DISPOSITIVOS MÓVEIS EM SALA DE AULA, UM DESAFIO PARA
OS PROFESSORES
Andrea da Silva Castagini Padilha 1 - SEED/PR
Eguimara Selma Branco 2 - SEED/PR
Silvia Regina Darronqui3 - SEED/PR
Grupo de Trabalho – Formação de professores e profissionalização docente
Agência Financiadora: não contou com financiamento
Resumo
O presente artigo é o resultado da análise realizada em um curso de formação continuada para
professores do Ensino Fundamental e Médio no estado do Paraná. O mesmo deu-se na
modalidade semipresencial e teve como tema a aprendizagem ubíqua com a utilização de
dispositivos móveis por professores cursistas e estudantes. Nos encontros presenciais, os
professores-tutores apresentaram o curso e elucidaram dúvidas técnicas quanto o uso dos
dispositivos móveis que os professores cursistas possuíam. Na parte a distância, o curso
envolveu os participantes com a utilização dos dispositivos móveis relacionando este uso a
conceitos teóricos relacionados a sociedade informacional móvel, a dicotomia entre o real e
virtual e a própria aprendizagem ubíqua. O curso foi ofertado em diversos municípios
paranaenses, em uma ou mais turmas, dependendo da procura por parte dos professores.
Escolhemos um município paranaense que teve nove turmas para este curso. Entre as
atividades propostas estavam leituras com base nas proposições de Lucia Santaella (2007),
Levy (1996) e André Lemos (2009), e a utilização dos dispositivos móveis para pesquisar e
examinar aplicativos que lhes fossem úteis, capturar imagens que exemplificassem conceitos
relativos a aprendizagem ubíqua, gravação de entrevistas, além da discussão em fóruns no
ambiente virtual de aprendizagem. Analisamos o conteúdo presente nas participações dos
professores cursistas que abordaram direta ou indiretamente a aprendizagem ubíqua e a
utilização dos dispositivos móveis no espaço escolar. Os resultados obtidos nesta análise
mostram que os professores cursistas estão conscientes da chegada dos dispositivos móveis no
espaço escolar e querem se apropriar destas tecnologias em prol da melhoria de suas aulas e
consequentemente do processo de ensino e aprendizagem. Entretanto, a elaboração do
conceito de aprendizagem ubíqua com o uso destes dispositivos ainda carece de
aprofundamento por boa parte dos participantes. Os professores afirmam necessitar de mais
1
Mestre em Ensino de Ciências (UTFPR) – Curitiba. Professora de Ciências da rede estadual de educação do
Paraná. E-mail: [email protected].
2
Mestre em Educação (UFPR) – Curitiba. Professora de Matemática da rede estadual de educação do Paraná. Email: [email protected].
3
Mestre em Formação Científica, Educacional e Tecnológica (UTFPR) – Curitiba. Professora de Ciências e
Matemática da rede estadual de educação do Paraná. E-mail: [email protected].
ISSN 2176-1396
3757
formação continuada na modalidade presencial para melhor manusearem os dispositivos
móveis com finalidades educacionais.
Palavras-chave: Dispositivos móveis. Formação de professores. Tecnologias de informação
e comunicação. Aprendizagem ubíqua.
Introdução
Eles estão presentes praticamente em todos os espaços públicos e privados e é o
equipamento digital mais procurado quando acordamos, algumas vezes só é deixado de lado
quando vamos dormir. A presença dos celulares no nosso cotidiano é intensa e estendeu-se
também para as salas de aula nos estabelecimentos escolares.
Santaella (2007) afirma que os celulares são companheiros inseparáveis de seus donos,
que os levam até quando vão ao banheiro. No espaço escolar, enfrenta-se o dilema desta
presença que disputa a atenção dos estudantes em detrimento aos conteúdos ensinados em
sala de aula. Este fenômeno comum em quase todos os estabelecimentos de ensino levou a
criação de uma lei estadual, a Lei Estadual nº 18.118/2014-PR, de 24 de Junho de 2014, que
proíbe o uso não pedagógico de quaisquer equipamentos eletrônicos no espaço escolar. O
desafio posto aos educadores paranaenses estava em lidar com os dispositivos móveis que
continuam presentes nas salas de aula a despeito da lei. Como utilizar celulares, tablets e
smartphones com “fins pedagógicos” como diz a lei nº 18.118/2014, uma vez que muitos
professores não têm intimidade com esta tecnologia?
