O ECOTURISMO COMO ALTERNATIVA DE DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL NAPIE GALVÊ ARAÚJO SILVA; EDUARDO BARRETO ESPÍNDOLA DOS SANTOS; IRELENO PORTO BENEVIDES. UFC, FORTALEZA, CE, BRASIL. [email protected] APRESENTAÇÃO ORAL AGRICULTURA, MEIO AMBIENTE E DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL O ECOTURISMO COMO ALTERNATIVA DE DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL GRUPO DE PESQUISA: AGRICULTURA, MEIO AMBIENTE E DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL UNIVERSIDADE FEDERAL DO CEARÁ FORTALEZA – CE – BRASIL RESUMO Sustentabilidade é um tema que vem sendo bastante discutido nos últimos anos. Com a intenção de promover um desenvolvimento sustentável, muitos setores da economia adotam os princípios da sustentabilidade e usam o termo “sustentável” como forma de diferenciação de outras práticas que visam somente à dimensão econômica e que, freqüentemente, desconsideram as demais dimensões que compõem a sustentabilidade. A atividade turística é um destes setores, e é nesse contexto que surge o conceito de ecoturismo. Entretanto, muitas atividades oferecidas como ecoturísticas vêm causando danos muitas vezes irreversíveis nos locais onde são realizadas, afastando-se dos conceitos e princípios ecoturísticos. Existe, portanto, um paradoxo entre o conceito e grande parte das atuais práticas ecoturísticas, visto que através de um “ecoturismo” indiscriminado, ecossistemas inteiros estão sendo destruídos. O ecoturismo pode ser visto como alternativa de desenvolvimento sustentável, contanto que suas práticas sejam precedidas pelo devido planejamento e sejam supervisionadas de maneira eficiente pelo poder público e pelas organizações turísticas. A sustentabilidade exige uma mudança de postura dos profissionais em relação ao meio ambiente e à sociedade, além de ter a própria sociedade que repensar seu estilo de vida, seus hábitos e valores. Palavras-chave: Ecoturismo, Sustentabilidade, Conscientização Ambiental ABSTRACT Sustainability is a subject which has been being discussed a lot in recent years. With the intention to promote a sustainable development, many sectors in the economy adopt the principles of sustainability and use the term “sustainable” as a form of differentiation from other activities that focus on the economic dimension only and that, frequently, disrespect the other principles which also make part of the sustainability’s concept. Tourism is one of these sectors, and it is in this context that the concept of ecotourism appears. However, many activities called ecotouristic have been causing damages which are many times irreversible in the places where they have been carried through, moving away from the ecotouristic principles and concepts. Therefore, there is a paradox between the concept and great part of the current ecotouristic practices, since entire ecosystems have been being destroyed through an indiscriminate “ecotourism”. The ecotourism can be seen as an alternative for sustainable development, provided that its practices are preceded by planning and that it is supervised in an efficient way by the government and tourist organizations. Sustainability demands a change of position of professionals in relation to the environment and the society, having the society also to rethink its lifestyle, habits and values. Keywords: ecotourism, sustainability, change in environmental conscience INTRODUÇÃO Nos últimos anos, tem sido cada vez maior a preocupação dos países com a sustentação de seu crescimento e desenvolvimento econômicos de forma que estes causem o menor impacto negativo sobre o meio ambiente. No bojo dessas preocupações, vêm à tona as contradições decorrentes do desenvolvimento provocado pelo turismo, cujos efeitos por muitos são considerados essencialmente insustentáveis, vis-à-vis especialmente a experiência histórica nos países desenvolvidos, que vem enfrentando sérios problemas provenientes da degradação ambiental e do esgotamento dos recursos naturais, mesmo os renováveis. Por outro lado, estes problemas ensejam a que em países em desenvolvimento, como o Brasil, também despertem para essa problemática, visto que seguem um modelo hegemônico de desenvolvimento vigente. No que se refere ao turismo, aquela degradação é contraposta à maior valorização relativa de recursos naturais e paisagens aí existentes, o que tende a longo prazo a uma periferização crescente do turismo mundial. Objetiva-se, através desse artigo, discutir aspectos da relação entre a atividade turística, e mais especificamente o ecoturismo, e o desenvolvimento sustentável, considerando três questionamentos: a) será que o turismo promove desenvolvimento sustentável?; b)como se dá a relação hipotética entre ecoturismo e sustentabilidade?; c)será que o ecoturismo seria o único segmento da atividade turística capaz de trazer desenvolvimento sustentável, como comumente se apregoa? Desdobram-se desse objetivo geral, aspectos específicos relativos: a) ao papel do poder público como coordenador e fomentador do desenvolvimento sustentável; b) a forma como a conscientização ambiental local influencia o desenvolvimento sustentável através do ecoturismo; c) os aspectos em que o ecoturismo se diferencia ou não das demais atividades econômicas, como promotor da sustentabilidade. A ênfase no turismo como objeto de pesquisa decorre da sua participação crescente na economia mundial, em geral, e particularmente em economias como a cearense, onde o turismo tem sido elegido como significativo setor promotor do seu desenvolvimento. Segundo a World Tourism Organization – WTO (2000), nos últimos anos ele vem apresentando crescimento anual médio de 7%, enquanto setores como a agricultura e a indústria vêm tendo crescimentos médios anuais de 2,3% e 3%, respectivamente (WORLD BANK, 2001). Alguns países, principalmente aqueles em desenvolvimento, analisam o turismo como uma das alternativas capazes de trazer melhoria na qualidade de vida de suas populações, gerando renda e emprego, principalmente em regiões possuidoras de paisagens exóticas e com recursos financeiros escassos (LOPES, 1990). No que tange o Brasil e, em especial, o Ceará, o turismo também está em franco processo de crescimento. O impacto do setor no Produto Interno Bruto (PIB) do Estado subiu de 11%, em 2004, para 11,8%, em 2005, segundo dados da Secretaria Estadual de Turismo (SETUR). As projeções sinalizam que a participação do setor continuará aumentando no longo prazo. Para 2006, a estimativa é de que o turismo tenha representado 14,1% da economia cearense; para 2007, estima-se que esse percentual alcance 15%. Na contramão de todo esse crescimento econômico proporcionado pela atividade turística, estão as contradições decorrentes dessa atividade, principalmente aquelas relativas a problemas ambientais. Alguns autores argumentam que o turismo promove um tipo especial de consumo elementar do espaço, da paisagem e do território, sem degradá-los. Portanto, ele seria uma atividade sustentável, visto que não “destrói” esses lugares. Outros autores alegam que o turismo, por ser uma atividade transformadora e por produzir territórios, é em sua essência insustentável, pois para eles produção é ao mesmo tempo consumo, logo transformação destruidora a longo prazo. Nesse contexto, faz-se necessário analisar até que ponto a atividade turística é benéfica para uma região, isto é, se é melhor crescer massivamente impulsionado pela atividade turística transformadora do meio ambiente, ou desenvolver-se de forma sustentável através do crescimento controlado desta atividade econômica, juntamente com a promoção de outras atividades.A idéia de crescimento sustentável do turismo leva a que o conceito de ecoturismo seja primariamente destacado, por ser pautado na preservação e fruição do meio ambiente. Entretanto, é importante analisar até