IV SEMANA INTERNACIONAL DE PEDAGOGIA - SIP Centro Cultural e de Exposições Ruth Cardoso De 21 a 25 de Novembro de 2015 Maceió - Alagoas - Brasil I SEMINÁRIO LUSOBRASILEIRO DE EDUCAÇÃO INFANTIL - SLBEI Colegiado de Pedagogia UFAL Centro Acadêmico Paulo Freire - CAPed ISSN: 1981 - 3031 ENSINO DE SOCIOLOGIA E PERFIL DOCENTE NO CONTEXTO DO ENSINO MÉDIO BRASILEIRO Júlio Cezar Gaudencio1 Jordânia de Araújo Souza2 RESUMO A presente proposta objetiva fomentar uma discussão acerca dos possíveis impactos sobre o processo de ensino-aprendizagem de alunos de sociologia do ensino médio brasileiro, no que tange a maneira como os conteúdos têm sido ministrados e trabalhados em sala de aula, ponderando que os conhecimentos de cunho sociológicos permitiriam ajudar no desenvolvimento e na formação do senso crítico destes alunos sobre questões cotidianas. Neste sentido, considerando-se que o perfil de professores que têm atuado na disciplina de sociologia é imprescindível para a elaboração de tal analise e destacando que no Brasil, diferentemente de outros países da América Latina, tal disciplina não foi introduzida, inicialmente, no ensino superior, mas na educação básica, o que de certo modo contribui para a constituição de um contexto no qual o maior número de professores que atuam nesta área não possua formação específica; a elaboração de tal proposta de reflexão, mesmo que ainda em seu estágio inicial, se justifica na medida em que propõe problematizar de que forma é possível verificar os efeitos desse cenário no que tange ao processo de formação educacional e social dos alunos. Tal esforço, do ponto de vista metodológico, demanda a necessidade da adoção de uma abordagem qualitativa, a qual, a partir das informações disponibilizadas pelas agências governamentais que produzem os relatórios sobre a educação no país, busca, de forma dedutiva, problematizar os efeitos que este cenário pode gerar na maneira como os conteúdos e temáticas estão sendo trabalhadas pelos atuais professores de sociologia no ensino médio. Assim, partindo de uma preocupação na qual é preciso pensar as dinâmicas que interferem na construção dos processos identitários e de autonomização dos alunos, aqui concebidos como dotados de potencialidades de participação ativa, no que diz respeito aos seus contextos educacionais e sociais; além das questões que tratam das trajetórias pessoais e familiares dos alunos e sua relação com as potencialidades de sucesso acadêmico, considerando inclusive, as vivências fora do contexto escolar e sua incidência sobre o comportamento destes (Bourdieu, Elias, Foucault, dentre outros), ressaltamos que seria de fundamental importância pensar o papel do professor de sociologia, destacando-se o perfil de formação deste profissional, percebido enquanto sujeito ativo na mediação de tais processos. PALAVRAS-CHAVE: Ensino de Sociologia. Perfil Docente. Ensino-Aprendizagem. Ensino Médio. Brasil. 1 INTRODUÇÃO O presente trabalho tem como objetivo lançar mão de algumas questões importantes no que se refere aos contextos das discussões e problematizações em torno da institucionalização da Sociologia enquanto componente curricular das escolas de Ensino Médio sejam elas públicas e privadas. 1 Doutor em Ciência Política, professor do Instituto de Ciências Sociais (ICS) e Coordenador do Curso de Licenciatura em Ciências Sociais – Licenciatura, junto ao ICS/UFAL. E-mail: [email protected]. 2 Mestre em Ciências Sociais, doutoranda em Antropologia e professora do Instituto de Ciências Sociais (ICS). E-mail: [email protected]. 