a escola e o mundo do trabalho XVII colóquio afirse secção portuguesa FERREIRA ,Elisabete, ([email protected]) OLIVEIRA ,Delmina ([email protected].) Faculdade de Psicologia e de Ciências de Educação da Universidade do Porto RESUMO Esta pesquisa pretende conceptualizar e compreender a docência como um trabalho, permitindo ainda, esclarecer a demanda pública e politica dos professores na contemporaneidade. Com a expressão Professor S.A1 pretende-se provocar e alertar para as características essenciais de ser professor como uma profissão de reflexão, cuidado e interacção humana neste âmbito, escuta-se o desassossego escondido em histórias do trabalho das professoras. O que equivale a perceber o que é Ser Professor Hoje num contexto escolar extremamente burocratizado de uma sociedade capitalista. Nesta perspectiva analisam-se diversos factores que interferem com o sentido de ser professor e olha-se a crise nos seus recentes desenvolvimentos e movimentos de protesto e indignação com o intuito de mais saber também, sobre a crise e a identidade dos professores. Perante este cenário, urge contactar com as dimensões de ser professor, estudando as visões propostas na legislação e apresentando as perspectivas da escola como local de trabalho e discutir criticamente a relação da escola e dos professores com o mercado especificamente o mercado de trabalho. Estudar criteriosamente a docência como um trabalho, é o objectivo primordial do estudo, o que implica analisar e perceber o actual Estatuto da Carreira Docente e algumas das propostas ministeriais em execução e implementação. Todavia nesta proposta de investigação importa-nos corroborar o estudo com a identidade narrativa de professoras de 1º ciclo quer dizer, mais do que elencar relações de força entre a docência, trabalho e mercado interessam-nos as vozes e as vivências das professoras do 1º ciclo sobre o modo como vivem, sentem, pressentem o seu trabalho ao longo da sua carreira independentemente, desta inquietação de - Professor S. A - poder ser totalmente ausente da sua narrativa. Do que antecede, a estratégia metodológica consiste em que os professores façam a sua própria narrativa, para apreendermos o entendimento que eles presenteiam ao Provocação proposta pela orientadora e inspirada na obra: Escola S.A. – Quem ganha e quem perde no mercado educacional do neoliberalismo de Tomaz Silva e Pablo Genti, (1996). Brasília: CNTE. 1 a escola e o mundo do trabalho XVII colóquio afirse secção portuguesa seu trabalho docente, isto é, quais os sentidos do trabalho e as ligações sugeridas (ou não) entre a docência e o trabalho. PALAVRAS-CHAVE: Docência – Trabalho – Mercado – Educação – Escola Introdução “Diante de si há uma tela em branco apoiada num cavalete. Ela é a sua vida profissional. A paisagem você já escolheu – é a sua profissão. Agora cabe dar-lhe o colorido que quiser e a iluminação que desejar!” (Werneck, cit Seco, 2002:11) A comunicação apresentada neste encontro intitula-se: A Docência como um Trabalho: Histórias essenciais dos/as “Professores/as S.A” – foi apresentada no atelier: “ O trabalho na escola” – o Trabalho dos Professores VI. Nesta comunicação partilha-se o trabalho e as preocupações no âmbito, da tese de mestrado que se está a desenvolver e numa lógica de partilhar o estudo, discutir ideias e enriquecer o trabalho. Ao abordarmos a docência na sua dimensão de trabalho pretende-se melhor compreender as especificidades do trabalho dos professores. Por sua vez, a utilização da expressão Professores/as S.A2 pretende despertar os professores, a comunidade em geral, para o perigo de uma visão da educação exclusivamente mercantil que afectará e condicionará os professores no trabalho na escola e consequentemente influenciará de modos determinantes o trabalho dos professores. Professores/as S.A é como uma premissa do trabalho que vive da tensão do momento actual que gerou um elevado desânimo dos/das professores/as e uma acentuação de uma certa idealização da profissão. Através desta designação pretende-se ainda, compreender se na actualidade as características essenciais de ser professor se reportam a uma lógica de mercado ou de uma relação de cariz mais humanitário, de interacção humana. Impõe-se reflectir sobre a docência como um trabalho na sociedade actual, tentando perceber quais os limites e os desafios que se colocam hoje aos professores. Como já o referimos, trata-se de uma terminologia sugerida pela orientadora como uma provocação e inspirada no livro de Celestino Alves - “Escola S.A” . 