que ponto o ecoturismo respeita de fato os limites naturais dos espaços, ou seja, se o ecoturismo pode ser realmente visto como alternativa de desenvolvimento sustentável, posto que, fazendo parte da segmentação do turismo, seria, a priori, uma atividade transformadora do meio ambiente. A primeira parte intitulado Economia do Turismo, trata dessa atividade em sua amplitude econômica, por conta de sua importância na geração de renda e emprego, principalmente no turismo de massa. Além disso, faz um breve histórico da atividade. Ao final do capítulo, analisase a relação entre turismo e desenvolvimento, mostrando os efeitos positivos e negativos deste segmento econômico, no que se refere aos seus mútliplos e complexos encadeamentos. Já a segunda parte, por sua vez, volta-se para um assunto bastante discutido na atualidade e por demais impingido ao turismo e à agricultura: a sustentabilidade. Tendo em vista o fato de a sustentabilidade ser um tema que apresenta divergências de tratamento, apresentou-se a divisão das avaliações de desenvolvimento sustentável nas suas três correntes: a otimista, a pessimista e a intermediária (conciliadora). Expõem-se, inclusive, conceituações de alguns autores sobre sustentabilidade. Além disso, considera-se o papel do poder público no estímulo de práticas sustentáveis, destacando a crescente ineficácia e negligência do Estado com relação à gestão e proteção do meio ambiente. Finaliza-se este capítulo com o estudo da relação entre desenvolvimento sustentável e atividade turística, analisando-se se o turismo pode de fato ser visto como uma atividade sustentável. Já última parte, finalmente, faz um estudo do ecoturismo como segmentação do mercado turístico, enfocando como o mesmo surgiu e destacando o paradoxo entre suas propostas ideais e grande parte das atuais práticas ecoturísticas. Em seguida, são apresentadas formas com as quais se pode manter as práticas ecoturísticas o mais próximas dessas propostas originárias, não se desviando, assim, dos princípios e dimensões sustentáveis que as norteiam. 1 ECONOMIA DO TURISMO 1.1. O turismo como atividade econômica Para se tratar do turismo enquanto atividade econômica, é interessante e importante que se entenda o turismo em si. Definir o significado de turismo é uma tarefa que exige certo conhecimento histórico de quem a faz, visto que o turismo, ao espelho das sociedades, tem apresentado ao longo do tempo grande dinamismo, isto é, desde a sua origem – o Grand Tour – várias transformações aconteceram na maneira de se praticar turismo, o que trouxe a reboque mudanças em seu significado. Entre as inúmeras definições de turismo, há de se destacar aquela adotada por um organismo oficial, de injunção global, que é a Organização Mundial do Turismo (OMT). Segundo essa organização, o turismo é uma modalidade de deslocamento espacial, que envolve a utilização de algum meio de transporte e ao menos um pernoite no destino; esse deslocamento pode ser motivado pelas mais diversas razões, como lazer, negócios, congressos, saúde e outros motivos, desde que não correspondam a formas de remuneração direta. (CRUZ, 2001, p.4) Cruz (2001) trás à tona um questionamento bastante pertinente sobre a definição de turismo apresentada pela OMT, segundo a qual viagem e turismo são hoje considerados sinônimos, independentemente da motivação do deslocamento. Sabemos que as pessoas viajam por diferentes razões (negócios, para tratar de um problema de saúde, lazer, etc.). Percebe-se também que a lógica que orienta predominantemente a prática do turismo é a do lazer. Então porque a OMT sugere que turismo e viagem são sinônimos? E porque as localidades turísticas não se orientam também em função da lógica de outras motivações para viajar que não sejam a lógica busca de lazer? A explicação para este fato repousa no pressuposto metodológico de que todo viajante – para os organismos oficias de turismo - é um turista potencial. Isso porque um turista que viaja a negócios para São Paulo, por exemplo, poderá usufruir também das infraestruturas turísticas da cidade quando tiver um tempo livre, da mesma forma como faria um turista que viajasse para a cidade exclusivamente para usufruir momentos de lazer. O turismo, entendemos, é, antes de mais nada, uma prática social, que envolve o deslocamento de pessoas pelo território e que tem no espaço geográfico seu principal objeto de consumo [...]. Por ser uma prática social, o turismo é fortemente determinado pela cultura.(CRUZ, 2001, p.5) Atualmente, o turismo está cada vez mais sendo visto como atividade econômica, haja visto seu grande potencial em gerar renda e empregos onde quer que se insira. E esse potencial passa a ser cada vez mais notado, pois o turismo tem apresentado enorme crescimento recentemente, e sua tendência futura não é menos promissora. O turismo é, de fato, uma das mais importantes atividades econômicas da atualidade. Os países que optaram por ver na atividade uma alternativa de crescimento, puderam ver um grande aumento dos empregos e um excepcional acréscimo em suas receitas (LEMOS, 2000). Segundo setor em investimentos no mundo - com US$ 6,7 bilhões de investimentos em 2001, de acordo com dados da Organização Mundial do Turismo - OMT, o turismo foi responsável, ainda no mesmo ano, por 6% do PIB global e pelo movimento de 699 milhões de pessoas ao redor do mundo. É razoável entender que o turismo é uma atividade econômica, isto é, que o turismo está inserido na economia e dá dinamismo a ela. Existem alguns exemplos que possibilitam notar essa relação na realidade. Se se está interessado em entender o papel de uma agência de turismo, analisar o que é taxa de câmbio, como calculá-la, qual a influência dela sobre os fluxos de turistas internacionais, descobrir nichos de mercado, entender das preferências dos clientes e da elasticidade da demanda do turismo, é preciso ter conhecimento em economia do turismo; se alguém estiver interessado em gerenciar um hotel, precisará conhecer métodos de formação de preços, as estruturas de concorrência de mercado, gastos de hóspedes, taxa de ocupação, as preferências dos hóspedes no café da manhã, etc (LEMOS, 2000). Segundo Figueiredo (1999), pode-se entender a relação entre turismo e economia trazendo à tona três características do turismo, quais sejam: a) gerador de divisas – o turista internacional, pelo fato de ir até o país ou região que oferece o produto (espaço a visitar-se), gera renda através de moeda externa, o que foi pelo autor chamado de “exportação invisível”; b) efeito multiplicador – refere-se ao fato de o turismo estimular o desenvolvimento de outros vários setores da economia, através de contato direto ou indireto com eles (setores diretamente ligados a ele: hotelaria, transportes, agências, lojas de artesanato, etc.; e indiretamente ligados: construção civil, alimentação, indústria têxtil, etc.); c) oferta de empregos – o aumento de moeda em circulação devido à entrada de turistas ocasiona um aumento da demanda de produtos e serviços, o que, por sua vez, eleva a oferta de empregos. Por outro lado, como efeitos negativos na economia, podese citar a especulação imobiliária e inflação. Os preços praticados aos turistas costumam ser maiores que os praticados aos residentes, o que pode provocar um aumento geral dos preços. No que diz respeito à especulação imobiliária, o turismo traz a supervalorização de terrenos e áreas antes não tão valorizados, passando estes a serem reservados à construção de áreas de lazer, hotéis, casas de veraneio, etc. Lemos (2000) propõe duas definições para economia do turismo: É a parte da ciência econômica que estuda as alternativas de utilização dos recursos existentes para a produção turística nos destinos turísticos, a distribuição e a circulação de renda gerada por essa atividade, e como e porque se processam os períodos de expansão e de retração dos fluxos nacionais e internacionais de turistas. Estuda, também, por um lado, a lógica do comportamento econômico dos viajantes (a decisão de viajar, o deslocamento, a hospedagem, a realização dos motivos da viagem, a permanência e os gastos), e, por outro lado, o comportamento das empresas e dos agentes públicos que operam nas localidades emissoras e receptoras (LEMOS, 2000, p.20). A outra definição proposta por esse autor refere-se à origem e à formação do valor turístico1, a transformação deste valor em renda e a distribuição desta na sociedade. 