1 IV SEMANA INTERNACIONAL DE PEDAGOGIA - SIP Centro Cultural e de Exposições Ruth Cardoso De 21 a 25 de Novembro de 2015 Maceió - Alagoas - Brasil I SEMINÁRIO LUSOBRASILEIRO DE EDUCAÇÃO INFANTIL - SLBEI Colegiado de Pedagogia UFAL Centro Acadêmico Paulo Freire - CAPed ISSN: 1981 - 3031 Com essa finalidade, um aspecto que se mostra como apresentando uma importância considerável nesse contexto, é justamente o problema do reduzido número de professores que atuam nas escolas de Ensino Médio, junto às disciplinas de Sociologia, e que possuem formação específica na área. Principalmente se considerarmos que o próprio Plano Nacional de Educação (PNE/2011-2020) coloca como uma de suas metas (Meta 15) que a intenção é ampliar ao máximo possível o número de professores com licenciatura nas áreas/disciplinas em que atuam. Essa informação é importante, justamente porque, tal realidade acaba por gerar um contexto no qual tanto a discussão/reflexão em torno dos temas e questões que seriam tratados na disciplina de Sociologia, pode ser comprometida pela falta de especialização; como o próprio papel da Sociologia, a quem se atribui uma função emancipatória ou mesmo compreensiva das dinâmicas da vida em sociedade, podendo assim fomentar as condições para o desenvolvimento do senso crítico e do cidadão mais atuantes, acaba por ser minimizado. Neste sentido, é a partir dessas questões que iremos tratar a partir de agora. 2 O PERFIL DOS PROFESSORES DE SOCIOLOGIA NO ENSINO MÉDIO: O CASO DO BRASIL O Plano Nacional de Educação (PNE – 2011/2020) em sua Meta 15, e a qual se refere, especificamente, ao processo de formação profissional de professores, fala em Garantir, em regime de colaboração entre a União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios, no prazo de 1 ano de vigência deste PNE, política nacional de formação dos profissionais da educação de que tratam os incisos I, II e III do caput do art. 61 da Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, assegurado que todos os professores e as professoras da educação básica possuam formação específica de nível superior, obtida em curso de licenciatura na área de conhecimento em que atuam (BRASIL, 2011, p. 43). Todavia, embora possa se observar, conforme dados da Tabela 1, o aumento nos percentuais de professores que atuam no Ensino Médio e que possuem licenciatura na área na qual atuam, principalmente se considerados os anos de 2009 2 I SEMINÁRIO LUSOBRASILEIRO DE EDUCAÇÃO INFANTIL - SLBEI IV SEMANA INTERNACIONAL DE PEDAGOGIA - SIP Centro Cultural e de Exposições Ruth Cardoso De 21 a 25 de Novembro de 2015 Maceió - Alagoas - Brasil Colegiado de Pedagogia UFAL Centro Acadêmico Paulo Freire - CAPed ISSN: 1981 - 3031 (21%) e 2011 (47%), ano de publicação do PNE, esse percentual em termos nacionais, ainda é inferior a 50%. Situação que tende a se reproduzir nas realidades de cada estado. TABELA 1 – Professores do Ensino Médio que Possuem Licenciatura na Área que Atuam (2009-2013) Com Com Curso Com Ano Total Licenciatura na Superior Licenciatura Área que Atuam 2009 100% 479.471 89,9% 431.228 39,1% 187.605 21% 100.561 2010 100% 492.577 89,7% 441.837 40,7% 200.570 22,1% 108.930 2011 100% 621.103 91,4% 567.906 69,9% 434.408 41,7% 258.976 2012 100% 602.866 94,1% 567.223 77,8% 469.020 47,2% 284.719 2013 100% 613.744 95,3% 584.913 77,9% 478.224 48,3% 296.597 Fonte: Mec/Inep/DEED/Censo Escolar Essa tendência de baixos percentuais, também é observada quando verificada a proporção de professores de sociologia do Ensino Médio por área de atuação de formação, informação esta que para o presente momento, se mostra de maior importância, dados os objetivos do presente trabalho. O qual seja avaliar os impactos desse baixo percentual de professores de sociologia com formação na área de atuação, sobre as dinâmicas de ensino-aprendizagem e no que se refere à formação de alunos ativos frente a seus contextos educacionais e sociais. Conforme nos apresenta o Gráfico 1, e tendo como base os dados disponibilizados pelo Censo Escolar relativos ao ano de 2012, apenas o estado do Amapá possuía naquele ano, mais de 50% dos professores de sociologia no Ensino Médio com formação na área e a grande maioria dos demais estados apresentam uma proporção