2 Elisabete Ferreira &, Delmina Oliveira “ A Docência como um trabalho: histórias essenciais dos/as Professores/as s.a” a escola e o mundo do trabalho XVII colóquio afirse secção portuguesa Nesta perspectiva aspiramos desenvolver a problemática “ A Docência como um Trabalho: Histórias essenciais dos/as Professores/as S.A”, cingindo alguns dos factores que nos permitam compreender o fenómeno da crise que “reina nas nossas escolas”3 bem como, reflectir sobre algumas dinâmicas estabelecidas nas práticas diárias, perspectivando-as num cenário, ou num modelo de ser professor tendencialmente reflexivo. O que equivale a dizer, que temos como principais objectivos um entendimento alargado sobre o professor do século XXI especificamente o professor no seu local de trabalho, a escola. Estudar criteriosamente a docência como um trabalho, procurando caracterizar e conceptualizar a mesma, é então o objectivo primordial do estudo para no essencial se conseguir uma compreensão do trabalho docente. Do que antecede iremos explorar a escola enquanto organização o que implicará também analisar alguma legislação nomeadamente, o anterior e o actual, estatuto da carreira docente, algumas das propostas ministeriais em execução e implementação e ainda, alguns dos documentos cibernéticos (recolhidos durante Dezembro de 2008, um período complexo e mobilizador da comunidade docente que fez circular na net muitas ideias e desabafos). Todavia nesta proposta de investigação importa-nos consolidar o estudo com a identidade narrativa de professoras de 1º ciclo quer dizer, mais do que elencar relações de força entre a docência, trabalho e mercado interessam-nos as vozes e as vivências das professoras do 1º ciclo sobre o modo como vivem, sentem, pressentem o seu trabalho ao longo da sua carreira independentemente, desta inquietação de – Professores/as S. A – poder ser totalmente ausente da sua narrativa. Recorrendo às vozes dos protagonistas, aspiramos compreender o olhar dos professores dirigidos à docência como um trabalho e o desencantamento sentido face às exigências actuais do trabalho docente. A este propósito, Holly (1995:108) refere: “O „luxo‟ de descobrir enredos, ou de os construir, no ensino, de „se conhecer a si próprio‟, de tentar dar sentido à experiência, aos contextos e às histórias que enformam a nossa vida e a das crianças é uma necessidade, e não um luxo”. Problemática do estudo: Na perspectiva apresentada, temos como projecto de investigação a problemática do trabalho docente e como objectivo geral da pesquisa estudar criteriosamente a docência Esta terminologia foi usada com outro sentido (hipocrisia, obscuros, presença oculta) no artigo “A Hipocrisia Reina nas Escolas – a propósito da autonomia e da tomada de posse dos jovens” por Ferreira (2007). In C. Leite e Lopes, A. (Org), Escola, Currículo e Formação de Identidade (73-91) Porto: Edições Asa. 3 Elisabete Ferreira &, Delmina Oliveira “ A Docência como um trabalho: histórias essenciais dos/as Professores/as s.a” a escola e o mundo do trabalho XVII colóquio afirse secção portuguesa como um trabalho analisando os diversos factores crísicos nomeadamente, nos seus recentes desenvolvimentos e movimentos de protesto e indignação com o intuito, de mais saber sobre o trabalho docente. Trata-se então, de esclarecer a demanda pública e política dos professores na contemporaneidade com o intuito de compreensão da docência face à tensão existente entre os entendimentos da profissão enquanto trabalho humanista ou trabalho neoliberal. Transversalmente poderemos mesmo afirmar que se pretende conhecer a especificidade docente, sem perder de mira a experiência dos professores. Com estes sentidos um conjunto de inquietações e interrogações nos acompanham nesta pesquisa especificamente: - Compreender o Ser Professor de 1ºCEB na actualidade: desafios e questões em torno do trabalho docente. - Como se pode definir o trabalho docente? Qual o sentido que dão os professores ao que fazem? Quais os sentidos que encontramos nos protestos e