XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012
O MEU LUGAR, A MINHA CASA, DO MEU JEITO, A MINHA GEOGRAFIA:
GEOGRAFIA ESCOLAR E A PRODUÇÃO DE CURTAS-METRAGENS
Rafael Cardoso de Mello/CEUBM/CIER-UNESP/ELO-USP
Estamos em um contexto desgostoso para a Geografia nos bancos das escolas. Os
professores de Geografia o são por falta de opção e os alunos não enxergam valor nas
aulas. Para somar o problema, a formação deste professor não inspira confiança para os
pesquisadores em Geografia Escolar, dado a continuidade do olhar especializado de
suas graduações e a (falsa) crença de que a Ciência Geográfica impera sobre os
conteúdos ministrados em sala de aula. Se o cenário é negativo, as ações que o
combatem são múltiplas. Neste artigo salientamos um grande conjunto de iniciativas
dos profissionais da área de Ensino de Geografia que tentam, cada qual ao seu modo,
criar meios de sanar os problemas da Geografia Escolar. Em especial, objetivamos
analisar as possibilidades que a produção de curtas-metragens carrega quando está
relacionada ao ensino de Geografia.
Prática de ensino de geografia; Formação do professor; Ensino de Geografia; Curtasmetragens.
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“Em pedagogia, a moda significa quase sempre... a vontade de mudar para que tudo
fique na mesma! Ora, neste mundo marcado pela velocidade das comunicações e da
disseminação das idéias, neste mundo invadido por uma inflação tecnológica sem
precedentes, é preciso que os professores aprendam a cultivar um ceticismo saudável,
um ceticismo que não é feito de descrença ou de desencanto, mas antes de uma
vigilância crítica em relação a tudo quanto lhes é sugerido ou proposto. A inovação só
tem sentido se passar por dentro de cada um, se for objecto de um processo de reflexão
e de apropriação pessoal.” (Antônio Nóvoa, Relação escola-sociedade: novas respostas
para um velho problema, 2003, p.44)
O que faz um professor de geografia em sala de aula?
Inicio este texto com uma pergunta: o que faz um professor de geografia em
sala de aula? Concordando com o professor Antonio Nóvoa (2003, p.37), devemos
compreender que a ação do professor em sala de aula (independente da área do
conhecimento em que está ligado) leva em conta uma mistura de vontades, gostos,
experiências e também acasos, materializando e cristalizando ao longo do tempo gostos,
rotinas, comportamentos que levam cada qual se encontrar na sua prática docente.
Se todos os professores tem seus hábitos e cotidianos construídos pelas
experiências individuais, como podemos transferir esta compreensão para os professores
de geografia? De que forma a Geografia vem sendo lecionada nas escolas?
Sabemos que das aulas de Geografia espera-se um conjunto grande de
responsabilidades: ler o mundo é fundamental para exercermos cidadania, ler o mundo
aprendendo a ler o mundo, escrever o mundo aprendendo a escrever o mundo
(CALLAI, 2005, p.228), uma forma de ler o mundo é ler o espaço. Nos primeiros anos
da formação escolar, aprender a pensar o espaço se faz como um objetivo central da
Geografia (CALLAI, 2005, p.229) Para isso, é preciso que o professor dê condições
para a criança ler o espaço e aprender a pensar sobre o mesmo. (CASTELAR, 2000,
p.30).
Contudo, a geografia na escola vem sendo tratada de maneira desprestigiada,
contribuindo muito pouco com a leitura do espaço e possibilitando menos ainda a
alfabetização cartográfica. Neste sentido, a Geografia tradicional ainda se faz presente
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nas salas de aula, exigindo dos alunos um compromisso com a enumeração de dados,
informações, capitais e estados, números, gráficos e tabelas, que para além de
corroborarem com o pouco auxílio no processo de ensino ajudam a distanciar os alunos
da disciplina e de seus objetivos. (CALLAI, 2005)
A formação do professor também interfere na relação professor-aluno. Por
vezes, o professor se vê obrigado, frente aos problemas disciplinares, encher o quadro
negro de conteúdo e forçar um ensino tradicional jesuíta que colabore com o
“necessário silêncio”. (KAERSCHER, 2004, p.203)
Quando não são os desdobramentos desta formação do professor de geografia,
outros fatores de ordem epistemológica também interferem na leitura do espaço.
