LEITORES DE MONTEIRO LOBATO:
UM ESTUDO SOBRE PRÁTICAS DE LEITURA
Autor: Marco Antonio Branco Edreira
Instituição: Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo – FEUSP
Introdução
Este trabalho é parte da pesquisa para dissertação de mestrado, ainda em andamento,
sobre práticas de leitura produzidas por leitores de Monteiro Lobato. O objetivo é a
compreensão das práticas de um conjunto de leitores do autor a partir da caracterização das
estratégias1 do autor/editor, da instituição escolar e das táticas dos leitores2.
As fontes utilizadas nesta pesquisa são 246 cartas de leitores de Monteiro Lobato
arquivadas no IEB – Instituto de Estudos Brasileiros – da USP, no arquivo Raul Andrada e
Silva. Elas fazem parte do Dossiê Monteiro Lobato e foram agrupadas como Correspondência
Passiva do autor, no conjunto de Cartas Infantis. Foram enviadas entre 1932 e 1946 por
remetentes na faixa etária de 6 a 18 anos, procedentes de todas regiões brasileiras, mas
principalmente da região Sudeste - Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro.
Estes documentos têm muita importância para o conhecimento de práticas de leitura
do período, pois grande parte do que se sabe sobre estas práticas não tem como fonte de
estudo as produções do leitor, considerando apenas questões externas a ele - como o número
1
Os conceitos de estratégia e tática foram utilizados a partir de Michel de Certeau. Quanto à estratégia,
o autor assim a define: “Chamo de estratégia o cálculo (ou a manipulação) das relações de forças que se torna
possível a partir do momento em que um sujeito de querer e poder (uma empresa, uma cidade, uma instituição
científica) pode ser isolado. A estratégia postula um lugar suscetível de ser circunscrito como algo próprio e
ser a base de onde se podem gerir as relações com uma exterioridade de alvos ou ameaças (os clientes ou os
concorrentes, os inimigos, o campo em torno da cidade, os objetivos e objetos de pesquisa)”. In: CERTEAU,
Michel de. A Invenção do Cotidiano. São Paulo, Vozes, 1994, p. 99.
2
“... chamo de tática a ação calculada que é determinada pela ausência de um próprio. Então nenhuma
delimitação de fora lhe fornece a condição de autonomia. A tática não tem por lugar senão o do outro. E por isso
deve jogar com o terreno que lhe é imposto tal como o organiza a lei de uma força estranha. (...) Ela não tem
portanto a possibilidade de dar a si mesma um projeto global nem de totalizar o adversário num espaço distinto,
visível e objetivável. Ela opera golpe por golpe, lance por lance. Aproveita as ‘ocasiões’ e delas depende, sem
base para estocar benefícios, aumentar a propriedade e prever saídas”. In: CERTEAU, Michel de. A Invenção do
Cotidiano. São Paulo, Vozes, 1994, p. 48.
de livros impressos, os livros existentes nas bibliotecas, os discursos educacionais etc.
Analisar estas cartas é procurar compreender as apropriações dos leitores a partir de seus
próprios discursos e sua relação com as estratégias do autor. Destaca-se ainda a importância
das cartas por procederem de “leitores comuns”, isto é, “desconhecidos”, que nada têm de
“extraordinário” (Darnton, 1996, p. 144). Este tipo de leitor está quase sempre fora do
conjunto de estudos sobre práticas de leitura.
Neste trabalho serão assinalados alguns traços das estratégias autorais e editoriais,
obtidos através da bibliografia sobre o tema, e alguns aspectos das apropriações táticas
empreendidas pelos leitores, assinaladas nas cartas através das quais se corresponderam com o
autor.
As estratégias autorais e editoriais de Lobato
É sobre o escritor que se concentra a maior parte dos estudos sobre Lobato, permitindo
a ampla compreensão de suas estratégias autorais. Aqui, serão destacadas apenas algumas
consideradas de maior relevância.
A primeira é a construção de uma obra infanto-juvenil a partir de três tipos de livros,
podendo ser dividida em três conjuntos: obras de fantasia, didáticas e recontadas (Penteado,
1997, p. 170). Assim, um livro como Reinações de Narizinho – fantasia - pretende contar
aventuras envolvendo os personagens que compõem o universo do Sítio do Pica-pau
Amarelo. História do Mundo para Crianças – didática -, ao relatar a História, pretende, mais
do que narrar aventuras da turma, servir à compreensão da história da humanidade. Já num
livro como Fábulas- recontada - a turma fica apenas como pano de fundo, fazendo
comentários aos textos. Esta divisão ajuda a compreender diferentes funções dos textos do
autor e estabelece marcos de sua produção.