indignações? Como lidar com uma actividade que envolve mais paixão, entusiasmo e significado do que técnica e recompensa económica? O que é ser professor hoje – num contexto escolar extremamente burocratizado de uma sociedade capitalista? - Quais os sentidos essenciais do trabalho docente? Trabalho de características singulares e criativas em que predomina a interacção humana e a reflexão ou, trabalho burocrático, técnico e de conformidade com uma lógica de mercado (mercado educacional)?! - Como vivem então, os professores os desafios da sua profissão? Será que os professores estão condenados ao mal-estar, à insatisfação no seu trabalho? Deverão construir a sua profissionalidade com um sentimento de défice constante? É neste meandro que vamos desenvolver o trabalho de pesquisa; nesta comunicação, salientamos alguns dos aspectos que vimos aprofundando. A Crise da Educação Escolar uma Visão Teórica Elisabete Ferreira &, Delmina Oliveira “ A Docência como um trabalho: histórias essenciais dos/as Professores/as s.a” a escola e o mundo do trabalho XVII colóquio afirse secção portuguesa Parafraseando Santos (1998:78), importa referir “De que partimos?” Que o mesmo é perguntar: Que riscos corremos?”. Assumem-se os riscos a partir do diagnóstico de contínuas crises cada vez mais profundas, definitivas e íntimas com aquilo que estudamos e nesse âmbito, acentua-se o risco de banalizar o próprio conceito de crise desacreditando-o. Em geral, sobre a crise, podemos afirmar e defender que a modernidade nos seus vários domínios produziu contradições estruturais, incertezas e conflitos sociais, mas também crises subjectivas e pessoais. Vivemos um tempo e um contexto de crise da modernidade cujos mitos fundadores já não nos satisfazem e em que não encontramos outros de substituição. Vivemos no paradoxo, na hibridez e nas realizações contraditórias, incertas e flexíveis. Esta dinâmica da crise exacerba o carácter paradoxal da conjuntura social e pessoal da modernidade acentuando, por um lado, o fim das metanarrativas e das certezas estruturantes e, por outro, abrindo um conjunto de questionamentos e novas interpretações heurísticas o que quer dizer, que consideramos a modernidade tardia não só como um tempo de transição paradigmática mas também um tempo de recomposição ou recombinação paradigmática (Ferreira, 2007). Segundo, Líbâneo estamos perante uma crise que se pode denominar como da sociedade “pós-moderna, pós-industrial ou pós-mercantil”, ou como da “modernidade tardia” – que se caracteriza pelas transformações tecnológicas e científicas, tendo repercussões a nível lato na sociedade, acabando por afectar a escola e o trabalho docente em grande escala. Até porque e como diz Perrenoud (2001:189): “Os actores encontram-se em múltiplos campos sociais; a modernidade não permite que ninguém se proteja das contradições do mundo”. A sociedade está consciente da crise nos sistemas educativos e da necessidade de realizar reformas no ensino e na educação. É um tempo desafiador, um tempo radical que exige uma nova recombinação social, na dinâmica da crise surgem possibilidades de superação que não se devem descurar e que realçam um papel central para as pessoas, suas interacções e sentimentalidade. Estas duas dimensões: a da sentimentalidade (uma ética do afecto e da relação), e a da crise (Ferreira, 2007) ganham perigosamente um estatuto de elevado risco Elisabete Ferreira &, Delmina Oliveira “ A Docência como um trabalho: histórias essenciais dos/as Professores/as s.a” a escola e o mundo do trabalho XVII colóquio afirse secção portuguesa num estudo académico, mas simultaneamente, permitem-nos realçar uma fenomenologia de mudança do trabalho docente. O nosso propósito de partida é então, o de tentar compreender a dimensão do compromisso docente, entendido num mundo de mudanças constantes e em que os professores se esforçam no acompanhamento desse ritmo, bem como, no despertar dos alunos para lidarem com os diversos desafios da contemporaneidade. Conclui-se com Perrenoud (2001:190) que “o sistema educativo tem de encontrar um justo equilíbrio entre uma abertura destrutiva para os conflitos e para os sobressaltos da sociedade e um fechamento mortífero, que a separaria do resto da vida colectiva”. O Estudo da Docência como um Trabalho