O USO DE COMPUTADORES EM ESCOLAS DE EDUCAÇÃO BÁSICA
E A ORGANIZAÇÃO DO TRABALHO PEDAGÓGICO
RODRIGUES, Divania Luiza – FECILCAM
[email protected]
Eixo Temático: Comunicação e Tecnologia
Agência Financiadora: Não contou com financiamento
Resumo
O presente trabalho apresenta resultados iniciais acerca de um estudo sobre o uso e o
funcionamento das Salas de Informática de escolas públicas de Educação Básica. A pesquisa
é parte das atividades desenvolvidas no projeto de pesquisa intitulado “Formação de
Professores em Informática na Educação no Município de Campo Mourão”. A metodologia
adotada, com inspiração teórica na abordagem qualitativa, destaca sete escolas de Educação
Básica, do município de Campo Mourão, para aplicação de entrevistas semi-estruturadas, com
o objetivo de realizar um levantamento sobre a situação de uso e funcionamento das Salas de
Informática e o que pensam e como planejam os gestores sobre o uso dos computadores nas
escolas. Os dados descritos e analisados indicam a intencionalidade dos gestores na utilização
dos ambientes informatizados nas escolas, por outro lado, indicam ainda a necessidade de
estudos e reflexões sobre o uso de tecnologias na educação. Observou-se que os gestores,
mesmo indicando tal necessidade, não evidenciam, em seus depoimentos, a relação entre o
uso de computadores e o Projeto Político-Pedagógico das escolas. A realidade observada
parece carecer de discussões, planejamento e avaliação das ações pedagógicas desenvolvidas
nas Salas de Informática. Acredita-se que o trabalho pedagógico está pautado na concepção,
execução e avaliação das ações por parte dos profissionais que atuam na educação. Apenas a
introdução de uma nova tecnologia não gerará mudanças na educação que temos, se faz
necessário estudar a própria realidade escolar para mudanças no interior das escolas. O uso de
tecnologias, presentes nas relações humanas e na educação, demanda uma redefinição nas
práticas educativas, de uso e de análise das mesmas.
Palavras-chave: Educação Básica. Salas de Informática. Projeto Político-Pedagógico.
Introdução
O presente texto objetiva apresentar e descrever reflexões e resultados preliminares
sobre o estudo acerca do uso e o funcionamento das Salas de Informática (também
denominados Laboratórios de Informática) de escolas públicas de Educação Básica. A
pesquisa é parte das atividades desenvolvidas durante o segundo semestre do ano de 2008, no
8661
projeto de pesquisa e extensão intitulado “Formação de Professores em Informática na
Educação no Município de Campo Mourão”, vinculado ao regime de Tempo Integral e
Dedicação Exclusiva (TIDE) da pesquisadora.
A metodologia adotada, com inspiração teórica na abordagem qualitativa (LÜDKE;
ANDRÉ, 1986), destacou sete escolas públicas de Educação Básica do município de Campo
Mourão, sendo cinco colégios estaduais e duas escolas municipais, para aplicação de
entrevistas semi-estruturadas. Os instrumentos de pesquisa visaram levantar dados1
quantitativos (número de laboratórios e equipamentos) e qualitativos, para levantamento da
situação da formação dos professores, experiências significativas e planejamento das
atividades a serem desenvolvidas nas Salas ou Laboratórios de Informática. As entrevistas
foram destinadas aos diretores e/ou direções auxiliares e/ou pedagogos das escolas, campos
da pesquisa. Os objetivos principais da aplicação das entrevistas foram: primeiro: identificar a
situação de funcionamento (quantitativa e qualitativa) e de uso das Salas de Informática nas
escolas públicas; segundo: saber como os gestores pensam e como planejam as ações com o
uso de tecnologias na escola; terceiro: orientar possíveis encaminhamentos para as oficinas, a
serem desenvolvidas em um segundo momento da pesquisa.
As entrevistas semi-estruturadas foram respondidas por sete gestores, sendo: três
diretores, dois diretores-auxiliares e dois pedagogos de escolas públicas da Educação Básica
do município de Campo Mourão, que possuem Salas/Laboratórios de Informática. As
questões-guia abordadas nas entrevistas foram as seguintes: 1. A escola possui laboratório de
Informática? 2. Quantos laboratórios de Informática a escola possui? 3. Quantos
computadores há em cada laboratório? 4. Há conexão dos computadores com a internet? 5. A
escola possui projetor multimídia (data-show)? 6. Qual é a origem dos Laboratórios
(PROEM2,
1
PROINFO3,
PARANÁ
DIGITAL4,
outro)?
