Anderson Pires da Silva Mário & Oswald PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA Uma história privada do Modernismo TESE DE DOUTORADO DEPARTAMENTO DE LETRAS Programa de Pós-Graduação em Letras Rio de Janeiro Março de 2006 Livros Grátis http://www.livrosgratis.com.br Milhares de livros grátis para download. PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA Anderson Pires da Silva Mário & Oswald uma história privada do modernismo Tese de Doutorado Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Letras do Departamento de Letras da PUC-Rio como parte dos requisitos parciais para a obtenção do título de Doutor em Letras. Orientador: Júlio Cesar Valladão Diniz Rio de Janeiro Março de 2006 Anderson Pires da Silva Mário & Oswald – uma história privada do modernismo PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Letras do Departamento de Letras da PUC-Rio como parte dos requisitos parciais para a obtenção do título de Doutor em Letras. Aprovada pela Comissão Examinadora abaixo assinada. _______________________________ Prof. Dr. Júlio Cesar Valladão Diniz Orientador Departamento de Letras – PUC-Rio ________________________________ Profª Dra. Marília Rothier Cardoso Departamento de Letras – PUC-Rio ________________________________ Profª. Dra. Eliana Yunes Departamento de Letras – PUC-Rio ________________________________ Profª Dra. Terezinha Maria Scher Pereira Departamento de Letras – UFJF ________________________________________ Profº Dr. André Monteiro Guimarães Dias Pires Departamento de Literatura – UFC ________________________________________ Prof. Paulo Fernando Carneiro de Andrade Coordenador Setorial do Centro de Teologia e Ciências Humanas – PUC-Rio Rio de Janeiro, 31 de março de 2006 Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução total ou parcial do trabalho sem autorização do autor, do orientador e da universidade. Anderson Pires da Silva Graduou-se em Letras pela Universidade Federal de Juiz de Fora, em 1997. Mestre em Literatura Brasileira pelo Programa de PósGraduação em Letras (Literatura Brasileira) da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, 2000. Ingressou em 2002 no Programa de Pós-Graduação em Letras (Estudos em Literatura Brasileira) da PUC-Rio. O autor tem publicado ensaios pertinentes à sua área. PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA Ficha Catalográfica Silva, Anderson Pires da Mário & Oswald : uma história privada do modernismo / Anderson Pires da Silva ; orientador: Júlio Cesar Valladão Diniz. – Rio de Janeiro : PUC, Departamento de Letras, 2006. 177 f. ; 30 cm Tese (doutorado) – Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Departamento de Letras. Inclui referências bibliográficas. 1. Letras – Teses. 2. Modernismo. 3. Oswald de Andrade. 4. Mario de Andrade. 5. Concretismo. 6. Tropicalismo. 7. Historiografia literária. Pontifícia Universidade I. Diniz, Júlio Cesar Valladão. II. Católica do Rio de Janeiro. Departamento de Letras. III. Título. CDD: 800 PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA Dedico esta tese ao meu pai, como um presente. A Juliana, pelo o amor e todo o futuro A minha irmã e meu irmão, pela união. A minha mãe e minhas tias por me iluminarem. Aos meus tios Jair e Sebastião, por me ensinar que todas as forças são confluentes. Ao meu Padrasto, pela “vida bandida”. A Heitor, Lúcia e Carol, pelos laços afetivos. PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA Agradecimentos Ao Julinho, pela orientação segura, a confiança e a atenção às minhas passadas em falso, para sempre o orientador mais cool do programa. Aos meus amigos da Babilônia: Anna e Leinimar, as estrelas. Leandro Salgueirinho, você ainda vai chegar lá. Marcelo Magalhães, pelo sofá e noites de conversas e etc. Beto, o carapuceiro. Carla, por onde você andar. Sheyla May, pelos sábios conselhos. Aydano e Ana... pela celebração. A Elisa e Serginho, pela proteção. Aos meus amigos de Juiz de Fora, Érika, Elza, Cláudio e Natália, André, Camila, Mário Werneck, Marquinhos, Guiliano Kid, Junin, Marcinha, Amanda e Eveyline... pelo companheirismo e a sabedoria A Teresinha e Gilvan, pela confiança e o impulso. As professoras Heidrun, Eliana, Santuza; e os professores Renato e Gilberto, pela abertura de caminhos. A Marília Rothier, pela iluminação e a leitura desafiante do projeto. A “chiquinha”, por sempre me mostrar a solução. A Banca examinadora. Aos funcionários da biblioteca. Aos garçons do “Pires” Ao Programa de Pós-Graduação, a Capes e a Faperj, pelo apoio à pesquisa. PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA A Marc Bolan, pela trilha sonora. Resumo SILVA, Anderson Pires da; DINIZ, Júlio Cesar Valladão (orientador). Mário & Oswald — Uma história privada do modernismo. Rio de Janeiro, 2006. 177 p. Tese de Doutorado. Departamento de Letras. Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Este trabalho pretende traçar a recepção da escrita de Mário de Andrade e Oswald de Andrade entre os anos de 1945-70, a criação de uma “consciência nacional” e uma escrita de vanguarda, tendo em vista a eleição de ambos ao patamar de “alto modernismo”. PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA A historiografia literária, orientada pela tradição nacionalista, localiza em Mário a “síntese superior” das propostas pós-22, relegando Oswald ao plano de “terrorista cultural”. O Concretismo, para viabilizar uma historiografia sincrônica, regida pelo padrão internacional das vanguardas, elege a “poesia pau-Brasil” como uma revolução estética, antecipadora da poesia concreta, minimiza o papel de Mário, denominando-o “reformador”, ou nas entrelinhas, “modernista conservador”. A teoria concreta apresenta a antropofagia ao Tropicalismo, que encontra nela o argumento teórico para justificar sua assimilação da cultura de massa como proposta de renovação e atualização cultural. Por um ou por outro viés, os modernistas são “objetos” construídos para legitimar o discurso nacionalista ou o discurso internacionalista. Palavras-chave Semana de 22, modernismo, antropofagia, concretismo, tropicalismo. Abstract SILVA, Anderson Pires da; DINIZ, Júlio Cesar Valladão. Mário & Oswald - a private history of modernism. Rio de Janeiro, 2006. 177 p. Thesis. Literature Departament. Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. This work intends to outline the reception of the writings by Mário de Andrade and Oswald de Andrade between the years of 1945-70, the creation of a “national consciousness” and a vanguardist writing, taking into consideration the election of both of them to the level of “high modernism”. The literary historiography, guided by the nationalist tradition, sees in Mário the “superior synthesis” of the post-22 proposals, PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA leaving Oswald on the level of “cultural terrorist”. Concretism, to make viable a synchronic historiography, guided by the international pattern of the vanguards, elects the “pau-Brasil poetry” as an esthetic revolution, anticipating the concrete poetry, minimizing Mário’s role, calling him the “reformer”, or between the lines, “conservative modernist”. The concrete theory presents the anthropophagy to the tropicalism, which finds in it the theoric argument to justify its assimilation of mass culture as a proposal of renovation and cultural update. From one view or another, the modernists are “objects” constructed to legitimize the nationalist speech or the internationalist one. Key-words Week of 22, modernism, anthropophagy, concretism, tropicalism. PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA Sumário 1. Introdução 12 2. A festa não termina nunca 17 2.1. Rio-São Paulo 17 2.2. O diabo do modernismo 23 2.3. Um líder vigiado 30 3. Nacional/Internacional 34 3.1. O Brasil descoberto 34 3.2. Pau-Brasil 38 3.3. Mário Pau-Brasil de Andrade? 45 3.4. A saída antropofágica 51 3.5. Um mecenas dissonante 60 4. Balanços 63 4.1. Itamarati, 30 de abril de 1942 63 4.2. Belo Horizonte, Exposição de Arte Moderna, 1944 67 4.3. Fechando o primeiro balanço 71 5. Mário: Correspondente de si mesmo 75 5.1. Solitário na rua Lopes Chaves 77 5.2. O poeta como funcionário público 79 5.3. Morre o homem fica o mito 87 6. Narrando Oswald 92 6.1. L’enfant gâte 92 6.2. Reinvenção marxista 97 PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA 6.3. Contrastes 104 7. Contribuição concreta 108 7.1. Make it new 108 7.2. Devorando Joyce e Mallarmé 113 7.3. Regurgitando Mário 117 7.4. Simbioses 122 8. Antropofagia remixada 124 8.1. A utopia selvagem 124 8.2. Os tropicalistas estão chegando 129 8.3. E onde está Mário? 141 9. Sínteses 148 9.1. Autonomia e produção literária 148 9.2. Tradição e memória 154 10. Conclusão 162 11. Referências Bibliográficas 166 PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA Nuestras convicciones más arraigadas, más indubitables son las más sospechosas. Ellas constituyen nuestro límite, nuestros confines, nuestra prisión. Ortega y Gasset. 12 1 Introdução Esta tese foi idealizada a partir dos longos debates após as aulas do professor Júlio Diniz, durante o curso sobre a poesia de Mário, Oswald, Bandeira e Drummond. Os tópicos principais: a construção da identidade nacional, os momentos de ruptura e o diálogo com a tradição. Estava no primeiro semestre e nenhum desses temas tinha sido abordado no projeto aprovado pelo exame de seleção. O entusiasmo das discussões após as aulas me convenceu que precisava mudá-lo, só não sabia como. Uma coisa recorrente, dentro e fora da sala de aula, era as radicais PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA tomadas de posição a favor ou contra Mário e Oswald. Isso não acontecia com Drummond e Bandeira, mas em relação aos dois poetas paulistas parecia um flamengo x vasco da literatura brasileira. Não se tratava de quem foi melhor poeta, título disputado entre Drummond e Bandeira. Discutia-se quem tinha sido mais ousado, inventivo, radical, inspirador. Alguém com bom senso disse que esta era uma polêmica inútil, porém ela já existia antes de nós, permanecendo junto com as obras dos autores. Tomei a tola rivalidade como pontapé inicial para re-escrever meu projeto de tese, talvez tudo tenha começado como um erro. Nosso objetivo primordial tornou-se a recepção da dupla modernista entre os anos de 1945 e 1970. A escolha deve-se, em primeiro lugar, a um critério metodológico, o recorte necessário para limitar o foco da discussão; segundo, vários autores – dentre eles Antonio Candido, Silviano Santiago, Mário da Silva Brito – vêem o ano de 45 como o primeiro balanço do Modernismo e também seu fim, por causa da superação das propostas de 22, através da poesia social e do formalismo da geração de 45, além de ser o ano da morte de Mário de Andrade. Porém, não respeitei minha própria metodologia, pois senti a necessidade de voltar ao ano de 1922, para rever o papel de Monteiro Lobato e de Graça Aranha, e ao período de 24-29, no qual se processa o projeto nacionalista e ocorre o rompimento entre os Andrades. 13 No primeiro capítulo, procuramos demonstrar como a Semana de 22 foi articulada a partir do desejo de renovação dos escritores e do capital privado da aristocracia cafeeira. Nesse sentido, recuperamos a recepção do Modernismo em outros estados, sua problematização como “instituição paulista”, a presença orientadora de Graça Aranha, cuja liderança contestada pelos paulistas foi um meio de manter o ideário modernista no centro paulista. Interessa também a relação entre Mário e Oswald com o ambiente carioca dos anos 10, o convívio do primeiro com Manuel Bandeira e do segundo com Emílio de Menezes. A viagem a Minas em 1924 como descoberta simbólica do Brasil, o que levará a elaboração do projeto nacionalista, é o tema do segundo capítulo. Privilegiamos a correspondência de Mário com Tarsila, Bandeira e Drummond para enfatizar como a questão do nacional, para ele, passava PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA pela criação/estilização de uma “língua brasileira”. Esse é o ponto de maior confluência com Oswald de Andrade do “Manifesto pau-Brasil”. Também é o elo de Mário com José de Alencar. Logo, insinuamos o projeto modernista como uma reconstrução do projeto romântico. A discussão abrange a proposta antropofágica e a verde-amarelista, o impasse entre uma arte nacional internacional ou uma arte nacional exorcidadora das influências européias. O capítulo termina com o “anticlímax” Retrato do Brasil. Enquanto os escritores elaboravam uma visão otimista e ufanista da história brasileira, Paulo Prado, num lance original, propunha a melancolia como índice de nacionalidade. Essa visão é como um vírus inoculado numa imagem oficial do país e, talvez inconscientemente, expôs o tabu modernista ao eleger a “alegria como a prova dos nove”. Balanços, como o titulo sugere, aborda as primeiras recepções do Modernismo na década de 40: as conferências de Mário no Itamarati, Oswald em Belo Horizonte, os livros de entrevistas Testamento de uma geração e Plataforma de uma geração. O capítulo seguinte compreende a correspondência de Mário de Andrade, principalmente no período em que fora diretor do Departamento de Cultura da cidade de São Paulo. Tal recorte nos possibilita analisar, dentro de uma problemática pessoal, as relações entre o artista e o intelectual com o Estado. Além disso, pretendemos demonstrar como, 14 através de sua correspondência, o capital intelectual do escritor foi fundamental para sua ascensão dentro dos círculos aristocráticos, criando uma rede de boas relações que o levou a ocupar cargos públicos, realizando na prática um projeto de democratização da arte. Através dos artigos e crônicas publicadas a partir de 1945, pensamos o envolvimento de Oswald de Andrade com o marxismo como reinvenção não só de sua escrita, mas principalmente de sua imagem. Quando se declara o final do Modernismo nesse ano, tacitamente excluía-se a produção do escritor, que segue firme e polêmico. Todo seu esforço concentra-se em desconstruir o mito da irreverência, arma eficiente nos anos 20, mas depois constituiria sua prisão. Contribuição concreta retoma a defesa concretista da obra de Oswald. A ressurreição de Oswald, completamente obscurecido pela geração de 45, PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA deve-se em muito ao empenho dos irmãos Campos - Haroldo em especial ao tomá-lo como parâmetro histórico para a vanguarda concretista. Isso implicou uma leitura quase exclusivista do Oswald antropofágico, radical e cosmopolita. Imagem que se casava à perfeição com o modelo de cultura literária defendida pelos concretos, uma cultura internacionalista. Nesse processo, os concretistas delegaram a obra de Mário, especialmente sua poesia, a um segundo plano, às vezes um exemplo a não ser seguido. Ressalte-se que Haroldo de Campos dá pouco espaço ao nacionalismo oswaldiano, sua utópica re-escrita da história colonial na intenção de inverter os pólos entre colonizado e colonizador (ou seja, o “erro de português”). A radicalidade da poesia Pau-brasil, na visão de Campos, corresponde a uma radicalidade de linguagem muito próxima da estruturalista adotada pelos concretos. Os concretistas acentuaram uma rivalidade entre Mário e Oswald, encobrindo outra disputa nos bastidores literários de São Paulo: a primazia por um modelo de análise literária que tenderia ora a vê-la como um produto social, ora como um discurso estético autônomo. Assim haveria dois times em campo, a crítica sociológica e a crítica estruturalista. Ou mais precisamente, de um lado Antonio Candido, de outro Haroldo de Campos. Antropofagia remixada discute as reconfigurações do conceito de antropofagia. Primeiro, pelo próprio Oswald de Andrade, em seus textos 15 filosóficos, que o retoma como contra-discurso ao desenvolvimento da sociedade capitalista; segundo pelos tropicalistas, sob orientação dos irmãos Campos, que encontram na antropofagia um discurso histórico capaz de confrontar o nacionalismo dos anos 60 e propor um outro diálogo com a cultura de massa. Neste último caso, através da lógica antropofágica, o Tropicalismo pôde fundir-se à literatura de vanguarda e, completando a linha evolutiva proposta pelo Concretismo, legitimar-se como produto de uma tradição de vanguarda na inteligência brasileira. Em Sínteses procuramos alinhar as reflexões de Antonio Candido e de Silviano Santiago. O primeiro perpassa por todos os capítulos da tese, não apenas por causa de precisão dos seus ensaios, mas também pelo tipo de ensaística do autor, herdeira direta do estilo moderno de escrita. As preocupações de Candido, especialmente a respeito do cânone nacional, PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA encontram, no Modernismo paulista, o terreno para síntese do conceito de “literatura como sistema”. Dessa forma, há um traçado do Romantismo ao Modernismo identificado como uma tradição literária. Além de prever o lugar primordial da correspondência na organização da vida literária, Candido aponta no movimento modernista o lugar da reconfiguração do nacionalismo literário. Outra postura crítica tem surgido com os ensaios de Silviano Santiago e Eneida Maria de Souza. Silviano esboça em vários ensaios - "Fechado para balanço", "A permanência da tradição no discurso modernista", "O intelectual modernista revisitado", "Vale quanto pesa" e "Oswald de Andrade ou elogio da tolerância" - a necessidade de rever o projeto modernista, tanto em seus aspectos individuais quanto o seu lugar dentro do quadro geral da modernidade. Nessa proposta, desfaz a tensão Mário x Oswald, pensando-os como parte de um “mesmo processo”. Silviano busca no discurso modernista a permanência da tradição colonial, algo que Candido excluiu da “formação” da literatura brasileira. O que permitirá tal articulação é o memorialismo, dado que vem à tona através da leitura dos projetos pessoais dos seus participantes. Para tanto, cabe agora levantar um outro repertório de textos ignorados pelas primeiras leituras canônicas, qual seja, os diários, as correspondências, as polêmicas. 16 Os trabalhos de Eneida Maria de Souza são ilustrativos dessa abordagem. Partindo da análise das correspondências de Mário de Andrade, Eneida demonstra como os projetos individuais do intelectual estavam atrelados ao projeto modernista. Não é tanto a imagem do esteta que aparece, mas sim a do arquivista, do homem preocupado com o patrimônio. Eneida localiza aqui uma contradição entre o artista e o intelectual, pois enquanto esteta moderno Mário acredita na transitoriedade da arte, na impossibilidade da obra-prima; por outro, enquanto intelectual, luta pela preservação do patrimônio público. Mário & Oswald são como uma espécie de Lennon & McCartney do levante modernista. Talvez Antonio Candido esteja certo quando diz que sobre eles repousa uma dialética fundamental para a cultura brasileira. Tanto suas idéias quanto e suas personalidades simbolizam os impasses da PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA intelectualidade brasileira até pouco tempo atrás: participação no projeto de nação moderna e democrática, inserção no mercado internacional, combate ao totalitarismo político, atualização estética. A extensão de suas idéias ajudou a consolidar alguns lugares hoje oficiais para a discussão cultural, além do próprio Modernismo, como a crítica sociológica, o Concretismo e o Tropicalismo. De certo modo, desde o Tropicalismo, a música realiza os cruzamentos culturais planejados por Mário e Oswald, o que levou o jornalismo musical a banalizar a noção de antropofagia. É claro que há Paulo Coelho, o homem que tem exportado a literatura brasileira para os lugares mais distantes. 17 2 A festa não termina nunca Interesse. Dinamismo. Energia. Curiosidade. Ambição. Lema Bandeirante. A Semana de Arte Moderna não passou de uma farra de playboys. Guilherme de Almeida1 2.1 Rio-São Paulo Apesar das divergências estéticas e políticas, quando o assunto foi PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA hegemonia paulista na instauração de um discurso moderno entre nós, a geração de 22 falou em uníssono. Mário de Andrade: “O espírito revolucionário modernista, tão necessário como o romântico, preparou o estado revolucionário de 30 em diante.” Oswald de Andrade: “Em 22, nós, da Semana, agimos como semáforos. Anunciamos o que se cumpriu depois, o que está se cumprindo a nossos olhos.” Menotti del Picchia: “A história da Semana de Arte Moderna não tem sido bem contada (...), foi o marco oficial da renovação espiritual do Brasil. Fixou uma data: foi um divisor de águas”. Aceitar tal ascendência, desde o início, significava se submeter a um padrão local, o modernismo paulista, para avaliar um fenômeno nacional: a literatura moderna. Contudo, a geração de 22 teve o tempo ao seu lado. Foi ele que advogou a favor dos modernistas paulistas quando o movimento historicizouse. As primeiras historiografias sobre o modernismo, como Contribuição à história do Modernismo (1939), de Alceu Amoroso Lima, fixaram as origens da literatura moderna na cena paulistana, cujo momento culminante foi a Semana de 22. O termo “pré-modernismo”, cunhado por Tristão de Ataíde para designar as obras importantes anteriores a 22, demarcou os limites da área modernista. Suplemento literário do jornal Estado de São Paulo, edição comemorativa dos quarenta anos da semana, 17 de fevereiro de 1962. 1 18 A intelectualidade nordestina questionou a autoridade paulista, disfarçada na obsessão pela origem das coisas. Em depoimento para o Suplemento Literário d’O Estado de São Paulo, na edição comemorativa dos quarentas anos da Semana, José Lins do Rego declararia: “para nós, de Recife, essa ‘Semana de Arte Moderna’ não existiu”; Gilberto Freyre, na mesma edição, afirmava que havia em Recife “outro desenvolvimento no mesmo sentido de modernidade inquieta e renovadora das letras, das artes e também dos estudos sociais no Brasil”2. Em entrevista a Homero Senna, Graciliano Ramos, ácido, confessaria: “Nunca fui modernista. Enquanto os rapazes de 22 promoviam seu movimentozinho, achava-me em Palmeira dos Índios, em pleno sertão alagoano, vendendo chita no balcão”. Para o mesmo entrevistador, Carlos Drummond de Andrade declarou que não recebera nenhuma influência da Semana de 22, pois o grupo de modernistas mineiros formou-se “ao acaso das afinidades e dos achados PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA de livraria”. Para ele, a poesia de Manuel Bandeira fôra a “verdadeira e pessoal” revelação modernista. Somente em 1924, concluía, tomaria contato com o grupo paulista, em particular Mário de Andrade, que representava o “tempo modernista, sua encarnação e exemplificação mais direta e empolgante” (1996, p. 203). Essas declarações provocaram uma violenta reação do poeta Décio Pignatari. Em 1982, no artigo “Semana de Arte Moderna: 22, 32, 42, 52, 62, 72, 82, 92, 2002...” – o título entrega o jogo -, defende a Semana como uma “musa incompreendida”, negada pelos de dentro e pelos de fora. Há, segundo o concretista, um complô contra uma “linha de pensamento experimental”, anunciada em 22 e levada a cabo pelo Concretismo e pelo Tropicalismo. Em relação à entrevista de Drummond, considera “uma obra-prima de precisão oportunista”. Quanto a Gilberto Freyre, ironiza a “autonomia” do movimento regionalista, apresentando-o como um dos produtos da conspiração sociológica contra o experimentalismo literário (1998, p. 74). O Modernismo, ao longo dos anos, foi se constituindo num verdadeiro patrimônio paulista. O texto de Pignatari é um exemplo clássico do orgulho da intelectualidade paulista em relação a sua “musa”. Na sua exaltação, a autoridade do modernismo paulista se afirma pela negação aos outros centros, especialmente o Rio de Janeiro. Segundo seu raciocínio, nos últimos sessenta anos, São Paulo 2 cf: Estudos sobre o modernismo, 150. 19 passaria de uma “mais-que-vila” a uma das dez maiores “metrópoles do planeta”, única no “hemisfério sul” onde se encontra “um padrão de vida desenvolvido”. O padrão de modernidade derivou da superação do pensamento rural, pois “o país essencialmente agrícola” modernizou-se, isto é, industrializou-se a partir de São Paulo, rompendo com o “universo luso-brasileiro tradicional, rural e agrário”, representado pelo Rio de Janeiro. Não por acaso, finaliza, “a Semana de Arte Moderna aconteceu em São Paulo”: Ninguém parece ter percebido que a Semana de 22, nossa primeira grande revolução cultural claramente configurada, marcava como que a consciência histórica da luta que a partir de então iria caracterizar e convulsionar todos os aspectos da vida nacional: indústria vs produção artesanal, cidade industrial vs campo. Os poetas de 22 viram isto claramente. Mas os historiadores e ideólogos, não. Por quê? Porque provinham das zonas rurais. (PIGNATARI, 1998, p. 76). O politicamente incorreto concretista, sem perceber, recorre aos mesmos PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA argumentos de Mário de Andrade em sua conferência no Itamarati para hierarquizar as duas capitais. Conferência, segundo Pignatari, obrigatória para “todos os discursos jdanovistas e neo-jdanovistas”. Para o modernista, o Rio “era muito mais internacional como norma de vida exterior”. Referia-se à subordinação carioca o estilo de vida parisiense? A justificativa recorria a um argumento quase esotérico: “São Paulo era espiritualmente mais moderna [do que o Rio] porém, fruto necessário da economia do café e do industrialismo conseqüente” (1974, p. 236). O “espírito moderno” deriva de um processo de importação cultural, mas em que sentido São Paulo estaria mais “a par” com a atualidade do mundo? Quando liga o Modernismo ao fenômeno da industrialização, conexão geral dos outros modernistas, Mário “esclarecia” o que diferenciava as duas cidades, pois, ao contrário do Rio, que adaptava suas estruturas coloniais ao contexto moderno, São Paulo, a partir de uma aristocracia rural, relativamente independente da “aristocracia improvisada do Império”, monopolizava o mercado internacional do café, aumentando o fluxo de capitais estrangeiros, investindo na expansão ferroviária, na criação de bancos e companhias de seguros. Embora negue veementemente qualquer influência marinettiana em seu pensamento, a visão que Mário apresenta de “modernização” passa por uma equação futurista, segunda a qual moderno = progresso industrial. A imagem de São Paulo está associada justamente os signos futuristas: a indústria, o estilo de 20 vida metropolitano (a primeira loja de departamentos do país, o Mappin Stores), a ruptura com o passado. Desse modo: “É mesmo de assombrar como o Rio mantem, dentro da sua malícia vibrátil de cidade internacional, uma espécie de ruralismo, um caráter parado tradicional muito maiores que São Paulo” (1974, p. 236). A reação ao parnasianismo – um dos primeiros slogans da Semana de 22 – desencadeou-se também entre os poetas residentes no Rio de Janeiro, tanto que o poema-símbolo do “abaixo o parnasianismo” é “Os sapos”, escrito em 1918 por Bandeira. Aliás, o poema foi lido por Ronald de Carvalho durante a Semana. Em sua conferência, Mário reconhece o valor dos simbolistas cariocas, mas minimiza sua importância para a renovação modernista: “Houve tempo em que se cuidou de transplantar para o Rio as raízes do movimento modernista, devido às manifestações impressionistas e principalmente post-simbolista que existiam PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA então na capital da República”. (idem, p. 235) Em termos estritamente estilísticos, a poesia de Manuel Bandeira prenunciou vários estilemas da poética modernista: o verso livre, a fusão entre poesia e prosa, o coloquialismo, a valorização do cotidiano. Que sentido poderia ter para ele o receituário modernista? Manuel Bandeira, em resposta a Mário de Andrade, quando este tentava convencê-lo a se assumir como “modernista”, dizia que era simbolista e o simbolismo já era moderno. Em carta a Manuel Bandeira, em 1924, Mário de Andrade, em um de seus arroubos, diria que tinha sido “reacionário contra o simbolismo. Hoje não sou. Não sou mais modernista, mas moderno como você. Hoje eu já posso dizer que sou descendente do simbolismo” (1958, p. 45). O desafio para quem se dedica a estudar a literatura moderna, disposto a não repetir velhos chavões, reside em deslocalizar o Modernismo. Em texto da década de 80, “Fechado para balanço”, Silviano Santiago argumentava a favor da necessidade de se ler o modernismo paulista como manifestação de um fenômeno maior: a modernidade (1980, p.2). A geração de 22 soube embaralhar as cartas modernidade, moderno, modernismo. Cabe agora desembaralhá-las para começar outro jogo. A mais recente aventura, nesse sentido, foi o livro de Mônica Pimenta Velloso, Modernismo no Rio de Janeiro. Um dos seus questionamentos é a insuficiência do termo “pré-modernismo”. Em referência a que, pergunta-se 21 Mônica Velloso, foi tomado o “pré”? O pai da criança, Alceu Amoroso Lima, respondia: o pré-moderno é anunciação tímida dos temas do “grande” Modernismo, como a “consciência nacional”. Embora o termo pretenda à inclusão, é excludente. Os “excluídos” são os escritores residentes no Rio de Janeiro: Euclides da Cunha, Lima Barreto, Graça Aranha, João do Rio. O único paulista da turma “pré-moderna” é Monteiro Lobato. A tese de Velloso prossegue o caminho aberto pelos estudos de Nicolau Sevcenko (1983) e Renato Cordeiro Gomes (1994). Esses autores demonstram que a literatura moderna está baseada na experiência urbana, que moldou uma nova sensibilidade. Argumento este antecipado pelo dinamista carioca Renato Almeida, no seminal livro Velocidade, no qual defende a “velocidade” como “a categoria espiritual do homem moderno”. A eletricidade, o avião, o rádio, o motor a explosão, enfim, o progresso técnico, criou uma civilização regida por um PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA modelo de eficiência baseado em fazer o máximo com o mínimo de tempo, assim “resolviam-se as duas incógnitas especiosas: o tempo e o espaço” (1932, p.5). O resultado desta nova sensibilidade na literatura seria a busca pela síntese e simultaneidade. Para Mônica Velloso, distante do hemisfério da “imaginação técnica”, a inserção dos intelectuais na dinâmica do cotidiano assinala um significado mais profundo do modernismo. A relação crítica de Lima Barreto e João do Rio com a modernidade em seus signos mais evidentes, como a vida urbana e o progresso técnico, ou foi pessimista ou oscilou entre o entusiasmo e a denúncia de seus aspectos excludentes. Não que a relação de um Mário ou de Oswald com a modernidade tenha sido acrítica, pelo contrário, foi exaltada. O modernismo no Rio de Janeiro, argumenta Velloso, não se organizou como “um movimento de vanguarda em torno da idéia de moderno” (1996, p. 32). Quem se organizou assim foi o modernismo paulista, vinculando o moderno à ruptura com o passado. Nesse processo, queria se vincular ao grande movimento da “modernidade ocidental”, expressão usada para se referir às vanguardas. Ao descrever a inserção da boêmia intelectualidade carioca no cotidiano, a autora argumenta que a irreverência local impediu que os modernistas do Rio de Janeiro fossem reconhecidos pelo seu valor artístico e literário, embora a consagrassem como uma tradição cultural. Há uma interseção entre o ambiente 22 do Rio e de São Paulo, porque o sarcasmo será uma das armas de combate do modernismo paulista contra o academicismo. “A alegria é a prova dos nove”. Oswald de Andrade freqüentou intensamente a cena carioca dos anos 10. Neste período, como editor do jornal satírico O pirralho, conviveu com o poeta Emílio de Menezes. Em suas memórias, escrevia: “Só Emílio podia me interessar porque era um feroz maldizente” (1978, p. 76). Depois, no prefácio de Serafim Ponte Grande, iria menosprezar a amizade com o poeta carioca, com quem fôra um “palhaço da burguesia”. Anos depois, em 1952, como prova de afeto, dedicou três crônicas a Emílio, narrando suas famosas anedotas, dentre as quais a barração de Machado de Assis à sua candidatura a ABL, por causa da fama de beberrão sátiro. É claro que esta convivência aprimorou a verve sarcástica antropofágica. Oswald e Mário de Andrade não ignoram a importância dos poetas cariocas, antes os procuraram desde o início como aliados. Isso não significa que, PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA numa visão mais ampla, fossem aceitar uma subordinação ao Rio de Janeiro. O fato de Graça Aranha ter sido descartado como líder do movimento é uma evidência. Por outro lado, o trânsito entre as duas cidades foi fundamental para a realização da Semana, no propósito maior de sinalizar a existência de uma nova literatura, cuja liderança partia de São Paulo. Não podemos esquecer que foi no Rio de Janeiro, no apartamento de Ronald de Carvalho, que Mário de Andrade leu pela primeira vez os poemas da Paulicéia desvairada. Na ocasião, fez questão da presença de Manuel Bandeira. Esse foi um dos primeiros encontros entre eles, e Mário já adotava uma postura devota – ou humilde -, a qual não adotaria com nenhum outro poeta de sua geração. Bandeira seria chamado, pelo admirador, de “S. João Batista do modernismo”. João Batista foi o padrinho de Jesus Cristo. E talvez tenha ocorrido um batismo naquele apartamento. Cabe sublinhar o vocabulário católico presente nas iconografias modernistas: Mário, o papa; Bandeira, o João Batista; Anita, a Joana D’Arc; D. Olívia Quedes Penteado, a Nossa Senhora. Raul Bopp, em relação ao grupo formado pelos escritores cariocas e paulistas que idealizariam a Semana de 22, cunhava a expressão “os doze apóstolos do modernismo” (1966, p. 37). O autor referia-se a Mário como “cristão novo”. A expressão aludia à passagem do poeta parnasiano de Há uma gota de sangue em cada poema para o modernista da Paulicéia. Curiosamente, o sobrenome “Andrade” foi inventado 23 para sua nova persona poética, já que seu nome completo era Mário Raul de Morais. Por quê “Andrade”? Haveria aqui um indício do fascínio por Oswald de Andrade? Mistério. Seja como for, a troca revelava uma consciência aguda sobre a construção de uma nova identidade poética. Em suas primeiras correspondências com o jovem escritor Fernando Sabino, Mário lhe dava o seguinte conselho: “Si você quiser continuar sendo escritor, antes de mais nada tem que encurtar o nome. Tavares Sabino. Fernando Tavares. Fernando Sabino. O que é impossível é Fernando Tavares Sabino” (2003, p. 13). 2.2 O Diabo do modernismo Sérgio Miceli descreve de modo impressionante o apoio da aristocracia PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA cafeeira e da burguesia industrial à ascensão do discurso modernista. O movimento modernista, diz Oswald de Andrade, foi um diagrama da alta do café. A queda, traumática. O projeto final de Mário, não por acaso, foi a “tragédia secular” (de concepção melodramática) Café, na qual pretendia representar a ascensão e queda da aristocracia cafeeira – e, metaforicamente, do modernismo paulista. Os “feitos” dos escritores modernistas em matéria de decoração, de vestuário, de ética sexual, etc., se inscrevem mais acertadamente na história da importação dos padrões de gosto da classe dirigente ligada à expansão do café do que na história da produção intelectual. (MICELI, 1979, p. 14). A metáfora “literatura de exportação” foi uma brilhante tradução, no campo das idéias, da euforia e o otimismo proporcionado pelo enriquecimento da aristocracia cafeeira. Ou, na leitura de Miceli, como o modernismo se organiza como “super-estrutura” da oligarquia cafeeira. O mecenato rural, argumenta, criou as condições favoráveis para a geração de 22 impor, como instância de legitimação, seus modelos estéticos estrangeiros. Assim, o reconhecimento das obras ocorreu “de maneira bastante independente das demandas que abrigava o incipiente mercado do livro durante a República Velha” (idem. p. 14). Os primeiros livros do modernismo – Juca Mulato, Paulicéia desvairada, Pau-Brasil – não ultrapassaram oitocentos exemplares, financiados por mecenas como Paulo Prado ou pelos próprios autores, compondo, segundo expressão de Miceli, “uma produção artesanal de luxo”. O contato com a vanguarda européia, 24 fosse a partir de empreendimentos pessoais ou de bolsas de estudos concedidas pelo governo municipal, proporcionou aos modernistas “o papel de inovadores culturais e estéticos no campo literário local”. A dependência do mecenato possibilitou – para o historiador isso foi “paradoxal” – independência em relação às instâncias legitimadoras locais. Assim, desbancavam seus concorrentes, “os polígrafos anatolianos”, que dominavam o mercado editorial. O “anatoliano” de maior sucesso comercial naquele momento era Monteiro Lobato. O Lobato que emerge das páginas de Miceli é um ambicioso homem de negócios. Seu primeiro empreendimento, como herdeiro de uma família de fazendeiros de Taubaté, foi a criação de um colégio para meninos ricos, no próprio casarão da família, no qual se ensinava desde esporte e línguas às artes necessárias para as conversas de salão. Não encarava, portanto, o ambiente cultural somente como meio de prestígio pessoal, mas também como meio de PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA enriquecimento. Esta visão é completamente divergente daquela dos futuros modernistas. Isso não significa que não almejassem prestígio e fortuna literária, porém, não se preocuparam em criar condições autônomas. Quando Urupês atinge, em 1918, a sexta edição, fato raríssimo para um escritor brasileiro na época, pois o mercado de livro privilegiava (já nesta época!) os policiais estrangeiros, o autor do Sítio do pica-pau amarelo investe os lucros na fundação de sua própria editora. Antes da criação da editora, havia assumido o controle acionário e a direção da Revista do Brasil, até então um dos principais órgãos de legitimação intelectual. Fundada em 1916, a Revista do Brasil pretendia restaurar a tradição inaugurada pela Revista Brasileira, porta-voz estético e principal instância de difusão e consagração da geração de 1870. [...]. O cosmopolitismo intelectual, a coexistência de autores provenientes de conjunturas distintas do campo intelectual, a diversidade de áreas e gêneros, o empenho em dar cobertura aos principais tópicos em torno dos quais se articulava o debate político e intelectual da época, evidenciam os alvos comerciais que permeavam a política editorial seguida por Lobato. [...]. Aumentando o volume das tiragens, instalando um amplo circuito de comercialização com pontos de venda para distribuição dos livros da casa e de outras editoras nacionais, abrindo um serviço de importação de livros estrangeiros, a Revista do Brasil tornou-se o empreendimento editorial de maior prestígio antes de 1930 e constitui um marco na história da hegemonia paulista no campo intelectual. (Miceli, 1979, p. 5). Logo, nos anos que antecedem a Semana de 22, Monteiro Lobato, além de escritor de sucesso, é um dos intelectuais de maior influência no meio paulistano. Sua feroz crítica à exposição de Anita Malfatti, considerada por Mário da Silva 25 Brito “o estopim do modernismo”, inicia sua relação conflituosa com a geração de 22, o que lhe valeria a fama de “antimodernista”, responsável pela marginalização de sua produção intelectual no repertório das conquistas ideológicas do Modernismo. O “caso Anita Malfatti” será recontado num tom melodramático, às vezes maniqueísta, no qual se misturam piedade e condescendência para se referir à pintora. Segundo Décio Pignatari, Anita, “frágil mulher”, “era a artista mais avançada e mais madura do seu tempo”, mas fora “massacrada pelo nacionalismo vesgo que em Monteiro Lobato era cego de inveja e ignorância artísticas” (1998, p. 79). Para Mário da Silva Brito, “Lobato foi cruel” e incompetente para o mister que exercia, pois “Anita Malfatti, jovem e pioneira, em luta contra o ambiente social e familiar, precisava de estímulo e amparo” (1997, p. 54). A “carga emocional” com que foi tratado o caso Anita, pondera Wilson Martins, torna PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA “quase temerário tentar encará-lo com objetividade” (1965, p. 25). O artigo de Monteiro Lobato, “Paranóia ou mistificação”, publicado na edição noturna do Estado de São Paulo, involuntariamente uniu o futuro grupo modernista. Ao afirmar que “futurismo”, “cubismo”, “impressionismo” e “tutti quanti” não passavam de “ramos da caricatura”, “frutos de fim de estação”, “bichados ao nascedouro”, “teratologia” pura, o autor dava um tiro no cosmopolitismo local. Seu objetivo, claramente, é atingir a crescente onda de culto às vanguardas, principalmente entre uma pequena elite de intelectuais, que – seu objetivo final – formava um ambiente artificial e malicioso. Há de irritar-se os ouvidos, como descortês impertinência, esta voz sincera que vem quebrar a harmonia de um coro de lisonjas [...]. O verdadeiro amigo de um artista não é aquele que o entontece de louvores, e sim o que lhe dá uma opinião sincera, embora dura, e lhe traduz chãmente, sem reservas, o que todos pensam dele por trás. (apud: Brito; 1997, p. 50). Lobato acabou atingindo o grupo errado. Grande parte do estigma antimodernista vem do fato de nunca ter mudado de idéia. Vinte anos depois do polêmico artigo, Oswald de Andrade lhe endereçaria uma “carta aberta”, saudando-o como “Gandhi do modernismo”, mas não sem antes lembrá-lo que havia sido responsável por não ter “sua merecida parte de leão nas transformações tumultuosas, mas definitivas, que vieram se desdobrando desde a Semana de Arte de 22” (1975, p. 4). Quando falece, Oswald escreve a crônica “Monteiro Lobato”, saudando-o como “o primeiro reformador da prosa brasileira”, apesar da 26 “pavorosa injustiça que inutilizou a pintora Anita Malfatti”, de modo algum isso “lhe retira a missão revolucionária que teve na nossa escrita” (1996, p. 276). Enquanto Mário da Silva Brito atribuiu o caráter de marco ao “caso Anita”, Wilson Martins lhe deu uma importância casual. Na sua opinião, a repercussão posterior do artigo serviu para desvalorizar a figura de Lobato. Segundo sua versão, ele foi o prenunciador do Modernismo, principalmente quando se leva em conta o projeto de literatura nacional elaborado pelos modernistas. Martins tenta corrigir a “injustiça”, argumentando que o artigo “Urupês” (1915), havia sido a “fonte imediata do ‘Manifesto antropófago’”. A injustiça é maior quando se leva em consideração outras reações contrárias à artista e à vanguarda (1965, p. 22). Oswald, neste momento, era um grande agitador cultural, espécie de divulgador de novos talentos, como o desconhecido Mário Sobral. Quando PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA Oswald publica “O meu poeta futurista”, em 1921, gera o primeiro conflito com Mário, irritado com o adjetivo “futurista” com o qual é apresentado. Ao narrar o episódio, Mário da Silva Brito aponta que o poeta é envolto em um “verdadeiro escândalo”, sofrendo, “em nome da literatura moderna”, “os mesmos vexames sofridos” por Malfatti (1997, p. 227). Para a opinião geral, futurismo equivalia a algo pejorativo, à “teratologia pura”. Menotti Del Picchia, em 1920, através do Correio paulistano, declarava o cubismo como uma “arte doentia” e o futurismo, uma “escola enigmática e doida”; seus seguidores, “apenas uma ridícula memória na história da arte”. Este tipo de julgamento colaborava para configurar o futurismo como algo, no mínimo, suspeito. Oswald de Andrade soube instantaneamente usá-lo como estratégia de propaganda, captando o que havia de explícito choque com o establishment. A pregação modernista começou nas páginas dos jornais. Oswald, o único jornalista profissional do grupo, foi de longe o futurista de primeira hora, o divulgador do “Manifesto futurista” em São Paulo. Em seu estudo sobre o “futurismo paulista”, Annateresa Fabris aponta que, a princípio, havia um entendimento muito superficial sobre as vanguardas, a ponto de futurismo englobar todas as manifestações. Segundo a pesquisadora, o “futurismo como bandeira” adquire três significados: a) o movimento italiano era “o mais abrangente, permitindo a união, num esforço conjunto, de artistas de diversas áreas”; b) era o mais conhecido do público brasileiro; c) tornara-se sinônimo de 27 “bizarro” e “inusitado”, “sendo aplicado não apenas a toda produção diferente dos modelos convencionais, mas a padrões de comportamento pessoal, social e político que feriam as regras habituais” (1994, p. 74). Mário de Andrade encarava o futurismo como uma moda (mesma suspeita de Lobato), mas algo necessário para se combater o passadismo. Negá-lo completamente implicaria uma concordância com os “passadistas”; aceitá-lo, uma discordância consigo mesmo. Talvez por isso, tanto na réplica ao artigo de Oswald – “Futurista?!” – quanto no “Prefácio interessantíssimo”, ressaltaria seus “pontos de contato com o futurismo”. Posteriormente, assume-se como “antimarinetti”. Em várias cartas a Bandeira, revelaria seu menosprezo por Marinetti, considerando-o fanfarrão e fascista. Seu repúdio ao futurismo paulista – “ele existe?” – foi uma forma de se esquivar do que julgava uma moda e se desvincular do marinettismo. Assim, driblava duas sombras opressoras naquele PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA instante: o julgamento da opinião e a ascendência oswaldiana. Menotti del Pichia, em um ano, passou de detrator a tenaz divulgador do futurismo italiano, publicando poemas de Marinetti. Segundo Wilson Martins, a adesão de Picchia ao futurismo decorreu da vontade do autor em sair da sombra de Lobato. Ao contrário dos futuros modernistas, Menotti era um jovem talento legitimado pelo establishment da época. Raimundo Correa e Coelho Neto, dois pilares da opinião, teceram intensos elogios ao Juca Mulato, ao qual Oswald elogiava a “radicalidade impressionante”. O poema, evidentemente, filiava-se ao “caboclismo”, espécie de movimento silencioso, ligado ao Brasil rural, cujo paradigma naquele momento era Urupês. Tudo leva a crer que Menotti aderiu ao futurismo por uma questão de oportunidade. O famoso episódio do Trianon, no qual Oswald discursa em nome de “meia dúzia de artistas moços de S. Paulo”, decorreu de um banquete oferecido a Menotti, no qual estavam presentes as principais figuras intelectuais e políticas da cidade. Até então, Menotti estava em cima do muro. Seja como for, sua adesão marcaria o ano de 1921 como um período de intenso debate na imprensa sobre a vanguarda e a existência de um grupo de futuristas que tomariam a literatura de assalto. Assinando uma coluna no Correio Paulistano, sob o pseudônimo Helius, Menotti publicava, em Janeiro de 21, uma série de artigos contra o indianismo romântico. Com o belicoso “Matemos Peri”, denuncia o “índio romântico” como uma fraude ideológica, símbolo do “obsoleto” e do “anacrônico”. Para Annateresa 28 Fabris, é clara a intenção do autor de substituir o modelo romântico – “um Romeu doublé de D’Artagnan” – pelo modelo futurista, baseado no “espírito de independência e altivez revolucionária” (1994, p. 78). A seguir, Menotti iniciou uma campanha contra o regionalismo; aliás, solo sob o qual estava enraizado o seu Juca Mulato. Este episódio tornava mais nebulosa a relação entre Lobato e os futuros modernistas, porque, ao recusar o que “não pode ser o protótipo da alma nacional”, Cândido Mota Filho – com o apoio de Menotti – elegia o Jeca Tatu como símbolo do atraso nacional. Segundo Wilson Martins, “era justamente isso o que dizia Monteiro Lobato!”