Na tentativa de elucidar estas questões e promover uma apropriação tecnológica
(teórica e prática) a equipe da Coordenação de Tecnologias Educacionais da Secretaria do
Estado de Educação do Paraná (Seed/PR) elaborou um curso semipresencial, abordando a
aprendizagem ubíqua com o uso dos dispositivos móveis, chamado de Aprendizagem com
Mobilidade. Este curso foi ofertado como formação continuada aos professores do estado do
Paraná no ano de 2014. Escolhemos autores como Santaella (2007; 2013), Lemos (2004 e
2009), Camas et all (2013), Barros e Brito (2013) para subsidiar as discussões teóricas
colocadas aos professores no decorrer do curso. Com estes autores houve a análise de
situações corriqueiras envolvendo o uso irrefletido dos dispositivos móveis embasado em
conceitos e argumentos consistentes. O aporte teórico oferecido no curso seria também uma
maneira de promover a apropriação tecnológica reflexiva aos professores cursistas. Ao final
do curso, foi solicitado que elaborassem seu conceito de aprendizagem com mobilidade e o
convite à reflexão de como os conhecimentos por eles adquiridos poderia ser posto a favor da
3758
educação básica. A pesquisa que originou este trabalho se deu sobre a opinião dos professores
concluintes quanto ao aproveitamento do tema para sua formação profissional e das
dificuldades encontradas por eles no decorrer do curso.
Desenvolvimento
A presença dos celulares, smartphones e tablets perpassa todas as áreas de nossa
sociedade e modificou grande parte das relações sociais. Ao invadir o espaço escolar, estes
dispositivos eletrônicos se tornaram alvo de discussão. Muitos professores criticam a presença
destes equipamentos em aula, alegando que estes concorrem com sua prática docente na
mobilização da atenção dos estudantes. Enquanto o professor ministra sua aula, o estudante se
distrai com jogos, mensagens instantâneas ou outros aplicativos. Por outro lado, é quase
impossível impedir o acesso dos estudantes a estes equipamentos. Esse embate motivou a
criação da lei nº 18.118/2014 que dispõem sobre a utilização dos equipamentos eletrônicos no
ambiente escolar. Estes só poderão ser utilizados se forem para uma atividade pedagógica
(PARANÁ, 2014). Mas o problema continua, pois, esta regulamentação da lei não explica
como trabalhar com os celulares de forma pedagógica.
Na literatura encontramos autores que defendem a presença dos dispositivos móveis
como ferramentas que podem promover a aprendizagem ubíqua (SANTAELLA, 2007). Esta
aprendizagem é aquela que ocorre na sala de aula e além desta, rompendo os limites de espaço
e tempo. Ao utilizar os celulares para acessar conteúdos, trocar informações entre os pares ou
com o professor, o estudante realiza este tipo de aprendizagem. Para que se chegue nesta
aprendizagem é necessário, em primeiro lugar, sensibilizar os professores para a utilização
dos dispositivos móveis na sua vida pessoal e em segundo momento para a prática
pedagógica. A importância de partirmos da sensibilização (que inclui a instrumentalização
técnica dos professores) para depois utilizarmos os dispositivos móveis como ferramenta de
ensino e aprendizagem deve-se aos diferenciados níveis de apropriação tecnológica que os
professores apresentam (PASINATO; VOSGUERAU, 2013).
Sendo assim, desenvolvemos um curso que atingisse professores de diversos níveis de
apropriação tecnológica, para isto delineamos o curso na modalidade semipresencial.
Também neste curso oferecemos possibilidades de discussão sobre a utilização das
tecnologias digitais, em especial os dispositivos móveis, tanto na vida pessoal como na
profissional. Partindo desta observação, desenvolvemos atividades envolvendo leituras e
3759
discussões a fim de ressignificar conceitos e proporcionar um momento de reflexão sobre a
utilização dos dispositivos móveis em nossas ações cotidianas. Pesquisas anteriores
evidenciaram que a apropriação tecnológica entre professores da educação básica é
heterogênea (PADILHA, 2014), dados corroborados neste curso, em que alguns professores
apresentavam boa performance na manipulação dos seus equipamentos enquanto outros
encontravam dificuldades operacionais mais básicas. Sabendo disso, o curso iniciou com um
encontro presencial, no qual os professores cursistas estavam diante de seus professorestutores. Neste encontro, além da introdução ao tema do curso, eles poderiam tirar dúvidas
operacionais relativas aos seus dispositivos móveis. Entende-se a necessidade da reflexão
sobre como a presença dos celulares modificou nossas ações e relações. Para fundamentar
esta discussão elegemos como referencial os textos de Lucia Santaella (2007), em especial o
capítulo “O mundo na palma da mão”, e André Lemos em seu artigo “Cibercultura e
mobilidade: a era da conexão” (2004).
