Vinho&Cia Ano 6 - Número 56 - R$ 8,00 ConVisão www.jornalvinhoecia.com.br Vinho do gelo no Brasil Wandér Weege, da Pericó, teve peito para fazer no Brasil o primeiro Icewine, apenas produzido em países em que neva, como Alemanha e Canadá E mais: a imperdível feira de compra de vinhos Abravinis Aperitivo Abravinho, Vinho&Cia Ano 6 - Número 56 www.jornalvinhoecia.com.br esforço para o vinho no país Novembro de 2010 é um mês importante para as ações institucionais de incentivo no país ao consumo de vinho com moderação e com produtos de qualidade. Neste mês acontece a Abravinis, feira de venda direta de vinhos ao consumidor, promovida pela Abravinho (Associação Brasileira da Imprensa de Vinho). Tenho o prazer de ser um dos fundadores e presidente da Abravinho, que reúne jornais e revistas de grande representatividade no mercado de informações especializadas sobre vinho: Adega, Alta Gastronomia, Bon Vivant, Prazeres da Mesa, Vinho&Cia e Wine Style. Juntos esses veícu- los de comunicação respondem por tiragem média mensal de cerca de 130 mil exemplares. Todos se esforçam para ampliar o conhecimento e o consumo de vinho no Brasil. Representam muito para esse mercado. Nessa feira diferenciada, no Clube Pinheiros em São Paulo, ao lado do Shopping Iguatemi, num dos espaços mais nobres do país, é possível degustar vinhos no local de exposição, imediatamente fazer pedidos de compra e retirar em local apropriado anexo. Tudo para se apreciar vinhos sem esforço. É um momento importante, porque foi fruto de um grande esforço dos jornais e revistas a favor do mercado, ajudando consumidores e fornecedores, e do qual temos orgulho de participar. Assim como temos orgulho de ver nascer o primeiro e grande vinho do gelo no Brasil, fruto de outro esforço, do arrojado empresário Wandér Weege, da vinícola Pericó de Santa Catarina. Esse produto vai dar o que falar, e pode ser conhecido nas páginas seguintes de Vinho&Cia. Também na seqüência podese acompanhar o que aconteceu no 2o. Encontro Internacional do Vinho no Espírito Santo, além Editor de muitas outras informações produzidas com muito esforço pela maior equipe especializada em vinhos no país. É bom ler. Os textos são leves. Não precisa esforço. Timtim! Publicação ConVisão Al. Araguaia, 933, 8o. and. Alphaville 06455-000, Barueri, SP Colaboradores Adão Morellatto / Adriana Bonilha Álvaro C. Galvão / Andréa Pio Beto Acherboim / Carlos Arruda Cesar Adames / Custódio Denise Cavalcante / Didú Russo Norio Ito / Euclides Penedo Borges Fernando Quartim / Jairo Monson João Lombardo / Maria Amélia Sérgio Inglez / Walter Tommasi Regis Gehlen Oliveira, editor Assinaturas e Propaganda (11) 4192-2120 [email protected] Nas páginas desta edição... 10 Regis Gehlen Oliveira 16 20 25 Vinho & Cia é uma publicação da ConVisão relativa ao segmento de vinhos e suas companhias naturais, como gastronomia, restaurantes, prazer, conhecimento, viagens e outras. Circula principalmente em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Rio Grande do Sul, nos principais restaurantes e lojas especializadas. Pode ser adquirido por assinaturas ou em bancas selecionadas. Os artigos e comentários assinados não refletem necessariamente a opinião da editoria. 4- Acontece No mundo do vinho 6- Vinho Tinta (Custódio) 8- Vinho&Saúde (Jairo Monson) 10- No Brasil, o vinho do gelo (Mercado) 14- América do Sul (Euclides Penedo Borges) 15- Velho Mundo (Walter Tommasi) 16- Vinho na Academia (Carlos Arruda) 18- Que negócio é esse? (Álvaro Cézar Galvão) 19- Mercado do Vinho (Adão Morellatto) 20- Uai! (Andréa Pio) 22- Reportando (Denise Cavalcante) 23- Vinho é arte (Maria Amélia) 24- De Santa Catarina (João Lombardo) 25- Viajando com Vinho (Adriana Bonilha) 28- Charutos & Destilados (Cesar Adames) 30- Comportamento (Didú Russo) A menção de qualquer nome neste veículo não significa relação trabalhista ou vínculo contratual remunerado. Associado à Vinho&Cia - No. 56 bONS VINHOS MELHORES PREÇOS E:A6EG>B:>G6K:ODHB:A=DG:HK:Þ8JADH9:8DBJC>86vÀD9DB:G869D9:K>C=D:6 pela H: primeira vezIG6O:G os jornais e revistas mercado de vinho :MEDCDG JC:B E6G6 6D 8DCHJB>9DG ;>C6Ado JB6 <G6C9: ;:>G6# 9JG6CI: e a exponor se unem para promover uma feira diferenciada. FJ6IGD9>6H!KD8ÚED9:GÛ8DBEG6G7DCHK>C=DH""96HB:A=DG:H>BEDGI69DG6H: durante 3 dias você pode comprar bons vinhos EGD9JIDG:H9D7G6H>AÄ:8DBEG:vDHBJ>ID:HE:8>6>H# das melhores importadoras e vinícolas pelos melhores preços. 7DCHK>C=DH!B:A=DG:HEG:vDH a r ) p is m ea o is 0 r e-c ea 3 al r de o v 60 ra s a mp na s -co ape so le ue es va g r a a g o ep In eit ina ir d g m pá o a (c st e ve le FEIRA IMPERDÍVEL! &°;:>G69:K>C=DE6G6D8DCHJB>9DG;>C6A7DCHK>C=DH!B:A=DG:HEG:vDH 9:'(6'*9:CDK:B7GD!96H&)¿H''=H8AJ7:E>C=:>GDH DE 23 A 25 DE NOVEMBRO DAS 14h às 22h - clube pinheiros - São Paulo clube pinheiros: r. tucumã, 36, jardim paulistano, próximo ao shopping iguatemi, são paulo ABRAVINIS_FINAL_245x285.indd Vinho & Cia - No. 56 1 6/16/10 11:09:08 AM Acontece No mundo do vinho Bons vinhos pelos melhores preços, só na De 23 a 25 de novembro, de terça a quinta-feira, há um programa imperdível para o apreciador de vinhos: a feira Abravinis. Durante esses três dias, das 14h às 22h, é possível degustar vinhos no local de exposição, fazer diretamente pedidos de compra dos rótulos que mais agradam e retirar as garrafas no estoque, tudo de forma bastante prática. “Em oferta estão rótulos das melhores importadoras e vinícolas do país”, afirma o editor do Vinho&Cia, Regis Gehlen Oliveira, também presidente da Abravinho (Associação Brasileira da Imprensa de Vinho), promotora do evento, que reúne os principais jornais e revistas do mercado de vinho. Casa Valduga, Concha y Toro, Domno, Mistral, Península, Salton e World Wine são alguns dos diversos fornecedores que estão oferecendo os vinhos. “Há rótulos para todos os gostos, dos mais variados países”, diz Georges Schnyder, da revista Prazeres da Mesa. Abravinis: Clube Pinheiros De 23 a 25 de novembro de 2010 (3a. a 5a. feira), das 14h às 22h R. Tucumã, 36, Jardim Paulistano, São Paulo Próximo ao Shopping Iguatemi Ingressos a 60 reais (com direito a vale-compra de 30 reais) O espaço no salão de festas do Clube Pinheiros é dos melhores, “confortável, elegante e bem localizado”, conta Domingos Meirelles, da Exponor, que organiza a Abravinis e também é responsável pela maior feira de vinhos da América Latina, a Expovinis. Abravinis Paulo Milreu, da revista Alta Gastronomia, fala que é muito fácil comprar e inclusive parar o carro: “o Clube Pinheiros colocou manobristas para ajudar”. Custa apenas 15 reais o estacionamento. “O ingresso não é caro”, diz Christian Burgos, da revista Adega, apenas 60 reais, sendo que dá direito a um vale-compra de 30 reais para usar na hora e levar para casa as garrafas que mais agradar. Por tudo isso, é uma ótima oportunidade nesse momento para antecipar aquelas compras de fim de ano e de Natal, seja para rechear a adega de casa, para dar de presente ou para os eventos corporativos de confraternização. Vinho & Pizza é na Prestíssimo! Wine Bar - Carta com 200 rótulos - Taças especiais Cotação no Guia Onde Beber do Vinho&Cia Al. Joaquim Eugênio de Lima, 1135, (11) 3885-4356, Jardins, São Paulo Vinho&Cia - No. 56 fá c E:A6EG>B:>G6K:ODHB:A=DG:HK:Þ8JADH9:8DBJC>86vÀD9DB:G869D9:K>C=D:6 :MEDCDG H: JC:B E6G6 IG6O:G 6D 8DCHJB>9DG ;>C6A JB6 <G6C9: ;:>G6# 9JG6CI: não perca a oportunidade de comprar vinhos FJ6IGD9>6H!KD8ÚED9:GÛ8DBEG6G7DCHK>C=DH""96HB:A=DG:H>BEDGI69DG6H: para o fim de ano e natal, para a adega de casa, EGD9JIDG:H9D7G6H>AÄ:8DBEG:vDHBJ>ID:HE:8>6>H# para dar de presente ou para os eventos de confraternização 7DCHK>C=DH!B:A=DG:HEG:vDH r a pr m LOCAL o c NO e o r ã a rt eg a h c c e e d iil ISTAS MANOBR Ah! você não leu o anúncio anterior? &°;:>G69:K>C=DE6G6D8DCHJB>9DG;>C6A7DCHK>C=DH!B:A=DG:HEG:vDH 9:'(6'*9:CDK:B7GD!96H&)¿H''=H8AJ7:E>C=:>GDH DE 23 A 25 DE NOVEMBRO DAS 14h às 22h - clube pinheiros - São Paulo clube pinheiros: r. tucumã, 36, jardim paulistano, próximo ao shopping iguatemi, são paulo ABRAVINIS_FINAL_245x285.indd Vinho & Cia - No. 56 1 6/16/10 11:09:08 AM Vinho Tinta Leão enólogo... Vinho&Cia - No. 56 Vinho & Cia - No. 56 Vinho & Saúde É verdade que... ? Vinho ajuda a enxergar melhor S im. E não só no sentido figurado. Um provérbio iídiche diz que “há mais sabedoria em uma garrafa de vinho do que se pode imaginar”. É verdade que as pessoas que bebem vinho regularmente são mais sensíveis. Apreciam melhor uma obra de arte, uma poesia, uma música, uma conversa, uma ideia e têm uma visão própria da vida. Mas o vinho também ajuda a enxergar melhor no sentido literal. O olho humano é uma extraordinária máquina biológica, que geralmente não chega a 2,5cm na sua maior medida. Ele é constituído por um jogo de lentes dinâmicas e células com grande capacidade de receber estímulos luminosos e transmiti-los para o cérebro. As principais causas de cegueira no adulto são catarata e degeneração macular. Elas comprometem 30% das pessoas com mais de 70 anos. O cristalino é uma lente biconvexa que fica no interior do olho. Quando sofre a ação dos radicais livres ele fica opaco, borrando a visão. É o que denominamos