. É de se perguntar quem poderia ser “o protótipo da alma nacional” em 1921? Seja como for, a (má) interpretação é motivada pela vontade de taxar Lobato como passadista. Uma questão política. Durante sua campanha, Menotti aproveitava o momento para fazer sua PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA mea culpa em relação às críticas à Anita, sem “ao menos ter visto a obra”. Em um dos artigos, acusa Lobato de “tirano do pensamento paulista”: Como sou rudemente sincero e tenho ilusão de ser justiceiro, não me pejo em fazer aqui minha pública penitência. Fazendo-a, deixo a Lobato a responsabilidade de me ter posto no mau caminho, no julgamento dos quadros da minha ilustre patrícia, certo de que o autor de Colchas de Retalhos fará, logo que reconheça o seu erro, sua penitência pública também. Estou certo de que será o primeiro a fazer justiça à vibrante criadora de uma arte moderna, forte, livre, penitenciando-se do mal que, com tanta injustiça e irreflexão, fez. (apud. Brito; 1997, p. 110). Além de imputar ao “tirano” a responsabilidade de seus próprios atos, Menotti impõe uma condição, a qual Lobato nunca aceitou, pelo contrário, quando reuniu em livro seus artigos, manteve “Paranóia e mistificação”; por outro lado, contratou Anita, assim como Di Cavalcanti, como ilustradora de sua editora. A relação entre Lobato e os modernistas não se limitou ao “caso Anita”. Mário de Andrade o procurou para ser o editor da Paulicéia desvairada, o que seria um sinal de trégua. Em carta a Mário, o homem de negócios Lobato dizia: Prezado amigo Mário: Estive relendo a tua Paulicéia e... fiquei sem coragem de editá-la. Está uma coisa tão revolucionária que é capaz de indignar a minha clientela burguesa e fazê-los lançar terrível anátema sobre todas a produções da casa, levando-nos à falência. Não sou dos menos corajosos, mas confesso que neste caso a coragem faleceu-me por completo... Acho que o melhor é tu mesmo editares o vermelho grito de guerra. Vamos. Resolve lá este caso. Lobato. (apud: Nossa história, n° 17, 2005). 29 Lobato condenou veementemente o eruditismo, numa linha de raciocínio muito próxima a dos modernistas após a virada nacionalista em 1924. Em um artigo de 1926, “O nosso dualismo”, argumentava que nossos escritores formavam uma “elite inteiramente divorciada da terra, pelo gosto literário, pelas idéias, pela língua”. Em resposta à queixa de que não eram lidos, aponta que “o público não lê porque não lhes entende nem as idéias, nem a língua”. A solução para acabar com o “dualismo de mentalidade e de língua” reside na tomada de consciência da língua brasileira: PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA Os gramáticos hão de se convencer afinal de que a língua portuguesa variou entres nós, como acontece todas as vezes que um idioma muda de continente. [...]. Em casos tais, freqüentes na história, a regra é a língua velha ir ficando cada vez mais confinada entre os eruditos, enquanto a nova se expande no povo. Por fim, vence o povo, que é o número e a força. O povo fala brasileiro [...]. Já a falamos e acabaremos, cansados de resistir, por escrever como falamos. Só então a literatura será entre nós uma coisa séria e grafada na língua das gentes que a povoam. (apud: Cult, n° 52, 2002). Esta será – como demonstraremos no capítulo seguinte – a bandeira modernista: uma literatura nacional baseada na “incorporação milionária de todos os erros”. A pregação a favor da gramatiquinha brasileira. Mário de Andrade responde o artigo de Lobato, acusando-o de ter abandonado o início promissor, para cair em um regionalismo “inconscientemente separatista”. Argumenta que, ao insistir em encarar o movimento modernista como “futurismo”, revelava falta de compreensão da arte contemporânea. No artigo sobra uma fagulha para Oswald de Andrade, elogiado no texto de Lobato: Eu podia ainda continuar meus comentários parando nos outros gomos do bambu de “Nosso dualismo” nos momentos em que afirma as espertezas “geniais” de Osvaldo de Andrade e as “velhas asneiras” dos “asseclas” do movimento dele. Por enquanto é melhor não mexer nessa mentirada que inda pode ser útil. (idem). Poderia ser leviano creditar ao ressentimento o texto de Mário, embora Lobato defenda o que ele estava defendendo no momento; enfim, como diria Galileu, eppur si muove. Ao final do texto, o autor dá vazão ao seu humor negro declarando que recebera um “telégrafo” comunicando a morte de Monteiro Lobato, cujas virtudes a ABL não reconheceu ao negá-lo um lugar, “quem milhor do que ele apresentava todos os quesitos acadêmicos!” A resposta lobatiana é como um tapa de luva de pelica. Em carta datada de 1930, quando residia em Nova York, escreve: 30 Meu caro Mário de Andrade, muito há de você de espantar-se com esta, vinda d’além túmulo, dum morto que você matou há três anos [...]. O que me traz é um livro seu – Macunaíma. Tenho cá um editor que deseja conhecê-lo, com palpite que é coisa editável em inglês. [...]. Vou sair da cova só para isso. (ibidem). Mário respondeu a carta, enviou dois exemplares de Macunaíma, embora ressalvando que achava muito difícil vê-lo traduzido em outra língua. Pelo exposto, não é possível ignorar que o desentendimento entre Lobato e os modernistas se deu muito mais pela resistência do primeiro à influência da vanguarda do que por divergências ideológicas. A prova mais contundente é a “carta aberta” de Oswald de Andrade. Hoje, passados vinte e cinco anos, sua atitude aparece sob o ângulo legitimista da defesa da nacionalidade. Se Anita e nós tínhamos razão, sua luta significava a repulsa ao estrangeirismo afobado de Graça Aranha, às decadências lustrais da Europa podre, ao esnobismo social que abria os seus salões à Semana. E não percebia você que nós também trazíamos nas nossas canções, por debaixo do futurismo, a dolência e a revolta da terra brasileira. (ANDRADE, 1975, p. 4). PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA Para Oswald, o criador do Jeca Tatu deveria ter sido o “líder” do movimento modernista, e não Graça Aranha, o que o impediu foi tê-los confundido com o ambiente afrancesado da elite paulista. No fundo, em 22, Monteiro Lobato não precisava de uma Semana de Arte Moderna para se promover. 2.3 Um líder vigiado A adesão de Graça Aranha, recém chegado de Paris, foi fator fundamental para a oficialização da Semana de 22. Desde o início, os idealizadores projetavam um evento grandioso, um presente para o Brasil no ano do Centenário da Independência. À exceção de Menotti, os participantes iniciavam sua produção. Mário ainda não tinha publicado a Paulicéia; Oswald não havia publicado nada no campo da criação literária. Com a chegada de Graça Aranha, surge um nome de respeito, respaldado pela dupla autoridade de diplomata e membro da Academia Brasileira de Letras. Esta já era uma contradição, porque a ABL representava o poder erudito a que visavam romper, porém foi a chancela de um acadêmico que possibilitou a realização da Semana no Teatro Municipal. Inicialmente, o evento se realizaria em São Paulo, na Casa Editora O Livro, do livreiro Jacinto Silva, ponto de encontro para discussões e exposições de 31 novos artistas. No ano de 1921, Di Cavalcanti fizera uma exposição com suas obras, inaugurando uma série de debates sobre a arte de vanguarda. Paulo Prado, um dos mecenas da Semana, convidou Aranha para participar da Semana. Aceito o convide, o empresário René Thiollier assume a função de relações públicas. Parte da contribuição da burguesia cafeeira na realização da Semana, o aspecto oficial tomado pelo evento, deve-se a confiança que o nome Graça Aranha assegurava. Grande parte do público talvez nem soubesse direito o que seria o evento, mas o fato dele realizar-se no Teatro Municipal indicava algo solene. Para o público, o que ocorria no Municipal era uma Semana Futurista, era assim que os leitores se referiam na “seção de cartas” dos jornais. O próprio marqueteiro da Semana, Thiollier, ao alugar o teatro municipal, cometeu a “gafe” de trocar “Semana de Arte Moderna” por “Semana de Arte Futurista”. A Semana se iniciou com todos os ingressos vendidos, a cobertura d’O Estado de São Paulo, que PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA publicou, na edição seguinte, a íntegra da conferência inaugural de Graça Aranha, segundo o jornal, “muito aplaudida”3 . Após a Semana, o grupo paulista, em particular Mário e Oswald, inicia uma campanha de bastidores contra Graça. Oswald cunharia a alcunha “aranha sem graça”. A postura de Mário, como sempre, é ambígua; vê méritos no “imortal”, embora considere superficial sua visão sobre a arte e o “tipão brasileiro”. Em carta a Bandeira, declarava seu desinteresse pelos escritos de Graça – “qualquer livrinho de regionalista besta dá mais documentos verdadeiros”. Sua conclusão é de que “Graça desconhecia inteiramente o modernismo quando chegou no Brasil” (1958, p. 75). Incomodava o título de liderança imposto, principalmente pela imprensa, ao acadêmico, que pegara o bonde andando e já estava sentado na melhor poltrona. Esse foi um ponto divergente entre os cariocas e os paulistas, porque no Rio, Graça Aranha era o líder natural da renovação modernista, liderando o movimento dinamista. Em depoimento a Homero Senna, Agripino Grieco declararia que “Graça nunca foi modernista”, era antes um “espírito clássico”. O envolvimento com os modernistas paulistas ocorreu porque o Sr. Aranha era: cf: Afrânio Coutinho. Literatura no Brasil, vol. 5. Wilson Martins. O modernismo. Mário da Silva Brito. Panorama da poesia brasileira, vol. vi. Massaud Moisés. Modernismo. www. asemanade22. hpg.ig.com.br 3 32 Louco por um fotógrafo, gostava de estar sempre em evidência, e sentindo a marcha da velhice, prevendo que não teria senão mais alguns anos de vida, resolveu aderir ao bando novo, [...] acabou um mestre vigiado, policiado pelos discípulos (apud. SENNA, 1997, p. 33). Segundo relato de Mário da Silva Brito, Graça Aranha tomara a Semana como pretexto para ir a São Paulo intermediar relações de exportação de café entre a firma de Paulo Prado e a França, país do qual Graça acabava de retornar de sua missões diplomáticas (1982, p. 139). Sobre esta questão - o que Graça estaria fazendo em São Paulo? - Nazareth Prado, em 1941, numa entrevista, daria outra versão: A verdade é que eu, acima de quaisquer outros motivos, fui a principal causadora da Semana de Arte Moderna. Explico: naquela época, 1922, eu estava em São Paulo, em casa de minha família. Graça Aranha necessitava de qualquer pretexto para me ver. A Semana de Arte Moderna foi um belo pretexto. (apud: MARTINS, 1965, p. 65). PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA Apesar do curioso anedotário, Graça Aranha não seria o líder porque, se assim o fosse, o movimento paulista teria sua imagem associada e subordinada ao centro cultural carioca. A ruptura de Graça Aranha com a Academia Brasileira de Letras representou seu máximo esforço de identificação com a renovação modernista, além de ter sido uma propaganda convincente. Quando lemos o projeto apresentado aos Acadêmicos, cuja rejeição o levou ao rompimento, entendemos porque Mário dizia “detestar a influência” que Graça exercia sobre ele. O projeto propunha: a) Um novo dicionário de língua portuguesa, com todos os vocábulos e frases da linguagem corrente, impropriamente chamados de brasileirismos. Os “portuguesismos” [...] não serão introduzidos; b) A Academia não aceitará para os seus concursos poesias parnasianas, árcades ou clássicas, [...] ou qualquer trabalho de ficção, de assunto mitológico, que não seja do “folclore” brasileiro, tratado com espírito moderno; c) A Academia fará imprimir as obras dos jovens escritores, que não encontrem editores e trouxerem à literatura originalidade e modernidade. [...]. (apud. TELES, 1978, p. 265). Se aprovado, Mário de Andrade teria economizado um bom dinheiro na publicação de Paulicéia desvairada e de Macunaíma. Além de renovar, Graça Aranha pretendia democratizar a ABL, abrir as sessões para o público e promover os estudos brasileiros. Uma compreensão muito aguda da modernidade. O projeto antecipava a proposta modernista e a prática de Mário durante a direção do Departamento de Cultura. Como seu projeto foi recusado, a jovem intelectualidade paulista não ganharia mais nada sob sua liderança. 33 No depoimento de Mário de Andrade, o verdadeiro fator da Semana foi Paulo Prado. A tese defendida por Sérgio Miceli - a relação de dependência dos modernistas com os setores da alta burguesia - encontrava em Prado uma poderosa confirmação. Ele foi o responsável por introduzir alguns escritores, como Mário de Andrade, no movimento dos salões modernistas. Dentre outras coisas, arrecadou os fundos para alugar o Teatro Municipal para a realização da Semana Moderna. Ao assumir a direção da Revista do Brasil, publicou artigos de Mário e Oswald de Andrade. Era amigo pessoal de Graça Aranha e havia concedido, em 1915, ajuda financeira para que este, até então embaixador na França, comprasse um jornal em Paris. Os modernistas souberam devolver o apoio em forma de dedicatória e prefácio. Poesia pau-Brasil foi prefaciada por Prado; Memórias sentimentais de João Miramar e Macunaíma foram dedicados a ele. Em toda a sua atuação como PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA mecenas, arte e negócio se misturavam de modo impressionante e eficiente. Em suas várias viagens de negócios a Paris – chegando a ser condecorado com a medalha de honra da Legião de Honra -, adquire telas de Picasso, Léger, Picabia; além de intermediar o encontro de Oswald e Tarsila com Blaise Cendrars. Seu objetivo último, daí o apoio irrestrito aos jovens modernistas, fazer de São Paulo o centro por excelência da arte moderna no Brasil. Por isso financiaria pessoalmente a Semana de 22. O objetivo – claro – foi atingido. Tristão de Ataíde, que despontava como uma das vozes mais respeitáveis da crítica literária da década de 20, em exercício de clarividência, declarava: “Se o século XVI pertenceu a Pernambuco, o XVII à Bahia, XVIII a Minas Gerais, XIX ao Rio de Janeiro, o século XX é o século de São Paulo” (1927, p. 13). O projeto modernista após 22, consagrado pela historiografia e pela crítica literária – em particular a da USP -, realiza-se a partir da desvinculação com o futurismo para elaboração de um pensamento nacionalista, ou mais especificamente, uma discussão sobre a identidade nacional, como prenunciara Graça Aranha. Tal projeto ocorre de modo mais contundente nos escritos de Mário e Oswald, ou sobre eles recai a maior parte dos estudos, o que nos leva a pensá-los como uma espécie de alto modernismo. É nesse contexto que a figura de Mário de Andrade será construída como melhor exemplo do modelo intelectual modernista. 34 3 Nacional/Internacional Uma coisa era o nacionalismo, o tolo nacionalismo, e outra era a brasilidade, a síntese brasileira. Determinados grupos se deixaram exaltar pela simbologia exagerada, em torno não do que havia de vivo na humanidade brasileira, mas justamente à roda do que sobrava abstração e mito. O verdeamalerismo não teve outra intenção. O movimento “pau-Brasil” era mais sincero, era brasilidade porque procurava resolver os problemas da terra. Abguar Bastos (Testamento de uma geração). 3.1 PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA O Brasil descoberto Em carta a Mário de Andrade, datada de 9 de abril de 1923, Oswald de Andrade relatava ao companheiro suas relações pessoais na capital francesa: Acaso, providência! Na mesa, ao meu lado, Cocteau – um magricela, com expressivos pés de galinhas [...]. Atraquei-o! Mais autógrafo.[...]. Jantarei lundi com Cendrars, dans la Maison. Irá ao Brasil, cinematograficamente; manda-te um autógrafo. [...]. Reconciliarei Cendrars com Pio XI. Onze mil virgens. Oswald. (apud: AMARAL, 1999, p. 65). Segundo Aracy de Amaral, a necessidade do autógrafo seria uma comprovação dos contatos do brasileiro com os vanguardistas parisienses. Revelava um entusiasmo juvenil diante dos ídolos franceses e, de certa forma, uma autopromoção. Em carta a Antonio Candido, Rudá de Andrade confessa a obsessão do pai ao valorizar suas vinculações com “pessoas consagradas” e “sua amizade com a intelectualidade francesa” (apud: CANDIDO, 2004, p. 64). Quando se tornou persona non grata no círculo modernista, Oswald de Andrade, num misto de egocentrismo e autodefesa, citava seu convívio com os artistas europeus como demonstração de sua posição de ponta de lança do movimento. O artigo “Fraternidade com Jorge Amado” seria um exemplo4. Em carta a Manuel Bandeira, Mário de Andrade comentava as relações exteriores do companheiro, seu contato com Cendrars e a conferência na Sorbone, terminando de modo irônico e surpreso: “Não é engraçadíssimo?” (1958, p. 18). A 4 cf: Ponta de lança. pp. 31-2. 35 conferência na Sorbone – l’éffort de intellectuel du Brésil contemporain – seria publicada/traduzida no n° 96 da Revista do Brasil, dirigida por Paulo Prado. Nela, o conferencista desenha a evolução da intelectualidade brasileira, desde o período colonial ao esforço de renovação dos novos, integrada a uma nova sensibilidade advinda da industrialização e do contato com a vanguarda. Pontos, aliás, que voltaria a destacar em sua conferência sobre o movimento modernista vinte e dois anos depois da Semana. Durante o ano de 1923, no qual a linha de frente do modernismo paulista residia em Paris (à exceção de Mário), Prado era um elo de ligação entre os artistas. Como exemplo, o fato de Oswald conhecer Blaise Candrars no apartamento de Prado. Na carta a Mário, Oswald fazia menção a viagem “cinematográfica” ao Brasil. Mais do que uma metáfora, o “cinematográfico” aludia a um projeto proposto por Paulo Prado ao poeta suíço para direção de um PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA filme, com roteiro de Oswald de Andrade, sobre a Capitania de São Paulo. Em carta à esposa, Cendrars declarava que “examinaria os negócios in loco, pensava “no futuro das crianças”, poderia “entrar num negócios de terras de que me falaram se ele for sério”(apud CALIL, 1996, p. 64). O filme, nunca realizado, em sua ficha técnica anunciava uma organização interessante sobre como o grupo se estruturava em Paris: Paulo Prado, produtor; Oswald de Andrade, roteirista; Blaise Cendrars, diretor. Além do filme, outro projeto abortado foi a realização de um balé, com roteiro de Oswald, música de Villa Lobos e figurinos de Tarsila do Amaral. Nos dois projetos, Mário de Andrade não figurava na ficha técnica, o que nos leva a crer numa divisão do movimento entre os residentes em Paris e os residentes no Brasil. Essa hipótese é reforçada pelo testemunho de Raul Bopp, apontando na Klaxon, dirigida por Mário, a realização do “programa desvairista”, subordinada inteiramente à “orientação poética” do autor da Paulicéia (1966, p. 48). Detalhe importante, Oswald não publicou na Klaxon. Antes de Cendrars chegar ao Brasil, Mário de Andrade enviava uma provocativa carta à Tarsila do Amaral, para ser lida por Oswald e Sérgio Milliet, datada de 15 de novembro de 1923, aniversário da República. Vocês foram a Paris como burgueses. Estão épates. E se fizeram futuristas! hi hi hi. Choro de inveja. Mas é verdade que considero vocês todos uns caipiras em Paris [...]. Tarsila, Tarsila, Tarsila, volta para dentro de ti mesma. Abandona o Gris e Lhote, empresários de criticismos decrépitos e de estesias decadentes. 36 Abandona Paris! Vem para a mata-virgem, onde não há arte negra, onde não há também arroios gentis. [...]. Criei o mata-virginismo. Sou matavirgista! Disso é que o mundo, a arte, o Brasil e minha queridíssima Tarsila precisam. (AMARAL, 1999, p. 79). Nada casual nesta carta, nem a data cívica. Com este desafio, em alguns momentos lobatiano, Mário prenunciava o roteiro de suas viagens (de estudos) pelo Brasil, do qual resultaria seu projeto intelectual; também reafirmava sua desconfiança em relação ao lugar da vanguarda parisiense na definição das diretrizes modernistas. Mas como quase tudo no poeta parecia assumir “trezentose-cincoenta” sentidos, a relação com a Europa é ambígua, vai do desdém à amordaçada fascinação. O “matavirginista” aproveitava a estada em Paris de seus companheiros para encomendar quadros e revistas de vanguarda. Assim, mesmo distante do “umbigo do mundo”, mantinha-se atualizado com as novidades em arte que, PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA afinal, compunham o capital intelectual com o qual freqüentava os salões da aristocracia cafeeira. No mesmo ano de 1923, em carta a Anita, também residindo em Paris, pede a amiga para comprar o nº 25 da Esprit Nouveau: Tenho a coleção completa [...]. Agora, como a assinatura acabasse, reformei-a. Mas não recebi o nº 25 que já saiu e que já anda por aqui na mão dos assinantes de S. Paulo. Se viesse para as livrarias compra-lo-ía, mas como não vem, socorrome de ti. Farás o favor, sim? de ir à livraria Jean Budry e Cie, 3, rue du ChercheMidi, VI arrrondissement, reclamar o meu número. Junto a esta duplicata do cheque que já mandei para que possas provar que reformei a assinatura. [...] E como essa gente é muito trapalhona peço-te que me compres o nº 25 [...], para que eu não fique com a minha coleção truncada. (ANDRADE, 1989, p.86). O convite para conhecer Paris é uma constância na correspondência tanto com Tarsila quanto com Anita Malfatti. Numa delas, Tarsila lhe escreve: “Isto aqui está lindo. Por que você não resolve uma viagem? O brasileiro se engana, pensando que é preciso uma fortuna para vir a Paris” (1999, p. 68). A ressalva é ferina, porque Mário constantemente justificava a falta de dinheiro como um impedimento para a viagem. Nas cartas a Anita, escreve abertamente sobre seus apertos financeiros, que atrasavam tanto a ida do Losango cáqui (dedicado a ela) para a gráfica, pois autofinanciava suas obras, quanto o pagamento pelos quadros da pintora. No ano seguinte, 1924, deixa explícito para Anita o desejo de seguir para Paris: “Gostaste dos versos que te mandei? Conta-me Paris. Ah! si ano que vem eu puder ir te abraçar ai!”(1989, p. 92). Ao mesmo tempo em que tachava de 37 “caipira” o deslumbramento dos colegas, havia um evidente interesse pela capital francesa – que transcende o campo intelectual. Em outra carta à Anita, confessava: Aqui vai seu dinheiro. Muito obrigado por esperar tanto. [...] Estou perdendo a esperança de ir na Europa. Aliás isso não me entristece muito, não, porque franqueza: a não ser ver os amigos não tenho nada que fazer aí. [...]. Já estou enfarado de Miguel Anjo como de Picasso. [...]. Agora: qualquer tapera da Baía ou de Mato-Grosso isso é diferente, me interessa e tenho desejo de ver. Si pudesse fazer uma viagem longa não iria pra Europa, iria no Amazonas ou na Baía. Mas nem isso Nosso Senhor quer. (idem, p. 95). Numa atitude blasé, o Brasil se configurava como uma alternativa a Paris5. Uma mudança de roteiro. Em 1924, Blaise Cendrars chegava a São Paulo, como hóspede de Paulo Prado. Carlos Augusto Calil descreve da seguinte forma o PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA convívio de Cendrars com a jovem intelectualidade paulista: Liga-se por amizade ruidosa e franca camaradagem com Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral que já principiam o namoro da poesia dele com a pintura dela, dedica a Paulo Prado uma sincera admiração, mesclada de gratidão, observa os gestos contraditórios de Mário de Andrade, o único que lhe conhecia a obra em profundidade embora estivesse desconfiado do peso da influência dessa poesia cosmopolita no coração do mundo, (...). (apud SZAKLO, 1996, p. 64). Os anfitriões levaram o hóspede para curtir o carnaval carioca e, na Semana Santa, partiram para as cidades mineiras do ciclo do Ouro. O encontro dos modernistas paulistas com o barroco mineiro marca simbolicamente o despertar de uma consciência nacional, prenunciando a ruptura com o Futurismo italiano e a releitura da tradição cultural brasileira. O primeiro capítulo do projeto ideológico do modernismo: incorporação das classes marginalizadas como parte integrante da nacionalidade moderna e reconfiguração da história nacional, aliando passado e presente. Na leitura de Antonio Candido, o Modernismo se divide em duas correntes. A primeira abrangia o dinamismo de Ronald de Carvalho, sob influência da “linha cósmica” de Graça Aranha, “afeita aos ritmos dinâmicos, à exaltação da natureza, e procurando embriagar-se pela ação e o nativismo” (1965, p. 112). O pensador uspeano descreve, claramente, o modernismo carioca, que acentuou a tendência dinamista, desvinculado do projeto de literatura nacional. Percebe-se a inclinação em situar esta corrente do lado mais conservador do A viagem ao Norte e Nordeste se realizaria em 1927, na companhia de Dona Olívia Guedes Penteado e da filha de Tarsila, Dulce. A viagem se prolonga até Iquitos, no Peru. 5 38 movimento, tanto que a agrega às tendências dos grupos paulistas do Verdeamarelismo e do Anta. Embora ressalve que os dois últimos são um “desvio”, ambos têm pouco em comum com o dinamismo, sendo mais coerente, ou situá-los como uma terceira linha ou como “desvio” da segunda linha – a antropofágica -, até mesmo por serem uma dissidência paulista. A segunda linha – como insinuamos – “aborda temas análogos com espírito diferente”, mais ousada, mais autêntica ao apropriar-se do folclore e dos dados etnográficos, produtora de uma crítica mais profunda, adesão franca aos elementos recalcados da civilização – o negro, o mulato, o imigrante, “o gosto vistoso do povo”, ou seja: “toda vocação dionisíaca de Oswald de Andrade, Raul Bopp, Mario de Andrade”, que “haveria de elaborar as diversas tendências do movimento numa síntese superior”. É a corrente que assimila melhor as influências da vanguarda. (1965, p. 113). Assim, em sua argumentação, aponta um PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA alto modernismo nas obras dos três autores, as quais não só sintetizam como amplificam as tendências gerais do movimento. O que se delineia a partir de 1924 – do marco simbólico da viagem a Minas – é a construção de um projeto de renovação literária aliado a uma reforma ampla no pensamento. Com o “Manifesto da poesia pau-Brasil” brota um projeto de modernidade em arte baseado nas incorporações da tradição e do novo, do popular e do culto. 3.2 Pau-Brasil Na capa, desenhada por Tarsila do Amaral, uma estilização da bandeira nacional e o título do livro substituindo o lema positivista “ordem e progresso”. A dedicatória a Blaise Cendrars “por ocasião da descoberta do Brasil”. Eis as primeiras coisas que o leitor lê no livro de estréia de Oswald de Andrade: Poesia pau-Brasil, 1925. Assim como o texto fundador (cronologicamente) do Romantismo, Suspiros poéticos e saudades, de Gonçalves Magalhães, o livro de Oswald foi publicado originalmente em Paris. Se no romântico o saudosismo – como de praxe em outros textos românticos – alude a um sentimento paradoxal de proximidade com a terra; no modernista, o sentimento é outro, bem descrito por 39 Paulo Prado no prefácio: “Oswald de Andrade, numa viagem a Paris, (...), umbigo do mundo, descobriu, deslumbrado, a sua própria terra”. Em “O caminho percorrido”, Oswald ratificava essa afirmação, apontando que “se alguma coisa eu trouxe das minhas viagens à Europa dentre duas guerras, foi o Brasil mesmo” (1975, p. 96). Portanto, a dedicatória “por ocasião da descoberta do Brasil” aplica-se também ao próprio autor. Retornando ao prefácio de Paulo Prado, vemos como o primitivismo, que levará à valorização dos elementos populares da cultura brasileira, funciona como argumento de ruptura com a Europa: Poesia ‘pau-Brasil’ [...] é um epíteto que nasce com todas as promessas de viabilidade. [...], afirmação desse nacionalismo que deve romper os laços que nos amarram desde o nascimento à velha Europa, decadente e esgotada. (ANDRADE; 1978, p. 69) A ojeriza soa irônica – ou fake – partindo de um intelectual à européia PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA como Prado, a respeito de um escritor como Oswald, cujas primeiras peças foram escritas em francês, Théâtre Brésilien (1916). Em suas memórias, o romancista esclarecia o fascínio que a Europa exercia sobre sua imaginação: Paro para perguntar - Por que gostava eu mais da Europa do que do Brasil? [...]Nunca fui com a nossa literatura vigente. A não ser Machado de Assis e Euclides da Cunha, nada nela me interessava. [...] Quando Serafim Ponte Grande, recém-chegado a Paris, dizia que agora podia trepar, exprimia o meu desafogo. Meu pai me avisara de que as mulheres eram fáceis. Mas, no Brasil, tudo era feio, tudo era complicado. [...]. Na Europa, o amor nunca foi pecado. Não era preciso matar para possuir uma mulher. Não havia lá sanções terríveis como aqui pelo crime de adultério ou sedução. Enfim o que existia era uma vida sexual satisfatória, consciente e livre. (ANDRADE, 1974, p. 68) Em 1924 foi preciso negar a cultura européia para épater le bourgeois. A influência francesa na formação do intelectual brasileiro era uma realidade inquestionável. Da França vinha os modelos de conduta social, a moda, o comportamento moderno. A fundação da Academia Brasileira de Letras nos moldes da Academia Francesa é o exemplo óbvio. Negar a Europa equivalia a atacar o gosto e o ambiente burguês, do qual os modernistas faziam parte. Tarsila do Amaral, em carta à família, revelava que a tendência brasileira na arte era bem vista em Paris, isto é, “o que se quer aqui é que cada um traga a contribuição do seu próprio país”. Na sua visão – e também na de Oswald – o primitivismo em arte, que os levaria à fase “brasileira”, desencadeando na “antropofagia”, era uma tendência internacional. Este ponto de vista contrastaria com a visão de outros 40 modernistas, cuja valorização dos temas brasileiros significava rompimento com as tendências da vanguarda parisiense. Ronald de Carvalho, em carta ao crítico católico Jackson de Figueiredo – fevereiro de 1924 -, declarava: “O Futurismo também é passadismo. Morra o Futurismo”. A carta seria publicada no mesmo mês, no diário carioca O Jornal. Em entrevista para o vespertino, António Alcântara Machado ironizava dizendo que só no Brasil – correção nossa: São Paulo – o futurismo foi levado a sério6. Mário de Andrade, que desde o início negara Marinetti, em carta a Sérgio Milliet – 10/12/24 -, resumia o credo: Agora livres, pelo exemplo dos europeus, vamos seguir o nosso caminho que é todo diverso do da Europa desinteressante. Essa gente d’aí afinal nada mais fez que desenvolver o lema do século 19, arte pela arte, e nisto está, nisso caiu. Gênero de elite refinada, gasta, silenciosa, sem coragem, pessimista, civilização morta. [...]. (DUARTE, 1971, p. 300). PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA Embora procure ser apologista do discurso nacionalista, quem lança publicamente uma proposta nacionalista/subversiva é Oswald de Andrade. Teve o feeling para captar a agitação de idéias e sintetizá-las, no calor do momento, no Manifesto da poesia pau-Brasil, escrito imediatamente após a sua volta a São Paulo, depois do “roteiro de Minas”. O manifesto foi publicado no jornal Correio da Manhã, no qual trabalhava como jornalista. Tinha as idéias e os meios para divulgá-las. Poderíamos chamar, posmodernamente, de senso de oportunidade. O “manifesto” é um caleidoscópio de intenções e intuições. A declaração de princípios contra o “lado doutor” e o “falar difícil”, a favor da língua “sem erudição, natural e neológica”, pela “incorporação milionária de todos os erros”; o elogio aos elementos populares da cultura brasileira, “o contrapeso da originalidade nativa para inutilizar a adesão acadêmica”; a exaltação da “formação étnica rica, ao carnaval, o ouro, ao vatapá, aos casebres de açafrão”; terceiro, a ruptura com o futurismo, argumentando que fora necessário para “acertar o relógio império da literatura nacional”, mas realizado, “problema é outro. Ser regional e puro em sua época”, para iniciar “a primeira construção brasileira no movimento de reconstrução nacional”; por fim, seu credo poético: O trabalho contra o detalhe futurista – pela síntese; contra a morbidez romântica – pelo equilíbrio geômetra e pelo acabamento técnico; contra a cópia, pela invenção 6 cf: BARBOSA, 2002, p.13. 41 e pela surpresa. [...]. Nenhuma fórmula para a contemporânea expressão do mundo. Ver com olhos livres. Pouco se comenta sobre a aversão ao intelectual, o bacharel, que simboliza a “fatalidade do primeiro branco aportado e dominando politicamente as selvas selvagens”. Crítica semelhante, Monteiro Lobato fizera no prefácio para Urupês e em “Paranóia ou mistificação”, acusando o ambiente literário de sorumbático, artificial e copiador da literatura francesa. Mas em Oswald, a mesma crítica tinha outros efeitos, o lado doutor revela-se como fraude, como algo ex-cêntrico na cultura brasileira. Além disto, contrastava com a linha estetizante desenvolvida pela revista klaxon. Um olhar cético pode argumentar que o “lado citações, o lado autores conhecidos” – enfim, a denúncia do intelectual de salão – é uma forma do próprio autor transformar em virtude suas deficiências. Segundo o relato de Antonio PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA Candido: Com efeito, a informação apressada e fragmentária, transformada em aparente erudição, era habitual em Oswald, leitor impaciente e salteado, que às vezes cortava apenas partes de um livro, sobre o qual podia não obstante falar com pertinência, graças ao talento excepcional e à capacidade de pegar no ar. (CANDIDO, 2004, p. 47). Lêdo Ivo, em sua autobiografia, no capítulo dedicado ao modernista, revela que: As leituras de Oswald provocavam anedotas entre os seus amigos e desafetos que, aferrados a uma visão acadêmica da cultura e da leitura, censuravam o autor de Serafim Ponte Grande por não possuir uma biblioteca à altura de sua condição de escritor. (IVO, 2004, p. 254). Em depoimento a Aracy Amaral, Rubens Borba de Moraes confirma a observação de Candido, apontando que o brilhantismo oswaldiano derivava de sua forte “premonição das coisas”, teria “lido quando muito uns três livros”, mas que não o impediam de pontificar sobre qualquer assunto com propriedade, pois “os círculos que freqüentava lhe bastassem como informação”. Por essa razão, apontava Borba de Moraes, “tinha inveja de Mário de Andrade”, seu oposto, homem erudito; ao passo que Mário “invejava” o brilho e “a liberdade de ser” do outro (2003, p. 78). A estratégia de Oswald reproduzia uma tendência geral dos modernistas neste período que, para criticar a literatura vigente – decadentista na prosa, parnasiana na poesia –, vêem na erudição a extensão do predomínio europeu sobre 42 os padrões literários. Segundo Alcântara Machado, a “exuberância livresca” e a “ignorância frondosa” eram dois males do modernismo brasileiro. Para evitá-los precisava “mandar bugiar essa mania de mostrar que sabe” (2002, p. 13). Os modernistas não queriam ser eruditos, mas o movimento se desenrola nos espaços da recepção erudita, tanto que a Semana de 22 ocorreu no Teatro Municipal. Além disso, o modernismo gestou uma personagem erudita como Mário de Andrade, que não se considerava erudito: Si não sou um homem muito erudito [...], isso se deve exclusivamente à minha sensualidade. Não só o uso e abuso de todos os prazeres da vida baixa me tomaram e tomam muito tempo [...], mas desde cedo esses abusos me prejudicaram muito certas faculdades, especialmente a memória. Si eu guardasse na memória pelo menos um décimo de tudo quanto tenho lido... e compreendido, acho que seria um assombro de erudição neste país [...]. (ALVARENGA, 1983, p. 176). Mas é preciso ir adiante. A negação do acadêmico na configuração da PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA intelectualidade moderna permite uma de suas principais articulações: a aproximação com o povo. Em seu discurso comemorativo dos vinte anos da Semana de 22, Oswald de Andrade asseverava: “De 22 para cá, o escritor nacional não traiu o povo, antes o descobriu e o exaltou” (1975, p. 97). Convém lembrar que Oswald fundaria o jornal comunista O homem do povo. Um dos meios de aproximação foi a incorporação da fala do povo, isto é, a “contribuição milionária de todos erros, como falamos, como somos”. Assim, poemas transcritos abaixo transmitem uma poética do documental. Também são, como defende Candido, uma forma de desrecalque e adesão aos símbolos desprezados pela cultura oficial. Vício na fala Para dizerem milho dizem mio Para melhor dizem mió Para pior pió Para telhado dizem teiado E vão fazendo telhados O capoeira - Qué apanhá sordado? - O quê? - Qué apanhá? Pernas e cabeças na calçada 43 O gramático Os negros discutiam Que o cavalo sipantou Mas o que mais sabia Disse que era Sipantarrou Estilizar o erro gramatical – conferir o poema “Pronominais” – implicava um ataque ideológico contra os aspectos cultos da língua, denunciando-os como artificiais e excludentes, funcionando como um “primitivismo poético”. A contradição reside em encobrir, através do elogio, o analfabetismo, um traço tão pré-moderno. Oswald e Mário não saíram desta sinuca-de-bico, como pretendemos demonstrar nos capítulos seguintes, antes tentaram – com a grande PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA ajuda de seus primeiros críticos – situar o erro gramatical no campo de uma poética modernista. Através da valorização do erro, apontava-se para uma outra constituição de nacionalidade, capaz de integrar como potência a fala e a cultura popular. Isso não seria possível sem forte dose de idealização; mas ao mesmo tempo, o analfabetismo adquiria um tom de exotismo, para francês ver, como se não fosse sinal de atraso e sim de “cor local”. O nacionalismo, neste momento, não é problema político, mas estético. A estética primitivista, na avaliação de um contemporâneo, Tristão de Ataíde, capturava “os elementos inconscientes, nativos, profundos, que nos estão formando sem querer” – raciocínio que certamente influencia a leitura de Candido -, no intuito de buscar “os elementos espontâneos e primários de nossa existência”: Ora, esses elementos só se encontram no povo, na massa sem consciência, bem vulgar, bem funda, bem ignorante. A instrução é o nosso mal. Comecemos pelo analfabeto. O branco nos cosmopolitizou. Comecemos pelo multato. A inteligência nos artificializou. Comecemos pela estupidez. As formas literárias nos cristalizaram. Comecemos pelo caos. (ATAÍDE, 1927, p. 16). Sua conclusão: o primitivismo toma o ilusório e o falso como ponto de partida, pois é impossível fazer “literatura às avessas”. Para Tristão de Ataíde, as duas linhas que orientavam o projeto modernista – a primitiva e a dinamista – falhavam em sua proposta. A primeira, disseminava um “escárnio infecundo, um pessimismo inútil e meramente destruidor”; a segunda, ao transformar, através da civilização da máquina, “o mistério verde das florestas” em canto do progresso, 44 caía numa espécie de “tropicalismo”, que artificializa nossa arte “pela supressão de suas raízes e pela inserção de caracteres estranhos” (1927, p. 15). Faltava, argumenta, uma terceira via, capaz de sintetizar o que as duas tinham de melhor, incluindo uma condição fundamental: “o elemento espiritual. Uma mística criadora”. É impensável para Ataíde desprezar o elemento europeu, porque representa a pedra filosofal da linha espiritualista: o catolicismo. O primitivismo Pau-Brasil era também refratário ao catolicismo oficial, que reprimira os cultos indígenas e marginalizava a religião africana. Descobrir o Brasil, portanto, equivalia desestruturar três instituições: a gramática oficial, a tradição católica e o discurso histórico. O “Manifesto” radicalizava os poemas de Poesia pau-Brasil – as paródias da Carta de Caminha, dos escritos de Gândavo, o “Erro de português” –, nos quais propõe a possibilidade de uma outra evolução histórica, cujo ápice seria a PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA “literatura de exportação”, a conquista do mercado estrangeiro, ou, como pensa Silviano Santiago, “uma outra colonização”: Quando uma coleção de poemas diz descobrir o Brasil em 1924, aparente ahistoricismo, ela está dando a ler a tentativa de uma outra concepção de processo e evolução históricos [...]. A descoberta do Brasil em 1924, não há dúvida, marca o compromisso do poeta com a atualidade e o progresso ocidental nos seus aspectos mais pragmáticos. Marca o desejo de fazer o país atrasado e periférico entrar para o concerto das nações modernas e desenvolvidas, [...], eis a forma como o Modernismo brasileiro se insere no amplo movimento da Modernidade ocidental. (SANTIAGO, 1991, s/p.). A proposição de uma outra evolução histórica expressa-se, ainda melancolicamente, no poema “Erro de português”: Quando o português chegou Debaixo duma bruta chuva Vestiu o índio Que pena! Fosse uma manhã de sol O índio tinha despido O português O poema promete outra colonização que – “pena!” – não ocorreu por uma infelicidade climática. No “Manifesto antropófago”, porém, lemos: “Antes dos portugueses descobrirem o Brasil, o Brasil tinha descoberto a felicidade”. Trata-se de localizar nas rasuras da história oficial o contra-discurso da submissão cultural. Nesse sentido, reinventar a história da colonização implicava atacar o mal-estar 45 em sua raiz, apontar uma potência anterior recuperada pela modernização tecnológica. O impacto destas idéias retumbou no livro de Murilo Mendes, História do Brasil. Nestes poemas renegados pelo próprio autor, após sua conversão ao catolicismo, reconta-se a história do Brasil desde o descobrimento – inclusive com uma inevitável paródia à carta de Pero Vaz – até a Revolução de 30. Um dos recursos utilizados por Murilo, além da paródia e do poema-piada, é a inserção nos textos do passado de elementos modernos, como bondes e aviões. 3.3 Mário Pau-Brasil de Andrade!? PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA No final de 1924, em carta a Tarsila do Amaral, Mário de Andrade confessava estar “inteiramente pau-Brasil”. O manifesto de Oswald e a fase primitiva de Tarsila não deixavam de dar razão à provocação do ano anterior: deixem Paris! Na viagem a Minas, Mário foi uma espécie de guia informal, pois era o único que visitara as cidades históricas. A orquestra estava afinada, o que vem a seguir é uma disputa pela regência. Assim, retornando à carta: [...] faço uma propaganda danada do paubrasilismo. [...], tenho amigos que estou paubrasileirando. Conquista importantíssima é o Drummond, lembraste dele, um daqueles rapazes de Belo Horizonte. Está decidido a paubrasileirar-se e escreve atualmente um livro de versos com o maravilhoso nome de “Minha terra tem palmeira”. [...]. Eu por minha parte estou abrasileirando inteiramente a língua em que escrevo. Um artigo sobre Manuel Bandeira [...] tem erros enormes de português. (1999, p. 89). Em suas correspondências com Bandeira e Drummond, a tônica do “erro” é uma constante, uma obsessão. Ao primeiro, pede conselhos; ao segundo, aconselha. Em carta ao poeta carioca, 8 de novembro de 1924, esclarece a seguinte mudança: ‘Embala-lhe o dormir’ pus ‘lhe embala o dormir’, com o pronome errado. Sobre isso, Manuel, estou disposto a me sacrificar”. Mais adiante, argumenta que é preciso ter “coragem” para “escrever brasileiro”. Depois comenta a dupla regência – no Brasil e em Portugal – do verbo “ir”, cujo complemento “na” corresponde a um erro gramatical. “Eu o emprego. Ir na cidade, é regência perfeita. (...) Os portugueses dizem ir à cidade. Os brasileiros: 46 na cidade”. A carta termina de modo ufanista: “brasileiros chegou a hora de realizar o Brasil” (1958, p. 23). Em outra longa carta, dezembro de 24, ao comentar a “influência lusitana”, terminava com o seguinte achado: “Você já reparou que o diminutivo brasileiro ainda é mais carinhoso que o português” (idem, p.50). Duas coisas estavam claras, a “consciência nacional” passava por uma reforma lingüística capaz de propor outra “gramática”; tal “consciência” foi primordialmente antilusitana. Em relação ao segundo tópico, Mário de Andrade dá continuidade a ojeriza paulista, porque os portugueses monopolizavam a imprensa federal e outros setores do comércio. Esta situação provocou fortes reações, como a de Jackson de Figueiredo, que no livro O nacionalismo na hora presente, afirmava: “O Brasil libertou-se do governo português; continua contudo a suportar (...) a ascendência dos lusitanos no seu comércio, indústria, imprensa e até nas letras” PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA (1997, p. 135). O erro gramatical corresponde a um projeto de “descoberta do Brasil”, ou como Mário diz recorrentemente em sua correspondência com Bandeira, o “abrasileiramento do Brasil”. O objetivo neste período é: “Se conseguir que se escreva brasileiro sem ser por isso caipira, mas sistematizando os erros diários de conversação, idiotismos brasileiros e sobretudo a psologia (sic) brasileira, já cumpri o meu destino”(1958, p. 54). Em carta a Drummond, novembro de 24, elogia a regência incorreta do verso “chega na estação”. O jovem poeta mineiro responde que, entre a correção e a incorreção gramatical, prefere a correção, considerando que “aceitar tudo que nos vem do povo é uma tolice que nos leva ao regionalismo”. Mário retruca nos seguintes termos: Foi uma ignomínia a substituição do “na estação” por “à estação” só porque em Portugal paisinho desimportante pra nós diz assim [...]. Não estou fazendo regionalismo. Trata-se de uma estilização culta da linguagem popular da roça como da cidade, do passado e do presente. (ANDRADE; 2003, p. 42 ) O modernista retoma a discussão, iniciada por José de Alencar, da língua brasileira como princípio da autonomia nacional. No “pós-escrito” à segunda edição de Iracema, Alencar enumera uma série de diferenças entre o português falado no Brasil e Portugal. Os artigos são escritos em reação ao crítico lusitano Pinheiro Chagas. Sua premissa: os escritores brasileiros, insistindo na falta de correção à língua portuguesa, têm a mania de tornar “o brasileiro uma língua 47 diferente do velho português”. O contra-argumento de Alencar é bem “modernista”. Para ele, somente a soberania do povo “tem a força de transformar uma língua, modificar sua índole, criar novas formas de dizer”. Ao escritor cumpre seguir a vontade do povo, mas como é um esteta da língua, cabe “talhar o grosseiro dialeto do vulgo”, “como o escultor cinzela o rudo troço de mármore e dele extrai o fino valor”. A independência das nações, conclui Alencar, não é apenas um fato político, mas também cultural, reproduzido nas idéias, costumes, sentimentos e, naturalmente, na língua, “que é a expressão desses fatos morais e sociais” . O anti-lusitanismo de Alencar é análogo ao de Mário, inclusive em suas justificativas sobre as diferenças culturais entre Brasil e Portugal, que autorizam o brasileiro a criar uma gramática própria. O escritor age em consonância a um poder maior: a soberania do povo. A criação de uma “gramática da língua PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA brasileira” foi outra obsessão de Mário de Andrade. Em suas próprias correspondências, ao longo dos anos, passou a escrever em “brasileiro” trocando “se” por “si”, “melhor” por “milhor”, anula o acento agudo em “alguém”, “além”, “ninguém”, etc. Todo este esforço, no qual dedicou anos de estudo, terminou em muita dor de cabeça para quem reuniu o material póstumo e teve que adequá-lo às regras vigentes. Drummond, que preferia o “acerto” ao “erro”, quando organizou sua correspondência, ao contrário de Manuel Bandeira, atualizou a linguagem, “para que o leitor novato deixe de estranhar o texto à primeira abordagem”. Mário compreende a proposta pau-Brasil exclusivamente pela questão da valorização do erro. Essa coincidência de idéias foi o momento em que mais se aproximou de Oswald, o qual tentava superar. Em importante carta a Sérgio Milliet, paulatinamente, rearticula a proposta pau-Brasil. O primeiro passo foi encarar o primitivismo como oposição ao beletrismo, capaz de fundar uma “arte interessada” e resolver “o problema atual, nacional, moralizante, humano de abrasileirar o Brasil”. Em seguida, colocava em cheque a importância da Europa no processo de abrasileiramento, o exemplo é Cendrars, que “fez mais mal aqui do que bem”. Logo depois, tratava de insinuar que Oswald praticava um discurso de fachada, porque ignorava a necessidade de uma reforma lingüística, para cair “numa admiração ingênua por tudo que é brasileiro”, pregando o analfabetismo como insurreição à erudição. E termina: “Eu, ninguém precisou de me vir dizer que o Brasil era interessante” (1971, p. 301). 