Vinho&Cia
Ano 6 - Número 56 - R$ 8,00
ConVisão
www.jornalvinhoecia.com.br
Vinho do gelo no Brasil
Wandér Weege, da Pericó, teve peito para fazer no Brasil o primeiro
Icewine, apenas produzido em países em que neva, como Alemanha e Canadá
E mais: a imperdível feira de compra de vinhos Abravinis
Aperitivo
Abravinho,
Vinho&Cia
Ano 6 - Número 56
www.jornalvinhoecia.com.br
esforço para o vinho no país
Novembro de 2010 é um mês
importante para as ações institucionais de incentivo no país ao
consumo de vinho com moderação e com produtos de qualidade.
Neste mês acontece a Abravinis,
feira de venda direta de vinhos
ao consumidor, promovida pela
Abravinho (Associação Brasileira da Imprensa de Vinho).
Tenho o prazer de ser um dos
fundadores e presidente da Abravinho, que reúne jornais e revistas de grande representatividade
no mercado de informações especializadas sobre vinho: Adega,
Alta Gastronomia, Bon Vivant,
Prazeres da Mesa, Vinho&Cia e
Wine Style. Juntos esses veícu-
los de comunicação respondem
por tiragem média mensal de
cerca de 130 mil exemplares.
Todos se esforçam para ampliar
o conhecimento e o consumo de
vinho no Brasil. Representam
muito para esse mercado.
Nessa feira diferenciada, no
Clube Pinheiros em São Paulo,
ao lado do Shopping Iguatemi,
num dos espaços mais nobres do
país, é possível degustar vinhos
no local de exposição, imediatamente fazer pedidos de compra
e retirar em local apropriado
anexo. Tudo para se apreciar
vinhos sem esforço.
É um momento importante,
porque foi fruto de um grande
esforço dos jornais e revistas
a favor do mercado, ajudando
consumidores e fornecedores,
e do qual temos orgulho de
participar.
Assim como temos orgulho
de ver nascer o primeiro e grande
vinho do gelo no Brasil, fruto de
outro esforço, do arrojado empresário Wandér Weege, da vinícola Pericó de Santa Catarina.
Esse produto vai dar o que falar,
e pode ser conhecido nas páginas
seguintes de Vinho&Cia.
Também na seqüência podese acompanhar o que aconteceu
no 2o. Encontro Internacional do
Vinho no Espírito Santo, além
Editor
de muitas outras informações
produzidas com muito esforço
pela maior equipe especializada
em vinhos no país.
É bom ler. Os textos são
leves. Não precisa esforço. Timtim!
Publicação
ConVisão
Al. Araguaia, 933, 8o. and.
Alphaville
06455-000, Barueri, SP
Colaboradores
Adão Morellatto / Adriana Bonilha
Álvaro C. Galvão / Andréa Pio
Beto Acherboim / Carlos Arruda
Cesar Adames / Custódio
Denise Cavalcante / Didú Russo
Norio Ito / Euclides Penedo Borges
Fernando Quartim / Jairo Monson
João Lombardo / Maria Amélia
Sérgio Inglez / Walter Tommasi
Regis Gehlen Oliveira, editor
Assinaturas e
Propaganda
(11) 4192-2120
[email protected]
Nas páginas desta edição...
10
Regis Gehlen Oliveira
16
20
25
Vinho & Cia é uma publicação da
ConVisão relativa ao segmento de
vinhos e suas companhias naturais,
como gastronomia, restaurantes,
prazer, conhecimento, viagens e
outras. Circula principalmente em São
Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais
e Rio Grande do Sul, nos principais
restaurantes e lojas especializadas.
Pode ser adquirido por assinaturas
ou em bancas selecionadas.
Os artigos e comentários assinados não refletem
necessariamente a opinião da editoria.
4- Acontece
No mundo do vinho
6- Vinho Tinta
(Custódio)
8- Vinho&Saúde
(Jairo Monson)
10- No Brasil, o vinho do gelo
(Mercado)
14- América do Sul
(Euclides Penedo Borges)
15- Velho Mundo
(Walter Tommasi)
16- Vinho na Academia
(Carlos Arruda)
18- Que negócio é esse?
(Álvaro Cézar Galvão)
19- Mercado do Vinho
(Adão Morellatto)
20- Uai!
(Andréa Pio)
22- Reportando
(Denise Cavalcante)
23- Vinho é arte
(Maria Amélia)
24- De Santa Catarina
(João Lombardo)
25- Viajando com Vinho
(Adriana Bonilha)
28- Charutos & Destilados
(Cesar Adames)
30- Comportamento
(Didú Russo)
A menção de qualquer nome neste veículo não
significa relação trabalhista ou vínculo contratual
remunerado.
Associado à
Vinho&Cia - No. 56
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MELHORES PREÇOS
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DE NOVEMBRO DAS 14h às 22h - clube pinheiros - São Paulo
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Vinho
& Cia - No. 56
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6/16/10 11:09:08 AM
Acontece
No mundo do vinho
Bons vinhos
pelos melhores preços, só na
De 23 a 25 de novembro, de
terça a quinta-feira, há um programa imperdível para o apreciador de vinhos: a feira Abravinis.
Durante esses três dias, das 14h
às 22h, é possível degustar vinhos no local de exposição, fazer
diretamente pedidos de compra
dos rótulos que mais agradam
e retirar as garrafas no estoque,
tudo de forma bastante prática.
“Em oferta estão rótulos das
melhores importadoras e vinícolas do país”, afirma o editor
do Vinho&Cia, Regis Gehlen
Oliveira, também presidente da
Abravinho (Associação Brasileira da Imprensa de Vinho),
promotora do evento, que reúne
os principais jornais e revistas do
mercado de vinho.
Casa Valduga, Concha y
Toro, Domno, Mistral, Península, Salton e World Wine são
alguns dos diversos fornecedores
que estão oferecendo os vinhos.
“Há rótulos para todos os gostos,
dos mais variados países”, diz
Georges Schnyder, da revista
Prazeres da Mesa.
Abravinis: Clube Pinheiros
De 23 a 25 de novembro de 2010 (3a. a 5a. feira), das 14h às 22h
R. Tucumã, 36, Jardim Paulistano, São Paulo
Próximo ao Shopping Iguatemi
Ingressos a 60 reais (com direito a vale-compra de 30 reais)
O espaço no salão de festas
do Clube Pinheiros é dos melhores, “confortável, elegante e
bem localizado”, conta Domingos Meirelles, da Exponor, que
organiza a Abravinis e também
é responsável pela maior feira
de vinhos da América Latina, a
Expovinis.
Abravinis
Paulo Milreu, da revista Alta
Gastronomia, fala que é muito
fácil comprar e inclusive parar
o carro: “o Clube Pinheiros colocou manobristas para ajudar”.
Custa apenas 15 reais o estacionamento.
“O ingresso não é caro”,
diz Christian Burgos, da revista
Adega, apenas 60 reais, sendo
que dá direito a um vale-compra
de 30 reais para usar na hora e
levar para casa as garrafas que
mais agradar.
Por tudo isso, é uma ótima
oportunidade nesse momento
para antecipar aquelas compras
de fim de ano e de Natal, seja
para rechear a adega de casa,
para dar de presente ou para os
eventos corporativos de confraternização.
Vinho & Pizza é na Prestíssimo!
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Al. Joaquim Eugênio de Lima, 1135, (11) 3885-4356, Jardins, São Paulo
Vinho&Cia - No. 56
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não perca
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para dar de presente ou para os eventos de confraternização
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Vinho
& Cia - No. 56
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6/16/10 11:09:08 AM
Vinho Tinta
Leão enólogo...
Vinho&Cia - No. 56
Vinho & Cia - No. 56
Vinho & Saúde
É verdade que...
?
Vinho ajuda a
enxergar melhor
S
im. E não só no sentido figurado.
Um provérbio iídiche diz que “há mais sabedoria em uma garrafa de vinho do que se pode
imaginar”. É verdade que as pessoas que bebem vinho
regularmente são mais sensíveis. Apreciam melhor uma
obra de arte, uma poesia, uma música, uma conversa,
uma ideia e têm uma visão própria da vida. Mas o vinho
também ajuda a enxergar melhor no sentido literal.
O olho humano é uma extraordinária máquina biológica, que geralmente não chega a 2,5cm na sua maior
medida. Ele é constituído por um jogo de lentes dinâmicas
e células com grande capacidade de receber estímulos
luminosos e transmiti-los para o cérebro.
As principais causas de cegueira no adulto são catarata
e degeneração macular. Elas comprometem 30% das
pessoas com mais de 70 anos. O cristalino é uma lente
biconvexa que fica no interior do olho. Quando sofre a
ação dos radicais livres ele fica opaco, borrando a visão.
É o que denominamos de catarata.
Os polifenóis, que existem em abundância nos vinhos, são potentes antioxidantes. Eles neutralizam de
maneira muito efetiva a ação dos radicais livres. Por isso
é compressível que as pessoas que envelhecem bebendo
vinho regular e moderadamente tenham incidência menor
desta moléstia.
A visão é formada dentro do olho, num pedaço da
retina chamado mácula. Quando os vasos sanguíneos
da mácula se obstruem, há isquemia e degeneração de
uma parte da mácula – é a degeneração macular. Quando
isso acontece, a pessoa fica com uma mancha cega na
imagem formada por aquele olho. Os componentes do
vinho melhoram bastante a circulação, como mostram
inúmeros estudos. Por isso não é nenhuma surpresa o
que algumas pesquisas têm encontrado: uma incidência
menor deste tipo de cegueira nas pessoas que têm o hábito
regular de beber vinho moderadamente com as refeições.
Pesquisadores do departamento de oftalmologia da
Universidade de Washington, em St. Luis, trabalhando
junto com o farmacologista R.W. Johnson, da escola
médica de Nova Jersey, descobriram que o resveratrol,
quando administrado em altas doses, bloqueia a angiogênese (formação de novos vasos sanguíneos) na retina
de ratos. Esta justamente é outra causa de cegueira por
degeneração macular.