7.
O/s
laboratório/s
de
Destaca-se a participação das acadêmicas do curso de Pedagogia, do segundo ano diurno, matriculados na
disciplina de Didática e Tecnologia Aplicada à Educação, no ano de 2008, na coleta de dados e discussões
teóricas acerca da temática.
2
Programa de Expansão, Melhoria e Inovação no Ensino Médio e Técnico do Paraná. Programa do Governo do
Estado do Paraná, da década de noventa, que visava expandir e inovar o Ensino Médio, por meio de, dentre
outras mudanças, a inserção de computadores nas escolas.
3
Programa Nacional de Informática na Educação, vinculado ao Governo Federal, objetiva introduzir o uso das
tecnologias de informação e comunicação nas escolas da rede pública de Ensino Fundamental e Médio.
Disponível em: < http://www.inclusaodigital.gov.br/inclusao/links-outros-programas/proinfo-programanacional-de-informatica-na-educacao/>. Acesso em: 1 ago. 2009.
4
Programa do Governo do Estado do Paraná, vinculado à Secretaria de Estado da Educação, busca, entre outras
ações: levar, por meio de uma rede de computadores, o acesso às Tecnologias da Informação e Comunicação -
8662
informáticestá/ão em uso? Se sim, quem faz uso do/s laboratório/s: 8. Com que freqüência
o/s laboratório/s é/são usado/s? 9. Como a escola organiza o uso do/s laboratório de
informática? 10. Os professores (e técnicos) da escola possuem formação para atuar no
laboratório de informática? 11. Os professores possuem/apresentam um planejamento das
atividades que serão desenvolvidas no laboratório de informática? 12. Qual é o objetivo de
uso do laboratório de informática pelo professor? 13. Há problemas que dificultam o uso do
laboratório de informática? 14. Há alguma experiência significativa com o uso dos
computadores realizada por professores e alunos nesta escola? Qual? 15. Acredita que é
necessário o uso de tecnologias na educação? Por que?. As respostas a tais questões
subsidiaram as considerações apresentadas neste texto.
Desenvolvimento
Entende-se que o Projeto Político-Pedagógico (PPP) expressa a própria organização do
trabalho
pedagógico
da
escola
(VEIGA,
2005;
VASCONCELLOS,
2002a;
VASCONCELLOS, 2002b). “É um instrumento teórico-metodológico para a intervenção e
mudança da realidade. É um elemento de organização e integração da atividade prática da
instituição neste processo de transformação” (VASCONCELLOS, 2002b, p. 169). O trabalho
pedagógico, por sua vez, deve ser entendido como o elemento que permite planejar, executar
e avaliar as ações educativas. “[...] o trabalho pertence a quem o concebe, executa e avalia.
Não se aceita que alguém planeje o que o outro irá realizar, pois retira-se do executor suas
possibilidades de domínio sobre o processo de trabalho[...]”(VILLAS BOAS, 2005, p. 181).
É por meio do trabalho pedagógico organizado, pensado e refletido pelo coletivo da escola
que se pode pensar mudanças necessárias no processo educativo. No entanto, observa-se que
muitas ações no âmbito das escolas permanecem cristalizadas, mesmo com a “presença” das
novas tecnologias e dos PPPs. Observa-se que este se constitui em mais um documento da
escola e que, muitas vezes, não expressa e orienta as ações planejadas pelo conjunto dos
profissionais da educação.
Nesta perspectiva, a partir das entrevistas com os gestores escolares, se observa a
necessidade de rever as práticas educacionais, tomando a própria realidade escolar como
TIC aos professores e alunos da Rede Pública de Educação Básica do Paraná. Disponível em:
<http://www.diaadiaeducacao.pr.gov.br/portals/portal/paranadigital/index.php> . Acesso em: 1 ago. 2009.
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objeto de estudo, em que a opção pela inserção de tecnologias na educação depende de
discussões teóricas e ações construídas de modo coletivo pelos profissionais da educação.
A organização escolar para o uso das Salas de Informática
Quanto ao número de laboratórios, cinco escolas possuem um e, duas escolas possuem
duas Salas de Informática. Quanto ao número de computadores, há uma variação de 7 a 30
máquinas presentes em cada sala. Este dado permite perceber que não há uma quantidade
adequada de equipamentos para um uso generalizado. Apenas uma escola não possui acesso à
internet; esta é uma escola municipal. Três escolas estaduais possuem projetor multimídia e
quatro não possuem. As escolas que possuem tal equipamento estão localizadas na região
central do município e duas delas ofertam cursos na área profissionalizante.