de catarata. Os polifenóis, que existem em abundância nos vinhos, são potentes antioxidantes. Eles neutralizam de maneira muito efetiva a ação dos radicais livres. Por isso é compressível que as pessoas que envelhecem bebendo vinho regular e moderadamente tenham incidência menor desta moléstia. A visão é formada dentro do olho, num pedaço da retina chamado mácula. Quando os vasos sanguíneos da mácula se obstruem, há isquemia e degeneração de uma parte da mácula – é a degeneração macular. Quando isso acontece, a pessoa fica com uma mancha cega na imagem formada por aquele olho. Os componentes do vinho melhoram bastante a circulação, como mostram inúmeros estudos. Por isso não é nenhuma surpresa o que algumas pesquisas têm encontrado: uma incidência menor deste tipo de cegueira nas pessoas que têm o hábito regular de beber vinho moderadamente com as refeições. Pesquisadores do departamento de oftalmologia da Universidade de Washington, em St. Luis, trabalhando junto com o farmacologista R.W. Johnson, da escola médica de Nova Jersey, descobriram que o resveratrol, quando administrado em altas doses, bloqueia a angiogênese (formação de novos vasos sanguíneos) na retina de ratos. Esta justamente é outra causa de cegueira por degeneração macular. O Dr. Obisesan – oftalmologista norte-americano – estudou as pessoas que tinham o hábito regular de beber vinho. Encontrou uma incidência de cegueira nos adultos 20% menor. Portanto, é certo afirmar que o vinho ajuda a enxergar melhor. Pelo menos mais claro. Jairo Monson Médico e escritor [email protected] Vinho&Cia - No. 56 Vinho & Cia - No. 56 Mercado No Brasil, o Vinho do Gelo A obra de Arte Naïf de Tereza Martorano retrata a vindima na neve na vinícola Pericó, em São Joaquim, Santa Catarina. Desses vinhedos do nosso solo tropical saiu o inusitado vinho do gelo (Eiswein, Icewine), produzido até então somente em países em que neva. É fruto do arrojo de Wandér Weege, comandante da Pericó. E não é um produto qualquer, recebeu elevados pontos da crítica especializada. Acompanhe aqui a estória da sua produção, conheça como é elaborado e saiba mais sobre o homem do vinho do gelo no Brasil. 10 Vinho&Cia - No. 56 Mercado Por Regis Gehlen Oliveira A hora 1 É 7 de setembro de 2010, 10h, feriado no Brasil, mas não na Itália. Os degustadores da FISAR (Federazione ltaliana Sommelier Albergatori Ristoratori), uma das mais conceituadas instituições internacionais de avaliação de vinhos, sob o comando do renomado e polêmico dr. Roberto Rabachino, reúnem-se para provar o inusitado. Nas taças está o primeiro vinho do gelo produzido no mundo em um país de clima tropical. É da vinícola Pericó, da safra de 2009, de São Joaquim, Santa Catarina, Brasil. É uma curiosidade para todos. Muitos queriam ter o privilégio de provar esse produto raro. E muitos duvidavam da sua qualidade. Era a primeira experiência. A expectativa era de ser um vinho curioso, provavelmente não um grande produto, por ser o primeiro e num país tropical, em que, poucos sabiam, de vez em quando neva nas terras de altitude de Santa Catarina. Os degustadores provam. Anotam as considerações. Dão as suas notas de prova. Reúnem-se as avaliações. O resultado é... 90 pontos num total de 100! Algo que pouquíssimos produtos no mundo conseguem. A hora 2 É 5 de outubro de 2010, 20h, dia útil em São Paulo. Wandér Weege, da Pericó, está diante da imprensa brasileira para mostrar o vinho do gelo brasileiro. Fala da Pericó, da estória da produção do vinho. Mostra seus vinhedos cuidadosamente tratados, alinhados com precisão geométrica. Conta sobre as máquinas importadas para trabalhar na poda, projetadas para os operadores fazerem sentados e com qualidade o trabalho. Diz que foram elaboradas pouquíssimas garrafas do Icewine, com rendimento de menos de 500 gramas por planta, a partir de uvas congeladas a 7,5oC negativos, colhidas no amanhecer de 4 e 12 de junho de 2009... Apresenta a belíssima embalagem de lata preta com rótulo em Arte Naïf. Mostra a gravura feita pela artista plástica de São Joaquim, Tereza Martorano, especificamente para o lançamento do produto. Retira a maravilhosa garrafa alongada de 200ml com o líquido rosado escuro... Está a seu lado o sommelier italiano dr. Roberto Rabachino para dar o testemunho da degustação na FISAR. É geral a curiosidade. Estão presentes a equipe de Vinho&Cia e muitos outros críticos especializados brasileiros... É servido na sua temperatura ideal, entre 9 e 11ºC, o Icewine da Pericó... Pelo aroma e pelo sabor a curiosidade torna-se realidade. É inusitado e... É um belíssimo vinho! Maravilhoso para sobremesa, divino como sobremesa e ótimo para acompanhar queijos azuis. É para deixar Vinho & Cia - No. 56 nós brasileiros orgulhosos do que fazemos e podemos fazer. É ratificada por nós a avaliação dos italianos. É um vinho muito aromático, com forte presença de cerejas, untuoso, com doçura adequada e 15% de álcool natural. Adolar Hermann, da importadora Decanter, presente no evento, diz tudo sobre o seu diferencial: “O que chama a atenção é que tem doçura e acidez”. Isso instiga o paladar e vem da elaboração com Cabernet Sauvignon e do terroir de altitude de Santa Catarina. Chega a hora 3 É 10 do 10 de 2010, 10h10’10’’. É a hora que o marketing extremamente profissional da Pericó escolheu para lançar no mercado o vinho do gelo brasileiro, o Icewine. Custa 190 reais a garrafa. Pesa no bolso, mas vale cada centavo. É um prazer raro para nossos sentidos. É um orgulho para nós brasileiros poder apreciá-lo a partir dessa hora. 11 Mercado Conheça mais sobre o néctar chamado vinho do gelo Por Sérgio Inglez de Souza As baixíssimas temperaturas de regiões onde ocorrem invernos muito rigorosos são um decisivo fator de limitação para a viticultura. O frio extremo simplesmente faz com que as videiras parem todas as suas atividades e entrem em dormência. Nas regiões cujo inverno se posiciona numa faixa imediatamente anterior a esse extremo as coisas mudam de figura dando margem à vitivinicultura do frio. O Método Não é recente o conceito do vinho do gelo. No primeiro século da era cristã o autor clássico romano Plínio, o Velho, discorreu sobre vinhos elaborados a partir de uvas congeladas naturalmente nas videiras, indicando que a prática fosse ainda mais antiga. Para a elaboração dos Vinhos do Gelo as uvas atingem o máximo grau de maturação e são deixadas nas videiras para sofrer o trabalho das baixas temperaturas. Para se ter uma idéia, a temperatura no vinhedo deve ser –7°C, ou mais baixas pelas leis alemãs, ou de –8°C para baixo nas leis canadenses. A experiência prática mostrou que um congelamento muito mais forte, abaixo dos -14°C, faz da baga um bloco sólido, sem mosto líquido para extrair, podendo danificar a prensa do processo de vinificação. Quando a temperatura no vinhedo apresenta-se dentro do previsto pela lei seguida, as uvas naturalmente congeladas são colhidas durante a noite ou na madrugada, sofrendo prensagem imediata em instalações sem calefação. A quantidade de mosto gerada é exígua e o processo de fermentação estendese lentamente por meses até atingir em geral o teor alcoólico entre 10 e 12%, com alta concentração de açúcar e alta acidez residual. Essas duas qualidades garantem um vinho bem doce e muito vivo. A História O primeiro vinho do gelo foi elaborado na Alemanha, na região da Francônia, em 1794; depois aconteceu também em localidade próxima de Bingen, Rheinressen, em 1830. E as iniciativas nunca mais pararam, tornando o vinho do gelo um produto chamado Eiswein. Na Europa a prática tem sido repetida na Áustria (Eiswein), Luxemburgo (Vin de Glace), Hungria (Jegbor), Suíça (Vin du Glacier), entre outros, havendo produções na Nova Zelândia, Brasil, Estados Unidos e Canadá (Icewine). 12 O método qualificado pelas legislações nacionais específicas determina que se deva partir de uvas que se congelam naturalmente na videira. Esta condição, conduzida pelo ritmo do clima, segue o ciclo lento da natureza, para que o congelamento separe a água presente nas bagas e concentre açúcares e ácidos. É chamado de método de crio-extração natural. Em alguns países como Argentina e Estados Unidos, por exemplo, existe um método alternativo, pelo qual se utiliza o congelamento artificial das uvas depois de colhidas. O congelamento em equipamento de frio não repete o ciclo natural das reações físico-químicas internas, gerando um vinho parecido, porém sem a mesma complexidade. O método é chamado de crio-extração artificial, e o vinho recebe a denominação de Icebox Wine. Um bom exemplo é o Las Perdices, um rosé argentino de Malbec, da Viña Las Perdices, Mendoza. Na atualidade o Canadá é o maior produtor de Icewine do mundo, possuindo regiões demarcadas (Designated Viticultural Áreas) na Columbia Britânica, em Ontário e na Península de Niágara. As variedades utilizadas são as viníferas Riesling e Cabernet Franc, e a híbrida vinífera-ri- paria Vidal, esta muito apreciada em todo o mundo. Produtores de vinho do sul da Alemanha, Baden e Württenberg, que estão reunidos na associação Dyade 52 e vêm trabalhando versões modernas de vinhos alemães, têm vários estilos de Eiswein: branco, tinto e rosé, das castas Riesling, Gewürztraminer e Spätburgunder (Pinot Noir). Até próximo de 1960 as produções de vinho do gelo eram ocasionais, e o produto era tratado como raridade. Na Nova Zelândia, na época, a vinícola Mills Reef oferecia um cálice de boas vindas de Icewine como uma deferência muito especial a grupos de visitantes estrangeiros. Hoje o Icewine está bem mais próximo do consumidor brasileiro. Onde Encontrar Icewine Casa Flora: (11) 3327-5166 Fabiana: (16) 9776-2410 Jardim do Vinho: www.jardimdovinho.com.br Mistral: (11) 3372-3400 Ville Du Vin: (11) 3071-2900 Vinho&Cia - No. 56 Mercado Wandér Weege, da Pericó, o homem do icewine brasileiro Como surgiu a ideia de fazer um vinho do gelo no nosso país tropical? Wandér Weege: O primeiro vinho do gelo genuinamente brasileiro nasceu de um bem-humorado desafio, da vontade de inovar, de muito profissionalismo e de uma grande dose de ousadia. O projeto nasceu de uma idéia do Dr. Roberto Rabachino, diretor da FISAR (Federazione Italiana Sommelier Albergatori Ristoratori), durante uma aula do curso de Sommelier Internacional da Escola de Gastronomia da UCS/ICIF em Flores da Cunha, RS. Ele disse: “Já que em São Joaquim faz assim tanto frio, por que não fazer lá o primeiro icewine brasileiro?”