O trabalho docente segundo Tardiff e Lessard (2003:275), é “uma forma de trabalho sobre o humano, um trabalho interactivo, no qual o trabalhador se relaciona com o seu objecto sob o modo fundamental de interacção humana, de face a face com o outro”. É consequentemente um trabalho interactivo e tenderá, provavelmente, a ser considerado um trabalho complexo pois, como bem referem os autores, este trabalho “pode ser definido como uma actividade heterogénea, composta, na qual encontram-se acções relacionadas a objectivos reais (…), acções relacionadas a normas (...) acções tradicionais (...) e acções afectivas”. (idem:248) A complexidade advém da multiplicidade de tarefas e objectivos, da quantidade de actores que convoca simultaneamente (alunos, colegas, envolvente, etc.), mas também da interactividade inerente que atrás mencionamos. A interactividade acresce complexidade, na medida em que, é impossível a obtenção de resultados isoladamente, sem a colaboração dos outros participantes. Entendem assim, Tardiff e Lessard, que se deve “estudar a docência enquanto uma actividade laboriosa desenvolvida numa organização de trabalho, onde os professores interagem com outros actores, em interacções decorrentes do seu status, sua experiência e o processo de trabalho”. (idem: 275) A actividade docente circunda o ser humano, para com e sobre ele, admitir uma teia de diversas acções, sentimentos e comunicações. Consolidando, este facto Perrenoud (2001:89) considera que a profissão docente é “ uma profissão humanista, complexa, paradoxal, impossível.” Elisabete Ferreira &, Delmina Oliveira “ A Docência como um trabalho: histórias essenciais dos/as Professores/as s.a” a escola e o mundo do trabalho XVII colóquio afirse secção portuguesa De acordo ainda com Libâneo (1998:50), um ensino de qualidade é uma questão moral, de competência e, inclusive, de sobrevivência profissional para os professores que se enformará de acordo com as exigências do contexto actual. Desenvolver uma adequada prática educacional é decerto marcada por diversos factores, o aprender a conhecer, o aprender a fazer, o aprender a conviver e o aprender a ser, que por sua vez, nos possibilitam também, a discussão em torno da escola democrática. A Propósito do Enquadramento Metodológico Numa metodologia que se circunscreve ao paradigma interpretativo desenvolve-se o nosso estudo exploratório que se situa numa perspectiva compreensiva valorizando os significados e os sentidos atribuídos pelos professores ao problema em estudo. Do modo como nos diz Bogdan (1994:149) “… os acontecimentos vulgares tornam-se dados quando vistos de um ponto de vista particular – o de investigador”. O meio de recolha de dados numa fase inicial, consistiu em pedir aos/às professores/as do 1.º ciclo que fizessem as suas Histórias de trabalho, ou seja narrassem o seu trabalho docente. Esta tarefa foi pedida a 10 professores/as a exercerem a sua actividade profissional no 1.º Ciclo do Ensino Básico, nas duas últimas décadas. Quadro 1- Caracterização dos(as) professores/as das Histórias/Testemunhos de trabalho Elisabete Ferreira &, Delmina Oliveira “ A Docência como um trabalho: histórias essenciais dos/as Professores/as s.a” a escola e o mundo do trabalho XVII colóquio afirse secção portuguesa Professor Data da /a Recepção H1 31/12/08 Idade 33 Género M Tempo de Cargo Situação Desempenhado Profissional Serviço Percurso Formativo 8 Contratado Formação Inicial Licenciatura Formação à Posterior _________ Professora titular; Q.E. – Prof. Bacharelato Licenciatura Coordenadora do Titular Bacharelato Licenciatura Prof. Contratado – Prof. titular de turma H2 21/12/08 55 F 29 Departamento do 1º ciclo; membro da CCADmembro do Conselho Geral transitório H3 30/12/08 47 M 27 Coordenador de Q.E. – Prof. Escola; Prof. De Titular Especialização Apoio H4 30/12/08 31 F 8 Prof. Titular de Q.Z.P Bacharelato Licenciatura Q.Z.P Licenciatura Pós-Graduação Contratado Licenciatura ___________ Q.E. Bacharelato ____________ Professora titular; Q.E. – Prof. Bacharelato Licenciatura Pós- Coordenadora do Titular Turma H5 05/01/09 33 F 12 Prof. Titular de Turma H6 13/12/08 28 F 3 Prof. Contratada – Prof. Titular de Turma H7 06/01/09 53 F 29 Prof. Titular de Turma H8 23/01/09 47 F 25 Graduação Departamento do 1º ciclo H9 30/12/08 31 F 8 Prof. Titular de Q.Z.P Licenciatura ___________ Q.Z.P Licenciatura ____________ Turma H10 13/01/09 36 F 8 Prof. Titular de Turma Elisabete Ferreira &, Delmina Oliveira “ A Docência como um trabalho: histórias essenciais dos/as Professores/as s.a” a escola e o mundo do trabalho XVII colóquio afirse secção portuguesa Fonte: Dados dos(as) professores(as) participantes nas Histórias/ Testemunhos de trabalho, Dezembro (2008) e Janeiro (2009). Caracterização da Amostra As narrativas de histórias de trabalho foram solicitadas aleatoriamente a professores(as), que exerciam a sua docência no 1.