Quanto à origem dos Laboratórios (PROEM, PROINFO, PARANÁ DIGITAL, outro),
nenhuma escola afirmou ter laboratórios advindos dos recursos do PROEM (Programa de
Expansão, Melhoria e Inovação no Ensino Médio e Técnico do Paraná); duas escolas
mencionam o PROINFO (Programa Nacional de Tecnologia Educacional), quatro escolas o
PARANÁ DIGITAL; uma escola municipal afirma ter outra origem e, uma escola não
respondeu à questão. Todas as escolas afirmam que as Salas de Informática estão em uso por
professores, alunos e funcionários.
Vale lembrar que a proposta desenvolvida pelo Programa de Expansão, Melhoria e
Inovação no Ensino Médio e Técnico do Paraná (PROEM), na década de noventa, foi que os
professores usassem os computadores para auxiliar o ensino de todas as disciplinas do Ensino
Médio. Os computadores, porém, foram enviados às escolas públicas antes que os professores
fossem formados para utilizar esta tecnologia. O resultado dessa proposta foi que muitos dos
laboratórios montados pelo Governo Estadual permaneceram sem uso. Ou ainda, algumas
vezes, o uso do computador se resumia às aulas instrumentais de Informática no Ensino
Médio.
O fato das escolas afirmarem não possuir Laboratórios advindos de recursos do
PROEM indica a descontinuidade das políticas em torno das tecnologias educacionais.
Investimentos são realizados, laboratórios são equipados nas escolas, no entanto, não
subsidiados de ações para seqüência dessa política. Somado a isso, por não fazer parte da
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pauta de prioridades de muitas escolas, o computador não é entendido como ferramenta
educacional que pode contribuir para a construção do conhecimento pelo aluno.
Quanto à freqüência de uso das Salas de Informática, quatro escolas afirmam utilizar
esse espaço todos os dias da semana, duas escolas duas vezes por semana e uma escola, uma
vez por semana; esta escola afirma que “cada turma tem uma hora de uso por semana”. Todas
as escolas afirmam organizar o uso da Sala de Informática a partir de agendamentos prévios,
fichas de controles, horários e cronogramas. Sem apontar o modo de utilização, percebe-se
que existe uma frequência regular de professores e alunos nas das Salas de Informática, seja
por iniciativa do professor ou por “definição” da escola.
Quanto à formação que os professores possuem para atuar nas Salas de Informática,
quatro escolas estaduais mencionam o trabalho desenvolvido pela CRTE (Coordenação
Regional de Tecnologia na Educação). Esta Coordenação é vinculada à Secretaria de Estado
da Educação do Paraná (SEED) e está distribuída nos 32 Núcleos Regionais de Ensino
(NREs). A CRTE tem como objetivo principal5 desenvolver ações de formação continuada
dos profissionais da Educação Básica e contribuir na implantação de tecnologias na prática
pedagógica. Os gestores destacam o trabalho desenvolvido pelas CRTEs, por meio de cursos
que visam instrumentalizar os professores no uso de alguns recursos, tais como: “baixar
vídeos e fazer apresentação de slides”. Um dos gestores afirma que parte dos professores fez
“um curso básico e outros aguardam a capacitação do CRTE”; outra escola indica que a
“capacitação via CRTE não alcança a todos os professores, e é para uso básico”. As escolas
municipais apontam que os professores “receberam curso presencial e há um técnico que é
estagiário da área de Informática”. Nas escolas municipais a formação ocorre por meio de
cursos ofertados pela própria escola e pelo município. Uma das escolas não especificou qual é
a formação dos professores para o uso das Salas de Informática.
A questão da formação do professor é discutida por Valente (1993), pois se faz
necessário distinguir capacitação por meio de cursos de treinamento e capacitação por meio
de cursos de formação. A primeira restringe-se a adicionar conhecimentos e técnicas de
informática ao que o professor já realiza em sala de aula. O curso de formação, por sua vez,
deve propiciar condições para que ocorra mudança “[...] na maneira do profissional da
educação ver sua prática, entender o processo de ensino-aprendizagem e assumir uma nova
postura como educador” (p. 115-116).
5
Informações disponíveis em: < http://www.diaadia.pr.gov.br/autec/ >. Acesso em: 1 ago. 2009.
8665
Todavia, o processo de formação é bem mais complexo, pois exige que o professor
compreenda a base teórica e prática de uma metodologia que enfatiza o aprendizado e, ainda,
segundo Valente (1993, p. 116) “[...] o curso de formação deve ter como objetivo uma
mudança, ou pelo menos propiciar condições para que haja uma mudança, na maneira do
profissional da educação ver sua prática pedagógica”.