Nas atividades a distância, os professores eram convidados a refletir sobre a
mobilidade e os impactos dos dispositivos móveis nas relações sociais e também a incorporar
personagens que utilizavam os dispositivos móveis de diversas maneiras. Poderiam fotografar
com seus equipamentos situações que envolvessem a utilização dos dispositivos móveis
enquanto o usuário se movimentava, representando o conceito de coreografia móvel
(SANTAELLA, 2007), ou discutir como as pessoas se aproximam em novas comunidades,
redefinidas não pela proximidade física, mas por outros parâmetros, como preferências sobre
determinados assuntos. Estas proposições têm reflexo no cotidiano escolar, pois os estudantes
também participam de uma coreografia da comunicação móvel e se agrupam em comunidades
definidas pelas afinidades pessoais. O conteúdo das atividades, as contribuições dos
professores cursistas sobre mobilidade e a necessidade da utilização dos dispositivos móveis,
nos ajudaram a elaborar o cenário local acerca das necessidades de formação continuada dos
docentes para a utilização das TIC e um panorama quanto a apropriação tecnológica dos
professores envolvidos.
Metodologia
Para a elaboração desta pesquisa, existiram dois momentos: a criação e o
acompanhamento do curso e a análise dos resultados. Este curso foi o resultado de diversas
leituras, tanto de artigos científicos, livros como também das realidades escolares
3760
apresentadas pelos professores em formações anteriores. Delineou-se um curso na modalidade
semipresencial com a finalidade de abranger professores em diversos estágios de apropriação
tecnológica. Os encontros presenciais permitiram o auxílio dos docentes aos professores com
maiores dificuldades no manuseio de equipamentos digitais; as atividades a distância
propuseram a progressiva apropriação teórica e prática sobre a temática abordada.
Ao final do curso escolhemos estudar as turmas ofertadas em Curitiba que, de um total
de nove turmas com até vinte e cinco professores cursistas cada, das quais selecionamos
aleatoriamente três turmas. Analisamos as contribuições presentes nas atividades em que os
professores publicaram relatos quanto ao uso dos dispositivos móveis. Após a primeira
análise, selecionamos o conteúdo de alguns destes participantes e relacionamos com o
referencial de estágios de apropriação tecnológica proposto por Pasinato e Vosgerau (2011).
Resultados
Entre as atividades presentes no curso, analisamos as contribuições dos professores no
primeiro diário, no qual fora solicitada a reflexão a partir da imagem (Figura 1) exposta na
Introdução do curso juntamente com a leitura do fragmento de texto de Wertheim (2001),
transcrito parcialmente abaixo:
[...] é bom lembrar que aqueles de nós que nasceram a partir dos meados da década
de 1950 já vêm convivendo com um mundo coletivo paralelo – aquele que fica do
outro lado da tela da televisão. [...] O drama coletivo das novelas e comédias de
situação [...] não é “alucinação consensual” que engaja dezenas de milhões de
pessoas no mundo inteiro todos os dias da semana? O que é a cidade de animação de
Springfield em Os Simpsons senão um genuíno “mundo virtual”? (WERTHEIM,
2001, p. 178).
3761
Figura 1 – Ilustração sobre mobilidade
Fonte: Cleverson Dias, 2014.
Esse material subsidiou a discussão inicial sobre a presença da mobilidade e da
virtualidade que vivemos e a influência destas na prática docente. As contribuições dos
cursistas mostraram que os professores entendem a mobilidade e virtualidade como necessária
e presente no cotidiano. É possível vivenciar esta virtualidade e mobilidade quando fazemos
transações bancárias em um celular ou comparamos preços de produtos em diferentes
supermercados usando a internet. Essas observações relacionam-se aos conceitos de
mobilidade física, mobilidade informacional, mundo real e mundo virtual, comunicação
ubíqua, leitura cognitiva, entre outras.