muito baixa. O que significa dizer que, outros profissionais, com áreas de atuação as mais diversas, estão lecionando Sociologia no Ensino Médio. Esses profissionais, em geral, são formados em Pedagogia, História, Filosofia, Geografia, Direito, Letra, Matemática, Física, Química, etc. Suas atuações se dão como forma de complementação de suas respectivas cargas horárias. É bem verdade que o inverso também ocorre com os professores de Sociologia, os mesmos também são convocados a ministrarem aulas de outras disciplinas para 3 I SEMINÁRIO LUSOBRASILEIRO DE EDUCAÇÃO INFANTIL - SLBEI IV SEMANA INTERNACIONAL DE PEDAGOGIA - SIP Centro Cultural e de Exposições Ruth Cardoso De 21 a 25 de Novembro de 2015 Maceió - Alagoas - Brasil Colegiado de Pedagogia UFAL Centro Acadêmico Paulo Freire - CAPed ISSN: 1981 - 3031 complementação de sua carga horária. Principalmente, se consideramos que em geral, as aulas de sociologia ocorrem uma vez por semana, em aulas que duram em média 50 minutos em escolas públicas. Fonte: Censo Escolar 2012/Inep 1 A partir de tais informações, ao menos uma questão primordial se apresenta. Que fatores estariam diretamente atuando sobre a constituição de tal cenário? É preciso atentar para os aspectos particulares que acabam por se identificados como específicos do ensino de Sociologia e os quais estão diretamente vinculados à própria história e processo de institucionalização do mesmo. Bem como das dinâmicas que envolvem a desvalorização e deslegitimação pelos quais, em geral, passam os cursos de Licenciatura em Ciências Sociais. Questões que serão tratas no tópico seguinte. 3 ENSINO DE SOCIOLOGIA: FATORES QUE IMPORTAM Inegavelmente, uma melhor compreensão acerca do cenário apresentado anteriormente, especificamente no que se refere ao contexto dos professores de Sociologia, depende necessariamente, de uma reflexão sobre o próprio processo de inclusão da Sociologia nos currículos do Ensino Médio. Mas, é preciso que tal reflexão não mais se realize de forma a considerar de maneira dissociada/desarticulada duas dimensões bastante articuladas nesse processo, 4 IV SEMANA INTERNACIONAL DE PEDAGOGIA - SIP Centro Cultural e de Exposições Ruth Cardoso De 21 a 25 de Novembro de 2015 Maceió - Alagoas - Brasil I SEMINÁRIO LUSOBRASILEIRO DE EDUCAÇÃO INFANTIL - SLBEI Colegiado de Pedagogia UFAL Centro Acadêmico Paulo Freire - CAPed ISSN: 1981 - 3031 quais sejam, o Ensino Superior – pensando aqui os cursos de Ciências Sociais – e o Ensino Médio. Isso porque, na medida em que se é possível considerar que, parte desse contexto em que se verifica a presença de poucos professores de Sociologia no Ensino Médio com formação específica, pode ser o resultado das intermitências que foram características do processo de institucionalização da Sociologia nos currículos do Ensino Médio (FERNANDES, 1980; GIGLIO, 1999; GUELFI, 2001; MACHADO, 1987; MACHADO, 1996; MEKSENAS, 1995; SILVA, 2006). Paralelamente, conforme nos apresenta Silva (2010, p. 25) “a intermitência da Sociologia nos currículos do Ensino Médio foi acompanhada da intermitência nas reflexões no interior da comunidade das Ciências Sociais, provocando um mal-estar com relação à licenciatura”. No entanto, dado o papel que desempenham nesse processo, vale destacar ao menos, cinco marcos principais em relação à história/trajetória da Sociologia enquanto disciplina componente da Educação Básica no Brasil. Primeiramente, o período que vai de 1840 a 1930, em que concorrem a busca pela cientificização sobre a sociedade e a inclusão da Sociologia nos cursos de Direito, de formação de militares e nas escolas secundárias. O que só ocorreu efetivamente, após a Reforma Benjamim Constant de 1890 com a instituição do ensino de Sociologia e Moral nas Escolas do Exército, mas estendendo-se posteriormente, a todos os níveis e modalidade de ensino. Contudo, tal reforma não foi efetivada, levando