E7) “Não dá, é muita coisa, a gente sai daqui quase louca, corre para um lado aí outro chama lá na frente, o telefone toca para fazer agendamento, tudo junto, a gente fica sem saber o que faz primeiro”(E18) Dessa forma, pode-se ver que as atividades que os profissionais deveriam estar aptos a realizar não estão sendo realizadas e com isso o trabalho de cada profissional fica deficiente e retarda o processo de promoção em saúde. O PSF necessita de toda equipe para se desenvolver. A equipe para atuar no Programa ou ESF, precisa estar capacitada segundo o Ministério da Saúde (2001), para as seguintes atividades: - Identificar apriori os principais problemas relacionados à saúde bem como riscos existentes aos quais a população se encontra exposta; - Ser conhecedor da realidade das famílias de sua responsabilidade, através de cadastramentos e epidemiológicas diagnóstico das suas e características demográficas, sociais; - Prestar assistência integral, de forma contínua e racionalizada à demanda, organizada ou espontânea, na USF, na comunidade, no domicílio e no acompanhamento ao atendimento nos serviços de referência ambulatorial ou hospitalar; - Desenvolver ações educativas e intersetoriais para enfrentar os problemas de saúde identificados. A realização de planejamento e programação das ações de saúde por parte da equipe foi averiguada durante a realização do estudo. Também foi visto a participação dos membros da equipe, exceto o médico e dentista em algumas das Unidades observadas, em reuniões de planejamento ou discussão de questões pertinentes ao trabalho. Esse ponto é de extrema 34 importância pois como preconiza o Ministério da Saúde (2000), as equipes necessitam ser resolutivas e oportunas para enfrentar os problemas, é preciso inclusão verdadeira às práticas de promoção à saúde, para mudança na abordagem. O médico não participando das reuniões prejudica o trabalho da equipe pois esse permanece realizando o modelo antigo centrado no indivíduo e com isso não promove o processo de educação e não fica a par do que o restante da equipe está oportunizando e dos problemas enfrentados por essa. Em Hammes apud Paula (2001.p.9), “ a estratégia fundamental do PSF é a criação, por parte do serviço/profissionais, de vínculo, compromisso e responsabilidade com a família e a comunidade, o qual deve resultar numa assistência mais humanizada, representada, por exemplo, pelo estreito relacionamento entre profissionais de saúde e a população.” Nesse aspecto, a equipe de enfermagem e ACS estão totalmente integrados com os problemas da comunidade, estreitando laços e conseguiram estabelecer confiança da população que procura o serviço e os profissionais para ajuda em casos de abuso sexual ou mesmo violência familiar. Isso responde aos anseios do Ministério da Saúde (2001), que institui as ações dos profissionais da USF devem compreender a família no seu espaço social, respeitar suas crenças, conflitos, o universo no qual a comunidade e cada família está inserida e assim interferir de maneira mais participativa e construtiva. Para Souza (2000), o PSF é bastante diferente dos modelos de organização do sistema vigente, como também do modelo de formação e organização de recursos humanos para seu desenvolvimento, deve ser exigido um amplo conhecimento dos profissionais médico, enfermeiro e outros membros da equipe. Para desenvolver de forma efetiva os preceitos do Programa seus profissionais devem fundir conhecimentos de psicologia, ciências sociais, planejamento, epidemiologia. “ou seja, a incorporação tecnológica se dá, basicamente no nível do conhecimento, e isso, implica também em política de formação”. Isso não quer dizer que a ESF, esses profissionais por terem um maior conhecimento irão descobrir ou resolver mais problemas; que não são de sua competência resolver. Por isso é necessário ter a referência, o diagnóstico, o encaminhamento, a internação, a especialidade. 35 O Ministério da Saúde (2000), reafirma o que foi dito de envolvimento, comprometimento dos médicos, enfermeiros, ACS, enfim prestadores de serviço com a comunidade. Esses profissionais não cumprem apenas seu dever de trabalho, seu ofício, mas trabalham com o comprometimento ético com a população adscrita. Consegui perceber, esse comprometimento por parte das equipes de enfermagem e ACS, os médicos simplesmente não se interessam pelos propósitos do Programa, problemas da comunidade e até mesmo da própria equipe. 