48 Nos bastidores, Mário sentia-se o anunciador da proposta nacionalista modernista, mas fora eclipsado pelo estouro do “Manifesto da poesia pau-Brasil”, ao qual contraditoriamente tenta se filiar e se desfiliar. Por um lado, a valorização do “erro gramatical” vai de encontro às suas proposições a favor da “gramatiquinha do falar brasileiro”. Por outro, assumir-se inteiramente como “pau-brasil” significava aceitar a liderança de Oswald, coisa que recusava desde o artigo “Meu poeta futurista”; por isso, em outra carta a Milliet, dirá: É uma escola (poesia pau-Brasil) que tem uma infinidade de precursores e um só discípulo. Mas eu que tenho birra do São-João-Batismo poético me incorporei na escola. Passei de precursor a discípulo, se é que é ser discípulo dele continuar no que eu vinha fazendo na minha natural evolução. (DUARTE, 1971, p. 303). Em carta a Tristão de Ataíde, volta ao mesmo argumento: “O Osvaldo vem da Europa, se paubrasiliza, e eu publicando só então meu Losango cáqui porque antes os cobres faltavam, virei pau-brasil pra todos os efeitos” . Não por acaso, no PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA prefácio de Losango cáqui, no qual recusa considerá-lo um livro de poesias, mas sim de “anotações líricas”, lê-se: “possivelmente pau-brasil e romântico”. Há pouco da proposta “pau-brasil” em Losango cáqui, que parece dar continuidade a Paulicéia desvairada, porque provavelmente já estava finalizado quando o manifesto oswaldiano foi publicado. O livro em que Mário se “paubrasiliza” será o seguinte, O clã do jaboti, no qual aparecem com mais firmeza os elementos da cultura e da língua indígena, espécie de ensaio para Macunaíma. Mário e Oswald pensarão a arte nacional, questão central do modernismo neste período, de forma oposta. Segundo Eduardo Jardim – Mário de Andrade e a morte do poeta - a busca “pelos elementos definidores da nacionalidade” leva Mário à indagação de que “a nacionalidade estava depositada nas manifestações da cultura popular”: Por causa disso, Mário de Andrade pôde argumentar que a nacionalização da produção artística do país, iniciativa que deveria condicionar a entrada no concerto das nações cultas, seria alcançada ao manter-se vivo o vínculo com as manifestações da cultura popular e folclórica. (JARDIM, 2005, p. 45). Assim, o processo de nacionalização da arte em Mário de Andrade passa pelos vínculos entre a cultura erudita e a popular, o que credencia a originalidade e a participação do Brasil no concerto das nações. Júlio Diniz – no ensaio “Na clave do moderno” – aponta que o modernista foi o primeiro a pensar a interface música/cultura/sociedade no Brasil: “Mário de Andrade reconhece a importância da música folclórica e popular como um saber que se diferencia organicamente da 49 concepção erudita, principalmente em países colonizados”. A música folclórica seria o pilar “de uma verdadeira identidade nacional”, de uma “cultura original e enraizada na tradição” (2000, s/p). A inserção cultural de uma arte brasileira no concerto das nações passava necessariamente pela transformação técnica do elemento popular, ou seja, a famosa expressão de que só o particular se universaliza. Oswald de Andrade, também pensando o lugar do Brasil, partiria para seu projeto mais arriscado – a antropofagia -, uma forma de subversão da história oficial e, de certo modo, uma subversão ao próprio modernismo. A questão neste momento, para nós pueril, era briga interna pela liderança intelectual. Em um período de agitação e contradições internas, Mário de Andrade tentava sistematizar uma poética moderna. A escrava que não é Isaura é o esforço supremo neste sentido, o qual dedica a Oswald de Andrade. Apesar de sua fama PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA de “leitor impaciente”, Oswald leu detalhadamente o opúsculo, anotando à margem as idéias que lhe interessavam, como a associação de imagens7. A autoridade crítica de Mário, contudo, foi um dos primeiros focos de desavença entre eles. Rubens Borba de Moraes, depondo para Aracy Amaral, revelou este prosaico episódio: quando Menotti del Picchia publicou O homem e a morte, os “klaxistas” rejeitaram integralmente o romance. Consideravam Menotti um “ogro” em assuntos estéticos, inclusive haviam sugerido a Mário dar-lhe algumas aulas sobre as tendências de vanguardas. Logo, Tácito de Almeida, Couto de Barros e Borba Moraes escrevem “uma crítica terrível” ao romance. “O artigo estava pronto para ser publicado quando chega o Mário”, que se opõe ao teor das críticas, argumentando que deveriam “respeitar a personalidade de Menotti”. Desse modo, escreve outro artigo, “um elogio só, a exaltação do livro” (2003, p. 83). Em carta a Bandeira – 3 de maio de 1926 – Mário deixaria claro que o elogio fora mais uma atitude de condescendência com um aliado importante. Atitude contraditória, pois em crítica defendia a “sinceridade”, como revelava em carta a Prudente de Morais Neto: “Eu agora não gosto vou dizendo, assim se compreende as boas camaradagens, não achas? Com o Osvaldo foi a mesma coisa. Leu o Serafim Ponte Grande (...). Eu disse que não prestava e os 7 cf: Tarsila: sua obra e seu tempo, p. 191. 50 porquês” (1985, p. 34). A reação de Oswald de Andrade foi descrita pelo próprio Mário em carta a Tarsila – 16/06/23-, na qual tenta se justificar com a pintora: [...] Um dia irrompe pelo escritório da klaxon. Vem temeroso e furibundo. “O Mário é isto, mais aquilo. Quer ser chefe de escola. Nós todos seus alunos! É preciso romper. É o pior crítico do mundo! Vocês todos estão ficando escravo dele. Não me sujeito! Nem o Menotti”. [...]. Procuro o Menotti. Ia amargo. Na véspera, defendera calorosamente a obra do Menotti. [...]. Quem entendeu tão levianamente minha intenção. Não sei. [...]. Mas a culpa é toda minha e de minha sinceridade. [...]. (AMARAL, 1999, pp. 73-4). A boa camaradagem com Menotti, muito mais próximo a Oswald, dura pouco tempo. Em resposta a crítica do ex-protegido ao Losango cáqui, considerado inferior a Paulicéia, Mário escrevia o artigo “Feitiço conta o feiticeiro”, o qual comentava em carta a Drummond: “Pela 2ª Terra roxa você verá que mandei à fava também o Menotti. Questão de higiene” (1982, p. 67). Alcântara Machado, ironicamente, postulava que o ambiente paulista havia se PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA transformado no movimento da pancada: Primeiro pancada nos inimigos. Agora, pancada nos companheiros. Antigamente, era frente única. Pancada nos inimigos. Agora é discórdia. Pancada nos companheiros. A preocupação de saber quem está certo. Ou o que é mais gostoso: quem está errado. [...]. E principalmente a preocupação idiota (como já me disse Paulo Prado) de querer saber quem é de fato brasileiro da gema. A toda hora surge um cavalheiro batendo com a mão no peito: Eu é que sou ariverde de verdade! (BARBOSA, 2002, p. 7). Outra censura, com alvo certo, é a “tolice maníaca e inútil” de instituir um padrão modernista, uma bitola consagrada: “A bitola de Mário de Andrade, por exemplo” (idem, p. 8). Como comprovam suas correspondências do período, Mário tenta submeter os escritos dos companheiros a um padrão de qualidade. A Bandeira, suplica por uma opinião “absolutamente sincera, áspera e desimpedida” (1958, p. 60). A Anita, explica-se: “Em questões de crítica e de julgamentos pessoais admito todos os que sejam sinceros mesmo que sejam contra mim” (1989, p. 120). A “sinceridade” assume uma condição ética para o elogio ou o malho. Trata-se, de certo modo, de superar os elogios fáceis no primeiro momento modernista – o período anterior à Semana de 22. Por outro lado, Mário exerce sua sinceridade com um alto grau de crueldade. Relatando uma desavença com Ronald de Carvalho, na qual o acusa de “homem de conferência”, cujos poemas em prosa eram deploráveis, “a gente espreme e não sai nada”, o missivista se “surpreende” com a natural reação do escritor: 51 Parece que se maguou... Não sei. [...]. Não fui gentil. Fui sincero, o que é muito mais nobre para com um amigo do que ser gentil. [...]. Mas duma vez por todas vou acabar com as gentilezas. Verás meu artigo sobre o Osvaldo. Depois sai o teu. [...]. Creio que tu me escapas. (ANDRADE, 1958, p. 53). Ser sincero anularia a adulação fácil, festeira, porque pressupõe imparcialidade. Contudo, nesta mesma carta, o escritor é incrivelmente passional e comprometido ao prometer que Bandeira “escapa”, pois todos os seus argumentos repousam no fato de considerá-lo um irmão; ou em suas palavras: “basta lembrar que fiz questão de que estivesses na leitura da Paulicéia na casa de Ronald. Isso indica alguma coisa, creio” (idem p. 53). Em suas correspondências, Mário procurava, pela via da “sinceridade crítica”, afirmar-se intelectualmente como um censor criterioso e justo, uma espécie de líder “espiritual”. 3.4 PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA A saída antropofágica Raul Bopp descreveu saborosamente o nascimento do movimento antropofágico. Tudo começou quando o casal Tarsiwald decidiu levar um grupo de amigos a um restaurante de rãs. A iguaria era uma novidade. Durante a refeição, relembrava Bopp, Oswald fizera um longo “elogio da rã”, “provando” que a linha evolutiva do homem, em sua fase pré-antropóide, passava pela mesma rã que estavam comendo entre goles de chablis gelado. Diante da inusitada teoria, Tarsila concluía que “deglutindo rãs, somos uns... quase antropófagos”: A tese, com um forte tempero de blague, tomou amplitude. Deu lugar a um jogo divertido de idéias. Citou-se logo o velho Hans Staden e outros clássicos da Antropofogia: - “Lá vem a nossa comida pulando”. (BOPP, 1966, p. 70). O Diário da Noite publicava em forma de folhetim, em 1926, aventuras de Hans Staden entre os selvagens, traduzida por Monteiro Lobato, alimentando o interesse pela redescoberta do passado colonial. Outra contribuição de Lobato foi a tradução de Histoire d’un voyage fait en la terre du Brésil, de Jean Léry, na qual narrava o convívio com os Tupinambás, descrevendo em várias passagens os hábitos canibalescos. O livro de Léry seria uma das fontes de Paulo Prado para o primeiro capítulo de Retrato do Brasil. Villa Lobos também recorreria ao relato do viajante para compor “Canide ioune”, uma das partes da composição Três poema indígenas. De certo, Oswald e Tarsila devoraram a Canibale, revista do 52 dadaísta Picabia. Logo, “canibalismo” era uma palavra corrente no cenário dos anos 20. No dia de seu aniversário, Oswald de Andrade ganhou um quadro novo de Tarsila, entusiasmado ligou para Raul Bopp. Como a tela ainda não tinha nome, recorreram ao dicionário tupi-gurani, a escolha intuitivamente apontava a matériaprima: Abaporu, o homem (aba) que come (poru). Ali mesmo os dois escritores pensaram em um movimento em torno daquele quadro, o qual Tarsila colocaria nos seguintes termos: Vamos descer à nossa pré-história obscura. Trazer alguma coisa desse fundo imenso, atávico. Catar os anais totêmicos. Remexer raízes de raça com um pensamento de psicanálise. Desse encontro com as nossas coisas, num clima criador, poderemos atingir a uma nova estrutura de idéias. Solidários com as origens. Fazer um Brasil à nossa semelhança, de encadeamentos profundos. (BOPP, 1966, p. 97). PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA O “Manifesto antropófago” foi publicado em fevereiro de 1928, no primeiro número da Revista da antropofagia. Haroldo de Campos cunhou uma bela expressão para introduzi-lo: “indianismo às avessas”8. A procura pelos elementos primitivos de nossa civilização levou os modernistas ao mesmo ponto dos românticos, o índio. José de Alencar, por exemplo, elege o indígena como equivalente a um passado altivo e dignificante. Tal ideal contribuía para criar, a partir do “bom selvagem”, um estado de espírito nacional positivo. No entanto, não sabia lidar bem com o mestiço, enquadrá-lo em um conceito afirmativo de nacionalidade, pensada como algo autóctone, algo impossível a partir da mestiçagem. Assim, o filho de Iracema com o português colonizador leva o nome de Moacir, o “filho da dor” na língua Tupi, nasce órfão de mãe e pai. Outro exemplo, o poema “Marabá”, de Gonçalves Dias, no qual a mestiça, apesar de sua beleza, não encontra amantes e vive solitária. Oswald de Andrade substitui o bom selvagem de Rousseau pelo “mau selvagem” de Montaigne (Haroldo de Campos dixit). No ritual antropofágico, os índios devoravam os bravos guerreiros na crença de, através da carne, incorporar o espírito de bravura do oponente, tornando-se mais fortes. Esse havia sido o tema de I-Juca Pirama, que confrontava os ideais do “bom selvagem” e do canibal, com a vitória do primeiro. A antropofagia representaria, no ideário modernista, 8 cf: ANDRADE, 1978, p. 49. 53 uma lógica cultural, capaz de negar a lógica colonialista/jesuítica e propor outro modelo de evolução cultural. A antropofagia adquiriu significados bem específicos conforme sua recepção. Em seu momento inaugural, foi uma radicalização do primitivismo pauBrasil, propondo a junção entre primitivo e tecnológico como ideal de arte moderna. Na prática, possibilitou a incorporação da cultura popular ao repertório culto. No final dos anos 40, ressaltavam-se seus aspectos utópicos a partir da oposição entre a cultura antropofágica e a cultura messiânica; esta baseada na autoridade da lei e de Deus, aquela baseada na ausência de autoridade e na livre vontade dos homens. É a tese que Oswald de Andrade defende, o retorno, através do mundo supertecnizado, a uma idade de ouro, sem o Estado de classes, cuja síntese seria o “homem natural tecnizado”. Após os anos 60, a antropofagia foi devorada pela práxis concretista-tropicalista, cuja ênfase seria a superação do PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA nacional-popular a partir das mixagens entre as tradições locais, a cultura de massa e psicodelia. Alguns trechos do manifesto de 28: Só me interessa o que não é meu. Lei do homem. Lei do antropófago. [...]Foi porque nunca tivemos gramáticas, nem coleções de velhos vegetais. E nunca soubemos o que era urbano, suburbano, fronteiriço e continental. Preguiçosos no mapa mundi do Brasil. [...]. Contra o Padre Vieira. Autor de nosso primeiro empréstimo para ganhar comissão. O rei analfabeto dissera-lhe: ponha isto no papel mas sem muita lábia. Fez-se o empréstimo. Gravou-se o açúcar brasileiro. Vieira deixou o dinheiro em Portugal e nos trouxe a lábia. [...]. Tínhamos a justiça codificação da vingança. A ciência codificação da Magia. Antropofagia. [...]. Nunca fomos catequizados. Fizemos foi Carnaval. O índio vestido de senador do Império. Fingindo de Pitt. Ou figurando nas óperas de Alencar cheio de bons sentimentos portugueses. [...]. A alegria é a prova dos nove. [...]. Contra a realidade social, vestida e opressora, cadastrada por Freud – a realidade sem complexos, sem loucura, sem prostituições e sem penitenciárias do matriarcado de Pindorama. Oswald de Andrade tinha a convicção de que o movimento modernista havia reagido contra os gramaticalismos, mas ainda não tinha sido capaz de gerar um “pensamento novo”. Discordava dos postulados do Verde-amarelismo, principalmente em relação ao nacionalismo avesso à contribuição da vanguarda. Logo, o movimento antropofágico seria uma reação ao próprio Modernismo, movido à blague, à polêmica, à controvérsias. Entre os anos de 24-29, o projeto ideológico do modernismo, a criação de uma nova consciência nacional, vinculava-se ao posicionamento político de seus autores. É a primeira divisão do movimento: de um lado, o grupo ligado ao “pauBrasil”, às vanguardas, ao Partido Democrático (como Mário) ou ao socialismo 54 (como Oswald); do outro, o grupo ligado ao Verdeamarelismo, fundado por Cassiano Ricardo, Candido Mota Filho, Menotti del Picchia e Plínio Salgado, os dois últimos filiados ao Partido Republicano Paulista, representante da oligarquia rural. O mesmo interesse em “descobrir o Brasil”, que animara os “paubrasilistas”, animava os “verde-amarelistas”, tanto que partiram do mesmo lugar: a reconfiguração do indianismo. Neste ponto, há uma escandalosa contradição, porque a figura do índio havia sido execrada por Menotti del Picchia e Candido Mota Filho como símbolo do “velho, do obsoleto e do anacrônico”. Menotti, recém-convertido ao Futurismo, elegia o atleta como símbolo do Brasil moderno, ou seja, força, rigidez, dinamismo. Por outro, a contradição se desfaz quando criticava no índio romântico a sua imitação dos índios de Chateaubriand, “com a tanga estilizada pelo desenhista de Paris”9. A mesma crítica, subserviência PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA aos valores europeus, será feita por Cassiano Ricardo ao movimento pau-Brasil: Pau-Brasil é madeira que já não existe, interessou holandeses e portugueses, franceses e chineses, menos os brasileiros que dela só tiveram notícia pelos historiadores; inspirou a colonização, que dizer: a assimilação da terra e da boa gente empenachada pelo estrangeiro; em síntese: pau nefasto, primitivo, colonial, arcaísmo da flora, expressão dos país subserviente, capitania, governo geral, sem consciência definida, balbuciante, etc. (apud: COUTINHO, 1997, p. 30). O ideal de “literatura de exportação” metaforizado no pau-Brasil, para os verde-amarelistas, encobre a “verdade histórica” da exploração da terra. Mais uma vez os dois movimentos partem de um fundo comum: resolver o trauma da colonização. Na concepção verde-amarela, a presença estrangeira é historicamente nefasta, portanto, a valorização do nacional implica uma recusa ao estrangeiro. O “Manifesto antropófago” reage contra o xenofobismo verde-amarelista, que Oswald de Andrade acusaria de “macumba para turista”. “Querer que a nossa evolução se processe sem a latitude dos países que avançam”, argumenta, “é triste xenofobia (...) particularmente aceita pela Polícia Especial” (1975, p. 95). Defender como positivo/subversivo o contato com a Europa é coerente com a própria formação intelectual de Oswald de Andrade, deglutidor da literatura francesa. A operação torna-se complexa quando revela que a própria evolução cultural do país ocorreu pelo signo da devoração. A tese resumia à perfeição a defesa da miscigenação como índice de identidade nacional. 9 cf: “Matemos Peri!” 55 Em carta a Tristão de Ataíde – maio de 1928 -, Mário de Andrade comentava a reação à leitura do manifesto, na casa de Paulo Prado: Quanto ao manifesto do Osvaldo... acho... nem posso falar que acho horrível porque não entendo bem. [...]. Os pedaços que entendo em geral não concordo. Tivemos uma noite inteirinha de discussão quando ele inda estava aqui. Mas a respeito de manifestos do Osvaldo eu tenho uma infelicidade toda particular com eles. Saem sempre num momento em que fico malgré moi incorporado neles. [...]. Agora vai se dar a mesma coisa. “Macunaíma” vai sair, escrito em dezembro de 1926, inteirinho em seis dias, correto e aumentado em janeiro de 1927, e vai parecer inteiramente antropófago... Lamento um bocado essas coincidências todas, palavra. (apud: FERNANDES, s/d, p. 29). Segundo Raul Bopp, tentou-se consecutivamente levar Mário para o movimento antropofágico. Recusou por dois motivos: a) falta de interesse em participar de um movimento “onde não era o único chefe”; b) fortes amizades com “uma confraria de seus admiradores”. Oswald “queria agitação”, “fermentava malícias, criava confusões” (1966, p.78). O caráter iconoclasta antropofágico PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA bombardeava os antigos companheiros, sem poupar ninguém, nem Mário, que dependia de suas boas relações com parte da elite paulista dessacralizada nas páginas da Revista da antropofagia. No entanto, quando vem a público a rapsódia andradina, o próprio Oswald viu nela uma realização da antropofagia. Macunaíma seria publicado cinco meses após o “Manifesto antropófago”, intuitivamente Mário percebia a consonância entre as duas obras. O livro Vom Roraima zum Orinoco, do etnógrafo alemão Theodor Kock-Grünberg, sobre o folclore das tribos do Amazonas, uma das bases para a composição da rapsódia andradina, serviu de alimento. Dado curioso, parte do relato estrangeiro sobre o local. A escrita engole a narrativa fragmentária, típica dos romances modernos, a estrutura fabulosa dos romances de cavalaria, Rabelais e o Surrealismo. Assim como o índio antropófago serviu, para Oswald, como representação da cultura brasileira; o índio libertino, negro e branco, representa a ausência de caráter do brasileiro. Caráter tanto no sentido moral quanto no de característica, tipo. Segundo Eneida Maria de Souza, o grande triunfo do livro reside numa “fala nova”, amálgama de inúmeras formas lingüísticas de várias regiões do país, correspondendo a uma “língua desgeografizada” (1988, p. 25). Alfredo Bosi, em “Situação de Macunaíma”, argumenta que a rapsódia assentava-se sobre duas proposições: a memória afetiva e o pensamento social crítico. A memória trazia para o interior da narrativa uma infinidade de citações, lendas, ritos, casos, constituindo “o seu mais caro tesouro, a fonte inexaurível do 56 seu populário luso-afro-índio-caboclo”(2003, p. 200). Trata-se, portanto, de uma nova configuração do erudito, que busca sua renovação nas fontes populares, integrando-as à cultura letrada. Eneida Maria de Souza definiria esta cascata de citações como um “desafio de sabença”, uma prática intertextual na qual “a figura do autor se esvai e se multiplica nos textos em que se apropria” (1988, p. 3). É por atuar nos limites da propriedade literária, rearticulando os signos do popular e do erudito, do primitivo e do moderno, que Macunaíma se realiza como projeto antropofágico. Sua exclusão do legado antropofágico é um sinal de respeito à vontade do autor, que temia que a rapsódia fosse lida pelos parâmetros do manifesto oswaldiano. O que Bosi denomina “pensamento social crítico”, isto é, a discussão a respeito da identidade cultural, foi o caminho de leitura para além da antropofagia. O significado do nome Macunaíma é Grande Mau. Para Bosi, nessa PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA escolha, Mário de Andrade satirizava “as idealizações românticas do ethos nacional”, vigentes no próprio Modernismo na obra oposta a rapsódia andradina: Martim Cererê, de Cassiano Ricardo. Nele, os mitos de grandeza, a cosmogonia dos gigantes, correspondem a uma espécie de nacionalismo hiperbólico. A indefinição do caráter do herói, na argumentação bosiana, era um tiro na idealização ética do índio como sinônimo da boa índole nacional. Por outro lado, a “crítica social” apontava para os “ridículos da burguesia paulista” e sua “cultura pedante e antiquada” (2003, p. 203). Ironicamente, um dos símbolos da burguesia, o gigante Venceslau Pietro Pietra, é canibal. Com Macunaíma, as fronteiras entre popular e culto se esmaecem. Gilda de Mello e Souza denominou esse processo como nivelamento estético: a ascensão de um gênero inferior a um nível superior da arte culta (2003, p. 20). A mistura entre culto e popular irá definir um legado modernista, ao mesmo tempo crítico em relação às hierarquizações intelectuais e instrumento de criação de uma consciência nacional. Este pensamento situa o folclore como fonte privilegiada para inteligência modernista. O aproveitamento do folclore amazônico aparece em uma obra com selo “antropofagia” de qualidade: Cobra Norato, de Raul Bopp. Escrito em 1928, publicado em 1931, o longo poema é o resultado da viagem de Bopp à Amazônia, o que possibilitou, segundo seu próprio relato, sentir mais profundamente o Brasil: 57 A floresta era uma esfinge indecifrada. Agitavam-se enigmas nas vozes anônimas do mato. Inconscientemente, fui sentido uma nova maneira de apreciar as coisas. A própria malária, contraída em minhas viagens, acomodou meu espírito na humildade, criando um mundo surrealista, com espaços imaginários. [...] fui pouco a pouco aprendendo a sentir o Brasil, com o seu sentido mágico desdobrando na sua totalidade. (BOPP, 1997, p. 13). A antropofagia em Bopp não se realiza somente como devoração da cultura estrangeira – como comumente a entendemos -, engloba os elementos recalcados da própria terra, os quais, devido à sua posição marginal no repertório culto, são tão estrangeiros quanto o Surrealismo. Este roteiro, na leitura de Silviano Santiago, propõe que a cultura brasileira reside na interiorização do exterior. A “consciência nacional” emerge do complexo processo de mixagem entre o externo - a estética primitivista - e o interno - o folclore (1991, s/p). Inverte-se, portanto, a premissa verde-amarelista, na qual a brasilidade depende da exteriorização dos valores autóctones, desacreditando a influência externa como PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA formadora de uma identidade. Ampliando as premissas de Santiago, Roberto Corrêa dos Santos argumenta que “exterior” não significa apenas o “estrangeiro”, mas também as “culturas negra e indígena”, que devem ser introjetadas para “gerarem a nossa independência, nossa identidade, nosso interior forte”. O exterior corresponde “às forças do Ocidente, ao progresso, à produção européia, à atualização, à modernidade das novas conquistas” (1999, p. 65). O nacionalismo modernista apresentava uma dupla face: hiperbólico, exaltava a grandeza da cultura indígena e negra para minar a influência estrangeira, politicamente conservador e populista; antropofágico, recuperava as fontes folclóricas como índice de brasilidade, para inseri-las numa linguagem internacional, criando – na feliz expressão de Sérgio Miceli – uma arte nacional estrangeira. Em entrevista a Edgar Cavalheiro, Abguar Bastos, colaborador da Revista da antropofagia, declarava que o pensamento antropofágico apresentava uma “via exageradamente folclórica”, que evoluiria para uma “nova concepção do fenômeno modernista”, qual seja, “o homem brasileiro, sim, mas integrado no concerto do homem universal” (1944, p. 25). Na recepção da antropofagia ignora-se a produção de um antropófago honoris causa: Monteiro Lobato. A escrita lobatiana, dentro da história das idéias modernistas, não tem espaço e, segundo o senso comum, é a sua antítese. Porém, 58 se a adesão ao folclore representa uma das facetas da nacionalização da inteligência moderna, em qual lugar situa-se sua produção infantil? O autor do Sítio do pica-pau amarelo recupera o folclore, com a intenção de nacionalizar a literatura infantil, até então mera re-escrita dos contos de fadas europeus, inserindo-o dentro de um fabulário universal. Vejamos: Há muitas mitologias, isto é, coleção de fábulas – uma para cada civilização. Há a mitologia grega, a mais rica de todas; há a mitologia da Ìndia; há a mitologia dos povos nórdicos; há até a mitologia do Brasil, na qual vemos o Saci, a Caipora, a Mula-sem-cabeça, a Iara. (LOBATO, 1971, p. 43). Em Lobato prevalece o eurocentrismo – a mitologia grega é a maior de todas – totalmente estranho a, por exemplo, Mário de Andrade. Por outro lado, insere os personagens da mitologia grega, indiana, da literatura moderna – como D. Quixote – e dos contos de fadas no território do Sítio do pica-pau amarelo, não sem antes modificá-los, como a Quimera, que aparece velha e inofensiva. Ora, um PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA dos princípios da antropofagia é justamente subverter os limites da propriedade literária. “Só me interessa o que não é meu”. Isso ocorre já no primeiro livro – As reinações de Narizinho – no qual os personagens dos contos de fadas migram para o Sítio. Um dos sentidos mais simples para compreender a lógica antropofágica é a mixagem entre particular e universal, nacional e estrangeiro. É dentro dessa lógica que Lobato escreve sua obra infantil, criando equivalências entre os personagens folclóricos e gregos, como a comparação entre a Quimera e a Mula-sem-cabeça, ambos monstros cuspidores de fogo. A equivalência funciona, didaticamente, como inserção do folclore nacional em um repertório “mais rico”, porque é mais antigo. Serve para neutralizar o complexo de inferioridade diante da tradição grega. Forçamos propositalmente a nota para enfatizar que, se antropofagia equivale a devoração das informações estrangeiras, qualquer escritor brasileiro é um candidato a antropófago. Em uma passagem sobre a influência da antropofagia, João César de Castro Rocha insinua que “Machado de Assis foi o verdadeiro antropófago da cultura brasileira”10. Dentro desta linha de pensamento, antropofagia é uma forte metáfora para descrever um processo que sempre existiu dentro de uma cultura brasileira. 10 Folha de São Paulo. Supl. Mais! 10 de outubro de 2004. 59 Em sua leitura do “Manifesto antropófago”, Benedito Nunes aponta a existência de um “diagnóstico” e uma “terapêutica” da sociedade brasileira, “traumatizada pela repressão colonizadora”. A proibição dos jesuístas do ritual antropofágico, por considerá-lo desumano, inicia o processo repressivo. A volta ao matriarcado, retomando Benedito Nunes, trabalha com os elementos recalcados pela cultura messiânica: o ócio, a alegria, a ausência de classes. Por isso é terapêutica: Traduzindo as fixações psicológicas e históricas da nossa cultura intelectual, os emblemas são personalidades e situações consagradas, intocáveis com os tabus: Padre Vieira (a retórica e a eloqüência), Anchieta (o fervor apostólico e a pureza), Goethe (o senso de equilíbrio, a plenitude da inteligência), a Mãe dos Gracos (a moral severa, o culto à virtude), a Corte de D. João VI (a dominação estrangeira). (NUNES, 2001, p. 18). O desrecalque cultural, nos termos do manifesto, executa uma operação PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA freudiana: “A transformação permanente do tabu em totem”. A terapêutica antropofágica, esboçada no ideal de poesia de exportação, compreende a presença estrangeira não como algo a ser combatido para se auto-afirmar, mas a ser incorporado. O psicológico, argumenta Roberto Corrêa dos Santos, constitui o segundo estágio do ideário modernista – o primeiro é o político. A identidade nacional adquire uma natureza psicanalítica, pensada em termos de afirmação, “conflito de paternidade”, rebeldia, “confusão e mistura com o outro” (1999, p. 67). Antonio Candido – no prefácio para Formação da literatura brasileira – recorria ao mesmo receituário, descrevendo autonomia literária como questionamento da autoridade do pai, ou seja, a literatura portuguesa. Dessa forma, na construção de uma imagem de “brasilidade” como critério de diferenciação e valor, os românticos agiam como adolescentes rebeldes, “que negam a dívida aos pais e chegam a mudar de sobrenome” (1959, p. 28). A questão do falar “brasileiro” em oposição a gramática portuguesa exemplificava o desejo de negação da paternidade e afirmação da maioridade. A herança lusitana, contudo, seria revista de modo positivo por Oswald de Andrade nos 50, como uma forma de oposição ao protestantismo calvinista que inocularia a idolatria do dinheiro nas veias da América do Norte. O português colonizador, em sua sede de ouro e aventura, soube miscigenar-se à cultura do índio, ou melhor, ao corpo da índia. 60 3.5 Um mecenas dissonante O período de 24-29 abrange a invenção do Brasil modernista: re-leitura do passado colonial, valorização da miscigenação étnica e cultural, criação de uma nova linguagem literária. O livro que fecha o círculo traz a marca da dissonância: Retrato do Brasil, de Paulo Prado. Neste texto “maldito”, o mecenas de São Paulo defende a tese do brasileiro como um povo triste. A melancolia seria a má herança da colonização, resultado da luxúria do índio e da cobiça do colonizador. O mestiço apareceria como o produto da libertinagem desenfreada da índia e do português. O primeiros colonos, descreve, eram degredados, desertores, náufragos ou aventureiros cujos PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA crimes ou ambição levaram a abandonar a “Europa civilizada”. Na “terra radiosa”, entregam-se à lascívia, à admiração fácil da mulher indígena, “mais sensual do que o homem como em todos os povos primitivos”, que “em amores dava preferência ao europeu”. Desse modo: “Do contato dessa sensualidade com o desregramento e a dissolução do conquistador europeu surgiram nossas primitivas populações mestiças. Terra de todos os vícios e de todos os crimes”. (1997, p. 76). Quando não se dedicavam à vida selvagem, vivendo em concubinato com as índias, o europeu partia para a busca desenfreada do ouro, o único ideal acima da luxúria. A tristeza resultava da ausência de um ideal mais nobre. A religião, argumenta, havia contribuído como a higiene moral da colonização inglesa, o que fez com que os Estados Unidos prosperassem como nação numa “atmosfera saudável”. No Brasil, ao contrário, tudo contribuiu para o “vício sexual”: a brutalidade do colonizador, o clima tórrido, a mulher indígena ou africana, a ausência de valores. Na luta entre esses apetites – sem outro ideal, nem religioso, nem estético, sem nenhuma preocupação política, intelectual ou artística – criava-se pelo decurso dos séculos uma raça triste. A melancolia dos abusos venéreos e a melancolia dos que vivem na idéia fixa do enriquecimento – no absorto sem finalidade dessas paixões insaciáveis [...]. No Brasil a tristeza sucedeu à intensa vida sexual do colono, desviada para as perversões eróticas, e de um fundo acentuadamente atávico. (PRADO, p. 141). Neste ponto de sua argumentação, na qual recorre ao determinismo científico para comprovar que o excesso sexual causa tristeza – “após o coito os 61 animais ficam triste, salvo o galo, que canta” -, Prado argumenta que a saudade da terra, o degredo, levava o português a uma vida vazia e monótona. A formação de nossa nacionalidade ocorre sob uma obsessão melancólica só amenizada pelo sonho do enriquecimento fácil e do erotismo. Essa construção histórica, antecipadora das mega-narrativas de Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda, é um negativo das proposições de Mário e Oswald de Andrade. Basta relembrar o slogan oswaldeano: “A alegria é a prova dos nove... no matriarcado de Pindorama”. Em Macunaíma, o erotismo é traço libertador da psicologia nacional, além do humor que perpassa toda a rapsódia. Por isso, quando publicado, Retrato do Brasil foi recebido com reservas. Oswald, em resenha para O Jornal, se perguntava como um “homem à la page” como Prado escrevia um “livro pré-freudiano” sobre o Brasil. A ressalva recai sobre o tom pudico e moralista do autor ao tratar da luxúria, condenando aquilo que no PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA “Manifesto antropófago” é exaltado, a libertinagem – aliás, título do livro que Manuel Bandeira lançaria no ano seguinte. A liberdade sexual constituía um dos traços “modernos” que o matriarcado prefigurava, e era o que Oswald fora buscar na Europa. O mal da colonização resultava da repressão jusuíta ao corpo – que pena que o português vestiu o índio, fosse o contrário... Oswald credita o moralismo a “uma homenagem ao meio culto”, em particular a Capistrano de Abreu, mestre do “fotógrafo do Brasil”. João Ribeiro, em outra resenha de época, publicada no Jornal do Brasil, credita à influência de Capistrano a tese central de Prado. Capistrano é uma referência constante em todo o livro, sendo que os últimos estudos de Capistrano foram subvencionados pelo mecenas dos modernistas. Ribeiro toca em outro ponto, a luxúria e a cobiça “não são sintomas de tristeza antes definem a vida alegre e as longas esperanças de riqueza e otimismo” (ibid, p. 225). Eis como, talvez inconscientemente, Prado tocava em outro tabu, que os próprios modernistas não queriam totemizar: a impossibilidade de pensar o brasileiro como um povo triste e pessimista. Tabu antigo. Basta lembrar Sílvio Romero, considerando o pessimismo machadiano como uma falsa representação da alma brasileira, porque: Nós os brasileiros não somos em grau algum um povo de pessimistas. Em nossa alma nacional, em nossa psicologia étnica não se encontram as tremendas tendências de desalento mórbido e de resignação consciente diante da miséria, da mesquinhez, do nada incurável da existência humana. (ROMERO, 1943, p. 122). 62 O modernismo, em sua vertente antropofágica, soube transmutar a imagem (oficial) “do brasileiro como um povo alegre”, em algo menos ingênuo e mais sarcástico, simbolizada, por exemplo, em Macunaíma. Isto não significa que a literatura modernista não tenha o seu lado “triste”, a lírica andradina a confirma. No fundo, Paulo Prado critica a preguiça como congênito da “alma nacional”. A “raça brasileira” nasce obcecada pelo sonho da riqueza fácil e pela luxúria, na visão de um empresário letrado como o autor em questão, esses vícios, a indolência e a sensualidade, seriam responsáveis pelo atraso nacional. O modelo de nação moderna e progressista era a América do Norte, na qual, segundo o historiador, a severidade do protestantismo havia contribuído para impor limites morais aos colonos, assim como projetar uma instância de valores superiores ao materialismo e aos excessos da carne. Essa era uma visão dissonante não só como o lado dionisíaco do modernismo de 22, mas também com reconfiguração do PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA pensamento antropofágico nos anos 50, que apontará justamente na moral protestante a religião do lucro. Por outro lado, ao desafiar, ou melhor, ignorar as idéias de seus protegidos, Paulo Prado demonstrava sua independência de pensamento em relação ao grupo modernista, ou seja, ao ser influenciado pela mentalidade passada – no caso, Capistrano de Abreu – revelava o quanto o discurso estava longe da prática. A renovação modernista não convencera seu próprio mecenas. 63 4 Balanços Não quero fazer história e não direi o que foi a luta entre o Partido Democrático, dos moços, e o PRP. Apenas direi que os moços enquadrados por velhos políticos, muitos deles profissionais, logo se desiludiram e aos poucos abandonaram a luta. Antes de compreender que o problema era puramente educacional, ainda fizeram com entusiasmo a Revolução de 32. Foi essa que, afinal, abriu os olhos de todos revelando nossa carência terrível de homens. Fundou-se, então, a Escola Livre de Sociologia. Sérgio Milliet (Testamento de uma geração) 4.1 PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA Itamarati, 30 de abril de 1942 No biênio de 1941-42, o jornalista Edgar Cavalheiro coletava, para O Estado de São Paulo, um memorial das “quarenta figuras da intelectualidade brasileira”, todos contemporâneos do Modernismo de 22, entre eles Oswald de Andrade, Sérgio Milliet, Di Cavalcanti, Tristão de Ataíde e Jorge de Lima. Além do “credo pessoal” de cada escritor, ou seja, os princípios estéticos que nortearam suas carreiras, solicitava um resumo de suas posições diante dos “problemas religiosos, políticos, literários, artísticos e sociais” (1944, p. 8). O inquérito de Cavalheiro constituía, no calor do momento, a primeira recepção crítica do Modernismo, vinte anos depois da Semana de Arte Moderna e com os seus principais idealizadores ainda vivos. Dois pontos são recorrentes nos relatos dos convidados: a sensação de que o Modernismo, apesar dos talentos revelados, não foi além do esteticismo; o impasse entre política e religião como alternativa ao individualismo, responsável pela postura estetizante de 22. Jorge de Lima, em seu “testamento” – “Cristianismo e civilização” -, dá o tom polêmico ao declarar sua ojeriza diante de “dois vícios atuais”: a burguesia social e a burguesia literária. Da primeira, restava “poucas virtudes”; da segunda, “nada resta. O esteta é o seu tipo” (idem, p. 161). Dois convidados, no entanto, silenciaram-se. O primeiro foi Monteiro Lobato, recém-libertado da prisão por causa de suas críticas ao governo Vargas 64 em relação à política de minérios. O escritor, que antes havia recusado o convinte do presidente para a direção do Departamento de Propaganda e Difusão Cultural (o futuro DIP), publicava seu derradeiro livro Zé Brasil, no qual denunciava a exploração do trabalhador rural pelo latifúndio. O livro, publicado pela editora comunista Vitória, seria apreendido. Logo após, Lobato mudou-se para a Argentina, numa espécie de auto-exílio, ou como diria Oswald de Andrade, “para poder comer bife”. O outro convidado foi Mário de Andrade. O “papa do modernismo” chegou a redigir o seu memorial, mas depois pediu para que Cavalheiro não o publicasse, sob a alegação de que não havia “clima” para o que pensava. Segundo PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA o organizador: Uma noite tenho a grata surpresa: o testamento estava em ordem [...]. Pois bem, concluída a leitura e depois de algumas frases banais de entusiasmo pelo trabalho, realmente admirável e de uma coragem muito rara, tenho a triste notícia de que aquilo fora “somente para lamber os beiços”, pois ainda hesitante sobre sua publicação, ele tencionava pensar melhor sobre a oportunidade de divulgá-lo ou não. E acrescentou: “Não há ambiente para ele. Irá causar, quando muito, pequenos escândalos, mexericos pessoais. Deturparão problemas mais humanos e gerais em prol de estéreis ataques individuais, nem sequer restará o consolo de um amplo escândalo que agite a água morna na qual nos aborrecemos”. (ibid, 1944, p. 9) O momento propício para sua (auto)avaliação do modernismo ocorreu durante as comemorações dos vinte anos da Semana de 22, através de sua conferência no Itamarati, “O movimento modernista”. Uma das principais articulações do seu texto foi a demonstração de que sua geração foi apolítica, portanto, não serviu como inspiração para as questões dos anos 40; por outro, em sua bravura estética, abrira caminhos para se pensar o lugar do intelectual na sociedade. “O movimento modernista”, começava, “era nitidamente aristocrático”. A Semana de Arte Moderna aparecia como o momento em que os modernistas perderam a virgindade, já que antes “éramos uns puros”, “vivendo numa união iluminada e sentimental das mais sublimes”. A Semana de 22, ao mesmo tempo em que foi um “coroamento lógico” daquela geração, também foi “um primeiro golpe na pureza do nosso aristocracismo espiritual”. Consagrado o movimento pela aristocracia paulista, si ainda sofreríamos algum tempo ataques cruéis, a nobreza regional nos dava mão forte... e nos dissolvia nos favores da vida. [...]. Numa fase em que ela não tinha mais nenhuma realidade vital, como certos reis de agora, a nobreza rural paulista só podia nos transmitir a 65 sua gratuidade. Principiou-se o movimento dos salões. E vivemos uns oito anos, até perto de 1930, na maior orgia intelectual que a história artística do país registra. (ANDRADE, 1974, p. 238). Em seu balanço, Mário antecipava a tese de Intelectuais e classe dirigente no país, porque a partir dos anos 30, com o fim da era de ouro do café, a burocracia estatal substituiu o mecenato rural. Os vínculos com a aristocracia garantiriam-lhe a direção do Departamento de Cultura de São Paulo. Muito da amargura de sua conferência deve-se a esta experiência traumática. O funcionalismo público resolvia seus questionamentos sobre a utilidade do artista, mas a burocracia estatal, com a qual não soube lidar, consumia seu entusiasmo e o amargurava. Embora sua geração tenha permitido à geração seguinte “uma verdade social, uma liberdade (infelizmente só estética), uma independência, um direito às PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA suas inquietações e pesquisas”, ela não contribui para o “amilhoramento políticosocial do homem”, apesar da sua “nacionalidade” e sua “universalidade”, porque no fundo foram uns “inconscientes” (idem. p. 225). Os mesmos temas – “abstencionismo” e “inconsciência social” – vinham sendo pensados, dolorosamente, pelo autor, tanto que já apareciam em um texto anterior à conferência, “Elegia de Abril” (1941), na qual declarava que sua geração não conseguira “definir qualquer consciência da condição do intelectual, seus deveres para com a arte e a humanidade, suas relações com a sociedade e o estado”(ibid, p. 186). A conferência, apesar de seu balanço melancólico e do tácito acerto de contas com sua “pífia geração”, em seu penúltimo parágrafo, exala uma ponta de entusiasmo (ou esperança) ao dirigir-se aos seus ouvintes: “Façam ou se recusem a fazer arte, ciências, ofícios. Mas não fiquem apenas nisto, espiões da vida, camuflados em técnicos de vida, espiando a multidão passar. Marchem com a multidão”. Parece claro que, a esta altura, Mário não estava se dirigindo à sua geração, mas sim aos estudantes presentes do Itamarati, futuros diplomatas e escritores. O tom é o do professor, mestre de gerações. Em suas correspondências e entrevistas, assim como em sua conferência e “Elegia de abril”, Mário discutia a necessidade de participação social do artista, como esta exigência representava um novo ideal, ausente no ideário do Modernismo de 22. Segundo o escritor, o privilégio da experimentação estética na literatura modernista terminara numa espécie de hiper-individualismo, ou “falso experimentalismo” – como dirá em “O artista e o artesão”. Deste estado derivava 66 o “paradoxo irrespirável” em que vivia, pois julgava que, em nome do individualismo, deformara (ou desvirtuara) sua obra. Assim, parecia-lhe impossível uma síntese feliz entre arte (produto de uma individualidade, ou vaidade) e política (esforço coletivo, “coisa útil”). Em sua última entrevista, para Homero Senna, em 1945, quando questionado se “a poesia social é de uma sinceridade maior do que a poesia individualista”, Mário responderia que: A convicção intelectual nos obriga a forçar nossas sinceridades espontâneas, ou erradas, em proveito de uma sinceridade maior. [...] O poeta está educado por século e meio de arte gratuita, não-participante, socialmente conformista, distanciadora de classes, a serviço da classe dominante e para gozo dela. Pois cabe a ele, é seu dever, se reeducar. (SENNA, 1996, p. 68). Nesta derradeira entrevista, Mário voltava ao mesmo problema que o agoniava, se a participação social do artista, seu engajamento “nas lutas políticas”, representado por uma busca por uma consciência maior do que do individualismo, PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA não seria uma forma de traição da sua vocação. A solução, sair da torre de marfim. Neste sentido, sua fala reitera o conselho dado aos estudantes no Itamarati. O estupendo na fala de Mário não é tanto como revela uma “contradição” no projeto ideológico modernista, seu nacionalismo desvinculado de uma consciência política. Isso só é uma contradição quando se considera o termo “aristocracismo” uma coisa conformista. Aliás, o ilustre palestrante não era um aristocrata, mas um professor de música, um homem culto. Este é o dado provocante, pois sua revisão do movimento modernista narra, nas entrelinhas, a ascensão de um homem da classe média ao circuito fechado das elites. O autodidatismo, que o levou à domínios culturais diversos (literatura, folclore, etnografia, história), na visão de Sérgio Miceli, compôs um repertório de “investimentos culturais” que lhe “permitiram levar a cabo o projeto de ser um intelectual total nas condições da época” (1979, p. 26). Neste sentido, o Modernismo foi um projeto de ambição pessoal, inserido numa proposta coletiva, que se fragmentou ou se dissolveu nas relações de favor com a direita e simpatia com a esquerda, restando como prêmio a ascensão intelectual. Mário de Andrade seria – e já o era neste momento – a maior realização do movimento paulista. 