1.2 Turismo e desenvolvimento 1 Em sua definição, o valor econômico, em termos de turismo, além do somatório material da riqueza, contempla valores mais intangíveis como o cultural, o histórico, o arquitetônico e riquezas naturais e sociais que compõem sua atratividade (Lemos, 2000) Antes de mais nada, é interessante entender o que é desenvolvimento para, daí, analisar sua relação com o turismo. Em termos econômicos, desenvolvimento pode ser entendido como o processo pelo qual uma sociedade utiliza crescente, cumulativa e auto-sustentadamente a sua capacidade produtiva, no sentido de canalizar essa capacidade para aumentar em quantidade e em qualidade os bens e serviços disponíveis na economia. A elevação da produtividade, decorrente de inovações tecnológicas e organizacionais, constitui elemento propulsor relevante, tendendo a refletir-se na melhoria da qualidade de vida da população nesse processo (BENEVIDES, 1998). Para este autor, há um consenso de que o desenvolvimento econômico seja desencadeado por mudanças estruturais na agricultura e, principalmente, na indústria. Este último é o setor que induz as maiores e mais significativas mudanças (diferenciação e diversificação). O setor industrial é, portanto, o que guia a estruturação e dinamismo do setor terciário (comércio e serviços). Antes de discutir se o turismo é ou não um motor de desenvolvimento, é mister tomar consciência da grande e inquestionável amplitude econômica do turismo no mundo. Dados oficiais da Organização Mundial do Turismo – OMT e do World Travel and Tourism Council (WTTC), para o ano de 1999, confirmam um movimento físico real de 613 milhões de deslocamentos mundiais originados pela atividade turística, correspondendo a um montante de US$ 3,8 trilhões de renda, direta e indireta, revelando uma significativa participação de aproximadamente 11% do PIB mundial. Diante dessas cifras consideráveis, o turismo se tornou uma das atividades econômicas mais importantes do mundo. Enquanto representa apenas uma parcela – mesmo que importante do montante de negócios da maioria dos países desenvolvidos, o turismo aparece, geralmente, como uma alternativa decisiva e último recurso para países em desenvolvimento, diante da fragilidade de seus outros setores da economia. Numerosas ilhas e micro-Estados localizados nos Oceanos Pacífico e Índico e no mar Mediterrâneo (integrantes do grupo dos países subdesenvolvidos), dentre outros, têm a atividade turística como atividade mais importante e dinâmica da economia, se não for a única (RODRIGUES, 1996). Vale contudo ressaltar que muitos países frágeis e pouco diversificados, no que tange seus produtos, precisam importar até mesmo o essencial dos equipamentos e produtos para que possam receber o turista estrangeiro. Vê-se aí um aspecto ilusório da entrada de divisas estrangeiras advindas do turismo. Nesses países de economia frágil, nota-se que, pelo conjunto de entradas e saídas financeiras em suas contas de turismo, o turismo não traz desenvolvimento, mas, sim, endividamento. Além disso, os pólos turísticos geralmente situam-se em locais de ecossistemas frágeis, causando impactos no meio ambiente muitas vezes irreversíveis (RODRIGUES, 1996). Sabiamente exposto por François Ascher, “[...] não é o turismo que permite o desenvolvimento, mas é o desenvolvimento geral do país que torna o turismo rentável”. Logo, em economias com certo grau de complexidade e de diversificação, pode-se estimular a interdependência das atividades turísticas com seus demais ramos e setores produtivos (BENEVIDES, 1998), objetivando o desenvolvimento econômico. Levando-se em consideração não somente a rentabilidade do mercado, como também os aspectos sociais, culturais e naturais, é possível impulsionar esta interdependência através de projetos de integração do turismo aos outros setores da economia, à uma estratégia global (RODRIGUES, 1997). Há de se ter, porém, muita cautela (regulamentação estatal) quando da implantação de empreendimentos turísticos, pois estes podem representar “ínfimas conexões com a base local da oferta de recursos de insumos produtivos, além de poder absorver uma pequena parcela da população [local] [...]. Por conseguinte, a desejada integração e interdependência podem vir a não acontecer”. (BENEVIDES, 1998, P. 22). Segundo Rodrigues (1996), em se tratando do emprego, percebe-se que a atividade turística traz uma elevação, principalmente, dos empregos indiretos (artesanato, comércio, construção, alimentação, etc.). Empregos no setor informal geralmente sinalizam uma precariedade do trabalho (sazonalidade, absenteísmo, baixa qualificação, excesso de jovens, etc.). 2 DESENVOLVIMENTO, TURISMO E SUSTENTABILIDADE 2.1 Como pode ser entendida a sustentabilidade Como destacado por Veiga (2005), desenvolvimento sustentável - ou sustentabilidade – tornou-se um tema bastante discutido nos últimos anos. Na verdade, a palavra sustentabilidade passou a ser usada com sentidos tão distintos que até já se esqueceu qual foi a sua gênese, bem anterior à atual aplicação ao desenvolvimento, à sociedade e até à cidade. Nas últimas décadas do século XX, um velho conceito da biologia populacional passou a ser transferido, por analogia, para os sistemas humanos. Entretanto, mesmo nas áreas mais familiarizadas com o tema – floresta e pesca -, a sustentabilidade ainda apresenta conceitos rudimentares sobre os possíveis comportamentos dos ecossistemas. Várias têm sido as ênfases dadas ao assunto: agricultura sustentável, indústria sustentável, crescimento econômico sustentável, sociedade sustentável, etc. Entretanto, foi só a partir da Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e Desenvolvimento – ECO-92 ou Rio-92 -, realizada no Rio de Janeiro em junho de 1992, que este tema (juntamente com a expressão do desejo de uma mudança dos paradigmas sociais, ambientais e econômicos) entrou para a agenda política global através da Agenda 21 (ONU, 1992), na qual estão as recomendações que os países deveriam seguir para trilhar rumos sustentáveis (LUIZ FERNANDO; MERICO, 2002). Pelo fato de a noção de sustentabilidade estar ainda apenas “engatinhando” e por apresentar muita controvérsia, este item restringe-se a apresentar algumas exposições e pensamentos de estudiosos e pesquisadores do tema. Estão justamente nas fraquezas, imprecisões e ambivalências da noção de sustentabilidade as razões de sua força e aceitação quase total. Como dizem Nobre e Amazonas (2002 apud VEIGA, 2005), essa noção só conseguiu tornar-se quase universalmente aceita porque reuniu posições teóricas e políticas contraditórias e até mesmo opostas. E isso só foi possível exatamente porque ela não nasceu definida: seu sentido é decidido no debate teórico e na luta política. Sendo assim, sua força repousa no fato dessa noção envolver um campo bastante amplo em que se dá a luta política sobre o sentido que deveria ter o meio ambiente no mundo contemporâneo. 