Algumas idéias deturpadas das categorias espaciais ou das relações entre o local e
global, fazem das aulas de geografia, um momento de percepção equivocada do mundo
vivido pelo próprio aluno – como os círculos concêntricos, círculos hierarquizados que
colocam os grandes centros urbanos superiores aos demais centros de médio e pequeno
porte, descaracterizando as permissividades e negociações do local, como preconizou
Milton Santos, em A natureza do espaço – “Cada lugar é, a sua maneira, o mundo”
(SANTOS, 1996, p.213), todo lugar, não apenas os economicamente dominantes.
Diniz (1998, p.102) e Kaersher (2004, p.215) apontam para uma direção
interessante nesta questão – o desinteresse em licenciar-se em Geografia e trabalhar
como professor no Ensino Fundamental e Médio. São algumas variantes: a
desvalorização do professor do EFM, a procura pelo Bacharelado e pelas bolsas de
iniciação a pesquisa na graduação, a especialização do olhar geográfico ainda precoce
nestes alunos de graduação que rapidamente se enxergam como futuros mestrando e
doutorandos, capazes de realizar o sonho de se tornarem professores-pesquisadores
universitários. As próprias graduações de Geografia se inclinam a este movimento em
prol da pesquisa e do status do pesquisador, criando possibilidades para a especialização
e não para um olhar geográfico mais generalista, permissivo, capaz de compreender as
nuances da complexidade do espaço, próprio do professor do EFM. Os dois professores
citados (Diniz e Kaescher) são claros ao afirmar que muitos professores de geografia
estão na sala de aula por falta de opção! (KAERSCHER, 2004, p.216)
Dos problemas levantados, talvez o último (especialização do olhar
geográfico) seja o mais difícil de ser combatido. Está para além de uma proposta
docente ou de uma formação continuada, mas sim a formação do professor em sua
graduação e a gestação destes conhecimentos geográfico e cartográfico que passam por
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outras mazelas, como a construção curricular da disciplina e os egos inflados da
academia (CAVALCANTE, 2008, 02).
Por fim, é comum encontrarmos ainda que diga que as aulas de Geografia são
desnecessárias, posto uma “visão ainda hegemônica envolve uma compreensão da
Geografia por parte dos alunos como uma disciplina inútil que transmite informações
jornalísticas”. (CASSAB, 2009, p.49)
Uma das discussões que vem evoluindo para sanar tais problemas foge da
Geografia enquanto ciência, e sim, caminha para uma outra disciplina, a Geografia
Escolar, área do saber que visa compreender estes conhecimentos que muitas vezes se
diferem dos acadêmicos e que tem tanto conteúdos diversificados como público alvo
também diferentes.
Geografia e Geografia Escolar: aproximações e distanciamentos necessários
Pesquisas sobre Geografia Escolar são raras e muito bem vindas (LASTÓRIA,
2009, p.300). Por muito tempo figurou entre os intelectuais do ensino da Geografia o
conceito de transposição didática, uma maneira de compreender que aquela Geografia
ensinada na sala de aula não passava de uma vulgata, um conhecimento reduzido para
melhor compreensão dos alunos, incapazes de alcançar os conteúdos tradicionalmente
ensinados pela ciência. Neste aspecto, Chevallard (1985) identificou uma importante
relação entre os conhecimentos científicos e escolares, expondo a não determinação do
primeiro pelo segundo, posto que as matérias escolares não derivam diretamente das
“ciências-mães” e sim de um conjunto de necessidades criadas e dinamizadas pela
escola, professores e aluno (uma complexidade escolar). Existe aí, uma transformação
dos saberes eruditos em saberes escolares, por conta das necessidades da própria vida
que se ao “ensinar geografia” (RODRIGUEZ LESTEGÁS, 2000, p.100/101;
LASTÓRIA, 2009, p.301)
A Geografia Escolar se distancia, neste sentido da Geografia, e clama por mais
pesquisas que percebam esta relação tênue e complexa com a epistemologia da própria
Geografia. Compreender esta relação é caminhar rumo a possibilidades que venham
sanar a triste situação em que a Geografia se encontra nas salas de aula, apontada por
vários profissionais na atualidade.