67 4.2 Belo Horizonte, exposição de Arte Moderna, 1944. Contraponto à conferência de Mário de Andrade, “O caminho percorrido” foi o título adotado por Oswald para sua avaliação dos vinte e dois anos da Semana de Arte Moderna. A conferência fez parte do programa da 1ª Exposição de Arte Moderna, realizada em Belo Horizonte, sob iniciativa do prefeito Juscelino Kubitschek, com a participação de Di Cavalcanti, Tarsila do Amaral, Volpi, Portinari, Lasar Segall, Iberê Camargo e Guignard, curador da exposição. A imprensa mineira apelidou o evento de “Semaninha de Arte Moderna”. Dois anos depois da conferência do Itamarati, em uma evidente resposta a Mário, Oswald declarava que “de 22 para cá, o escritor não traiu o povo, antes o descobriu e o exaltou” (1975, p.97). Em uma crônica de 1948 – “telefonema” para PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA Tristão de Athayde -, contra a tese que sua geração havia sido “inconsciente” e “abstencionista”, argumentava que “ao contrário do que disse Mário de Andrade no Itamarati, nessa grande querela soubemos sempre nos engajar e nos comprometer. Por isso mesmo tínhamos que nos aliar ou brigar. Brigamos” (1996, p. 287). A conferência de Belo Horizonte refletia uma tomada de posição, acelerada pelo inquérito de Edgar Cavalheiro, pois os ecos do Testamento de uma geração ainda são ouvidos: Com a guerra, chegamos aos dias presentes. E os intelectuais respondem a um inquérito. Se a sua missão é participar dos acontecimentos. Como não? Que será de nós, que somos as vozes da sociedade em transformação, portanto seus juízes e guias, se deixarmos que outras forças influam e embaracem a marcha humana que começa? O inimigo está vivo e ainda age. (ANDRADE, 1975, p. 99). Em clara resposta a Mário, reafirmava o modernismo como potência revolucionária, já que o primeiro havia limitado a força do movimento. Se a questão era o compromisso social dos artistas com causa maiores, Oswald respondia que, sem o modernismo, não haveria tal inquérito. Esse raciocínio parece claro em sua exaltação (populista) de que, após 22, o escritor nunca traiu o povo, antes o descobriu e o exaltou – “Vede o exemplo admirável de Jorge Amado” (ibid, p. 97). 68 O ponto alto de sua narração é a articulação histórica entre a Inconfidência Mineira e a Semana de 22. Segundo o conferencista, a Inconfidência Mineira seria uma pré-figuração do modernismo, uma vez que ambos foram animados pelas mesmas forças renovadoras, o mesmo contato com a “Europa subversiva”. No primeiro caso, a influência do Iluminismo no discurso insurreto a favor da independência da coroa portuguesa; no segundo, o contato com as vanguardas como princípio revolucionário. A Exposição de 44 apenas confirmava os laços entre São Paulo e Minas Gerais (também confirmados pela política café-com-leite). Desse modo, diante do prefeito Juscelino Kubistchek, Oswald declarava que “em 22 São Paulo começava. Hoje Belo Horizonte PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA conclui”. Nunca se poderá desligar a Semana de Arte, que se produziu em fevereiro, do levante do Forte de Copacabana que se verificou em julho, do mesmo ano. Ambos os acontecimentos iriam marcar a maioridade do Brasil. Essa maioridade fôra prenunciada em Minas pelos inconfidentes. E que queriam os inconfidentes senão acertar o passo com o mundo, senão tirar o meridiano exato de nossa hora histórica? [...]. Em 22, o mesmo contato subversivo com a Europa se estabeleceu para dar força e direção aos anseios subjetivos nacionais, autorizados agora pela primeira indústria, como o outro o fôra pela primeira mineração. (ibid. p. 94). O aspecto revolucionário dos inconfidentes era um tema caro a Oswald, tanto que, no ano seguinte, escreveria a monografia “Arcádia e a inconfidência”, como tese para o concurso da Cadeira de Literatura Brasileira da USP. Portanto, a citação vai além da diplomacia. Os artistas paulistas, em sua maioria modernistas, foram convidados pelo prefeito para conhecer as obras de Oscar Niemayer, que faziam parte da mostra de Arte Moderna. A Exposição reafirmava os laços entre os escritores paulistas e mineiros, que viam sendo cultivados desde a década de 20. Neste ponto, o grande articulador seria Mário, que se correspondera tanto com os “antigos” quanto os “novos” – Fernando Sabino, Murilo Rubião, Henriqueta Lisboa. A Exposição foi tema de três crônicas, publicadas no Correio da manhã, posteriormente reunidas no volume Telefonema. A primeira - 25 de abril de 1944 , saúda a iniciativa do prefeito Kubstichek, em cujos discursos havia uma “preocupação literária”. A segunda - “Como foi”, 6 de junho de 44 - comenta a recepção à caravana paulista, afirmando que Juscelino é “o homem que está construindo o cenário para a alma nova do Brasil”, com “os instrumentos que desbravarão o futuro” (1996, p. 111). No intermezzo, há uma crônica a respeito de 69 Tiradentes, lamenta a hesitação em “dar a Tiradentes um dia branco na folhinha nacional. Esse dia só pode ser vermelho” (ibid, p. 90). Em outra crônica -''A gilete e o pincel'' – publicada no Diário de S. Paulo, comenta o ato de “terrorismo” de um anônimo que passara gilete em alguns quadros expostos; o caso, para Oswald, demonstrava o quanto ainda havia de incompreensão em relação à arte moderna, e o quanto a incompreensão ainda a torna subversiva e libertária, pois o ato correspondia às perseguições nazi-fascistas. O elogio ao prefeito revela um surpreendente faro político, vislumbrando em alguns momentos o futuro presidente. Por outro lado, ao praticamente ignorar, como interlocutores, os escritores que participaram da Exposição (criticando-os, aliás), podemos imaginar o quanto as altas esferas do poder formavam os interlocutores privilegiados de Oswald. Neste caso, sua conferência não esconde o caráter oratório, de palanque. Não se pode esquecer que o orador sempre exaltou o PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA fato de Washington Luis, até então presidente da República, ter sido seu padrinho de casamento com Tarsila. Em carta a Antonio Candido, Rudá de Andrade confessava que, a mágoa que sentia por não ver sua obra valorizada como queria, levava-o a “distorções intelectuais que, primariamente, transpareciam no valor que dava (fora da opinião real que tinha) às suas vinculações com instituições e pessoas consagradas” (apud CANDIDO, 2004, p. 64). Outro tópico importante na conferência, que se refletirá em outros artigos do Ponta de lança, é o tom passional com o qual se defende das críticas dirigidas pela intelectualidade acadêmica e pela geração de 45 – e pelos próprios excompanheiros. O trecho a seguir, embora extenso, é revelador: Na elucidação da questão da antropofagia entra um ato de elegância do Sr. Tristão de Athayde que muito me comoveu. Antes de me referir a isso, quero fazer notar que o Sr. Tristão de Athayde está tingindo a cabeça de acaju. Esquecese que há pouco mais de um ano desejava em grandes artigos que a Rússia fosse esmagada pela Alemanha nazista, pois seria logo em seguida posta a nocaute pelos vencedores de Cassino.Agora já vê diferente e deseja retomar a posição contrita de crítico ao par. [...]. Mas antes dessa remada para a esquerda, o leão da Academia que Agripino Grieco chamou de “rei dos animais de farda”ou seja o inodoro e presidencial Sr. Múcio Leão deu à publicidade uma carta de Antônio Alcântara Machado que lhe foi piedosamente passada pelo crítico católico d’O Jornal, a fim de me xingar pela boca de um morto. Quem havia de publicar essa carta senão a ratazana em molho-pardo que é o Sr. Cassiano Ricardo? Nesse documento vem à tona o estado de sítio que proclamaram contra mim os amigos da véspera modernista de 22. Pretendia-se que eu fosse esmagado pelo silêncio, talvez por ler lançado Mário de Andrade e prefaciado o primeiro livro de Antonio Alcântara Machado. É ele mesmo quem depõe de além-túmulo. (ANDRADE, 1975, p. 96). 70 A carta a qual se refere, pelo conteúdo, provavelmente foi escrita em 15 de maio de 1930. Nela, Alcântara Machado comenta seu rompimento com Oswald, a quem “passou a evitar”, pois “tinha tudo, menos caráter”. Acusava-o de transformar a Revista de antropofagia, em sua segunda fase, em órgão de difamações e injúrias. Em sua segunda dentição, contanto com vários “colaboradores”, na verdade pseudônimos usados por Oswald e Geraldo Ferraz, atacou-se irônica e implacavelmente vários participantes do modernismo, entre eles: Mário de Andrade, Paulo Prado, Guilherme de Almeida. Para Alcântara Machado, o fato de o Vaticano ter vetado a anulação de seu primeiro casamento, levou Oswald a atacar a Igreja; “contra Mário e outros que sempre o prestigiavam”, o ataque é por “inveja”. Por fim, concluía, “o Oswald pretende ser o mentor. Não é. Ficou desesperado” (2002, p 84). Na opinião de Rudá de Andrade a falta do reconhecimento imediato, uma PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA consagração semelhante à de Mário, levou Oswald “a abandonar os maiores objetivos intelectuais, para buscar a confirmação da importância de sua obra e sua vida (para ele e para os outros)”. Conclui que “sua mágoa oculta” não era com Mário, mas com “o meio intelectual da época” (2004, p. 64). Tal opinião é reiterada por uma especialista na obra do autor, Lucia Helena, no texto “Um caminho percorrido”. Segunda a autora, nos textos escritos nos anos 40, transparece uma "necessidade de 'defender-se' do ostracismo e dos desentendimentos que o tempo acumulava": Neles ressoa o mesmo espírito em que se misturam mágoa, reavaliação, defesa e cobrança pelo que Oswald interpretava como falta de reconhecimento. (...). Por um lado, a alguns pode parecer egocêntrica e ressentida a postura de Oswald, ao “relembrar”e valorizar seus feitos.Além disso, destoa da atitude de Mário de Andrade, que em 1942, na conferência sobre a Semana de 22, desautorizara e minimizara as vantagens do afã destruidor da voragem modernista.Enquanto Mário fazia uma avaliação de rumos em que repudiava o ‘calor da hora", Oswald nele insistia. (apud TELES, 1995, p.19). Esse amálgama de sentimentos pessoais e posições intelectuais refletiu na recepção de sua obra. Para Antonio Candido, Oswald consistia num “problema literário”, porque em sua obra o mito – sua biografia – pesava mais na análise do que sua qualidade literária. Comentando esta proposta, Lucia Helena conclui que a crítica literária, ora tentando mostrar que a vida do autor “comprometeu sua obra, ou que a promoveu além do seu valor, ora tentando separar o trigo do joio e serenar os espíritos”, tornou-se tendenciosa. Candido, segundo ela, fôra um dos 71 raros a “reavaliar o autor a partir de seu próprio texto, sem deixar que os mitos criados o envolvam numa aura de agressividade e polêmica” (idem. p. 20). 4.3 Fechando o primeiro balanço As duas conferências expõem como Mário e Oswald pensaram o movimento modernista de modo diferente, e como esta diferença seria responsável pelo lugar que ocupariam no processo de canonização do modernismo. Enquanto a obra de Mário, pela amplitude dos temas que abordou, constitui-se em um desafio para a crítica literária (ainda é!), porque envolve a elaboração de um conceito de identidade cultural que permitiu articular o Modernismo com outras fases de nossa evolução literária – em particular, o romantismo -, assim como PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA dramatiza a participação do intelectual na vida pública, no momento em que o crítico literário, através da formação acadêmica, também é um funcionário público. Mesmo a crítica da geração de 45 às “impurezas estéticas da geração de 22”, condenando o poema-piada e o verso livre para promover uma volta formalismo estético, foi de certo modo prevista por Mário. No importante ensaio “A poesia em 1930”, sobre a estréia de Drummond (Alguma poesia), Mário de Andrade condenava-lhe a adesão “aos poemas curtos feitos pra gente dar risada, o poema-cocteil, o ‘poema-piada’, na expressão feliz de Sergio Milliet”. Segundo o crítico, “o poema-piada é um dos maiores defeitos a que levaram a poesia brasileira contemporânea. Antes de mais nada, isso é facílimo: há centenas de anedotas por aí”. Além de Drummond, “Manuel Bandeira também caiu, às vezes, nessa precariedade” (1974, p. 35). Em sua última entrevista, iria dizer que nunca abandonou a métrica e a rima não era uma prisão11. Não por acaso, a geração de 45 o poupou. Já Oswald foi praticamente decretado “morto em vida”, porque grande parte dos textos críticos que serviram de base para a recepção crítica nos anos 50 deram-lhe pouca importância. A geração de 45 iria considerá-lo o “calcanhar-deAquiles” da poesia moderna (Lêdo Ivo dixit). Oswald responderia na lata: Ledo Ivo era o “chulé-de-Apolo” da poesia moderna. Manuel Bandeira não o incluiria 11 cf: SENNA, 1996, p. 70. 72 em sua Apresentação da poesia brasileira, sob alegação de que, como poeta, escrevia como “um romancista de férias”. Seus últimos anos, como pretendemos demonstrar, são marcados por uma tentativa desesperada – e infrutífera – de conquistar prestígio, ter seu nome reconhecido, penetrar nos meios acadêmicos. Para Antonio Candido, os dois Andrades, unidos pela coincidência do sobrenome, representariam uma dialética fundamental para literatura brasileira após 22. Quem seria mais importante? PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA Para quem estiver preocupado com os precursores de um discurso em rompimento com a mimese tradicional, seria Oswald. Para quem está interessado num discurso vinculado a uma visão do mundo no Brasil, seria Mário. Quem construiu mais? Mário. Qual personalidade mais fascinante? Oswald. Qual individualidade intelectual mais poderosa? Mário. Qual o mais agradável como pessoa? Oswald. Qual o mais scholar? Mário. Qual o mais coerente? Mário. Quem explorou mais terrenos? Mário. Quem pensou em profundidade a realidade brasileira? Mário. Oswald era um homem de intuições geniais, mas com escalas de valor muito desiguais. Em resumo, foram dois grandes homens, sendo irrelevante optar entre eles. (CANDIDO, 1992; p. 244). Alfredo Bosi argumenta que, após o romance de 30, tanto Mário quanto Oswald sentem que já haviam dado o seu melhor, por isso tentam, “movidos por um desejo antagônico, “assumir uma ou outra perspectiva pós-modernista” (2003, p. 222). A (má) consciência do artista e do intelectual diante dos conflitos sociais e políticos dos anos 40, a vontade da geração de 45 em retomar os laços com tradição poética através do soneto, a preocupação filosófica com o destino do homem, tudo se opunha ao espírito otimista de 22. Neste sentido, o inquérito de Cavalheiro, já em seu título, parecia uma homenagem póstuma a esta geração, afinal, “testamento” pressupõe um inventário de coisas passadas deixadas como heranças para as futuras gerações. No caso do modernismo de 22, contudo, sua herança foi imediatamente renegada pela geração seguinte. O contraponto ao inventário de Cavalheiro foi a série de entrevistas realizadas por Mário Neme, entre os anos de 1943-44, com a nova intelectualidade, representada entre outros por Antonio Candido, Mário Schenberg, Paulo Emílio Sales Gomes, Alphonsus Guimarães Filho. Posteriormente publicada em livro, ganhou o sugestivo título de Plataforma da nova geração. Nenhum dos depoentes se colocava como herdeiro da geração de 22. Ernani Silva Bruno, por exemplo, acusava os modernistas de 22 de seguidores de moda, criando um movimento de “sujeitos requintados, cheios de teorias” importadas. Paulo Emílio apontava no espírito boêmio o obstáculo ao 73 reconhecimento das verdadeiras causas do atraso nacional, como a desigualdade social. Oswald de Andrade, neste período um guerreiro solitário, reagiria na crônica “Plataforma sem trem”, acusando-os de “analfabetos de trinta anos, dançarinos de quatrocentos e jovens voluntários da burrice” (1996, p. 68). A posição do cronista, ao longo de seu tumultuado debate com a “nova geração”, é a defesa da geração de 22 e, por extensão, sua própria defesa, já que sobre ele caíam as críticas mais ferozes. Não por acaso, em seu depoimento, Antonio Candido, que ainda não o conhecia pessoalmente, responde a irônica colocação oswaldiana, na qual dizia que “os vinte e poucos anos” esta geração tem “Splenger no intestino”. Ao contrário dos que afirmavam que os modernistas de 22 eram “acríticos”, Candido amenizava: “os da geração famosa de Vinte (...) formaram ao seu modo uma geração crítica”. Logo adiante, tratava de esclarecer que pouca PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA “influência exerceram sobre nós”, pois eram uma geração politizada, enquanto a de Vinte fôra um “estouro de enfants-terribles”, guiadas pelo “personalismo faroleiro de Oswald de Andrade”; se houve influência, “por uma questão de inevitável continuidade histórica e cultural”, ocorrera de modo indireto, mais pelo entusiasmo com as obras poéticas do que uma identificação com o pensamento (1945, p. 32). Nesse primeiro balanço, havia uma tentativa de superação do Modernismo de 22, que levou Alceu Amoroso Lima, no Quadro sintético de literatura brasileira, a tachar a nova geração como “neo-modernista” (1956, p. 111). Designação que Oswald refutaria: “nada que é neo presta”. Se Mário morreria na sua torre de marfim, seu oposto trataria de se reinventar, atuando como uma voz dissonante no ambiente dos anos 40, como se fosse um incômodo fantasma. 75 5 Mário: correspondente de si mesmo A gente escreve pra ser amado, pra atrair, encantar, etc. Mário de Andrade (carta a Manuel Bandeira). 5.1 Solitário na rua Lopes Chaves. As cartas de Mário de Andrade aos escritores mineiros, segundo o relato de Hélio Pellegrino, eram uma “festa” e constituíam “propriedade coletiva”12. O PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA que há nestas correspondências endereçadas a uma pessoa, portanto privadas, mas desde o início de domínio público? O que há nelas de revelação individual e o que há de figura pública, escritor consciente de sua importância? O que há de calculada elaboração de uma personalidade literária? Elas têm este lado polivalente, podem ser lidas como parte do mito Mário de Andrade, ou como subsídio para análise de suas obras e “a configuração do intelectual moderno” (2002, p. 191). Separar o “privado” do “público” é uma das primeiras precauções para a leitura crítica. O elemento “público” abrange seus poemas, suas ações, suas relações; o “privado” abarca os mistérios de sua personalidade, os domínios dos seus julgamentos, enfim, sua moral. Logo, a esfera particular não oferece nenhum conforto para assentarmos nossa bibliografia sem o risco de cair em psicologia sensacionalista, julgamentos morais, indiscrição. A fortuna crítica do autor, ao lidar com sua vasta correspondência, tem sido muito discreta, quase pudica ao lidar com sua personalidade. No entanto, o indiscreto biográfico permanece latente nas cartas, como uma tentação. A importância revelada pelo documento biográfico não incide apenas nos aspectos anedóticos da biografia do autor, mas na oportunidade de se refletir sobre a relação entre arte e vida, produção epistolar e ficcional, projeto estético e projeto político. (SOUZA, 2002, p. 191) 12 cf: Mário de Andrade – cartas aos mineiros, 1997, p. 84. 76 As missivas revelam em minúcias o trabalho de elaboração intelectual e participação política de Mário de Andrade, por isso a definição de Eneida Maria de Souza é exemplar. Para tanto, a ensaísta diferencia a escrita epistolar (“autoretrato”) do relato biográfico (“autobiografia”). O auto-retrato não projeta uma visão total do sujeito, como a estrutura cronológica da biografia, mas sim “fragmentos” deste sujeito. Em seu conjunto, no entanto, as epístolas constituem uma macro autobiografia, um gigantesco mosaico. Isto é curioso, pois de todos os modernistas, Mário foi um dos poucos que não escreveu um livro de memórias. Em um texto de 1946, Antonio Candido atribuía às cartas, posteriormente publicadas, um lugar capital para uma “vista completa da sua obra e do seu espírito”. Ou seja, parte essencial do mito: “a sua correspondência encherá volumes e será porventura o maior monumento do gênero na língua portuguesa” (1959, p. 209). PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA As cartas, memórias e diários, no pensamento de Candido, são elementos importantes para a solidificação do “sistema literário”, formam os vínculos entre autores, configuram a “vida literária”. Em suas memórias, Oswald de Andrade confessaria que as escrevera instigado por Antonio Candido, pois, segundo o crítico, “uma literatura só adquire maioridade com memórias, cartas e documentos pessoais” (1978, p. 6). O hábito da correspondência literária, esclarecia João Alphonsus Guimarães Neto no Testamento de uma geração, uniu os escritores de norte a sul, formando um admirável laço de unidade nacional, a “começar por esse oportuno Mário de Andrade, que ainda a cultiva até hoje” (1944, p. 31). A correspondência, retomando Candido, teve o papel de criar uma “consciência funcional da inteligência brasileira” (1959, p. 210). Através delas, Mário de Andrade, conscientemente, assumiu uma função de liderança no Modernismo, que garantiria seu futuro pontificado. Para Wilson Martins, quando publicada, a correspondência andradina teria importância maior, na literatura brasileira, do que a de Flaubert na literatura francesa, porque ultrapassava os limites estritamente pessoais (1965, p. 237). Em carta a Manuel Bandeira, Mário fazia uma distinção entre o que “escrevia pra público” e “pra amigos”, e recomendava: “Si eu morrer amanhã não quero que você as publique” (1958, p. 87). O fiel amigo, no entanto, foi um dos primeiros a publicá-las, por causa de “seu valor intríseco” e do que havia de “interesse social”. Na primeira edição da correspondência Mário-Bandeira, o 77 organizador tomou a cautela de ocultar o “privado” para destacar o “público”, ou seja, para que o artista prevalecesse sobre o homem, o discreto predominasse sobre o indiscreto. Paulo Duarte, amigo íntimo do poeta, afirmaria que “todos os que conviveram com Mário sabem que ele escrevia cartas para serem publicadas” (1971, p. 8). Esta revelação põe em suspeita o caráter “íntimo” de suas correspondências, uma vez que há uma consciência sobre o valor documental da escrita. O próprio receio de vê-las publicadas sucedia a certeza de que cedo ou tarde viriam à público. A renovação modernista, na prática andradina, passavam pela transformação consciente da escrita epistolar em meio de debate. A partir do movimento modernista, escrevia Mário, as cartas “se tornaram uma forma espiritual da vida em nossa literatura” (1999, p. 216). Se aliarmos este raciocínio à PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA tese de Candido, a literatura brasileira atinge a maioridade com documentos “privados”, veremos como o missivista foi preparando uma obra monumental que, no balanço final, resultaria no que o Modernismo tinha de mais completo. São escritas aos amigos, mas também aos futuros pesquisadores, aos futuros arquivistas. Mário escrevia cartas com a percepção de que estava fazendo literatura, sendo que elevá-las à categoria de gênero, ou desararquizar os gêneros através delas, resultaria em mais um título de renovação na sala de troféus modernista. Assim, para manter a metáfora olímpica, remetente terminaria como recordista absoluto. O reconhecimento do gênio justificava a exposição de sua “intimidade”. Neste sentido, a seguinte declaração de um contemporâneo é provocadora: As suas cartas, muitas delas, talvez pudessem ser impublicáveis, se se tratasse de um qualquer. Mas são de Mário de Andrade, que não se pertence e não pertence a ninguém. É res nullius, bem da coletividade. A sua biografia psicológica e intelectual pertence aos homens e aos grupos humanos de pensamento e precisa ser conhecida com todas as grandezas e até as fraquezas de que era dono, as quais [...] aumentam aquela grandeza espiritual. (DUARTE, 1971, p. 3). A genialidade do escritor, fosse justificada pelo seu interesse pelo social fosse por sua integridade, anulava qualquer contradição, pois até na injustiça era justo! Neste sentido, sua correspondência com os jovens escritores, que o procuravam em busca de apoio, solidificou a imagem edificante. O epistolar modernista se correspondeu com as figuras mais proeminentes da inteligência 78 brasileira na primeira década do século XX: Carlos Drummond de Andrade, Tristão de Ataíde, Gilberto Freyre, Luis da Câmara Cascudo, Sérgio Buarque de Holanda, Joaquim Inosoja, Augusto Meyer. Em pauta, a confirmação de um estilo moderno em literatura e a elaboração da cultura nacional. Suas correspondências, logo, têm a função política de descentralizar a problematização do nacionalismo, porque o escritor se correspondia com o norte (Cascudo), nordeste (Freyre), sul (Meyer) e sudeste (Holanda). A questão da brasilidade forma o “admirável laço de unidade” que caracteriza o modernismo a partir de 24. A revisão do passado colonial, a incorporação do folclore nos estudos eruditos, a mestiçagem como signo de identidade nacional são os temas centrais do projeto modernista, que precisava deslocar-se de São Paulo para ser nacional. A carta a Tarsila, na qual a informa sobre seu esforço de divulgação da “poesia pau-Brasil”, indicava como Mário percebia que o movimento, para tornarPUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA se vitorioso, precisava espalhar-se pelo país. O proselitismo é uma tônica nas correspondências dos anos 20, em particular com Carlos Drummond de Andrade. “Nós temos que dar uma alma ao Brasil”, escreve ao jovem poeta mineiro, “devote-se ao Brasil junto comigo”. Diante das desconfianças do amigo em relação ao “nacionalismo literário”, se não haveria o risco de sacrificar a universalidade em prol de um regionalismo, o remetente contra-argumenta: “o dia em que nós formos inteiramente brasileiros e só brasileiros a humanidade estará rica de mais uma raça, rica de uma nova combinação de qualidades humanas” (1982, p. 15). Mário leu atentamente os primeiros poemas Drummond, tenta convencê-lo a adotar o “erro gramatical” como estilização da linguagem moderna, critica seu eurocentrismo. Estava, enfim, “paubrasilizando” o novato poeta mineiro. Nos bastidores da história do modernismo, a correspondência andradina reforçou sua autoridade intelectual, ampliou sua esfera de influência e, paradoxalmente, centralizou em torno de sua persona o ideal de intelectual moderno, ou como revelaria Drummond, “o tempo modernista em pessoa”. Em nenhum momento, minimizava sua condição intelectual, isto é, deixava de ser escritor. Ao relembrar seu primeiro encontro com Mário, durante a exposição de 1916, Anita Malfatti revelava que ele se apresentou como “o poeta Mário Sobral”. Neste momento, ainda não era um poeta moderno, entregava à futura amiga um “poema parnasiano”, nem era um conhecedor da pintora moderna, mas já se 79 apresentava com uma identidade constituída, ou se quisermos, como uma personagem. No período entre a exposição de Anita e a Semana de 22, Mário de Andrade mergulhou em pesquisas sobre a pintura moderna, em particular o Expressionismo. Este conhecimento o levou à famosa conferência nas escadarias do teatro Municipal durante a Semana. O poeta não constatava da programação oficial e, de certo modo, sua palestra informal serviu de cartão de visitas. O livre trânsito do escritor nos círculos da alta burguesia cafeeira deveu-se, em grande parte, ao seu “capital intelectual”. O reconhecimento de sua erudição gradativamente o colocaria na proa do movimento. Suas epístolas, neste sentido, confirmavam o poderio de sua erudição, através dela estabeleceria uma rede de boas relações que o encaminhariam à direção do Departamento de Cultura de São Paulo. PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA 5.2 O poeta como funcionário público. Paulo Duarte indicou o modernista ao prefeito Fábio Prado para direção do Departamento de Cultura, com os seguintes argumentos: “Foi na casa de Mário, (...), que o convidei ou melhor o intimei a ser diretor do Departamento” (1971, p. 52). O germe do Departamento, confidencia, brotara das reuniões etílicas em seu apartamento, entre 1923 e 31, freqüentadas por Sérgio Milliet, Antônio Alcântara Machado, Mário de Andrade, Elsie Houston e seu marido Benjamin Peret, o surrealista. Pois foi nessa sala, em torno da fria mesa de granito, que um de nós – quem poderá saber qual de nós? – falou na perpetuação daquela roda numa organização brasileira de estudos de coisas brasileiras e de sonhos brasileiros. Mas cadê dinheiro? [...]. À vista de tantos argumentos, ficou decidido que um dia seríamos governo. Só para fazer tudo aquilo com dinheiro do governo. (DUARTE, 1971, p. 50). A tese que Duarte defenderá é dramática: a demissão do Departamento de Cultura matou Mário de Andrade. Para prová-la, lança mão de sua correspondência com o ex-diretor, quando este estava exilado no Rio de Janeiro e aquele em Nova York. O valor destas cartas é inquestionável, falam por si só. Um pesquisador mais cético talvez veja na argumentação do amigo uma 80 “romanceação” dos fatos e do modernista. Mas é justamente por isso que são interessantes. A publicação de suas cartas, defende Duarte, eram essenciais para “repor Mário de Andrade nele mesmo”, “limpar sua memória”, reconstituir as “linhas puras de sua personalidade” (1971, p. 10). O escritor emerge desta narrativa como um personagem mal compreendido, injustamente julgado, vivendo um doloroso martírio. Reconstituir a “pureza de sua personalidade” permitia modelar a imagem edificante do poeta, postá-la para a posteridade, não sem antes envolvê-la em um arcabouço sentimental em que “talento” e “genialidade” se confundem com “humildade” e “solidariedade”. Valores cristãos. O mito Mário de Andrade ganha aqui seu substrato moral: PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA Hoje Mário de Andrade está morto. Morto de corpo. [...]. Resta o exemplo intelectual puro que nos deixou. [...], capaz de viver sem poluir idéias e sonhos com a traição dos interesses imediatos e cujas tentações nauseabundas tão poucos sabem resistir, apesar de cheirarem a cadáver. (DUARTE, 1971, p. 14). A ênfase na integridade moral de Mário de Andrade torna ainda mais maniqueísta sua expulsão do Departamento de Cultura, pois se “suicidou aos poucos, matou-se de dor, revolta e angústia” (1971, p. 3). A imagem edificante atuou decisivamente na recepção de Mário entre seus contemporâneos. Nela também se misturou “privado” e “público” para formar um modelo ético. Por isso, para Duarte, era vergonhosa as acusações de desvio de verbas e gastos desnecessários durante a gestão andradina. O período em que dirigiu o Departamento de Cultura, Mário pôde levar a cabo os ideais modernistas, ou se preferirem, os seus ideais. Uma das fissuras do Modernismo foi o descompasso entre a postura nacionalista revolucionária e as condições políticas para pô-la em prática. Como diretor, o modernista teve a oportunidade de redefinir o papel do intelectual no processo de modernização social, levando para o campo da ação o proposto pelo pensamento. Em sua curta gestão, o Departamento criou uma discoteca pública, o coral paulistano, o quarteto Haydn, promoveu o congresso da língua nacional cantada, fez o levantamento das construções coloniais para serem restauradas e preservadas pelo SPHAN, financiou pesquisas etnográficas e folclóricas. E ainda estava nos planos: Uma seção nova de teatros estava sendo preparada para a direção de Antônio Alcântara Machado. [...]. Foi um trabalho louco. Uma febre de pesquisas, paleógrafos espiolhando gatufunhos do século XVI; [...]; a biblioteca municipal 81 fazendo coisas que não fazia há anos: comprando livros. Todos exaustos e contentes. (DUARTE, 1971, p. 52). Pelo exposto, o projeto ideológico modernista, a fundação da “cultura brasileira”, desenvolveu-se sob dependência do poder público, no caso a prefeitura paulista, atrelada ao Estado centralizador do governo Vargas. A “dolorosa realidade” (na expressão de Paulo Duarte) originou-se da ilusão de independência com o qual pretendiam gerar o Departamento de Cultura. Quando assumiu a direção, os quadros técnicos já estão completos, ao diretor resta a indicação de Oneyda Alvarenga. Em carta para Oneyda – 15 de maio de 1935 -, Mário de Andrade tentava se isentar dos critérios de amizade e favor presentes na criação do Departamento de Cultura. “Quero entrar pra Prefeitura inteiramente solicitado”, escreve, “sem dever favor a ninguém”. Sobre a missiva, em “O intelectual modernista PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA revisitado”, Silviano Santiago aponta para tentativa (ambígua) de Mário em esboçar uma “ética do aceito do emprego público”. Para escapar do “círculo vicioso do favoritismo”, o modernista enaltecia sua capacidade técnica, sua atuação na área cultural, sua independência intelectual, justificações para admissão, que o imunizavam contra o tráfico de influências (1989, p. 173). A ética andradina, no entanto, não anulava o favoritismo, já que sua nomeação, como o próprio Silviano Santiago sublinha, ocorreu como uma “trama de bastidor”, sob a proteção das boas relações com a família Prado, com os “papéis oficiais na gaveta” (ibid. p. 172). O cargo coroava a ascensão intelectual de Mário de Andrade, por isso, na carta a Oneyda, o “não dever favor a ninguém” enfatizava sua atuação no campo cultural como único fator determinante para a nomeação, espécie de antídoto contra os julgamentos da opinião pública. A ética que se estabelecia era conflituosa, não anulava o critério das boas relações como pré-requisito ao cargo, embora a situasse em termos de “merecimento”. O critério ético deslocava-se do campo das ações para o campo semântico. Favorecimento insinuaria uma dependência ao poder instituído; merecimento equivaleria ao reconhecimento de uma independência aos critérios de “amizade” na seleção dos cargos públicos. Assim, tampava-se o sol com a peneira. Silviano escreveu o ensaio sob o impacto de Intelectuais e classe dirigente no Brasil. Segundo ele, Sérgio Miceli quebrava o “silêncio inocente” que pairou sobre a “cooptação” dos modernistas pelo Estado Novo. Silêncio em grande parte 82 motivado pela leitura estética do projeto modernista. Mesmo nos seus aspectos ideológicos, quando a “consciência nacional” se fundia à participação política, o favorecimento aos modernistas de cargos públicos nos escalões do governo Vargas foi posto em segundo plano. Por exemplo, no pioneiro estudo de João Luiz Lafetá – 1930: a crítica e o Modernismo -, no qual se analisava a passagem do projeto estético dos anos 20 para o projeto político nos 30, a participação dos intelectuais modernistas no governo federal foi um tópico muito escondido. O Ministério da Educação, sob a gestão de Gustavo Capanema, mobilizou grande parte dos modernistas, constituindo-se, nos termos de Miceli, em “uma espécie de território livre infenso às salvaguardadas ideológicas do regime” (1979, p. 161). A lista de nomeações outorgadas pelo Ministério, incluía Carlos Drummond de Andrade, Chefe de Gabinete; Sérgio Buarque de Hollanda, diretor da Divisão de Consulta da Biblioteca Nacional; Rodrigo Mello Franco Andrade, PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA diretor do Serviço de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional; Manuel Bandeira, membro do Conselho Consultivo do SPHAN. Mário de Andrade, após a demissão do Departamento de Cultura, recorre às boas relações com Drummond e Capanema, sendo nomeado membro do Instituto Nacional do Livro, onde ajuda organizar o anteprojeto de criação do Instituto do Patrimônio Histórico e diretor do Instituto de Artes da Universidade do Distrito Federal, embora não possuísse diploma de curso superior13. A preocupação com arquitetura colonial era uma questão recorrente no ideário modernista desde 1924, quando elaboraram o documento “Amigos dos monumentos históricos”. A gestão de Capanema criou as condições necessárias para a realização prática da plataforma modernista. A cooptação, a qual Miceli se refere, não significou apenas a transformação do intelectual em funcionário público, mas também a legitimação de um modelo pensamento. Para além da “frieza de cientista social”, Silviano Santiago argumenta que “a leitura do acesso intelectual ao posto público” precisava ser enriquecida com as correspondências destes intelectuais (1989, p. 168). O estudo de Miceli reconstituía toda uma “genealogia do poder”, mas como os atores agiam entre si e estabeleciam seus vínculos ficou em segundo plano. Pelo registro biográfico foi A atuação intelectual de Mário lhe conferia o título honoris causa, seu prestígio aumenta mais ainda quando lembramos que Oswald de Andrade não pôde prestar concurso para cadeira da Filosofia da USP por não possuir diploma de nível superior. 13 83 possível reconstruir estes vínculos. Em certa medida, foi nesta direção que Santiago conduziu a questão: Trata-se de buscar textos onde o corpo próprio do autor foi dramatizado enquanto tal por ele mesmo, [...]. Trata-se, ainda, de configurar as aproximações e contradições ideológicas que se tornam salientes quando o texto da ficção e o texto da memória são analisados contrastivamente. (SANTIAGO, 1989, p. 167). Neste sentido segue Eneida Maria de Souza ao tomar as correspondências de Mário como “dramatização” do sujeito, autor, intelectual, homem público (1999, p. 192). Tanto Santiago quanto Eneida caminham para a dimensão “ética” da postura andradina, ou seja, seu drama pessoal entre a individualidade artística e o compromisso social do intelectual. Tal postura situa a “cooptação intelectual” como uma adesão crítica, e às vezes uma ruptura, do intelectual e do Estado. Em “A elegia de Abril”, Mário de Andrade defendia que o intelectual PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA deveria ser “um técnico de sua inteligência”. A técnica abrangia, naturalmente, a pesquisa estética, o aprofundamento dos conhecimentos. Tratava-se de aliar o “direito à pesquisa” - ao seu ver a grande conquista do modernismo de 22 - a uma função social da arte, sem empobrecer a linguagem, pois o intelectual não “pode mais ser um abstencionista”. Deste modo: [...] se o intelectual for um verdadeiro técnico da sua inteligência, ele não será jamais um conformista. Ele não terá nem mesmo esse conformismo “de partido” tão propagado em nossos dias. E se o aceita, deixa imediatamente de ser um intelectual, para se transformar num político de ação. Ora, como atividade, o intelectual, por definição, não é um ser político. Ele é o mesmo, por excelência, o out-law, e tira talvez a sua maior força fecundante justa dessa imposição irremediável da “sua” verdade. (ANDRADE, 1974, p. 193). Na carta a Oneyda, Mário aludia à sua “liberdade de pensar” como critério para sua independência em relação ao jogo do poder. Agora, depois da amarga experiência no Departamento de Cultura, o intelectual não porta nenhuma verdade política a não ser sua posição marginal diante do político. Em sua “elegia”, Mário de Andrade colocava a questão em um sentido claro: a divergência entre o estético e o político reduzia o intelectual, enquanto artista, a um artesão das letras; enquanto homem público, um candidato a cargos estatais. Nas entrelinhas, era uma dura crítica aos próprios escritores modernistas, também os pós-modernistas, homens divididos entre a arte da escrita e as funções do Itamarati. Neste pensamento, Mário se alinhava com Maiakovski, uma política revolucionária necessitava de uma arte revolucionária. Sobre a posição do 84 modernista diante da cobrança do alinhamento dos escritores com as teses esquerdistas – o destinatário do texto são os jovens reunidos na revista Clima -, Eduardo Jardim faz o seguinte comentário: [Mário] tinha preferido assumir, ao longo da história do modernismo, a defesa de um conceito de arte social que combinava as exigências morais a que o artista devia atender com atenção aos critérios estéticos a que toda a arte se submetia. (JARDIM, 2005, p. 88). A “exigência moral” do artista consistia no seu aprimoramento técnico. Não se trata, esclarece Mário, do “artesanato de colocar bem as palavras em juízos perfeitos”, mas sim de uma ontologia, uma busca pela “verdade do ser”, baseada “sempre da sua moralidade profissional” (1974, p. 194). A posição do poeta funcionário público não se revolvia facilmente, pois se dedicar ao aprimoramento técnico o levava ao individualismo – o tema da conferência de 42 -; abdicar-se da técnica o conduzia à política, à corrupção de sua verdade artística. PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA João Luis Lafetá, no capítulo dedicado a Mário, oportunamente intitulado “Ética e poética”, destacava que o dilema do autor derivava da incerteza se deveria sacrificar “uma concepção de arte afinada com o modernismo” ou tornarse um pregador de “verdades políticas”. O envolvimento do intelectual nos problemas do seu tempo, tema do inquérito de Cavalheiro, para Lafetá significou a virada do modernismo do seu projeto estético (o experimentalismo de 22) para o projeto político (o romance social dos anos 30). O crítico não perde a oportunidade de apontar a exumação, via ideologia, dos pressupostos realistas que a narrativa de 22 sepultara. Mário tentava conciliar as duas tendências, praticando poesia social (“O carro da miséria”, por exemplo), sem abandonar suas convicções estéticas. Na visão de Lafetá: “A postura ética, de participação, é transportada para dentro da postura estética, e a técnica vista como um esforço de desalienação” (2000, p. 213). Mas ainda persistem as dúvidas sobre a utilidade e a sinceridade da obra engajada, o fazer individual e o discurso coletivo. Este dilema, segundo Eduardo Jardim, fôra comum entre os literatos nos anos 40, seguir a “marcha das multidões” parecia uma “verdadeira liberação dos seus males de origem”, ou seja, o ambiente pequeno-burguês (ibid. p. 102). Engajar-se, entretanto, significava aderir a uma posição não só ideológica, comunismo ou fascismo, mas também partidária. Mário, embora filiado ao Partido Democrático, levado pelo seu irmão por causa da Revolução de 32, nunca se assumiu como militante. Apesar de declarar-se, aos amigos, “simpatizante” do 85 comunismo, na edição da Revista Acadêmica dedicada a Romain Rolland, símbolo do intelectual engajado, Mário de Andrade se recusou a participar, sob alegação de não poder falar livremente sobre o escritor no ambiente de repressão no país. Na conferência de 42, revelava que não era “político de ação”, pois não se via “escrevendo páginas explosivas, brigando a pau por ideologias e ganhando os louros fáceis do xilindró” (1974, p. 243)... Como Oswald de Andrade. A princípio, o funcionalismo público concedia a Mário a oportunidade de ser um “intelectual de ação”, independente das causas partidárias. Estava bem próximo do conceito de “intelectual tradicional” criado por Gramsci para distinguir as diferentes funções que o intelectual assume na sociedade. Ele pode ser “orgânico”, quando em sintonia com uma classe social procura lhe dar consciência e coesão, ou “tradicional”, vinculado tanto às classes dominantes quanto dominadas, mas adquirindo autonomia em relação aos interesses imediatos PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA das classes sociais. À medida que sua independência se revelou como amarga ilusão, fortaleceu-se a convicção de que o poeta, para não ser “um político de ação”, não deveria abdicar da sua “torre de marfim”. Esta era a conclusão que chegara, depois de participar do Congresso de escritores de 45, no qual escritores e intelectuais tomaram uma postura contra a ditadura Vargas e a favor de legalização do PCB. Mário foi uma presença silenciosa durante os debates. Em carta a Drummond, comentava sua decepção em relação aos posicionamentos dos escritores: O intelectual, o artista, pela sua natureza, pela sua definição mesma não conformista, não pode perder a sua profissão, se duplicando na profissão de político. [...]. É da sua torre de marfim que ele deve combater, jogar desde o cuspe até o raio de Júpiter, incendiando cidades. Mas da sua torre. (DRUMMOND, 1982, p. 243). A “torre de marfim”, por um lado, preservava a integridade ética do artista, não o colocava como um servidor do Estado ou de qualquer ideologia partidária, nem como consciência de nenhuma classe; por outro, insinuava o nãoenvolvimento. Não se trata de abstencionismo, mas é quase isso. No momento em que os escritores assumiam o compromisso da participação, a postura de Mário soava como uma decepção. Em um artigo sem assinatura (o que demonstra tom de temor), o jovem Jorge Amado reagia à postura andradina, comparando sua postura anterior com a 86 presente, para concluir que “os moços andam cabisbaixos, desiludidos com o antigo ‘mestre’”, transformado no “último esteta”, “voltando a galope “para o modernismo sem violência”14. A reação do escritor baiano traduzia a sensação de que Mário adotava uma postura conservadora. Mário de Andrade respondeu à crítica no artigo “A raposa e o tostão”, argumentando que a nova geração sacrificava a técnica literária em prol de uma vaga intenção social. A curiosidade intelectual substituída pela demagogia partidária. Sem o conhecimento técnico, terminava, as mais nobres intenções não encontram os meios para se realizar como literatura ou como consciência social (1972, p. 101). Jorge Amado retrucaria, no artigo “A solidão é triste”, acusando-o de “sub-Wilde mestiço”, covarde, “guarda-civil da linguagem”, “um sujeito desta importância” – concluía – “não tinha direito a essa atitude”15. A polêmica se estende na revista Diretrizes, no artigo (também sem PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA assinatura) “Mário e os moços”, o autor tentava conciliar os ânimos, argumentando que os “moços” o desejavam no comando da luta, mas queriam o “Mário-Macunaíma” e o não o “Mário-Ferdinando”16. Ferdinando era um touro, personagem de um desenho de Walt Disney, que tinha aversão a violência e vivia entre os animais menos ferozes, como Bambi. Na época, “ferdinando” era alcunha para homossexual. Toda esta polêmica incidiu sobre sua conferência em 42 e sua postura discreta no Congresso de 45. Ela nos serve como ilustração para demonstrar que, em seus últimos anos, apesar do peso de sua imensa autoridade intelectual, que fez com que os críticos não assinassem seus textos, Mário não era uma unanimidade entre os escritores residentes no Rio de Janeiro. Isto, em parte, explica sua inquietação em morar no Rio, depois da expulsão do Departamento de cultura; e também explica, em parte, a intensa correspondência com os escritores mineiros, que o procuravam atrás de orientação literária, considerando-o um mestre supremo. Os ensaios de Eneida Maria de Souza, reunidos na segunda edição de A pedra mágica do discurso, analisam as correspondências com os escritores mineiros, ora confirmando alguns temas do estudo sobre Macunaíma, como a apud: Dom Casmurro. Rio de Janeiro, 12 de agosto de 1939. apud: Dom Casmurro. Rio de Janeiro, 2 de setembro de 1939. 