O Dr. Obisesan – oftalmologista norte-americano
– estudou as pessoas que tinham o hábito regular de beber
vinho. Encontrou uma incidência de cegueira nos adultos
20% menor. Portanto, é certo afirmar que o vinho ajuda
a enxergar melhor. Pelo menos mais claro.
Jairo Monson
Médico e escritor
[email protected]
Vinho&Cia - No. 56
Vinho & Cia - No. 56
Mercado
No Brasil,
o
Vinho do Gelo
A
obra de Arte Naïf de Tereza Martorano retrata a vindima na neve na vinícola Pericó, em São Joaquim,
Santa Catarina. Desses vinhedos do nosso solo tropical saiu o inusitado vinho do gelo (Eiswein, Icewine),
produzido até então somente em países em que neva. É fruto do arrojo de Wandér Weege, comandante da
Pericó. E não é um produto qualquer, recebeu elevados pontos da crítica especializada. Acompanhe aqui a estória
da sua produção, conheça como é elaborado e saiba mais sobre o homem do vinho do gelo no Brasil.
10
Vinho&Cia - No. 56
Mercado
Por Regis Gehlen Oliveira
A hora 1
É 7 de setembro de 2010, 10h, feriado no Brasil, mas
não na Itália. Os degustadores da FISAR (Federazione
ltaliana Sommelier Albergatori Ristoratori), uma das
mais conceituadas instituições internacionais de avaliação
de vinhos, sob o comando do renomado e polêmico dr.
Roberto Rabachino, reúnem-se para provar o inusitado.
Nas taças está o primeiro vinho do gelo produzido no
mundo em um país de clima tropical. É da vinícola Pericó, da safra de 2009, de São Joaquim, Santa Catarina,
Brasil. É uma curiosidade para todos. Muitos queriam
ter o privilégio de provar esse produto raro. E muitos
duvidavam da sua qualidade. Era a primeira experiência.
A expectativa era de ser um vinho curioso, provavelmente
não um grande produto, por ser o primeiro e num país
tropical, em que, poucos sabiam, de vez em quando neva
nas terras de altitude de Santa Catarina.
Os degustadores provam. Anotam as considerações.
Dão as suas notas de prova. Reúnem-se as avaliações.
O resultado é... 90 pontos num total de 100! Algo que
pouquíssimos produtos no mundo conseguem.
A hora 2
É 5 de outubro de 2010, 20h, dia útil em São Paulo. Wandér Weege, da Pericó, está diante da imprensa
brasileira para mostrar o vinho do gelo brasileiro. Fala
da Pericó, da estória da produção do vinho. Mostra seus
vinhedos cuidadosamente tratados, alinhados com precisão geométrica. Conta sobre as máquinas importadas
para trabalhar na poda, projetadas para os operadores
fazerem sentados e com qualidade o trabalho. Diz que
foram elaboradas pouquíssimas garrafas do Icewine,
com rendimento de menos de 500 gramas por planta, a
partir de uvas congeladas a 7,5oC negativos, colhidas no
amanhecer de 4 e 12 de junho de 2009...
Apresenta a belíssima embalagem de lata preta
com rótulo em Arte Naïf. Mostra a gravura feita pela
artista plástica de São Joaquim, Tereza Martorano,
especificamente para o lançamento do produto. Retira
a maravilhosa garrafa alongada de 200ml com o líquido
rosado escuro... Está a seu lado o sommelier italiano dr.
Roberto Rabachino para dar o testemunho da degustação
na FISAR. É geral a curiosidade. Estão presentes a equipe
de Vinho&Cia e muitos outros críticos especializados
brasileiros... É servido na sua temperatura ideal, entre 9
e 11ºC, o Icewine da Pericó...
Pelo aroma e pelo sabor a curiosidade torna-se
realidade. É inusitado e... É um belíssimo vinho! Maravilhoso para sobremesa, divino como sobremesa e
ótimo para acompanhar queijos azuis. É para deixar
Vinho & Cia - No. 56
nós brasileiros orgulhosos do que fazemos e podemos
fazer. É ratificada por nós a avaliação dos italianos. É um
vinho muito aromático, com forte presença de cerejas,
untuoso, com doçura adequada e 15% de álcool natural.
Adolar Hermann, da importadora Decanter, presente no
evento, diz tudo sobre o seu diferencial: “O que chama
a atenção é que tem doçura e acidez”. Isso instiga o
paladar e vem da elaboração com Cabernet Sauvignon
e do terroir de altitude de Santa Catarina.
Chega a hora 3
É 10 do 10 de 2010, 10h10’10’’. É a hora que o marketing extremamente profissional da Pericó escolheu para
lançar no mercado o vinho do gelo brasileiro, o Icewine.
Custa 190 reais a garrafa. Pesa no bolso, mas vale cada centavo. É um prazer raro para nossos sentidos. É um orgulho
para nós brasileiros poder apreciá-lo a partir dessa hora.
11
Mercado
Conheça mais sobre o néctar chamado vinho do gelo
Por Sérgio Inglez de Souza
As baixíssimas temperaturas de regiões onde
ocorrem invernos muito rigorosos são um decisivo
fator de limitação para a viticultura. O frio extremo
simplesmente faz com que as videiras parem todas as
suas atividades e entrem em dormência. Nas regiões
cujo inverno se posiciona numa faixa imediatamente
anterior a esse extremo as coisas mudam de figura
dando margem à vitivinicultura do frio.
O Método
Não é recente o conceito do vinho do gelo. No
primeiro século da era cristã o autor clássico romano
Plínio, o Velho, discorreu sobre vinhos elaborados a
partir de uvas congeladas naturalmente nas videiras,
indicando que a prática fosse ainda mais antiga.
Para a elaboração dos Vinhos do Gelo as uvas
atingem o máximo grau de maturação e são deixadas
nas videiras para sofrer o trabalho das baixas temperaturas. Para se ter uma idéia, a temperatura no vinhedo
deve ser –7°C, ou mais baixas pelas leis alemãs, ou de
–8°C para baixo nas leis canadenses. A experiência
prática mostrou que um congelamento muito mais
forte, abaixo dos -14°C, faz da baga um bloco sólido,
sem mosto líquido para extrair, podendo danificar a
prensa do processo de vinificação.
Quando a temperatura no vinhedo apresenta-se
dentro do previsto pela lei seguida, as uvas naturalmente congeladas são colhidas durante a noite ou
na madrugada, sofrendo prensagem imediata em
instalações sem calefação. A quantidade de mosto
gerada é exígua e o processo de fermentação estendese lentamente por meses até atingir em geral o teor
alcoólico entre 10 e 12%, com alta concentração de
açúcar e alta acidez residual. Essas duas qualidades
garantem um vinho bem doce e muito vivo.
A História
O primeiro vinho do gelo foi elaborado na Alemanha, na região da Francônia, em 1794; depois
aconteceu também em localidade próxima de Bingen,
Rheinressen, em 1830. E as iniciativas nunca mais
pararam, tornando o vinho do gelo um produto chamado Eiswein. Na Europa a prática tem sido repetida
na Áustria (Eiswein), Luxemburgo (Vin de Glace),
Hungria (Jegbor), Suíça (Vin du Glacier), entre outros, havendo produções na Nova Zelândia, Brasil,
Estados Unidos e Canadá (Icewine).
12
O método qualificado pelas legislações nacionais
específicas determina que se deva partir de uvas que
se congelam naturalmente na videira. Esta condição,
conduzida pelo ritmo do clima, segue o ciclo lento da
natureza, para que o congelamento separe a água presente
nas bagas e concentre açúcares e ácidos. É chamado de
método de crio-extração natural.
Em alguns países como Argentina e Estados Unidos,
por exemplo, existe um método alternativo, pelo qual
se utiliza o congelamento artificial das uvas depois de
colhidas. O congelamento em equipamento de frio não
repete o ciclo natural das reações físico-químicas internas,
gerando um vinho parecido, porém sem a mesma complexidade. O método é chamado de crio-extração artificial, e
o vinho recebe a denominação de Icebox Wine. Um bom
exemplo é o Las Perdices, um rosé argentino de Malbec,
da Viña Las Perdices, Mendoza.
Na atualidade o Canadá é o maior produtor de Icewine
do mundo, possuindo regiões demarcadas (Designated
Viticultural Áreas) na Columbia Britânica, em Ontário e
na Península de Niágara. As variedades utilizadas são as
viníferas Riesling e Cabernet Franc, e a híbrida vinífera-ri-
paria Vidal, esta muito apreciada em todo o mundo.
Produtores de vinho do sul da Alemanha, Baden
e Württenberg, que estão reunidos na associação
Dyade 52 e vêm trabalhando versões modernas de
vinhos alemães, têm vários estilos de Eiswein: branco,
tinto e rosé, das castas Riesling, Gewürztraminer e
Spätburgunder (Pinot Noir).
Até próximo de 1960 as produções de vinho do
gelo eram ocasionais, e o produto era tratado como
raridade. Na Nova Zelândia, na época, a vinícola Mills
Reef oferecia um cálice de boas vindas de Icewine
como uma deferência muito especial a grupos de
visitantes estrangeiros. Hoje o Icewine está bem mais
próximo do consumidor brasileiro.
Onde Encontrar Icewine
Casa Flora: (11) 3327-5166
Fabiana: (16) 9776-2410
Jardim do Vinho: www.jardimdovinho.com.br
Mistral: (11) 3372-3400
Ville Du Vin: (11) 3071-2900
Vinho&Cia - No. 56
Mercado
Wandér Weege, da Pericó, o homem do icewine brasileiro
Como surgiu a ideia de fazer um vinho do gelo no
nosso país tropical?
Wandér Weege: O primeiro vinho do gelo genuinamente brasileiro nasceu de um bem-humorado desafio, da vontade de inovar, de muito profissionalismo
e de uma grande dose de ousadia.