. Assumi esse desafio. Preparamos o vinhedo para tornar realidade essa ideia. Com esse espírito começou o projeto do Pericó Icewine, uma jóia rara e única das terras de altitude e da neve catarinense, proporcionando ao Brasil ingressar neste exclusivo grupo de vinicultores mundiais. Para investir num projeto como esse é preciso peito, arrojo empresarial. De onde vem essa força? Wandér: Todo esse arrojo vem do espírito empreendedor e inovador do modelo de administração aplicado na Vinícola Pericó. Esse espírito é repassado para toda a equipe envolvida, e por isso os projetos, por mais ousados que sejam, têm grandes chances de virar realidade, como foram os projetos do Vinho do Gelo, do 1º Espumante de Altitude e de muitos outros. Nota-se nos vinhedos da Pericó uma grande organização. Que resultados traz na prática? Wandér: A Pericó se propõe a produzir exclusivamente vinhos finos de altitude e de qualidade superior. Para isso não poupamos esforços, e a técnica utilizada no vinhedo é muito importante. A cada safra as uvas são avaliadas semanalmente no laboratório, para serem colhidas manualmente no momento preciso, da maturação necessária para elaborar cada produto. Dessa forma é possível elaborar espumantes únicos, frescos e muito complexos; vinhos brancos muito aromáticos; e vinhos tintos estruturados, de alta qualidade. Enquanto vemos a maioria das vinícolas centrada na produção, observamos na Pericó ações diferenciadas de marketing. A que se chega com isso? Wandér: A comunicação faz parte para nos tornarmos conhecidos. São novos os produtos da altitude catarinense para serem degustados pelos consumidores. Precisamos divulgar isso. Mas também nos concentramos na produção dos nossos produtos, Vinho & Cia - No. 56 Wandér: Sou formado como Técnico e Químico Têxtil pelo Senai-RS, e nesse curso naturalmente aprende-se a ficar minucioso. A empresa Weege tem 105 anos, tendo a parte da Malwee há 42 anos. Esse tempo é prova que o cuidado faz diferença. Uma empresa de nível internacional, com qualidade para o ser humano, para os produtos, eficiência, produtividade e equipamentos. Esses mesmos conceitos foram adotados desde 2002, quando iniciamos o projeto Pericó, principalmente no vinhedo e em demais atitudes. Conquistamos prêmios e viramos case diferenciado já em poucos anos. De que gosta o homem Wandér nos momentos fora do trabalho? Wandér: Principalmente de leituras e viagens, bem como de trabalhos voluntários. principalmente para não perder o foco na qualidade, a que nos propomos desde o inicio. Como a Pericó enxerga o mercado do vinho no Brasil e no exterior? Wandér: No Brasil observamos que acordos bilaterais com Chile, Uruguai e Argentina prejudicam os produtos de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul, principalmente os vinhos finos de altitude, pois os impostos são maiores. Temos dificuldades com a escala de produção, com os custos nacionais e aquelas específicas da altitude (frio, vento, etc.). Hoje em dia o Brasil já tem bons vinhos, mas antigamente não. Os consumidores nacionais adoram, porém ainda dão grande importância ao importado, levando nossas divisas financeiras ao exterior. E os preços no nosso mercado? Wandér: Justamente pela questão dos impostos os vinhos importados chegam a preços mais competitivos no nosso mercado, o que dificulta muito. Todavia, as vinícolas brasileiras tendo bons vinhos farão com que cada vez mais o consumidor valorize e reconheça os produtos nacionais. Na feira internacional em São Paulo, a Expovinis, provamos isto e diferenciamos os vinhos de altitude. Dizem que o homem Wandér é minucioso no trabalho. Faz parte de um conjunto de valores básicos? O Brasil é um país do futuro ou do presente? Vai avançar com a nova presidente, os novos governadores e o novo congresso? Wandér: O Brasil, integrante dos países do BRIC (emergentes - Brasil, Rússia, Índia e China), agora recentemente chamado de BIC, precisa naturalmente rever uma série de estratégias em todos os sentidos, para ingressar com força nos manufaturados, e não somente importar as boas matérias primas que temos. A evolução do povo em termos de conhecimento e interesse precisa ser revista, e ampliada em todos os sentidos. Precisamos nos comparar com países como a Coréia e outros que tanto evoluíram recentemente, e estão com expressão internacional. Devemos esperar por novidades da Pericó em breve? Wandér: A qualidade e a inovação são diferenciais da Vinícola Pericó. Diferenciais já reconhecidos por renomados prêmios. O mercado global, naturalmente, espera novidades sempre. Hoje contamos com 10 produtos no nosso portfólio, além do Icewine. Na linha de vinhos, temos Taipa Rosé, Taipa Vigneto Sauvignon Blanc, Basaltino Pinot Noir e Basaltino Chardonnay. Ainda neste ano lançaremos um novo tinto da safra 2008. Entre os espumantes temos 5 produtos: Cave Pericó Branco e Rosé, nas versões Brut e Démi-Sec, e Cave Pericó Branco Brut Champenoise, também disponível no formato magnum, de 1,5 litros. Só em 2010 teremos no total 6 lançamentos. Certamente em 2011, com a quinta safra, teremos novidades para apresentar ao mercado. É a safra costumeiramente recomendada no exterior para grandes vinhos, o que já conseguimos em 4 safras, graças às castas francesas e ao preparo do terroir por dois anos. 13 América do Sul Casa uruguaia de prestígio “ Muitas vinícolas uruguaias estão em ascensão no mercado mundial. Euclides Penedo destaca aqui uma delas que merece, pelo prestígio, abordagem mais ampla O s leitores deste jornal que se dedicaram à leitura, no seu número 54, da reportagem “O Show da Decanter” defrontaram-se com a matéria do colega Álvaro Cesar Galvão “Duas Estórias: do Uruguai e de Portugal”. A parte uruguaia teve por base a entrevista com Sebastian Delorrio, da Viñedos y Bodega Filgueira, de Canelones, onde foram mencionados aspectos dessa vinícola sul-americana, limitados naturalmente por questão de espaço. Ocorreu-me que, com o prestígio de que desfruta, ela faz por merecer uma abordagem mais ampla. Implantada há oitenta e sete anos em Canelones, nas proximidades de Montevidéu, a vinícola trata de alcançar a excelência na elaboração de seus vinhos finos, com assessoria do enólogo Pascal Marty, e também de refletir neles as marcas de sua terra, de sua gente, de sua cultura. DA GALÍCIA PARA O URUGUAI A história familiar tem origem no início de século passado com a chegada ao Uruguai do imigrante galego Manuel Filgueira. Com parcos recursos, mas com pertinácia e disciplina, ele se estabelece com a família no vale do Rio Santa Lucia, próximo à antiga Villa San Juan Bautista, atual Santa Lucia, implantando vinhedo, produzindo uvas e elaborando mais tarde 14 Sebastián Delorrio, da Filgueira vinhos artesanais de mesa para venda a granel. O desenvolvimento de suas atividades permitiu-lhe amealhar recursos para dar a seu filho José Luis a formação acadêmica que ele mesmo não tivera. Formado em cardiologia, José Luis Filgueira casouse com Martha Chiossoni. Coube a ela prosseguir a obra de Dom Manuel, a partir de 1992, enquanto o marido se dedicava às suas atividades de cirurgião cardiovascular. RENOVAÇÃO E VITALIDADE A partir de então, procedeu-se à renovação dos vinhedos e à aclimatação de variedades francesas, tanto a Tannat, tão comum por ali, como Merlot, Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc, Pinot Noir e Syrah, entre as tintas, além das brancas Chardonnay, Sauvignon Blanc e uma mutação cinza desta, conhecida como Sauvignon Gris. Desenvolve-se um trabalho na propriedade cujo modelo é o dos tradicionais Châteaux bordaleses: todo o ciclo produtivo se desenvolve internamente, desde o cuidado e a colheita nas vinhas próprias – 46 hectares – até a completa elaboração, o engarrafamento e a colocação dos vinhos no mercado. Chega a exportar quarenta por cento da produção, e assim a propriedade atinge uma fase de vitalidade