16 apud: Diretrizes, nº 19. 14 15 87 questão da memória e a preservação da tradição, ora discutindo a configuração do intelectual modernista. Os temas não poderiam ser mais atuais, ou pós-modernos (ou nada mudou): ética, legitimidade intelectual, participação política. A pertinência dos temas justifica o valor de suas cartas. Elas são reconstrução documental do diálogo entre os escritores modernos, sem elas não existiria uma “história da vida privada” do modernismo. Algo que Antonio Candido idealizava, e seu orientando, João Luiz Lafetá poderia ter feito, mas tomou as correspondências como suporte para leitura dos textos consagrados (os poemas e os ensaios). Creio que esta “história” só poderia ser escrita a partir de agora, quando são publicadas – no caso de Mário de Andrade – as respostas dos destinatários, porque nas primeiras edições, à exceção do livro de Paulo Duarte e da correspondência com Oneyda Alvarenga, só havia as cartas do emissário. A PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA justificativa para publicá-las, como Duarte deixa claro, era a preservação da sua “memória”, limpar o seu nome. Desta forma, se alguém pretendesse escrever a “história privada”, esta seria uma celebração do modernista Mário. A exaltação, contudo, ocorreu nas histórias de literatura, que tenderam a apresentá-lo como a força individual mais importante do movimento. 5.3 Morre o homem fica o mito. Antonio Candido, um ano depois da morte da Mário de Andrade, iniciava sua “elegia” ao morto, profetizando: [...] será um dos escritores mais estudados, comentados e debatidos em nossa futura história literária E é possível (assim aconteceu com Machado de Assis) que apenas trinta ou quarenta anos depois da sua morte a posteridade consiga traçar, de maneira mais ou menos satisfatória, o perfil literário e humano deste homem cheio de refolhos e máscaras, deste escritor multiplicado. (CANDIDO, 1992, p. 209). A comparação com Machado de Assis aparece em outro texto, do mesmo ano, publicado na Revista do Arquivo Municipal17. O paradigma machadiano funcionava como carimbo de genialidade, tacitamente confinando o escritor carioca no século XIX, passando a faixa do “gênio moderno” para o paulista. 17 cf: “Mário de Andrade”. Revista do Arquivo Municipal. Ano II, Vol.CVI, São Paulo,1946. 88 Entre os modernistas houve um silêncio sobre estilo do “bruxo do Cosme Velho”, que antecipou a escrita moderna em nossa literatura. É verdade que Mário quebrou este silêncio com seu artigo “Machado de Assis”, no qual elogiava a técnica do romancista e censurava a ética do escritor: imagem reflexa do Segundo Reinado, recalcado por causa de sua condição de mulato, símbolo do amor familiar18. Candido situava historicamente o modernismo entre 1922 e 1945, entre a Semana de Arte Moderna e a 2ª guerra mundial, porém a morte de Mário contribuiu, como fator simbólico, para sinalizar o fim do movimento. PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA A figura central do Modernismo [...], realizou uma das maiores obras que o Brasil conheceu no terreno da divulgação cultural, procurando com êxito levar ao povo os produtos eruditos da música e da literatura [...]. Além disso, promoveu pesquisas de etnografia e folclore, sistematizando o interesse dos modernistas pelo conhecimento objetivo das culturas primitivas e populares. (CANDIDO, 2004, p. 91). O raciocínio de Candido resumia o consenso geral entre os historiadores do movimento, se é que não o determinou. Péricles Eugênio da Silva Ramos, no volume de A literatura no Brasil, cuja primeira edição data de 1955, apresentava o poeta como o “papa do modernismo”. Mas como um bom filhado da Geração de 45, o crítico aponta no “coloquialismo” os excessos da poesia do modernista, apesar de sua “inegável importância como documento de ruptura” e “indicação de rumos”. A atividade crítica, concluía, seria o lugar em que sua influência se revelava mais decisiva. Quando as obras modernistas começavam a ser inventariadas, nos anos 50 e 60, os avaliadores – em particular Wilson Martins, que escreve a obra mais polêmica – tinham a noção de que ainda era preciso maior distanciamento para reconhecer os limites do movimento; ao mesmo tempo, havia a certeza de que fôra um divisor entre a estética do século XIX e a do século XX. A figura de Mário de Andrade, dado a abrangência de suas obras e o impacto pessoal que causara nos contemporâneos, vai-se se delineando como o grande, ou talvez único, escritor do movimento capaz de se ombrear aos vultos de José de Alencar e Machado de Assis. Nelson Werneck Sodré – História da literatura brasileira (1964) – argumentava que o “movimento modernista” teve pouca duração (1922-1930); por 18 cf: Aspectos da literatura brasileira. 89 um lado foi “um episódio destituído de sentido e profundidade”, por outro, correspondeu ao que “havia de profundo no desenvolvimento literário”, anunciando a renovação que se concretizaria com o “pós-modernismo” (ibid. p. 525). Segundo o historiador, a contribuição decisiva do movimento para a “literatura nacional” foi emancipação literária, a busca da originalidade, a elaboração da língua literária. A Revolução de 30, prossegue, inaugurava a fase “pós-modernista”, não como ruptura, mas como aprofundamento do que a geração de 22 tinha de mais sério: a aproximação com o povo. No Brasil começa a existir o povo, com o sentido moderno, e só o povo podia conceder a vigência às manifestações de qualquer natureza que pretendessem refletir a fisionomia coletiva e nacional. Entramos na fase em que só é nacional o que é popular. (SODRÉ, 1964, p. 531). A partir do movimento modernista, isto é, de uma tomada estética e política a favor do popular, a literatura brasileira adquire independência dos PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA modelos exteriores e de suas contradições coloniais. Deixa de ser subalterna. Nesta conjuntura, segundo o historiador, Mário de Andrade realizara o que o movimento tinha de mais “consistente e profundo”, consciência artística e social, terminando também profético: “A enorme importância de sua figura, e a evolução do seu pensamento, serão destacadas quando o Movimento Modernista for realmente inventariado” (ibid. p. 536). No sagaz “Poesia e artes de guerra”, Oswald de Andrade escrevia que “o julgamento contemporâneo” não favorecia os artistas rebeldes (referia-se a geração de 22 mal vista pela geração de 45, ou a si mesmo), porque “quem vê de perto não vê”. Era necessário horizonte, distância e perspectiva. “E o público não possui esses binóculos. A crítica também...” (1975, p. 26). Werneck Sodré estava consciente da falta de distância, mas isto não o impediu de assumir uma perspectiva em relação ao lugar de Mário. A obra historiográfica mais polêmica, ao nosso ver, foi O modernismo (1965), escrita por Wilson Martins para a coleção “Literatura brasileira” da editora Cultrix. Um esforço evidente, ao longo da leitura da obra, é a reabilitação de Monteiro Lobato, demonstrando a tendenciosa supervalorização do “caso Anita”, que servira de prova do antimodernismo lobatiano. Embora relativize o “caso Anita”, não absolve Lobato da condenação “pré-modernista”. Entre 1954, primeira edição de Apresentação da poesia brasileira, de Manuel Bandeira, até 1965, Mário da Silva Brito escreve duas obras 90 paradigmáticas para o estudo do movimento: História do modernismo (1958) e Panorama da poesia brasileira (1959), editadas pela Civilização Brasileira. Estas obras estabelecem certos parâmetros que não serão revogados pelas futuras historiografias, como o “caso Anita” e o marco de 22. Elas fazem parte de volumes dedicados aos estilos de época. Assim, sem nenhuma discussão, tanto na edição da Cultrix quanto da Civilização Brasileira, o “modernismo” é capítulo final de nossos –ismos, por coincidência o volume VI em ambas. Além disto, as coletâneas tiveram o importante papel de selecionar um grupo de autores para compor o “cânone modernista”, tendo como referência a Semana. Wilson Martins, ao denunciar a exclusão de Lobato como erro estratégico, poderia desestruturar a ordem vigente, incluindo o escritor no “cânone modernista”, mas não o faz, ele respeita a prisão “pré-modernista”, talvez para não se indispor com a linha editorial, na qual “pré-modernismo” correspondeu ao PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA volume V da “Literatura Brasileira”, escrito por Alfredo Bosi. Por outro lado, Martins não é tão obediente à cronologia metodológica, porque Graça Aranha, tradicional pré-modernista, aparece entre os “autores fundamentais”. O historiador elabora um duplo cânone: “autores fundamentais” e “obras representativas”. O autor fundamental nem sempre escreveu a obra representativa. A lista de “fundamentais” abrange dezenove autores; a de obras, oito. Deste modo, livros como Libertinagem e Alguma poesia ficaram de fora da obras fundamentais, para não falar na exclusão completa de Murilo Mendes. Quantativamente, Mário de Andrade é, de longe, a figura mais representativa no quadro do historiador. É fundamental e escreveu três das oito obras representativas. Mas, paradoxalmente, suas obras, em particular Macunaíma, revelaram-se “malogros artísticos” (1965, p. 87). Respeitando o que o próprio Mário revelara em sua conferência, Martins acredita que o lado experimentador, sua “preocupação em inovar” e dominar vários saberes, sobrepujou-se ao “lado criador”. Em artigo de 1999, ao comparar a importância de Machado de Assis e Mário de Andrade, os dois no olimpo do “cânone brasileiro”, argumenta que o modernista “sempre ficará em segundo”, pois foi “autor de grandes obras falhadas”, impossíveis de se unificarem numa 91 “obra superior e única”19. Apesar disto, o modernista, por si só, encarna “todo o modernismo” no que tinha de melhor (ibid. p. 240). Mário de Andrade foi, mais do qualquer outro escritor brasileiro, em qualquer tempo, uma presença. [...]. Uma presença sem o mais longínquo cálculo de “política literária”, sacrificava um tempo enorme das suas tarefas pessoais chamado por uma sensibilidade que o levava a escrever cartas enormes aos mais obscuros e desconhecidos dos principiantes; ou a discutir, em cartas não menores, com os seus companheiros de aventura literárias, os problemas cruciais em que se debatia. (MARTINS, 1965, p. 236). Desconfiando do critério estético como instância de consagração, o historiador recorre ao critério moral, através de um viés sentimentalista, para confirmar uma autoridade a qual não pode ou não quer negar. A importância do modernista, muito hábil em “política literária”, residia no realce da solidariedade e humildade, acima de qualquer “malogro estético”. A história literária foi uma das principais instâncias consagradoras da PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA individualidade intelectual de Mário. As obras precedentes, como as de Massaud Moisés, Alfredo Bosi e Luciana Stegagno-Picchio, escritas com o devido distanciamento histórico, não revogaram este juízo, pelo contrário, o referendaram, como sintetiza a feliz expressão de Luciana: “Mário de Andrade foi a consciência criadora do movimento modernista” (1997, p. 486). Já não se trata, a esta altura do campeonato, de questionar o lugar de Mário, pelo contrário, nosso esforço se concentrou na exposição do quanto o modernista, em suas múltiplas atividades, criou as condições para sua consagração. E o quanto isto foi importante para a intelectualidade paulista, que tem em Mário de Andrade seu escritor oficial, seu ícone, seu Machado de Assis. 19 cf: “O cânone brasileiro” In O Globo, caderno Prosa e Verso, 30.01.1999 92 6 Narrando Oswald Como qualquer sujeito batizado e normal, sou muitas vezes injusto, exagerado e agressivo. Oswald de Andrade (Telefonema) 6.1 L’enfant gâtê Se a correspondência privada foi um instrumento para Mário de Andrade costurar suas conexões e, em relação aos mais íntimos, confessar seus sentimentos; para Oswald de Andrade, a redação dos jornais transformou-se em alto-falante, através do qual atacou e se defendeu. PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA No conjunto de artigos e crônicas, produzidos entre 1943-53, encontramos um escritor às voltas com a defesa de sua obra, no combate corpo a corpo com antigos desafetos, na busca de novas alianças. Um misto de crítico cultural, polemista e livre pensador. Em determinados momentos, parece alguém tentando salvar a própria pele. Já nos textos finais, reunidos principalmente no volume Telefonema, a imagem de artista rebelde e inconformista, celebrada nos anos 60, é reavaliada pelo próprio Oswald, condenado à morte pelo câncer, conformado por não ter recebido as glórias que julgava merecer. Nos textos de Ponta de lança (1945), o desconforto com sua posição insular na inteligência brasileira dos anos 40 é um grande trauma. No artigo “Fraternidade de Jorge Amado”, o tema aparece em toda sua passionalidade: Quando depois de uma fase brilhante em que realizei os salões do modernismo e mantive contato com a Paris de Cocteau e de Picasso, quando num dia só de débâcle do café, em 29, perdi tudo - os que se sentavam à minha mesa, iniciaram uma tenaz campanha de desmoralização contra meus dias. [...]. Criou-se então a fábula de que eu só fazia piada e irreverência, e uma cortina de silêncio tentou encobrir a ação pioneira que dera o Pau-Brasil, [...].Foi propositalmente esquecida a prosa renovadora de 22 [...]. Tudo em torno de mim foi hostilidade calculada [...], com que falavam os poetas, os críticos e os artistas. (ANDRADE, 1975, p. 31). Defender-se da acusação de que “só faz piada” é uma obsessão. No artigo “Poesia e artes da guerra”, cria um interlocutor/oponente, “homem sério”, caricatura do poeta de 45, que o condena por rimar “com o pretérito perfeito”. A este interlocutor imaginário, Oswald lança: “Como é que começou a renovação 93 literária do Brasil? Quem inventou a Semana de Arte Moderna?” Aqui fica claro o “ressentimento”, revelado por Rudá de Andrade, por sentir-se desvalorizado sob o estigma do blageur, que fizera sua glória nos anos 20. Em outro artigo – “Sobre o romance” -, igualmente escrito sob a forma de diálogo, discute-se qual seria o marco do romance moderno, Ulysses ou a Montanha mágica; o autor tende para o “grande marco antinormativo” de Joyce (para simpatia dos Concretos), uma vez que Mann seria o marco final do século XIX. O diálogo termina da seguinte forma: “Ora! Você só fala piada...”. O tema continua em “Antes do Marco zero”, na carta aberta a Antonio PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA Candido, no qual o qualifica como “chato-boy”: Segundo o Sr. Antonio Candido eu seria o inventor do sarcasmo pelo sarcasmo. Meio século de sarcasmo! Contra quê? Contra o vento a quem a Prefeitura e o poeta Guilherme de Almeida entregam as folhas dos plátanos e as pernas das normalistas. [...]. Bem antes, fora eu o único a responder, na hora, o assalto desastrado com que Monteiro Lobato encerrou a carreira de Anita Malfatti. Fui quem escreveu contra o ambiente oficial e definitivo, o primeiro artigo sobre Mário de Andrade e o primeiro sobre Portinari. Soube também enfrentar o apogeu do verdismo e o Sr. Plínio Salgado. Tudo isso não passou de sarcasmo e pilhéria. [...]. O Sr. Antonio Candido e com ele muita gente simples confunde “sério” com “cacête”. (ANDRADE, 1975, p. 42). O assunto o importunava, tanto que em sua resposta ao inquérito de Edgar Cavalheiro, em 1941, inicia “protestando contra a confusão que se faz entre a seriedade do espírito humano e, por exemplo, a sisudez de uma sessão acadêmica”, já que “ser contra uma determinada moral ou estar fora dela não é ser imoral”, por isso “atacar com saúde os crepúsculos de uma classe dominante não é de modo algum ser pouco sério” (1990, p. 53). Nesses artigos, o escritor desconsiderava as “regras” do ensaio e do artigo jornalístico, substituindo a escrita documental pela escrita de “ficção” ou pela forma de “manifesto”. O peso da passionalidade dos textos, ou talvez a “ficcionalização” de seus dramas, minimiza as experiências formais desses textos. De certo modo, a “desconsideração” reflete a opinião de seus contemporâneos, que afirmavam que a biografia do autor era mais interessante do que seus romances. E Oswald escreveu romances propositalmente biográficos. Nos anos quarenta, contudo, queria ser reconhecido somente como um (ou “o”) escritor inovador na prosa brasileira. Antonio Candido argumentou, em vários ensaios, que a mitologia em volta do autor o tornara (nos anos 60/70) um “problema literário”, porque era 94 impossível tomar suas idéias sem dissociá-la das verdades e mentiras associadas ao antropófago modernista. A biografia de Oswald é uma novela de rompimentos, brigas, insultos, muitos atos impensados responsáveis por sua posição de “metralhadora solitária”. Após sua morte, sua intempestividade pôde se transmutar em rebeldia necessária contra as formas de autoridade. Sua glória nos anos 60. Em vida, foi um prêmio amargo, afinal a glória póstuma não enche a barriga do artista. O primeiro rompimento dramático foi com Mário de Andrade. Uma das causas foi a campanha de Mário a favor da ética entre os modernistas, a sinceridade da opinião ao invés do elogio fácil, e um dos meios para demonstrar sua isenção era a desqualificação de Serafim Ponte Grande. Podemos imaginar que, um homem orgulhoso como Oswald, não suportaria perder calado a liderança do modernismo para o poeta que promovera. PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA Em uma pequena nota à edição das correspondências entre Mário e Tarsila, Aracy Amaral faz o seguinte comentário a respeito de uma das raras de cartas de Oswald para o companheiro: “E num post scriptum irreverente e ao mesmo tempo denunciando como uma vitória acrescenta sob sua assinatura:’estou amigado’” (1999, p. 64). Mário sabia que Oswald lia suas cartas para Tarsila, porque viviam juntos. Algumas vezes usou do fato para provocar: Osvaldo, apesar de todo o cabotinismo dele (quero-lhe bem apesar disso) é fraquinho agente de ligação. A gordura é má condutora, dizem os tratados de física. [...]. Que faz ele? Mostrou-se o Serafim Ponte Grande? Ficou meio corcundo comigo porque eu disse que não gostei. (AMARAL, 1999, p. 86). Em carta a Sérgio Milliet justificava a opinião, afirmando que Serafim era “muitíssimo inferior às Memórias Sentimentais”; a Prudente de Morais, neto, diria que “eu agora quando não gosto vou dizendo. Com o Osvaldo foi a mesma coisa. Leu o Serafim Ponte Grande na casa de Paulo Prado. Não prestava. Eu disse que não prestava e os porquês” (1999, p.83). Na edição das correspondências de Mário e Tarsila há a reprodução de uma caricatura do poeta feita por Oswald, em 22: dentes enormes saindo de uma boca desproporcional ao fino do rosto, cuja cabeça formava um quadrado ostentando enormes orelhas (1999, p. 45). A ruptura, que se anunciava desde 1923, ocorreu em 29, quando o grupo da Antropofagia ficou restrito a Oswald e Raul Bopp, contando com a participação clandestina de Pagu e (seu futuro segundo esposo) Geraldo Ferraz . A “2ª deglutição” da Revista de Antropofagia, agora uma página no jornal Diário de 95 São Paulo, de Rubens Amaral, acelerou sua ruptura com o círculo modernista. Através de suas páginas Oswald ironizava a masculinidade de Mário, chamandoo, de “miss São Paulo traduzido no masculino”. As sátiras mais rascantes eram escritas por pseudônimos como “Japi-mirim”, “Fredeurico”, “Cabo Machado”, “Guilherme da Torre de Marfim”, “Pinto Calçudo”. A tática foi inútil porque “antropofagia” estava umbilicalmente associada a Oswald de Andrade. Praticamente todo o staff modernista – salvo Anita, Tarsila e Di Cavalcanti – são ridicularizados: Paulo Prado, que “cometia absurdos incríveis de atribuir ao ouro e à luxúria todos os nossos excessos infantis”; Tristão de Athayde, o “Tristinho de Ataúde”; Menotti del Picchia, “Le Menotti del Piccollo”; Plínio Salgado, diluidor da antropofagia, “anta empanturrada de retórica”20. Em carta a Tarsila, o autor de PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA “Cabo Machado” desabafava: Eu odeio o Osvaldo porque ele me ensinou essa coisa aviltante, rebaixante, infelicíssima que é odiar. Você me diz que ele está comendo o pão que o diabo amassou, mas eu odeio demais o Osvaldo para a desgraça dele me satisfazer. Odeio friamente, organizadamente, moralmente, porque é obrigação moral odiar um indivíduo que chafurdou nas maiores baixezas do insulto e infâmia pessoal. (AMARAL, 1975, p. 83) Oswald de Andrade, que Antonio Candido descreveu como um homem sem ressentimentos, buscou, até a morte de Mário, uma reconcialição. Os amigos mais próximos de Mário, como Tarsila e Manuel Bandeira, tentaram em vão convencê-lo a não levar as opiniões do ex-amigo a ferro e fogo. Em “Digressão sentimental sobre Oswald de Andrade”, Candido relata o encontro entre os dois durante a organização do Congresso de Escritores de 45. Ao final de um debate, Oswald fizera uma piada, da qual todos riram, inclusive Mário. Na saída, a respeito do riso, Oswald comentaria: “as coisas estão melhorando” (2004, p. 40). Mas em longa carta a Sérgio Milliet, tendo como assunto o rompimento, Mário de Andrade qualificava o ex-companheiro como um “covarde moral”: [...] Não tem sido impossível eu deixar de ver o Osvaldo viver. Tudo me contam, vêm me contar. Mas não me vingo porque não tomo alegria com isso, tomo tristeza, tomo principalmente amargura. Não, mais uma vez, que banque o superior, o Osvaldo me ensinou essa coisa aviltante, rebaixante, infelicíssima que é odiar. Eu o odeio, infelizmente. Mas tudo me amarga porque não posso esquecer o passado. Nem o presente, porque o Osvaldo é apenas, na extensão da palavra, um “perdido”. (DUARTE, 1971, p. 319). 20 cf: Revista da antropofagia. edição facsimilar. São Paulo: Metal leve, 1975. 96 Outro fator que o isolaria seria a separação de Tarsila do Amaral para se unir a Pagu. Durante os anos 20, o casal simbolizou, pela via tradicional do casamento, uma união ideal entre artistas embora escandaloso para a sociedade da época, pois Oswald não estava separado oficialmente de sua primeira esposa. Em sua análise sobre o mecenato paulista, Sérgio Miceli ressalta que a grife Tarsiwald – alcunha criada por Mário - combinava “ambição de brilho social” e “pretensões de supremacia intelectual”, numa “amálgama de práticas de consumo de luxo e investimentos culturais” (2003, p. 129). Num ambiente literário sexualmente machista e, ao mesmo tempo, moralista – a auto-repressão de Mário é um prova -, a relação entre Oswald e Patrícia Galvão chocava os padrões, a começar pelos legais, já que quando iniciam o caso, ela era menor de idade. Em sua autobiografia, Pagu relatava a liberdade sexual PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA presente no casamento, principalmente da parte do marido: Chegamos em casa. Cheia de emoção, estive ao lado de Oswald, esperando que ele terminasse um artigo para eu passar à máquina. Justamente quando estava terminando de datilografar, Oswald me falou que tinha marcado um encontro com Lelia. “È uma aventura que me interessa. Quero ver se a garota é virgem. Apenas curiosidade sexual”. [...]. Sentia o meu carinho atacado violentamente, mas havia a imensa gratidão pela brutalidade da franqueza. Ainda hoje o meu agradecimento vai para o homem que nunca me ofendeu com a piedade. (GALVÃO, 2005 p. 63). Ao redor deste casal, a corrente espiritualista liderada por Tristão de Ataíde, como alternativa ao primitivismo, ganhava uma tradução extremamente conservadora pelas mãos de Tasso da Silveira. Comentando o modernismo, afirmaria que “o gesto libertador da Semana de Arte Moderna” havia degenerado para uma “atividade destrutiva”, na qual imperava o “sarcasmo, a pilhéria, a blague”, e “também a pornéia em grande escala”. Se os participantes não eram “francamente comunas”, pelo menos eram “contra Deus e a Igreja”: “Lá esteve metido na coisa Mário de Andrade, de sincera fé católica, mas em cujo temperamento fermentavam todos os germes de dissolução que lentamente o arrastariam para a esquerda” (1932, p. 59). Em suas memórias, Oswald declarava que, embora possuísse um “profundo sentimento religioso”, o “sentimento órfico”, a busca por uma dimensão metafísica, desde cedo desconfiava da capacidade de “transformação do homem pelo cristianismo”, porque o número de rezadores pecaminosos e de padres sujos era demasiado para poder iludir mesmo minha desprevenida 97 adolescência” (1978, p. 45). Segundo o depoimento de Alcântara Machado, o veto do vaticano ao seu pedido de divórcio o tornara inimigo da igreja. Este ambiente tem que ser levado em conta para se compreender, segundo Antonio Candido, “a fama de imoral e antifamiliar” que Oswald ostentou aos olhos das “classes média e alta de São Paulo”. Fama, aliás, que Candido acha equivocada, porque, embora tenha casado seis vezes, obedeceu alguma formalidade legal ou religiosa. Oswald casou com Pagu na Igreja da Penha. Segundo o crítico, ouvira algumas vezes Oswald dizer que “era o brasileiro que mais respeita o casamento. Quando quero uma mulher, caso com ela, ao contrário da maioria dos homens, que só tem uma mulher legal, mas muitas amantes sucessivas” (2004, p. 42). Em uma crônica de 1949 – “Pra que censura?” -, Oswald alega que censurar O vestido de noiva, a histórica peça de Nelson Rodrigues, era PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA “abracadabrante”. Sua justificativa: Uma das maiores provas do nosso nível intelectual é a importância que assumiu no teatro destes últimos tempos o sr. Nelson Rodrigues. Gente de responsabilidade se deixou levar pelo fescenino vestido de noiva entreaberto com que apresentou as polpudas coxas de sua imoralidade.[...] o sr. Nelson Rodrigues é o folhitinista medíocre que usa o pseudônimo de Suzana Flag [...] Não serei eu quem vá moralizar seja o teatro, seja o sr. Nelson Rodrigues, [...], sou apenas inimigo da completa parvoíce literária do autor de “Álbum de Família”. (ANDRADE, 1996, p. 302). Oswald queria, em defesa de sua obra, que houvesse justamente aquilo Antonio Candido chamava de “distanciamento crítico”; enfim, queria que sua obra fosse lida a partir de julgamentos estéticos, ao invés de julgamentos morais. Ou seja, queria a “morte do autor” antes de Barthes formular a tese. 6. 2 Reinvenção marxista O prefácio para Serafim Ponte Grande pode ser lido como um manifesto pessoal. É um texto de ruptura com o círculo modernista. É um texto de reinvenção. Nele, deixa para trás os “loucos anos 20”, grande parte da obra escrita, a imagem de blageur que o aprisionava e o embalava para as massas. Para deixar isto claro, logo no início, lamenta ter passado por Londres de barba e não ter conhecido o Manifesto comunista. Diria depois, em suas memórias: “Dos 98 manifestos que anunciavam as transformações do mundo, eu conheci em Paris o menos importante, o do futurista Marinetti. Karl Marx me escapara completamente” (1978, p. 70). A seguir, renega a ascendência dos antigos mestres Blaise Candrars e Emílio de Menezes, com quem fora “palhaço de classe”. Credita à má influência o erro ao considerar “o artista boêmio” como oposição ao burguês, ao invés do “proletário”, como lhe revelaria Marx. Por fim, a denúncia de que, com a queda do café, ruíra “toda a literatura brasileira de vanguarda, provinciana e suspeita, quando não extremamente esgotada e reacionária” (1978, p. 133). Como um “pósescrito”, o embate com Mário: PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA Enquanto os padres, de parceria sacrílega, em São Paulo com o professor Mário de Andrade e no Rio com o robusto Schmidt, cantam e entoam, nas últimas novenas repletas do Brasil, [...], eu prefiro simplesmente me declarar enojado. E possuído de uma única vontade. Ser pelo menos, casaca de ferro na Revolução Proletária. (ANDRADE, 1978, p. 133). A contribuição que o escritor prestaria, nem tanto ao partido, mas à ideologia socialista, não poderia ser outra se não sua escrita, suas idéias, sua verve. Em sua autobiografia, Patrícia Galvão revelava que o Partido Comunista exigia sua “separação definitiva de Oswald”, porque era “considerado elemento suspeito por suas ligações com certos burgueses” (2005, p.95). Segundo ela, o Partido “determinava a proletarização de todos os seus membros”, determinação a qual aceitou, sob a pena de abandonar o filho. Pagu confidenciava que dois homens mudaram sua vida: Oswald e Luis Carlos Prestes. Dois opostos. Oswald admirava a coragem da “coluna Prestes”, talvez visse seu líder como uma espécie de “artista de vanguarda”, fortalecido pelo mesmo espírito revolucionário e a mesma vontade de mudança. A conversão ao comunismo ocorrera após o primeiro encontro com Prestes, em Montevidéu, 1931. Com o passar do tempo, se desencanta. Um dos motivos foi o veto de Prestes à aliança com o brigadeiro Eduardo Gomes, que Oswald defendia como candidato à presidência para as eleições de 194521. O brigadeiro foi o “canditado dos escritores”, sua candidatura havia sido lançada oficialmente pelo romancista José Américo de Almeida. Outro motivo, o apoio de Prestes a Vargas nas eleições presidenciais. Ferrenho combatente do presidente gaúcho, apelidado de “O coisa”, O brigadeiro Gomes se canditaria nas eleições de 1950, desta vez contando com o apóio do PRP de Plínio Salgado. 21 99 o modernista qualifica como um ato esquizofrênico o apoio do ex-cavaleiro da esperança ao seu “carcereiro sádico”, que enviara sua esposa judia de presente aos nazistas. Seu desencanto pode ser visto na crônica “O albatroz”, na qual compara Prestes com o pássaro caído do poema de Baudelaire, e conclui: Estou certo de que Prestes é um grande inibido. [...]. Você quer vê-lo em pânico – é dar-lhe chance.[...]. Em 30, foi convidado para comandar o exército da revolução que ia transformar o Brasil. No dia seguinte da vitória, que seria o anão Vargas ao lado do Cavaleiro da Esperança? Mas ele inventou um pretexto ideológico, de caráter irrealista, para ficar sozinho e amargo em Montevidéu. [...]. Um empurrão o ligará ao brigadeiro Eduardo Gomes, símbolo de lealdade na luta contra a ditadura. Ele diz não – Não e não! (ANDRADE, 1996, p. 144). Numa crônica de 1946 – “Sob proteção de Deus” -, Oswald imaginava que a coligação Prestes-Gomes seria o elo de ligação entre os “intelectuais burgueses” e o proletário na vitória contra os governos reacionários. “Prestes”, lamenta, “nos atirou para fora”. O comunismo, argumentava para desespero dos marxistas PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA ortodoxos, correspondia a uma nova “teologia”, que viria suplantar o “materialismo católico”, pois a “imaginária das greves, da propaganda e dos comícios” substituía as “novenas, procissões e toda fantasmagoria cristã” (1999, p. 152). A própria conversão de Oswald ao comunismo teve o seu “quê” de conversão cristã. O comunismo, neste sentido, seria mais uma manifestação do que denominava “sentimento órfico”, espécie de religião profunda, inata ao homem, assumindo “essa ou aquela orientação ideológica ou confessional”, capaz de transmitir ao homem uma crença: Augusto Comte com todo o rigor materialista e matemático de suas convicções acabou místico e metafísico como qualquer Papa. [...]. Hoje a política, a cena, o esporte, também criam divinizações e mitos. Vide Lênin, Mussolini, Hitler, Satlin, os futebolistas, as estrelas. (ANDRADE, 1976, p. 45). A percepção do comunismo em seus aspectos messiânicos, algo natural atualmente, era um desafio intolerável para a ortodoxia pcbista. A relação com o Partidão, como Pagu indicava, era marcada por desconfianças e descrédito. O partido, por exemplo, vetara o nome Oswald de Andrade para deputado federal. Pesava sempre a suspeita sobre a sinceridade política de um ex-playboy. Ou, por outro lado, era intragável a sinceridade com a qual se declarava comunista: “Numa estreita solidariedade com meu estado de arruinado, tornei-me marxista militante e passei a conhecer cortiços, vielas, prisões, lençóis rasgados e fome física” (1996, p. 328). 100 O “antropófago” cumpriu a via crúcis do bom “marxista militante”: foi preso, censurado, participou de greves. Mas, ao mesmo tempo, questionava-se a legitimidade de suas ações. Sobre adesão do autor ao socialismo, imperava um tom irônico por parte dos desafetos do momento, como Lêdo Ivo: [...] após um lauto almoço, (Oswald) acendeu um imenso charuto e, embriagando-se a si mesmo nas olorosas volutas do fumo (decerto baiano, apesar de seus preconceitos geográficos), despediu-se [...]: ‘Agora vou escrever uma cena proletária do Marco zero. (IVO, 2004, p. 252). O descrédito em torno de sua conversão aparece na leitura de Wilson Martins, que resumia vinte anos depois as mesmas desconfianças. Além disto, o texto de Martins situa bem a recepção de Oswald na crítica acadêmica dos anos 50. A tese principal: tanto Mário quanto Oswald foram maiores do que suas obras, mas por motivos opostos. “Enquanto o primeiro se distinguia pela fragmentação, o segundo seria definido pela dispersão”. Ambos representariam o lado sério PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA (Mário) e frívolo (Oswald) do Modernismo. Enquanto o primeiro vivia “o escândalo da pesquisa artística”, o segundo vivia “o escândalo pelo prazer de escandalizar” (1965, p. 241). O julgamento moral prevalece como critério “objetivo”, compondo o “problema literário Oswald”. Mais do que isso, diviniza Mário, situando-o como paradigma para separar “joio do trigo”: Mário de Andrade encarnaria, na revolução modernista, a sinceridade literária: é o místico da literatura; Oswald de Andrade era, mais do que o “palhaço da burguesia” em que se definia [...], o palhaço literário: era, não o místico, mas o mistificador. Um não tinha o gosto da mistificação; outro não tinha o gosto da sinceridade. (MARTINS, 1965, p. 242). A seguir, com argumentos intrigantes, o crítico tenta enquadrar seu “objeto” como o “Cocteau do modernismo”. As bases de comparação são o tema do “cavalo” – “desagradável lembrança dos malogros de ambos no teatro” -; da “obra de arte como realização órfica”, o orfismo “sucedâneo moderno e laico do sentimento religioso”. Já de início o crítico tropeça, pois o “sentimento órfico” não é um sucedâneo laico para o “sentimento religioso”, ele é o “sentimento religioso” dentro de uma visão não-católica da vida. Quanto à comparação com Cocteau, admite o historiador, salvo o prefácio de Serafim Ponte Grande, o poeta francês não figurava entre os autores citados pelo escritor brasileiro. E aqui, de novo, recorre a Mário de Andrade como instância legitimadora de suas opiniões: “Ora, Cocteau era um dos autores de cabeceira dos modernistas: Mário de 101 Andrade citava La noce massacrée desde o prefácio da Paulicéia desvairada, e não seria Oswald de Andrade que pudesse pretender ignorá-lo” (1965, p. 243). Os argumentos são incrivelmente autoritários, porque tentam enquadrar seu “objeto” no gosto estético do crítico, em seu ideal moral de artista. A “literatura revolucionária de Oswald de Andrade”, no fabulário de Martins teria raízes profundas “no ressentimento do antigo moço rico”, espécie de rebelde sem causa, “que se viu arruinado pelas maquinações incompreensíveis do ‘capitalismo’, nome, naturalmente, que cobria tudo, desde as operações infelizes dos pais até as dissipações descontroladas do filho”. O romance social idealizado pelo autor, além de frustrado, era uma forma ressentida de lidar com a classe social burguesa, “contra o mundo, enquanto misteriosa força exterior, contra a queda do café, enquanto injustiça do destino”. Sobrava, apenas, “a visão idílica do ‘proletário’” (ibid, p. 249). PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA Esta era uma maneira tendenciosa de analisar a produção do escritor, pois, conclui, os romances de Oswald se “saldaram como malogros artísticos”, porque permaneceram “aquém da obra-prima” e das “suas próprias intenções”. Isto justificava a “paradoxal decepção dos contemporâneos”, que achavam “os livros de Oswald de Andrade menos modernistas do que tinham direito de esperar, e menos modernistas do que seu autor” (ibid, p. 244). Além de usar o mesmo argumento de engrandecimento de Mário – o malogro artístico x a influência pessoal -, para minimizar Oswald, ignora-se sob o tema “rebelde sem causa” a reinvenção do escritor pela via do romance social. O escritor de Chão era julgado sob os mesmos argumentos do criador de Serafim Ponte Grande ou A estrela do absinto, sendo que havia uma tremenda diferença de atitude entre as obras. Oswald anunciava, ano a ano, a publicação dos volumes de Marco zero, com o qual faria sua introdução no romance social. Se antes fizera fama como “anunciador de talentos”, agora era o seu próprio empresário e propagandista. A trilogia, muitas vezes, é usada como um “cala boca” nos oponentes. Isto fica muito claro no artigo “Correspondência”, na verdade uma das “cartas abertas” presente no volume Ponta de lança, esta dirigida a Léo Vaz. Meu caro Léo Vaz, envio-lhe o volume aparecido do meu romance Marco zero, quero também tornar-me seu missivista. E com razão. O seu amável correspondente, citado na crônica de domingo, leva-me a explicações. [...]. Aproveitou-se você, Léo, do lombo do missivista para insinuar que eu nunca pus os meus “mimosos pezinhos” no sertão. Leia este volume de Marco zero e verá 102 que andei alguns anos entre grileiros, derrubadores de mata, xerife, etc, e não foi por diletantismo e sim para ganhar a minha vida. [...]. Marco zero é um livro que vai surpreender os que esperam os modismos e os cacoetes que tão gostosa e justamente empregamos na fase polêmica da renovação literária. (ANDRADE, 1975, p. 9). Enquanto divulgava o romance, Antonio Candido escrevia três ensaios sobre o autor - “Romance e expectativa”, “Antes de Marco zero” e “Marco zero” , posteriormente re-elaborados no ensaio “Estouro e libertação”, referência básica na bibliografia crítica sobre o romancista. O pioneirismo do ensaísta residia em sua proposta de analisar a obra do romancista independente do mito criado em sua volta. O peso dado à vida do autor, compreendia o crítico, havia transformado o “sr. Oswald de Andrade num problema literário”. A opção pelo close reading possibilitaria um julgamento isento de qualquer outro julgo senão o juízo estético. O crítico se mostrava particularmente decepcionado com A revolução PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA melancólica, porque o romance, ao seu ver, não era “a obra máxima” que Oswald anunciava, o que validava a certeza de que “sua produção era mesmo algo incompleto, necessitando maior justificativa” (2004, p 36). Oswald reage, em outra “carta aberta” – “Antes do Marco zero” -, acusando- o, primeiro, de estereotipá-lo (ou reforçar o estereótipo) de “inventor do sarcasmo pelo sarcasmo” e, deste modo, desvalorizar a legitimidade de suas ações. A imagem de blageur não combinava com a seriedade do (ou proposta de) romance social. A ausência da ironia é um dos fatores decepcionantes na opinião de Candido. Aí está o segredo provável dos seus êxitos e a explicação dos seus desfalecimentos no terreno da ficção: sempre que acertava o tom na craveira do sarcasmo, da ironia ou da sátira, é como se ligasse a corrente salvadora que comunica à sua escrita um frêmito diferente; quando desafina naquele tom, ou escreve a sério, a tensão baixa e, a despeito dele usar os mesmos processos de composição, o texto parece sufocado pela herança retórica decadentista (trilogia) ou naturalista (Marco zero). (CANDIDO, 2004, p. 53). Contra o “professoral azedume” do crítico que “fala já por delegação da posteridade e em nome dela decide”, Oswald convocava a “crítica serena e minuciosa, refletida e ilustre de outro professor, o sr. Roger Bastide”, e também de Carlos Drummond de Andrade, Monteiro Lobato e “até o sr. Afrânio Coutinho que situava meu romance (Os condenados) entre Charles Louis Phillipe e Dostoiésvki” (1975, p. 44). Candido considerava Os condenados um “romance falho”. Para o romancista, o crítico foi parcial e “leviano” ao analisar o conjunto 103 de sua obra limitando-a à prosa de ficção. A conclusão de Candido era direta: o melhor de Oswald se concentrava nos romances, e entre os sete romances do autor, apenas dois eram importantes. O impacto desta conclusão nos leitores foi pouco favorável ao romancista que anunciava sua obra máxima, ou seja, péssima propaganda. Não surpreende, portanto, que em sua campanha solitária, Oswald se identificasse, justamente, com o escritor moderno menos modernista de sua geração: Monteiro Lobato, outro exilado na república das letras. A carta aberta que Oswald lhe enviava expunha uma insuspeita admiração, propondo um jogo de PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA aproximações como se em um estivesse refletido o outro: Pergunto-me às vezes por que você não realizou a obra revelada na anunciação das manhãs orvalhadas dos Urupês? E respondo com minha própria vida. Há dez anos que venho trabalhando o ciclo de romances de Marco Zero e somente agora posso entregar ao editor o primeiro volume. Porque, Lobato, nós não temos os funâmbulos da pesquisa, os trapezistas do documento, não temos, enfim, as amestradas equipes com que, na sombra das lareiras e na glória dos escritórios, os homens de veludo se divertem compondo compêndios impressionantes de economia e de política. Temos a rua dura para trilhar, a mesa sem dosséis para escrever e a missão dolorosa e sobranceira de dizer o que pensamos. (ANDRADE, 1975, p. 6). Em “Fraternidade com Jorge Amado” aparece de modo contundente seu isolamento, e como tentava através do romance social “reiniciar sua existência literária ao lado de alguém que representava realmente uma geração” (1975, p. 31). Coerentemente, considerava a geração de 30 uma evolução natural do modernismo revolucionário de 22, como expôs na conferência de 44; aquela apresentava um personagem novo – o povo – que a geração de 20 o descobriu e o exaltou. No final, sua amarga dissensão do PCB coincidiu com seu desinteresse pela criação literária. Apontou como justificativa para o rompimento com o partido, em 1947, a presença do ministro da Justiça, Benedito Costa Neto, em suas relações a favor da anistia. Estava eu, pois, cheio de severas decepções, quando se deu o episódio em que o atual ministro da Justiça aparece como sentinela do proletariado militante, a fim de controlar a atuação de um escritor que apenas havia dado quinze anos de sua vida pelo comunismo e pelo Partido. (ANDRADE, 1996, p. 209). Através do comunismo, o ex-palhaço da burguesia tentara renovar sua escrita e o seu pensamento, o fato de dedicar-se ao teatro, área semi-explorada pelos modernistas (salvo Álvaro Moreyra e Flávio Carvalho) – e também pela crítica – demonstra esta ampliação de horizontes. Marx – como antes Marinetti – 104 servia com um meio de compreender sua própria realidade. A questão da legitimidade, portanto, é dúbia. Seria mais “legítimo” se o autor, ao invés de aristocrata, fosse proletário, ou melhor, professor como Mário? O pensamento de Oswald funcionava como uma extensão de sua vida, assim a “antropofagia” explicava muito de sua própria formação intelectual, que Tristão de Ataíde chamaria de “importação de idéias”. O problema literário residia, portanto, num pré-conceito moral, de certo modo ingênuo, que procura divinizar os escritores, eliminando o que há neles de contradição, de “demasiadamente humano”, afinal, como disse Oscar Wilde: “um grande poeta é a menos poética das criaturas”. 6.3 Contrastes PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA Antonio Candido, após a polêmica inicial com o romancista, tornou-se seu amigo particular e, em alguns casos, seu conselheiro literário. O desfecho de uma relação que começara tão agressivamente revelava, segundo o próprio Candido, “o homem sem rancor, de alma bem formada, que era Oswald de Andrade” (2004, p.36). A partir de um encontro numa livraria, os dois futuros amigos selaram a paz. Como demonstração desta amizade, Oswald dedicaria suas memórias ao amigo, que aliás o havia estimulado a escrevê-las. Em contrapartida, o crítico lhe dedicaria o afetivo ensaio “Digressão sentimental sobre Oswald de Andrade”, no qual confronta as primeiras opiniões com a experiência do convívio com o autor. No pequeno e biográfico ensaio “Os dois Oswalds”, Candido confessava que “sempre me pareceu que Oswald de Andrade era divido ao meio, como homem e como escritor, e foi o que comecei a dizer em artigos desde 1944” (2004, p. 40). A bipolaridade estava expressa nos binômios afeto-sarcasmo e inovaçãoconvencionalismo. A crítica literária do período, interessada em sistematizar o movimento e as obras dos autores modernistas, encarava as bipolaridades como um defeito, sintoma de uma obra desorganizada e de um escritor que ficou na promessa. Para Wilson Martins, estas ambivalências demonstravam um homem e um artista contraditórios. Em seus últimos artigos, Oswald substituiu a polêmica belicista por uma postura mais serena, em harmonia inclusive com o tom pacifista dos ensaios reunidos na “Marcha das utopias”, mas sem antes rever seus conceitos. Nas 105 crônicas finais de Telefonema, o autor inverte seus elogios. Rompido com o partido Comunista, aconselha Prestes a parar de ouvir o “bardo nazi-baiano, Jorge Amado”, a quem dedicara sua “ressurreição literária”: [...] essa súcia de salafrários de tontos e de malandros que o cerca na Câmara e no Partido, porque só de vê-los, o embaixador pode sofrer um colapso. Tome a decisão de, neste momento ir só, desvencilhando-se tanto do soprano vermelha que é o jornalista Pedro Mota Lima como desse que o público já chamou para todo o sempre, de Jorge Gamado pois suas ligações com o nazismo foram muito além da letra e do espírito do pacto germano-soviético [...]. (ANDRADE, 1996, p. 172). O caso mais curioso se dá com a reavaliação de Cassiano Ricardo. Desde os anos 20, quando Cassiano cria o movimento Verde-Amarelo, Oswald inicia uma forte campanha contra os verde-amarelistas, acusando-os de xenofobia e rebaixar a poesia Pau-Brasil a um nativismo estéril. Um dos textos mais virulentos do Ponta de lança é justamente “Bilhete aberto”, dirigido a Cassiano Ricardo, no PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA qual declara que a literatura do autor não passa de “macumba para turista”. Já na crônica de 1947, “Nada como um dia...”, considera o livro de Cassiano Um dia depois do outro, “tão forte e significativo”: “como se um valor novo adviesse. E esse valor vem do fundo da geração de 22” (1996, p. 233). Em outra crônica, de 1952, declarava que considerava Cassiano, “na fase atual de sua produção”, “o maior poeta vivo do Brasil” (ibid, p. 368). Ironicamente, Oswald poderia argumentar a seu favor que realizava a leitura distanciada que faltava à própria avaliação de sua obra, pois suas reavaliações pautavam exclusivamente no texto do poeta. Por outro lado, no fim da vida, queria se reconciliar com a própria geração. Em relação a Mário de Andrade isto é patente, pois se tornara um defensor de sua obra e sua memória. A morte do escritor de Macunaíma passara em branco nas crônicas de Telefonema, mas em “Digressão sentimental sobre Oswald de Andrade”, Antonio Candido revelava que, ao saber da morte do ex-amigo, o escritor amassou o jornal no qual lera a notícia fatídica e chorara convulsivamente. Em crônica de 1949, defendia o Macunaíma da acusação de ser um romance “quase ilegível” e de construção técnica rudimentar, chamando atenção para o trabalho de pesquisa e écriture artiste que Mário e ele ajudaram a criar. Em crônica de 52: Em 22 fizemos uma revolução em torno da madrugada poética que foi o ‘desvairismo’, [...] e podemos apresentar, não decepada no prato de ouro a cabeça do ‘batista’ Mário de Andrade, mas sim a afirmação indiscutível de sua heróica memória (ANDRADE, 1996, 335). 