O projeto nasceu de uma idéia do Dr. Roberto Rabachino, diretor da FISAR (Federazione Italiana
Sommelier Albergatori Ristoratori), durante uma
aula do curso de Sommelier Internacional da Escola
de Gastronomia da UCS/ICIF em Flores da Cunha,
RS. Ele disse: “Já que em São Joaquim faz assim
tanto frio, por que não fazer lá o primeiro icewine
brasileiro?”.
Assumi esse desafio. Preparamos o vinhedo para tornar realidade essa ideia. Com esse espírito começou
o projeto do Pericó Icewine, uma jóia rara e única
das terras de altitude e da neve catarinense, proporcionando ao Brasil ingressar neste exclusivo grupo
de vinicultores mundiais.
Para investir num projeto como esse é preciso peito, arrojo empresarial. De onde vem essa força?
Wandér: Todo esse arrojo vem do espírito empreendedor e inovador do modelo de administração aplicado na Vinícola Pericó. Esse espírito é repassado para
toda a equipe envolvida, e por isso os projetos, por
mais ousados que sejam, têm grandes chances de virar
realidade, como foram os projetos do Vinho do Gelo,
do 1º Espumante de Altitude e de muitos outros.
Nota-se nos vinhedos da Pericó uma grande organização. Que resultados traz na prática?
Wandér: A Pericó se propõe a produzir exclusivamente vinhos finos de altitude e de qualidade superior.
Para isso não poupamos esforços, e a técnica utilizada
no vinhedo é muito importante. A cada safra as uvas
são avaliadas semanalmente no laboratório, para
serem colhidas manualmente no momento preciso,
da maturação necessária para elaborar cada produto.
Dessa forma é possível elaborar espumantes únicos,
frescos e muito complexos; vinhos brancos muito
aromáticos; e vinhos tintos estruturados, de alta
qualidade.
Enquanto vemos a maioria das vinícolas centrada
na produção, observamos na Pericó ações diferenciadas de marketing. A que se chega com isso?
Wandér: A comunicação faz parte para nos tornarmos conhecidos. São novos os produtos da altitude
catarinense para serem degustados pelos consumidores. Precisamos divulgar isso. Mas também nos
concentramos na produção dos nossos produtos,
Vinho & Cia - No. 56
Wandér: Sou formado como Técnico e Químico
Têxtil pelo Senai-RS, e nesse curso naturalmente
aprende-se a ficar minucioso. A empresa Weege tem
105 anos, tendo a parte da Malwee há 42 anos. Esse
tempo é prova que o cuidado faz diferença. Uma empresa de nível internacional, com qualidade para o ser
humano, para os produtos, eficiência, produtividade
e equipamentos. Esses mesmos conceitos foram adotados desde 2002, quando iniciamos o projeto Pericó,
principalmente no vinhedo e em demais atitudes.
Conquistamos prêmios e viramos case diferenciado
já em poucos anos.
De que gosta o homem Wandér nos momentos
fora do trabalho?
Wandér: Principalmente de leituras e viagens, bem
como de trabalhos voluntários.
principalmente para não perder o foco na qualidade, a
que nos propomos desde o inicio.
Como a Pericó enxerga o mercado do vinho no Brasil
e no exterior?
Wandér: No Brasil observamos que acordos bilaterais
com Chile, Uruguai e Argentina prejudicam os produtos
de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul, principalmente
os vinhos finos de altitude, pois os impostos são maiores.
Temos dificuldades com a escala de produção, com os
custos nacionais e aquelas específicas da altitude (frio,
vento, etc.). Hoje em dia o Brasil já tem bons vinhos,
mas antigamente não. Os consumidores nacionais adoram, porém ainda dão grande importância ao importado,
levando nossas divisas financeiras ao exterior.
E os preços no nosso mercado?
Wandér: Justamente pela questão dos impostos os vinhos
importados chegam a preços mais competitivos no nosso
mercado, o que dificulta muito. Todavia, as vinícolas brasileiras tendo bons vinhos farão com que cada vez mais o
consumidor valorize e reconheça os produtos nacionais.
Na feira internacional em São Paulo, a Expovinis, provamos isto e diferenciamos os vinhos de altitude.
Dizem que o homem Wandér é minucioso no trabalho.
Faz parte de um conjunto de valores básicos?
O Brasil é um país do futuro ou do presente? Vai
avançar com a nova presidente, os novos governadores e o novo congresso?
Wandér: O Brasil, integrante dos países do BRIC
(emergentes - Brasil, Rússia, Índia e China), agora
recentemente chamado de BIC, precisa naturalmente
rever uma série de estratégias em todos os sentidos,
para ingressar com força nos manufaturados, e não
somente importar as boas matérias primas que temos.
A evolução do povo em termos de conhecimento e
interesse precisa ser revista, e ampliada em todos os
sentidos. Precisamos nos comparar com países como
a Coréia e outros que tanto evoluíram recentemente,
e estão com expressão internacional.
Devemos esperar por novidades da Pericó em
breve?
Wandér: A qualidade e a inovação são diferenciais
da Vinícola Pericó. Diferenciais já reconhecidos por
renomados prêmios. O mercado global, naturalmente,
espera novidades sempre. Hoje contamos com 10 produtos no nosso portfólio, além do Icewine. Na linha de
vinhos, temos Taipa Rosé, Taipa Vigneto Sauvignon
Blanc, Basaltino Pinot Noir e Basaltino Chardonnay.
Ainda neste ano lançaremos um novo tinto da safra
2008. Entre os espumantes temos 5 produtos: Cave
Pericó Branco e Rosé, nas versões Brut e Démi-Sec,
e Cave Pericó Branco Brut Champenoise, também
disponível no formato magnum, de 1,5 litros. Só em
2010 teremos no total 6 lançamentos. Certamente
em 2011, com a quinta safra, teremos novidades para
apresentar ao mercado. É a safra costumeiramente
recomendada no exterior para grandes vinhos, o que
já conseguimos em 4 safras, graças às castas francesas
e ao preparo do terroir por dois anos.
13
América do Sul
Casa uruguaia
de prestígio
“
Muitas vinícolas
uruguaias estão em
ascensão no mercado
mundial. Euclides Penedo
destaca aqui uma delas
que merece, pelo prestígio,
abordagem mais ampla
O
s leitores deste jornal que se dedicaram à leitura, no seu número
54, da reportagem “O Show da
Decanter” defrontaram-se com a matéria
do colega Álvaro Cesar Galvão “Duas
Estórias: do Uruguai e de Portugal”.
A parte uruguaia teve por base a entrevista com Sebastian Delorrio, da Viñedos
y Bodega Filgueira, de Canelones, onde
foram mencionados aspectos dessa vinícola sul-americana, limitados naturalmente
por questão de espaço.
Ocorreu-me que, com o prestígio de
que desfruta, ela faz por merecer uma
abordagem mais ampla.
Implantada há oitenta e sete anos em
Canelones, nas proximidades de Montevidéu, a vinícola trata de alcançar a excelência na elaboração de seus vinhos finos,
com assessoria do enólogo Pascal Marty, e
também de refletir neles as marcas de sua
terra, de sua gente, de sua cultura.
DA GALÍCIA PARA O URUGUAI
A história familiar tem origem no
início de século passado com a chegada
ao Uruguai do imigrante galego Manuel
Filgueira. Com parcos recursos, mas com
pertinácia e disciplina, ele se estabelece
com a família no vale do Rio Santa Lucia,
próximo à antiga Villa San Juan Bautista,
atual Santa Lucia, implantando vinhedo,
produzindo uvas e elaborando mais tarde
14
Sebastián Delorrio, da Filgueira
vinhos artesanais de mesa para venda a
granel.
O desenvolvimento de suas atividades
permitiu-lhe amealhar recursos para dar a
seu filho José Luis a formação acadêmica
que ele mesmo não tivera. Formado em
cardiologia, José Luis Filgueira casouse com Martha Chiossoni. Coube a ela
prosseguir a obra de Dom Manuel, a
partir de 1992, enquanto o marido se
dedicava às suas atividades de cirurgião
cardiovascular.
RENOVAÇÃO E VITALIDADE
A partir de então, procedeu-se à renovação dos vinhedos e à aclimatação de
variedades francesas, tanto a Tannat, tão
comum por ali, como Merlot, Cabernet
Sauvignon, Cabernet Franc, Pinot Noir e
Syrah, entre as tintas, além das brancas
Chardonnay, Sauvignon Blanc e uma
mutação cinza desta, conhecida como
Sauvignon Gris.
Desenvolve-se um trabalho na propriedade cujo modelo é o dos tradicionais Châteaux bordaleses: todo o ciclo
produtivo se desenvolve internamente,
desde o cuidado e a colheita nas vinhas
próprias – 46 hectares – até a completa
elaboração, o engarrafamento e a colocação dos vinhos no mercado. Chega a
exportar quarenta por cento da produção,
e assim a propriedade atinge uma fase de
vitalidade inusitada.
A partir de diversas variedades, os
vinhos uruguaios Filgueiras são classificados em séries para comercialização,
desde as mais simples (Pátio Sur) até
a aristocrática Estirpe, passando pela
Reserva Familiar para brancos, Reserva,
Enigma e Premium.
DIFERENCIAIS DE QUALIDADE
Os vinhedos da família Filgueiras
estão localizados na bacia do Rio Santa
Lucia, na zona vitivinicola sul do país
vizinho, conhecida como Canelones,
com seus terrenos levemente ondulados
sobre solo argilo-areno-calcários de boa
permeabilidade.
O solo e o microclima regionais, aliados ao conhecimento e à alta tecnologia
utilizada, propiciam a elaboração de vinhos com preços bem em conta – abaixo
de R$90 no Brasil – de nível internacional
de qualidade.