Papert (1994, p. 70), afirma que “Muito mais do que ‘treinamento’, é necessário que
os professores desenvolvam a habilidade de beneficiarem-se da presença dos computadores e
de levarem este benefício para seus alunos”.
Neste sentido, acredita-se que os problemas que a educação tem a resolver não serão
solucionados pela simples introdução de computadores nas escolas. A formação dos
professores para utilização dos computadores e Salas de Informática parece não ter tomado
parte das prioridades educacionais na mesma proporção da aquisição de equipamentos, “[...]
deixando transparecer a idéia equivocada de que o computador e o software resolverão os
problemas educativos” (ALMEIDA, 1998, p. 65-66). Neste caso, destaca-se a necessidade de
investimento na formação do professor, não somente em instrumentalizá-lo para o uso da
máquina. Tentar “modernizar” a educação com máquinas em um contexto de velhas
concepções não é significativo.
Todas as escolas afirmam que os professores possuem/apresentam um planejamento
das atividades que serão desenvolvidas na Sala de Informática, como é possível observar nos
depoimentos: “os computadores são utilizados conforme o conteúdo da aula que será
ministrada”; “na maioria das vezes”; “sempre, com planejamento e objetivo”; “O professor
direciona o planejamento das atividades ao laboratorista”. Vale destacar que as escolas
municipais contratam estagiários para atuar nas Salas de Informática; são acadêmicos de
cursos de ensino superior (especialmente da área de Informática) contratados para
desenvolver atividades com as crianças durante o horário de permanência dos professores.
Essa situação torna-se um complicador, uma vez que, a responsabilidade do processo
educativo parece ser delegada a um outro profissional [em formação] que não o professor. A
figura do “laboratorista” também distancia, de algum modo, a atuação dos professores nesses
espaços. Assim, o professor fica limitado nas possibilidades de iniciativas de uso dos
computadores com os alunos, de verificar e avaliar sua prática pedagógica, de perceber as
limitações e avanços de usos de determinadas tecnologias. Um dos gestores observa que: “o
professor é o primeiro interessado em utilizar o Laboratório de Informática para atualizar seus
8666
conhecimentos. A partir do momento que o professor está familiarizado, ele prepara aulas de
sua disciplina utilizando o Laboratório com os alunos”.
Entende-se que a grande relevância do uso das Salas de Informática está na forma de
utilização pelos professores. A opção de utilização de determinada tecnologia de ensino, pelo
professor, demanda planejamento, o que, por sua vez, envolve a pesquisa, a seleção e a
organização de conteúdos. A utilização de tecnologias tem sentido para os professores que
buscam novas iniciativas com seus alunos, que estudam, pesquisam e discutem coletivamente
novas possibilidades de ensino e de aprendizagem. A relevância do uso de qualquer
tecnologia de ensino está necessariamente ligada à concepção de educação que o professor
possui. A inserção de uma tecnologia de ensino, por si só, não gera mudanças no processo
educacional. Neste sentido, os equipamentos disponíveis nas Salas de Informática podem se
constituir em um instrumento pedagógico, que auxiliam na exposição de conteúdos e que está
disponível nesse espaço. Assim, o uso de computadores pode ser de grande benefício aos
professores e alunos que pesquisam conteúdos e que se utilizam de produções das mídias,
especialmente. Outro ponto relevante, nesse processo, é que os professores e os alunos podem
desenvolver seus próprios vídeos e animações. Em uma perspectiva inovadora, professores e
alunos podem produzir materiais significativos (OROFINO, 2005), a partir de suas próprias
experiências, sem necessariamente ficar presos apenas ao consumo de materiais produzidos
pela indústria cultural.
Sobre o objetivo de uso da Sala de Informática pelo professor, os gestores, de modo
geral, parecem concordar que há benefícios no processo de ensino e aprendizagem, como se
pode observar nos seguintes depoimentos: “Auxiliar no processo ensino aprendizagem,
ajudando na compreensão do tema abordado”. “Utilizando o computador, o professor estará
criando um espaço para o enriquecimento das atividades curriculares [...]”; “com fins
específicos para auxiliar no processo de ensino aprendizagem”; “A complementação dos
conteúdos curriculares (pesquisas)”; “Como recurso utilizado a mais para fixar o conteúdo
trabalhado”. Vale destacar a necessidade de que as atividades com computadores relacionemse com as atividades das escolas, especialmente, com o conteúdo das disciplinas. A partir das
entrevistas realizadas, não foi possível identificar uma clara definição de objetivos e critérios
quanto à utilização das Salas de Informática e se existe uma discussão coletiva, envolvendo os
professores sobre tal questão. Esse fato denuncia o possível distanciamento entre a efetiva
8667
participação dos professores, que implementam as mudanças nas salas de aula,
no
planejamento das mesmas.