106 Talvez o texto mais significativo seja a crônica de 1946, um ano após a morte de Mário, na qual o cronista contestava o crítico Álvaro Lins por ter colocado em xeque “a sinceridade da correspondência encomiástica de Mário de Andrade”. Ao final da crônica, lamentava o rompimento entre eles: Aqui entra a defesa da posição sentimental de Mário de Andrade. E do seu possível receio de ver publicadas as cartas que escrevia às centenas por ano, [...]. Esse lado socrático de sua obra tem que ser visto no ambiente em que crescemos, ligados e desligados pela luta a uma porção de gente agradável ou hostil. Isso trazia em si uma carga de exagero emotival que utilizamos. Também entre nós, em nossas dissensões, pró ou contra. Eu mesmo sou réu de injustiças brutalíssimas e mais de uma vez por mau humor, indiscrição ou piada, pus em perigo uma sólida amizade. (ibid. p. 178). Nos seus últimos dez anos de vida, além de rever seus julgamentos, Oswald tentou ingressar na carreira acadêmica, isto é, tento ser um chato-boy. Primeiro prestou concurso para a cadeira de Literatura Brasileira da USP, junto PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA com Antonio Candido, que sairia titular. Anos depois, tentaria o concurso para a cadeira de Filosofia, mas não pudera se inscrever por não possuir curso titular da matéria. No intermédio, candidata-se a uma vaga na Academia Brasileira de Letras, concorrendo com Menotti del Picchia e Manuel Bandeira, que é eleito. Esta tentativa de fazer parte do establishment ou funcionou como acusação de falta de coerência e excesso de oportunismo, ou foi ignorada. Tanto em um e outro caso, cria-se uma personagem linear. O que a recepção –e reavaliação – de sua obra pelo Concretismo irá amplificar. A persona linear aparece, por exemplo, em Martins ao julgar o artista pelo viés moral, como um oportunista das letras; no Concretismo, e depois no Tropicalismo, pela via do radicalismo estético, desconsiderando as revisões que o Oswald submeteu o seu pensamento. A imagem de “artista rebelde”, paradigmática nos 60/70, foi muito útil para criar uma plataforma de comparação com os anos 20, que fez muito bem à obra do modernista. A retomada do humor como forma de contestação da autoridade política ou artística encontrava nos poema pau-Brasil sua matriz, daí as comparações entre sua poesia e os poetas marginais. Isto foi muito irônico quando se leva em conta o esforço de Oswald em se desvencilhar da imagem de criador do “poema piada”. Oswald de Andrade será, então, um paradigma para o concretismo, pois os poetas concretos, interessados em “retomar o diálogo com a renovação”, irão projetar no autor a prefiguração da síntese concreta e, habilmente, o transformarão 107 numa espécie de “poeta maldito”; o tropicalismo encontrará na antropofagia um discurso (anti)nacionalista capaz de agregar o estrangeiro ao local para desacreditar as suspeitas da esquerda brasileira a respeito da incorporação da cultura de massa ao repertório de nossa cultura popular, aliás, o próprio conceito de cultura popular estaria em transe; para a poesia marginal, a poesia minuto oswaldiana representava um foco de resistência às tendências formalistas da poesia brasileira nos anos 60, representadas pelo concretismo, e principalmente ao discurso “sério” da poesia engajada. PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA O escritor que buscou se reinventar foi reinventado pelos seus exegetas. 108 7 Contribuição concreta A questão da legitimação encontra-se indissoluvelmente associada à legitimação do legislador. Jean-François Lyotard. (A condição pósmoderna) 7.1 Make it new No final dos anos 50, Haroldo de Campos reabilitaria a esquecida poesia de Oswald de Andrade, apresentando-a, para uma nova geração de leitores, como PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA um dos paradigmas fundamentais da vanguarda brasileira. A poesia concretista florescia como uma arrojada combinação de transgressão e formalismo poético. À princípio ela tem pouca relação com a poesia do modernista, que propunha uma poesia “sem erudição”, contra o “lado doutor”, “natural e neológica” porque a “poesia existe nos fatos”. A teoria da poesia concreta é o oposto deste projeto, pois é formalista, erudita e impermeável à “contribuição milionária de todos os erros”. Oswald queria que a poesia fosse popular – “a massa há de comer os biscoitos finos que fabrico” -, fosse impregnada pela energia do cotidiano, fosse antídoto contra o eruditismo. A práxis concretista será anti-popular, embora se infiltre pelos meios de comunicação de massa, mas como um vírus, para desestabilizar a recepção domesticada. A confluência com Oswald transcende o rigor formal concretista para o campo da – em busca de um termo melhor – “paixão”. Embora os poetas concretistas desprezassem o sentimentalismo, na defesa dos seus ideais e na busca pela “correção das injustiças”, eles estão entre os criadores mais apaixonados da literatura brasileira. Como amantes românticos, beiram a obsessão, ao radicalismo. É justamente pelo seu caráter radical que os concretistas, em termos teóricos, se identificaram com Oswald, vendo nos seus “fracassos” a antecipação das conquistas da poesia concretista. Neste sentido, o título de um dos primeiros ensaios de Haroldo, retirado de um trecho do “Manifesto antropófago” parece uma anunciação: “Oswald: ‘somos 109 concretistas’”. O trecho, manipulado pela descontextualização concretista, soa como uma revelação, reforçada pelo sinal de “dois pontos” utilizados para introduzir uma fala. A revalorização da poesia de Oswald, a descoberta de sua radical linguagem, derivava daquilo que anunciava das próprias conquistas dos concretos. Entre os movimentos literários surgidos nos anos 50 e 60, nenhum outro influiu e se expandiu pelas diversas áreas do conhecimento e da cultura. Décio Pignatari, Augusto e Haroldo de Campos dominaram um repertório intelectual sofisticado e amplo, que abrangeu a lingüística, a semiótica, a tradução, a teoria da informação, a criação poética. Ou seja, “profissionais altamente qualificados”. A mais-valia deste saber garantiu, por exemplo, lugar nos suplementos literários, no conselho editorial da Editora Perspectiva, nos quadros docentes das Universidades brasileiras e estrangeiras. Na história da literatura, somente o parnasianismo foi PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA tão longevo e odiado quanto o Concretismo. Coincidentemente, assim como o primeiro, a poesia concreta também era um triunvirato. “Neo-parnasianos” foi uma das acusações recorrentes dos opositores Affonso Romano de Sant’Anna e Bruno Tolentino. Há um consenso tácito, entre os historiadores da literatura brasileira, de que o Concretismo contribuiu mais no campo da teoria/tradução poética. Luciana Stegagno-Picchio resume a questão nos seguintes argumentos: embora o “trabalho de invenção de novas formas expressivas e de corrosão e denúncia do obsoleto e do gasto” tenha sido a tônica, é preciso pôr em primeiro plano a ensaística concretista. A abertura para o diálogo com as outras artes é a característica, à primeira vista, mais saliente da poesia concreta (a sua apresentação gráfica: abolição do verso; não-linearidade; uso construtivo dos “brancos”; ausência de sinais de pontuação; “constelações” na acepção introduzida por Gomringer; sintaxe gráfica), [...]; ao posso que a contribuição mais substancial dos concretistas à cultura hodierna é o trabalho por eles realizado sobre a linguagem, sobre a substância da palavra abordada no nível da forma. (Stegagno-Picchio; 1997, p. 616). Em Iniciação à literatura brasileira, Antonio Candido define a poesia concreta como rejeição ao subjetivismo, preconizadora “do fim do verso” e da “liberdade de combinar e desarticular as palavras segundo afinidades sonoras, dispondo-as como realidade visual”. No seu breve parecer, dentro do ânimo polêmico e transformador dos concretistas, o que havia de mais “importante” era “a parte doutrinária e crítica”. Em entrevista de 1979, Candido revelava seu 110 desinteresse pelo repertório crítico que animava os concretos: “Quando leio um livro de semiótica moderna acho interessante e posso até me entusiasmar; quando for ensinar ou escrever, quase nada de decisivo entrará na minha escrita ou na minha aula” (1992, p. 129). Massaud Moisés, em um curto parágrafo, define o Concretismo como “movimento de eruditos”; “internacional nos seus objetivos (...) e nos seus fundamentos” (1989, p. 440). Como ensaístas e tradutores, o trio concretista propõe a retomada do diálogo com as tendências da vanguarda internacional, segundo eles, interrompido desde os anos 20. No prefácio para a coletânea de textos críticos e manifestos, declaravam que “no plano nacional”, haviam restaurado o contato com o modernismo de 22, o qual fora “interrompido por uma contra-reforma convencionalizante e floral” (1987, p. 7). Em poesia, a “contra-reforma” referia-se ao retorno ao metro e às formas clássica proposto pela geração de 45. Assim como PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA a geração de 22 impôs seus padrões como valor de reconhecimento de suas obras, os poetas concretos impuseram seu vasto repertório erudito como sustentação e legitimação de suas teorias. Ambos lucraram com a ignorância do meio. Haroldo de Campos, em sua releitura de Oswald, baseou-se na lingüística estruturalista de Jakobson e na estética de Walter Benjamin, teorias as quais os concretistas são os primeiros tradutores. Este aspecto contribuiu para a visão consensual nos estudos literários: a maior importância do movimento foi a atualização da crítica literária com as correntes do formalismo russo, da poesia norte-americana, a lingüística estruturalista, a semiótica e a estética da recepção. O resgate oswaldiano permitiu a Haroldo contestar a ordem vigente em relação ao movimento modernista e elaborar uma história alternativa da literatura brasileira, baseada numa linguagem (e também experiência) internacional. Essa metodologia, ao mesmo tempo em que substituía, criticava a fundo as tendências da sociologia da literatura, que haviam dominado grande parte das teses sobre o modernismo. O próprio modernismo, com o romance social, contribuiu para a fundamentação da leitura sociológica, com os estudos de João Luiz Lafetá e Sérgio Miceli. Logo, no campo da prosa, o realismo de trinta significava outra versão da “contra-reforma floral”. Logo, a teoria concreta ignoraria os desdobramentos do ideário modernista para se concentrar no período dos anos 20, no qual o projeto reforma estética ainda não havia sido questionado pelo projeto político. Oswald de Andrade encarnava o ponto máximo de experimentação 111 formal, e como sua escrita caíra no limbo, também representava o que Décio Pignatari chamaria de “complô contra um pensamento experimental”. O ponto de articulação foi a “invenção”, ou na tradução concretista, a “consciência radical da linguagem”. Oswald, em particular, tornou-se importante porque permitiu aos concretos re-articularem a recepção do modernismo através da tradição das vanguardas históricas. Até então, a recepção orientava-se pelo critério nacionalista. O criador da poesia pau-Brasil foi o único modernista que aparecia no “plano-piloto” como precursor do concretismo; aliás, os únicos poetas brasileiros que figuraram foram Oswald e João Cabral de Melo Neto, este por causa da “linguagem direta, economia e arquitetura funcional do verso”, aquele por causa da “invenção”. Ao dar legitimidade a um autor historicamente importante como Oswald, mas cuja obra seus contemporâneos não julgaram à altura do seu “gênio”, os PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA concretistas legitimavam sua práxis, pois a aceitação do autor passou imediatamente pela aceitação dos argumentos. Aqueles que questionaram a teoria concreta, inevitavelmente negaram ou minimizaram o objeto sobre o qual os concretistas ilustraram o seu pensamento. Fundamental para a teorização de Haroldo de Campos foi os conceitos lingüísticos de diacronia e sincronia desenvolvidos por Jakobson, o que lhe permitiu pensar a historiografia não como uma articulação entre autores-contexto social-obras, mas como uma seleção textual regida pelo critério da “invenção”. Deste modo, a diacronia - seleção cronológica de autores e obras reunidos em “estilos de época” - cedia lugar à sincronia - a inter-relação temporal entre autores e obras, ou seja, a constante atualização do passado pelo presente. Nas páginas finais do ensaio “Poética sincrônica”, Campos esboçava um elenco para uma obra ambiciosa, jamais concretizada: A antologia da poesia brasileira de invenção. Em todos os autores abordados, o ensaísta escolhia um ponto de vista desconsiderado; por exemplo, a respeito de Gregório de Matos: “Em lugar de discutirmos sobre as influências de Gôngora e Quevedo, por que não pensar em certa parte da obra de GM como tradução criativa? (1977, p. 209). “Tradução criativa” tem dupla função na argumentação concretista, serve tanto como teorização para transcriação de obras quanto para discutir a influência externa. Em sua polêmica com Antonio Candido, Haroldo resumiriu assim uma 112 “tradição da invenção”: “uma dialética de pergunta e de resposta, um constante e renovado questionar da diacronia pela sincronia” (1989, p. 63). O concretista problematiza a exclusão de Gregório de Matos (e por extensão o Barroco) da Formação da literatura brasileira, a opus magma de Candido. No prefácio, “A literatura como sistema”, o historiador justificava a exclusão, afirmando que a literatura brasileira, como fenômeno de nossa civilização, só começou a existir quando surgiram escritores conscientes do seu papel e dispostos a “fazer literatura brasileira”, transformando as “veleidades mais profundas do indivíduo” em elemento de contato e interpretação “das diferentes esferas da realidade” (1959, p. 23). A transmissão deste ideário de geração a geração formava uma tradição. O “sistema” de Candido, para Haroldo, revelava-se excludente ao eleger o “logos nacional” como critério de seleção, pois propunha uma “identidade coesa”, PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA a partir de um corpus homogêno, que excluía o diferente (1989, p. 74). O modelo sincrônico, seu argumento nos leva a pensar, seria inclusivo. Mas como? Em síntese, a “tradição da invenção” é tão ou mais excludente do que o sistema de Candido. O importante nela é a substituição do logos nacional, pelo logos internacional. O critério de valoração minimiza a representação da realidade nacional – por extensão, enfraquece a linha sociológica reinante nos 50/60 - para valorizar o domínio dos códigos estrangeiros. Isso implicou uma subordinação à autoridade de Mallarmé, Ezra Pound, Joyce e Jakobson. O papel de tradutores – e o próprio senso comum ao premiá-los nesta função – transformava-os numa espécie de “antropófagos” da cultura literária. A poesia concreta representa o momento de sincronia absoluta da literatura brasileira. Ela não apenas pôde falar a diferença num código universal (como Gregório de Matos e Pe. Viera no Barroco; como Sousândre recombinando a herança greco-latina, [...]; como Oswald de Andrade “pau-brasilizando” futurismo italiano e cubismo francês). [...]. A diferença (o nacional) passou a ser com ela o lugar operatório da nova síntese do código universal. (CAMPOS, 2004, p. 246). Em pleno alvorecer dos anos 60, a escrita de Oswald fornecia, aos concretistas, os argumentos necessários para questionar a corrente sociológica, atacando-a no cerne do problema da literatura brasileira: o nacionalismo literário. Afinal, fôra o profeta de uma “literatura de exportação”, um “pensamento antropofágico”, um “internacionalismo”. Ao sincronizar-se com o modernista, Haroldo de Campos re-introduzia a obra do autor no circuito literário, propondo 113 outros valores em sua poesia, justificáveis pela teoria concreta, provando tanto a mais valia de sua obra quanto a mais valia do crítico. 7.2 Devorando Joyce e Mallarmé Se a poesia concreta era o momento máximo de sincronia na literatura brasileira dos anos 60, o resgate de Oswald se dava pelo que se podia construir de comum com o concretismo e suas fontes. A atualidade do modernista não residia na ilusão da eternidade (como rezamos no templo Classicista), mas naquilo que prevê do referencial da poética concretista. Em “Estilística mimarina”, Haroldo definia Memórias sentimentais de João Miramar como um romance cubo-futurista”, pois o “cubismo histórico” PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA serviu-lhe como ilha de montagem, influência que configurava sua escrita como “residualmente icônica em relação ao mundo exterior” (2004, p. 120). A questão residia no deslocamento da experiência vivida, implícita no título “memórias”, para o campo da experiência de linguagem, desfiguradora do conteúdo autobiográfico. Deste modo, o romance-experiência torna-se tópico central para a demonstração da teoria de Jakobson a respeito da metonímia e da metáfora. A metonímia, concorda Campos, é o mais indicado para “as discriminações psicológicas” e a criação de caracteres, por isso o “escritor do realismo tradicional” recorria a ela para compor as articulações temáticas. Em Oswald, conclui, o processo metonímico reelabora os dados da “realidade trivial”, fundando um “realismo especial”, “quase etimológico”, “fundado na realidade do texto como coisa de palavras”. Assim, apesar do romance ser uma sátira social, portanto com um referente no “mundo exterior”, é a “propensão da prosa miramina” em fundar “na realidade do texto sua própria realidade” que se impõe (2004, p. 105). A práxis concretista está entre as melhores traduções brasileiras do conceito de “desumanização da arte”. Ortega y Gasset, no clássico texto de 1925, descrevendo o surgimento da vanguarda, percebia que para “os jovens artistas” a “arte é uma coisa sem transcendência alguma”. A tendência de fazer da “obra arte outra coisa senão obra de arte” marcava um outro compromisso ético, porque a “arte nova” considera os dramas humanos como fraude estética (1999, p. 31). “É 114 preciso acabar com o Eu” e “toda a psicologia”, escrevia Marinetti no “Manifesto técnico da literatura futurista”. A arte do século XIX, prossegue Gasset, fez com que a obra consistisse, quase por completo, na “ficção de realidades humanas”. Neste sentido, foi realista. Beetthoven e Wagner, realistas na música; Chateaubriand e Zola, realistas na literatura. Para ler um romance realista, o leitor não precisa ser dotado de uma elevada “sensibilidade artística”, basta possuir “sensibilidade humana”, pois o realismo é um “extrato da vida”. Por isso, conclui, a arte do século XIX foi “tão popular”, uma vez que em todas as épocas houve uma arte para minoria e outra para a maioria, “esta última sempre foi realista” (idem. p. 18). A vanguarda, ao recusar a ficção humana, dividia o público entre aqueles que a entendiam, uma minoria dotada de sensibilidade estética, e a maioria, que via na arte uma extensão da vida, frustrados por não encontrarem nela os PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA mecanismos de identificação emotiva. A conseqüência: a vanguarda é impopular. O artista de vanguarda se negava aceitar a arte como extensão da vida, como reprodução dos dramas humanos, enfim, como catarse ou divã da humanidade. Só consegue ver o “humano” com uma distante ironia. Essa era a sua ética. Lembremos de uma anedota: diante do quadro “As meninas”, um diletante dizia a Matisse: “Belas cores, mas isto não são meninas”. E o pintor respondia: “Não, é um quadro”. Aqui residia, para Ortega y Gasset, o gesto “libertador de Mallarmé”, o “primeiro homem do século passado que quis ser poeta”, por que produziu pequenos objetos líricos diferentes da fauna e da flora humana (ibid, p. 34). Um poema de Mallarmé não é para “ser sentido”, as palavras são as “protagonistas” de sua empreitada lírica. O texto de Gasset antecipava toda uma linha de pensamento na literatura ocidental preocupada com a imanência do texto. Os concretistas, no seu “planopiloto”, declaravam-se “produto de uma evolução crítica de formas” – esta evolução, ao nosso ver, era a “desumanização” -, no qual o “poema é um objeto em si e por si mesmo, não um intérprete de objetos exteriores e/ou sensações mais ou menos subjetivas” (1975, p. 156). O processo de concretização de Oswald de Andrade envolvia a “desumanização” de sua escrita. No caso de Memórias sentimentais de João Miramar, a fragmentação narrativa e a ruptura com os cânones realistas não só autorizavam como pediam esta leitura. Antonio Candido havia sinalizado nesses 115 dois aspectos a qualidade dos romances experimentais do autor. Haroldo de Campos esforçou-se ao máximo para desassociar a escrita oswadiana do Modernismo tout court. A tendência nos textos de Haroldo, para legitimar a “prosa nova” de Oswald de Andrade, foi associá-la à escrita de Ulisses. No “paideuma” concreto, James Joyce é o equivalente, na prosa, a Mallarmé na poesia: inventores. Seria extenso citar as centenas de vezes que Joyce é referido nos textos dogmáticos do concretismo. Desta forma, o trabalho do crítico consiste na descoberta e criação de laços comuns entre os dois romancistas. No artigo “Sobre o romance”, Oswald de Andrade, ao comparar Joyce com Thomas Mann, para escolher qual dos dois inaugurava o romance moderno, define Ulisses como um “grande marco antinormativo”. Haroldo de campos toma este juízo como mais uma evidência da aproximação de Miramar com a escrita joyceneana. O prefácio para Memórias Sentimentais – “Miramar na mira” – PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA revelava esta aproximação, ou antecedência, já em sua introdução: Em 1922 – ano que se assinalaria entre nós pela eclosão da Semana de Arte Moderna – era publicada em Paris, [...], a primeira edição de um livro destinado a alterar os rumos da ficção moderna: Ulisses, de James Joyce. [...]. Memórias sentimentais de João Miramar, [...], sai em 1924, dedicado a Paulo Padro e Tarsila do Amaral. (CAMPOS, 1978; p. xivv). O caminho teórico tomado por Haroldo para fundamentar a sincronia passa pela paródia como elemento comum na escrita dos autores. No entanto, para poder prosseguir neste caminho, precisava por Mario de Andrade no barco, uma vez que “os dois Andrades” usaram este “recurso estrutural” com “ativa função de sátira social”. Daí a ressalva de que este caminho deveria ser seguido com “a maior cautela”. No entanto, afastada a paródia como elemento comparativo, Memórias sentimentais se distanciava da “intricada e complexa estrutura, o caráter monumental do Ulisses joyciano”. O Miramar, como todo, poderá ser posto em cotejo com um capítulo isolado do Ulisses (VII-Éolo), passado numa redação de jornal, e onde são aproveitadas as técnicas de manchete, titulagem e tópico da imprensa diária. O Miramar, com seu estilo telegráfico, é bem um misto de diário sentimental e de jornal dos faits divers duma sociedade provinciana [...]. Não falta também ao Miramar – já está no título, a investir onomasticamente, duma perpétua vocação marítima – a idéia de périplo, idéia que no Ulysses joyciano é transposta para uma jornada terrestre e pedestre no enclave urbano de Dublin. (CAMPOS, 1978; p. xxix). Até aqui, suas justificativas estavam repletas de ressalvas, a começar pela base de comparação desigual, um capítulo de Memórias em relação a todo romance de Joyce. O fato do capítulo do irlandês se passar numa redação de jornal 116 justificava a comparação com o “estilo telegráfico”? A apropriação da estilística do jornal já era feita pelos futuristas e dadaístas antes de Joyce e Oswald. Astuciosamente, Haroldo invertia as diferenças em semelhanças, claramente na comparação entre o “périplo marítimo” e o “périplo terrestre”. O último refúgio do sincronismo Joyce-Oswald foi o futurismo como influência comum. Haroldo demonstra, não sem um pouco de diacronismo, que Ulisses tem “raízes futuristas”, o que confere legitimidade histórica à comparação. “A senha é o simultaneismo. Palavras em liberdade. Imaginação sem fios”(ibid,p. xxxiii). Ou seja, em seu (super) romance, Joyce sofrera a mesma influência, isto é, bebeu na mesma fonte, que Oswald. E os outros modernistas que também beberam nesta fonte? Macunaíma não seria também um romance próximo à escrita de Joyce? A intricada escrita marioandradiana em sua rapsódia não teria um contato sólido com “os jogos de palavras”, as “desordens sintáticas” e os PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA neologismos joyceanos? Ao buscar em todo lugar a semelhança, Haroldo de Campos, pela insistência, ergueia Ulisses como marco normativo. A consagração de Memórias sentimentais ocorre sob a benção de Joyce, o “pai” do romance-invenção, “precursor” do Concretismo. Se ambos foram publicados com dois anos de diferença, e como admite Haroldo, Oswald provavelmente não lera Joyce na época, foi apenas um detalhe diacrônico. O princípio da “literariedade”, o predomínio da escritura sobre o autor, a lição de Roland Barthes na “Morte do autor” como reação ao determinismo vida e obra, regeu os textos de Haroldo; porém, aqui entra a visível paixão dos concretistas pelos seus ídolos, a reabilitação de Oswald não deixava de ser uma celebração do indivíduo. Segundo Antonio Candido, Oswald de Andrade era um problema literário não só por causa da passionalidade com que sua obra fora julgada, mas também devido às reviravoltas em sua escrita. Ao publicar A Estrela do Absinto, em 1927, já lançara há três anos a sátira maravilhosa das Memórias, que contradiz grande parte das tendências manifestadas naquele livro. [...]. Portanto, de 1920 a 1930 o sr. Oswald de Andrade atravessa um período contraditório, cheio de alto e baixos, procurando encaminhar para o nacionalismo poético um misticismo que não o satisfazia mais, malhando a ambos com anarquia de um protesto ainda incoordenado, invertendo de novo os termos, baralhando-os adiante (CANDIDO, 1992, p. 25). A trilogia Marco-zero não resolvia as “contradições” estilísticas, pelo contrário, apostava no realismo social, antítese da linha experimental do par 117 Miramar-Serafim. Haroldo de Campos, para construir uma persona linear, ignora tanto a “trilogia do exílio”, marcada pelo decadentismo finisecular, quanto a “trilogia social”, para fincar os pés na fase acentuadamente de vanguarda. Nada de errado nisto, pois toda a leitura implica em opções, escolhas, recortes. Se privilegiasse no mesmo grau a “fase social”, cedo ou tarde, o crítico teria que se apoiar na bibliografia sociológica, corrente a qual pretendia questionar. A linearidade, no entanto, tacitamente projetava uma imagem total do autor, não admitindo em nenhum momento a fuga da moldura vanguarda, isto é, do repertório referencial da teoria da concreta. 7.3 Regurgitando Mário PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA Da crítica romântica à crítica moderna, as ciências sociais forneceram as bases epistemológicas para a construção do saber literário. Compreende-se a evolução da literatura em sintonia ao desenrolar dos eventos históricos: o Romantismo e a Independência; Machado de Assis e o Segundo Reinado; Modernismo e a República velha; o pós-modernismo e a Ditadura Militar. O Concretismo propõe outro estado de coisas, a partir de outros referenciais: a lingüística, a semiótica, a teoria da informação. Desvincula-se escrita e história, estética e política. Em relação ao Modernismo, há todo um esforço especial em minimizar a escrita de Mário de Andrade. No fundo, através da negação do autor, nega-se o lugar que o legitimou, ou seja, a corrente históricasociológica. Nas palavras de Antonio Candido, “Macunaíma é a mais alta expressão da antropofagia” (1965, p. 113); Mário construiu mais, foi “a individualidade intelectual mais poderosa”, “quem pensou em profundidade a realidade brasileira” (1992 p.244). Segundo João Luiz Lafetá, em Mário há o “esforço maior e mais bem sucedido” de uma posição coerente entre a “revolução estética e a revolução ideológica” (2000, p. 158). Já para Haroldo de campos: “A Paulicéia, com tudo o que trazia de novo, ainda não era a revolução; era a reforma, com seu lastro de conciliação e palavrosidade” (1978, p. 15). A poesia de Oswald, expunha Haroldo no prefácio de Poesias reunidas, era regida pela “radicalidade”; neste sentido, foi revolucionária. Radical, explicava citando Marx, significava “tomar as coisas pela raiz. E a raiz, para o 118 homem, é o próprio homem”. Como não estamos diante de um crítico marxista, a “radicalidade da poesia oswaldiana” se realiza “no campo específico da linguagem”, sendo uma “verdadeira tomada pré-concreta” (1978, p. 44). Se no romance o autor sincronizava-se com Joyce; na poesia, sincronizava-se com Mallarmé. A poesia pau-Brasil, argumentava, rompia com a tradição discursiva-sentimental, para fundar, a partir da devoração crítica da vanguarda européia, um lirismo objetivo e paródico. O projeto nacionalista desaparece na argumentação de Haroldo. A releitura da história do Brasil, através dos “poemas-paródia”, funcionava como dessacralização das peças do florilégio nacional e construção de uma poética baseada no ready made como princípio formal. Havia, no entanto, “uma pedra no meio do caminho” concretista: Mário de Andrade. Afinal, coube ao autor de Paulicéia desvairada o mérito do marco inicial da poesia modernista, e também da teoria com o “Prefácio PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA interessantíssimo” e A escrava que não é Isaura. Para Haroldo, contudo, Mário é o “reformador”, tem a consciência do novo, mas ao mesmo tempo preservava uma paixão secreta pela estética parnasiana. Mário sempre se preocupou a sério com a estética parnasiana (vejam-se os seus estudos “Mestres do passado” e o que neles há de implícita reverência) e mais de uma vez, em diferentes épocas, quis mostrar que sabia fazer sonetos em clave áurea ao gosto dessa estética. (CAMPOS, 1978, p. 19). A acusação mais recorrente era de que Mário sofreria do “mal eloqüência”, não havia seguido o conselho de Verlaine: “toma a eloqüência e torce-lhe o pescoço”. O que tornava o poeta ainda mais “intragável” foi a sua recusa em letras maiúsculas a um dos próceres do Concretismo: “É PRECISO EVITAR MALLARMÉ”22. A dupla recusa, tanto de Verlaine quanto Mallarmé, revelava, segundo Campos, um “elogio do sentimento e do subconsciente”, que significava um modernismo conservador. O Modernismo revolucionário, na construção concretista, negaria a eloqüência preservada por Mário para opor-lhe o “lirismo objetivo”, “antiilusionista”, “desacralizador da poesia”, valores localizados na poesia pau-Brasil. Ao invés do poema longo (tão comum em Mário), a síntese (o poema-minuto oswaldiano). Oswald de Andrade, na visão concretista, “se reclama de Mallarmé”, embora o mestre francês seja uma referência raríssima nos textos do poeta “pau- 22 cf: A escrava que não é Isaura. 119 Brasil”. Apesar disto, conclamava Haroldo, “Oswald parece ter compreendido em toda a sua importância – via futurismo e cubismo – o alcance da revolução mallarmaica”(1978, p.27). O oposto ocorre com Mário, que opta por Cocteau, tacha Mallarmé de poeta do “não-vai-nem-vem”, de “intelectualização exagerada e pretensiosa”23. Os únicos poemas que Haroldo salva são os do Losango cáqui, “a coletânea mais experimental e enxuta de Mário”, na qual “ensaiaria uma concisão paralela àquela praticada exemplar e sistematicamente por Oswald em PauBrasil” (1978, p. 15). Quando procuramos esses “poemas isolados” (XIV e XXVI), porque no geral “subsiste a marca renitente do sentimentalismo”, constatamos que a escolha ocorre pela semelhança com a poesia concretista. Vejamos: PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA XIV Tudo esquecido na cerração. ... um-dois, um-dois, um-dois, um-dois, um-dois, um- dois. ÁRVORE um-dois, um-dois, um-dois, um-dois, um-dois, um- dois. ÁRVORE (...). Tais experimentos poderiam figurar como “uma verdadeira tomada préconcreta”, como: América do sul América do sol América do sal Poderiam... Se o poeta não tivesse evitado Gôngora e Mallarmé. Em uma crítica virulenta contra o Concretismo, Affonso Romano de Sant’Anna apontava que há, em particular em Haroldo, uma “relação problemática com Mário de Andrade”, ou seja, a “impossibilidade” de lê-lo a não ser “através de Oswald de Andrade”. Soma-se o “trauma diante da audácia” de evitar Mallarmé. A situação limite, para Affonso Romano, foi a “absurda” influência de Serafim Ponte Grande (1933) sobre Macunaíma (1928), defendida por Campos em “Miramar na mira”. Para o oponente: “Haroldo não conseguia 23 cf: A escrava que não é Isaura. 120 aceitar o fato elementar de que Macunaíma é mais importante do que os dois livros de Oswald” (2003, p. 22). Em O tupi e o alaúde, Gilda de Mello e Souza – esposa de Antonio Candido e prima de Mário de Andrade –, analisando as proposições de Haroldo de Campos em Morfologia de Macunaíma, acusava-o de ter feito uma leitura reducionista da “rapsódia” marioandradiana, isto é, em suas palavras: O que constitui a meu ver a fragilidade maior de seu enfoque foi ter projetado num livro, cujas componentes eram todas ambíguas e ambivalentes, uma leitura unívoca, que rejeitava os desvios da norma, para fazer a obra de arte caber à força no modelo de que, fatalmente, teria de extravassar. (SOUZA, 2003, p. 46). O modelo adotado pelo concretista baseava-se nos estudos das narrativas folclóricas russas, Morfologia do conto maravilhoso, do folclorista Vladimir Propp, no qual demonstrava que as partes componentes de um conto poderiam ser transportadas para outro. A bruxa ou o demônio sempre é o praticante da má-ação. PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA Ao adaptar esta tese na análise de Macunaíma, Haroldo concluá que “Mário conseguiu divisar o que havia de invariante na estrutura do conto folclórico”, para recriar artisticamente o que havia de variável sobre o elemento base (2004, p.175). Para Gilda de Mello e Souza, “independente das analogias que estava descobrindo”, faltou ao concretista relacionar a obra com “complexo sistema formal do escritor”; por isso, “acabou banalizando um fato admirável de parole à banalidade da langue”(2003, p. 45). Assim, segundo a interlocutora, o crítico “ignorava” a importância que o próprio Mário atribuía ao episódio de Vei e suas filhas; contradizia-se em relação a função do muiraquitã; não levava em conta “Cartas pras Icamiabas” como “centro do livro”. A reação de Haroldo foi expressa nas notas do ensaio “Mario de Andrade: a imaginação estrutural”, no qual retomava a tese apresentada em Morfologia de Macunaíma. Em sua defesa, argumentava que “o fato” de ter proclamado a “rapsódia” como uma “grande fábula de busca de um objeto de virtudes mágicas”, o aspecto imutável da fábula na leitura de Propp (os “romances de cavalaria”, etc), já desmontava, “na origem”, a originalidade da conjectura “gildiana”, que aponta Macunaíma como um dos grandes arquétipos da “literatura popular universal”. Tendo como advogada (a amiga) Leyla Perrone-Moisés, decretava que “a autora de O tupi e o alaúde não demonstra grande familiaridade com a bibliografia sobre narratologia”, por isso “não atina exatamente com o que seja ‘estrutura sintagmática’”, “aspecto verbal e aspecto funcional da análise” (2004, p. 177). 121 Affonso Romano pegou carona nesta briga de departamento de Letras da USP, para afirmar que Haroldo assumia uma posição recalcada diante de Mário, pois contraditoriamente “ama o texto/pai de Mário”, “mas tem remorso porque ele renega o pai anterior de Haroldo, que é Mallarmé”. A curiosa elaboração psicologizante termina na emblemática frase: “Macunaíma derrotou Haroldo” (2003, p. 26). Toda polêmica residia na supremacia de um modelo interpretativo. Em certo momento, Gilda de Mello e Souza e Haroldo de Campos não estão discutindo Macunaíma, mas sim quem melhor compreendeu Bakhtin, Propp e o Estruturalismo, aplicando-os à rapsódia. O repertório bibliográfico oculta a desavença principal: a desnacionalização da escrita de Mário de Andrade. No primeiro capítulo do Tupi e o Alaúde, a autora defende que o princípio estrutural do romance consistia no livre trânsito entre o popular e o erudito, assim o folclore amazônico tornava-se peça chave na configuração da escrita carnavalizada do PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA modernista. Haroldo de Campos desloca o folclore do domínio nacional para o domínio internacional, retirando a escrita de Mário do fabulário amazônico, no qual se discutiu os elementos de identidade local, para inseri-la na tradição ocidental dos “contos de fantasia”, tomando como referente, via Propp, o folclore russo. O concretista, logo, toparia com a questão: Macunaíma seria um romance antropofágico? Nos prefácios para Poesias reunidas e Memórias sentimentais de João Miramar, ao subordinar a escrita de Mário à de Oswald, o crítico alude a esta possibilidade, porém só a aceita em termos de “débito”. Aceitá-la significaria, explicitamente, endossar os argumentos de Antonio Candido, que via Macunaíma como a realização concreta do que Oswald sugeriu no “Manifesto antropófago” (1965, p. 113). Deste modo, ao intensificar a dualidade Mário-Oswald, Haroldo de Campos apontava para uma outra recepção do Modernismo que não culminava no pontificado de Mário de Andrade, como via ocorrendo desde sua morte. Uma pergunta, no entanto, fica perdida: por que um crítico, que vinha escrevendo textos fundamentais sobre a poética oswaldiana, escolhia Macunaíma como tema monográfico para admissão nos quadros docentes da USP? Explicitamente, Haroldo de Campos sabia que Mário de Andrade, antes de um desafio, já era assunto acadêmico de maior peso. Se o Concretismo contribui de forma decisiva para a criação do “mito” Oswald de Andrade, a crítica acadêmica 122 criava o “mito” Mário de Andrade. Campos, percebendo ou não esse movimento, prestou sua contribuição à bibliografia Andradina. 7.4 Simbioses A simbiose é descrita como associação entre dois seres vivos, com benefícios mútuos. O resgate de Oswald de Andrade, sua “concretização”, pôs em movimento suas idéias, em um novo círculo de recepção muito mais simpático em relação às suas obras. A proposta de uma literatura de exportação casava com o “paideuma” concretista, com uma história da literatura regida pelo critério internacional. Daí a importância atribuída ao Barroco e a desimportância dedicada ao Romantismo. PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA Na contestação à tese de Candido, na qual o Barroco aparecia como uma “manifestação literária”, sem contribuição para a formação da tradição literária, Haroldo de Campos argumentava da seguinte forma: [...] nossa literatura não teve ”infância” (infans, o que não fala). Não teve origem “simples”. Nunca foi in-forme. Já “nasceu” adulta, formada, no plano dos valores estéticos, falando o código mais elaborado da época. (CAMPOS, 1989, p. 64). O Barroco era um estilo internacional, defendê-lo como nossa gênese literária desestruturava o nacionalismo literário, base para a historiografia brasileira desde Silvio Romero. Oswald de Andrade emprestava os instrumentos poéticos à teoria o concreta para se inserir e/ou criar uma história alternativa da literatura brasileira, regida pelo internacionalismo. Nos termos de Haroldo: Só concebo o nacionalismo de um ponto de vista modal, não ontológico: a maneira brasileira de dialogar com o universal, articulando diferencialmente sua combinatória, especificando escolhas e também inovando. (apud. Supl. Mais!, 14 de setembro de 2003). Em um dos ensaios que compõe Balanço da bossa, Augusto de Campos entregava o jogo: “a produção artística brasileira já adquiriu maturidade, a partir de 1922, e universalidade, desde 1956” (1993, p. 157). Uma data refere-se à Semana de Arte Moderna; a outra, à Exposição Nacional de Arte Concreta, em que foi lançado oficialmente o movimento da poesia concreta. O diálogo concretista com a Semana de 22 ocorre exclusivamente via Oswald de Andrade, tanto que nos textos de Augusto não aparece nenhum outro participante da 123 Semana. Ele é o ponto de articulação entre o passado e o presente de uma linha experimental e internacionalista na cultura brasileira. Por fim, a permanência dos prefácios de Haroldo de Campos, nas edições recentes de Oswald de Andrade, completa o processo simbiótico, pois o leitor (ao menos que os ignore, coisa que o leitor interessado não faz) lê o modernista sob o filtro concretista. A relação simbiótica ficará mais clara com a introdução do PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA Tropicalismo nas letras nacionais. 124 8 Antropofagia remixada O Tropicalismo é um neo-antropofagismo. Caetano Veloso (Balanço da bossa) 8.1 A utopia selvagem Remixar, na linguagem musical, significa reprocessar uma canção, conferindo-lhe novos elementos. O conceito de antropofagia, em nossa história cultural, foi remixado duas vezes: por Oswald de Andrade, nos anos 50, e pelo PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA Tropicalismo nos anos 60. A remixagem tropicalista levou a antropofagia do terreno literário-filosófico para o campo da cultura de massa, como uma teoria cultural capaz analisar a relação entre vanguarda, cultura popular e indústria cultural. Em última instância, justificou o próprio Tropicalismo como movimento cultural inserido numa tradição modernista. No manifesto de 1928, alimentando-se da psicanálise freudiana, Oswald de Andrade confrontou a orientação étnica do grupo Verde-amarelo, que buscou no indianismo e no folclore as reservas culturais capazes de resistir ao “perigo estrangeiro”, visto sob as formas da vanguarda e do comunismo. Contra essa tese, Oswald - intelecto formado através dos transatlânticos - retomada a figura maldita do índio antropófago. O ritual antropofágico, condenado pela catequese jesuíta, transfigurava-se numa poderosa metáfora capaz de se relacionar sem dramas com as influências externas e, ao mesmo tempo, superar os traumas causados pela colonização lusitana e pela religião castradora. Na “Crise da filosofia messiânica”, Oswald retornava à antropofagia, não somente no sentido de desrecalque cultural, mas como princípio de evolução histórica alternativa aos valores ocidentais, entre eles a moral do lucro e o Estado de classes. A história da humanidade, pensava, prendia-se a dois hemisférios: o Matriarcado e o Patriarcado. O primeiro gerou uma cultura antropofágica; o segundo, uma cultura messiânica. Deste modo, a “formulação essencial do homem 125 como problema e realidade” repousava em três termos: 1º, o homem natural; 2º, o homem civilizado; 3º o homem natural civilizado. O hemisfério matriarcal regia-se pelo direito materno, a propriedade comum e a ausência de Estado. A revolução patriarcal instaurou o Estado de classes, criando uma oposição entre direito natural e direito positivo (civil, diríamos), centrada na coerção da Lei jurídica, que transformou a propriedade comum do solo em propriedade privada. Uma classe se sobrepôs a todas as outras. Foi a classe sacerdotal. A um mundo sem compromissos com Deus sucedeu um mundo dependente de um Ser Supremo, distribuidor de recompensas e punições. Sem a idéia de uma vida futura, seria difícil ao homem suportar a sua condição de escravo. Daí a importância do messianismo na história do patriarcado. (ANDRADE, 2001, p. 104). O pensamento antropofágico, no que se referia à função espiritual do PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA messianismo, absorvia o pensamento de Nietzsche, ao condenar a religião e a moral cristã como estímulo à resignação e à compaixão, meios de ascensão a um lugar que não existe. A presença do filósofo alemão tem sido constantemente referendada por Benedito Nunes, porém devemos lembrar que existe outro prato no cardápio: Max Weber. A relação entre a Reforma e o desenvolvimento do capitalismo moderno, um dos tópicos da “Crise da filosofia messiânica”, seguia a linha de pensamento weberiana: No que se refere à produção da riqueza privada, a ascese condenava tanto a desonestidade como a ganância instintiva. [...]