Outro traço da obra lobatiana é a reescrita dos textos. Em Reinações de Narizinho,
publicado em 1931, diversas histórias escritas ao longo da década de 1920 foram reescritas a
fim de comporem o livro.
Lobato também aboliu as fronteiras entre fantasia e realidade. A turma do Sítio passeia
por diversos universos da Literatura, da História e da Geografia como sendo parte da mesma
totalidade. Este é um dos traços pioneiros do autor (Coelho, 1983, p. 181).
Esta falta de limite entre fantasia e realidade é evidenciado por outro aspecto, que é o
da intertextualidade. Esta é caracterizada pela utilização de textos ou de características deles
dentro de outra obra. Assim, no caso de Lobato, vê-se os personagens dos contos de fadas
passeando no Sítio de Dona Benta e seus personagens visitando o país das fábulas ou a Grécia
de Hércules, por exemplo. De certa maneira, todo texto parece ter um certo grau de
intertextualidade, uma vez que toda obra parte do que já foi feito anteriormente, mas em
Lobato esta relação com outras histórias é constante e motor de muitas, como Os Doze
Trabalhos de Hércules e O Minotauro.
Há também em Lobato uma preocupação com a linguagem que usará com o leitor
infantil. Procura uma linguagem acessível capaz de atrair o leitor, procurando diferenciar-se
dos livros infantis produzidos à época (Koshiyama, 1982, p. 88).
Ao considerar as estratégias de Lobato, não basta apenas a análise de seus textos,
levando em conta o conteúdo de seus livros e sua preocupação com a escrita e a linguagem.
Há em Lobato algo especial, que não costuma estar presente na biografia de muitos escritores:
além de autor dos seus livros, foi também, por algum tempo, seu próprio editor. E mesmo
depois que abandonou a função direta de editor, nem por isto deixou de ter influência no
campo editorial. Pode-se dizer que Lobato fazia livros e não apenas escrevia textos. Participou
em alguns momentos de sua produção de todo processo editorial, inclusive da distribuição. É
na conjunção destas funções complementares que sua estratégia deve ser compreendida. Não
pode ser considerado apenas escritor ou apenas editor, pois uma função pode determinar a
outra, uma vez que um livro não é somente o texto, mas a materialidade resultante da
produção editorial e gráfica (Chartier, 1991, p. 178). Koshiyama, em seu estudo sobre Lobato,
aponta uma relação direta entre as duas funções:
“Para Monteiro Lobato, editar livros no período 1918 - 1930 foi também um meio de divulgar
sua obra de escritor. Enquanto outros escritores iniciantes dependiam da acolhida dos poucos
editores ligados às casas estrangeiras para publicar livros, Monteiro Lobato tornou-se o
empresário de sua produção intelectual. E, ao procurar negociar sua produção intelectual,
Monteiro Lobato buscou inovações para a empresa do livro no Brasil.” ( p. 67)
Atuando como editor, Lobato preocupou-se com diversos aspectos da produção do
livro, como por exemplo, os aspectos gráficos:
“Objetivando cativar e conquistar um número cada vez mais amplo de leitores, contrata
artistas para ‘susbstituir’ as monótonas capas tipográficas pelas capas desenhadas, tornando
seu produto mais atraente aos olhos do consumidor. ‘Os balcões das livrarias encheram-se de
livros com capas berrantes, vivamente coloridas, em contraste com a monotonia das eternas
capas amarelas das brochuras francesas’.” (Azevedo et al, 1997, 130-131)
A produção do livro, no entanto, não esgotou a atuação de Lobato como editor e
gráfico. Como fica demonstrado em algumas cartas ao amigo Godofredo Rangel, o importante
era fazer o público gostar do livro; em outras palavras, adquiri-lo. Neste sentido, a frase
seguinte resume seu trabalho editorial: “Editar é fazer psicologia comercial” (Lobato, 1972,
p. 299). A venda como o grande objetivo é patente em inúmeras cartas. No início da carreira,
comentando defeitos em um livro publicado, explica porque continuava vendendo-o:
“Por que o reedita então? Porque se vende. Já que o publico é besta, toca a explorar o
publico. Mas isto cá só entre nós. Com os outros eu me tomo a serio e com a maior
gravidade”.(Lobato, 1972, p. 182)
Para conseguir as vendas, de acordo com alguns autores (Hallewell, 1985; Koshiyama,
1982), adotou formas de distribuição inovadoras para a época, como a consignação para
comerciantes não ligados ao setor livreiro. Paralelamente buscou o caminho tradicional, como
o vínculo com a instituição escolar. Em 1921, fez um negócio com o Governo do Estado de
São Paulo em que vendeu milhares de exemplares da edição de “Narizinho Arrebitado”. As
cartas ainda apontam que o autor também dava os livros àqueles que lhe pediam, o que
também poderia ser tomado como uma estratégia de distribuição.