a Sociologia a ser retirada dos currículos dos Ginásios e do Ensino Secundário. E apenas com a Reforma de João Luis Alves-Rocha (após 1925), a Sociologia foi incluída nas Escolas Normais e na Escola Secundária. Sendo este um passo para a institucionalização da mesma no sistema de ensino. Já uma segunda fase que remete ao contexto entre os anos de 1931 e 1941 remete ao contexto de configuração do ensino de Sociologia na Escola Secundária e no Ensino Superior. Compõem esse período a Reforma Francisco Campos (1931) que, a partir da reorganização do Ensino Secundário (estruturada em um ciclo de cinco anos), inclui a Sociologia como disciplina obrigatória do 2º ano dos três cursos complementares, a Criação da Escola Livre de Sociologia e Política de São Paulo (1933), a Fundação da Universidade de São Paulo (1934), a Introdução da disciplina 5 IV SEMANA INTERNACIONAL DE PEDAGOGIA - SIP Centro Cultural e de Exposições Ruth Cardoso De 21 a 25 de Novembro de 2015 Maceió - Alagoas - Brasil I SEMINÁRIO LUSOBRASILEIRO DE EDUCAÇÃO INFANTIL - SLBEI Colegiado de Pedagogia UFAL Centro Acadêmico Paulo Freire - CAPed ISSN: 1981 - 3031 de Sociologia no curso normal do Instituto Estadual de Educação de Florianópolis (1935) e a Reforma Capanema (1942) que retira a obrigatoriedade da Sociologia nos cursos secundários, excetuando-se apenas o curso normal. O período de 1942 a 1964, por sua vez, foi caracterizado por certa inflexão da Sociologia nas escolas secundárias e uma ampliação dos espaços de pesquisa e ensino nas universidades e centros de educação criados e patrocinados por governos de âmbito estadual e federal. Se estendendo durante os anos da ditadura militar (1964-1981). Por fim, temos o período que vai de 1982 a 2001, caracterizado pela reinserção gradativa da Sociologia no Ensino Médio, até o momento do veto presidencial no ano de 2001, do projeto de lei do Deputado Padre Roque, o qual torna obrigatório o ensino de Sociologia e Filosofia em todas as escolas públicas e privadas (SILVA, 2010). O que chamamos aqui de quinto marco corresponde ao período de 2004 até os dias atuais. Naquele ano uma equipe de profissionais que atuam na área de ensino de Ciências Sociais foi articulada para reformular os PCNEM (Parâmetros Curriculares Nacionais para o Ensino Médio), a partir de tal atuação um parecer foi elaborado e encaminhado ao Conselho Nacional de Educação que aprovou o parecer tornando as disciplinas de Sociologia e Filosofia componentes curriculares obrigatórios em ao menos uma das series do Ensino Médio. Mesmo com a aprovação por parte do CNE, muitos estados questionaram a medida e resistiram a incluir as disciplinas. Diante deste cenário observou-se um movimento de pressão, liderado pelo Sindicato dos Sociólogos de São Paulo, pela aprovação da lei que obriga o ensino de Sociologia e Filosofia nas três series do Ensino Médio, o que culminou com a assinatura do Presidente da República em exercício, José de Alencar, da lei nº 11.684, que altera o art. 36 da lei nº 9.394/96 que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, e inclui as disciplinas de Sociologia e Filosofia como disciplinas obrigatórias nos currículos do Ensino Médio. Assim sendo, este é cenário atual, embora, estejamos tratando de um contexto ainda de profunda instabilidade quanto à manutenção e permanência da mesma. De fato, conforme é possível supor por dedução, tais intermitências acabaram por influenciar de forma expressiva o contexto atual de um número reduzido de professores de Sociologia com formação na área. Haja visto que, isso acabou por 6 I SEMINÁRIO LUSOBRASILEIRO DE EDUCAÇÃO INFANTIL - SLBEI IV SEMANA INTERNACIONAL DE PEDAGOGIA - SIP Centro Cultural e de Exposições Ruth Cardoso De 21 a 25 de Novembro de 2015 Maceió - Alagoas - Brasil Colegiado de Pedagogia UFAL Centro Acadêmico Paulo Freire - CAPed ISSN: 1981 - 3031 produzir um contexto no qual a