. Combinando essa restrição do consumo com essa liberação da procura de riqueza, é óbvio o resultado que daí decorre: a acumulação capitalista através da compulsão ascética da poupança. As restrições impostas ao uso da riqueza adquirida só poderiam levar a seu uso produtivo como investimento de capital. (WEBER, 1985, P. 123). O lucro, dentro do espírito capitalista da Reforma, era uma graça divina, pois “quando Deus aponta para um dos seus eleitos” a possibilidade do lucro, o “cristão autêntico deve atender a este chamado”, deve “trabalhar para ser rico para Deus” (WEBER, 1985, p. 116). Oswald localizava na Reforma todo “o espírito da transação burguesa”, que através da “doutrina da graça” encontrava os eleitos por Deus para serem “beneficiários do lucro”. Se o sacerdócio era o “ócio sagrado”, no capitalismo moderno, surge o negócio, isto é, a negação do ócio (2001, p. 128). O elogio do trabalho, como meio de realização da vontade divina, opunha o “homem lúdico” da sociedade matriarcal ao “homem faber” da sociedade burguesa; um é livre, outro é escravo. O marxismo militante, que poderia 126 prenunciar um novo matriarcado pela abolição da sociedade de classes, na visão de Oswald, a esta altura rompido com o Partido Comunista, transformara-se em um “messianismo empedernido e dogma imutável na URSS” (idem. p. 137). O dogma partidário e o stalinismo substituíam o dogma divino na eleição do que era bom ou mau. O homem civilizado, portanto, era um escravo da idolatria do dinheiro, condenado ao trabalho como promessa a algo impossível, ou negado, seja o paraíso cristão ou a sociedade sem classes, pois em um e outro estava submetido ao poder divino ou do Estado. As condições para a libertação do homem nasceriam do progresso técnico, das máquinas que fariam o trabalho humano, possibilitando “realizar na terra o PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA ócio prometido pelas religiões no céu”: No mundo supertecnizado que se anuncia, quando caírem as barreiras finais do Patriarcado, o homem poderá cevar a sua preguiça inata, mãe da fantasia, da invenção e do amor. E restituir a si mesmo, no fim do seu longo estado de negatividade, na síntese enfim, da técnica que é civilização e da vida natural que é cultura, o seu instinto lúdico. (ANDRADE; 2001, p. 106). Através do progresso técnico criaria-se a condição para o retorno ao matriarcado, numa síntese entre o homem natural e o civilizado. A visão de evolução histórica oswaldiana nutria-se da idéia de história como eterno retorno. Contra o conceito futurista, no qual o destino da técnica era a ocupação do futuro; em Oswald, tratava-se de criar as condições materiais para retornar à idade de ouro de uma sociedade sem a autoridade da lei, sem a violência da guerra, sem totalitarismo monoteísta. A idéia de uma idade de ouro localizada em um passado pré-cabralino estava explícita no manifesto de 28, todo estruturado em uma tensão entre o “antes” (da chegada do português) e o “agora” (o Brasil colonizado). A concepção de uma cultura antropofágica como uma nova dimensão utópica do homem, para Luis Costa Lima - em “A utopia antropofágica, uma utopia sem história”-, foi um equívoco, pois ao conceber um “retorno a préhistória do homem”, insinuava-se que a “história, como um carro alegórico, pudesse dar marcha-ré”. Não menos estarrecedor, segundo o crítico, era a suposição de que “a exploração do trabalhador desapareceria no capitalismo avançado”, superando as contradições entre capital e trabalho (1995, p. 96). Costa Lima desconsidera que Oswald acreditava que a tecnologia ofereceria os meios para a superação, ou pelo menos tensionamento, das relações entre capital e trabalho. Além do mais, a própria idéia do “ócio” por si só constituía uma 127 confrontação com a religião do trabalho, e é através dele que homem moderno trás de volta (e não: “volta atrás”) a idade de ouro do Matriarcado de Pindorama. A concepção da história como um constante ir e vir no tempo, completamente estranho ao positivismo historicista, que a concebia como movimento progressivo, teleológico, aproximava Oswald a uma das premissas de Nietzsche na Segunda consideração intempestiva: Pensem no exemplo mais extremo, um homem que não possuísse de modo algum a força de esquecer e que estivesse condenado a ver por toda parte um vir-a-ser: tal homem não acredita mais em seu próprio ser, não acredita mais em si, vê tudo se desmanchar em pontos móveis e se perde nessa torrente do vir-a-ser [...] (NIETZSCHE, 2003, p. 9). Um indivíduo ou uma cultura preso à “historicidade”, segundo o filósofo, vêem-se incapazes de produzir uma nova história, ou seja, não são capazes de se reinventar. A superação do patriarcal, através do retorno do ócio, era justamente a PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA possibilidade de concepção de uma outra evolução. Tal princípio, como demonstramos no capítulo dois, estava presente em vários poemas da Poesia pauBrasil, nos quais a paródia era um meio de criação de uma outra história. A utopia antropofágica, cujo mérito, na opinião de Costa Lima, foi o desejo de reinventar o Brasil, corria em sentido contrário ao do pragmatismo da sociologia da literatura. Um dos representantes do pragmatismo sociológico, Roberto Schwarz, argumentava - em “A carroça, o bonde e o poeta modernista” – que havia uma tendenciosa ingenuidade em Oswald ao interpretar o Brasil pelo viés antropofágico, porque os "temas comumente associados ao atraso e desgraça nacionais" ganhavam "uma surpreendente feição otimista, até eufórica (...). Um ufanismo crítico, se possível dizer assim" (1987, p. 13). Um dos “temas associados ao atraso” era o analfabetismo omitido sob a tese do “erro gramatical” e da “incorporação milionária de todos os erros”. Outro, naturalmente, seria o controle exercido pelo capital privado dos instrumentos de libertação, isto é, a tecnologia. Para Schwarz, em Oswald combinavam de modo astuto “a atualização cosmopolita” e “aristocratismo cafeeiro”, “já que a persistência da monocultura de exportação, com as relações de trabalho correspondentes, era sua base de eminência nacional e participação internacional”. Supor que o país atrasado fosse capaz de deglutir as conquistas dos países 128 avançados, a ponto de “reinventá-las de maneira sábia e prefigurar uma humanidade pós-burguesa”, soa como “uma inocência” (idem. p. 22). A visão pragmática de Schwarz desautoriza o que, atualmente, sustenta a lógica oswaldiana no que se refere ao destino da técnica. Ao contrário do que sugeriu o sociólogo, a tecnologia pode permitir uma inversão da ordem, porque à medida que há necessidade de vendê-la, não há controle sobre o seu uso, foi assim que as classes desprivilegiadas, de porte de um sampler, criaram o hip-hop e tiveram voz. Isto para não falar no uso doméstico do PC que praticamente criou novas instâncias de produção e divulgação literária. A idéia de que a tecnologia produzida pelo capitalismo é controlada pela ideologia capitalista encontra poucos exemplos, pois ocorre uma subversão dos valores desta ideologia: a propriedade intelectual e os direitos autorais. No artigo “A tradição remixada”25, o antropólogo Hermano Vianna e o PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA jurista Ronaldo Lemos discutem como a tecnologia digital criou novas fusões culturais baseadas na apropriação dos conhecimentos tradicionais. Um dos exemplos foi a banda da Tailândia Xplastz que se apropriou do hip-hop americano; outro, a cantora senegalesa M.I.A. que sampleou o funk carioca. Estas fusões, apontam, têm modificado o conceito de propriedade intelectual, questionam quem tem o direito do uso-fruto das culturas tradicionais. O novaiorquino Beck deveria pagar direitos autorais ao escrever a música “Tropicália” e samplear Jorge Ben? Para situarem teoricamente a questão, recorrem ao conceito de antropofagia: O que importa aqui é notar como esse enfoque é em si uma expressão de unilateralismo, avesso ao pluralismo e à real complexidade existente. Tal visão desconsidera que grande parte das “apropriações” de conhecimentos tradicionais se dá não a partir de países ricos sobre países pobres, mas sim entre duas ou mais comunidades tradicionais ou mais comunidades tradicionais sobre países ricos, ação transcultural tão bem elogiada no Manifesto Antropófago, de Oswald de Andrade. Os autores não tomam o pensamento antropofágico como concepção ahistórica, como crítica à repressão moral desencadeada pela colonização, enfim, como utopia. Ele aparece como uma lógica, ou se formos bem céticos, como deus ex machina capaz de explicar toda uma conjuntura de hibridismo cultural. A apud: Folha de S, Paulo. Supl. Mais! 4 de setembro de 2005. O título deste capítulo não é uma paráfrase, já o utilizara em 2004, como título de minha comunicação no IX Congresso da Abralic. 25 129 antropofagia encontrou na cultura midiática sua instância de consagração, e este processo não é recente, iniciou-se com o Tropicalismo. 8.2 Os tropicalistas estão chegando Augusto de Campos, com o livro Balanço da bossa, foi o principal articulador da segunda remixagem do conceito de antropofagia. Na abertura do artigo “Boa palavra intercomunicabilidade sobre a universal” música tornava popular”, inútil argumentava a que “a “impermeabilidade nacionalística aos movimentos, modas e manias de massa que fluem e refluem de todas as partes” (1993, p. 60). PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA O raciocínio de Augusto não esconde sua matriz mcluhaniana. O pensador canadense, formado em literatura, descortinou o “admirável mundo novo” das comunicações elétricas (telefone, rádios, tv, etc) em pleno alvorecer dos anos 60, propondo que “tempo” e “espaço” haviam desaparecido, tudo acontecia de forma simultânea, cada parte do mundo conectado entre si, à imagem de uma aldeia global (MCLUHAN,1969, p. 91). José Ramos Tinhorão - no artigo “A cultura dos enganos” – sustentava que a influência de Mcluhan, “muito lido e acatado”, levava os “jovens brasileiros a abdicar de suas originalidades regionais para ingressarem na era universal do pop”26. Se o mundo era uma aldeia, ironizava, quem seria o cacique? A música radiofônica, ou seja, “o universo pop”, criava uma tensão entre a música considerada popular e os sucessos da parada. O conceito de “popular” estava ligado a uma sensibilidade oposta ao do gosto urbano, ou seja, popular como manifestação de regionalismo, oposição entre cidade/campo. Com o rádio, surgia o ídolo popular e a canção de quatro minutos. O radiofônico iria criar uma cultura popular urbana de consumo. O tempo de duração de uma canção obedecia à necessidade do programador para adequar o máximo de canções na parada de sucessos, ou seja, as “dez mais do dia”, em um programa de uma hora de execução. 26 cf: Livro de cabeceira do homem. Vol. I. 1975. 130 A criação de uma cultura de massa brasileira, correspondente ao segundo surto de modernização a partir dos anos 50, reavivou os debates sobre a autonomia das culturas nacionais, visto que à importação da tecnologia de comunicação seguiu-se à divulgação dos produtos importados, como o rock’n’roll e as histórias em quadrinhos. O saber folclórico, no qual estava depositado o popular, confrontava-se com fenômenos populares de massa internacionais: O super-homem, Elvis e Beatles. No campo da leitura, o principal veículo alienador era as Histórias em Quadrinhos, os heróis importados pelos empresários Adolfo Aizen e Roberto Marinho. O primeiro braço das Organizações Globo no mercado do entretenimento ocorreu com a publicação das histórias de Tarzan & Cia. Na carta aberta a Lobato, Oswald de Andrade anunciava uma “luta entre Tarzan e Emília”, em um cenário de “perigo candente”, pois o “super-homem de Nietzsche não pôde com o super-homem do Gibi27” (1975, p. 7). PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA Adorno e Horkheimer, no virulento ensaio “A indústria cultural”, escrito em 1944, durante o exílio nos EUA, respondiam à pergunta de Tinhorão acerca de quem era o cacique da aldeia global. A passagem do telefone ao rádio (por extensão, a cultura áudio-visual) nos transformou em espectadores submissos a um modelo de cultura falsamente universal. A idéia de Mcluhan de que a TV tinha o caráter de participação coletiva encontra nos frankfurtianos sua refutação: o rádio, o cinema, a tv são partes de um sistema coerente, apesar da “ilusão” de diversidade devido às diferenças em suas programações e gêneros, que visam atender aos gostos mais diferenciados; sob o poder dos monopólios, “toda a cultura de massas é idêntica” (1985, p. 114). A racionalidade técnica hoje é a racionalidade da própria dominação. [...]. Os automóveis, as bombas e o cinema mantêm coeso o todo e chega o momento em que seu elemento nivelador mostra sua força na própria injustiça à qual servia.Por enquanto, a técnica da indústria cultural levou apenas à padronização e à produção em série, sacrificando o que fazia diferença entre a lógica da obra e a do sistema social. (ADORNO e HORKHEIMER, 1944, p. 114). A indústria cultural é uma espécie de super-estrutura do capital industrial. Ou da idolatria do lucro, para citarmos Oswald. Assim como um carro da Ford se diferenciava pelo número de assessórios, porque a ideologia de produção tem sempre que produzir coisas novas para continuar vendendo carros; o filme de Hollywood só se diferenciava pelo custo da produção e o número de stars. O lado 27 O Gibi era um suplemento semanal de H.Qs, dirigido por Roberto Marinho. 131 pervertido da IC residia em produzir arte como se produz automóvel: em série. E as pessoas amam carros e filmes. A cultura de massa não produz falsas necessidades, mas falseia necessidades verdadeiras. A classe média, em seu legítimo direito ao lazer e diversão, encontrou no cinema e na música radiofônica um ombro amigo, pois a vanguarda existia para confrontá-la, desafiá-la, deixá-la solitária. O cinema americano estava (e ainda está) na contramão da desumanização da arte, porque é sentimental e realista. Todo o gasto da indústria do cinema em tecnologia visa tornar mais “real” suas produções fantásticas. Mas do primeiro filme do Super-Homem, na década de 40, ao último em 2006, o personagem é mesmo: o defensor da nação americana e seus valores, como a propriedade privada. Em sua leitura sobre Superman, Umberto Eco o descrevia, acertadamente, como o “defensor dos direitos civis”28. PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA A fundação de uma indústria cultural brasileira era mais um passo para manter-se no concerto das nações, o que significou, no primeiro estágio, ser um mercado importador de tecnologia. Chateaubriand comprando dos americanos a aparelhagem – e também os aparelhos – para a primeira exibição de televisão. Indústria cultural e cultura de massa fundiam-se numa coisa única: americanização. No ensaio “Literatura e subdesenvolvimento”, Antonio Candido, depois de creditar ao analfabetismo parte do isolamento do escritor com a massa, especulava se os “modernos recursos audiovisuais” não poderiam motivar uma mudança nos “processos de criação e nos meios de comunicação”, a ponto das grandes massas, “quando chegarem à instrução”, não “buscar fora dos livros os meios de satisfazer as suas necessidades de ficção e poesia”. O temor do ensaísta brotava da incerteza sobre o destino da “massa alfabetizada”, uma vez que o ensino público era outra prioridade da modernização do Estado. Fora do “alcance da literatura erudita” e ainda mergulhada numa “etapa folclórica da comunicação oral”, as massas “quando alfabetizadas e absorvidas pelo processo de urbanização, passam para o domínio do rádio, da televisão, da história em quadrinhos, constituindo a base de uma cultura de massa” (1985, p. 145). 28 cf: ECO, Umberto. Apocalípticos e integrados. O mito do superman. 132 Através da exportação do know how tecnológico e de sua produção simbólica, os países desenvolvidos, na leitura de Candido, agiam “anormalmente” na formação cultural dos países subdesenvolvidos, inculcando “atitudes e idéias” identificadas aos seus interesses políticos e econômicos. Se no tempo de “consciência amena” do atraso, os escritores seguiram a ideologia ilustrada, fundada na crença de que a educação era um valor fundamental da civilização moderna, fazendo da literatura um meio de “humanização e progresso da sociedade”; agora, substituído o positivismo pelo receituário socialista, a luta pela autonomia cultural, entendida como combate ao imperialismo cultural norteamericano, aparecia como a tarefa do intelectual brasileiro. Autonomia recém-conquistada pelo Modernismo, que soube substituir a noção de dependência por interdependência cultural, reconfigurando sabiamente os “empréstimos culturais”, ao mesmo tempo se vinculando “ao gosto vistoso do PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA povo”29, parecia se desvincular do gosto popular, pois Macunaíma não poderia ser o pai de Beto Rockfeller. Nos anos 60, argumenta Candido em “Uma palavra instável”, o nacionalismo libertário dos anos 20 converteu-se em “nacionalismo progressista”, a partir da esfera política, com a luta pela defesa das riquezas nacionais e a resistência “aos aspectos mais agressivos do imperialismo”, culminando, na esfera cultural, com a música de protesto, o cinema novo e o teatro de Arena. [...] tanto na busca de uma cultura vinculada ao povo, quanto na politização da inteligência e da arte, tudo englobado na luta contra a servidão econômica em relação ao imperialismo (em nosso caso, sobretudo norte-americano), e a favor da incorporação efetiva à vida nacional das populações marginalizadas e espoliadas. (CANDIDO, 2004, p. 224). Em Candido, portanto, cultura popular e cultura de massa são duas coisas diferentes; numa está a identificação com o povo; noutra, sua alienação. A questão, no entanto, encobre o fato da cultura massificada, na sociedade urbana, substituir o repertório popular/folclórico no qual os modernistas haviam localizado os repositórios da autonomia nacional. Foi no gosto do povo que a indústria cultural brasileira demarcou seu campo de atuação. Para que a cultura popular funcionasse como resistência ao imperialismo capitalista deveria descolar-se dos setores populares? Esta desvinculação foi 29 cf: Literatura e sociedade. p. 112. 133 proposta por Ferreira Gullar no ensaio “Cultura Popular”. Para tanto, primeiro o poeta precisou ressemantizar o conceito de “cultura popular”. Ao invés de uma manifestação do povo, pensava-se em uma “cultura a serviço do povo” e dos “interesses efetivos do país”, o que implicava em colocar a “responsabilidade social do intelectual”. Deste modo, cultura popular era: a) consciência da realidade brasileira; b) compreensão do analfabetismo; c) luta contra o imperialismo econômico; d) consciência revolucionária. Neste conceito, o artesão não é o agente da cultura popular, porque ela não é um objeto é um discurso. Assim para ser funcional, concluía o presidente do CPC, teria que se “apoiar fundamentalmente na classe estudantil e na classe operária, como também nas organizações camponesas” (apud: FÁVERO, 1983, p. 52). O ideal de “cultura a serviço do povo” levou, segundo Sebastião Uchoa Leite, a uma compreensão limitada de política cultural, obscurecendo uma causa PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA maior, a política educacional. A oposição entre “cultura popular como politicamente progressista” e “cultura de elite como algo politicamente reacionário”, no relato do autor, gerava equívocos, como p.ex., considerar “reacionária” as obras políticas de Sartre e Brecht porque não eram “populares”. Do mesmo modo, numa alfineta, os poemas de Gullar “imitando as formas da poesia popular” eram mera “devolução ao povo de formas artísticas” criadas por ele. A principal função da “cultura” seria a conscientização política do povo. Uchoa Leite insinuava a música, os documentários (“dentro do espírito do cinema novo”) e teatro como agentes conscientizadores mais eficazes do que a literatura. A poesia social, para a realização dos seus fins, dependia de uma primeira etapa: a superação do analfabetismo (idem. p. 260). Havia dois níveis de “vinculação” com o povo no ideário: a) a campanha pela alfabetização popular, baseada no método Paulo Freire, seu lado mais francamente progressista; b) a politização do conteúdo artístico, para popularizar a arte, em ações desde a realização de “teatro de rua” até a criação de grupos folclóricos. A criação literária, para se adaptar, procurava as formas consagradas pelo consumo popular, a literatura de cordel e a poesia oral. Qual seria o lugar, nesta concepção de literatura popular, uma obra como Macunaíma? Os poetas concretistas prontamente viram no ideário do CPC a reencarnação da lógica “verde-amarelista”. Discutindo a canção de Carlos Lira, “Subdesenvolvido”, o hit dos estudantes, Augusto Campos ouvia a “temática 134 nordestina” como “presença paradigmática do desajuste social”. Sob o argumento de que a Bossa Nova era elitista, a temática do subdesenvolvido representava uma “má consciência”, um retorno ao discurso “folclórico-sinfônico”, o mesmo que Oswald de Andrade tachara de “macumba para turista”, que tomava a “matériaprima do primitivismo nacional” como pretexto para o paternalismo cultural (1993, p. 60). A Bossa Nova, na visão de Augusto de Campos, realizava a profecia oswaldiana: devoração e exportação cultural. De influenciada pelo jazz passou a influenciadora do jazz. Assim funcionava “antropofagicamente” como um estilo internacional, em consonância com a poesia concreta (1993, p. 53). Fator crucial para a internacionalização da linguagem musical bossanovista foi a indústria multinacional, em particular a gravadora novaiorquina Impulse, que lançou em 1964 a parceria João Giberto & Stan Getz. Do ponto de vista concretista, tratavaPUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA se de exportação cultural, ou como definiu Décio Pignatari, “nacionalismo de produção”, preocupado em ocupar os mercados30; para a intelectualidade engajada, exploração cultural. Para um dos idealizadores da Bossa Nova, Carlos Lira, a internacionalização de João Gilberto e Tom Jobim teve como efeito colateral a alienação do estilo, preso à temática idílica do “amor, sorriso, flor”, e musicalmente “rococó”. Segundo ele, “já nessa época socialista de carteirinha”, a música precisava rumar para uma “integração dentro do processo social”, algo diverso do bucolismo zona sul que vigorava na bossa. Sua primeira atitude, neste sentido, foi compor “minha primeira canção de protesto”, “Influência do jazz” (apud DUARTE e NAVES, 2003, p. 138). O manifesto “Uma eztetyka da fome”, de Glauber Rocha, apresentado em 1965, em Gênova, durante a retrospectiva do cinema latino-americano, foi ao mesmo tempo uma síntese brutal e uma ruptura com o discurso subdesenvolvimentista do CPC. Síntese porque enquadra a “miséria” como um discurso historicamente consciente, fosse pelo aspecto de “denúncia social” do romance de 30, fosse pelo seu aspecto político no cinema novo. De Aruanda a Vida Secas, o Cinema Novo narrou, descreveu, poetizou, discursou, analisou, excitou os temas da fome: personagens comendo terra, 30 cf: Cultura pós-nacionalista. p. 25. 135 personagens matando para comer, [...], personagens sujas, feias, escuras [...]. (ROCHA, 1981, p. 31). A exposição da fome, internamente, manchava a imagem do país projetada pelo Estado e pelos filmes comerciais da Vera Cruz/Atlântida – “filmes alegres, cômicos, rápidos, sem mensagens, e de objetivos puramente industriais” -, enfim, a imagem convencional de alegria, embalada pela bossa digestiva, constituída em nacionalismo de consumo. Imagem hoje reciclada no sorriso sem dentes do faxineiro na campanha publicitária “O brasileiro não desiste nunca”. Externamente, Glauber apontava, a miséria saciava o saudosismo europeu pelo “primitivismo”, também reciclador da ancestral busca pelo prazer atualmente mapeado pelo turismo sexual. A ruptura consistia em assumir a miséria como violência revolucionária ao invés de crise de consciência, traduzida no paternalismo e na piedade colonialista, PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA que terminavam por pedir dinheiro aos países desenvolvidos para “construir escolas, sem professor, casas sem dar trabalho, ensinar o ofício sem ensinar o alfabeto” (idem. p. 32). Glauber anunciava um cinema em que a precariedade técnica – pobreza também – era elemento de originalidade dentro da cultura internacional, substituindo a pedagogia pela violência estética. O cinema novo realizava o projeto de nacionalismo de produção pignatariano, ocupando o mercado europeu, tornando-se uma estética internacional, um cinema de exportação. Reverter os símbolos do atraso – analfabetismo, precariedade tecnológica, pobreza – em potência afirmativa para uma arte revolucionária estava pré-escrito no “Manifesto antropófago” sob a metáfora do “bárbaro tecnizado”. A aproximação é ainda maior quando, na “Eztetyka do sonho”, Glauber opõe os cultos africanos como negação da “mística colonizadora do catolicismo”, num jogo semelhante ao da “Crise da filosofia messiânica”. O messianismo religioso (Deus e o diabo na terra do sol) e político (Terra em transe) são revelados como componentes da (in)consciência conflitante do povo, submisso “à razão que o explora” e naturalmente “mística” por não compreender o “absurdo de sua própria miséria”. A estética da violência preconizada no manifesto glaberiano encontraria seu correlato na montagem de O rei da vela, de Zé Celso, que não só inaugurou o 136 teatro oswaldiano – já que em vida suas peças não foram montadas – como pôs suas idéias em circulação dentro da vanguarda contracultural. Na peça, originalmente escrita em 1933, Oswald de Andrade narrava o casamento por interesse da falida aristocracia rural – representada pela personagem Heloísa de Lesbos – com a nascente burguesia – representado por Aberlado I, fabricante de vela, explorador ou beneficiário do catolicismo. Heloísa tornava-se amante do representante do capital estrangeiro, Mr. Jones. Logo, encenava-se o destino do país, a aristocracia rural unida à burguesia nacional servindo ao capital estrangeiro. Outro personagem importante é o intelectual Pinote, ex-futurista, escritor profissional, autor de biografias de ilustres, com horror a gente que cheira mal, lacaio da burguesia. No contexto dos anos 60, este conteúdo associava-se fácil à recusa ao imperialismo norte-americano predominante nas propostas do CPC, do Cinema PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA Novo e da música de protesto. A montagem de Zé Celso, segundo Victor Hugo A. Pereira, tomou o “espírito aglutinante da antropofagia” para conciliar Artaud e Brecht, e ainda de quebra criar uma zona de atrito internacional com o Living Theatre (apud . DUARTE e NAVES, 2003, p. 220). Em entrevista à revista Aparte, durante a temporada da peça, Zé Celso declarava ter descoberto o poder de subversão da forma e do conteúdo, e anunciava: “Uma arte brasileira violenta vem aí, isto é certo. E Oswald de Andrade é inevitavelmente um dos seus precursores” (apud: CALADO, 1997, p. 134). Rei da vela foi dedicado a Glauber Rocha. Subvertendo a imagem do corredor passando a tocha, com a qual Antonio Candido definiu “tradição”, a dupla Zé-Glauber encarnava a intempestividade artística, que Edgar A. Poe denominava como “genus irritabile”, característica do criador transgressivo representado no Modernismo por Oswald de Andrade. Em comum, uma retórica nervosa, uma tendência natural ao debate público e polêmico, uma biografia que desafia os padrões morais tanto católicos quanto de classe média (se é que há esta diferença). Estes padrões de comportamento deveriam funcionar, ao menos simbolicamente, como indicadores de uma tradição, mesmo fora do campo consensual da “literatura maldita”. A trinca Oswald- Zé-Glauber será a principal inspiração para o Tropicalismo impor a “estética da agressão” na música popular. Ao mesmo tempo, através da orientação intelectual dos Concretistas, os tropicalistas 137 tensionaram os limites entre a esfera literária e a cultura de massa. O conceito de antropofagia, mal digerido pela cultura literária e pela esquerda socialista, tornouse uma estratégia cultural para Caetano Veloso não apenas confrontar a canção engajada, mas também para legitimar historicamente a lógica tropicalista. Em entrevista a Augusto de Campos, em 1966, Caetano declarava que Oswald de Andrade lhe proporcionava “argumentos novos para discutir e continuar criando” (1993, p. 204). Em sua autobiografia, em passagem já rotineira nos estudos sobre o Tropicalismo, revelava que “a idéia de canibalismo cultural” traduzia o que faziam com “Beatles e Jimi Hendrix”, que Gilberto Gil chamava de “música universal” (1997, p. 248). Um detalhe tem passado em branco nesta passagem, a confusão que Caetano faz entre “antropofagia” e “canibalismo”, resultante de uma leitura limitada ao manifesto de 28. Em sua remixagem, Oswald de Andrade estabelecia PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA a diferença entre “antropofagia como ritual”, como um modo de pensar e uma visão de mundo, e o canibalismo, a antropofagia pela gula e pela fome, carente de transcendência (1990, p. 101). Segundo Caetano Veloso, o nome “tropicalismo” fora sugerido pelo empresário Guilherme Araújo, após visitar a instalação de Hélio Oiticica “Tropicália”, exposta no MAM, em 1967. Em texto posterior, Hélio argumentou que, com Tropicália, queria “criar o mito da miscigenação”, porque “somos índios, negros e brancos, tudo ao mesmo tempo”. A criação de uma “verdadeira cultura brasileira”, como potência expressiva, dependia de absorção antropofágica da “herança maldita européia e americana” (1996, p. 63). Na prática, o raciocínio de Hélio reiterava o poder operatório do conceito antropofágico, como lógica cultural capaz de transformar o mal-estar do subdesenvolvido de uma instância negativa para uma instância positiva, recombinando o diálogo entre periferia/centro, original/cópia (SOUZA, 2002, p. 104). Além disto, permitia lidar de modo menos recalcado com a cultura de massa, ou mais precisamente, com a contracultura. A estratégia de choque dos tropicalistas consistia em levar a atitude contracultural para a MPB. A televisão foi principal canal de consagração dos tropicalistas junto ao público. Os festivais da tv Record anunciaram as canções emblemáticas do movimento, como “Alegria, Alegria” e “Domingo no Parque”. A tv consagrara a Jovem Guarda como fenômeno de massa, assim como veiculara o “fino da bossa”. 138 E logo estas canções passaram pelo crivo das remunerações dos prêmios musicais, estreava na tv Tupi o programa Divino maravilhoso. A relação com os meios de comunicação não era recalcada como na música engajada, isto é, a eficiência política de uma canção de Geraldo Vandré dependia da força do seu conteúdo em ocultar que ele era um artista contratado pela Philips records, surcusal brasileira da imperialista EMI. O meio não podia ser a mensagem. A relação com a cultura massa, para Roberto Schwarz, transformava o Tropicalismo num problema teórico, atuando numa divisa entre “sensibilidade e oportunismo”, “crítica e integração”, que obscurecia seu “lugar social”. Se para o crítico marxista, a matriz oswaldiana reproduzia os desejos frustrados de plasmar os signos do atraso em visão otimista do país, a filial tropicalista repetia as mesmas limitações, adotando como modelo de modernização a cópia das modas estrangeiras, as quais não superaram pela proposição alegórica arcaico/moderno, PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA antes revelavam uma postura comodista diante da realidade brasileira. Em comparação com a “estética da fome”, os tropicalistas substituíam o “impulso revolucionário”, derivado da distância mantida com o “aparelho ideológico e econômico” da industrial cultural, por uma adesão irônica ao “atraso nacional”: No primeiro caso, a técnica é politicamente dimensionada. No segundo, o seu estágio internacional é o parâmetro aceito da infelicidade nacional: nós, os atualizados, os articulados com o circuito do capital, falhada a tentativa de modernização social feita de cima, reconhecemos que o absurdo é a alma do país e a nossa. (SCHWARZ, 2001, p. 32). A estética tropicalista, assim como a poética oswaldiana, era aparentemente subversiva em sua ironia e deboche ao tratar os repertórios populares e de vanguarda, fundindo-os numa visão alegórica do país, mas incapaz de propor uma solução para seus problemas centrais, constituindo-se numa “trucagem de linguagem”, retrógrada em relação aos movimentos progressistas, como o método Paulo Freire, em que também estão presentes o arcaico e o moderno. [...] entretanto, a despeito desta conjunção, nada menos tropicalista dito que o método. Por quê? Porque a oposição entre os termos não é insolúvel: pode haver alfabetização. Para a imagem tropicalista, pelo contrário, é essencial que a justaposição de antigo e novo [...] componha um absurdo, esteja em forma de aberração, a que se refere a melancolia e o humor deste estilo. (idem. p. 31). A posição de Schwarz, historicamente, reproduzia a desconfiança, também histórica, em relação ao instrumental da vanguarda servir como lugar de 139 reflexão/transformação da cultura nacional, porque ao seu ver, é impossível ascender à posição de “exportador” sem superar os sintomas do atraso e da dependência econômica. Como o Tropicalismo se realizava numa esfera internacionalizante, seu diálogo com as “modas internacionais” se dava pela via institucionalizada de uma cultura de consumo. Mas era justamente aqui que a antropofagia atuava, permitindo a operação consciente dos elementos da tradição e da modernidade. Celso Faveretto argumentava que Schwarz compreendera mal o Tropicalismo, porque o ligou à cultura de massa para acusá-lo de conformista, ou seja, ligou vanguarda e conformismo. A relação entre vanguarda e mercado possibilitou a desconstrução das “posições políticas consagradas”, deslocando a emotividade da canção de protesto para a crítica à sociedade de consumo e os valores pequeno-burgueses, explorando os efeitos de “choque e estranheza”, que PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA no final compunham sua face libertária (1993, p. 246). Mixar Luis Gonzaga e Jimi Hendrix, no momento em que os músicos bloqueavam a Jovem e Guarda e faziam passeata contra a guitarra, para Favaretto, era uma atitude de “corrosão da cultura instituída e dos mitos da cultura de mercado”, retomando um “processo de descolonização e descentramento cultural” idealizado por Oswald de Andrade nos manifestos de 1924 e 28. A história do Brasil, lida pela perspectiva do “Manifesto da poesia pauBrasil”, desenvolve-se como uma longa transação comercial, sua inserção no mapa mundí ocorre, desde o início, como lugar de transações internacionais. Os meios de comunicação, como Oswald intuía e Mcluhan demonstrou através do conceito de “aldeia global”, aceleraram as trocas culturais, mas também tornaram ainda mais drásticas as diferenças entre os países desenvolvidos e os subdesenvolvidos, ou numa linguagem mais atual, entre os mercados hegemônicos e os mercados emergentes. É aqui que o nacionalismo progressista, para usarmos a expressão de Candido, afina seu discurso, pois ainda incapaz de ser tecnologicamente autônomo, o país importa não só a tecnologia como a cultura de massa americana. Logo, nos anos 50/60, “cultura pop” era uma das manifestações do imperialismo norte-americano. A música “Chiclete com banana”, que na versão tropicalista ressaltou-se a integração do “samba-rock”, foi originalmente escrita como crítica à influência norte-americana na música popular. A indústria cultural, deste modo, ressuscitava os velhos fantasmas da 140 dependência, no momento em que, na política e na arte, procuravam problematizá-la e superá-la. O sucesso internacional da Bossa Nova e nacional da Jovem Guarda demonstraram a possibilidade reverter a situação, de influenciado para influenciador como pensa Augusto de Campos. Neste sentido, a Jovem Guarda, primeira tradução brasileira do rock’n’roll, foi culturalmente mais complexa do que a Bossa e o próprio Tropicalismo, porque dela surgiu o maior cantor popular do país, o rei Roberto Carlos. Diante disto, as acusações de “americanismo” caem por terra. Roberto e Erasmo rapidamente simbolizaram o gosto popular na música, acentuando, talvez inconscientemente, a distância entre Música Popular Brasileira e gosto popular. Foram antropófagos. A lição oswaldiana: o Brasil subverte, desloca a lógica estrangeira, Cristo nasce na Bahia ou em Belém do Pará. Aqui se infiltra o conceito de “entre-lugar”, PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA com o qual Silviano Santiago descreveu a formação cultura latino-americana, partindo do mesmo Montaigne que Oswald engoliu para escrever o “Manifesto antropófago”. A maior contribuição da América Latina para a cultura ocidental vem da destruição sistemática dos conceitos de unidade e pureza. [...] instituiu seu lugar no mapa da civilização ocidental graças ao movimento de desvio da norma, ativo e destruidor, que transfigura os elementos feitos e imutáveis que os europeus exportavam para o novo mundo. (SANTIAGO, 1978, p. 18). Deslocar e transfigurar são os movimentos básicos da antropofagia como operação cultural, ignorada por completo no texto de Santiago. Jorge Luis Borges, para o ensaísta, é protótipo do discurso latino-americano, rasurador do discurso da colônia. Mas o que Oswald de Andrade propôs, se não rasurar e destruir a pureza ocidental? Sua ausência no texto de Santiago significa duas coisas: ou antropofagia não instituiu um entre-lugar, o que é positivo, pois ao invés de suplementar o discurso europeu, criou um discurso original, base para sua exportação; ou a literatura brasileira é um alien no “discurso latino-americano”. O discurso tropicalista também se insere neste raciocínio, aliar Luis Gonzaga e Jimi Hendrix foi um lance ousado de atualização e mixagem cultural, ao mesmo tempo em que deslocou o lugar do tradicional e do estrangeiro. Ao contrário da Jovem Guarda, no entanto, Gilberto Gil e Caetano Veloso tinham contas a prestar com a intelectualidade. Antes de gravar “Domingo no parque”, Gilberto Gil convocou uma reunião entre os principais nomes do meio musical da 141 época (Roberto e Erasmo não foram convidados), para discutir uma maneira de renovar a música brasileira, que segundo ele estava estagnada e descompassada da música internacional. Nenhum dos convidados – Chico Buarque, Edu Lobo, Paulinho da Viola, Geraldo Vandré, entre outros – demonstrou o menor interesse pela tese de Gil, pelo contrário, acharam-na alienante e comercial. Gil pretendia unir, como forma de renovação, o que havia de mais tradicional na música brasileira (no seu caso, a Banda de Pífarus de Caruaru) com o mais avançado na música internacional (no seu caso, Beatles). Quando “Alegria, Alegria” e “Domingo no parque” tornaram-se um sucesso instantâneo, Gil e Caetano tiveram a certeza do caminho certo. Por outro lado, a união que promoveram entre vanguarda e kitsch soou, aos ouvidos dos artistas politizados, como uma armação comercial, embora já fosse uma tendência nas artes e na literatura (por exemplo, Panamérica, de José Agripino de Paula). PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA Ao ler os manifestos de Oswald, sob a orientação concretista, Caetano encontrava um argumento de defesa, que à sua revelia ou não, filiou o Tropicalismo ao projeto histórico do modernismo de 22. A “tropicaliança” encontrava na antropofagia o ponto de articulação com uma linha de vanguarda, desenvolvida como arte nacional estrangeira (CAMPOS, 1993, p. 290). Assim, a influência de Oswald de Andrade não se desvincula da influência do tropicalismo e do concretismo, seus lugares de organização. Mais uma vez: simbiose. 8.3 E onde está Mário? Na virada dos anos 60/70, Oswald de Andrade foi uma presença facilmente localizável na produção poética. O exemplo mais direto e óbvio: a poesia marginal retomando o estilo coloquial, os versos curtos e não-metrificados, a ojeriza à erudição acadêmica. Heloísa Buarque de Hollanda , em Impressões de viagem, apontava nos poetas marginais uma retomada da poética de 22, substituindo o que era intencional por uma postura espontânea. O trabalho iniciado pelo Concretismo parece desembocar na poesia marginal, formando uma tradição alternativa à historiografia tradicional. Antropofagia. Concretismo. Tropicalismo. Poesia marginal... Mutualismos. 142 Outro traço similar foi a ironia e o deboche dos poetas marginais imprimiam nos seus textos, como: Pra que cara feia na vida ninguém paga meia (Paulo Leminski). Aquele amor nem me fale (Oswald de Andrade). Os poetas marginais, ao retomarem o poema-minuto-piada, consagram definitivamente a poética oswaldiana como paradigma de inovação e transgressão. O que constituiu uma prisão para Oswald em sua reinvenção socialista, tornava-se sua consagração, ou melhor, sua mitificação. A poética desprezada pela geração de 45 encontrava, no pesado ambiente dos anos 70, um terreno fértil para gerar PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA novos frutos. Mas não se trata de um eterno retorno. A alegria, nas letras de Caetano, Gil, Waly Salomão et alii precisa ser relativizada. André Monteiro, em seu estudo sobre Torquato Neto, localiza na letra de “Geléia geral” os elementos que o ligam à antropofagia oswaldiana (fusão primitivo/tecnológico; popular/erudito) e o elemento que o distancia dela: a melancolia. Em seus argumentos, a “culpadilacerada”, “ancorada no porto seguro da tristeza”, pendia mais para os “tabus messiânicos” do que para a “libertação totêmica” (2000, p. 83). Paulo Henriques Brito, analisando várias letras tropicalistas, apontava a presença da dor-de-cotovelo como “expressão da sensação de derrota coletiva” (apud: DUARTE; NAVES, 2003, p. 196). Neste sentido, a “miniantologia de Lupicínio Rodrigues”, o mestre da dor-de-cotovelo, presente no Balanço da bossa, integrava-se à temática da tristeza, embora em Augusto de Campos seja também indicador da infiltração concretista na canção popular, em um produção mais cerebral do que emotiva, logo chama atenção seu entusiasmo por Lupicínio. Se a tristeza é nota dissonante no processo de identificação, o hedonismo e a busca pela liberdade sexual voltam a aproximar, biograficamente, Oswald dos ideários contraculturais. A fama de libertino, exagerada na opinião de Antonio Candido, casava com o lema iconoclasta do desbunde e da rebeldia. Para que esta construção funcionasse, era preciso desconhecer, ignorar, tratar como intriga da oposição, o fato do modernista ter tentado ingressar nas instituições “caretas”, 143 como a USP e ABL. Apagado seu aristocratismo, surgia o escritor em conflito com a elite burguesa, o comunista fichado no Ministério da Justiça como subversivo, o amante de Pagu, enfim, o Oswald marginal. Uma construção linear e verossímil. Deste modo, quem estiver interessado na recepção do Modernismo nos 60/70, em suas manifestações mais representativas, encontra a figura paradigmática de Oswald de Andrade em quase todo lugar. E Mário de Andrade? Literariamente, sua poesia tem pouca ou nenhuma relação com a poesia marginal. Além de escrever poemas longuíssimos, a preocupação andradina com a forma e a pesquisa poética não encontrava lugar na poesia dos anos 70, marcada por um calculado espírito de espontaneidade. Calculado porque seus poetas mais emblemáticos – Waly, Leminski, Torquato e Chacal – não escreviam por descontração ou acidente. Porém, grande parte do conhecimento formal sobre PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA poética, eles aprenderam com os concretistas, que diziam: É PRECISO EVITAR MÁRIO DE ANDRADE. Em termos comportamentais, a persistir os boatos, se tivesse “saído do armário” talvez representasse um equivalente a Allen Ginsberg. Mas em tempos de liberação sexual, simbolizava o oposto: a auto-repressão. Sua canonização pela historiografia foi a cereja no bolo, pois encenava os valores que a geração de 70 desprezava, como a seriedade, a pesquisa estética, o nacionalismo folclórico. Poderia, facilmente, ser considerado o patrono do ideário cepecista, o paradigma do movimento Violão de rua. Politicamente, seu medo em se assumir comunista, sua abstenção na torre de marfim, sua crítica à qualidade do romance de 30, também o afastam do comprometimento dos artistas engajados. Enfim, neste panorama, Mário era, ironicamente, um outsider. Então, Mário de Andrade sumiu nos anos 60? Não. Ele foi para o cinema. A adaptação cinematográfica de Macunaíma, dirigida por Joaquim Pedro de Andrade, realizou, no mínimo, duas façanhas: foi um dos poucos, talvez o único filme do cinema novo a atingir o grande público; retomou Mário de Andrade pelo viés antropofágico-tropicalista, inserido sua escrita no circuito contracultural. Respeita o espírito formal da obra. Desrespeita seu conteúdo. Introduz o discurso político cinemanovista na rapsódia andradina. Na “Eztetyka da fome”, Glauber Rocha afirmava que o cinema novo fotografava a miséria escrita pela literatura de 30. O compromisso político dos 144 romancistas na representação dos sinais do atraso – a fome, a seca, a miséria, o coronelismo – era análogo ao dos cineastas em sua problematização da realidade brasileira. O sertão como espaço mítico-crítico das contradições da modernização brasileira transformou, no romance 30, o nacionalismo estético do modernismo paulista em denúncia social. Já não se tratava de descobrir ou (re)inventar a identidade nacional, mas denunciar os aspectos excludentes e violentos da modernização industrial e das oligarquias rurais. Os sertões, de Euclides da Cunha, foi o paradigma do sertão como desilusão do projeto moderno. Nele, anunciavam-se a violência e a paranóia do Estado, sua incapacidade para lidar com suas próprias contradições, o misticismo como superação da miséria e a máconsciência do intelectual, servindo ao poder repressor contra o brasileiro miserável. A região de Canudos serviu de locação para Deus e o diabo na terra do sol, em que pobreza, exploração e misticismo se fundem. Neste sentido, Vidas PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA secas, de Nelson Pereira dos Santos, explicitou a analogia política entre cinema novo e romance social. Os romancistas da geração de 30 retornam ao espaço do sertão, à miséria descoberta por Euclides e, de certo modo, silenciada pelo otimismo modernista. A partir daqui, a tensão entre o estético e o político rege os compromissos que o escritor assumia perante à sociedade. Não por acaso, em Terra em transe, o personagem que simboliza os impasses artísticos e políticos é um poeta. A opção pelo escritor e não o cineasta novo é sintomática. O literato ora serviu aos interesses das elites, ora denunciou suas mazelas. É um personagem historicamente dividido entre o prêmio literário e o compromisso com a construção de um país democrático. Quando ignora a massa inculta, trabalha a favor de si mesmo, reforça a escravidão do povo; quando o defende, tem que denunciar a ignorância da massa. A imagem de Paulo Martins tampando a boca do personagem popular. O intelectual tem que dar voz ao povo, a função da literatura de 30, mas sabe que ele é um ignorante. Neste sentido, o escritor é um personagem messiânico. Este foi o papel que Mário de Andrade recusou. Não quis falar pelo povo, não quis fazer a pedagogia da massa. As alterações que Joaquim Pedro promoveu visavam à inclusão do discurso de 68 na adaptação do obra, principalmente pela caracterização de Ci como guerrilheira. Esta alteração, na leitura de Ismail Xavier, deslocava a narrativa do maravilhoso romanesco para o realismo cinemanovista, criando um 145 vazio que será preenchido pelo “realismo ficcional”, que remetia tanto ao cinema dos anos 60 quanto à literatura dos anos 30. Enquanto na obra literária a busca pelo Muiraquitã justificava as migrações do herói e a ligava, como nos ensinou seus exegetas, à tradição dos romances de cavalaria; no filme: A migração de Macunaíma e seus irmãos recebe aquele tratamento consagrado pelo Cinema Novo às migrações do campo. Eles chegam na periferia urbana como migrantes “pau-de-arara”, de caminho, como “figuras anônimas que se soma à quota diária dos pobres desterrados que tanto já haviam ocupado o cinema. (XAVIER, 1993, p. 142). Heloísa Buarque de Holanda argumenta que o diretor, em sua leitura irônica da obra, deslocava o “ethos” modernista de Mário, transformando “o livro afetivo e melancólico” num “filme incisivo, crítico e pessimista” (1978, p. 84). Na rapsódia, a pluralidade de gêneros narrativos e códigos lingüísticos atendia às necessidades do modernista em problematizar a identidade nacional, em não PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA fechá-la em um sentido único. A base fabular folclórica servia como articulação entre o popular e o erudito, com a qual pretendia-se configurar a literatura modernista. Esse “ethos” – a problematização da identidade e a arte modernista – foi substituído pela visão tropicalista-antropofágica, situada nas articulações alegóricas primitivo/técnica, rural/urbano. A base tropicalista levou Xavier a uma leitura “schwarziana” do Macunaíma-fílmico como um personagem conservador. A antropofagia, em sua leitura, além de princípio de interação, é uma “regra da sociedade”. Neste sentido, “assimilação do outro” tornava-se um “ato de consumo”, uma vez que todos os personagens – “Macunaíma não foge à regra” – são consumistas inveterados. Logo, a articulação entre arcaico e moderno ocorria pela adesão “ao mecanismo de apropriação predatória (metáfora da antropofagia como norma social)”. É dentro desta adesão de Macunaíma ao universo do consumo [...] que se insere o problema da descaracterização. [...]. A par da idéia de consumismo, sua imagem na canoa de volta ao Uraricoera repõe o velho tema do “primitivo” comprando quinquilharias exóticas que não terá condições de usar. (idem. p. 150). Para Xavier, portanto, o filme expõe a impossibilidade do “bárbaro tecnizado”, mais ainda: a impossibilidade de uma integração entre bárbaro e civilizado, já que o civilizado é regido pela norma do consumo, símbolo de modernidade, a qual o bárbaro só tem acesso pela antropofagia social, que é uma forma de “parasitismo” (ibid. p. 151). Ou seja, a antropofagia é algo correlato ao “favor”. 