º ciclo. Neste processo foi tido em conta a disponibilidade demonstrada e a proximidade física que mantínhamos com os mesmos. Todos os/as docentes exercem a sua actividade na zona do Porto, nomeadamente sete elementos pertencem ao mesmo agrupamento. Pela leitura do quadro, podemos constatar que foram solicitadas dez histórias de trabalho a dez professores, respectivamente dois do sexo masculino e oito do sexo feminino. As idades oscilam entre os vinte e oito e os cinquenta e cinco anos, sendo a média de trinta e nove anos. O tempo de serviço varia entre os três anos (um caso), e os vinte e nove anos (dois casos), é ainda de referir quatro casos com oito anos, verifica-se uma média de dezasseis anos com tempo de serviço. Todos eles têm licenciatura, três casos possuem ainda formação complementar, sob a forma de pós-graduações (uma na área da Matemática, outra na área da Literatura Infantil e uma na área da Supervisão). Dois professores encontram-se na situação de contratados, quatro pertencem ao quadro de escola e quatro enquadram-se no quadro de zona pedagógica. Contudo, à medida que íamos recolhendo este instrumento de trabalho e analisando o respectivo conteúdo, apercebemo-nos que aqueles dados não poderiam ser narrativas de trabalho, mas sim testemunhos. A informação emergente nesses documentos recolhidos, poderia ser catalogada mais como desabafos e/ou depoimentos. Inclusive alguns discursos assumiram a forma de manifestos e discursos voluntaristas. Perante este cenário achamos necessário proceder à realização de focus grupo com os professores/as que escreveram os discursos, em virtude de serem necessários a recolha de mais dados para a problemática a estudar (a realizar em breve). Paralelamente, a título ilustrativo foi realizada uma análise documental de documentos cibernéticos; com o objectivo específico de tentar captar o que circula no correio electrónico. Elisabete Ferreira &, Delmina Oliveira “ A Docência como um trabalho: histórias essenciais dos/as Professores/as s.a” a escola e o mundo do trabalho XVII colóquio afirse secção portuguesa Quadro 2- Caracterização dos Documentos Escritos por: Categorias Quantidade Alunos Criança de 11 anos; Criança filha de um casal de professores. Conselho das Escolas de localidade; Conselho Pedagógico de Escola; Presidentes do Conselho Executivos; Conselho Municipais de Educação; Elemento de Departamento pedagógico; Coordenador de departamento Predominantemente 1.º Ciclo 2 Outros cargos ligados à Educação Professores Personalidades4 Sindicatos Pais Filósofo Escritor Professor Universitário Promova Federação Nacional de Educação Outros Associação de Pais Total 7 23 4 11 3 50 Fonte: Dados recolhidos com base na circulação de documentos cibernéticos, na caixa de e-mail pessoal, no mês de Dezembro, 2008. Durante o mês de Dezembro circularam na caixa de correio electrónico 50 e-mails, todos eles foram enviados por professores de 1.º Ciclo. Contudo o corpo do texto constante nas mensagens é da mais variada desde Alunos, Outros cargos ligados à Educação, Professores, Personalidades, Sindicatos e Pais. Neste campo, apenas foram considerados os e-mails cujo teor se inferia que se tratava de professores. Temos consciência que na circulação destes e-mails, por vezes torna-se difícil discernir a fonte primária. Por esta razão, consideramos a análise destes documentos a nível ilustrativo e complementar de um 4 Três dos documentos circulados foram publicados em jornais. Elisabete Ferreira &, Delmina Oliveira “ A Docência como um trabalho: histórias essenciais dos/as Professores/as s.a” a escola e o mundo do trabalho XVII colóquio afirse secção portuguesa processo muito mais complexo e moroso. Tal como preconiza (Goodson, 2008:100) “ Os estudos que utilizam histórias de vida e que incidem sobre a vida e o trabalho do professor (…) fornecem um ponto de vista valioso a partir do qual é possível observar as movimentações contemporâneas no sentido de reestruturar e reformar a educação escolar.”