3.3.3 Capacitação da Equipe e as Ações Programáticas Segundo o Ministério da Saúde (2004), a qualificação dos profissionais da ESF compõe ação estratégica na modificação das práticas de saúde, proporcionando a mudança do modelo de atenção na estrada da integralidade e resolubilidade maior da atenção básica. 3.3.3.1 A Capacitação das Equipes Foi constatado pelas respostas ao questionário que as ACS e auxiliares de enfermagem que estão no município há mais tempo realizaram os cursos de capacitação relacionados no questionário, ou seja, treinamento introdutório; treinamento para preenchimento SIAB; saúde da mulher; saúde da criança; saúde do adulto; AIDPI; diabetes; hipertensão; DST/AIDS; hanseníase; imunização e tuberculose. Os profissionais médicos relataram que não realizaram todas as capacitações pelo fato de achar que algumas dessas são de competência da enfermagem. As enfermeiras das unidades estudadas realizaram todas as capacitações relacionadas. Para Souza (2000), é de suma importância oferecer treinamento introdutório aos profissionais da ESF, cursos da 36 atualização dirigido à abordagens coletiva e clínica individual, com objetivo permanente de melhorar a resolutividade da equipe e supervisionar e executar o trabalho das equipes de USF. Foi constatado também que o Município está recebendo capacitação pelo Pólo do Ministério da Saúde de Sensibilização para o Trabalho em Saúde da Família , sendo esta realizada uma vez por semana no horário de expediente das Unidades. Porém, a presença não se faz obrigatória e notou-se que muitas equipes e também membros dessas não participam, sendo que nenhum médico participa dessa sensibilização. De acordo com o Ministério da Saúde (2004) o treinamento introdutório e o treinamento do SIAB devem ser realizados, de preferência, anterior ou imediatamente após a implantação das equipes. Foi constatado que as equipes utilizavam o SIAB como instrumento de avaliação, o que é de grande importância pois esse auxilia a própria equipe e os gestores municipais a acompanharem o trabalho e avaliar sua qualidade. O Ministério da Saúde (2000) comenta que, os pólos de capacitação em saúde da família, compõe-se “ através da articulação entre instituições de ensino superior e secretarias do estado e/ou secretarias municipais de saúde” , objetivando a construção de relações reformadoras entre gestores do SUS e o aparelho formador de recursos humanos, fundamentada na identificação consensual de atuações educativas ligadas à consolidação do sistema de saúde. Na perspectiva de prestar atenção as necessidades principais da comunidade, o Ministério da Saúde preceitua que a ESF aborde as situações de saúde mais freqüentes, habitual às clinicas básicas, que são clínica médica, ginecologia e obstetrícia e pediatria, concedendo resolubilidade à atenção básica. Novamente é reafirmado com isso o caráter generalista na formação dos profissionais. 3.3.3.2 As Ações Programáticas 37 Nas USFs estudadas, as ações em saúde da criança estão baseadas na consulta para acompanhamento e desenvolvimento em menores de dois anos, essa consulta é realizada pelas equipes de enfermagem. Também há a aplicação rotineira das vacinas preconizadas pelo Programa Nacional de Imunização – PNI em quatro das cinco unidades estudadas, consultas para atendimento de agravos prevalentes na infância como doenças diarréicas, infecções respiratórias, afecções exantemáticas. E há cuidado rigoroso com relação a identificação de casos de desnutrição, onde é realizada consulta médica e suplementação alimentar. Com relação as ações em saúde da mulher, são ofertadas consultas médicas de pré-natal e durante a realização do estudo o número de gestantes. Também é realizada coleta de material para prevenção do câncer de colo de útero, assim como tratamento de afecções ginecológicas. È realizada consulta de enfermagem em planejamento familiar. Inclui a distribuição de métodos contraceptivos. Quanto ao desenvolvimento de atividades para controle das doenças crônicas como hipertensão e diabetes as enfermeira e as ACS realizavam grupo