146 Desta forma, o “pessimismo” é uma investida contra “a modernidade ilusória do país”. O Brasil moderno é macunaímico, “moderno pelo consumo”, “capaz de assimilar os produtos dos novos tempos”, mas assim como Macunaíma, pela sua avidez consumista, não se opõe ao canibal Venceslau, é incapaz de gerar uma modernidade em oposição ao capitalismo. Esta amarga conclusão conduz à morte insignificante do “herói”, “mito das virtudes do individualismo e do jeitinho”, obstáculos a uma “modernidade soberana” (ibid. p. 156). A leitura retoma, por outras vias, a negação de Schwarz ao pensamento antropofágico. Ismail Xavier, preso ao conteúdo fílmico, não diferencia antropofagia de dependência cultural/econômica. Ao invés de vê-la como superação, encara como adesão ao espírito capitalista, uma espécie de “vampirismo”. Como o nome Oswald de Andrade não aparece em nenhuma linha do seu texto, o autor compreende antropofagia através da tradução tropicalista. PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA O Cinema Novo constituiu outro fôro de consagração do modernismo de 22, principalmente pela influência do discurso tropicalista ao retomar a antropofagia como lógica cultural e como linguagem estética. Macunaíma, de Joaquim Pedro, toma o antropofagismo como um princípio estético, revelado na trilha sonora, que passa por Caetano, Roberto Carlos e termina em Villa Lobos. Ao seu modo, constrói uma “rapsódia”, muito fiel ao princípio formal da escrita andradina. A inserção do Brasil na aldeia global, envolvendo uma profunda avaliação sobre as causas e conseqüências da modernização, principalmente a proposta pelo modelo nacional-desenvolvimentista, tornou ainda mais propícia a reconfiguração das estratégias de 22. A lógica antropofágica estará presente não só no discurso concretista-tropicalista, mas também no discurso cinematográfico. Um exemplo contundente: Como era gostoso o meu francês, de Nelson Pereira dos Santos. Neste filme, realizado em 1971, Nelson Pereira substitui a linguagem realista de Vidas secas pela paródia claramente oswaldiana. Embora o tema seja o canibal, a linguagem do filme remete ao processo de paródia histórica da poesia pau-Brasil. Na tela são projetados fragmentos dos textos de Caminha, Gândavo, Sérgio Buarque de Holanda, Mário e Oswald de Andrade. O recurso serve para pontuar a narração, centrada no choque de culturas e na aquisição do primitivo da tecnologia do civilizado, no caso, o canhão. A história de Hans Staden interessa ao diretor – como a história colonial interessava aos modernistas de 22 – como meio de 147 intervenção na história oficial da colonização, tentativa de reverter o estado de presente pela volta a um passado rasurado, omitido, não oficial. Uma visão potencializadora. A conquista do canhão não se deixa de ser uma analogia ao “bárbaro tecnizado”. O senso comum de que Mário ficou “esquecido” pela geração de 70 precisa ser questionado, porque não só o filme de Joaquim Pedro o trás à tona. Devemos lembrar que Heloísa Buarque de Hollanda, em pleno anos 70, escreve uma dissertação de mestrado sobre a adaptação de Macunaíma. Além disso, Cacaso, poeta associada à poesia marginal, exemplo da ascendência oswaldiana, publica um ensaio sobre a poética de Mário de Andrade – “Lição de mestre” – no qual demonstra como os questionamentos andradinos sobre a ética do poeta e uma estética política estavam em sintonia com o ambiente desse momento. Ou seja, ironicamente, Mário de Andrade era um nome que desafinava o coro dos PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA contentes. 148 9 Sínteses Foi nas margens do Ipiranga, Em meio a uma pescaria. Sentindo-se mal, D, Pedro - Comera demais cuscuz – Desaperta a barriguilha E grita, roxo de raiva: “Ou me livro d’esta cólica Ou morro logo d’ua vez!” O príncipe se aliviou, Saiu no caminho cantando: “Já me sinto independente. Safa! vi perto a morte! Vamos cair no fadinho Pra celebrar o sucesso”. Murilo Mendes (História do Brasil) PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA 9.1 Autonomia e produção literária No prefácio de Formação da literatura brasileira, Antonio Candido demonstrava como o nacionalismo (pré) romântico foi um elemento formador de nossa tradição literária. Assim, de Cláudio Manuel da Costa a José de Alencar, ocorria uma “tomada de consciência dos autores”, dispostos a considerar o literário como “parte do esforço de construção” de um estado nacional (no duplo sentido da expressão), visando “a diferenciação e particularização dos temas” (1959, p. 26). A literatura, como fenômeno de civilização, constituía um “sistema de obras ligadas por denominadores comuns”: a criação de temas e imagens ligados aos elementos da natureza psíquica e social; a existência de produtores literários “conscientes do seu papel”; um conjunto de receptores; uma “linguagem traduzida em estilo”. Esse conjunto formava a literatura como aspecto orgânico civilizatório: “por meio do qual as veleidades mais profundas do indivíduo se transformam em elemento de contacto entre os homens, e de interpretação das diferentes esferas da realidade” (1959, p. 23). A inter-relação destes elementos criava “a continuidade literária”, ou seja, “a transmissão da tocha entre corredores”, “tradição no sentido completo do termo”. Em sua leitura do prefácio de Candido, Luiz Costa Lima, seu ex- 149 orientando, apontava que a noção de “sistema” era teleológica, ressaltando uma produção e circulação literárias que “favorecem a coesão nacional” (1991, p. 162). A coesão homogênea do “sistema” foi, segundo Haroldo de Campos, o ponto fraco da teorização de Candido. A idéia de coesão é importantíssima para o mestre, sem ela não haveria como pensar em “tradição” no sentido de “continuidade”. Logo, “tradição”, no subtexto, não significava passado, nem memória e nem classicismo. Aliás, o elemento que poderia carregar estes significados foi excluído do “sistema”: o Barroco. O Barroco desestabilizava politicamente a coesão do sistema da formação, porque nele estão inscritos os símbolos da dependência política e cultural. Se há alguma autonomia, vem do talento individual (e dos nervos) de Gregório de Matos, cujo isolamento baiano impediu que exercesse influência no sistema. Candido privilegiava a noção de “movimento literário”, por isso a marcação da PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA gênese da tradição nas Academias Árcades. A acentuação do processo de “sistematização literária” no período “neoclássico”, em sua argumentação, foi “auspicioso”, combinou “rigor formal” e adesão à Ilustração (1959, p. 27). A estética barroca, contra-argumentamos com Haroldo de Campos, apresentava um elevado rigor formal, sob sua fluência nasceram as primeiras academias. Ao locar a gênese do “sistema” no neoclassicismo iluminista, Candido filiava a literatura brasileira (ainda no berçário) a um dos fatores definidores da modernidade: a secularização dos campos culturais. A Inconfidência Mineira, como argumentava Oswald de Andrade, marcaria o compromisso do país com os ideais republicanos, nos quais se escrevia a esfera secularizada da cultura ocidental. O interesse pela realidade brasileira tornava o Arcadismo modelo de adaptação do imaginário das musas e dos pastores aos elementos da natureza local, buscando os índices de brasilidade. Os intelectuais ilustrados, que manifestaram “a vontade de fazer literatura brasileira”, comporiam um grupo organizado consciente do seu papel. Os árcades marcam o “início da verdadeira literatura, graças à manifestação de temas, notadamente o indianismo” (idem. p. 25). O critério nacionalista, portanto, é renovado por Candido, porque o privilégio dado aos árcades derivava da antecipação de outro tema do Romantismo: o nativismo. A descrição da natureza local, nos sonetos de Cláudio 150 Manuel, representava o sentimento de nacionalidade, mas ao mesmo tempo envolto numa linguagem universal. Durante o período romântico criaram-se as condições materiais para a formação do público e os meios de transmissão, sem os quais não há sistema literário. Com a chegada da fugitiva família real portuguesa, em seu livre degredo, iniciava-se o primeiro grande surto de modernização do país, com a criação do Banco do Brasil e de casas tipográficas, inaugurando a era de publicação de livros e revistas. Neste momento, aponta Candido em Iniciação a literatura brasileira, a hegemonia cultural saía definitivamente dos conventos para as atividades laicas, como a fundação de escolas técnicas e superiores. Mais uma vez a literatura se insinua como fenômeno secularizado. A criação de instituições de ensino atraiu uma “missão artística francesa”, viajantes ingleses, russos e alemães, que escreveram “boas descrições da sociedade local e contribuíram para nos tornar PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA conhecidos”. Assim: “Eminentes estadistas, funcionários, escritores, sábios, administradores, que antes prestavam serviço na Metrópole, voltaram ao seu país; e os que viviam aqui encontraram maior campo de ação” (2002, p. 42). O sistema literário começava a se formar pelas condições materiais, que permitiam o trabalho e a projeção intelectual. A criação do Instituo Histórico e Geográfico, em 1836, pólo aglutinador dos “estudos brasileiros”, constituiu-se no mais importante órgão de legitimação intelectual. Somava-se à fundação de bibliotecas, museus, teatro, revistas dedicadas à informação científica e filosófica, como a Revista brasileira. É interesse notar o papel pioneiro atribuído a Ferdinand Denis, autor de Resume de l’histoire littéraire du Brésil, a primeira obra historiográfica sobre a evolução da literatura brasileira. Logo, o olhar estrangeiro se impõe, no início da “formação”, como força decodificadora ou como voz da literatura colonizada. A figura do “brasilianista” surgia como interlocutor entre a colônia e a metrópole, com a nobre missão de nos “tornar conhecidos”. Metaforicamente, ao nosso ver, o prestígio de Denis e “a missão francesa” indicavam a tentativa de romper, no plano da inteligência, com o poderio cultural ibérico, substituindo a esfera sagrada (a cultura jesuíta) pelo racionalismo francês. A França, na esfera secularizada na qual se localizava o início do sistema, aparecia como paradigma modernizante. O lema de Denis - “um país independente possui uma literatura independente” –, propõe Candido, estimulou os escritores a afirmar a 151 nacionalidade pela descrição da natureza e do índio, ou seja, as duas tendências do Romantismo: nativismo e indianismo. O primeiro sentido do nacionalismo literário estava ligado à terra e às populações autóctones. Autonomia, como pensa Roberto Corrêa dos Santos, significava a exposição para o exterior do elemento original interior31. O modelo funcionalista proposto por Candido situava o movimento de evolução (tradição) literária no interior das transformações estéticas, autônomas, na relação (dialética) entre a linguagem literária e os condicionamentos históricos, que configurariam o literário, definindo sua função na sociedade e estabelecendo um estado espírito. É estético, político e psicológico. O antilusitanismo romântico provocava o rompimento com a autoridade paterna (metrópole português), compreendendo a diferença como sinal de autonomia. A literatura tratava de elaborar o repertório simbólico da nação recém independente, os elementos que PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA contribuiriam para a criação de uma história individual e para a superação do malestar do colozinado, carente de qualquer mito de origem, pois sua história era escrita oficialmente a partir da chegada do colonizador. O nativismo e o indianismo trabalhavam no cerne do trauma: a auto-estima. A idealização do índio, argumenta Candido, se esteticamente foi fraca e se desgastou rápido, serviu como uma “ilusão compensadora de um altivo antepassado fundador”, satisfazendo as necessidades do país jovem e mestiço “tinha de atribuir à sua origem um cunho dignificante” (2002, p. 51). O indianismo contribuiu para o conhecimento etnográfico sobre a cultura indígena, também integrou o índio dentro do conceito de nação. No entanto, literariamente, prendeu-se ao exotismo do romantismo francês, o que significou, em mãos menos hábeis, o seu desgaste e a dependência aos centros metropolitanos. Machado de Assis, em seu “Instinto de nacionalidade”, daria um tiro na ilusão indianista: “É certo que a civilização brasileira não está ligada ao elemento indiano, nem dele recebeu influxo algum; e isto basta para não ir buscar entre tribos vencidas os títulos da nossa personalidade literária” (1999, p. 13). O primitivo, para Machado, era um tema poético, uma fonte de inspiração, considerá-lo “nossa explicação intelectual” implicava erro tão grave quanto exclui-lo do patrimônio da literatura brasileira. Analisando a passagem citada, cf: SANTOS, Roberto Corrêa dos. “O político e o psicológico, estágios da cultura” In Modos de Saber, modos de adoecer. Belo Horizonte: ed. UFMG, 1999, pp.64-65. 31 152 Silviano Santiago – em “Oswald de Andrade ou elogio da tolerância étnica” indica na postura machadiana “uma linha reducionista” no pensamento brasileiro. O reducionismo fundava-se no “centramento da verdade histórica na razão européia”, logo era eurocêntrico, incapaz de manter diálogo com as culturas aborígines e africanas, pois as colocava em situação hierarquicamente inferior. Este pensamento rechaçava “o saber antropológico”, qualificando-o como “equívoco ufanista” a contribuição destas culturas à formação da civilização (1991, s/p). A noção de “civilização”, em Machado, não estava ligada necessariamente à exclusão ou inclusão do índio, como insinua Santiago, mas à revelação crua de uma cultura logocêntrica, da qual o intelectual do século XIX não escapou. Além disso, o ensaísta ignora a crítica machadiana ao exclusivismo indianista, que limitava a literatura a uma só fonte. Se não era “lícito arredar o elemento indiano PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA da nossa aplicação intelectual”, considerá-lo como um único legado equivalia a negar o “tempo de hoje” como “boa e larga matéria de estudo” (1999, p. 15). Ao contrário do que tendenciosamente Santiago sugere, Machado não faz uma defesa do eurocentrismo, pelo contrário, denuncia a criação romântica de um passado nobre como uma camisa de força, um lugar estereotipado, de olhos fechados para o presente. Machado de Assis desestabilizava o conceito de “mito fundacional”, que localizava a origem da nação em um passado remoto, em que tempo real e tempo mítico se fundiam para formar a narrativa nacional. Tacitamente, apontava para a crítica moderna ao Romantismo – e também a ele mesmo – de, sob o ideal indianista, ter excluído a cultura negra do projeto nacional. Para Candido, a exclusão ocorreu porque o negro era escravo e tal condição – o “tempo de hoje” machadiano – não permitia sua idealização. O Romantismo, mesmo ignorando a cultura africana como componente positivo da nação, segundo Candido foi o primeiro movimento revitalizador da inteligência brasileira, porque criou todo um aparato simbólico para a autoreflexão da cultura nacional. Com ele, o saber folclórico pode se instituir como instância privilegiada do reconhecimento da cultura brasileira, e também da preservação de suas raízes. O Modernismo, logo, seria o segundo grande momento de revitalização da inteligência nacional. 153 Aqui Candido começa a esboçar relação de semelhança entre o Romantismo e Modernismo que formará a tradição literária brasileira. Em Iniciação à literatura brasileira, no sugestivo capítulo “O sistema literário consolidado”, o historiador retoma o parentesco entre os movimentos. Se o “sistema literário” é formado no Romantismo, com o Modernismo se consolida. O Modernismo não foi apenas um movimento literário, mas, como tinha sido o Romantismo, um movimento cultural e social de âmbito bastante largo, que promoveu a reavaliação da cultura brasileira, inclusive porque coincidiu com outros fatos importantes no terreno político e artístico, dando a impressão de que na altura do Centenário da Independência (1922) o Brasil efetuava uma revisão de si mesmo. (CANDIDO; 2005, p. 88). O que harmonizou os dois movimentos foi uma espécie de nacionalismo revolucionário, capaz de criar um outro estado de espírito, tradutores de ansiedades profundas (o sentimento de independência e o processo de PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA modernização), produzindo uma sensação de otimismo através da qual o país tentava superar seus recalques. No ensaio “Uma palavra instável”, refletindo sobre as duas primeiras décadas do século XX, apontava que o pensamento romântico havia dado lugar a um nacionalismo populista e excludente, no qual o índio, o negro, a pobreza representavam “manchas secundárias no brasão das oligarquias, idealizadas numa espécie de leitura delirante de nossa história” (2004, p. 217). Um conceito reacionário, xenófobo e obtuso culturalmente. Com o Modernismo, definiria-se uma teoria e uma prática nacionalista progressista. Nos seguintes termos: O modernismo foi um momento crucial no processo de constituição da cultura brasileira, afirmando o particular do país em termos tomados aos países adiantados. Mais do que ninguém, os modernistas fizeram sentir a verdade segundo a qual só o particular se universaliza [...]. Oswald de Andrade exprimiu brilhantemente na teoria da Antropofagia todo esse movimento, ao sugerir que a nossa maneira de fazer cultura era devorar a européia, a fim de transformá-la em carne e sangue nossos. (CANDIDO; 2004, p. 219). O debate em torno de uma prática nacionalista-progressista, segue Candido, é uma constante nos anos 20. Em carta a Manuel Bandeira, em novembro de 1924, Mário de Andrade bradava a necessidade dos brasileiros realizarem o Brasil (1965, p. 34). Esta situação, para o ensaísta, expunha uma realidade paradoxal, porque social e politicamente o país “atrasado e novo” precisava ser nacionalista, para “preservar e defender a sua autonomia”; mas no terreno cultural era antropofágico, isto é, “recebia incessantemente as contribuições dos países ricos, que economicamente o dominam” (idem, p. 219). 154 O movimento – ou mais especificamente, a antropofagia – resolvia a questão local através da “valorização dos temas nacionais”, promovendo o desrecalque dos elementos excluídos da nacionalidade e da arte nacional (o folclore, as danças populares, o samba). Por outro lado – o autor deixa escapar um tom de surpresa -, os artistas recorrem “aos instrumentos libertadores da vanguarda européia”; ou seja, nacional no conteúdo; internacional na linguagem. O nacionalismo modernista, sob o ponto de vista sociológico, é revolucionário à medida que promete uma revisão da identidade nacional, uma outra forma de pensar a cultura brasileira. A inserção e/ou idealização da herança africana é a demonstração mais contundente, pois até então ela estava excluída do projeto de nacionalidade. Outro exemplo, a inclusão da cultura popular no projeto de arte nacional. O primitivismo, uma tendência da vanguarda européia, tornou-se meio de investigação (criação?) de uma identidade não convencionalista. Através PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA dele, há o retorno do “indianismo”, seja por uma perspectiva mais conservadora – o verdeamarelismo – seja por uma postura subversiva – a antropofagia. A consolidação do sistema de formação estabelece, com o Modernismo, o nacionalismo como tradição moderna, re-estruturou os mitos fundacionais românticos, reinventando poética e historicamente a narrativa nacional (Retrato do Brasil, Casa grande e senzala e Raízes do Brasil), há um sentido de continuidade temática e espiritual, ou seja, a vontade de fazer literatura brasileira, o corredor passando a tocha adiante. 9.2 Tradição e memória Para Silviano Santiago – no ensaio “A permanência do discurso da tradição no modernismo” -, a reação do grupo modernista diante do estado degradado da arquitetura barroca, apontava para um “dilaceramento do modernismo, logo no seu início”, pois passara a congregar, dentro do discurso de rejeição ao passado, o contato com a tradição (1989, p.105). Santiago procura desestruturar o discurso hegemônico da crítica literária, em particular a concretista, que loca o modernismo como parte da “tradição do novo”, no qual o passado somente é resgatado pela via paródica, ou seja, o make it new poundiano. Nesse ponto de sua argumentação, o ensaísta toma o conceito de 155 “tradição da analogia”, desenvolvido por Octavio Paz no livro Filhos do barro, para expor como a tradição aparece na poética moderna. Segundo Paz, apesar da “vertiginosa diversidade de sistemas poéticos”, os quais se desenvolvem muitas vezes como negação e/ou ruptura, existe uma crença, uma “religião da poesia moderna”, que perpassa o Romantismo até o Surrealismo. Essa crença é a analogia, seu continuum forma uma tradição (1984, p. 24). A analogia, prossegue o pensador mexicano, aparece entre os povos primitivos, prossegue entre os estóicos e os platônicos da Antiguidade, ramifica-se nos sistemas e seitas místicas medievais, converte-se em religião secreta no Renascimento – os movimentos hereges, como a cabala, o ocultismo e o hermetismo -, e ressurge entre os românticos como revolta ao racionalismo. Tratase de um sistema de correspondência que acredita na linguagem como um duplo do universo. Um exemplo desta tradição seria o tratado hermético de Hermes PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA Trimegisto – a Tábua esmeralda – no qual postula que o “que está em baixo é como o que está em cima, e o que está em cima o é como o que está em baixo; por estas coisas se fazem os milagres de uma só coisa”. Essa crença numa visão una do universo se populariza com os sistemas de comunicações de Swedenborg que estabelece o reino do intelecto como mediador entre o terreno e celestial32. Swendenborg influenciaria Baudelaire no poema fundador do Simbolismo, “Correspondência”, no qual a sinestesia aparece como uma linguagem universal. Desse modo – retornando a Octavio Paz – os precursores da poesia francesa do século XIX (Baudelaire, Nerval, Mallarmé, Rimbaud, Lautréamont), sob influência dos românticos ingleses, como William Blake, e alemães, como Goethe, abrem e fecham “o leque de correspondências da analogia” (1984, p. 92). A “concepção de poesia como magia”, segue Paz, implica numa estética ativa, uma intervenção sobre a realidade; revolucionária, propõe uma mudança violenta das instituições (1972, p. 262). Do Romantismo ao Surrealismo existe um arco de mudanças de crenças, na qual o pensamento analógico é um meio de negação e crítica do pensamento analítico, racional e secularizado. Silviano Santiago compreende a “tradição analógica” como uma “reação contra os princípios revolucionários da modernidade” (1989, p. 103). O apelo à O livro de Louis Pauwels e Jacques Bergier, O despertar dos mágicos, é referência importante a qual consultei. 32 156 tradição, segundo o ensaísta brasileiro, corresponderia a uma atitude “neoconservadora”, resultante do rompimento com uma linha de participação política revolucionária, por exemplo, o marxismo. Nesse momento de descrença no presente e desconfiança no futuro, o poeta moderno, via analogia, tenta se reconciliar com a tradição. Aqui a argumentação de Santiago torna-se tendenciosa, porque ignora a relação do poeta com a tradição mística, para situar a analogia no terreno pós-moderno, ou seja, como um correlativo ao pastiche. Assim, saindo da paródia e da ironia com relação ao passado, e passando para o pastiche, o artista pós-moderno incorpora a tradição e o passado de uma maneira onde a confiabilidade seria a tônica, respaldada pelo pluralismo. (SANTIAGO, 1989, p. 101). O pastiche seria uma forma de incorporação pacífica do passado – tradição e passado se confundem na argumentação de Santiago -, enquanto a paródia seria uma forma de rompimento com a tradição. A respeito dessa PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA colocação, Lúcia Helena, no ensaio “Um caminho percorrido”, aponta para o equívoco do ensaísta em ler a paródia somente como “ruptura com a tradição”, pois ela também é um meio “paradoxal de se apropriar do passado” (1995, p. 24). Para Santiago, no próprio Modernismo, em seu momento “destrutivo”, há uma permanência da tradição, como se o vírus do pastiche já estivesse inoculado na paródia modernista. A recorrência à “tradição da analogia” é um modo de tentar expor esta convivência contraditória e/ou forçada aos olhos dos defensores da “tradição da ruptura”. Daí a importância que dará à viagem a Minas, “o caso mais interessante para se falar em tradição no modernismo” (1989, p. 104). Santiago toma, como referência ao seu argumento, o comentário de Brito Broca sobre a “atitude paradoxal” dos modernistas, “homens do futuro”, ao escolher como roteiro de viagem “as velhas cidades de Minas, onde tudo é evocação do passado”. “O divórcio”, prossegue Broca, dos modernistas “com a realidade brasileira” conferiu a Minas barroca “qualquer coisa de novo e original, dentro, portanto, do quadro de novidade e originalidade que eles procuravam” (1989, p. 105). A relação dos modernistas com a tradição é dupla: por um lado, pretendem rearticulá-la, como fazem com o repertório simbólico do Romantismo; por outro, buscam conservá-la, através da preservação da memória. No primeiro caso, inscreve-se a renovação estética, marcada pelo compromisso com o agora; noutro, inscreve-se o compromisso social do intelectual modernista. Eneida Maria de 157 Souza (1993), analisando o lugar da memória na escrita de Mário de Andrade, ilustra este duplo projeto: como artista moderno, acredita na transitoriedade da arte, como funcionário público trabalha em prol da preservação dos monumentos arquitetônicos. A urgência da memória, aponta Andreas Huyssen (2000), é um dos sinais mais contundentes do discurso pós-moderno, os exemplos se espalham desde as ondas retrô – estamos vivendo o revival dos anos 80, como já vivemos o dos anos 50 e 60 – até a literatura memorialística. A cultura da memória trabalha, em grande escala, com os momentos traumáticos da história: o holocausto, a aids e, no caso brasileiro, a ditadura militar. Nesses casos, o não deixar esquecer, como o caso da escravidão no Brasil, tem nos levado a um imenso – e oportunista – purgatório, pois incapazes de alterarmos a história, temos que assumir a responsabilidade por ela, o que leva ao discurso do governo Lula para justificar as PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA cotas para negros como um acerto de contas (consciência) com o passado de escravidão. Politicamente, continuamos com Huyssen, a cultura da memória é um contra-discurso à fé inabalável da alta modernidade no novo e no utópico, a visão triunfalista do telos do progresso. Trata-se de reavaliar os passados nacionais, com ênfase nas questões dos direitos humanos e das minorias, “tentando curar as feridas provocadas pelo passado” (2000, p. 34). O discurso da memória modernista era outro. Primeiro, porque se acreditava na possibilidade de desconstrução da história; segundo, não se trabalhava com os traumas do passado, quando apareciam havia sempre uma tentativa de superá-los utópica ou culturalmente. A utopia antropofágica, por exemplo, visava não necessariamente a uma volta ao passado, talvez o contrário, a reconstituição do passado no presente. Há ao mesmo tempo uma desconfiança no presente, que ainda é o tempo da guerra, da intolerância e da violência, e uma confiança nele, pois é o tempo da tecnologia que garante o ócio, condição essencial para trazer de volta o matriarcado de Pindorama. O passado, ao contrário do discurso pós-moderno, não era um lugar traumático. Agripino Grieco, em entrevista a Homero Senna, via a presença do passado, na prática modernista, como uma traição ao próprio Modernismo. Segundo ele, o movimento, pretendendo uma “revolução contra o passado”, fracassou, a prova seria “o surto prodigioso de estudos históricos”: 158 Há hoje um enorme interesse público pelas biografias, pelos ensaios de interpretação da nossa evolução política, pelos livros de memórias. Ora, um dos postulados do Modernismo era exatamente o combate à Tradição. Produziu, portanto, efeito contrário. (SENNA, 1996, p. 32). Os estudos históricos eram mais uma forma do Modernismo estabelecer sua tabula rasa. Reler a história do Brasil, reinventar os mitos da nacionalidade, integrar as classes marginalizadas no projeto de nação moderna, em todos estes campos fica claro que a renovação modernista se impunha como uma instância de legitimação da identidade nacional, geradora de novos conceitos, por exemplo, a cordialidade como signo da nacionalidade. O passado não aparece como objeto de “culto” ou de “dor”, mas como lugar onde o discurso modernista exerce seu poder. Se o discurso da tradição permaneceu no modernismo, em seu sentido analógico-silvianista, com sua feição “neoconservadora”, ocorre em reação ao PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA nacionalismo paródico de 22. O espiritualismo de Tristão de Ataíde já apontava nesta direção, pois tanto “o sentimento de nacionalização excessivo da poesia pauBrasil” quanto o “cosmopolitismo” do dinamismo, a oscilação entre “particularismo” e “universalismo”, traíam o catolicismo que havia formado a “tradição brasileira”33. Tristão tentava restaurar no presente laico o “formidável laço de unidade nacional” instituído pela Igreja Católica desde a catequese jesuíta. Os símbolos da nacionalidade – pregava - foram forjados à sombra da cruz. Quando Murilo Mendes converte-se ao discurso cristão, rompe imediatamente com a linha paródica que havia desenvolvido brilhantemente na História do Brasil. Os poemas renegados realizavam a proposta de intervenção idealizada no “Manifesto pau-Brasil”, mas neles escapavam o sentido de eternidade com o qual o espiritualismo penetrava no terreno da tradição católica. “Jesus Cristo é a civilização”, Murilo escrevia em O discípulo de Emaús. À medida que as fórmulas poéticas de 22 se desgastam e o discurso nacionalista adquire o caráter de engajamento político/partidário, nasce, entre os poetas mais ousados, uma preocupação com o caráter metafísico do fazer poético. Drummond, por exemplo: “E como ficou chato ser moderno, agora serei eterno”. Esta não é uma preocupação pós-moderna. Charles Baudelaire, o poeta moderno por excelência, definia a modernidade como a fusão entre o transitório e o 33 cf: “Cristo no júri: carta aberta ao Dr, Margarino Torres, O jornal, 18 de março de 1931. 159 imutável. Transcender o efêmero, que é a própria modernidade, consistia no desafio para os poetas, para que o moderno fosse digno deveria ascender à condição do Clássico, ser ele mesmo uma tradição. Se olharmos bem, o discurso da tradição, sem que isso seja um “neoconservadorismo”, está presente, inclusive, no Concretismo. Qual era a preocupação de Haroldo de Campos, como tradutor, em suas últimas décadas de vida? Traduzir a Ilíada. O projeto de uma história da literatura de invenção não desabona os autores do passado, pelo contrário, busca a sincronia. Resgatar o Barroco, nesse sentido, estabelece o diálogo com o passado dentro do discurso de ruptura. A práxis modernista plantou as sementes para, no futuro, que já é agora, renascer como tradição. Como os leitores hoje lêem os autores modernistas? O leitor especializado, confiante numa bibliografia vasta sobre o movimento, talvez PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA os leia como “ruptura”, “renovação”, mas esta é uma leitura localizada. Deslocalizando-a, a literatura moderna, da antropofagia ao romance social, é um parâmetro de tradição na vida literária e cultural. Esclarecendo: para a geração dos anos 80 em diante, Drummond é tão clássico quanto Camões. Dessa forma, a percepção de Antonio Candido, aliando o Modernismo como continuidade e aprimoramento do Romantismo, marco inicial da tradição literária brasileira, ou seja, revitalização de um discurso anterior. Não por acaso, um dos primeiros órgãos de divulgação e legitimação dos modernistas, a Revista do Brasil, na fase dirigida por Paulo Prado, surgiu dos escombros do principal órgão de difusão dos intelectuais nacionalistas do século XIX, a Revista Brasileira. A atualidade de Mário de Andrade repousa sobre sua ação à frente do Departamento de Cultura, pois seu projeto de democratização da arte erudita e preservação da cultura popular está na pauta do Ministério da Cultura. Ele encenou o contato das propostas modernistas com a tradição. Quem estiver interessado na presença da tradição no discurso moderno – caminho aberto por Silviano Santiago – encontrará muito mais subsídios em Mário. Nele se assume uma postura mais conservadora? Se o ponto de vista for as estéticas de ruptura, sim. Haroldo de Campos, a respeito da poesia andradina, afirmou sem pudor que o poeta era um “reformador”. Ao longo de sua trajetória poética, Mário tentou conciliar as conquistas do verso moderno com as formas mais tradicionais, como a métrica e a rima. No campo da cultura, sua preocupação com a arquitetura 160 colonial, as festas populares e as canções folclóricas, anteciparam uma das preocupações centrais da pós-modernidade: o lugar da memória, a integração entre passado e presente. Mário representou a modernização de uma linha de pensamento pósromântica que buscou nas culturas populares, no folclore, na herança índia e africana, um sentido de identidade nacional. O conceito de “mestiçagem cultural”, por exemplo, já aparecia na argumentação de Sílvio Romero para demarcar a especificidade da literatura brasileira, entendida como expressão de nacionalidade e investigação do “espírito do povo”, seus estudos sobre o canto (Cantos populares do Brasil) e conto (Contos populares do Brasil) e a etnografia brasileira. Estes são os caminhos que Mário de Andrade seguirá, abrindo novas trilhas. Sua sensibilidade, evidentemente, é diferente e até oposta a de Romero: este fez do instrumental positivista e suas convicções intelectuais a sua prisão; PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA aquele, propenso a dilemas – poesia participante ou esteticismo autônomo? -, renovava constantemente seu interesse intelectual, atuando em quase todas as esferas da produção intelectual: poesia, romance, conto, crítica literária, musicólogo, artes plásticas, folclore, etnografia. Há um trabalho consciente, o qual procuramos enfatizar pela leitura de suas correspondência de trabalho, de construção de um intelectual “total”. A cultura popular, no pensamento andradino, representava a fonte bruta dos hibrismos étnicos e culturais que deveriam formar a nacionalidade moderna. O folclore aliado à literatura de vanguarda permitiria a coesão nacional no campo de uma nova produção literária. Essa concepção, para Antonio Candido, revelava a força revolucionária e democrática do modernismo, capaz de agregar o legado africano ao nacionalismo literário, já que em sua primeira elaboração – a romântica – o negro foi obliterado pela imagem mítica do índio. A herança modernista está muito visível na instituição de uma cultura brasileira culta que se nutre da cultura popular. Sua maior vitória tem sido esta: estabelecer alianças entre culto e popular. O campo de experimental desse pensamento tem sido a música muito mais do que a literatura. Desde Villa Lobos as expressões populares – a modinha, o samba de roda, a quadrilha – têm funcionado como um meio de renovação do repertório erudito. A instauração de uma cultura musical midiática, como a indústria fonográfica, criou novas formas de culto e popular, porque a rigor o jazz era popular, mas agora está submetido a 161 uma recepção culta, com “ares de erudita”. Louis Armonstrong diria que o jazz era “a música clássica” americana. Algo semelhante ocorreu com a bossa nova. O músico bossanovista se via como um jazzista, e não um sambista, porque a rigor já não tocava mais samba, embora João Gilberto dissesse que ele era um sambista. A recepção da bossa nova, espécie de cruzamento do samba com o jazz, também é culta. Essas deserarquizações estavam no programa de renovação da cultura brasileira pelas vias do modernismo. O fenômeno novo, ocorrendo agora diante de nossos olhos, é classicização do próprio discurso moderno, pois os novos leitores lêem Mário de Andrade ou Drummond como autores canônicos. A revolução modernista já foi televisionada. A imensa parte da poesia que lemos hoje, boa ou ruim, talvez desde a poesia marginal, é escrita sob o parâmetro modernista, consciente ou inconscientemente, para afirmá-lo ou negá-lo. Pouquíssimos poetas praticam o soneto, com a gritante PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA exceção de Paulo Henriques Brito. Até os preconceitos modernistas parecem enraizados na literatura brasileira dos últimos oitenta anos. Outra demonstração, esta bem banal, do lugar canônico em que alguns autores do modernismo residem, vem da Casa da Moeda: a impressão em cédulas de figuras ilustres da história brasileira. Pois bem, Mário de Andrade ilustrou a nota de quinhentos cruzeiros reais. Outro escritor a figurar numa nota foi Machado de Assis. 162 10 Conclusão Quando a rede de lojas do Boticário lançou, em enormes outdoors, o famoso auto-retrato de Tarsila do Amaral, Manteau Rouge (1923), para promover uma nova linha de perfumes, uma coisa ficou clara: existe um modernismo de consumo, alheio ou indiferente ao modernismo acadêmico. A prática de incorporar as obras de arte moderna como “imagens” de produtos vendidos em larga escala já ocorrera antes, quando a Nestlé lançou uma série de reproduções, de Picasso a Tarsila, nos rótulos e copos de requeijão. Esse é o tipo de “dessacralização” que os apocalípticos apontam como lado perverso da indústria cultural, pois converte tudo em mercadoria, até aquilo que deveria se opor às leis PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA de consumo; e os integrados apontam como o lado democratizador da cultura de massa. Em relação às linhas de perfumes do Boticário, o quadro de Tarsila confere um toque de classe e glamour. O refinamento, uma espécie de bom gosto näif, é justamente o capital simbólico investido nesse tipo de propaganda, através dele toca-se no inconsciente do consumidor. A obra de arte, logo, é o veículo entre a concepção “espiritual” da marca e os desejos dos seus usuários. No entanto, tudo produzido em larga escala tende a se diluir ou perder seu sentido. Um exemplo foi o uso indiscriminado do conceito de antropofagia para explicar uma série de mixagens culturais, do Tropicalismo ao Mangue beat, sem levar muito em conta se havia uma identidade entre elas; ou ainda mais maquiavélico, para manter a hegemonia cultural de determinado movimento, no caso uma relação de parentesco entre tropicália e mangue beat explicada pelo discurso antropofágico. O efeito colateral desse raciocínio foi diluição da práxis antropofágica, pois em sua remixagem tropicalista ressaltou-se seus aspectos de fusão cultural, resultando numa visão unânime sobre a cultura nacional. Toda a unanimidade é burra, dizia Nelson Rodrigues, antes de ser uma unanimidade. O Ano do Brasil na França, organizado pelo ministro da cultura Gilberto Gil, por vias tortas, exemplifica a diluição. Na exposição dedicada “Música antropofágica”, dentro do bloco “Raízes musicais do Brasil”, a curadora da exposição, Dominique Dreyfus, em entrevista para Folha de São Paulo, assim definiu antropofagia: 163 Nos anos 80, surgiu o conceito “world music”, que no Brasil é genético. A diferença brasileira é a fusão. É como se fosse uma feijoada, em que o feijão viesse da Colômbia, o coentro de Marrocos, a farinha do México, mas o gosto saísse brasileiro. Até que ponto a “world music” não seria uma “macumba para turista”? Sua relação com a antropofagia só explica pela tradução única de fusão cultural, destituída de sua força utópica, de sua crítica aos valores ocidentais. Há uma nascente reação a Oswald de Andrade, derivada de sua canonização pelos concretistas e tropicalistas. O jornalista Jerônimo Teixeira, em resenha para Veja do livro Feira das sextas, afirma que “falta consistência” às teses da poesia “paubrasil” e da antropofagia. Seu argumento situa-se sobre três flechadas do modernista fora do alvo: a) no Manifesto da poesia Pau-Brasil defendia a “poesia de exportação” - hoje “o maior produto de exportação da literatura brasileira não é um poeta, e sim Paulo Coelho”; b) contra o purismo dos gramáticos defendeu a PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA “língua sem erudição” - deu em “Lula com suas metáforas futebolísticas e sua sintaxe peculiar, o primeiro presidente pau-brasil”; c) previu o surgimento do homem natural tecnizado - o resultado seria os índios, protegidos em suas reservas, usando DVDs e laptops para negociar com traficantes de diamantes”34. A ojeriza do jornalista, em sua simplicidade analítica, se volta contra o “personagem” Oswald de Andrade, o mito, ou a julgar pela sua “interpretação” das teses oswaldianas, o profeta. Ao tomar Paulo Coelho como realização das “profecias” do “Manifesto pau-Brasil”, o autor esquece que Machado de Assis também foi exportado e faz parte do cânone da literatura universal. Mas Paulo Coelho não parece digno de nos representar (talvez fosse melhor a escrava Isaura?). Silviano Santiago, com sua verve peculiar, no artigo “Outubro retalhado”, associa o sucesso internacional do “alquimista” como uma má exportação, porque o autor não assume sua responsabilidade junto ao idioma nacional e “se deixa embalar pelo canto da sereia neoliberal com a volúpia, a insensatez e a ‘naïveté’ de um selvagem das idéias”35. O fenômeno de vendas revela uma “miopia universal” e todo o jogo de interesses que rege o descompromisso do best seller com “o analfabetismo e o desemprego”. O autor universal ignora os problemas nacionais, nada mais anti-oswaldiano. Por outro 34 35 Revista Veja. 10 de novembro de 2004. apud. Folha de São Paulo. Supl. Mais! 16 de novembro de 2003. 164 lado, o “mago” faz bem aos intelectuais brasileiros, porque mostra que a obtusidade artística é um bem universal. Viva Paulo Coelho! Outra reação à unanimidade antropofágica: Regurgitofagia, do multimídia Michel Melamed. Neste texto-espetáculo, o autor propõe a superação da antropofagia, porque “já deglutimos coisas demais”: Oswald de Andrade [...] aludia à deglutição do Bispo Sardinha [...] para propor que [...]deglutíssemos as vanguardas européias a fim de criarmos uma arte genuinamente brasileira. E hoje? Continuamos a “deglutir vanguardas” ou temnos sido empurrada goela abaixo toda a sorte de informações? Regurgitofagia: “vomitar” os excessos a fim de avaliarmos o que de fato queremos redeglutir. (MELAMED, 2005, p. 68). A leitura de Melamed é claramente mediada pela construção tropicalista da antropofagia; assim como Caetano, ele não foi além do manifesto de 28. Para recusá-la, curiosamente, o autor recorre ao formato dos textos concretistas e a PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA verve humorística da poesia de 70, ironicamente as fontes de influência oswaldiana. Diante do excesso de informação, afirma, é impossível agir com a avidez antropofágica, porque precisamos de tempo para refletir; como diria Machado de Assis, nada mais inteligente do que ruminar. Desse modo, sua crítica se insere no interior de uma sociedade de alto consumo de informação sem reflexão. Sociedade a qual Oswald recusou em sua remixagem do conceito de antropofagia. Melamed confunde “antropofagia” com “canibalismo”, como o próprio Caetano Veloso confundiu. A tradução de antropofagia como canibalismo ignora o contradiscurso à própria sociedade capitalista, pois insinua que ela é adesão ao consumo, quando propõe sua superação. Por fim, Oswald e Mário de Andrade foram devorados pela rede Globo. A mini-série Um só coração, presente da emissora carioca à cidade de São Paulo pelos seus quatrocentos e cinqüenta anos passou a perna numa das hipóteses desta a tese, ou a confirmou de modo inesperado. Em quatro séculos, os roteiristas escolheram justamente o marco de 22. A mini-série sucedeu outro projeto da autora Maria Adelaide Amaral, a peça Tarsila. A peça, na qual colaboraram as autoridades de Telê Ancona Lopes, Aracy Amaral, Antonio Candido e Gilda Mello e Souza, incorporou vários trechos das correspondências dos modernistas, grande parte as de Mário, para ficcionalizar a “vida” dos modernistas. Esse parece ser o interesse renovado pelas publicações das cartas, lê-los na intimidade. O repertório bibliográfico como fonte para uma ficção, porto seguro da 165 verossimilhança. A peça elege Oswald, Tarsila, Mário e Anita como personagens centrais do movimento modernista. Tal redução ao básico permitiu a autora, pelo viés feminista, restituir o papel das duas mulheres na evolução do modernista. A historiografia literária minimizou ou simplesmente desprezou a importância das duas pintoras e de Pagu. Em parte, isto se explica pelo fato da literatura, até o Modernismo, ter sido uma atividade masculina. A pintura fazia parte do rol de atividades femininas, como a música, no qual a moças passavam seu tempo ocioso. Anita e Tarsila iniciaram na pintura no seio familiar. As omissões foram uma traição ao espírito de 22, porque em um dos pontos em que esta geração foi avançada, em relação aos padrões de sua época, foi justamente ter aceitado as mulheres. Para Décio Pignatari, em termos de novidade criativa, o modernismo foi um movimento de “dois homens e duas mulheres” (1998, p. 78). No entanto, isso não significa que o modernismo tenha um pouco de feminismo, PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210329/CA até mesmo porque a feminilidade foi um tabu para alguns escritores, como Mário de Andrade. A peça apresenta uma “história privada” do Modernismo, restabelecendo alguns contextos perdidos, como o papel de Mário na elaboração da “antropofagia”. Na sua passagem para a televisão, os autores exploraram o lado sentimental – nada mais anti-modernista – da relação entre Mário e Anita. A tônica foi apresentá-la como uma amante platônica do escritor. Em relação a este sentimento não-correspondido, Sérgio Miceli faz uma leitura surpreendente do auto-retrato “nu” de Anita, o qual dá presente para o amigo, como uma forma dela se desnudar, numa tentativa de conquistar o parceiro (2003, p. 119). No final, a mini-série realizou-se como ironia da máxima oswaldiana – “a massa há de comer os biscoitos finos que fabrico”. Mas na realidade, a massa devorou o personagem Oswald. A própria linearidade narrativa da mini-série foi anti-modernista. Mas há algo de importante aqui, impossível de ser ignorado: o interesse pela vida privada das celebridades. Nesse sentido, as crescentes publicações das correspondências de Mário de Andrade, além de satisfazer as necessidades da cultura literária (segundo ela, isso é sua razão de ser), também satisfazem a curiosidade dos leitores diletantes. Penetrar na intimidade do escritor talvez seja o único interesse dos leitores não especializados, que as lêem sem o pudor do crítico literário. Portanto, no atual estado de coisas, o movimento modernista realizou seu último ato: tornar-se um produto de massa. 166 11 Referências Bibliográficas ADORNO, Theodor W. e HORKHEIMER, Max. “A indústria cultural: o esclarecimento como mistificação das massas” In Dialética do esclarecimento. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1985. ALENCAR, José de. Iracema. São Paulo: Click Editora, s/d. ALMEIDA, Renato. Velocidade. Rio de Janeiro: ed. 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