inusitada. A partir de diversas variedades, os vinhos uruguaios Filgueiras são classificados em séries para comercialização, desde as mais simples (Pátio Sur) até a aristocrática Estirpe, passando pela Reserva Familiar para brancos, Reserva, Enigma e Premium. DIFERENCIAIS DE QUALIDADE Os vinhedos da família Filgueiras estão localizados na bacia do Rio Santa Lucia, na zona vitivinicola sul do país vizinho, conhecida como Canelones, com seus terrenos levemente ondulados sobre solo argilo-areno-calcários de boa permeabilidade. O solo e o microclima regionais, aliados ao conhecimento e à alta tecnologia utilizada, propiciam a elaboração de vinhos com preços bem em conta – abaixo de R$90 no Brasil – de nível internacional de qualidade. Alguns fatores de diferenciação podem ser mencionados para que o sonho dos sucessores de Dom Manuel tenha se realizado: - o cuidado com o meio ambiente e o trabalho de pessoas apaixonadas pelo vinho; - a colheita manual esmerada feita nas proximidades da cantina, permitindo um intervalo de tempo mínimo antes da chegada à cantina; - a vinificação em separado por área de plantação e por variedade; - a fermentação em temperatura controlada com tecnologia avançada, com as atividades no campo e na cantina registradas e monitoradas por software apropriado; - a utilização de tanques de inox com cintas de refrigeração e de barricas de carvalho francês e americano com três anos de vida útil; CERTIFICAÇÃO INTERNACIONAL A implantação cuidadosa de processos de reengenharia levou a Viñedos y Bodega Filgueira a perseguir, alcançar e agora ostentar o Certificado de Qualidade ISO 9001, versão 2000, para toda a sua cadeia produtiva. Ao longo dessa primeira década do século atual, ela passou a disputar uma posição de liderança com outras vinícolas uruguaias de renome, como a Pisano, a Juanicó, a Castillo Viejo, etc., em igualdade de condições qualitativas nos seus níveis de preços. Euclides Penedo Borges Presidente da ABS-Rio [email protected] Vinho&Cia - No. 56 Velho Mundo É coisa de santo ou para santo? “ Walter Tommasi, na enogastronomia italiana, fala sobre um vinho doce típico e o costume em relação aos biscoitos Cantuccini. Mergulhar ou não? Q uando pensamos em vinhos doces, alguns imediatamente nos vêm à mente: Sauternes, Tokaji, Moscatel, Late Harvest e, certamente, Vin Santo. Estes, originários da Itália, têm na Toscana e na Úmbria a Trebbiano Toscano, a Malvasia e a Canaiolo como as principais uvas utilizadas em seu preparo, enquanto que no Friuli e Venzia Giulia são a Garganega e a Gamberella. No processo de elaboração do Vin Santo tudo se inicia com as uvas sendo colhidas bem maduras, normalmente no fim de outubro e novembro. Do campo vão para armazéns especiais e bem ventilados, onde são deixadas para secar por dois a três meses, quando são prensadas. O mosto é colocado em barris para fermentação, e o processo é completado com a transferência do vinho para barricas de envelhecimento, onde permanece ao gosto do produtor. O Vin Santo tornou-se ainda mais popular com o modismo de acompanhar os deliciosos Cantuccini (biscoitos duros produzidos com amêndoas), mergulhados no vinho, tornando os mais macios e ao mesmo tempo transferindo também o sabor. A pergunta fica: é correto embeber os biscoitinhos? Bem, o costume é antigo, pois os camponeses costumavam levar para seu trabalho nos campos pão e vinho, Vinho & Cia - No. 56 e pelo primeiro muitas vezes ser antigo e duro molhar o pão no vinho facilitava a mastigação. Minha resposta à pergunta será bem mineira, ou seja: depende! A decisão terá de ser tomada analisando a qualidade do vinho que você estiver tomando. de 375ml, apenas em grandes safras. Recentemente em minha visita à Toscana tive a oportunidade de tomar alguns Vin Santo de altíssima qualidade, com os quais seria um crime qualquer contato ou adição. Meu exemplo seria os dois vinhos seguintes elaborados pela Avignonesi. Tratam-se de verdadeiros licores e que têm uma pequena diferença dos Vin Santi comuns: após a fermentação o respectivo mosto é colocado em contato com a “Madre”, sedimento de antigos vinhos produzidos e que ficam depositados na barrica após a retirada do vinho para engarrafamento (dentro de cada barrica sobram 2 litros aos quais são adicionados 43 litros de novo mosto). Estes vinhos, além de uma complexidade olfativa tremenda, têm uma persistência de boca interminável, e são verdadeiras essências. 1) Vin Santo Branco - produzido com uvas Grechetto, Malvasia Toscana e Trebbiano, 13% de álcool, colocado no mercado apenas após um mínimo de 10 anos de guarda em barricas de 50 litros. Produção anual limitada a 1.600 garrafas 2) Vin Santo “Occhio di Pernice Tinto - produzido com a Prugnoto Gentile ( Sangiovese ), 15% de álcool e produção de apenas 1.300 garrafas em anos de grandes safras. Meu caro leitor, minha sugestão é de mergulhar os cantuccinis em vinhos mais ralos, simples e de custo não tão alto, deixando os mais densos, preciosos e custosos para serem tomados simplesmente como vinhos de meditação, em pequenas doses e em taças amplas. Garanto que esta será uma experiência inesquecível, como foi a minha ao tomar o “Occhio di Pernice com descanso de 30 anos lá na Avignonesi. Dominus Vobiscum! Walter Tommasi Consultor e palestrante de vinhos [email protected] 15 Vinho na Academia Os vinhos na A 16 Costa Oeste do Tio Sam Costa Oeste norte-americana guarda muitos encantos para os apreciadores de vinho. Na California as regiões mais conhecidas são o Napa Valley e o Sonoma Valley. Mas há outras. O estado de Washington também tem suas atrações. A uva Zinfandel marca presença. É diferente. Conheça mais com Carlos Arruda. Vinho&Cia - No. 56 Vinho na Academia Sonoma, Califórnia Vamos conhecer mais sobre a Costa Oeste dos Estados Unidos, num passeio pela vinicultura americana. CALIFÓRNIA A Califórnia é o maior produtor de vinhos entre os estados americanos, e sua vinicultura remonta a meados do século 19. Seu clima é tipicamente mediterrâneo, com ventos frescos, muito sol e chuvas bem localizadas. Seu território é uma sucessão de pequenos vales, cada um com particularidades de clima e solo, criando um celeiro de terroirs propícios ao desenvolvimento de vinhos de qualidade. As regiões californianas mais importantes são Napa Valley e Sonoma Valley, seguidas por Mendoncino e Lake Counties, todas situadas em direção norte a partir da cidade de São Francisco. Napa é conhecida mundialmente pela qualidade de seus vinhos, e nela se encontram mais de 500 vinícolas, tornando-a a mais densa região vinícola do mundo! Várias delas realizam trabalhos reconhecidos de enologia, produzindo vinhos ícones de prestígio mundial. Também ganhou notoriedade mundial com o filme Bronco Winery, Modesto, Califórnia Sideways (Entre umas e outras), onde dois amigos viajam pelo vale degustando vinhos, criando uma contenda entre Merlot e Pinot Noir que chegou a afetar o mercado... Lá o cineasta Coppola produz ótimos vinhos. Sonoma é marcada por amplas planícies, colinas suaves e partes da costa do Pacífico, encontrando-se nela mais de 300 vinícolas. O clima é mais fresco que o de Napa, e as brisas marinhas e neblinas são características nas áreas costeiras. VINHOS A Califórnia vem construindo grande prestígio para seus vinhos tintos ricos e encorpados. As principais uvas tintas utilizadas são Cabernet Sauvignon, Merlot e Zinfandel –– mas ultimamente a Syrah e a Cabernet Franc têm crescido em resultados. Surgem também vinhos de Tempranillo e Malbec, esta com ótimos resultados, num perfil diferente de Argentina e França (!). A variedade de uva branca dominante é a Chardonnay, quase um ícone dos vinhos americanos, graças ao seu bom desempenho no clima fresco e ensolarado da Califórnia. Os vinhos brancos típicos são fermentados em barrica, a partir de uvas bem maduras. A Viognier vem crescendo consideravelmente em produção, se comportando bem na região. ZINFANDEL A uva tinta Zinfandel é uma parente próxima da Primitivo italiana (foi considerada a mesma por algum tempo), e se tornou um patrimônio nacional. Produz vinhos tintos razoáveis, mas alguns produtores têm evoluído seu trabalho, elaborando vinhos de alta complexidade e qualidade, que chegam a preços consideráveis. Vale citar a presença da uva White Zinfandel, que produz vinhos leves e apenas simples, mas é tradicional no país. Digna de nota a presença da tradicional vinícola Drouhin da Borgonha e da Beaux Frères, cujo sócio é o famoso crítico Robert Parker. WASHINGTON ESTATE O estado de Washington (não confundir com a capital, situada na costa leste) tem a mesma latitude das regiões francesas de Bordeaux e Borgonha. Sua situação na costa oeste lhe proporciona temperaturas mais baixas e mais horas de insolação que a Califórnia, constituindo um terroir bastante específico e qualificado. OREGON O estado do Oregon está acima da Califórnia na costa oeste, numa latitude onde as temperaturas são um pouco mais baixas. O clima é propício às variedades típicas de clima frio: Pinot Noir, Pinot Gris, Riesling e Chardonnay, sendo as que mais crescem na percepção internacional. Vinho & Cia - No. 56 Carlos Arruda Academia do Vinho [email