As táticas dos leitores
As estratégias apresentadas acima apenas permitem caracterizar, de modo muito geral,
o universo no qual se move o leitor de Lobato, estabelecendo um quadro que orientou as
diversas práticas de leitura. Entretanto, esta orientação não determina os modos de ler
(Chartier, 1991, p. 179-181). Através da análise das táticas dos leitores em conjunto com as
estratégias do autor e de outras instituições, como a escola, é que se pode obter uma
compreensão melhor destas práticas. Assim como em relação às estratégias, serão
apresentados apenas alguns aspectos das apropriações apontadas nas cartas dos leitores, mas
que podem dar uma idéia da importância deste recorte.
Onde lêem
Um dos aspectos evidenciados em algumas cartas é o lugar em que as leituras foram
feitas ou em que foram discutidas. A maioria das que fazem referência a este aspecto é
oriunda de alguma instituição escolar, dando pistas de que entre as leituras nela feitas incluise a obra de Monteiro Lobato. Entretanto, ainda é necessário investigar se estas leituras
ocorrem durante as aulas ou preponderantemente em horas de leitura livres nas bibliotecas e
clubes de leitura, ou ainda como atividade extra-escolar. Infelizmente não são muitas as que
remetem a outros espaços de leitura – apenas quatro das que não têm origem escolar. Tomo
duas destas cartas como exemplo da exposição desta tática. Ambas foram enviadas pela
mesma leitora, de São Paulo, em 1932 e 1934, quando tinha dez e doze anos, que nos informa
explicitamente o lugar onde a leitura de um livro de Lobato é feita. Foi, ainda, enviada uma
foto mostrando a leitura das crianças, que infelizmente não chegou até o arquivo.
A primeira foi enviada em seu nome e de outros três irmãos - de cinco, sete e oito
anos. Além de fazer comentários sobre os personagens, relata as leituras feitas no “sítio” para
onde costumavam viajar, comparando-o ao reino maravilhoso que é o Sítio descrito e narrado
por Monteiro Lobato. Explicando a foto enviada, comenta que, através dela, ele pode vê-los
"...no reino maravilho por onde viajam seus pequenos leitores".
Aqui, há uma identificação total com o Sítio de "Reinações de Narizinho", que é o
livro a que ela se refere, pois, para ela, ler num "sítio" é como estar mais presente nas histórias
que estão sendo lidas, é fazer parte mais diretamente do reino maravilhoso das histórias. Dois
anos depois, a cena ainda é presente. Lembrando da foto enviada na primeira carta, ela diz que
é possível vê-la "...em flagrante delito de imaginação, a solta lendo os adoráveis contos
daquele país". Há até uma expressão dúbia confundindo ainda mais os dois sítios - o que
freqüenta e o das histórias. A menina relembra que quando ia para o sítio vivia "...horas
agradáveis no Reino das Maravilhas".Qual dos dois sítios é o "Reino das Maravilhas"? Sua
identificação com as histórias é tanta, que ela pede para "viver" no próximo livro com a
"turma de Dona Benta".
Como os livros chegam às mãos dos leitores
Devido às características próprias à faixa etária em estudo, não é difícil perceber que o
acesso aos livros dependia quase sempre de outras pessoas, os adultos. As cartas apontam
algumas formas de aquisição dos livros ou de como foi possível ter o livro em mãos para a
leitura.
Uma das formas possíveis é ser presenteado. Alguns remetentes dizem ter ganhado
seus livros. A ocasião em que dois foram presenteados demonstra a importância do livro para
estes leitores. Uma é exemplar, pela intensidade emocional da carta. Ela relata que “Papai
Noel” prometeu-lhe História do Mundo para Crianças, mas no dia do Natal, havia outro livro
“no sapato”. Afirma ter ficado muito triste e ter se acalmado somente quando sua mãe
consolou-a dizendo que daria o livro desejado no Dia de Reis.