terapêutico procurando ampliar ações educativas. Na área de controle de doenças infecciosas e ações de vigilância epidemiológica, as equipes realizavam diagnóstico e identificação dos casos assim como tratamento e investigação dos casos de hanseníase e tuberculose. Segundo Souza (2000), O PSF obtém claramente “ o enfoque preventivo das consultas, dos procedimentos com garantia de segmento no atendimento do indivíduo. Há uma diminuição de partos cesáreos, pois com toda possibilidade de pré-natal de melhor qualidade, cresce o parto normal, há uma diminuição de crianças de baixo peso ao nascer, caem as referências ao serviço de emergência, as internações hospitalares e cai a dificuldade de acesso aos serviços de maior complexidade. De acordo com as respostas dos participantes da pesquisa, somente cinco membros das equipes não acreditavam que a participação nas capacitações tiveram alguma influência na sua prática profissional. Os demais participantes relataram que as capacitações foram de fundamental importância para seu trabalho posterior, como podemos constatar através das seguintes falas: 38 “Há sim os treinamentos foram muito importantes para meu serviço, pois a gente fica com mais segurança para orientar as pessoas”(E3) “As vezes a gente acha chato né, ficar nesses cursos, mas sempre se tira algum proveito, algo que não sabia ou tinha dúvida”(E16) Confirmando tais dados Peliano (2000) diz que, o resultado no modelo de assistência do PSF demonstra que a melhora é possível, através de ações basicamente simples, ações de promoção, informação, prevenção, ações de imunização, saneamento, combate à desnutrição. “ O que o PSF propõe é realmente garantir a saúde enquanto direito do cidadão e transformar a cidadania, a saúde em qualidade de vida”. 3.3.4 O Trabalho na Comunidade O Ministério da Saúde (2001) ressalta que um dos pontos fundamentais desse comprometimento dentro do Programa é a busca ativa, ou seja, a equipe vai às casas da comunidade, enxerga a realidade de cada família, a partir daí realiza providências para prevenção das doenças, atua na cura dos casos já existentes da doença, orienta a população afim de garantir uma melhor qualidade de saúde. Nas USFs da Içara, a visita domiciliar é realizada de maneira planejada, semanalmente e quando necessário para avaliação ou mesmo pela solicitação de algum paciente. As ACS realizam a visita, para cadastramento, avisos, verificação de dados e divulgação de campanhas vacinais. As auxiliares de enfermagem costumam realizar visitas diárias a pacientes que necessitam de curativos, alguns desses até mesmo duas vezes ao dia. A enfermeira realiza visita domiciliar semanalmente a pacientes acamados, puerpério e sempre que solicitado pelas auxiliares para avaliação de evolução do tratamento. Com relação a visita domiciliar do médico essas não têm periodicidade, e notou-se alguma relutância na realização dessas por parte destes profissionais. Tal conduta prejudica o trabalho do restante da equipe já que o PSF propõe a mudança do modelo assistencial tradicional, quando necessário os profissionais devem visitar as pessoas em suas residências, essas visitam também são realizadas com o intuito de enfatizar a ação de doenças, 39 promoção da saúde, estabelecer uma relação permanente entre população assistida e profissionais, proporcionando dessa forma um atendimento humanizado e uma resolução dos problemas de saúde mais freqüentes dessa comunidade. De acordo com o Ministério da Saúde (2004), a visita domiciliar é uma atividade de suma importância, pois torna possível o conhecimento de saúde das famílias, o crescimento de ações preventivas, o acompanhamento de grupos, constituindo-se em forte elemento na fixação do vinculo entre equipe e famílias. Esta importância é relatada conforme as seguintes falas: “Acho que indo na casas das pessoas, muitas vezes nós percebemos que os problemas da pessoa não são somente físicos, às vezes eles só querem alguém em quem tenham confiança para conversar coisas que tem vergonha de expor a outras pessoas”. (E3) “ Eles gostam das visitas, se sentem amparados e quando nos entramos em suas casas a confiança é maior, já que ali eles se sentem seguros até para xingar a gente ”. (E17) A visita domiciliar segundo Souza (2000), tem o intuito de atender pessoas que não podem deslocar-se até a USF. Porém, também é recomendado que os enfermeiros façam visitas no pré-natal para averiguar condições nutricionais e atentar para o nível de risco das gestantes, como também a visita puerperal para instruções de cuidado com o recém nascido e dúvidas que a mãe possa ter. 3.3.5 A Participação da Comunidade no PSF Participação popular efetiva tem como objetivo intervir e modificar de modo a oferecer os serviços básicos para a população. A participação da comunidade do Conselho de Saúde nas USFs estudada são presentes e efetivas, assim como a participação da reuniões desses,porém não são todos os membros das equipes que se disponibilizam a ir nas reuniões. Para Felisbino e Nunes (2000), “ Controle social é entendido como exercício da cidadania, o qual exige que lutemos por nossos direitos”. Para 40 tanto, se faz necessário que a comunidade esteja organizada, pois o Conselho de Saúde é exercido quando feito pelos segmentos representativos da população. Segundo o Ministério da Saúde (2000), pelo fato da saúde ser um aspecto de grande importância em nossas vidas, muitos são os responsáveis por essa saúde, e esses estão encarregados de proporcionar atendimento à população pelo uso de programas que ampliem a abrangência e a eficácia desse atendimento. “ A esse conjunto de intenções, que aparecem sobre a forma de programas, normas, portarias, planos e outros documentos assumidos pelos governos e que devem contar com a participação da sociedade civil através de suas formas de organização popular e dos conselhos, é que se dá o nome de Política Pública de Saúde”. Para o Ministério da Saúde (2000), a descentralização na saúde tem como objetivo maior a municipalização das ações e serviços de saúde, baseado nesse principio entende-se que quanto maior a proximidade da comunidade assistida estiver da gestão dos serviços e ações de saúde, mais efetiva se tornará a resolução dos problemas específicos dessa população, assim como o exercício do controle social sobre o serviço. O controle social no SUS se dá por duas vias: Conselho de Saúde e Conferencia de Saúde. Para Felisbino e Nunes (2000), “ Os Conselhos de Saúde a nível nacional, estadual, municipal e local, esses tem caráter permanente e deliberativo e são órgãos colegiados integrados por representantes do governo, prestadores de serviço, por profissionais de saúde e usuários”. Esses têm de atuar na articulação de estratégia de controle do cumprimento da política de saúde. Compete ao Conselho de Saúde lei 8.142/90: “ Atuar na formulação de estratégias da política de saúde e no controle da política de saúde, incluídos os aspectos econômicos e financeiros. Ele tem competência para examinar e aprovar as diretrizes da política de saúde, afim de que sejam alcançados os seus objetivos”. Para Souza (2000), é muito difícil guiar uma política envolvendo três gestores, a participação da coletividade e controle social. Não é fácil, é demorado, mais é de fundamental importância e com certeza é o caminho 41 único para a construção do novo sistema de saúde baseado nesse novo modelo de atenção. 3.3.6 Integralidade/Resolubilidade No município de Içara, conseqüentemente nas USFs estudadas, as consultas são realizadas pela central de agendamento na Policlínica Central , CAPS, CASMI. Os exames laboratoriais são realizados em laboratórios conveniados. Os exames radiológicos são realizados no Hospital São Donato, Hospital São José e URC (Unidade Radiológica de Criciúma). A solicitação de endoscopia, ECG são realizados na Policlínica Central como também a realização de pequenas cirurgias e outros exames de alto custo são cedidos pelo serviço social. Segundo o Ministério da Saúde (2001), com princípio da integralidade do atendimento da ESF deve, em situações específicas, indicar o encaminhamento dos pacientes para níveis de maior complexidade. A garantia da realização de exames complementares, atendimento especializado e hospitalização em serviços da rede, quando solicitados pelas equipes para população adscrita deve ser assegurada, pois do contrário o trabalho se torna pendente. Finalmente, para Boelen (2000), a qualidade nos serviços de saúde é o fator principal para as pessoas, em qualquer cultura, em qualquer lugar do mundo. Para atingir essa qualidade é necessário que as preocupações das pessoas com relação a saúde tenham respostas eficazes, do ponto de vista beneficiário-cliente, um serviço eficiente “ é aquele que atende as necessidades pessoais, não como se ele fosse um objeto, mas na condição de uma pessoa que recebe um atendimento digno. Do ponto de vista dos prestadores de serviços de saúde, a busca da qualidade significa o direcionamento dos serviços no sentido de se alcançar melhores padrões de atendimento. 