Trazemos o conteúdo da participação de um cursista que chama a atenção para a
complexidade das relações sociais e a presença dos dispositivos móveis. Ele afirma que:
[...] na imagem vejo a vida acontecendo. Pessoas lendo, conversando, tirando selfie,
teclando ao celular, usando diferentes tipos de objetos, dos tradicionais e, digamos,
mais antigos ou obsoletos, como o jornal impresso, até os mais modernos, como o
celular (provavelmente um smartphone). Me chamou a atenção o senhor de gravata,
talvez um professor, observando a moça com o celular, com a qual talvez tenha
tentado interagir, sem lograr êxito, cena comum na nossa realidade. Creio que
estamos sim dominados por essa necessidade de mobilidade e virtualidade e que
quanto mais o tempo avança a tendência é isso aumentar e engolir ou “vomitar” os
que não se adaptarem, inclusive na educação (professor 27).
3762
Neste relato o professor consegue observar que a virtualidade e mobilidade estão
presentes em todos os setores da sociedade e que mesmo na educação, que é mais resistente,
isto ocorre e exige dos educadores a adaptação, sob o risco de serem “vomitados”, não
adequados para as exigências desta função no século XXI.
No Fórum “Explorando Dispositivos Móveis”, a intenção era promover uma discussão
acerca das funcionalidades e obstáculos quanto ao manuseio dos dispositivos móveis pelos
professores. Uma das intencionalidades desta discussão estava no fato de muitos professores
da rede pública terem recebido seu tablet educacional e terem dificuldades técnicas no
manuseio dos mesmos. Entretanto, a discussão não deveria ficar restrita a estes equipamentos
e sim a todos os dispositivos móveis como smartphones e notebooks. Os professores
participaram deste fórum e em seus discursos percebeu-se que a utilização dos dispositivos
móveis é um novo desafio para a educação. Entendem estes equipamentos como uma forma
de diversificar os processos de aprendizagem e que as novas tecnologias são apenas mais uma
ferramenta para ampliar as possibilidades de interagir com o estudante. Ainda mostraram a
preocupação de que os dispositivos não tomem o papel central que é a construção do
conhecimento. Também apontaram as fragilidades presentes nas escolas públicas, indicando a
necessidade de “Superar barreiras em relação ao investimento nas escolas para haver uma
adaptação mais adequada do ambiente para o uso dos dispositivos móveis e diminuir a
resistência de alguns professores no uso da tecnologia a partir de capacitação profissional
(professor 14). ”
Na segunda tarefa: Personagens o objetivo foi provocar a utilização dos dispositivos
móveis no ambiente escolar, mas ainda no estágio de familiarização e conscientização
(PASINATO; VOSGERAU,
2011)
desvinculado
diretamente de
encaminhamentos
pedagógicos. Os personagens são possibilidades de pensar em formas diferentes de buscar
recursos das novas tecnologias em nossa prática pedagógica. Os personagens disponibilizados
foram: o personagem fotógrafo, o personagem cientista da educação, o personagem escritor
de contos e o personagem repórter.
Na atividade referente ao personagem fotógrafo o professor utilizou o dispositivo
móvel para capturar imagens referentes à aprendizagem com mobilidade. Ao utilizar o
dispositivo móvel para capturar a imagem de outra pessoa utilizando equipamento
semelhante, instigamos o professor a refletir sobre a mobilidade e virtualidade presentes na
imagem da Figura 1 e também nos conceitos de presença-ausência propostos por Santaella
3763
(2009). A pessoa fotografada está presente fisicamente diante daquele que a fotografou, mas
também pode estar ausente, com sua atenção focada em algum outro lugar ou objeto digital
em seu dispositivo. Além disso, os professores perceberam funcionalidades dos seus
equipamentos e alguns as correlacionaram com possíveis encaminhamentos pedagógicos.