Por conta disto, passamos a observar outras realidades que não a brasileira
como parâmetros para refletirmos o “estado da arte” do ensino de Geografia no exterior.
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Um bom sensor / termômetro são os Congressos, Encontros e demais eventos
Internacionais (de Ensino) da Geografia, além dos fóruns de encontros e debates sobre a
Geografia Escolar na internet.
Destacaria o Colóquio Internacional de Investigadores em Didática da
Geografia (REDLADGEO) no ano de 2010 como um ótimo exemplo de rede de
colaboração, dando continuidade a uma proveitosa agenda de encontros, como o
Seminário Internacional de Ensino de Geografia e Ciências (2008). A ideia do evento
ocorreu dentro de outro encontro de geógrafos – o EGAL (Encontro Latino Americano
de Geógrafos), em Montevidéu (2009).
Estes encontros evidenciam um esforço internacional dos membros provenientes
de países ibero-americanos em somar suas experiências em prol do desenvolvimento da
Geografia e do seu Ensino. Dentro desta perspectiva histórica, espera-se a participação
cada vez maior de membros nestes encontros.
No que diz respeito aos encontros virtuais, cito aqui o Geoforo – Forum
Iberoamericano de Geografia. Trata-se de um espaço privilegiado de diálogo e debate
entre os conteúdos geográficos, a partir dos interesses de cada país envolvido.
Interessante notar as diferenças entre a enseñanza da Geografia de lá (os outros países) e
de cá.
Todos estes elementos são importantes para revalorizar o ensino da Geografia
e recolocar o professor, no patamar que lhe traga dignidade. Ainda estamos longe de
desconstruir as pesadas representações que recaem sobre o professor de Geografia e sus
atuação na sala de aula, mas este texto tem como objetivo propor de forma objetiva,
maneiras para revalorizarmos esta Geografia Escolar,
Geografia escolar e a produção de curtas-metragens
A primeira parte deste texto tem como objetivo explicitar a distância existente
entre o(s) objetivo(s) central(ais) da Geografia e a prática dos professores em sala de
aula. A constatação é inevitavelmente assombrosa: os professores são professores por
falta de opção e os alunos não entendemo o porque devem estudar Geografia. Neste
panorama, pergunta-se: “Como superar o positivismo da geografia e da educação, em
um mundo que está mudado e continua mudando aceleradamente? O que seria possível
fazer para engendrar uma nova forma de ensinar o mundo”? (CALLAI, 2005, p.231)
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Este trabalho tem como objetivo apresentar uma prática, uma opção
pedagógica, que visa municiar o professor de geografia com um arsenal novo e pouco
aproveitado dentro de seu cotidiano escolar – a produção de curtas-metragens.
De antemão, não devemos entender que a produção de curtas-metragens tornase a resposta direta para os problemas da Geografia Escolar, contudo, devemos
compreender que as potencialidades escondidas a primeira vista na elaboração/exibição
destas produções cinematográficas permitem ao professor um conjunto valioso de
ganhos e conquistas daqueles desejos iniciais da Geografia Escolar – aprender olhar o
espaço e compreender as transformações que ele sofre no tempo, em outras palavras, a
alfabetização cartográfica.
Recupero mais uma vez Antônio Nóvoa. Segundo o autor, há um efeito de
rigidez no seio do professorado que não o permite olhar com bons olhos as mudanças. E
é também verdade que muitas vezes é na negação destas novidades que o professor
negocia (positivamente) com as ordens “de cima”; porém, estes mesmo profissionais
constituem um grupo muito suscetível aos desdobramentos de modas e modismos.
“Hoje, mais do que nunca, as modas invadem o terreno educativo” (2003, p.44), diria
Nóvoa. E mais, “A adesão pela moda é a pior maneira de enfrentar os debates
educativos, porque traduz uma ‘fuga para a frente’, uma opção preguiçosa, porque falar
de moda dispensa-nos de tentar compreender” (Idem). Conscientes disto tentaremos
abordar o uso desta (nova) opção denominada “curtas-metragens”.