formação docente se voltasse, quase que exclusivamente, para a atuação junto ao ensino superior, ainda assim, muitas vezes a partir de uma dinâmica de valorização dos cursos de bacharelado em Ciências Sociais, em detrimento dos cursos de Licenciatura. Obviamente, é preciso também ressaltar que a Sociologia surge no Ensino Médio, antes mesmo que tivessem surgidos os cursos superiores em Ciências Sociais, o que, em contextos iniciais, leva a uma situação na qual os postos de professores de Sociologia fossem ocupados por médicos, advogados e outros profissionais que possuíam algum tipo de proximidade com esse campo de conhecimento. No entanto, no contexto atual, é preciso considerar o impacto maior exercido pelas intermitências próprias da dinâmica de institucionalização da disciplina e da prática docente, e mesmo do ensino, enquanto espaços legítimos dentro do contexto mais amplo das Ciências Sociais, e no qual a formação bacharelesca acabou ocupando um lugar diferenciado, caracterizado pelo maior destaque, inclusive a partir da ênfase dada à contraposição fortemente equivocada entre ensino e pesquisa, na produção e mentalidade das Ciências Sociais brasileira. Cabe agora problematizar, quais são os efeitos que a não formação em área específica pode acarretar quanto às questões de cunho pedagógico, especificamente no que se referem às dinâmicas de ensino-aprendizagem. Bem como as possibilidades de que a Sociologia, a partir da reflexão sobre determinadas questões e temáticas, possa desempenhar um papel de mediação na compreensão e atuam junto aos contextos sociais e escolares nos quais alunos e professores estão inseridos. 4 FORMAÇÃO DE PROFESSOR E ENSINO DE SOCIOLOGIA: CONSIDERAÇÕES EM TORNO DA PRÁTICA PEDAGÓGICA A partir de uma reflexão que tem como base a obra de Bernad Charlot, Giolo (2011) destaca a apropriação feita pelo primeiro da educação, enquanto “um ato político” e os sentidos que ela assume, na medida em que: 1) Educação transmite modelos sociais que são diferentes para cada grupo social a que as crianças pertencem, de sorte que, 7 I SEMINÁRIO LUSOBRASILEIRO DE EDUCAÇÃO INFANTIL - SLBEI IV SEMANA INTERNACIONAL DE PEDAGOGIA - SIP Centro Cultural e de Exposições Ruth Cardoso De 21 a 25 de Novembro de 2015 Maceió - Alagoas - Brasil Colegiado de Pedagogia UFAL Centro Acadêmico Paulo Freire - CAPed ISSN: 1981 - 3031 ao confirmar esses modelos, a escola sedimenta a organização social, o que, em última análise, é uma atividade política; 2) a educação forma a personalidade com base em normas e valores presentes na própria estrutura social, fazendo com que as crianças introjetem os mecanismos psíquicos de identificação com o seu grupo e de sublimação da carências, mesmo que estas derivem da injustiça e da dominação de classe; 3) a educação difunde ideias políticas (de sociedade, justiça, liberdade, igualdade etc.), com as quais a classe dominante consegue fazer passar como legítimos os seus ideias de vida social; 4) a educação é encargo da escola que é, como tantas outras, uma instituição social que se move no contexto das regras gerais da sociedade (GIOLO, 2011, p. 3334). Tais aspectos se apresentam como relevantes, na medida em que, ao mesmo tempo em que percebe que os mesmos são característicos do contexto escolar, salienta a expectativa de que a escola/educação atue enquanto instrumento de transformação da vida social. Inclusive, sendo a ela atribuída, a função de atenuar as desigualdades presentes nos diferentes contextos sociais. Nesse sentido, a partir do Parecer CNE/CEB nº 38/2006, acabou sendo atribuída, de modo particular a Sociologia, enquanto componente curricular do Ensino Médio, a tarefa de promover uma reflexão crítica voltada à cidadania. De modo a permitir aos jovens/alunos, pensar sobre o seu lugar na sociedade, incluindo-se aqui questões relativas a processos identitários, e sua capacidade de transformá-la. Notadamente, é