Alguns fatores de diferenciação podem ser mencionados para que o sonho
dos sucessores de Dom Manuel tenha se
realizado:
- o cuidado com o meio ambiente e
o trabalho de pessoas apaixonadas pelo
vinho;
- a colheita manual esmerada feita
nas proximidades da cantina, permitindo
um intervalo de tempo mínimo antes da
chegada à cantina;
- a vinificação em separado por área
de plantação e por variedade;
- a fermentação em temperatura
controlada com tecnologia avançada,
com as atividades no campo e na cantina
registradas e monitoradas por software
apropriado;
- a utilização de tanques de inox com
cintas de refrigeração e de barricas de
carvalho francês e americano com três
anos de vida útil;
CERTIFICAÇÃO INTERNACIONAL
A implantação cuidadosa de processos
de reengenharia levou a Viñedos y Bodega
Filgueira a perseguir, alcançar e agora
ostentar o Certificado de Qualidade ISO
9001, versão 2000, para toda a sua cadeia
produtiva.
Ao longo dessa primeira década do
século atual, ela passou a disputar uma
posição de liderança com outras vinícolas
uruguaias de renome, como a Pisano, a
Juanicó, a Castillo Viejo, etc., em igualdade de condições qualitativas nos seus
níveis de preços.
Euclides Penedo Borges
Presidente da ABS-Rio
[email protected]
Vinho&Cia - No. 56
Velho Mundo
É coisa de santo
ou para santo?
“
Walter Tommasi,
na enogastronomia
italiana, fala sobre
um vinho doce típico e
o costume em relação
aos biscoitos Cantuccini.
Mergulhar ou não?
Q
uando pensamos em vinhos doces, alguns imediatamente nos
vêm à mente: Sauternes, Tokaji,
Moscatel, Late Harvest e, certamente,
Vin Santo. Estes, originários da Itália,
têm na Toscana e na Úmbria a Trebbiano
Toscano, a Malvasia e a Canaiolo como as
principais uvas utilizadas em seu preparo,
enquanto que no Friuli e Venzia Giulia são
a Garganega e a Gamberella.
No processo de elaboração do Vin
Santo tudo se inicia com as uvas sendo
colhidas bem maduras, normalmente no
fim de outubro e novembro. Do campo
vão para armazéns especiais e bem ventilados, onde são deixadas para secar por
dois a três meses, quando são prensadas.
O mosto é colocado em barris para fermentação, e o processo é completado com
a transferência do vinho para barricas de
envelhecimento, onde permanece ao gosto
do produtor.
O Vin Santo tornou-se ainda mais
popular com o modismo de acompanhar
os deliciosos Cantuccini (biscoitos duros
produzidos com amêndoas), mergulhados
no vinho, tornando os mais macios e ao
mesmo tempo transferindo também o
sabor. A pergunta fica: é correto embeber
os biscoitinhos? Bem, o costume é antigo,
pois os camponeses costumavam levar
para seu trabalho nos campos pão e vinho,
Vinho & Cia - No. 56
e pelo primeiro muitas vezes ser antigo e
duro molhar o pão no vinho facilitava a
mastigação. Minha resposta à pergunta
será bem mineira, ou seja: depende! A
decisão terá de ser tomada analisando
a qualidade do vinho que você estiver
tomando.
de 375ml, apenas em grandes safras.
Recentemente em minha visita à Toscana tive a oportunidade de tomar alguns
Vin Santo de altíssima qualidade, com os
quais seria um crime qualquer contato ou
adição. Meu exemplo seria os dois vinhos
seguintes elaborados pela Avignonesi.
Tratam-se de verdadeiros licores e que
têm uma pequena diferença dos Vin Santi
comuns: após a fermentação o respectivo
mosto é colocado em contato com a “Madre”, sedimento de antigos vinhos produzidos e que ficam depositados na barrica
após a retirada do vinho para engarrafamento (dentro de cada barrica sobram 2
litros aos quais são adicionados 43 litros
de novo mosto). Estes vinhos, além de
uma complexidade olfativa tremenda, têm
uma persistência de boca interminável, e
são verdadeiras essências.
1) Vin Santo Branco - produzido
com uvas Grechetto, Malvasia Toscana
e Trebbiano, 13% de álcool, colocado no
mercado apenas após um mínimo de 10
anos de guarda em barricas de 50 litros.
Produção anual limitada a 1.600 garrafas
2) Vin Santo “Occhio di Pernice Tinto
- produzido com a Prugnoto Gentile (
Sangiovese ), 15% de álcool e produção
de apenas 1.300 garrafas em anos de
grandes safras.
Meu caro leitor, minha sugestão é de
mergulhar os cantuccinis em vinhos mais
ralos, simples e de custo não tão alto,
deixando os mais densos, preciosos e custosos para serem tomados simplesmente
como vinhos de meditação, em pequenas
doses e em taças amplas. Garanto que
esta será uma experiência inesquecível,
como foi a minha ao tomar o “Occhio di
Pernice com descanso de 30 anos lá na
Avignonesi. Dominus Vobiscum!
Walter Tommasi
Consultor e palestrante de vinhos
[email protected]
15
Vinho na Academia
Os vinhos
na
A
16
Costa Oeste do Tio Sam
Costa Oeste norte-americana guarda muitos encantos para os apreciadores de vinho. Na California as
regiões mais conhecidas são o Napa Valley e o Sonoma Valley. Mas há outras. O estado de Washington
também tem suas atrações. A uva Zinfandel marca presença. É diferente. Conheça mais com Carlos Arruda.
Vinho&Cia - No. 56
Vinho na Academia
Sonoma, Califórnia
Vamos conhecer mais sobre a Costa
Oeste dos Estados Unidos, num passeio
pela vinicultura americana.
CALIFÓRNIA
A Califórnia é o maior produtor de
vinhos entre os estados americanos, e sua
vinicultura remonta a meados do século
19. Seu clima é tipicamente mediterrâneo,
com ventos frescos, muito sol e chuvas
bem localizadas. Seu território é uma
sucessão de pequenos vales, cada um com
particularidades de clima e solo, criando
um celeiro de terroirs propícios ao desenvolvimento de vinhos de qualidade.
As regiões californianas mais importantes são Napa Valley e Sonoma
Valley, seguidas por Mendoncino e Lake
Counties, todas situadas em direção norte
a partir da cidade de São Francisco.
Napa é conhecida mundialmente pela
qualidade de seus vinhos, e nela se encontram mais de 500 vinícolas, tornando-a
a mais densa região vinícola do mundo!
Várias delas realizam trabalhos reconhecidos de enologia, produzindo vinhos
ícones de prestígio mundial. Também
ganhou notoriedade mundial com o filme
Bronco Winery, Modesto, Califórnia
Sideways (Entre umas e outras), onde
dois amigos viajam pelo vale degustando vinhos, criando uma contenda entre
Merlot e Pinot Noir que chegou a afetar o
mercado... Lá o cineasta Coppola produz
ótimos vinhos.
Sonoma é marcada por amplas planícies, colinas suaves e partes da costa do
Pacífico, encontrando-se nela mais de 300
vinícolas. O clima é mais fresco que o de
Napa, e as brisas marinhas e neblinas são
características nas áreas costeiras.
VINHOS
A Califórnia vem construindo grande
prestígio para seus vinhos tintos ricos
e encorpados. As principais uvas tintas
utilizadas são Cabernet Sauvignon,
Merlot e Zinfandel –– mas ultimamente
a Syrah e a Cabernet Franc têm crescido
em resultados. Surgem também vinhos
de Tempranillo e Malbec, esta com ótimos resultados, num perfil diferente de
Argentina e França (!).
A variedade de uva branca dominante é a Chardonnay, quase um ícone dos
vinhos americanos, graças ao seu bom
desempenho no clima fresco e ensolarado
da Califórnia. Os vinhos brancos típicos
são fermentados em barrica, a partir de
uvas bem maduras. A Viognier vem crescendo consideravelmente em produção, se
comportando bem na região.
ZINFANDEL
A uva tinta Zinfandel é uma parente
próxima da Primitivo italiana (foi considerada a mesma por algum tempo), e se
tornou um patrimônio nacional. Produz vinhos tintos razoáveis, mas alguns produtores têm evoluído seu trabalho, elaborando
vinhos de alta complexidade e qualidade,
que chegam a preços consideráveis. Vale
citar a presença da uva White Zinfandel,
que produz vinhos leves e apenas simples,
mas é tradicional no país.
Digna de nota a presença da tradicional
vinícola Drouhin da Borgonha e da Beaux Frères, cujo sócio é o famoso crítico
Robert Parker.
WASHINGTON ESTATE
O estado de Washington (não confundir com a capital, situada na costa leste)
tem a mesma latitude das regiões francesas de Bordeaux e Borgonha. Sua situação
na costa oeste lhe proporciona temperaturas mais baixas e mais horas de insolação
que a Califórnia, constituindo um terroir
bastante específico e qualificado.
OREGON
O estado do Oregon está acima da
Califórnia na costa oeste, numa latitude
onde as temperaturas são um pouco mais
baixas. O clima é propício às variedades
típicas de clima frio: Pinot Noir, Pinot
Gris, Riesling e Chardonnay, sendo as que
mais crescem na percepção internacional.
Vinho & Cia - No. 56
Carlos Arruda
Academia do Vinho
[email protected]
17
Vinho: Que Negócio é Esse?
Pinto Bandeira
e a Indicação de Procedência
“
Mais uma região
brasileira avança
no sentido do
desenvolvimento da
qualidade de seus
produtos. Álvaro Cézar
Galvão conferiu
P
into Bandeira recebeu os primeiros
imigrantes italianos em 1876, que
logo iniciaram o plantio de uvas, e
já em 1880 faziam vinhos artesanalmente
para o consumo familiar.
A convite da Asprovinho (Associação dos Produtores de Vinho de Pinto
Bandeira), estive nesta localidade para
presenciar a outorga dos diplomas que
agora confere aos seus membros (cinco
deles inicialmente): o selo de Indicação
de Procedência.