2.1.1 As três correntes da noção de sustentabilidade: otimista, pessimista e intermediária Tendo em vista o fato de a sustentabilidade ser um tema que apresenta bastante divergência entre os que quiseram explicá-la, Veiga (2005) apresentou as noções de desenvolvimento sustentável em três correntes: a otimista, a pessimista e a intermediária (conciliadora). A corrente otimista acredita que há perfeita compatibilidade entre crescer economicamente e os recursos naturais. Para esta corrente, o crescimento econômico só prejudicaria o meio ambiente até um determinado nível de renda per capita. A partir dele, a tendência seria inversa, fazendo com que o crescimento econômico passasse a melhorar a qualidade ambiental. Esse raciocínio é idêntico à velha idéia sobre a necessidade de primeiro fazer o bolo crescer para depois distribuí-lo. Tanto é que essa hipótese tem sido chamada de “curva ambiental de Kuznets”, por analogia à famosa curva em “U” invertido2 proposta em meados dos anos 1950 pelo terceiro ganhador do prêmio Nobel de Economia, em 1971. Grossman e Krueger (1995 apud VEIGA, 2005) fazem parte da corrente otimista da noção de sustentabilidade. Com o objetivo de testar a hipótese de que a recuperação ecológica resultará do próprio crescimento, os autores conseguiram dados sobre o comportamento da qualidade do ar em grandes cidades e a qualidade da água em suas bacias hidrográficas num determinado período de tempo. Ao fazer a síntese dos resultados obtidos, G & K afirmam que não encontraram evidência significativa de que a qualidade de ambiental tenda a se deteriorar de maneira firme, constante e estável, com o crescimento econômico. Ao contrário, quase todos os indicadores mostraram uma deterioração em fase inicial do crescimento, com uma subseqüente fase de melhoria. Foram levados, então, a “suspeitar” que essa recuperação posterior esteja em parte ligada ao aumento da demanda (e da oferta) de proteção ambiental quando a renda nacional chega a níveis mais altos. A qualidade ambiental pioraria até que o país atingisse 8 mil dólares (de 1985) de renda per capita, e melhoraria após esse nível de renda. É preciso lembrar, contudo, que há um pressuposto nesta análise que só pode ser facilmente aceito pela comunidade dos economistas convencionais, pois são todos otimistas tecnológicos. Todos acreditam que as inovações tecnológicas acabarão por superar qualquer impasse que venha a colocar em xeque a continuidade do crescimento econômico. E tal pressuposto é que os indicadores de poluição usados pos G & K sejam termômetro da qualidade ambiental. Basta lembrar de alguns outros fenômenos já bem conhecidos, como, por exemplo, a redução da biodiversidade, as perdas de patrimônio genético, o aquecimento global, a deterioração da camada de ozônio, a chuva ácida, ou a escassez de água – para que se perceba o duvidoso valor científico das análises otimistas. Já para a veia pessimista da noção de sustentabilidade, o crescimento econômico tem um limite: os recursos naturais. Para essa corrente, a ecologia “engole” a economia. Ademais, os capitais físico, humano e natural não são substituíveis (como na versão otimista), mas sim complementares. O mais importante para essa corrente é o fato de não poder haver sustentabilidade com crescimento econômico. Logo, o crescimento econômico deve – na visão deles - ser freado, juntamente com o crescimento da população. Nicholas Georgescu-Roegen é a figura mais marcante dessa corrente. A visão de Georgescu sobre sustentabilidade - na qual o destino do homem é ter uma vida curta, mas excitante, em vez de uma existência longa, mas vegetativa, sem grandes eventos – foi destacada por Veiga (2005, p.111-112): Desde 1971, o saudoso Nicholas Georgescu-Roegen lançou o alerta sobre o inexorável aumento da entropia. Baseado na segunda lei da termodinâmica, ele assinalou que as atividades econômicas gradualmente transformam energia em formas de calor tão difusas que são inutilizáveis. A energia está sempre passando, de forma irreversível e irrevogável, da condição de disponível para não disponível. Quando utilizada, uma parte de energia de baixa-entropia (livre) se torna de alta entropia (presa). Para poder manter seu próprio equilíbrio, a humanidade tira da natureza os elementos de baixa entropia que permitem compensar a alta entropia que ela causa. O crescimento econômico moderno 2 A Curva em “U” invertido de Kuznets é usada pelos economistas neoclássicos para explicar a evolução da distribuição de renda, utilizando o Índice de Gini e a renda per capita. De acordo com a “curva ambiental de Kuznets”, há, com o aumento da renda, uma elevação do conforto material e do desconforto ambiental, até um certo nível de renda per capita (8 mil dólares). A partir desse nível de renda per capita, surgem padrões que demandam melhoria da qualidade ambiental, gerando uma oferta de proteção ambiental. exigiu a extração da baixa entropia contida no carvão e no petróleo. Um dia certamente voltará a explorar de maneira mais direta a energia solar. Nem por isso poderá contrariar o segundo princípio da termodinâmica, o que um dia exigirá a superação do crescimento econômico. Para Georgescu, em algum momento do futuro, a humanidade deverá apoiar a continuidade de seu desenvolvimento na retração, isto é, com o decréscimo do produto. O oposto do sucedido nos últimos dez mil anos. No que diz respeito à corrente intermediária da noção de sustentabilidade, há uma conciliação entre os pontos de vista das duas correntes extremas (otimista e pessimista). Para os estudiosos defensores dessa veia de pensamento sobre desenvolvimento sustentável, o crescimento econômico e os recursos naturais têm a mesma importância. A idéia central deste grupo é de que a noção de estado estacionário é muito relevante. Para ele, o crescimento econômico é importante, mas não pode acontecer de forma explosiva, pois os recursos naturais são finitos. A diminuição dos recursos naturais deve ser acompanhada de uma redução do capital humano, seguindo o capital físico a mesma tendência. 2.1.2 Enfoque econômico de sustentabilidade Inicialmente, como já mencionado antes, para se tratar de sustentabilidade no seu âmbito econômico é necessário levar em consideração o nível de capital natural utilizado. É importante reiterar que, para que haja desenvolvimento sustentável, alguns autores (podendo-se destacar aqui os da corrente intermediária) acreditam que se deve aumentar ou, no mínimo, manter o nível de capital natural, constituído pelo conjunto de todos os ativos ambientais. Diminuição do estoque de capital natural poderia ser interpretada, para eles, como diminuição do nível de sustentabilidade. Para a adoção desta nova orientação é necessário que: 1) se reconheça que algo está errado com relação às políticas econômicas atuais; 2) se reconheça também que grande parte dos problemas enfrentados atualmente pela humanidade estão interligados (queda de produtividade, queda da qualidade de vida e degradação do capital natural); e 3) a humanidade ainda tenha a possibilidade de escolher um futuro sustentável para si mesma. A manutenção das funções econômicas do ambiente natural é a questão a ser abordada, para que o ambiente possa desempenhar seu papel de sustentar a economia. Essas funções incluem o suprimento direto de recursos naturais (matérias-primas) para o processo de produção (madeira, minerais, água, solo); o fornecimento de serviços ambientais dos sistemas de suporte da vida (ciclos biogeoquímicos, regulação climática, proteção da camada de ozônio, funcionamento geral dos ecossistemas); a capacidade assimilativa dos resíduos oriundos do processo econômico (capacidade assimilativa dos oceanos, rios, atmosfera); e, ainda, como fonte direta de bem-estar através da utilização da natureza para apreciação, valores espirituais, recreação, etc. (LUIZ FERNANDO; MERICO, 2002, P. 102). A proporção adequada do uso de recursos naturais renováveis e não-renováveis na economia é essencial para a manutenção, ou mesmo aumento, do nível de capital natural, garantindo o desenvolvimento econômico sustentável. A não utilização dos recursos renováveis a uma taxa superior a sua capacidade de regeneração fará com