Para o personagem cientista da educação o professor pesquisou e contrapôs aplicativos
que estivessem de alguma forma relacionada ao trabalho docente. Alguns aplicativos
apresentados pelos professores foram “Truques Matemáticos Lite” e “Nota 10 – Simulados
ENEM”. Neste momento é possível encontrar diversas possibilidades para ampliar o estudo
sobre um conteúdo desenvolvido em sala. No personagem escritor de contos, o professor foi
provocado a escrever um microconto a partir de uma imagem escolhida sobre o tema do curso
“Aprendizagem com mobilidade”. Nessa atividade o professor pode analisar reportagens,
imagem, vídeos, hipertextos que podem ser acessados pelos dispositivos móveis e utilizados
com os estudantes. Como, por exemplo, escolher uma reportagem atrelada ao conteúdo a ser
trabalhado pelo professor e compartilhar o link da reportagem com os estudantes seja pelo
Dropbox ou Whatsapp. Essa atividade não foi realizada pelos cursistas das turmas analisadas,
sendo apenas exemplificado uma atividade para a participação do Fórum. Na atividade
personagem repórter foi solicitado a produção de um áudio ou vídeo em forma de entrevista
no ambiente escolar sobre a presença dos dispositivos móveis e como os professores cursistas
percebem os conceitos abordados no curso na fala dos entrevistados.
Na terceira tarefa: “Aprendizagem com mobilidade II”, após as leituras e atividades,
foi solicitado aos cursistas a elaboração do conceito pessoal de aprendizagem com
mobilidade. Por fim, os cursistas participaram do fórum síntese, no qual explicitaram seu
entendimento do curso e demais impressões. Sobre esta atividade, analisamos o conteúdo das
participações de cerca de 50 professores relacionando-as com o nível de apropriação
tecnológica apresentado pelos cursistas e se foi possível perceber mudança na postura frente a
utilização de dispositivos móveis no espaço escolar.
Algumas reflexões nos diários e fóruns foram destacadas considerando: o uso dos
dispositivos em nossa prática pedagógica como facilitadora do processo de aprendizagem; o
professor mediando os recursos tecnológicos com o princípio de valorização da aquisição de
conhecimento; a necessidade de adaptação da escola em relação a metodologia a partir do uso
das novas tecnologias; a oferta de capacitação para o professor ampliar seus conhecimentos
sobre os recursos tecnológicos; nova concepção de educação no uso dos dispositivos móveis
3764
transpondo os muros da escola e a discussão e revisão das práticas pedagógicas com uma
nova referência “a cultura digital”.
Para subsidiar a análise do conteúdo, utilizamos o referencial de estágios de
apropriação tecnológica (PASINATO; VOSGERAU, 2011) apresentado no quadro abaixo, e
relacionamos com o conteúdo da participação de alguns professores no fórum síntese para
exemplificar.
Quadro 1 – Quadro proposta de indicadores de Integração das TIC
Estágios de
Apropriação
Tecnológica
0
Não utilização
1
Familiarização
2
Conscientização
3
Implementação
4
Integração
Descrição
O professor não faz
uso da tecnologia em
suas aulas.
O professor começa a
ter contato com as
tecnologias, porém
não possui
experiência e não se
interessa em utilizálas em sua aula.
Ocorre a
conscientização da
importância do uso
das tecnologias. O
professor passa a ter
noção do uso do
computador e de
alguns softwares e
passa a usar para
complementar a sua
aula.
O professor passa a
pensar na
aprendizagem
utilizando um meio
tecnológico. Sabe
utilizar a tecnologia e
auxilia colegas e
alunos.
O professor utiliza a
tecnologia e a integra
curricularmente,
sendo que ela se faz
necessária para seu
Conteúdo do diário
“No entanto, acredito que só chegaremos a esta
compreensão [...] quando toda comunidade escolar
(Direção, Equipe Pedagógica, Professores, Funcionários)
aceitar e se preparar para orientar nossos alunos para esta
importante aplicação dos dispositivos móveis. ”
“Cabe salientar que cursos como este devem
planejar uma carga horária maior para o manuseio dos
dispositivos e seu uso nas redes sociais para
instrumentalizar melhor os cursistas. ”
“O curso me trouxe algumas respostas, mas
também me trouxe muitas perguntas, desafios. [...]
Comecei o curso sabendo pouco de tecnologia e o que
me parece bom saio do curso sabendo menos ainda, ou
seja, conheci que o campo da tecnologia é muito maior
do que eu conhecia, e por mais que tenha caminhado e
crescido em conhecimento, vi que esta área é tão grande
que ainda tenho muito à apreender.
Dei passos:
o
perder o medo de novos aplicativos;
o
aprendi baixar aplicativos
o
ver o dispositivo móvel não mais como
inimigo em sala de aula e sim como um novo aliado;
[...]”