A Asprovinho, criada em 29 de junho
de 2001, é formada inicialmente por Vinícola Aurora - Centro Tecnológico de
Pinto Bandeira, Don Giovanni, Geisse,
Pompéia, Terraças e Valmarino. Como
dado histórico de Pinto Bandeira, temos
a criação em 1965 da Cooperativa Vitivinícola Pompéia; em 1976 da Vinícola
Geisse; em 1978 do Centro Tecnológico
da Vinícola Aurora (fundada em 1931);
em 1984 da Vinícola Don Giovanni; em
1997 da Vinícola Valmarino; e em 2008
da Vinícola Terraças.
A cerimônia ocorrida em 7 de outubro
contou com grande afluência de autoridades do setor, vitivinicultores de outras
regiões, associações de classe de prestígio,
e também com a coordenadora geral de
outros registros do INPI (Instituto Nacional de Propriedade Industrial), Maria
Alice Camargo Calliari.
18
Foi uma festa para o vinho brasileiro,
e eu me orgulho de ter estado presente,
pois venho há tempos incentivando a
nossa indústria e os nossos consumidores,
dizendo ser o nosso vinho, se não ainda o
melhor vinho da América do Sul, um dos
bons produtos, com qualidade e grande
melhoria nos últimos anos.
Luciano Vian, atual presidente da
Asprovinho, enólogo de formação, relata
que tudo começou há oito anos com a idéia
de alguns membros do setor de explorar
e conhecer melhor as potencialidades
da região, identificando as particularidades, mapeando e demarcando limites
característicos de solos, clima e cepas,
elementos essenciais para figurar em uma
tipicidade a ser determinada aos vinhos
nela elaborados.
Vian destaca a importância desse
primeiro passo certificador – o selo de
Indicação de Procedência – como um
avalizador da qualidade e do diferencial
que se quer atingir nos vinhos elaborados
em Pinto Bandeira.
Cinco produtos obtiveram de início a
certificação, a saber:
Espumante Brut Don Giovanni 08
Endereços
Asprovinho
www.asprovinho.com.br
Vinícola Aurora
www.vinicolaaurora.com.br
Cooperativa Vitivinícola Pompéia
www.vinicolapompeia.com.br
Vinhos e Pousada Don Giovanni
www.dongiovanni.com.br
Vinícola Geisse
www.vinicolageisse.com.br
Vinícola Terraças
[email protected]
Vinícola Valmarino
www.valmarino.com.br
Espumante Brut Cave Geisse 08
Espumante Brut Valmarino 09
Cabernet Franc Valmarino 08
Merlot Valmarino safra 2009
A Indicação de Procedência é uma
certificação que aplica conceitos da
legislação da propriedade industrial, e
Características
e controles da IP
O regulamento da IP diz que os vinhos
terão de ser elaborados exclusivamente com as variedades autorizadas, com
sua origem entre 85 a 100% procedente da área geográfica delimitada, com
controles de produtividade, e engarrafamento e envelhecimento dentro da
delimitação geográfica demarcada.
assegura a origem e padrões de qualidade
dos vinhos.
Foram parceiros da Asprovinho
nesta jornada – e posterior conquista – a
Embrapa Uva e Vinho, o Ministério da
Agricultura, Pecuária e Abastecimento,
a Universidade de Caxias do Sul, a Universidade Federal do Rio Grande do Sul, a
Finep, a Fapergs, o Sebrae e o Ibravin.
Álvaro Cézar Galvão
Colunista
[email protected]
Vinho&Cia - No. 56
Mercado do Vinho
O que fazer
quando o câmbio é favorável?
“
Os produtores
nacionais tentam
diminuir a entrada
de vinhos importados no
país. As ações são eficazes?
Ajudam o mercado?
Adão Morellatto avalia
J
á há algum tempo, há uma série de
investidas e prerrogativas de produtores nacionais no sentido de barrar,
impedir, atrapalhar e diminuir a entrada de
vinhos importados no mercado nacional.
Essa estratégia foi fundamental na aplicação da lei que instituiu o Selo de Controle
Fiscal sobre vinhos, que entrará em vigor
em 1º de janeiro de 2011, quando a partir
desta data nenhum produto da categoria
– seja importado ou produzido localmente
– adentra o mercado sem o referido Selo,
de modo semelhante ao já aplicado a outras bebidas e destilados, exceto cerveja,
que possui uma legislação específica.
Os importadores, pelas características
e natureza do negócio, têm bastante versatilidade, porque são muito suscetíveis
a mudanças contínuas, e se adaptam com
agilidade impressionante às novas diretrizes, algo que os produtores nacionais não
conseguem com a mesma capacidade, habilidade e compreensão. Estes têm usado
todo o seu poderio “político” sob o argumento da questão social, com o intuito de
colocar de qualquer modo uma barreira,
criando assim uma reserva de mercado,
algo que nos obrigaria a consumir os vinhos nacionais até um determinado valor,
deixando aos importados apenas os vinhos
de valor acima de 45 reais.
Vinho & Cia - No. 56
E os importadores têm enfrentado
mais e mais problemas desde o ano
passado, quando os produtos argentinos
tiveram alteração nas liberações das licenças, mais conhecidas como L.I. Antes,
o órgão responsável pelo deferimento era
o DECEX, vinculado ao Ministério do
Desenvolvimento, Indústria e Comércio, e
agora quem efetua a liberação é o SECEX,
vinculado ao mesmo Ministério, porém
com atuação mais técnica e diretamente
focada nos questionamentos, sobretudo
da Balança Comercial. Anteriormente,
conseguia-se liberação em até quatro dias,
e, agora, demora até 25 dias a liberação
final, o que prejudica toda a logística das
empresas importadoras. Esse problema
com a Argentina já estava sendo assimilado pelas empresas, até que há dois
meses começaram também a aplicar a
mesma medida para os produtos do Chile,
que, por acordos bilaterais (“ACE 35”),
possui alíquota de impostos diferenciada
de outros países, embora o Chile não seja
membro do Mercosul, e sim parceiro convidado, como a Bolívia e a Venezuela.
Na verdade, todo o intenso movimento
dos produtores nacionais para impedir
a entrada de vinhos importados está financeiramente ligado à cotação cambial,
que tem sido favorável aos importados
nos últimos seis meses, viabilizando a
negociação, aquisição e investimento
dos importadores. Com a moeda estável e
forte, e com uma classe social emergente,
que ingressa nessa categoria de consumo,
não há meios de impedir que os produtos importados cheguem a preços mais
acessíveis, convidativos e diversificados,
trazendo rentabilidade, liquidez e oportunidades imediatas aos importadores,
algo que os produtores nacionais não
conseguem atender.
Não é inteligente e nem prudente criar
dificuldades em qualquer momento. Os
importadores estarão adaptados às exigências do setor. E os produtores nacionais?
Quais serão as armas e defesas? O consumidor é quem dita as regras de consumo
de produtos, não o mercado ou as leis. Em
vez de fazer lobby intenso em Brasília,
os produtores nacionais deveriam, sim,
qualificar os produtos, reduzir os valores,
fazer marketing coorporativo e exigir do
governo leis específicas de incentivo ao
consumo.
Adão Morellatto
Consultor internacional de vinhos
[email protected]
19
Uai!
N
o final do século XIX, um vapor partiu do Mediterrâneo em direção às terras da Argentina, com Agostino
Martini embarcado. Mas foi em Belo Horizonte que se desenvolveu a história dos Martini no Brasil. Uma
indústria de massas, uma padaria, o comércio de vinhos... E Andréa Pio conta tudo, uai!
A saga
de
20
La Famiglia Martini
Vinho&Cia - No. 56
Uai!
Supere Armando e André Martini
É 1896. A jovem República dos Estados Unidos do Brasil gatinha na sua meia
dúzia de anos. Um vapor larga do Mediterrâneo rumo à Argentina. Na amurada,
Agostino Martini olha o porto e o casario,
as imagens da Itália cada vez menores; a
sotavento, o limite entre as águas azuis da
costa italiana e as vastidões do Atlântico.
O navio segue, monótono. Mas Agostino
não é homem de paradeiras. A viagem começa a cansá-lo, e o convés é um terreno
muito estreito; a ânsia de desembarque
fermenta a cada toque da interminável da
sineta de bordo.
Lá um dia, o navio dá no litoral
brasileiro. O imigrante, estourando de
impaciência, recolhe sua pouca bagagem,
desce a prancha e pisa o solo de Santos.
Não quer seguir. Destinos nem sempre
são previamente traçados; muitas vezes
se arranjam por decisões de momento.
A sorte decidirá. Pois antes de embarcar
não lhe haviam dito “Dio vi acompangi”?
Então, ele caçará o seu rumo, seja na Argentina, no Brasil ou alhures. Começa aí
a saga dos Martini, que se desenvolveria
em Belo Horizonte. Em Minas, por quê?
Uai!,... E porque não?
Agostino assunta a cidade, escolhe o
lugar e, como bom italiano, funda uma
incipiente indústria, Massas Alimentícias Martini. Mais tarde vem a Padaria e
Confeitaria Martini, instalada na rua 21
de Abril com a rua Curitiba. Qualquer
um que tenha vivido em Belo Horizonte
pelos fins de 40 até 60 se lembra com
saudade das delícias que ali se expunham.
Pães levedados e enfornados conforme
as milenares técnicas italianas, doces de
invejar os confeiteiros de Viena. Assim
prossegue a história até que, segundo a
lei natural do mundo, Agostino se afasta
para entronizar nos “affari” da “famiglia”
o seu filho Arthur.
Nessa ocasião os Martini já se orientavam para o comércio dos vinhos. Era
fatal. Afinal, há muito tempo seus parentes
da Itália tinham o seu nome estampado
nos rótulos mundialmente famosos dos
vermutes de primeira linha. O negócio
floresceu. A família Martini se tornou
praticamente exclusiva revendedora dos
Barbera Casto, vinho emblemático, quase
uma “preferência nacional”, à época. Então o gosto por esse comércio exclusivo
se inflamou. Como os seus antiqüíssimos
ancestrais que conviveram de perto com
fenícios, etruscos, cartagineses e quejandos, o infalível instinto dos mercadores
que partiam de Gênova, Livorno, Nápoles,
Vinho & Cia - No. 56
Bari ou Ancona, os Martini vislumbraram
a Casa do Vinho, que em 1969 se estabeleceria – onde ainda hoje funciona – na
av. Bias Fortes, 1543, esquina com a Rua
Goitacazes.