que seu estoque não decline. Por sua vez, tendo em vista que os recursos não-renováveis são finitos, os mesmos poderiam ser substituídos pelos renováveis em certas quantidades, para que, assim, não sejam extintos. Além disso, poder-se-ia considerar a possibilidade de se transformar um determinado fluxo finito de bens (petróleo para a produção de energia, por exemplo), em um fluxo indefinido (vento e/ou sol para a produção de energia, por exemplo). Atingir-se-ia, assim, o mesmo objetivo: uma produção sustentável. Torna-se aqui importante que não se confunda o termo “sustentável” com “sustentado”, em suas acepções históricas. Desenvolvimento sustentado, diferentemente de desenvolvimento sustentável, tem uma conotação fundamentalmente econômica, visto que se refere ao fato de uma economia encontrar formas de se manter a partir de suas próprias bases, não dependendo de “externalidades” para manter seu crescimento. Caso clássico desse tipo de dependência são as economias primário-exportadoras, que dependem do fator externo, ou seja, de outros países para consumir sua oferta de produtos primários. Não há, portanto, para essas economias, nenhuma garantia de que sua oferta de produtos será consumida. Para não depender do fator externo, este exemplo de economia teria que criar meios de ampliar, diversificar sua produção, para que seus setores pudessem depender somente uns dos outros, internamente. Criaria-se uma condição interna para a oferta se expandir: diversificar-se-ia a oferta. Pode-se dizer que as economias que tomam tal postura, de diversificação da oferta, apresentam um desenvolvimento auto-sustentado. 2.2 Desenvolvimento sustentável e atividade turística Embora alguns autores acreditem que o turismo apenas “consome” o espaço, a paisagem e o território, e que, portanto, ele seja uma atividade sustentável, visto que não “destrói” esses lugares, a atividade turística pode transformá-los profundamente. Tem-se que levar em consideração que, como todas as demais atividades econômicas, o turismo produz algo novo (territórios transformados), sendo em sua essência insustentável. Não se pode analisar o turismo e seu potencial de sustentabilidade sem se observar de que se trata de uma atividade econômica que “consome” e “produz” territórios e paisagens. Assim, é preciso considerá-la utilizando os elementos gerais da produção e do consumo, que não podem ser desvinculados. Pode-se aqui exemplificar o fato da “mercadoria” natureza ser vendida através de símbolos e imagens apresentados pelas agências de viagem, as quais lhe atribuem novos signos e significações (SERRANO; BRUHNS; LUCHIARI, 2000). Apesar de haver dois tipos de ambientes que são apropriados pela atividade turística (ambiente natural e o artificial – este produzido social e culturalmente), nesta análise será dada mais ênfase ao turismo que se apropria dos espaços naturais.. Um ponto de fundamental importância nesta discussão é a percepção de que a produção e o consumo do espaço pela atividade turística são bastante complexos. No caso de transformações em ambientes socioculturais pela atividade turística, costuma-se contabilizar, por exemplo, apenas o que “entra” na economia local com a visitação turística (a quantidade e o volume de divisas trazidas pelo turismo), esquecendo-se que do lucro nacional devem ser abatidas as despesas com infra-estrutura, água, esgoto, aeroportos, hotéis, hospitais, etc., necessárias para atrair os turistas. Quando realizadas para atender o turismo, tais ações são consideradas investimentos públicos e empreendimentos privados. Entretanto, quando tais gastos são realizados para atender à população local, passam a não serem vistos como investimentos, mas como despesa apenas. Isto acontece pelo fato de esses gastos serem feitos onerando os cofres públicos e não gerando contrapartidas, isto é, retorno financeiro para o Estado. Já no caso das empresas privadas, trata-se de investimentos em capital que tenderão a gerar lucros. Segundo Rodrigues (In: SERRANO, BRUHNS e LUCHIARI, 2000), analisar o turismo como uma atividade sustentável é apenas desviar-se da complexidade da atividade econômica que é o turismo, o qual tem por base o consumo de paisagens exóticas e também daquelas com história passada, construída pela comunidade local. Ademais, a própria intensidade e ritmo da produção e do uso da atividade turística tem desrespeitado profundamente o tempo de formação e manutenção dos ecossistemas. Uma sociedade sustentável só poderá ser atingida a partir do momento que as pessoas passarem a pensar a sociedade em que vivem. Esse pensar levará a uma consciência de que a valorização do ser não pode dividir o mesmo plano da valorização do ter, visto que estes são incompatíveis. Na sociedade do ser, os investimentos mais produtivos não estariam relacionados apenas às atividades produtivas, mas também - e principalmente - às atividades que possibilitam o pleno desenvolvimento da capacidade de pensar, logo, de ser. Por outro lado, a sociedade do ter é a sociedade do consumo de maior quantidade de recursos possíveis. Rodrigues (In SERRANO, BRUHNS e LUCHIARI, 2000) não acredita no desenvolvimento econômico sustentável, quando enfatizado apenas em sua dimensão quantitativa, na elevação da renda: [...] Penso que os próprios termos desenvolvimento e sustentabilidade são contraditórios entre si. Uma atividade econômica não pode ser portadora da potencialidade de sustentabilidade, mesmo que se tenha a idéia de que a atividade turística seja apenas “consumo contemplativo” da paisagem, pois o que está em questão não é a capacidade humana de pensar, mas os lucros e as divisas obtidos pelas atividades econômicas presentes também no turismo. Há, ainda, mais a dizer sobre a relação contraditória entre desenvolvimento e sustentabilidade. Desenvolvimento está preponderantemente restrito à conotação econômica da palavra. Desenvolver significa produzir mais e mais mercadorias, assim como consumi-las mais e mais. A produção necessita tanto de recursos naturais para gerar as mercadorias, como de lugares que sirvam de depósitos para os resíduos da produção; a produção transforma a natureza de forma dupla: pelo uso que desgasta e destrói, como pelo uso de depósitos que estão na própria natureza. Os recursos naturais e sua capacidade de reposição têm experimentado um rápido esgotamento. O desenvolvimento, tal como vem sendo entendido no mundo moderno e pós-moderno, seria, portanto, insustentável. O modelo de desenvolvimento vigente na esmagadora maioria dos países do mundo – o capitalismo – é um sistema que visa a produção contínua de novas mercadorias. Sua proposta de produzir mais e mais mercadorias é tida como sinônimo de progresso e desenvolvimento, mesmo que contribua para a extinção de sua própria base de produção: os recursos naturais. A contradição entre desenvolvimento e sustentabilidade pode ser sinteticamente notada observando-se os pontos assinalados por Rodrigues (In SERRANO, BRUHNS e LUCHIARI, 2000): a) Os recursos naturais esgotáveis estão se esgotando – tanto por sua transformação em mercadorias, como pela ausência de lugares e condições para reciclar os resíduos da produção; b) Os recursos naturais renováveis estão atingindo seus limites por causa do consumo; c) O mercado não poderia pensar em sustentabilidade social, já que não dá conta de satisfazer as necessidades básicas dos seres humanos, posto que tem sua dinâmica orientada pelo. O turismo não é compatível nem com a noção de desenvolvimento auto-sustentado, pois não existe por parte dos produtores da oferta turística uma garantia, a longo prazo, de uma demanda, haja vista a moda que atua como externalidade. Transformando os espaços em lugares “comercializáveis”, a atividade turística tira o caráter exótico desses lugares, visto que os adequa aos padrões de conforto e qualidade de vida do mundo globalizado. Os lugares exóticos são, portanto, rapidamente transformados para serem consumíveis. À medida que passam a ser conhecidos e desejados pelos turistas, já se inicia o desenvolvimento insustentável, visto que o equilíbrio anterior à chegada deles é rompido, sendo este equilíbrio o atrativo para as atividades turísticas. É interessante observar que há análises que responsabilizam o consumidor (turista) pelo depósito de resíduos nos locais visitados. Considera-se, nelas, que o turista é o responsável pela poluição e pela insustentabilidade do turismo. Ora, mas se a atividade turística é dirigida ao próprio turista, sua própria essência está sendo destruída. 