Alguns presentes revelam a dificuldade de acesso aos livros em algumas cidades,
como uma leitora de Sorocaba que afirma ter ganhado de uma tia de São Paulo.
Apesar da dependência dos adultos, alguns leitores demonstram uma certa autonomia
comprando eles mesmos os livros, ainda que possivelmente dependam dos pais para obterem
dinheiro. Outros referem-se a passeios à livrarias para adquirir os livros desejados. Uma
leitora de Botucatu, em 1937, diz ter procurado por todas as casas comerciais da cidade sem
ter encontrado. Vale notar que ela não se refere a livrarias, mas a “casas comerciais”,
indicando que a venda de livros não ocorria somente nas livrarias e a estratégia de Lobato de
pode ter sido bem sucedida.
Outra forma de acesso aos livros é o empréstimo. Algumas vezes ele é de familiares,
outras ocorrem na escola, através da biblioteca ou do clube de leitura. Um leitor, entretanto,
depois de dizer que não pode “comprar estes livros boníssimos”, esclarece que os empresta
da diretora do grupo escolar.
Há uma forma, contudo, presente em grande número de cartas: pedir o livro
diretamente ao seu autor. Esta é uma forma de ganhar o livro, mas bem diferente das
anteriores, pois revela a relação direta com o autor da obra, dando um novo significado ao
ganhar, como atesta uma leitora paulistana em 1944: “... foi o melhor presente que recebi em
minha vida mesmo porque veio de suas mãos”. Nas escolas, muitas turmas de alunos pedem
livros a Lobato e em algumas consta o recebimento, através do agradecimento feito. Mas não
é só através do universo escolar que esta forma de aquisição está presente. Cartas de origem
particular também revelam o agradecimento prestado pelo livro enviado pelo autor. Alguns
dizem que querem pagar pelos livros, outros, entretanto, pedem justamente por não terem
dinheiro.
Relação pessoal com o autor
É possível perceber num conjunto grande de cartas um tom marcadamente pessoal.
Muitos leitores têm necessidade de apresentarem-se para o autor. Através destas
apresentações é possível conhecer alguns aspectos da vida pessoal dos remetentes que vão
além da leitura da obra do escritor. Os principais aspectos comentados referem-se à família, à
prática de alguma atividade artística e a aspectos do comportamento – como, por exemplo,
uma leitora mineira de cerca de 11 anos que enviou uma carta em 1945 dizendo ser
“...das tais meninas que o senhor aprecia, isto é, ‘das meninas bastante corajosas para dizerem
o que pensam’, como disse o senhor em uma de suas cartas (...)Digo ou não digo o que penso?
Não tenho medo de Zeus nem de Hera nem de ninguém”.
Outro aspecto relativo a este caráter pessoal é a necessidade demonstrada por
inúmeros leitores de estabelecer um contato com o autor. Este contato freqüentemente ocorre
através da troca de fotografias. São muitos os leitores que afirmam ter recebido uma foto de
Monteiro Lobato. Alguns também dizem ter enviado a sua. Uma leitora carioca de 12 anos,
em 1937 envia uma carta em que é evidente a importância da fotografia como forma de
contato com o autor. Ela diz que pediu sua foto, pois “queria ter a honra de possuí-lo em
minhas mãos” e justifica o envio da sua, dizendo: “achei que o senhor merecia”. Para mais
de um leitor, ter uma foto é “como conhecê-lo pessoalmente”.
Personagens
A referência às personagens do Sítio está presente em quase todas as cartas. Nelas, os
leitores nos dão idéia de como vêem cada personagem. Em muitos casos há uma identificação
profunda com eles, como demonstram várias delas, que tratam as personagens como seres
reais.
Uma leitora, da qual não se sabe nem a idade nem a procedência, convida a turma do
sítio para seu aniversário para poder conhecê-los pessoalmente. O maior exemplo é o de um
leitor que, pelo que indica a letra, é recém-alfabetizado. Ele diz que um tal de Edgar contoulhe que uma empregada de Lobato havia varrido Emília para o lixo e só soube que era “peta”
quando ela apareceu no novo livro.