importante pensar, como parte integrante dessa questão como os professores de Sociologia percebem essa relação entre o ensino de Sociologia e a formação de um cidadão crítico. No entanto, em termos do que vem sendo proposto pelo presente trabalho, outro aspecto que também deve ser ressaltado, é de que forma, a formação dos professores que ministram a disciplina de Sociologia no Ensino Médio, que conforme observamos, em sua maioria não é na 8 IV SEMANA INTERNACIONAL DE PEDAGOGIA - SIP Centro Cultural e de Exposições Ruth Cardoso De 21 a 25 de Novembro de 2015 Maceió - Alagoas - Brasil I SEMINÁRIO LUSOBRASILEIRO DE EDUCAÇÃO INFANTIL - SLBEI Colegiado de Pedagogia UFAL Centro Acadêmico Paulo Freire - CAPed ISSN: 1981 - 3031 área de sua atuação, permite ou inviabiliza esse potencial reflexivo/crítico e transformador atribuído à mesma. Embora a proposta não seja estabelecer uma dicotomia em termos daqueles que são formados em ciências sociais e os que não, é preciso considerar que do ponto de vista hermenêutico, a formação em ciências sociais poderia permitir uma transcendência crítica daquilo que se reifica enquanto tradição (HABERMAS, 1982; 2009). Ou seja, na medida em que a importância da Sociologia está de certa forma atrelada, mesmo que de forma não determinante, à construção do pensamento crítico associado à compressão da sociedade, esse esforço deve ser percebido enquanto necessariamente embasado pelos conhecimentos sociológicos, via o estudo de temas, conteúdos e teorias devidamente articulados. E nesse sentido, a formação do professor é importante. Na verdade, é vista como necessária, uma vez que forneceria elementos que melhor permitiriam lidar com os desafios ora postos, no que se refere às questões didático-metodológicas, a exemplo, das necessidades de adequação da linguagem sociológica. Muito embora, este também se apresente como uma questão para os que possuem formação na área, dadas as características da formação dos licenciados em Ciências Sociais. É bem verdade que a contribuição da Sociologia e sua incorporação ao currículo do Ensino Médio, esta além da possibilidade de formação crítica para a cidadania. A mesma contribuiria para a construção ou viabilização do “olhar sociológico”, um olhar diferenciado e fundamentado sobre o mundo ao seu redor, tentando superar assim, os limites do senso comum (FERREIRA, 2012). É pensando este contexto apresentado que consideramos relevante a problematização acerca do perfil de atuação dos professores de Sociologia no Ensino Médio no Brasil, buscando viabilizar uma reflexão em torno de que medidas podem ser tomadas para que a disciplina cumpra cada vez mais de forma adequada seu papel na formação dos indivíduos. 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS 9 IV SEMANA INTERNACIONAL DE PEDAGOGIA - SIP Centro Cultural e de Exposições Ruth Cardoso De 21 a 25 de Novembro de 2015 Maceió - Alagoas - Brasil I SEMINÁRIO LUSOBRASILEIRO DE EDUCAÇÃO INFANTIL - SLBEI Colegiado de Pedagogia UFAL Centro Acadêmico Paulo Freire - CAPed ISSN: 1981 - 3031 O presente trabalho objetivou realizar uma discussão em torno dos possíveis efeitos que podem ser identificados, em função de um contexto que é bastante representativo do contexto brasileiro, e que se estende a particularidade de cada estado, o qual seja, o número bastante reduzido de professores de Sociologia que atuam no Ensino Médio com formação na área de atuação. Principalmente, pensar as limitações que podem ser identificadas do ponto de vista tanto da viabilidade de uma atuação didático-pedagógica quanto à “tradução” das teorias, conceitos, metodologias e aparato reflexivo próprio das Ciências Sociais, mas acima de tudo, tornar a Sociologia, enquanto componente curricular obrigatório, uma ferramenta no processo de mediação no que se refere às possibilidades, por parte dos jovens/alunos de compreensão dos seus