3.0 ECOTURISMO COMO SEGMENTAÇÃO DO MERCADO TURÍSTICO 3.1 Turismo sustentável Com a intenção de promover um desenvolvimento sustentável, muitos setores da economia adotam os princípios da sustentabilidade e usam o termo “sustentável” como forma de diferenciação de outras práticas que visam somente à dimensão econômica e que, freqüentemente, desconsideram as demais dimensões que a compõem. A atividade turística é um destes setores. Esta atividade já considera a necessidade de um turismo sustentável. No Acordo de Mohonk (convocado pelo Institute for Policy Studies e promovido pela Fundação Ford), um dos mais recentes e importantes acordos internacionais sobre turismo sustentável e ecoturismo, realizado em novembro de 2000 em New Paltz, nos Estados Unidos, mais especificamente na Mohonk Mountain House, ficou definido que “Turismo Sustentável é aquele que busca minimizar os impactos ambientais e socioculturais, ao mesmo tempo em que promove benefícios econômicos para as comunidades locais e destinos” (INSTITUTO ECOBRASIL, 2004). Pires (2002, p. 117) acrescenta que, o conceito de turismo sustentável, portanto, fundamenta-se no próprio princípio universal de sustentabilidade, que implica a necessidade de conservar os recursos para que as futuras gerações possam utilizá-los e desfrutá-los com os mesmos direitos das gerações atuais. Toda e qualquer atividade pode e deve ser sustentável, e essa premissa contempla tanto o turismo convencional como todos os demais tipos alternativos. Entretanto, no turismo – como em muitas outras atividades - a ênfase à dimensão econômica continua a se sobrepor às demais dimensões da sustentabilidade. Através de um processo de exploração contínuo e cumulativo, com impactos negativos de grandes proporções, as várias atividades econômicas estão contribuindo para o desequilíbrio e degradação do ambiente natural e social. O turismo com interesses meramente comerciais está baseado nos princípios do crescimento econômico. Segundo Pires (2002, p. 80), essa forma de turismo convencional massificado, de larga escala e multinacionalizado, organizado com fins unicamente comerciais, em que não se reconhecem limites de crescimento e os riscos dele decorrentes, em que predomina o comportamento insensível dos turistas para com os destinos e populações receptoras em que a deterioração ambiental e paisagística são comuns, ensejou as primeiras percepções voltadas para um “turismo diferente”. O turismo sustentável, portanto, é apresentado como uma alternativa viável nesta busca por um “turismo diferente” e de baixo impacto. Contudo, por fundamentar-se nas premissas básicas da sustentabilidade, o turismo sustentável também fica sujeito aos mesmos debates e controvérsias existentes a respeito do desenvolvimento sustentável. A maior dificuldade no que se refere à sustentabilidade talvez não esteja nas discussões e contradições meramente conceituais, mas na medição da sustentabilidade, que se torna um grande desafio, isto é, o desafio de transformar dados de variáveis qualitativas presentes nos estudos da sustentabilidade, em informações quantitativas que mostrem o “grau” ou o “nível de sustentabilidade” de determinado planejamento do desenvolvimento ou do turismo sustentável. Segundo Maia (2005, p.51-52), “uma forma possível de implementação e medição do turismo sustentável seria através da definição dos seus princípios básicos e das principais dimensões envolvidas na atividade turística”. São princípios e dimensões do turismo sustentável de acordo com a Organização dos Estados Americanos - OEA: Sustentabilidade ecológica – o desenvolvimento deverá ser compatível com a manutenção dos processos ecológicos essenciais, a diversidade biológica e os recursos biológicos. Sustentabilidade cultural – o desenvolvimento deverá proporcionar ao homem mais controle de sua vida, ser compatível com a cultura e com os valores da população envolvida, manter e fortalecer a identidade da comunidade. Sustentabilidade econômica – o desenvolvimento deverá ser economicamente eficiente e os recursos deverão ordenar-se de tal maneira que também sirvam às gerações futuras. Sustentabilidade local – o desenvolvimento tem por objetivo beneficiar as comunidades locais e sustentar a rentabilidade das empresas locais (PIRES, 2002, p.122). Mesmo levando em consideração a subjetividade existente na questão do desenvolvimento e do turismo sustentável, ao se fazer e aprofundar o estudo das dimensões apresentadas, há uma grande tendência de se chegar, se não a uma sustentabilidade plena, mas ao menos a uma sustentabilidade maior, pelo menos quando se faz uma comparação com o contexto do turismo convencional. 3.2 Ecoturismo: para além da dimensão econômica 3.2.1 Conceitos e práticas de ecoturismo Dos desdobramentos do turismo, surge a idéia do turismo sustentável, que se fundamenta no princípio universal da sustentabilidade, implicando na “necessidade de conservar os recursos para que as futuras gerações possam utilizá-los e desfrutá-los com os mesmos direitos das gerações atuais”(PIRES, 2002, p. 117). O termo turismo ecológico foi correntemente usado durante a década de 1980, sendo substituído gradativamente pelo termo ecoturismo a partir de 1990. O termo ecoturismo foi criado pelo arquiteto e consultor internacional mexicano Hector Ceballos-Lascuráin ainda em 1983 (PIRES, 2002). Segundo o arquiteto, os termos ecoturismo e turismo ecológico são sinônimos, sendo o primeiro uma forma telegráfica e mais fácil de dizer turismo ecológico. Entretanto, o termo turismo ecológico passou a não ser mais indicado com a ampliação das abordagens conceituais do termo ecoturismo, em relação, principalmente, ao uso sustentável dos recursos naturais, do qual se utiliza esta modalidade. Mas afinal, o que é ecoturismo? Como o desenvolvimento sustentável, o ecoturismo também apresenta dificuldades e variações conceituais, dada a ampla margem de interpretações e os mais variados interesses envolvidos. No contexto internacional, o conceito desenvolvido por Hector Ceballos-Lascuráin (1983), adotado pelo Programa de Ecoturismo da União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais - UICN, é de que o turismo ecológico compreende uma viagem ambientalmente responsável, com visitação a áreas naturais relativamente preservadas, no sentido de vivenciar e apreciar a natureza. Ainda segundo o arquiteto, esta viagem promove a conservação, tem baixo impacto e promove, de forma benéfica, o envolvimento socioeconômico ativo das populações locais. Para Lindberg e Hawkins (1999, p. 17 apud MAIA, 2005), “o ecoturismo é a viagem responsável a áreas naturais, visando preservar o meio ambiente e promover o bem-estar da população local”. Este é o conceito adotado pela Ecotourism Society. No contexto brasileiro, destaca-se o conceito apresentado pelo Grupo de Trabalho Interministerial em Ecoturismo, grupo este composto pelo Ministério da Indústria, do Comércio e do Turismo - MICT, Ministério do Meio Ambiente - MMA, Instituto Brasileiro do Turismo EMBRATUR, Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis - IBAMA, empresários e consultores, referindo-se ao ecoturismo como sendo: um segmento da atividade