protected] 17 Vinho: Que Negócio é Esse? Pinto Bandeira e a Indicação de Procedência “ Mais uma região brasileira avança no sentido do desenvolvimento da qualidade de seus produtos. Álvaro Cézar Galvão conferiu P into Bandeira recebeu os primeiros imigrantes italianos em 1876, que logo iniciaram o plantio de uvas, e já em 1880 faziam vinhos artesanalmente para o consumo familiar. A convite da Asprovinho (Associação dos Produtores de Vinho de Pinto Bandeira), estive nesta localidade para presenciar a outorga dos diplomas que agora confere aos seus membros (cinco deles inicialmente): o selo de Indicação de Procedência. A Asprovinho, criada em 29 de junho de 2001, é formada inicialmente por Vinícola Aurora - Centro Tecnológico de Pinto Bandeira, Don Giovanni, Geisse, Pompéia, Terraças e Valmarino. Como dado histórico de Pinto Bandeira, temos a criação em 1965 da Cooperativa Vitivinícola Pompéia; em 1976 da Vinícola Geisse; em 1978 do Centro Tecnológico da Vinícola Aurora (fundada em 1931); em 1984 da Vinícola Don Giovanni; em 1997 da Vinícola Valmarino; e em 2008 da Vinícola Terraças. A cerimônia ocorrida em 7 de outubro contou com grande afluência de autoridades do setor, vitivinicultores de outras regiões, associações de classe de prestígio, e também com a coordenadora geral de outros registros do INPI (Instituto Nacional de Propriedade Industrial), Maria Alice Camargo Calliari. 18 Foi uma festa para o vinho brasileiro, e eu me orgulho de ter estado presente, pois venho há tempos incentivando a nossa indústria e os nossos consumidores, dizendo ser o nosso vinho, se não ainda o melhor vinho da América do Sul, um dos bons produtos, com qualidade e grande melhoria nos últimos anos. Luciano Vian, atual presidente da Asprovinho, enólogo de formação, relata que tudo começou há oito anos com a idéia de alguns membros do setor de explorar e conhecer melhor as potencialidades da região, identificando as particularidades, mapeando e demarcando limites característicos de solos, clima e cepas, elementos essenciais para figurar em uma tipicidade a ser determinada aos vinhos nela elaborados. Vian destaca a importância desse primeiro passo certificador – o selo de Indicação de Procedência – como um avalizador da qualidade e do diferencial que se quer atingir nos vinhos elaborados em Pinto Bandeira. Cinco produtos obtiveram de início a certificação, a saber: Espumante Brut Don Giovanni 08 Endereços Asprovinho www.asprovinho.com.br Vinícola Aurora www.vinicolaaurora.com.br Cooperativa Vitivinícola Pompéia www.vinicolapompeia.com.br Vinhos e Pousada Don Giovanni www.dongiovanni.com.br Vinícola Geisse www.vinicolageisse.com.br Vinícola Terraças [email protected] Vinícola Valmarino www.valmarino.com.br Espumante Brut Cave Geisse 08 Espumante Brut Valmarino 09 Cabernet Franc Valmarino 08 Merlot Valmarino safra 2009 A Indicação de Procedência é uma certificação que aplica conceitos da legislação da propriedade industrial, e Características e controles da IP O regulamento da IP diz que os vinhos terão de ser elaborados exclusivamente com as variedades autorizadas, com sua origem entre 85 a 100% procedente da área geográfica delimitada, com controles de produtividade, e engarrafamento e envelhecimento dentro da delimitação geográfica demarcada. assegura a origem e padrões de qualidade dos vinhos. Foram parceiros da Asprovinho nesta jornada – e posterior conquista – a Embrapa Uva e Vinho, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, a Universidade de Caxias do Sul, a Universidade Federal do Rio Grande do Sul, a Finep, a Fapergs, o Sebrae e o Ibravin. Álvaro Cézar Galvão Colunista [email protected] Vinho&Cia - No. 56 Mercado do Vinho O que fazer quando o câmbio é favorável? “ Os produtores nacionais tentam diminuir a entrada de vinhos importados no país. As ações são eficazes? Ajudam o mercado? Adão Morellatto avalia J á há algum tempo, há uma série de investidas e prerrogativas de produtores nacionais no sentido de barrar, impedir, atrapalhar e diminuir a entrada de vinhos importados no mercado nacional. Essa estratégia foi fundamental na aplicação da lei que instituiu o Selo de Controle Fiscal sobre vinhos, que entrará em vigor em 1º de janeiro de 2011, quando a partir desta data nenhum produto da categoria – seja importado ou produzido localmente – adentra o mercado sem o referido Selo, de modo semelhante ao já aplicado a outras bebidas e destilados, exceto cerveja, que possui uma legislação específica. Os importadores, pelas características e natureza do negócio, têm bastante versatilidade, porque são muito suscetíveis a mudanças contínuas, e se adaptam com agilidade impressionante às novas diretrizes, algo que os produtores nacionais não conseguem com a mesma capacidade, habilidade e compreensão. Estes têm usado todo o seu poderio “político” sob o argumento da questão social, com o intuito de colocar de qualquer modo uma barreira, criando assim uma reserva de mercado, algo que nos obrigaria a consumir os vinhos nacionais até um determinado valor, deixando aos importados apenas os vinhos de valor acima de 45 reais. Vinho & Cia - No. 56 E os importadores têm enfrentado mais e mais problemas desde o ano passado, quando os produtos argentinos tiveram alteração nas liberações das licenças, mais conhecidas como L.I. Antes, o órgão responsável pelo deferimento era o DECEX, vinculado ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, e agora quem efetua a liberação é o SECEX, vinculado ao mesmo Ministério, porém com atuação mais técnica e diretamente focada nos questionamentos, sobretudo da Balança Comercial. Anteriormente, conseguia-se liberação em até quatro dias, e, agora, demora até 25 dias a liberação final, o que prejudica toda a logística das empresas importadoras. Esse problema com a Argentina já estava sendo assimilado pelas empresas, até que há dois meses começaram também a aplicar a mesma medida para os produtos do Chile, que, por acordos bilaterais (“ACE 35”), possui alíquota de impostos diferenciada de outros países, embora o Chile não seja membro do Mercosul, e sim parceiro convidado, como a Bolívia e a Venezuela. Na verdade, todo o intenso movimento dos produtores nacionais para impedir a entrada de vinhos importados está financeiramente ligado à cotação cambial, que tem sido favorável aos importados nos últimos seis meses, viabilizando a negociação, aquisição e investimento dos importadores. Com a moeda estável e forte, e com uma classe social emergente, que ingressa nessa categoria de consumo, não há meios de impedir que os produtos importados cheguem a preços mais acessíveis, convidativos e diversificados, trazendo rentabilidade, liquidez e oportunidades imediatas aos importadores, algo que os produtores nacionais não conseguem atender. Não é inteligente e nem prudente criar dificuldades em qualquer momento. Os importadores estarão adaptados às exigências do setor. E os produtores nacionais? Quais serão as armas e defesas? O consumidor é quem dita as regras de consumo de produtos, não o mercado ou as leis. Em vez de fazer lobby intenso em Brasília, os produtores nacionais deveriam, sim, qualificar os produtos, reduzir os valores, fazer marketing coorporativo e exigir do governo leis específicas de incentivo ao consumo. Adão Morellatto Consultor internacional de vinhos [email protected] 19 Uai! N o final do século XIX, um vapor partiu do Mediterrâneo em direção às terras da Argentina, com Agostino Martini embarcado. Mas foi em Belo Horizonte que se desenvolveu a história dos Martini no Brasil. Uma indústria de massas, uma padaria, o comércio de vinhos... E Andréa Pio conta tudo, uai! A saga de 20 La Famiglia Martini Vinho&Cia - No. 56 Uai! Supere Armando e André Martini É 1896. A jovem República dos Estados Unidos do Brasil gatinha na sua meia dúzia de anos. Um vapor larga do Mediterrâneo rumo à Argentina. Na amurada, Agostino Martini olha o porto e o casario, as imagens da Itália cada vez menores; a sotavento, o limite entre as águas azuis da costa italiana e as vastidões do Atlântico. O navio segue, monótono. Mas Agostino não é homem de paradeiras. A viagem começa a cansá-lo, e o convés é um terreno muito estreito; a ânsia de desembarque fermenta a cada toque da interminável da sineta de bordo. Lá um dia, o navio dá no litoral brasileiro. O imigrante, estourando de impaciência, recolhe sua pouca bagagem, desce a prancha e pisa o solo de Santos. Não quer seguir. Destinos nem sempre são previamente traçados; muitas vezes se arranjam por decisões de momento. A sorte decidirá. Pois antes de embarcar não lhe haviam dito “Dio vi acompangi”? Então, ele caçará o seu rumo, seja na Argentina, no Brasil ou alhures. Começa aí a saga dos Martini, que se desenvolveria em Belo Horizonte. Em Minas, por quê? Uai!,... E porque não? Agostino assunta a cidade, escolhe o lugar e, como bom italiano, funda uma incipiente indústria, Massas Alimentícias Martini. Mais tarde vem a Padaria e Confeitaria Martini, instalada na rua 21 de Abril com a rua Curitiba. Qualquer um que tenha vivido em Belo Horizonte pelos fins de 40 até 60 se lembra com saudade das delícias que ali se expunham. Pães levedados e