contextos sociais, educacionais e familiares, suscitando a possibilidade de construção de um olhar crítico desses contextos, viabilizando assim transformações e mudanças necessárias a resolução de problemas como a institucionalização da igualdade dentre tantos outros. No entanto, não se trata de uma tentativa de estabelecer antagonismos entre os que ministram a disciplina de Sociologia e não tem formação na área e os que possuem. Contrariamente, o que se pretende é justamente, chamar a atenção para a necessidade de se pensar ações que permitam a aqueles que já atuam como professores e não são da área uma complementação de sua formação que viabilize uma atuação, permitindo que a disciplina, possa sim cumprir um papel diferencial junto aos contextos escolares. E também pensar que, mesmo aqueles professores que foram alunos egressos dos cursos de Ciências Sociais, especificamente dos cursos de licenciatura, ainda enfrentam, na maioria das vezes, contextos profundamente desafiadores, quanto aos incentivos e mecanismos que permitam a estes e a própria Sociologia no Ensino Médio uma atuação qualificada. REFERÊNCIAS BRASIL. Projeto de Lei do Plano Nacional de Educação (PNE 2011/2020): projeto em tramitação no Congresso Nacional / PL nº 8.035 / 2010. Brasília: Câmara dos Deputados, Edições Câmara, 2011. 106 p. FERNANDES, Florestan. A Sociologia no Brasil. Petrópolis: Vozes, 1980. 10 IV SEMANA INTERNACIONAL DE PEDAGOGIA - SIP Centro Cultural e de Exposições Ruth Cardoso De 21 a 25 de Novembro de 2015 Maceió - Alagoas - Brasil I SEMINÁRIO LUSOBRASILEIRO DE EDUCAÇÃO INFANTIL - SLBEI Colegiado de Pedagogia UFAL Centro Acadêmico Paulo Freire - CAPed ISSN: 1981 - 3031 FERREIRA, Fabiana. A Sociologia no Ensino Médio: concepção de professores sobre formação crítica para a cidadania. Estudos de Sociologia, v. 2, n. 18, 2012. Disponível em: <http://www.revista.ufpe.br/revsocio/index.php/revista/rt/printerFriendly/73/57>. Acesso em: 5 de set de 2015. GIGLIO, Adriano Carneiro. A Sociologia na Escola Secundária: uma questão das Ciências Sociais no Brasil - Anos 40 e 50. 1999. 88 f. Dissertação (Mestrado em Sociologia) – Iuperj, Rio de Janeiro, 1999. GIOLO, Jaime. Bernard Charlot: a educação mobilizadora. In REGO, Teresa Cristina (Org.). Educação, Escola e Desigualdade. Petrópolis: Vozes; São Paulo: Revista Educação; Editora Sarmento, 2011 (Coleção Pedagogia Contemporânea, v. 1). GUELFI, Wanirley Pedroso. A Sociologia como disciplina Escolar no Ensino Secundário Brasileiro: 1925-1942. 2001. 194 f. Dissertação (Mestrado em Educação) – Setor de Educação da Universidade Federal do Paraná, Curitiba, 2001. HABERMAS, Jünger. Conhecimento e interesse. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1982. ______. Lógica das Ciências Sociais. Petrópolis: Vozes, 2009. MACHADO, Celso de Souza. O Ensino da Sociologia na escola secundária brasileira: levantamento preliminar. Revista da Faculdade de Educação, São Paulo, v. 13, n. 1, p. 115-142, 1987. MACHADO, Olavo. O Ensino de Ciências Sociais na Escola Média. 1996. 199 f. Dissertação (Mestrado em Educação) – Faculdade de Educação, Universidade de São Paulo, São Paulo, 1996. MEKSENAS, P. O Ensino de Sociologia nas Escolas Secundárias. Revista Leituras e Imagens. GP Sociologia da Educação. Florianópolis: UDESC, 1995. MORAES, Amaury César. Licenciatura em Ciências Sociais e Sociologia. Tempo Social, São Paulo, v. 15, n. 1, p. 5-20, maio 2003. SILVA, Ileizi Luciana Fiorelli. Das fronteiras entre ciência e educação escolar: as configurações do ensino das ciências sociais no Estado do Paraná (19702002). Tese de doutorado. Universidade de São Paulo. FFLCH, 2006. ______. O Ensino das Ciências Sociais/Sociologia no Brasil: histórico e perspectiva. In MORAES, Amaury César (Coord.). Sociologia: ensino médio. Brasília: Ministério da Educação, Secretária de Educação Básica, 2010. (Coleção Explorando o Ensino; v. 15). 11