42 CONCLUSÃO Neste momento de tecer a conclusão do trabalho, me vem em mente inúmeras situações vivenciadas no decorrer dos anos de trabalho dentro da Estratégia de Saúde da Família, situações que me trazem boas lembranças, mesmo nos momentos mais difíceis, consegui superar minha ansiedade e meu medo para assim conseguri realizar um trabalho de acordo com as necessidades da comunidade em que atuava. Finalmente, me proponho a apresentar as considerações finais, com base na análise dos dados onde busquei fundamentação da literatura somada às minhas reflexões. Dessa forma, até o presente momento, este estudo, através do grupo de sujeitos entrevistados, identifica que alguns dos preceitos do PSF estão sendo realizados nas USFs de Içara como a capacitação dos profissionais, o conhecimento da população em seu território. Principalmente, nesse aspecto pode-se ver que as equipes tem total conhecimento da área adscrita, que já tem uma experiência no histórico das famílias da comunidade, esse fator que favorece a questão do acolhimento e vínculo outros dois princípios do Programa. Entretanto, a falta de ACS para áreas de grande porte como são algumas das comunidades da Içara, dificulta o trabalho dos profissionais sobrecarregando as equipes e deixando algumas partes das áreas adscritas descobertas. No que tange a questão do controle social pude presenciar que algumas vezes os Conselhos de Saúde das comunidades até atrapalham o serviço das equipes, pois os membros desses muitas vezes não tem conhecimento teórico do assunto e fazem cobranças que não são de competência das equipes. Porém, a participação das equipes nas reuniões do Conselho e outras atividades das comunidades trazem uma enorme integração entre equipes e comunidades. Segundo Souza (2002), o Programa deveria possibilitar a eficiência do uso de serviços de média e alta complexidade, pois as USF deveriam solucionar até 85% dos problemas de saúde da comunidade. Vi que isso não 43 ocorre nos locais de realização do estudo por parte da ineficiência ou falta de interesse de profissionais fundamentais dentro das equipes. Contudo, o esforço e interesse do restante dos membros dessas em buscar a resolutividade e buscar implantar o novo modelo centrado na prevenção e abordagem da família amenizam essa situação. No entanto, ao realizar essa pesquisa a maior conclusão que tirei de toda a observação, entrevistas e contato com equipes e comunidades é que o grande entrave para a realização efetiva do Programa não está na questão política, na falta de recursos ou nas equipes, mas sim na população, na visão que essa tem do serviço ainda está impregnado na conduta da comunidade o modelo antigo biomédico, centrado no indivíduo. Mesmo com tantos anos de implantação do Programa são poucos os que enxergam que a prevenção e mudança de hábitos e postura são a solução para problemas futuros. Portanto, o empenho das equipes é fundamental para essa mudança de enfoque por parte da população. É preciso liderança, perseverança e capacidade de articulação para realização desse ideal. Febino e Nunes (2000), ratificam essa afirmando ser necessário um esforço conjunto para tornar as ações de saúde “ um instrumento de efetiva promoção e prevenção da saúde, diminuindo a cada dia, passo a passo, a necessidade de remédios e altos índices de internações hospitalares, buscando cada vez mais primar pela saúde da população em geral”, ou seja, necessitamos de uma nova visão em saúde. Por fim, a estratégia Saúde da Família, embora tenha crescido sobremaneira no país, atravessa atualmente seu maior desfio para viabilizar-se como estratégia estruturante dos sistemas municipais, que é sua consolidação nos grandes centros urbanos. Vive, com isso, um