enfornados conforme as milenares técnicas italianas, doces de invejar os confeiteiros de Viena. Assim prossegue a história até que, segundo a lei natural do mundo, Agostino se afasta para entronizar nos “affari” da “famiglia” o seu filho Arthur. Nessa ocasião os Martini já se orientavam para o comércio dos vinhos. Era fatal. Afinal, há muito tempo seus parentes da Itália tinham o seu nome estampado nos rótulos mundialmente famosos dos vermutes de primeira linha. O negócio floresceu. A família Martini se tornou praticamente exclusiva revendedora dos Barbera Casto, vinho emblemático, quase uma “preferência nacional”, à época. Então o gosto por esse comércio exclusivo se inflamou. Como os seus antiqüíssimos ancestrais que conviveram de perto com fenícios, etruscos, cartagineses e quejandos, o infalível instinto dos mercadores que partiam de Gênova, Livorno, Nápoles, Vinho & Cia - No. 56 Bari ou Ancona, os Martini vislumbraram a Casa do Vinho, que em 1969 se estabeleceria – onde ainda hoje funciona – na av. Bias Fortes, 1543, esquina com a Rua Goitacazes. Nessa época a condução dos negócios da família já estava a cargo da terceira geração: o engenheiro Armando Gallizzi Martini e seu irmão Lincoln, comandados pelo pai Arthur. Uma particularidade, Arthur não se desligara da velha calculadora FACIT, de manivela. A primeira contribuição de Armando para os negócios foi convencer o pai a adotar um equipamento mais moderno. Em 1975 somente, Armando passou a gerir a empresa, e hoje a Casa do Vinho mantém invejável estoque de castas e vinícolas, cujos matizes de “terroir” não se fixam num ponto único do mapa; são verdadeiramente internacionais. Dos vendedores de vinho da Capital, Armando foi pioneiro, ainda em 1980, na faina de viajar exclusivamente para conhecer, provar e importar os melhores vinhos do Novo e do Velho Mundo, notadamente da Itália. No entanto, o velho instinto do mercador de outrora lhe dava com antecedência os sinais de alerta. Quando lhe vinham esses sinais não dava outra: ou perda do padrão de qualidade, ou vinhos prestes a cair em desuso nas mesas brasileiras. Então era hora de buscar outros vinhateiros; como ainda hoje. Daí a constante descoberta e a conseqüente renovação dos rótulos, que hoje se calculam em cerca de 400, originários da França, Espanha,Chile e Argentina, além da Itália, evidentemente. Suas preciosidades exclusivas são encontradas nos melhores restaurantes da cidade e nas duas unidades da Casa do Vinho. Honestidade e responsabilidade é o lema da empresa, cunhado por Agostino. Dedicação integral acima de tudo! - acentua Armando para traduzir o sucesso dos negócios. Esse pensamento ele repassou aos filhos André, administrador de empresas, que implantou a informatização na empresa. A quarta geração Martini já se integrou ao negócio. Armando ainda é o grande chefe, digamos assim, mas não detém a exclusividade das decisões. Na empresa, novidades, idéias e vinhos são bem-vindos, mas são discutidas pelo colegiado familiar antes de serem colocadas em prática; ou na prateleira. “Experimentei um espumante e o levei para a família conhecer, mas prevaleceu a opinião da maioria em não colocá-lo à venda”, lembrou Armando. Aliás, a participação efetiva da família garante o sucesso do empreendimento. A esposa Vera Martini, poliglota, graduada em História, de extremo bom gosto e paladar apuradíssimo, é responsável pelo comércio exterior e comunicação internacional e, é claro, tem a opinião considerável ao final das degustações. Em 2002, ao projetar e acompanhar o trabalho de construção da segunda unidade da Casa do Vinho, no bairro Belvedere, a filha Luiza, arquiteta, se viu tão envolvida com o conceito da empresa que resolveu se tornar a responsável pela loja que se instalaria no local. Foi lá, justamente, que tomou o gosto definitivo pelo comércio de vinhos e descobriu seu dom para tratar com o público. A ela cabe também a missão de transmitir aos clientes o conceito e os valores da paixão que a família nutre pelos vinhos, o diferencial de trabalho ao optar por produtos exclusivos, lacuna até então não preenchida. Hoje a Casa do Vinho é, sem favor, uma referência de tradição, bom gosto e excelência quando se trata de Sua Majestade, o Vinho. Casa do Vinho Av. Bias Fortes, 1543, Barro Preto (31) 3337-7177 Av. Bandeirantes, 504, Mangabeiras (31) 3286-7891 Andréa Pio Jornalista e editora do guia Uai [email protected] 21 Reportando Novo sabor A recém-inaugurada Vino & Sapore abriu neste mês na Granja Viana como uma opção na região para quem gosta de bons vinhos e produtos gourmet e não precisa se deslocar a São Paulo para fazer suas compras. João Filipe Clemente, proprietário da loja e editor de um importante blog de vinhos, resolveu mudar de vida, depois de trabalhar anos com comércio exterior, e seguir sua paixão atuando no mercado de vinhos. Os produtos gourmet vendidos nas prateleiras da Vino & Sapore foram escolhidos após extensiva pesquisa, entre eles, 22 na Granja Viana ostras, polvos e mexilhões defumados, trazidos de Santa Catarina; o escocês caramel shortcake, feito em Peruíbe; queijos, pinholes e pistaches importados; os biscoitos gourmet da família Krause, do Rio; chocolates; e muito mais. Embora o foco da casa seja vinhos a preços acessíveis (entre R$30 e R$100), brasileiros e importados do Chile e da Argentina, a Vino & Sapore oferece uma vasta seleção de vinhos, e conta com célebres rótulos europeus, como o Il Brusciato toscano ou o espanhol Viña Sastre Roble. Vale a pena freqüentar o Happy Wine Hour, a partir das 17h, quando são servidos vinhos e um pequeno cardápio de bruschettas e finger foods, como bolinhos de bacalhau e de escondidinho. Vino & Sapore Rua José Felix de Oliveira, 866, Centro Granja Viana, Grande São Paulo Via Estação do Sino, entrada pelo km 24 da Rodovia Raposo Tavares Denise Cavalcante Jornalista [email protected] Vinho&Cia - No. 56 Vinho é Arte Vinhos tropicais no Vale do São Francisco “ Pessoas do mundo inteiro vêm ao Brasil estudar o fenômeno das videiras no Vale do São Francisco, cujo clima permite até 5 ciclos em 2 anos. Maria Amélia conta P lanícies do sertão semi-árido, paralelo oito. Um calor que parece que faz derreter qualquer ser vivo. Temperaturas podem bater os 40 graus, aliadas a um sol escaldante, onde parece que só a pele grossa de calangos e camaleões vai aguentar. A sorte divina foi que, junto a esse cenário, a natureza colocou um rio de águas cristalinas, abundantes, desenhando serpentes e praias pela caatinga: o São Francisco. Onde ele passa, deixa os rastros de vida. De marrom, o cenário se transforma em verde, em questão de horas. Com a ação do homem, sabendo podar e dosar a água e os insumos necessários para otimizar os ciclos das plantas, ocorre a transformação de um dos mais ardentes desertos em um abençoado oásis. A vida brota (e rápido), trazendo suculentas frutas, como mangas, melancias, melões e, claro, lindas uvas de todos os estilos. O Vale do Rio São Francisco faz refletir sobre essa junção do homem com a natureza e o quanto o elemento água significa vida. Ao aterrissar em Petrolina já é possível ver os contrastes: o sistema de irrigação divide as áreas, muito bem medidas, alinhadas, separando o verde das plantações do marrom da caatinga. Derruba qualquer conceito de terroir, de safras boas e ruins, do esperar que o tempo atue para depois pensar no vinho. A cidade de Petrolina é Vinho & Cia - No. 56 muito agradável, com orla do rio cheia de bares, boa vida noturna, em que o vinho começa a ganhar espaço entre os nativos e turistas. Pessoas do mundo inteiro vêm estudar o fenômeno: todas as condições climáticas de lá permitem que uma videira produza até cinco ciclos em um período de dois anos. Conforme a programação e organização de uma fazenda, há colheitas todos os dias. Em visita pela região um francês definiu “França em um ano, Vale em um dia”. Isto, além de padronizar a qualidade dos vinhos, também diminui a ociosidade da estrutura da vinícola e gera muitos empregos. O resultado é vinhos jovens, com boa graduação alcoólica, muitos aromas frutados e perfeitos para consumo em um país tropical como o nosso, com a vantagem de economicamente serem mais baratos e muito competitivos. As variedades que melhor se adaptaram a esse clima foram a branca Chenin Blanc e a tinta Syrah. Inclusive, nesta última avaliação nacional de vinhos, duas amostras classificadas foram do Vale do São Francisco, da uva Chenin. Lá também se produz muito espumante moscatel. Grandes grupos internacionais dividem espaço com empresas familiares, sendo as principais Ouro Verde (Miolo) e Rio Sol (Dão Sul - Portugal), e mais Garziera, Botticelli, Chateau Ducos e a pequenina Bianchetti. Esta última produz vinhos orgânicos, sendo a personagem do Brasil no documentário “Mondovino”. No Vale do São Francisco há uma grande comunidade gaúcha, sendo que pessoas como Jorge Garziera, natural de Garibaldi, são responsáveis por todo o desenvolvimento. Além da fascinante experiência de lá se ver os vinhedos juntos e em vários ciclos, também é possível observar as produções de uva de mesa. Com padronização internacional, é a imagem do paraíso. Videiras