“No início eu usei o smartphones em sala com
um pouco de desconfiança, mas hoje tenho a certeza que
este é um "bom caminho" sem volta. A tecnologia
facilita a nossa vida mas o trabalho de estudar é o
mesmo, para alunos ou para professores. ”
3765
5
Evolução
processo de ensino e
para a aprendizagem
do aluno. No seu
plano de ensino está
previsto que nos
momentos que o
aluno tem acesso ao
computador será para
dar continuidade ao
trabalho realizado em
sala de aula.
A tecnologia já se
encontra plenamente
integrada ao
planejamento de
ensino do professor,
que consegue de
forma
interdisciplinar,
articular os conteúdos
curriculares ao
contexto social do
aluno, utilizando a
tecnologia como um
recurso para a
produção do
conhecimento.
Fonte: adaptado de PASINATO; VOSGERAU, 2011.
A partir dos exemplos pontuados no quadro, percebemos que a grande maioria (mais
de trinta professores em um universo de 50 participantes presentes nas turmas analisadas)
encontra-se no estágio de conscientização. Isto quer dizer que eles conhecem um pouco de
tecnologia e entendem a importância de sua utilização. Entretanto, carecem de formação para
terem segurança e passarem à fase de implementação das tecnologias em suas aulas.
Alguns professores ainda estão na primeira fase, de familiarização, estes mencionaram
em suas falas a necessidade de terem oficinas e palestras sobre o uso de tecnologias, desde o
manuseio dos equipamentos até a relação destes com os processos de ensino e aprendizagem.
Encontramos também dois relatos de professores que já utilizaram os dispositivos
móveis em suas aulas, inserindo-os no estágio de implementação. Estes professores
mostraram-se animados frente os desafios propostos no curso e confiantes de que estavam
seguindo o “caminho certo”. Um dos professores afirmou que:
3766
O curso aprendizagem com mobilidade, me trouxe maior clareza em relação as
dúvidas que sentia e principalmente veio a confirmar o que estava idealizando para
minhas aulas, pois observando a realidade dos alunos e sua interação os celulares e
dispositivos móveis também percebi que estava na hora de utilizarmos este atrativo,
somado aos temas propostos para um maior rendimento do aluno e do professor. O
compartilhamento com os colegas por interesses em comum sempre enriquece nosso
aprendizado, porém penso que deverão ser oferecidos aos professores mais módulos
e cursos deste mesmo tema pois todos devem se aperfeiçoar e também terem ao seu
dispor computadores e dispositivos móveis atualizados (professora 21).
Outro professor afirmou que o curso abordou “a arma digital mais utilizada na
sociedade em geral: o celular” e que este em sala de aula é um elemento a ser observado e
delimitado. Na opinião deste professor a proibição do celular deve ser feita quando este
“atrapalhar conceitualmente o dia a dia em sala de aula”. E em seguida o professor afirma que
é necessário que os professores se apropriem de técnicas mais adequadas associadas às
máquinas presentes nas salas de aula. E em seu relato, concluiu que:
O celular não pode ser visto como uma arma mortal de destruição, mas como um
novo elemento semiótico que veio para somar com os nossos meios mais
tradicionais de ensino-aprendizagem. Resta-nos como professores, estarmos sempre
atualizados para orientar nossos educandos de como usar esse elemento para
crescimento intelectual, tanto na escola como no aprendizado para a vida
(professor 27).
Estes relatos apontam professores interessados na apropriação das tecnologias
voltando-as para o processo de ensino e aprendizagem e também a postura reflexiva destes
profissionais frente a inserção dos dispositivos móveis, em especial dos celulares nos
ambientes escolares. Este indicativo é muito importante, pois como apontam pesquisas
anteriores “o interesse do professor é fundamental para a integração das TIC, pois se ele não
acreditar no uso do recurso, dificilmente irá utilizá-lo na sua aula” (PASINATO;
VOSGERAU, 2011).
Nas avaliações do curso, muitos professores afirmaram a necessidade de mais
momentos presenciais com seus tutores para trabalhar os aspectos técnicos do manuseio
básico de seus tablets educacionais. Percebe-se nestes depoimentos que estes professores não
entendem dispositivos móveis para utilização na prática docente que não os tablets
educacionais. Seus smartphones, notebooks e outros tablets seriam apenas para uso pessoal e
não profissional. Para o manuseio dos tablets educacionais foram confeccionados
videotutoriais que explicam os aspectos básicos como desbloqueio do tablet via CPF do
professor cadastrado no MEC, como baixar aplicativos no dispositivo, entre outros. Mesmo
assim, houveram solicitações para maior carga horária presencial, com o auxílio dos tutores
3767
para a realização das atividades práticas propostas no curso (compartilhamento e envio de link
das fotografias, vídeos e áudios produzidos pelos professores, por exemplo). Estes
depoimentos apontam que parte dos professores analisados ainda se encontram no estágio de
Familiarização (PASINATO; VOSGERAU, 2011). Para estes professores avançarem para a
conscientização e implementação é necessário o suporte técnico instrumental quanto a
utilização das tecnologias, em especial dos dispositivos móveis.