Nessa época a condução dos negócios
da família já estava a cargo da terceira
geração: o engenheiro Armando Gallizzi
Martini e seu irmão Lincoln, comandados
pelo pai Arthur. Uma particularidade, Arthur não se desligara da velha calculadora
FACIT, de manivela. A primeira contribuição de Armando para os negócios foi
convencer o pai a adotar um equipamento
mais moderno. Em 1975 somente, Armando passou a gerir a empresa, e hoje a
Casa do Vinho mantém invejável estoque
de castas e vinícolas, cujos matizes de
“terroir” não se fixam num ponto único
do mapa; são verdadeiramente internacionais.
Dos vendedores de vinho da Capital,
Armando foi pioneiro, ainda em 1980,
na faina de viajar exclusivamente para
conhecer, provar e importar os melhores
vinhos do Novo e do Velho Mundo, notadamente da Itália. No entanto, o velho
instinto do mercador de outrora lhe dava
com antecedência os sinais de alerta.
Quando lhe vinham esses sinais não dava
outra: ou perda do padrão de qualidade, ou
vinhos prestes a cair em desuso nas mesas brasileiras. Então era hora de buscar
outros vinhateiros; como ainda hoje. Daí
a constante descoberta e a conseqüente renovação dos rótulos, que hoje se calculam
em cerca de 400, originários da França,
Espanha,Chile e Argentina, além da Itália, evidentemente. Suas preciosidades
exclusivas são encontradas nos melhores
restaurantes da cidade e nas duas unidades
da Casa do Vinho.
Honestidade e responsabilidade é o
lema da empresa, cunhado por Agostino.
Dedicação integral acima de tudo! - acentua Armando para traduzir o sucesso dos
negócios. Esse pensamento ele repassou
aos filhos André, administrador de empresas, que implantou a informatização
na empresa. A quarta geração Martini já
se integrou ao negócio. Armando ainda
é o grande chefe, digamos assim, mas
não detém a exclusividade das decisões.
Na empresa, novidades, idéias e vinhos
são bem-vindos, mas são discutidas
pelo colegiado familiar antes de serem
colocadas em prática; ou na prateleira.
“Experimentei um espumante e o levei
para a família conhecer, mas prevaleceu
a opinião da maioria em não colocá-lo
à venda”, lembrou Armando. Aliás, a
participação efetiva da família garante
o sucesso do empreendimento. A esposa
Vera Martini, poliglota, graduada em
História, de extremo bom gosto e paladar
apuradíssimo, é responsável pelo comércio exterior e comunicação internacional
e, é claro, tem a opinião considerável ao
final das degustações.
Em 2002, ao projetar e acompanhar
o trabalho de construção da segunda
unidade da Casa do Vinho, no bairro
Belvedere, a filha Luiza, arquiteta, se viu
tão envolvida com o conceito da empresa
que resolveu se tornar a responsável pela
loja que se instalaria no local. Foi lá,
justamente, que tomou o gosto definitivo
pelo comércio de vinhos e descobriu seu
dom para tratar com o público. A ela cabe
também a missão de transmitir aos clientes
o conceito e os valores da paixão que a
família nutre pelos vinhos, o diferencial de
trabalho ao optar por produtos exclusivos,
lacuna até então não preenchida.
Hoje a Casa do Vinho é, sem favor,
uma referência de tradição, bom gosto e
excelência quando se trata de Sua Majestade, o Vinho.
Casa do Vinho
Av. Bias Fortes, 1543, Barro Preto
(31) 3337-7177
Av. Bandeirantes, 504, Mangabeiras
(31) 3286-7891
Andréa Pio
Jornalista e editora do guia Uai
[email protected]
21
Reportando
Novo sabor
A
recém-inaugurada Vino & Sapore
abriu neste mês na Granja Viana
como uma opção na região para
quem gosta de bons vinhos e produtos
gourmet e não precisa se deslocar a São
Paulo para fazer suas compras. João Filipe
Clemente, proprietário da loja e editor de
um importante blog de vinhos, resolveu
mudar de vida, depois de trabalhar anos
com comércio exterior, e seguir sua paixão atuando no mercado de vinhos.
Os produtos gourmet vendidos nas
prateleiras da Vino & Sapore foram escolhidos após extensiva pesquisa, entre eles,
22
na
Granja Viana
ostras, polvos e mexilhões defumados,
trazidos de Santa Catarina; o escocês
caramel shortcake, feito em Peruíbe;
queijos, pinholes e pistaches importados;
os biscoitos gourmet da família Krause,
do Rio; chocolates; e muito mais.
Embora o foco da casa seja vinhos a
preços acessíveis (entre R$30 e R$100),
brasileiros e importados do Chile e da
Argentina, a Vino & Sapore oferece
uma vasta seleção de vinhos, e conta
com célebres rótulos europeus, como o
Il Brusciato toscano ou o espanhol Viña
Sastre Roble.
Vale a pena freqüentar o Happy Wine
Hour, a partir das 17h, quando são servidos vinhos e um pequeno cardápio de
bruschettas e finger foods, como bolinhos
de bacalhau e de escondidinho.
Vino & Sapore
Rua José Felix de Oliveira, 866, Centro
Granja Viana, Grande São Paulo
Via Estação do Sino, entrada pelo km 24
da Rodovia Raposo Tavares
Denise Cavalcante
Jornalista
[email protected]
Vinho&Cia - No. 56
Vinho é Arte
Vinhos tropicais
no
Vale do São Francisco
“
Pessoas do mundo
inteiro vêm ao Brasil
estudar o fenômeno
das videiras no Vale do
São Francisco, cujo clima
permite até 5 ciclos em 2
anos. Maria Amélia conta
P
lanícies do sertão semi-árido, paralelo oito. Um calor que parece
que faz derreter qualquer ser vivo.
Temperaturas podem bater os 40 graus,
aliadas a um sol escaldante, onde parece
que só a pele grossa de calangos e camaleões vai aguentar.
A sorte divina foi que, junto a esse
cenário, a natureza colocou um rio de
águas cristalinas, abundantes, desenhando serpentes e praias pela caatinga: o
São Francisco. Onde ele passa, deixa os
rastros de vida. De marrom, o cenário se
transforma em verde, em questão de horas.
Com a ação do homem, sabendo podar
e dosar a água e os insumos necessários
para otimizar os ciclos das plantas, ocorre
a transformação de um dos mais ardentes
desertos em um abençoado oásis.
A vida brota (e rápido), trazendo suculentas frutas, como mangas, melancias,
melões e, claro, lindas uvas de todos os
estilos. O Vale do Rio São Francisco faz
refletir sobre essa junção do homem com
a natureza e o quanto o elemento água
significa vida.
Ao aterrissar em Petrolina já é possível
ver os contrastes: o sistema de irrigação
divide as áreas, muito bem medidas, alinhadas, separando o verde das plantações
do marrom da caatinga. Derruba qualquer
conceito de terroir, de safras boas e ruins,
do esperar que o tempo atue para depois
pensar no vinho. A cidade de Petrolina é
Vinho & Cia - No. 56
muito agradável, com orla do rio cheia de
bares, boa vida noturna, em que o vinho
começa a ganhar espaço entre os nativos
e turistas.
Pessoas do mundo inteiro vêm estudar
o fenômeno: todas as condições climáticas
de lá permitem que uma videira produza
até cinco ciclos em um período de dois
anos. Conforme a programação e organização de uma fazenda, há colheitas todos
os dias. Em visita pela região um francês
definiu “França em um ano, Vale em um
dia”. Isto, além de padronizar a qualidade
dos vinhos, também diminui a ociosidade
da estrutura da vinícola e gera muitos
empregos.
O resultado é vinhos jovens, com boa
graduação alcoólica, muitos aromas frutados e perfeitos para consumo em um país
tropical como o nosso, com a vantagem
de economicamente serem mais baratos
e muito competitivos. As variedades que
melhor se adaptaram a esse clima foram
a branca Chenin Blanc e a tinta Syrah. Inclusive, nesta última avaliação nacional de
vinhos, duas amostras classificadas foram
do Vale do São Francisco, da uva Chenin.
Lá também se produz muito espumante
moscatel.
Grandes grupos internacionais dividem espaço com empresas familiares,
sendo as principais Ouro Verde (Miolo)
e Rio Sol (Dão Sul - Portugal), e mais
Garziera, Botticelli, Chateau Ducos e a
pequenina Bianchetti. Esta última produz
vinhos orgânicos, sendo a personagem
do Brasil no documentário “Mondovino”. No Vale do São Francisco há uma
grande comunidade gaúcha, sendo que
pessoas como Jorge Garziera, natural de
Garibaldi, são responsáveis por todo o
desenvolvimento.
Além da fascinante experiência de
lá se ver os vinhedos juntos e em vários
ciclos, também é possível observar as produções de uva de mesa. Com padronização internacional, é a imagem do paraíso.
Videiras carregadas de cachos enormes,
perfeitos, de mais de duzentas variedades
que hoje vêm sendo testadas: com ou
sem sementes, com sabores específicos,
rosadas, tintas, brancas, muito suculentas,
carnudas. E o melhor é ver o sorriso das
pessoas trabalhando em meio aos vinhedos tão lindos. Questionados, dizem que
a uva os prendeu a terra, fez com que eles
ficassem lá com suas famílias.
Além do vinho, o rio possibilita uma
gastronomia única, baseada em peixes. É
também tradicional a carne de bode, sendo
consumida a todo momento, por todas as
classes sociais, nos mais diversos lugares:
restaurantes, bares da margem do rio, etc.
O “Bodódromo” é o point do encontro e
da festa.
Passear de barco pelo rio, com eclusagem na Barragem em Sobradinho, e
chegar na fazenda Ouro Verde, da Miolo,
será uma das grandes novidades do enoturismo da região.