. É nossa preocupação ao longo deste trabalho procurar sempre, escutar as vozes dos protagonistas, no que diz respeito, às suas vivências, à forma como pressentem e sentem o seu trabalho; o que nos permite assim, averiguar possíveis ligações (ou não) entre a docência e o trabalho. Serão estas, as preocupações essenciais que nortearão toda a pesquisa. Posteriormente, será realizada a transcrição das respectivas entrevistas do focus grupo, permitindo o tratamento de dados e consequente análise de conteúdo e a procura e obtenção de dados pertinentes, isto é, compreensões e significações que possam contribuir para uma reflexão. Paralelamente será realizada uma análise documental do anterior e actual Estatuto da Carreira Docente e das propostas ministeriais com o objectivo específico de proceder à identificação das terminologias e das representações veiculadas nos normativos sobre trabalho e docência isto é, perceber o entendimento implícito ou explícito da profissão docente quer dizer, o modo como se referem ao trabalho docente nos documentos normativo-legais de regulação da actividade. Da análise exploratória realizada, referimos os “testemunhos” e os “documentos cibernéticos”. Quanto aos “testemunhos” salientamos as seguintes dimensões de análise: Burocratização e imposição legal, Descontentamento/Mal-estar e Cuidar do outro – ilustradas por excertos e unidades de registo: Burocratização e imposição legal “ Entre o planificar as aulas, o dar aulas e o tempo dedicado a reuniões, sobra pouco tempo para saber como vão as coisas lá por casa.”. [21/12/08, H2] “… Deste ano já ter feito mais grelhas e registos que em quase toda a minha carreira e a minha cabeça já ter dado quase um nó com tantos decretos-lei que têm sido publicados… “. [5/01/09,H5] Descontentamento/Mal-estar Elisabete Ferreira &, Delmina Oliveira “ A Docência como um trabalho: histórias essenciais dos/as Professores/as s.a” a escola e o mundo do trabalho XVII colóquio afirse secção portuguesa “ O ataque soes, cobarde e premeditado, deste governo, à função pública, em geral, aos professores, em particular, e aos docentes do 1º ciclo, cirurgicamente, …” . [30/12/08,H3] “ … Nesta fase e face ao momento que a educação atravessa, leva a que um professor não sinta vontade de fazer o trabalho…”. [30/12/08, H4] Cuidar do outro “ Professor é aquele que nos ensina a sermos felizes todos os dias.” [31/12/08,H1] “…parece que consigo entusiasmá-los.” [5/01/09,H5] “…assistir ao progresso daqueles pequenos miúdos e perceber que se devia em parte ao meu contributo.”. [21/12/08,H2] “A profissão professor passa grandemente pela capacidade de gerar oportunidades de interacções caracterizadas pela empatia, pela segurança, pelo desafio, pela crítica ora mais espontânea, ora mais elaborada, pela partilha de vivências, pela capacidade de problematizar essas vivências e pela vontade de colaborar.”. [23/01/09,H8] Sobre os “Documentos Cibernéticos” e nesta fase optamos por apresentar alguns excertos representativos da troca efectuada entre professores do 1º ciclo do ensino básico: “ Sei que estamos todos cansados, saturados, ansiosos por poder respirar fundo e descansar um pouco de toda esta confusão. (…) Não podemos, no entanto, desistir e adormecer. Está a ser muito duro aguentar tudo isto mas pior será se deixarmos que esta política educativa siga adiante. “. [07/12/08, Professor que assistiu a um Encontro Nacional de Escolas] “… numa época em que andamos todos socialmente deprimidos e alguns, como é o meu caso, vivem alguma turbulência psicológica fruto de uma vida algo asfixiante que hoje se vive, em que é difícil tomar decisões.”. [22/12/08, Professor] “ Colegas, para que na 1ª tiragem do dia 24 todas as estações dos CTT entupam com os nossos protestos, coloca no dia 23 um postal endereçado ao Presidente da Elisabete Ferreira &, Delmina Oliveira “ A Docência como um trabalho: histórias essenciais dos/as Professores/as s.a” a escola e o mundo do trabalho XVII colóquio afirse secção portuguesa República com a mensagem: „Ajude-nos, somos professores e o governo não nos quer ouvir‟.