paradoxo: ao mesmo tempo em que cresce, revela importantes fragilidades inerentes a processos de transformação. Em relação às práticas profissionais, estas não conseguem atender efetivamente as novas necessidades de prestação dos cuidados de saúde (integralidade, visão ampliada do processo saúde – doença, formação de vínculos, abordagem familiar, trabalho em equipe). O mesmo ocorre em relação à gestão do sistema (lógica quantitativa da produção, rigidez nos processos de trabalho, fixação das equipes, normatização excessiva, baixa 44 capacidade de inovação gerencial, grande dependência dos serviços secundários, referência e contra-referência). Nesse sentido, a Saúde da Família exaspera o debate no interior do SUS, demonstrando a fragilidade do nosso processo de construção social da saúde que tem avançado pontualmente, mediante gradativas acumulações e superposição de experiências que contemplam o trabalho efetivo que deve ser realizado pela Estratégia da Família e os esforços dos profissionais que acreditam que pode e dará certo. 45 REFERÊNCIAS ALMEIDA,M.C.P.; O Trabalho de Enfermagem. 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( ) Auxiliar administrativo/ burocracia / recepcionista ( ) Auxiliar de Enfermagem ( ) Técnico de Enfermagem ( ) Enfermeiro ( ) Médico ( ) Serviços Gerais/ Servente ( ) Agente Comunitário de Saúde ( ) Outro profissional de nível superior: _______________________ 2.Você tem a visita domiciliar como uma atividade sistemática e permanente ? 3.Sua equipe desenvolve ações permanentes de esclarecimento à população sobre as características da estratégia saúde da família? 4.Você utiliza as informações do SIAB para o planejamento do seu trabalho? De que maneira? 5.Em sua Unidade se trabalha com mapa da sua área de atuação no qual estão discriminadas as micro-áreas de responsabilidade dos ACS? 6.Em sua equipe é realizado o diagnóstico da situação de saúde da população, identificando os seus problemas mais freqüentes ? De que maneira? 7.Sua ESF possui registros de aspectos demográficos, sócio-econômicos, étnicos, culturais, ambientais e sanitários da área adscrita ? 8.O cronograma de atividades da unidade é definido em conjunto pelos membros da equipe e baseia-se na análise da situação de saúde de sua comunidade? 9.Em sua unidade é feito o registro e monitoramento as referências para outros níveis de atenção ? 10.Em sua unidade é realizada reunião mensal, com a presença de toda equipe? Nessas é feito a análise dos resultados alcançados e planejamento da continuidade das ações? 11.A ESF desenvolve ações de planejamento em conjunto com sua comunidade ? 51 12.Sua equipe realiza reunião semestral para avaliação das metas alcançadas? 13.Você ingressou neste emprego através de: ( ) Concurso público ( ) Seleção interna na Instituição ( ) Seleção externa ( ) Indicação ( ) Outro: ________________________________ 14.Carga Horária comprida nesta UBS: _____ horas semanais 15.Tens outros empregos? ( ) Não ( ) Sim 16.A quanto tempo trabalha nesta Unidade de Saúde? ____________ (meses) 17.Depois que você começou a trabalhar na Atenção Básica (UBS), fez algum dos cursos de capacitação abaixo relacionados? Treinamento introdutório ( ) Não ( ) Sim Treinamento para Preenchimento SIAB Sim ( ) Não ( ) Saúde da criança Sim ( ) Não ( ) Saúde da mulher Sim ( ) Não ( ) Saúde do adulto ( ) Não ( ) Sim AIDPI ( ) Não ( ) Sim Diabetes ( ) Não ( ) Sim Hipertensão ( ) Não ( ) Sim DST/AIDS ( ) Não ( ) Sim Hanseníase ( ) Não ( ) Sim Imunização ( ) Não ( ) Sim Tuberculose ( ) Não ( ) Sim Outro curso(s):_____________________________________________ 18.A participação nestas capacitações tiveram alguma influência na sua prática profissional? ( ) Não ( ) Sim 19.Na sua opinião, como está a qualidade da maioria dos serviços prestados à população nesta unidade de saúde? 52 ( ) Muito ruim ( ) Ruim ( ) Nem ruim nem boa ( ) Boa ( ) Muito Boa 20.Para suas atividades profissionais, utiliza algum tipo de protocolo? ( ) Não ( )Sim SE SIM: Quais? ____________________________________________________ 21.Dos documentos abaixo relacionados, marque quais você é responsável ou participa no preenchimento: Cadastramento das famílias ( ) Não ( ) Sim Pedido de medicamentos ( ) Não ( ) Sim Pedido de material de consumo/ limpeza ( ) Não ( ) Sim Pedido de vacinas e insumos para sala de vacinas ( ) Não ( ) Sim Condensado mensal do PACS ( ) Não ( ) Sim Relatório mensal do SIAB ( ) Não ( ) Sim Relatório de avaliação de atividades programáticas ( ) Não ( ) Sim 22.Nos últimos 12 meses você participou de alguma atividade realizada na comunidade da área de abrangência da Unidade Básica de Saúde (escola, associação de bairro, igreja, etc.)