É a região que desperta o amor e o
ódio dos apreciadores. Confesso que é
difícil compreender a total quebra de
paradigmas e o padrão de qualidade em
vinhos “standart” que é possível atingir.
Um novo sotaque ao falar de vinhos, cheio
de bom humor, uma nova forma de entender a produção dessa bebida, que derruba
vários conceitos e transforma uma região
de caatinga em fonte de riqueza e fixação
do sertanejo na terra; é a diversidade do
vinho do Brasil, que supera fronteiras
e desenha sua personalidade nos quatro
cantos do país.
Maria Amélia Duarte Flores
Enóloga
[email protected]
23
De Santa Catarina
“
A cozinha de
Santa Catarina
traz iguarias
diferenciadas para a mesa,
como uma ova apreciada
no Mediterrâneo, sobre a
qual João Lombardo fala
Bottarga,
tainha e vinhos
H
á algo de novo no mar de Santa
Catarina. Depois de fazer sucesso com seus camarões e ostras,
agora é a vez da bottarga. Iguaria típica
do Mediterrâneo, a bottarga é a ova da
tainha salgada e seca naturalmente ao sol.
Ela pode ser utilizada em várias receitas,
como saladas, massas, risotos e pescados.
Pratos que ficam muito mais agradáveis
na companhia de bons vinhos.
Produzidas pelos fenícios, já no século
IX A.C., as ovas secas de tainha foram e
continuam sendo consumidas por asiáticos, italianos, gregos e espanhóis, entre
outros povos. Uma maneira de apreciá-las
é acompanhá-las simplesmente com pão e
azeite de oliva. Com intenso sabor de mar,
as ovas são conhecidas como Caviar do
Mediterrâneo.
Em Santa Catarina, a bottarga começou a ser produzida comercialmente pelas
mãos do grego Constantin Katopodis,
na praia da Gamboa, em Garopaba, ao
sul de Florianópolis. Uma tradição que
trouxe de sua terra natal, a Grécia, mais
especificamente da ilha de Lefkas. No
Brasil, o grego decidiu dar continuidade
24
à tradição familiar, junto com seu filho,
Christian Katopodis. Boas receitas com
bottarga estão no site www.bottargaclub.
com.br.
Hoje há outros produtores de bottarga
em Santa Catarina. Entre elas, a Bottarga
Brasil, que depois de exportar por 20 anos
ovas de tainha in natura para Itália, exatamente para os italianos fazerem a bottarga, decidiu produzir a Bottarga Gold.
O produto chega ao mercado no formato
de um bastão âmbar e muito aromático,
granulada e ralada. O site, para conhecer
receitas, é www.bottargagold.com.
Um espumante fresco, com boa intensidade, é um bom companheiro para
canapés com bottarga. Uma cava espanhola, um espumante italiano elaborado
pelo método clássico, um bom crémant
e, é claro, um champagne não safrado são
boas sugestões.
O canapé clássico é feito com manteiga gelada, cuja camada láctea fica entre
o pão e as ovas laminadas da tainha.
Também pode-se ralar a ova e misturá-la
generosamente à manteiga em tempera-
tura ambiente, com algumas poucas gotas
de limão siciliano e salsinha.
A boa intensidade gustativa do espumante fará frente à intensidade gustativa
das ovas. O frescor do espumante cuidará
do contraponto à discreta tendência amarga da bottarga e ficará compatível com o
sabor marinho das ovas, o frescor da salsa
e do limão. O pérlage atacará a gordura
da manteiga e deixará o paladar limpo.
Brancos intensos de Sauvignon Blanc são
boas alternativas aos espumantes.
no vinho farão a compatibilização gustativa com o prato e limparão o palato da
untuosidade do azeite. Um Chardonnay
fresco e macio, com passagem por barricas, promoverá um bom casamento
técnico. Um bom teor alcoólico limpará a
untuosidade do palato e acrescentará notas
amanteigadas e de especiarias ao gosto
do prato. Possibilidades agradáveis para
acompanhar um ingrediente antigo e que
agora começa a conquistar os brasileiros
a partir do litoral catarinense...
Um preparo clássico mediterrâneo
é o spaghetti alla bottarga. Na receita
tradicional, a bottarga é ralada sobre
abundante azeite, com um dente de alho
apenas esmagado em uma frigideira. A
massa cozida é salteada e pode receber
um leve toque de vinho branco. Salsa
picada, mais um pouco da ova ralada e
um fio de azeite novo darão a moldura
final ao prato.
Para acompanhar, um bom vinho
branco do sul da Itália, de uvas Grillo ou
Inzolia, fará uma harmonização regional.
Boa aromaticidade e bom teor alcoólico
João Lombardo
Jornalista e sommelier
[email protected]
Vinho&Cia - No. 56
Viajando com Vinho
Em terra capixaba,
um encontro internacional
O
Hotel Senac Ilha do Boi foi a sede do 2o Encontro Internacional do Vinho em Vitória, no Espírito Santo.
Vários nomes de peso do mundo do vinho estiveram presentes para dar palestras e conduzir degustações ao
público em geral. Adriana Bonilha acompanhou tudo de perto, e nos traz mais essa viagem com vinho.
Vinho & Cia - No. 56
25
Viajando com Vinho
Chegar em Vitória, passear pela orla e
se dirigir à ilha o Boi... Foi o percurso para
o 2º Encontro Internacional do Vinho, que
aconteceu no início de novembro no Hotel
Ilha do Boi, na capital Capixaba.
Toda essa maratona, como disse, é
muito instigante e leva o degustador a
uma viagem pelos sabores e aromas. Um
programa imperdível para os apreciadores
de Baco, e que ainda podem se divertir
pelas areias das praias capixabas, e quem
sabe até dando uma esticadinha para as
montanhas de Domingos Martins, até
escalar a Pedra Azul.
Organizado pelo Grupo Gazeta e sua
subsidiária de marketing promocional, a
Premium, o Encontro contou com uma
maratona de três dias de eventos, começando com uma festa de abertura, com
direito a discursos e feirinha, com vinhos
e produtos locais. Um ótimo momento
para o networking.
O programa contou com três degustações diárias e levou os participantes a
viagens por vários mundos vinícolas, do
Chile à Austrália, com bela pausa pelas
regiões francesas da Borgonha e de Champagne, aos vizinhos Portugal e Espanha,
e a uma brincadeira, levada a sério, de
harmonização com a culinária local.
Os palestrantes foram escolhidos entre
renomados nomes internacionais, como o
Não se esqueça! Nos vemos no 3º
Encontro.
chileno Patrício Tapias, os franceses Olivier
Pion e Jean Baptiste Geoffroy e o sueco
Andréas Larsson; além dos nossos conterrâneos Arthur Azevedo e Mário Telles Jr.
Os painéis foram surpreendentes e
instigantes. Acompanhe a seguir, pelas
fotos, um pouco do que os participantes
puderam vivenciar.
Adriana Bonilha
Colunista
[email protected]
Confira o clima do encontro foto a foto
Patrício Tapias, chileno, jornalista e crítico de vinhos, apresentou 8 vinhos, três
chilenos, dois australianos, um português e dois espanhóis, sendo um jerez.
O único branco foi o chileno Casa Marin Cipreses. Dos demais chilenos, o Erasmo da
Viña La Reserva Caliboro impressionou esta degustadora pela boa presença e por ser
um vinho rústico, porém sem rispidez; e o Antiyal de Álvaro Espinoza, do Valle del
Maipo, também chamou a atenção.
Apresentou também os autralianos Mitolo Shiraz Mclaren Savitar e o maravilhoso
Claredon Hills Astralis, 100% Shiraz. O filho único português foi o Quinta das Bágeiras
Garrafeira. E os espanhóis foram Tondonia Gran Reserva, de Lopes de Heredia, e o
jerez Bodegas Tradicion Oloroso, envelhecido 30 anos.
26
Uma proposta de harmonização com a culinária capixaba, porém com o toque pessoal
da equipe do restaurante do Ilha do Boi: ostra gratinada, casquinha de siri, moquecas
de camarão capixaba, torta capixada e bobó de camarão. Não se assuste! Eram porções
de degustação, para que pudéssemos apreciar com os vinhos apresentados por Mário
Telles Jr. O que bebemos? Brancos. O grande chileno Laberinto, um Sauvignon Blanc
com gostinho final de maracujá; o neozelandês Dog Point Selection; o português Sketch de Raul Perez, da região de Alvarinho, com produção de apenas 900 garrafas; e o
borgonha Meursault Clos de Mazeray, Jacques Prieur. E para estimular o paladar e as
brincadeiras de compatibilização, um Champagne Rosé Cattier Chigny Les Roses, que
confirmou que taninos, por mais leves que sejam, metalizam com frutos do mar.
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Viajando com Vinho
Arthur Azevedo terminou o dia apresentando ao grupo 4 portugueses e 4
espanhóis. Entre eles, El Pecado de Raul Perez, da região catalã de Ribeira Sacra. O
vinho suscitou até trocadilhos de questionamento se o que se apreciava era o Pecado
substantivo ou adjetivo, pois o vinho foi esplendoroso.
Dos portugueses me agradou o alentejano Herdade dos Grous, com boa acidez e
adstringência, com permanência capaz de aguçar os sentidos.
Vinhos da Borgonha foram levados pelas mãos de Olivier Pion. Foram 4 brancos:
dois Montrachet (Puligny Domaine Fichet Refets e Bienvenues-Bâtard de Vincent
Gerardin) e dois Tesson (Meursault Pierre Morey e Jean Philippe Fichet), seguidos de
dois Pinot Noir (La Pousse d´Or Corton Grand Cru, Clos Du Roi e Corton-Bressandes
Domaine Prieur Grand Cru).
Os meus preferidos do painel? O Pierre Morey, vinho amanteigado, elegante e de
muita presença. E o Vincent Gerardin, com toques de baunilha e tostado.