Os professores que defendem a utilização das tecnologias em suas aulas entendem o
papel destas como meio e o professor como mediador do conhecimento. Eles afirmam que
isto é necessário:
Pois a todo momento são "bombardeados" pelas informações que chegam a eles de
todos e de tudo e a todo momento. O professor tem de estar capacitado, inteirado e
inserido nesse contexto, assim tornar-se o agente de transformação dessas
informações em conhecimento ao estudante, facilitando e beneficiando todos os
envolvidos no processo ensino-aprendizagem (professor 24).
A preocupação com a formação continuada esteve presente em praticamente todas as
participações dos professores. Podemos ver isto como um indicativo de que os professores
querem se aperfeiçoar e que carecem de cursos específicos para a utilização de tecnologias
para o ensino e aprendizagem, fato já observado em pesquisas anteriores (PADILHA, 2014).
Por fim, trazemos o conteúdo de dois participantes do curso, que avaliou
positivamente a iniciativa e temática que envolveram esta formação continuada. Ele afirma
que:
A educação por meio de usos tecnológicos, usando aparelho de dispositivos móvel,
é a maneira atual e moderna a ser empregada em salas de aula para melhor
entendimento e interesse por parte do aluno, estimulando cada vez mais sua
curiosidade. Sendo assim, o curso não só me fez esse olhar, como também me
estimulou ao uso destes aparelhos a meu favor (professor 24).
A fala de outro professor corrobora com a utilização dos dispositivos móveis,
afirmando que:
[...] não podemos mais adiar, pois os dispositivos móveis estão aí e é a realidade no
nosso cotidiano escolar. Estamos vivendo um momento de profundas mudanças na
sociedade a partir do uso das tecnologias digitais, e no que tange o uso de
dispositivos móveis, estão se desenvolvendo novos modelos educacionais de ensino
e aprendizagem que no meu ponto de vista, vêm para auxiliar as práticas e teorias
tradicionais (professor 27).
3768
Estas contribuições fazem crer que os professores superaram a fase de não utilização e
que a resistência ao uso de tecnologias na educação vem diminuindo com o passar dos anos.
Eles entendem e desejam inserir as tecnologias, no caso específico deste artigo, os
dispositivos móveis, em suas aulas como meios facilitadores da aprendizagem.
Considerações Finais
A aprendizagem com mobilidade, tema do curso analisado, difere da aprendizagem
ubíqua pela especificidade dos suportes tecnológicos. A primeira está nos dispositivos móveis
(celulares, notebooks, tablets ou smartphones) e na própria mobilidade do ser humano. Neste
artigo foi possível analisar a postura e a apropriação tecnológica entre os professores
cursistas.
O que percebemos nas respostas da grande maioria dos professores é a mudança de
entendimento quanto a utilização dos dispositivos móveis na vida pessoal e na sala de aula,
por meio dos conceitos teóricos e das atividades práticas solicitadas durante o curso.
Diante dos resultados é possível verificar que os professores estão buscando recursos
das inovações tecnológicas, apesar de ainda haver resistências de alguns professores nas
escolas. Existem dificuldades de trabalhar com os estudantes no uso da internet, pois falta a
compreensão dos próprios estudantes em relação aos dispositivos móveis como ferramenta
pedagógica, sendo este mais um desafio a ser superado pelos professores.