“. [09/12/08, Professor] Da análise e recolha exploratória realizada até este momento, podemos concluir que encontramos alusão aos sentidos afectivos e encantatórios do trabalho no 1º CEB acompanhados de um grave desencanto com contornos de solidão, falta de reconhecimento e um forte ênfase no sofrimento. Em jeito de discussão, deixamos aqui mais algumas unidades de registo alusivas ao que acabou de ser referido… “ O meu trabalho é, pois, um misto de revolta e sacrifício, …”. [30/12/08] “ Deixei de ser a menina sorridente e despreocupada, para me transformar numa pessoa sisuda e stressada, com 4, 2, ou ZERO horas de sono por noite, para poder cumprir com toda a burocracia que nos é pedida… ”. [06/01/09, H7] “ Contudo, nestes últimos anos, os professores têm sido “bombardeados” com um acréscimo de trabalho burocrático e supérfluo (…) demasiadamente descritivos, extensos e enfadonhos; (…) – que nos desgastam e roubam eternas horas de paciência e de disponibilidade para o que é realmente necessário e função de um professor.”. [31/01/09, H9] Considerações (Provisórias) Finais “ (…) a forma como sobreviremos (se lhe sobrevivermos) depende da forma como reagirmos eticamente à ideia de que vivemos num só mundo.” (Singer, 2004:40) Pretendemos caminhar no sentido de uma investigação em educação, dominada pelo paradigma interpretativo, que traga conhecimento e objectividade. E nesta proposta de estudar a docência no 1.º Ciclo como um trabalho temos esse desejo e a vontade de partilhar a pesquisa no seu desenrolar da acção. Este dar conta do trabalho no 1º ciclo parece-nos de especial pertinência no campo da acção dos professores. Vive-se hoje o excedente de trabalho que impede de reflectir, pensar e torna o ser humano cada vez mais resistente ao seu sentido de humanidade. Constituindo este trabalho uma hipótese de Elisabete Ferreira &, Delmina Oliveira “ A Docência como um trabalho: histórias essenciais dos/as Professores/as s.a” a escola e o mundo do trabalho XVII colóquio afirse secção portuguesa contrariar a afirmação anteriormente exposta, analisarmos o estado da educação na nossa sociedade, podermos-lhe incutir um olhar e permitir que os demais protagonistas participem nesta acção, torna-se deveras uma tarefa aliciante. Bibliografia BOGDAN, Robert (1994) Investigação qualitativa em educação: uma introdução à teoria e aos métodos. Porto: Porto Editora. FERREIRA, Elisabete (2007). (D)Enunciar a Autonomia – Contributos para a Compreensão da Génese e da Construção da Autonomia na Escola Secundária. Porto: FPCE – Universidade do Porto. Tese de Doutoramento. FERREIRA, Elisabete (2007). “A Hipocrisia Reina nas Escolas – a propósito da autonomia e da tomada de posse dos jovens”, in Escola, Currículo e Formação de Identidade (pp. 73-91). Porto: Edições Asa. GOODSON, Ivor (2008). Conhecimento e vida profissional. Porto: Porto Editora. HOLLY, Mary (1995) “Investigando a Vida Profissional dos Professores: Diários Biográficos” in António Nóvoa (org.) Vida de Professores. Porto: Porto Editora, 108. LIBÂNEO, José (1998). Adeus Professor, Adeus Professora? – novas exigências educacionais e profissão docente. São Paulo: Cortez. LOPES, Amélia (1999) Libertar o desejo, resgatar a inovação – a construção de identidades profissionais em docentes do 1.º CEB. Porto, FPCEUP. (800 pág.) (tese de doutoramento). PERRENOUD, Philippe (2001). A Prática Reflexiva no Ofício de Professor. Profissionalização e Razão Pedagógica. Porto Alegre: Artmed Editora. SANTOS, Boaventura (1998) Um discurso sobre as ciências . Porto : Edições Afrontamento. SECO, Graça (2002). A Satisfação dos Professores – Teorias, modelos e evidências. Porto: Asa Editores. SILVA, Tomaz e GENTI, Pablo (1996). Escola S.A. – Quem ganha e quem perde no mercado educacional do neoliberalismo. Brasília: CNTE. SINGER, Peter (2004) Um só mundo: a Ética Prática. Lisboa: Gradiva. TARDIFF, Maurice, LESSARD, Claude (2003). O trabalho docente - elementos para uma teoria da docência como profissão de interacções humanas. Petrópolis: Ed. Vozes. Elisabete Ferreira &, Delmina Oliveira “ A Docência como um trabalho: histórias essenciais dos/as Professores/as s.a”