carregadas de cachos enormes, perfeitos, de mais de duzentas variedades que hoje vêm sendo testadas: com ou sem sementes, com sabores específicos, rosadas, tintas, brancas, muito suculentas, carnudas. E o melhor é ver o sorriso das pessoas trabalhando em meio aos vinhedos tão lindos. Questionados, dizem que a uva os prendeu a terra, fez com que eles ficassem lá com suas famílias. Além do vinho, o rio possibilita uma gastronomia única, baseada em peixes. É também tradicional a carne de bode, sendo consumida a todo momento, por todas as classes sociais, nos mais diversos lugares: restaurantes, bares da margem do rio, etc. O “Bodódromo” é o point do encontro e da festa. Passear de barco pelo rio, com eclusagem na Barragem em Sobradinho, e chegar na fazenda Ouro Verde, da Miolo, será uma das grandes novidades do enoturismo da região. É a região que desperta o amor e o ódio dos apreciadores. Confesso que é difícil compreender a total quebra de paradigmas e o padrão de qualidade em vinhos “standart” que é possível atingir. Um novo sotaque ao falar de vinhos, cheio de bom humor, uma nova forma de entender a produção dessa bebida, que derruba vários conceitos e transforma uma região de caatinga em fonte de riqueza e fixação do sertanejo na terra; é a diversidade do vinho do Brasil, que supera fronteiras e desenha sua personalidade nos quatro cantos do país. Maria Amélia Duarte Flores Enóloga [email protected] 23 De Santa Catarina “ A cozinha de Santa Catarina traz iguarias diferenciadas para a mesa, como uma ova apreciada no Mediterrâneo, sobre a qual João Lombardo fala Bottarga, tainha e vinhos H á algo de novo no mar de Santa Catarina. Depois de fazer sucesso com seus camarões e ostras, agora é a vez da bottarga. Iguaria típica do Mediterrâneo, a bottarga é a ova da tainha salgada e seca naturalmente ao sol. Ela pode ser utilizada em várias receitas, como saladas, massas, risotos e pescados. Pratos que ficam muito mais agradáveis na companhia de bons vinhos. Produzidas pelos fenícios, já no século IX A.C., as ovas secas de tainha foram e continuam sendo consumidas por asiáticos, italianos, gregos e espanhóis, entre outros povos. Uma maneira de apreciá-las é acompanhá-las simplesmente com pão e azeite de oliva. Com intenso sabor de mar, as ovas são conhecidas como Caviar do Mediterrâneo. Em Santa Catarina, a bottarga começou a ser produzida comercialmente pelas mãos do grego Constantin Katopodis, na praia da Gamboa, em Garopaba, ao sul de Florianópolis. Uma tradição que trouxe de sua terra natal, a Grécia, mais especificamente da ilha de Lefkas. No Brasil, o grego decidiu dar continuidade 24 à tradição familiar, junto com seu filho, Christian Katopodis. Boas receitas com bottarga estão no site www.bottargaclub. com.br. Hoje há outros produtores de bottarga em Santa Catarina. Entre elas, a Bottarga Brasil, que depois de exportar por 20 anos ovas de tainha in natura para Itália, exatamente para os italianos fazerem a bottarga, decidiu produzir a Bottarga Gold. O produto chega ao mercado no formato de um bastão âmbar e muito aromático, granulada e ralada. O site, para conhecer receitas, é www.bottargagold.com. Um espumante fresco, com boa intensidade, é um bom companheiro para canapés com bottarga. Uma cava espanhola, um espumante italiano elaborado pelo método clássico, um bom crémant e, é claro, um champagne não safrado são boas sugestões. O canapé clássico é feito com manteiga gelada, cuja camada láctea fica entre o pão e as ovas laminadas da tainha. Também pode-se ralar a ova e misturá-la generosamente à manteiga em tempera- tura ambiente, com algumas poucas gotas de limão siciliano e salsinha. A boa intensidade gustativa do espumante fará frente à intensidade gustativa das ovas. O frescor do espumante cuidará do contraponto à discreta tendência amarga da bottarga e ficará compatível com o sabor marinho das ovas, o frescor da salsa e do limão. O pérlage atacará a gordura da manteiga e deixará o paladar limpo. Brancos intensos de Sauvignon Blanc são boas alternativas aos espumantes. no vinho farão a compatibilização gustativa com o prato e limparão o palato da untuosidade do azeite. Um Chardonnay fresco e macio, com passagem por barricas, promoverá um bom casamento técnico. Um bom teor alcoólico limpará a untuosidade do palato e acrescentará notas amanteigadas e de especiarias ao gosto do prato. Possibilidades agradáveis para acompanhar um ingrediente antigo e que agora começa a conquistar os brasileiros a partir do litoral catarinense... Um preparo clássico mediterrâneo é o spaghetti alla bottarga. Na receita tradicional, a bottarga é ralada sobre abundante azeite, com um dente de alho apenas esmagado em uma frigideira. A massa cozida é salteada e pode receber um leve toque de vinho branco. Salsa picada, mais um pouco da ova ralada e um fio de azeite novo darão a moldura final ao prato. Para acompanhar, um bom vinho branco do sul da Itália, de uvas Grillo ou Inzolia, fará uma harmonização regional. Boa aromaticidade e bom teor alcoólico João Lombardo Jornalista e sommelier [email protected] Vinho&Cia - No. 56 Viajando com Vinho Em terra capixaba, um encontro internacional O Hotel Senac Ilha do Boi foi a sede do 2o Encontro Internacional do Vinho em Vitória, no Espírito Santo. Vários nomes de peso do mundo do vinho estiveram presentes para dar palestras e conduzir degustações ao público em geral. Adriana Bonilha acompanhou tudo de perto, e nos traz mais essa viagem com vinho. Vinho & Cia - No. 56 25 Viajando com Vinho Chegar em Vitória, passear pela orla e se dirigir à ilha o Boi... Foi o percurso para o 2º Encontro Internacional do Vinho, que aconteceu no início de novembro no Hotel Ilha do Boi, na capital Capixaba. Toda essa maratona, como disse, é muito instigante e leva o degustador a uma viagem pelos sabores e aromas. Um programa imperdível para os apreciadores de Baco, e que ainda podem se divertir pelas areias das praias capixabas, e quem sabe até dando uma esticadinha para as montanhas de Domingos Martins, até escalar a Pedra Azul. Organizado pelo Grupo Gazeta e sua subsidiária de marketing promocional, a Premium, o Encontro contou com uma maratona de três dias de eventos, começando com uma festa de abertura, com direito a discursos e feirinha, com vinhos e produtos locais. Um ótimo momento para o networking. O programa contou com três degustações diárias e levou os participantes a viagens por vários mundos vinícolas, do Chile à Austrália, com bela pausa pelas regiões francesas da Borgonha e de Champagne, aos vizinhos Portugal e Espanha, e a uma brincadeira, levada a sério, de harmonização com a culinária local. Os palestrantes foram escolhidos entre renomados nomes internacionais, como o Não se esqueça! Nos vemos no 3º Encontro. chileno Patrício Tapias, os franceses Olivier Pion e Jean Baptiste Geoffroy e o sueco Andréas Larsson; além dos nossos conterrâneos Arthur Azevedo e Mário Telles Jr. Os painéis foram surpreendentes e instigantes. Acompanhe a seguir, pelas fotos, um pouco do que os participantes puderam vivenciar. Adriana Bonilha Colunista [email protected] Confira o clima do encontro foto a foto Patrício Tapias, chileno, jornalista e crítico de vinhos, apresentou 8 vinhos, três chilenos, dois australianos, um português e dois espanhóis, sendo um jerez. O único branco foi o chileno Casa Marin Cipreses. Dos demais chilenos, o Erasmo da Viña La Reserva Caliboro impressionou esta degustadora pela boa presença e por ser um vinho rústico, porém sem rispidez; e o Antiyal de Álvaro Espinoza, do Valle del Maipo, também chamou a atenção. Apresentou também os autralianos Mitolo Shiraz Mclaren Savitar e o maravilhoso Claredon Hills Astralis, 100% Shiraz. O filho único português foi o Quinta das Bágeiras Garrafeira. E os espanhóis foram Tondonia Gran Reserva, de Lopes de Heredia, e o jerez Bodegas Tradicion Oloroso, envelhecido 30 anos. 26 Uma proposta de harmonização com a culinária capixaba, porém com o toque pessoal da equipe do restaurante do Ilha do Boi: ostra gratinada, casquinha de siri, moquecas de camarão capixaba, torta capixada e bobó de camarão. Não se assuste! Eram porções de degustação, para que pudéssemos apreciar com os vinhos apresentados por Mário Telles Jr. O que bebemos? Brancos. O grande chileno Laberinto, um Sauvignon Blanc com gostinho final de maracujá; o neozelandês Dog Point Selection; o português Sketch de Raul Perez, da região de Alvarinho, com produção de apenas 900 garrafas; e o borgonha Meursault Clos de Mazeray, Jacques Prieur. E para estimular o paladar e as brincadeiras de compatibilização, um Champagne Rosé Cattier Chigny Les Roses, que confirmou que taninos, por mais leves que sejam, metalizam com frutos do mar. Vinho&Cia - No. 56 Viajando com Vinho Arthur Azevedo terminou o dia apresentando ao grupo 4 portugueses e 4 espanhóis. Entre eles, El Pecado de Raul Perez, da região catalã de Ribeira Sacra. O vinho suscitou até trocadilhos de questionamento se o que se apreciava era o Pecado substantivo ou adjetivo, pois o vinho foi esplendoroso. Dos portugueses me agradou o alentejano Herdade dos Grous, com boa acidez e adstringência, com