turística que utiliza de forma sustentável, o patrimônio natural e cultural, incentiva sua conservação e busca a formação de uma consciência ambientalista através da interpretação do ambiente, promovendo o bem-estar das populações envolvidas. (EMBRATUR, 1994, p. 19). Ainda no contexto brasileiro, a visão do Instituto de Ecoturismo do Brasil - IEB (1996) é de que: o ecoturismo é a prática de turismo de lazer, esportivo ou educacional, em áreas naturais, que se utiliza de forma sustentável dos patrimônios natural e cultural, incentiva a sua conservação, promove a formulação da consciência ambientalista e garante o bem-estar das populações envolvidas. Como existem várias conceituações de ecoturismo, o importante é extrair o que se repete nelas. Tem-se, então, como destaque nas várias abordagens, o termo sustentabilidade; a responsabilidade dos empreendimentos turísticos, que por oferecerem o ecoturismo, tornam-se os maiores responsáveis pelas ações e impactos no meio ambiente; e o respeito às populações locais, que são consideradas nas dimensões da sustentabilidade. Pires (2002) não apresenta um conceito definitivo, mas extrai alguns aspectos através das aproximações conceituais: a ênfase na natureza, na história natural e nas culturas autóctones dos destinos caracterizados pela sua originalidade e autenticidade; a preocupação com os impactos socioambientais da atividade nos destinos e com a sustentabilidade dos recursos utilizados; a prioridade à geração de benefícios advindos da atividade para as comunidades locais e a preocupação com seu bem-estar; o apoio e engajamento nas ações de desenvolvimento conservacionista junto aos destinos; a opção pelo desfrute saudável e pela compreensão dos ambientes visitados via educação ambiental (PIRES, 2002, p. 149). Desta forma, mesmo “que ainda não exista um conceito ou definição de ecoturismo universalmente aceito, essa ausência não acarreta em prejuízo ou limitação para o seu desenvolvimento” (PIRES, 2000, p. 119), pois os elementos necessários para sua análise podem ser colhidos das várias conceituações existentes. Mesmo havendo aproximações conceituais e a constatação nas conceituações da necessidade de práticas sustentáveis, o ecoturismo sofreu influências capitalistas que o levaram a distorções, ocorrendo exploração indiscriminada e descontrolada de áreas consideradas ricas em recursos naturais. Muitas atividades oferecidas como ecoturísticas vêm causando danos muitas vezes irreversíveis nos locais onde são realizadas, afastando-se dos conceitos e princípios ecoturísticos. Existe, portanto, um paradoxo entre o conceito e grande parte das atuais práticas ecoturísticas, visto que através de um “ecoturismo” indiscriminado, ecossistemas inteiros estão sendo destruídos. No caso do Brasil, a rapidez com que os projetos ecoturísticos estão sendo implantados no país, com a utilização não planejada dos espaços naturais protegidos, produz como rebatimento a massificação do turismo ecológico, contraditoriamente a toda sua concepção filosófica. (SEABRA, 2001, p. 34 apud MAIA, 2005). Para Swarbrooke (2000, p. 61 apud MAIA, 2005), “em muitos casos o fenômeno do ecoturismo tem crescido tanto que chega a se aproximar dos piores aspectos do turismo do mercado de massa”. Sawarbrooke, como vários outros pesquisadores, aponta para incompatibilidade do ecoturismo com a massificação turística em ambientes naturais. Observa-se que, em muitos casos, o ecoturismo praticado atualmente tende a relacionar-se especificamente com interesses econômicos. Nesse contexto, o crescimento deste segmento turístico vem ocorrendo de forma desordenada, distanciando-se, de forma cada vez mais acentuada, das demais dimensões envolvidas (sociais, ambientais, culturais, territoriais entre outras) com esta modalidade, contrariando os princípios do desenvolvimento sustentável. Na prática do ecoturismo em bases sustentáveis – ao contrário do ecoturismo indiscriminado (convencional) - os impactos ambientais podem ser reduzidos, por exemplo, utilizando-se áreas, bases e estruturas do turismo rural existentes próximas às belezas naturais e, que na maioria das vezes, convivem em maior harmonia com o meio ambiente. Atualmente, o principal problema é identificar exatamente quais empreendimentos ecoturísticos estão seguindo os princípios da sustentabilidade. Deste modo, o conhecimento dos conceitos e princípios do ecoturismo pelas empresas e pela sociedade tende a contribuir no direcionamento dos programas e ações relacionadas à sustentabilidade ecoturística de determinada região. 3.2.2 Organizações turísticas e ecoturismo: uma relação de sustentabilidade Ao direcionar-se o estudo numa perspectiva organizacional para a atividade turística, pode-se levantar um grande número de organizações que interagem entre si e que possuem uma grande responsabilidade para com o bem-estar da sociedade, formando segmentos do trade turístico. Para compreender melhor as organizações empresariais envolvidas no turismo – especialmente as agências turísticas – e suas relações com a sociedade, é importante saber que, atualmente, os principais segmentos da sociedade com interesse no desenvolvimento do ecoturismo podem ser assim identificados: o trade turístico, ou seja, operadores, agências, promotores, empresas de viagens, hotelaria, guias, etc.; a área governamental e os organismos oficiais; as organizações não-governamentais da área ambiental e conservacionista articuladas a instituições de fomento e financiamento; as populações residentes nas destinações; o público turista; o meio acadêmico; a mídia. Cada um desses setores tende a conceber sua própria idéia de ecoturismo em função da sua relação e de seus interesses mediatos e imediatos sobre o tema (...) (PIRES, 2002, p. 140). Segundo Lemos (2001, p. 38-43 apud MAIA, 2005), a classificação dos agentes econômicos do turismo é composta da seguinte forma: 1. O governo da localidade receptora; 2. A comunidade receptora; 3. Os trabalhadores do setor; 4. As empresas de maneira geral – aqui estão incluídas todas as empresas da localidade receptora (...); 5. As empresas de hospedagem – são empresas de rede hoteleira, pousadas, condomínios de férias, time-sharings, resorts, imobiliárias que alugam e vendem imóveis, campings e casas de aluguel (...); 6. O sistema financeiro da localidade receptora; 7. As operadoras turísticas – estas empresas negociam a aquisição de diárias em hotéis, lugares em vôos ou fretamento aéreo (charter) e rodoviário. Montam roteiros, e seus produtos finais são chamados de “pacotes”, que são vendidos às agências e, eventualmente, diretamente aos turistas; 8. As empresas de transporte; 9. As agências de viagens – estas têm a função fundamental de ligar os turistas à oferta de produtos turísticos. É um canal de informação de preços e opções de visitas e seus roteiros; 10. Os turistas; 11. O sistema financeiro da localidade emissora; 12. Os governos das localidades emissoras. Aquelas organizações diretamente envolvidas na oferta do ecoturismo têm grandes responsabilidades, visto que o ambiente natural é seu maior aliado, e evitar a depleção do mesmo é o seu maior desafio. As agências e operadoras ecoturísticas também são diretamente responsáveis por suas ações, principalmente em locais de ecossistemas frágeis, pois se parte do princípio de que elas tornam-se responsáveis pela sustentabilidade da oferta local. A oferta do ecoturismo deve ser feita após uma minuciosa análise de seus impactos sobre o meio ambiente e a sociedade e de um planejamento em bases sustentáveis, até porque as práticas ecoturísticas são realizadas principalmente em montanhas e florestas, cuja importância para a sustentabilidade global é reconhecida até mesmo pela Agenda 21 Global3. Esta aborda, no capítulo 11, o combate ao desflorestamento, e no capítulo 13, o gerenciamento de ecossistemas frágeis. Estes capítulos são exclusivamente dedicados a estas fontes naturais de vida e de valiosos recursos. Wearing e Neil (2000, p. 37 apud MAIA, 2005) salientam que os efeitos negativos do ecoturismo são, em grande parte, decorrentes do fato de a visitação muitas vezes preceder a administração e o planejamento efetivos. Há, portanto, a necessidade de formular e implantar estratégias de planejamento adequadas para assegurar que a expansão futura do ecoturismo aconteça de acordo com os princípios do desenvolvimento sustentável. 