Há outra carta que contrapõe esta visão. Ao invés de alimentar o caráter real das
personagens, lamenta não poder ser verdade: “Quisera eu conviver com eles, todos ao menos
um dia, uma hora, devia ser tão engraçado, tão bom. É pena que eles não existam”.
É interessante notar que Lobato alimenta esse caráter real, escrevendo algumas cartas
em nome dos personagens ou contando como eles estão.
As táticas de leitura são indicadas sutilmente nestas referências às personagens. Há
tanto atitudes de concordância quanto de discordância em relação às opções do autor. Emília,
a personagem mais querida de Lobato, é também a que mais suscita comentários dos
correspondentes. Ela aparece dez vezes mais do que qualquer outra personagem. Em geral os
comentários são de apreciação, identificando-a como travessa, asneirenta, pestinha e
engraçada. Mesmo assim, muitos leitores criticam suas atitudes como, por exemplo, sua
forma de tratar Tia Nastácia e Visconde.
As referências ao Visconde – não coincidentemente o personagem menos apreciado de
Lobato - são as mais abundantes em críticas e sugestões, revelando percursos de leitura
diferentes dos imaginados pelo autor. Um leitor carioca reclama que o Visconde sumiu do
livro Circo de Escavalinhos, outra, do interior de São Paulo pede a Lobato para não o matar
mais. Um leitor, em 1945, reclama dos espancamentos sofridos pela personagem: "Não sei
como o Visconde pode viver sempre ameaçado de ser depenado".
Estas apropriações das personagens podem indicar a influência dos leitores sobre as
estratégias de Lobato. No caso do Visconde, por exemplo, é possível que o autor o tenha
ressuscitado depois da morte em Reinações de Narizinho atendendo aos apelos dos leitores.
Escola e conhecimento
Pouco mais de um terço das cartas está de alguma maneira relacionada à escola. Elas
podem ser divididas em dois grupos: aquelas remetidas a partir da escola, ou seja, tiveram
origem em algum tipo de prática de leitura ocorrida na instituição e aquelas que, mesmo não
procedendo da instituição, a ela fazem alguma referência.
No primeiro conjunto, os remetentes dizem-se representantes de uma turma escolar do 3o. ano primário até a escola normal. Quase todas são formais. A maioria tem um conteúdo
parecido e apresenta um texto característico, dando a entender que tiveram, possivelmente,
um modelo que orientou a escrita. Apesar destas características gerais, algumas a partir deste
modelo, inserem conteúdos e modos de dizer, que fogem da formalidade.
A maior parte serve para informar Monteiro Lobato de que foi escolhido como patrono
ou homenageado do Clube de Leitura, da biblioteca da classe ou da biblioteca da escola.
Algumas são quase exclusivamente de agradecimentos, quer seja por sua visita, por livros
enviados ou pelo atendimento à solicitação de fotos feita pelo grupo. Muitas cartas de
agradecimento são de remetentes que em cartas anteriores fizeram algum tipo de solicitação e
foram atendidos. As solicitações giram em torno de dois aspectos principais: pedido de livros
e de retratos. Mas também pedem biografia e autógrafo.
No segundo conjunto, as cartas não representam uma turma escolar. São enviadas,
aparentemente, por iniciativa pessoal e dentre as questões abordadas há alguma referência à
escola. Este conjunto pode ser aumentado se levarmos em conta as cartas que de alguma
forma demonstram a preocupação com a aquisição de conhecimentos, em sua grande parte
veiculados pelas disciplinas escolares. Podemos dizer, a partir deste raciocínio, que um pouco
mais da metade das cartas compõe o universo de documentos que podem contribuir para a
compreensão da relação entre as práticas de leitura da obra de Monteiro Lobato e a escola. O
conteúdo destas cartas refere-se a diversos aspectos, dentre os quais alguns serão apontados.
Um deles reforça o que já foi observado nos conteúdos das cartas que tiveram origem
na escola: Lobato está presente no currículo escolar. A biblioteca é um dos espaços em que há
sua presença, como relata uma leitora de São Paulo, em 1941, que diz ser fácil ler seus livros,
pois na biblioteca da escola há muitos deles. É indicado também o uso do autor pelos
professores. Um leitor carioca, em 1944, comenta aula de Português em que a professora
trabalhou com um livro de Aníbal Machado, em que leu uma história de Lobato: Morte e o
lenhador. O remetente alude a esta história para comentar que o texto "prova mais uma vez o
seu modo de arranjar um meio de ensinar a juventude".