A apropriação tecnológica para fins pedagógicos variou entre os participantes do
curso. Houve professores que afirmaram ter familiaridade prévia com os dispositivos móveis
enquanto que para outros o momento do curso exigiu o primeiro contato com estes
equipamentos. A maioria das opiniões dos professores quanto a relevância do curso na sua
formação continuada, especificamente na apropriação tecnológica, foi positiva. Eles alegaram
que depois do curso entendem melhor as tecnologias, em especial a utilização dos dispositivos
móveis e sua relação com a sociedade. Este estudo mostra a importância da formação
continuada aos professores para a utilização das tecnologias para fins pedagógicos. Também
evidencia que a resistência à utilização das tecnologias na educação está diminuindo e que os
professores almejam a apropriação tecnológica para a melhoria tanto na parte pessoal quanto
na profissional. Assim, a forma como utilizar celulares, tablets e smartphones com fins
pedagógicos, como diz a lei nº 18.118/2014, depende do nível de apropriação tecnológica dos
professores.
3769
Salientamos que esta pesquisa se deu especificamente sobre a apropriação dos
dispositivos móveis pelos professores e sua utilização como ferramenta metodológica, no
processo de ensino e aprendizagem. Neste âmbito, muito ainda tem-se a pesquisar sobre a
utilização de outros recursos tecnológicos.
REFERÊNCIAS
BARROS, Gilian C.; BRITO, Gláucia da S. Prática da mobilidade tecnológico-educacional,
um ensaio sobre a definição do conceito. In: SIMPÓSIO BRASILEIRO DE INFORMÁTICA
NA EDUCAÇÃO, 2013. Anais... Campinas: Vol. 24, n. 1. Disponível em: <http://www.brie.org/pub/index.php/sbie/article/view/2485>. Acesso em: 6/3/2014.
CAMAS, Nuria Pons Vilardell et al. Professor e cultura digital: reflexão teórica acerca dos
novos desafios na ação formadora para nosso século. Reflexão & Ação, v. 21, n. 2, p. 179198, 2013. Disponível em: <https://online.unisc.br/seer/index.php/reflex/article/view/3834>.
Acesso em: 6/3/2014.
LEMOS, André. Cibercultura e mobilidade: a era da conexão. Razón y palavra. Atizapán de
Zaragoza, out.-nov. 2004. Disponível em:
<http://www.razonypalabra.org.mx/anteriores/n41/alemos.html>. Acesso em: 6/3/2014.
LEMOS, André. Cultura da Mobilidade. Revista FAMECOS. Porto Alegre, nº 40. Dezembro
de 2009. Disponível em
<http://revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/index.php/revistafamecos/article/view/6314/4589>.
Acesso 23/02/2015.
LEVY, Pierre. O que é o virtual. Disponível em:
<http://www.mom.arq.ufmg.br/mom/arq_interface/6a_aula/o_que_e_o_virtual_-_levy.pdf>.
Acesso em: 6/3/2014.
PADILHA, Andrea da Silva Castagini. O uso das tecnologias de informação e
comunicação (TIC) no contexto da aprendizagem significativa para o ensino de ciências.
2014. 166 f. Dissertação (Mestrado em Formação Científica, Educacional e Tecnológica) –
Universidade Tecnológica Federal do Paraná, Curitiba, 2014. Disponível em:
http://repositorio.utfpr.edu.br/jspui/handle/1/948 Acesso em 29/07/2015.
PARANÁ, Casa Civil do governo do Estado do. Lei 18118 – 24 de Junho de 2014.
Disponível em:
<http://www.legislacao.pr.gov.br/legislacao/listarAtosAno.do?action=exibir&codAto=123359
>. Acesso em: 21/8/2015.
PASINATO, Nara Maria Bernardes. VOSGERAU, Dilmeire Sant’Anna Ramos. Proposta
para avaliação dos estágios de integração das TIC na escola. Congresso Nacional de
Educação (2011 nov. 07-10: Curitiba, PR. Anais do X Congresso Nacional de Educação –
3770
EDUCERE. ISSN 2176-1396. Disponível em:
<http://educere.bruc.com.br/CD2011/pdf/6451_3806.pdf>. Acesso em: 6/3/2015.
SANTAELLA, Lucia. O mundo na palma da mão. In: _____. Linguagens líquidas na era da
mobilidade. São Paulo: Paulus, 2007. 468. p.
_____. Desafios da ubiquidade para a educação. Ensino superior. Campinas, 4/4/2013.
Disponível em: <http://www.revistaensinosuperior.gr.unicamp.br/artigos/desafios-daubiquidade-para-a-educacao>. Acesso em: 6/3/2014.
WERTHEIM, Margaret. Uma história do espaço de Dante à internet. Rio de Janeiro: Jorge
Zahar, 2001.
Download

dispositivos móveis em sala de aula, um desafio para os professores