permanência capaz de aguçar os sentidos. Vinhos da Borgonha foram levados pelas mãos de Olivier Pion. Foram 4 brancos: dois Montrachet (Puligny Domaine Fichet Refets e Bienvenues-Bâtard de Vincent Gerardin) e dois Tesson (Meursault Pierre Morey e Jean Philippe Fichet), seguidos de dois Pinot Noir (La Pousse d´Or Corton Grand Cru, Clos Du Roi e Corton-Bressandes Domaine Prieur Grand Cru). Os meus preferidos do painel? O Pierre Morey, vinho amanteigado, elegante e de muita presença. E o Vincent Gerardin, com toques de baunilha e tostado. Foram trazidos vinhos de pequenos produtores por meio das mãos de Andréas Larsson, que apresentou rótulos pelos quais se diz apaixonado. Abriu o paladar dos degustadores com uma cava, Gramona Imperial Brut Gran Reserva, e um francês do Vale do Loire, Clos de La Couleé de Serrant. Seguiu com 4 bordeaux: Le Clos du Beau-Père, de Pomerol; três Saint-Emilion Château Fleur Cardinale e Château de Valandraud, este considerado um dos melhores vinhos de Bordeaux (gostei!) e o Virginie de Valandraud. Seguiu com o espanhol Zerberos Arena Pizarra, da região de Castilla y León. Andréas terminou com um Sauternes, L´Extravagant de Doisy Daëne, que parecia mel. Muito bom! E já que falamos de pequenos produtores, o Encontro foi finalizado com espumantes da pequena Geoffroy. A apresentação pelo próprio Jean Baptiste Geoffroy possibilitou conhecer a estória de seu vinhedo e algumas de suas produções, como os bruts Expression, Empreinté e Voluptè, o extra brut Millésime, o Roseé de Saignée, e finalizando com o dèmi-sec, Elixir. Vinho & Cia - No. 56 27 Charutos & Destilados Para fumar sem preocupações P ara quem vai a Buenos Aires e gosta de charutos, o Cigar Bar do Hotel Alvear é atualmente um dos melhores points da capital portenha. Foi com esse objetivo que o Alvear Palace Hotel criou o Cigar Bar, um novo espaço em seu histórico e icônico prédio na Recoleta. Com uma seleção exclusiva de habanos, saborosos destilados e os melhores chocolates do mundo, o fumoir se apoia na harmonia desses três pilares para oferecer experiências únicas a hóspedes e visitantes. O Cigar Bar é o primeiro na Argentina a reunir esta excelente combinação de sabores, além de um ambiente que é a cara do mais conhecido hotel de luxo de Buenos Aires. O espaço tem estilo Art Deco e mantém parte da estrutura original do lugar, antes uma extensão do antiquário vizinho 28 ao hotel. As amplas janelas trabalhadas em bronze foram mantidas, e o que é novo também se baseou em materiais puros e sólidos. O resultado é quase uma viagem no tempo, de volta aos anos dourados da década de 1930. Com entrada pelo lobby do hotel ou por uma porta junto à cortejada esquina da Avenida Alvear com a rua Ayacucho, o Cigar Bar é para poucos. Poucos mesmo, pois a capacidade do local é pequena. Apenas 17 pessoas por vez podem apreciar a decoração em mármores negro Marquina, branco Carrara e amarelo Valência. Esta combinação pode ser vista no chão, onde desenhos de diamantes dão ritmo e acompanham o trabalho do teto preservado do projeto original. Um bom diálogo com as paredes revestidas em madeira de nogueira brilhosa, os detalhes dourados, os grandes espelhos bisoté, as poltronas de couro marfim e tecidos de animais importados especialmente da Itália. Menos de um ano após sua inauguração, o Cigar Bar já é um ponto de referência para os amantes de charutos cubanos. Lá eles desfrutam de uma seleção variada de habanos, de marcas como Cohiba, Montecristo, Partagas, Romeo y Julieta, H. Upmann, entre outros. A carta é especialmente preparada com base no tempo de envelhecimento e no tipo de calibre, possibilitando encontrar um charuto diferente para cada momento e circunstância gastronômica. Para garantir uma boa conservação dos produtos, o bar conta com um belo umidificador de cedro. Destaque também para a seleção exclusiva de destilados como Armagnacs, uísques e rum, assim como conhaques e coquetéis à base de Hennessy. Quem procura o Cigar Bar encontra os melhores rótulos, sempre servidos em copos de cristal sofisticado, na forma mais apropriada para cada bebida. Para completar a harmonização, a casa dispõe dos requintados chocolates da marca suíça Lindt, além de criações artesanais do prestigiado Chef Patissier do Alvear. Cesar Adames Consultor gastronômico [email protected] Vinho&Cia - No. 56 Vinho está na moda e a gente faz o estilo Vinho&Cia Vinho & Cia - No. 56 29 Comportamento “ Há muitos e muitos anos, Didú Russo conheceu Dona Lolinha, sua sogra. Ela gostava bastante de cantar e também de um “gole”. A família evitava dar bebida a ela, mas Didú... Dona Lolinha eo D ona Lolinha era o carinhoso apelido de Dona Eponina Von Probst Deffune, avó da Nazira, minha mulher. Conheci Dona Lolinha em 1973, quando comecei a sair com a Nazira. Nesta ocasião ela (Dona Lolinha) já aparentava uns oitenta anos. Ninguém sabia ao certo sua idade. Ela era uma simpatia de pessoa, muito gentil, fina e muito bem humorada. Era chegada num “gole”, e a família evitava a todo o custo, pois a velhinha já estivera internada por alcoolismo, pesando 45 kilos… Era permitido a ela apenas uma cervejinha às refeições. “É diurético, sabe, meu filho”, dizia a Lolinha. Toda sua refeição tinha também uma banana e uma aspirina. Além disso, o que sempre acompanhou Dona Lolinha foi o cigarro. Uma vez ela pegou epatite, e o médico cortou a cerveja. Ela não teve dúvidas, continuou com a cerveja escondida, disse que o médico estava enganado e que logo estaria boa. Todos acharam que era o início do fim… Que nada, em quinze dias a velhinha estava curada. Fez questão de repetir os exames e não havia mais nada. Ela adorava viver, era isso. Dona Lolinha era do Paraná, mas ficou lendária em Itapeva, interior de São Paulo, onde foi morar com seu marido Chico Deffune, libanês que veio para o Brasil e montou lá uma casa sensacional, pois a volta toda da casa era com lojas, 30 Whisky aliás ainda é. Originalmente era a loja dele e da Dona Lolinha, mas logo que ele faleceu a Dona Lolinha transformou em diversas pequenas lojas, que rendem o aluguel da casa. Usando e abusando de sua idade, Dona Lolinha – a quem sempre eu forneci uns golinhos de whisky escondidos por debaixo da mesa sem que ninguém da família notasse – logo se tornou minha amiga. Quando ela ficava mais alegrinha, se levantava do nada em meio ao jantar e dizia: “Eu estou feliz e vou cantar!”. E mandava: “…Sempre tive paixão pela dança… num sarau onde encontro um bom par… eu não paro e não sento e não canso, …a valsar a valsar a valsar”... E a música ia inteira – infelizmente não me recordo da letra completa. Até o momento de sua morte dizia: “E São Pedro que a porta nos abre, me dirá: Que fizeste na Terra? Eu direi que valsei que valsei que valsei… E São Pedro admirado com tanto valsar… Sairá abraçado comigo, a valsar… a valsar… a valsar”. Era o máximo. Certa vez fomos passar o carnaval em Itapeva, no clube. Meu sogro – que era exuberante e adorava pagar a conta para todos – comprou mesa para as quatro noites. A velhinha, acreditem, dançou todas as noites, até terminarem os bailes! O humor dela era tamanho que numa dessas noites eu entrei de braço dado com ela no baile e logo veio um bando de moleques com as mãos cheias de confetes e jogaram no rosto da Dona Lolinha. Quando olhei para ela, os óculos que puxavam sua pela fraca bem para baixo estavam repletos de confetes, que quase lhe tiravam a visão. Fiquei furioso, mas ela logo me apertou o braço e disse: “Viu, Eduardo, eles já me reconheceram e já estão me homenageando”. Não é demais? Dona Lolinha morreu quando quis. Disse um dia: “Estou cansada de viver, sabe, não estou mais feliz, estou cansada”. Dias depois faleceu, deixando muita saudade. Deve estar lá com São Pedro, a valsar, a valsar, a valsar… Didú Russo Confraria dos Sommeliers [email protected] Vinho&Cia - No. 56 Não é de hoje que um brinde faz você vender mais. A A b r a v i n h o t e m re v i s t a s e s p e c i a l i z a d a s n o m u n d o d o v i n h o . S ã o m i l h a re s d e a f i c c i o n a d o s p e l a a r t e , p e l a h i s t ó r i a e p e l a m a g i a c o n t i d a e m c a d a g a r r a f a . U m p ú b l i c o a l t a m e n t e s e l e c i o n a d o , c o m e x c e l e n t e p o d e r a q u i s i t i v o e q u e e n t re u m a s a f r a e o u t r a e s t á a t e n t o à s u a m e n s a g e m . A n u n c i e n u m a d a s re v i s t a s d a A b r a v i n h o e g a n h e m u i t o s a p re c i a d o re s p a r a o s e u p ro d u t o o u s e r v i ç o . Vinho & Cia - No. 56 31 A s m u d a s d a s a v i d e i r a s i n s p i ra ç ã o a Mas o terroir que v i e r a m d o g a r ra fa gerou d a este F r a n ç a , C a n a d á , d a I tá l i a . icewine Brasil é 100% brasileiro. Em São Joaquim, SC, um cantinho do Brasil onde a neve não é assim tão rara, nasceu o primeiro vinho do gelo brasileiro. A 1300 m.s.n.m., no rico terroir da altitude catarinense, a Vinícola Pericó ousou produzir um vinho raro, feito com uvas colhidas a -7,5°C e processadas ainda congeladas. Icewine Pericó, entre os poucos do mundo, o 1º e único brasileiro. XXXX_Peric—_Icewine_Revista_XXXX_210x280mm.indd 1 9/10/10 9:22 AM