3 A Agenda 21 é um programa de ações para o qual contribuíram governos e instituições da sociedade civil de 179 países, que constitui a mais ousada e abrangente tentativa já realizada de promover, em escala planetária, um novo padrão de desenvolvimento, conciliando métodos de proteção ambiental, justiça social e eficiência econômica. Na verdade, a Agenda 21, aprovada pelos países, tem a função de servir como base para que cada um desses países elabore e implemente sua própria Agenda 21 Nacional, compromisso, aliás, assumido por todos os signatários durante a ECO-92, realizada em 1992, no Rio de Janeiro. Quando se trata de sustentabilidade, principalmente em ambientes naturais, o planejamento tem um papel determinante no delineamento das ações junto ao meio ambiente. A aplicação desse planejamento ao ecoturismo pode contribuir para a redução dos impactos negativos sobre o meio ambiente, sobre as comunidades locais e suas economias. Entender os mecanismos que promovem a criação da infra-estrutura para o desenvolvimento e os requisitos políticos e institucionais básicos para o planejamento e para a administração do ecoturismo, pode assegurar que o turismo não ultrapasse sua base sustentável (WEARING e NEIL, 2000 apud MAIA, 2005). Apesar de a consciência ambiental e a ética dos praticantes do ecoturismo junto aos ambientes por eles visitados serem imprescindíveis, a maior responsabilidade está nas mãos das organizações turísticas como agências e operadoras. Suas práticas devem seguir um código de conduta ou um plano de ação (local) que vise a reduzir ou eliminar os impactos negativos sobre o meio ambiente e sobre a sociedade. Administrar estas organizações torna-se um grande desafio, pois mesmo dentro de cada uma existem interesses distintos no que se refere às atividades meios e fins da empresa. A sustentabilidade exige uma mudança de postura dos profissionais em relação ao meio ambiente e à sociedade, além de ter a própria sociedade que repensar seu estilo de vida, seus hábitos e valores. Pelo fato de o ecoturismo ser, em geral, uma atividade turística oferecida em pequena escala, sua oferta é feita, na maioria das vezes, por pequenas agências ou operadoras sem estrutura para suportar um grande número de clientes, limitando, assim, o capital de giro destas organizações, tornando-as bastante frágeis. Wearing e Neil (2000 , p. 35 apud MAIA, 2005) acrescentam que devido à pequena escala de operações, o apoio político, a estabilidade de mercado, os custos comerciais e o emprego não são tão sólidos quanto no turismo convencional. Contudo o tamanho limitado do grupo proporciona um experiência de maior qualidade para o turista. Ainda segundo estes autores, “é importante observar que, mesmo quando o ecoturismo é organizado para fornecer benefícios econômicos às áreas de proteção, essas áreas devem ser administradas, supervisionadas e controladas rigorosamente por medida de proteção” (WEARING e NEIL, 2000, p. 75 apud MAIA, 2005). Isto reforça a necessidade de um planejamento ecoturístico local de forma integrada, sistêmica, gerando uma maior influência das pequenas agências e operadoras ecoturísticas frente ao poder político local e uma maior solidez para as atividades consideradas de bases sustentáveis frente a complexidade do mercado. Ademais, vale ressaltar que a participação mais efetiva das organizações turísticas nas ações sociais e governamentais pode contribuir para a elaboração de planos de ação locais, legislações e normas municipais. CONCLUSÃO Torna-se, assim, necessária uma discriminação conceitual entre turismo sustentável e ecoturismo, embora existam interseções práticas entre estes dois conceitos distintos. Turismo sustentável é um modelo geral de planejar e gerir diferentes modalidades de turismo, tendo, em todas elas, a preocupação comum de não degradar os espaços em que o turismo ocorre, não degradar os espaços turísticos consumidos, sejam eles majoritariamente compostos por parcelas artificiais (construídas pelo homem) ou naturais (primeira natureza remanescente). Ecoturismo, por sua vez, é uma modalidade específica de turismo decorrente da segmentação crescente deste, e que tem, como atrativo de visitação, a permanência em espaços idealizados como intocados, com a predominância de paisagens e ambientes representados como reservas de primeira natureza. Em muitos casos, essa visitação pode ocorrer sem que se contemplem estruturas locais de suporte, ensejando, assim, que o número de turistas leve a que este “ambiente natural” tenda, a longo prazo, a ser degradado, perdendo, portanto, sua atratividade natural. Portanto, um ecoturismo sustentável tende a ser socialmente excludente, elitista. Por sua vez, as interseções práticas residem em duas considerações. Tradicionalmente, o crescimento do turismo de massa não levou em conta o componente da sustentabilidade ambiental em seu planejamento, mesmo porque este começou a acontecer numa época em que as preocupações ambientais não estavam nas agendas de planejamento e de desenvolvimento. Deste modo, este crescimento tendeu a provocar irrecuperáveis impactos negativos nos ambientes receptivos, o que constitui grande problema nos centros urbanos e nas áreas rurais já bastantes tecnificadas. Já nas áreas rurais tradicionais, conjugam-se a possibilidade de maior persistência de recursos e belezas naturais com as virtualidades de construir estruturas de suporte com mínimos impactos negativos, dirigidas a uma regulada visitação, de modo a preservar sua natural atratividade original. Deste modo, em ambientes ainda pouco transformados, torna-se mais fácil empreender mínimas intervenções técnicas, economicamente transformadoras. Com isso, fica operacionalmente também mais fácil compatibilizar visitação com não degradação. Contrariamente, em ambientes densamente tecnificados, rurais ou urbanos, a sustentabilidade relativa àquela conjugação exigiria mais custosas e complexas intervenções. Por tudo isso, então, o ecoturismo pode ser visto como alternativa turística de desenvolvimento sustentável, economicamente menos custoso e mais rentável, contando para isso com uma coordenação pública. No estado do Ceará, o que vem ainda acontecendo prioritariamente é, no mínimo, uma distorção nessas práticas. Apesar de a mesma ser idealmente pautada pelos princípios da preservação ambiental, ela vem sendo operada por modelos semelhantes aos das demais atividades produtivas tradicionalmente constituídos, que priorizam os interesses econômicos de curto prazo, em detrimento das demais dimensões da sustentabilidade, especialmente relativas à preservação do meio ambiente, à escala geográfica e ao envolvimento da população local. Enfim, para que o ecoturismo não abra mão das dimensões e princípios da sustentabilidade, torna-se imprescindível que haja uma mudança de postura dos planejadores e promotores territoriais, além de ter a própria sociedade que repensar seu estilo de vida, seus hábitos e valores. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ANSARAH, Marília Gomes dos Reis. Turismo: segmentação de mercado. São Paulo: Futura, 1999. BENEVIDES, Ireleno Porto. Turismo e PRODETUR: dimensões e olhares em parceria. Fortaleza: BNB, 1998. CORIOLANO, Luzia Neide M. T. Turismo com ética. Fortaleza: UECE, 1998. 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