? ( ) Não ( ) Sim SE SIM: Quais as atividades realizadas e com qual instituição? _______________________________________________________________ 23.Poderias descrever quais as atividades realizadas na sua última semana de trabalho como por exemplo: visita domiciliar, atendimento individual, coordenação/ participação em grupo terapêutico, reuniões de equipe, reuniões com a comunidade, reunião com nível central da Secretaria de Saúde, tarefas burocráticas (relatórios, pedidos), participação em atividades de capacitação? Segunda – feira M T Terça – feira Quarta – feira Quinta – feira Sexta - feira 53 Apêndice C – Consentimento Livre e Esclarecido Pesquisa: O TRABALHO EM UMA UNIDADE DE SAÚDE DA FAMÍLIA - USF Autores: Edna Pereira Peck (Pesquisadora responsável) Giane Michele Frare Peck (Orientadora) TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO Estamos desenvolvendo a seguinte pesquisa a fim de observar o processo de trabalho da equipe de Estratégia de Saúde da Família, identificando as ações e atividades desenvolvidas. Gostaríamos de convidá-lo a participar desta pesquisa, respondendo o questionário, emitindo seu parecer a respeito das questões solicitadas. Estas informações serão compiladas juntamente com as de outros participantes e posteriormente divulgadas. Pelo presente Consentimento Informado, declaro que fui elucidado de forma clara e detalhada, livre de qualquer forma de constrangimento e coerção, dos objetivos, da justificativa e benefícios do presente Projeto de Pesquisa. Fui igualmente informado: da garantia de receber resposta a qualquer pergunta ou esclarecimento referente à pesquisa; de que serão mantidos os preceitos éticos e legais, durante e após o término do estudo; da liberdade de retirar meu consentimento, a qualquer momento, e deixar de participar do estudo sem que isto me traga prejuízo algum; da segurança de que não serei identificado e que se manterá o caráter confidencial das informações. Eu, ____________________________________, aceito participar da pesquisa sobre o processo de trabalho em uma unidade do Programa Saúde da Família, respondendo o questionário solicitado. Estou ciente de que as informações por mim fornecidas serão tratadas de forma sigilosa. ______________________ , _____ de ___________________2008. __________________________________ Participante da Pesquisa 54 Apêndice D – Consentimento para Realização do Estudo MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO UNIVERSIDAE DO EXTREMO SUL CATARINENSE CURSO DE ESPECIALIZAÇÃO EM SAÚDE COLETIVA – SAÚDE DA FAMÍLIA Içara, ____ de _________________ de 2008. Sr(a). Coordenador(a) Ao cumprimentá-lo cordialmente, eu, Edna Pereira Peck acadêmica do Curso de Especialização em Saúde Coletiva – Saúde da Família, venho por meio deste solicitar sua autorização para desenvolver meu trabalho de conclusão de curso, tenho como professora orientadora a professora Giane Michele Frare Peck, tendo em vista a construção de uma monografia com requisito parcial para a obtenção do título de Especialização. Pretendo desenvolver meu estudo com as equipes de cinco Unidades de Estratégia de Saúde da Família, neste município, e tenho como objetivo investigar e compreender o processo de trabalho da equipe do PSF. Terei o compromisso ético de resguardar todos os colaboradores envolvidos na pesquisa, de acordo com o Código de Ética dos Profissionais de Enfermagem e a Resolução 196/96 do Ministério da Saúde, que trata de pesquisa envolvendo seres humanos. Em anexo a este documento encontra-se uma cópia do projeto, onde constam dados necessários para sua apreciação e posterior aprovação. Na certeza de contar com seu apoio, desde já agradeço, colocando-me ao seu inteiro dispor para outros esclarecimentos. Ciente. De acordo. Data:_____/_____/2008. _______________________________ Assinatura do Responsável 55