Outro aspecto que pode ser destacado é a participação dos diretores e professores no
que diz respeito aos seus posicionamentos em relação a Lobato. Podemos observar, inclusive,
exemplos contrastantes. Um leitor de São Paulo, em 1945, comenta o novo acordo
ortográfico, lembrando que Lobato o antecipou – “o insubmisso”. Afirma que seu professor de
Português não gosta de Lobato. Ele teria dito isto depois do aluno dizer que o autor também
não seguia a gramática imposta. Outro leitor, de Castelo, apenas um ano depois, relata que
recebeu de Lobato o livro Geografia de Dona Benta e o levou para mostrar na escola. O
diretor do colégio o elogiou dentro da classe como um exemplo a ser seguido: "Não vivo só de
brinquedo e procuro relação com pessoas elevadas como o sr. (...) O professor gostou muito
do livro. Todos estão com inveja na classe".
Vale o destaque a uma carta que permite a reflexão sobre a diferença entre o que
proposto pela escola e por Lobato, ou mais do que isto, explicita a incompatibilidade entre as
duas propostas, ao contrário do que a maioria das cartas que trata da escola aponta, que é a
complementaridade.
Um leitor paulista que afirma ter concluído o curso graças aos livros de Lobato, em
1945, afirmou um ano antes que Emília o libertou e que ela era responsável por uma nova
visão de mundo que adquiriu. Esta nova visão, segundo o leitor, entrou em conflito com a
escola. Ele diz que quando passou “a viver como Emília, passei a ser tratado como ela na
escola”. Tratado como se fosse ela: o que seria este tratamento? Isto aponta para o fato de que
o comportamento emiliano, caro a Lobato, não combinava com a escola.
Há cartas que não remetendo diretamente à escola, apontam para aspectos do
currículo. Em geral, demonstram a preocupação dos leitores em adquirir ou discutir
conhecimentos com o autor.
Alguns leitores apenas indicam esta importância dizendo simplesmente que seus livros
despertam-lhes a curiosidade, outros que aprendem muito com seus livros, sem entrar num
assunto específico. Há os que apenas fazem comentários gerais sobre determinado livro, como
em relação a O Minotauro, em que o leitor diz haver muitos ensinamentos, e à História do
Mundo para Crianças, em que o remetente escreve que "ensina muita coisa que ignorava
inteiramente".
Mas não falta também aquele que enxerga erros de informação, como um leitor
carioca, em 1945, que afirma ter visto no livro Geografia de Dona Benta que a capital do
Canadá é Montreal e comenta que "todas as Geografias dizem que é Otawa”.
Conclusão
Estes apontamentos apenas permitem uma idéia geral de algumas práticas de leitura
deste conjunto de leitores de Monteiro Lobato, que lhe enviaram cartas nas décadas de 1930 e
1940, através da caracterização de alguns aspectos das estratégias do autor/editor e das táticas
dos leitores.
Alguns aspectos podem ser salientados. As apropriações dos leitores evidenciam os
vínculos entre a escola e a obra do autor. De certa maneira, alguns leitores usam os livros
como táticas de estudo. A escola, apesar de muitas mudanças buscando adaptar-se às
condições da modernidade, parece não ter conseguido eficiência no ensino de alguns
conteúdos, segundo os alunos/leitores; em vez de verem complementaridade entre a forma de
ensino da literatura e da escola, os alunos tendem a opor as duas.
Outro aspecto a ser considerado é que embora as cartas sejam amistosas e cordiais,
pode-se perceber que nem todos correspondentes aceitam passivamente as idéias do autor, uns
mais explicitamente, discordando de algumas opiniões, outros indiretamente, sugerindo novas
aventuras e personagens.
Apesar das diferenças de interesse de cada leitor, é possível estabelecer alguns marcos
que caracterizam o conjunto dos leitores. Em primeiro lugar, eles identificam conteúdos
escolares e de áreas do conhecimento humano nos livros do autor e se interessam em
aprofundá-los. Os leitores demonstram a necessidade de conhecer o autor pessoalmente, ou
pelo menos através de fotos; o vínculo apenas através dos livros não parece suficiente. Esta
necessidade remete a outra conclusão: assim como Lobato aboliu as fronteiras entre real e
fantasia nas histórias, os leitores também o fazem tratando dos personagens como entidades
reais, conhecidas de Lobato e sobre as quais ele talvez não tenha controle.
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