Foram trazidos vinhos de pequenos produtores por meio das mãos de Andréas
Larsson, que apresentou rótulos pelos quais se diz apaixonado. Abriu o paladar dos
degustadores com uma cava, Gramona Imperial Brut Gran Reserva, e um francês do
Vale do Loire, Clos de La Couleé de Serrant. Seguiu com 4 bordeaux: Le Clos du
Beau-Père, de Pomerol; três Saint-Emilion Château Fleur Cardinale e Château de Valandraud, este considerado um dos melhores vinhos de Bordeaux (gostei!) e o Virginie
de Valandraud. Seguiu com o espanhol Zerberos Arena Pizarra, da região de Castilla
y León. Andréas terminou com um Sauternes, L´Extravagant de Doisy Daëne, que
parecia mel. Muito bom!
E já que falamos de pequenos produtores, o Encontro foi finalizado com espumantes
da pequena Geoffroy. A apresentação pelo próprio Jean Baptiste Geoffroy possibilitou
conhecer a estória de seu vinhedo e algumas de suas produções, como os bruts
Expression, Empreinté e Voluptè, o extra brut Millésime, o Roseé de Saignée, e
finalizando com o dèmi-sec, Elixir.
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Charutos & Destilados
Para fumar
sem preocupações
P
ara quem vai a Buenos Aires e
gosta de charutos, o Cigar Bar do
Hotel Alvear é atualmente um dos
melhores points da capital portenha. Foi
com esse objetivo que
o Alvear Palace Hotel criou o Cigar
Bar, um novo espaço em seu histórico
e icônico prédio na Recoleta. Com uma
seleção exclusiva de habanos, saborosos
destilados e os melhores chocolates do
mundo, o fumoir se apoia na harmonia
desses três pilares para oferecer experiências únicas a hóspedes e visitantes.
O Cigar Bar é o primeiro na Argentina
a reunir esta excelente combinação de
sabores, além de um ambiente que é a
cara do mais conhecido hotel de luxo de
Buenos Aires.
O espaço tem estilo Art Deco e mantém parte da estrutura original do lugar,
antes uma extensão do antiquário vizinho
28
ao hotel. As amplas janelas trabalhadas
em bronze foram mantidas, e o que é novo
também se baseou em materiais puros e
sólidos. O resultado é quase uma viagem
no tempo, de volta aos anos dourados da
década de 1930.
Com entrada pelo lobby do hotel ou
por uma porta junto à cortejada esquina
da Avenida Alvear com a rua Ayacucho, o
Cigar Bar é para poucos. Poucos mesmo,
pois a capacidade do local é pequena.
Apenas 17 pessoas por vez podem apreciar a decoração em mármores negro Marquina, branco Carrara e amarelo Valência.
Esta combinação pode ser vista no chão,
onde desenhos de diamantes dão ritmo e
acompanham o trabalho do teto preservado do projeto original. Um bom diálogo
com as paredes revestidas em madeira de
nogueira brilhosa, os detalhes dourados,
os grandes espelhos bisoté, as poltronas
de couro marfim e tecidos de animais
importados especialmente da Itália.
Menos de um ano após sua inauguração, o Cigar Bar já é um ponto de
referência para os amantes de charutos
cubanos. Lá eles desfrutam de uma seleção variada de habanos, de marcas como
Cohiba, Montecristo, Partagas, Romeo y
Julieta, H. Upmann, entre outros. A carta
é especialmente preparada com base no
tempo de envelhecimento e no tipo de calibre, possibilitando encontrar um charuto
diferente para cada momento e circunstância gastronômica. Para garantir uma boa
conservação dos produtos, o bar conta
com um belo umidificador de cedro.
Destaque também para a seleção exclusiva de destilados como Armagnacs,
uísques e rum, assim como conhaques
e coquetéis à base de Hennessy. Quem
procura o Cigar Bar encontra os melhores
rótulos, sempre servidos em copos de cristal sofisticado, na forma mais apropriada
para cada bebida.
Para completar a harmonização, a
casa dispõe dos requintados chocolates
da marca suíça Lindt, além de criações
artesanais do prestigiado Chef Patissier
do Alvear.
Cesar Adames
Consultor gastronômico
[email protected]
Vinho&Cia - No. 56
Vinho está na moda
e a gente faz o estilo
Vinho&Cia
Vinho & Cia - No. 56
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Comportamento
“
Há muitos e muitos anos, Didú Russo conheceu Dona Lolinha, sua sogra. Ela gostava bastante de cantar e
também de um “gole”. A família evitava dar bebida a ela, mas Didú...
Dona Lolinha
eo
D
ona Lolinha era o carinhoso
apelido de Dona Eponina Von
Probst Deffune, avó da Nazira,
minha mulher.
Conheci Dona Lolinha em 1973,
quando comecei a sair com a Nazira.
Nesta ocasião ela (Dona Lolinha) já aparentava uns oitenta anos. Ninguém sabia
ao certo sua idade. Ela era uma simpatia
de pessoa, muito gentil, fina e muito bem
humorada.
Era chegada num “gole”, e a família
evitava a todo o custo, pois a velhinha já
estivera internada por alcoolismo, pesando 45 kilos… Era permitido a ela apenas
uma cervejinha às refeições. “É diurético,
sabe, meu filho”, dizia a Lolinha.
Toda sua refeição tinha também uma
banana e uma aspirina. Além disso, o que
sempre acompanhou Dona Lolinha foi o
cigarro. Uma vez ela pegou epatite, e o
médico cortou a cerveja. Ela não teve dúvidas, continuou com a cerveja escondida,
disse que o médico estava enganado e que
logo estaria boa. Todos acharam que era o
início do fim… Que nada, em quinze dias
a velhinha estava curada. Fez questão de
repetir os exames e não havia mais nada.
Ela adorava viver, era isso.
Dona Lolinha era do Paraná, mas ficou lendária em Itapeva, interior de São
Paulo, onde foi morar com seu marido
Chico Deffune, libanês que veio para o
Brasil e montou lá uma casa sensacional,
pois a volta toda da casa era com lojas,
30
Whisky
aliás ainda é. Originalmente era a loja
dele e da Dona Lolinha, mas logo que ele
faleceu a Dona Lolinha transformou em
diversas pequenas lojas, que rendem o
aluguel da casa.
Usando e abusando de sua idade,
Dona Lolinha – a quem sempre eu forneci
uns golinhos de whisky escondidos por
debaixo da mesa sem que ninguém da
família notasse – logo se tornou minha
amiga. Quando ela ficava mais alegrinha,
se levantava do nada em meio ao jantar
e dizia: “Eu estou feliz e vou cantar!”. E
mandava: “…Sempre tive paixão pela
dança… num sarau onde encontro um
bom par… eu não paro e não sento e não
canso, …a valsar a valsar a valsar”... E a
música ia inteira – infelizmente não me
recordo da letra completa.
Até o momento de sua morte dizia: “E
São Pedro que a porta nos abre, me dirá:
Que fizeste na Terra? Eu direi que valsei
que valsei que valsei… E São Pedro admirado com tanto valsar… Sairá abraçado
comigo, a valsar… a valsar… a valsar”.
Era o máximo.
Certa vez fomos passar o carnaval
em Itapeva, no clube. Meu sogro – que
era exuberante e adorava pagar a conta
para todos – comprou mesa para as quatro
noites. A velhinha, acreditem, dançou todas as noites, até terminarem os bailes! O
humor dela era tamanho que numa dessas
noites eu entrei de braço dado com ela no
baile e logo veio um bando de moleques
com as mãos cheias de confetes e jogaram
no rosto da Dona Lolinha. Quando olhei
para ela, os óculos que puxavam sua pela
fraca bem para baixo estavam repletos de
confetes, que quase lhe tiravam a visão.
Fiquei furioso, mas ela logo me apertou
o braço e disse: “Viu, Eduardo, eles já me
reconheceram e já estão me homenageando”. Não é demais?
Dona Lolinha morreu quando quis.
Disse um dia: “Estou cansada de viver,
sabe, não estou mais feliz, estou cansada”. Dias depois faleceu, deixando muita
saudade. Deve estar lá com São Pedro, a
valsar, a valsar, a valsar…
Didú Russo
Confraria dos Sommeliers
[email protected]
Vinho&Cia - No. 56
Não é de hoje
que um brinde
faz você
vender mais.
A A b r a v i n h o t e m re v i s t a s e s p e c i a l i z a d a s n o m u n d o d o v i n h o . S ã o m i l h a re s d e a f i c c i o n a d o s p e l a a r t e , p e l a h i s t ó r i a e p e l a m a g i a
c o n t i d a e m c a d a g a r r a f a . U m p ú b l i c o a l t a m e n t e s e l e c i o n a d o , c o m e x c e l e n t e p o d e r a q u i s i t i v o e q u e e n t re u m a s a f r a e o u t r a e s t á
a t e n t o à s u a m e n s a g e m . A n u n c i e n u m a d a s re v i s t a s d a A b r a v i n h o e g a n h e m u i t o s a p re c i a d o re s p a r a o s e u p ro d u t o o u s e r v i ç o .
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A s
m u d a s
d a s
a
v i d e i r a s
i n s p i ra ç ã o
a
Mas
o
terroir
que
v i e r a m
d o
g a r ra fa
gerou
d a
este
F r a n ç a ,
C a n a d á ,
d a
I tá l i a .
icewine
Brasil
é 100% brasileiro.
Em São Joaquim, SC, um cantinho do Brasil onde a neve não é assim tão rara,
nasceu o primeiro vinho do gelo brasileiro.
A 1300 m.s.n.m., no rico terroir da altitude catarinense,
a Vinícola Pericó ousou produzir um vinho raro,
feito com uvas colhidas a -7,5°C e processadas ainda congeladas.
Icewine Pericó, entre os poucos do mundo, o 1º e único brasileiro.
XXXX_Peric—_Icewine_Revista_XXXX_210x280mm.indd 1
9/10/10 9:22 AM
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E mais: a imperdível feira de compra de vinhos Abravinis