Utilizar curtas-metragens com fins escolares perpassa uma característica da
produção do conhecimento que nos é fundamental - o ensino de Geografia não se dá
necessariamente na sala de aula. A produção de curtas-metragens exige tanto dos alunos
quanto dos professores um esforço de pesquisa e coleta de da dados para confecção do
mesmo que os força a conhecer a pesquisa e a montagem (reflexão) do curta. Aqui,
ressalto que alunos e professores podem ser autores de seu próprio “material didático”!
Conhecer o mundo e lê-lo por meio de fotos, imagens, filmagens, coletadas pelo próprio
olhar do aluno é de riqueza ímpar para nosso objetivo central – alfabetização
cartográfica e leitura espacial.
Quando do desenvolvimento de um projeto piloto que participei em 2009,
quando graduandos de História e Geografia de uma IES do interior do Estado, me
deparei com frutos fantásticos, dado as potencialidades que o procedimento e a
ferramenta dispõe. Sobre algumas conquistas do projeto, tendo em vista os curtas
metragens: “o ensino de história (e geografia) passa a contar com um material lúdico e
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de forte apelo ontológico”, já que estes vídeos são compostos por “imagens de praças,
ruas, estradas e grupos sociais que fazem parte do universo dos alunos” (PERINELLI
NETO; PAZIANI; MELLO, p.14).
A produção de curtas-metragens caminha junto ao PCN de Geografia na
medida em que permite ao aluno:
- compreender que o “espaço geográfico” é historicamente produzido pelo
homem enquanto organiza econômica e socialmente sua sociedade”, na medida em que
ele pesquisa as transformações da paisagem que o cerca e as coloca de uma forma
própria e crítica;
- perceber o espaço a sua maneira, sob o olhar do indivíduo e do grupo a que o
autor do curta-metragem pertence, trata-se de uma transformação do espaço em uma
outra categoria – “lugar”, experiências que causaram na leitura de um espaço laços
afetivos e referências socioculturais;
- combinar os vários olhares dentro de um curta-metragem de múltiplos
agentes sociais, ou ainda, possibilitar a sala que os múltiplos curtas-metragens criem
uma cosmovisão plural sobre a localidade e o cotidiano que lhe são tão caros e
fundamentais;
- captar as permanências materiais e simbólicas e conhecer o espaço
geográfico, tratando a paisagem como síntese de múltiplos espaços e tempos,
percebendo as causas das construções e lendo as permanências e rupturas; etc.
(BRASIL, p.74).
Conclusões
Lemos um contexto desgostoso para a Geografia. Os professores de Geografia
o são por falta de opção e os alunos não enxergam valor nas aulas. Para somar o
problema, a formação deste professor não inspira confiança para pesquisadores em
Geografia Escolar, dado a continuidade do olhar especializado de suas graduações, e a
(falsa) crença de que a Ciência Geográfica impera sobre os conteúdos ministrados em
sala de aula.
Se o cenário foi negativo, as ações são múltiplas. Lemos também um conjunto
grande de iniciativas de profissionais da área de Ensino de Geografia que tentam, cada
qual ao seu modo, criar meios de sanar os problemas da Geografia Escolar. Neste texto,
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para além da realidade brasileira, possibilitamos uma comparação do ensino de
Geografia no Brasil com outros países da América Latina e da Península Ibérica.
Como possibilidade, também deixamos uma opção. Uma ferramenta que para
além de uma novidade tecnológica, para além de mais uma novidade no terreno da
educação, vem se mostrando muito útil e de grande valia para os professores de
Geografia no Ensino Fundamental e Médio – o uso de curtas-metragens em sala de aula.
O que faz um professor de Geografia? Perguntei no começo do texto.
Respondida a questão, e convite feito a se juntar a esta empreitada cinematográfica,
muitos professores poderiam reagir de forma negativa, como assentiu Nóvoa (efeito de
rigidez); de antemão deixarei como conclusão os principais pontos de nosso projeto.
Os alunos podem (e muitos já o fazem) produzir curtas-metragens a partir de
uma ferramente facilmente encontrada nos computadores – um software de nome
“Windows Movie Maker”. Tirando fotos como máquinas digitais, ou mesmo seus
celulares, escolhendo trilhas, músicas e outros sons de seu agrado, os alunos constroem
ao seu o mundo que os rodeia. Papel fundamental das aulas de Geografia.
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