As questões abordadas nas entrevistas com os gestores escolares permitiram observar
as condições de instalação e funcionamento dos ambientes informatizados que, em muitos
casos, funcionam de forma precária, merecendo ênfase, o número reduzido de equipamentos
para o número de alunos, dificuldades de manutenção dos equipamentos e de atualização de
equipamentos e softwares e poucas oportunidades de formação ao professor. Dentre os
problemas que dificultam o uso do Laboratório de Informática, segundo os gestores estão:
“Além do número [insuficiente] de computadores, o problema mais relevante é a falta de
laboratorista”; “Poucos são os professores que conseguem participar dos cursos oferecidos
pelo CRTE e a falta de familiaridade com o Linux6, intimida alguns [professores] a utilizarem
o mesmo”.
Além dessas questões, foi possível, por outro lado, investigar as questões educacionais
que circundam tal processo. O uso de tecnologias na educação não é recente. Todavia, no
contexto atual, percebe-se a presença cada vez maior dos recursos e tecnologias de
comunicação e informação em diferentes ambientes, e também, no espaço escolar. Introduzir
“novas” tecnologias na educação requer estudo e planejamento. Nesta perspectiva outras
questões problematizadoras podem ser levadas em consideração. Quais são os objetivos
educacionais que orientam o uso dos Laboratórios de Informática nas escolas? De que modo
os gestores e os professores pensam e/ou planejam ações para o funcionamento desses
ambientes na escola?
No documento “Pesquisa Nacional Qualidade da Educação: a escola pública na
opinião dos pais” (BRASIL, 2005), que se trata de um estudo feito pelo Ministério da
Educação (MEC), por meio do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio
Teixeira (Inep), sobre a relação família, escola e educação, mostra que os pais avaliam
negativamente as Salas de Informática e o uso dos computadores. A nota média nacional dada
pelos pais às Salas de Informática e acesso a computadores é de 2,9. Dentre os aspectos
referentes à infra-estrutura das escolas avaliados, como quadra de esportes, biblioteca, espaço
6
Trata-se de um software livre, um sistema operacional [geralmente] gratuito e que está disponibilizado nos
computadores da rede pública de ensino. Segundo Kenski (2006, p. 221) os softwares livres, desenvolvidos
colaborativamente nas redes, possibilitam o desenvolvimento de novas “estratégias didáticas” beneficiando
alunos e professores. Para a autora: “Dão origem a comunidades para o desenvolvimento partilhado de
programas, objetos de aprendizagem, bibliotecas virtuais e arquivos temáticos em todas as áreas do
conhecimento [...], inclusive para o ensino” (KENSKI, 2006, p. 221).
8668
para recreio e lazer, as Salas de Informática obtiveram a avaliação mais negativa, não
atingindo nem metade da menor nota atribuída aos outros aspectos. Estes dados apontam a
insatisfação de pais quanto ao pouco uso e acesso aos computadores e Salas de Informática
nas escolas públicas do país. A questão é preocupante, pois trata-se de um ambiente de
aprendizagem, para o qual é destinado um grande investimento financeiro7 para
implantar/equipar laboratórios e, também, destinados à formação de professores. Sobre a
compra de computadores, Teruya (2006, p. 78) afirma: “O custo das máquinas está estimado
em R$260 milhões mais R$220 milhões com treinamento”.
Com base nas respostas dos gestores, apresentadas às questões da entrevista semiestruturada, pode-se perceber que todos afirmam que os professores possuem um
planejamento e que há objetivos educacionais para o uso das Salas de Informática. No
entanto, quando se questiona como a escola organiza o uso dos Laboratórios de Informática, o
que requer esclarecimentos sobre o planejamento das atividades, todos afirmam sobre a
existência de um agendamento ou cronograma de uso. Essa situação revela, mesmo que
inicialmente, que a compreensão que alguns gestores possuem de plano, neste caso, está
relacionado em organizar a entrada e a saída de turmas de alunos e professores no ambiente.
Não se percebeu nas respostas uma intenção clara sobre planejar a ação pedagógica nos
espaços das Salas de Informática, com informações ou relatos sobre as ações educativas,
objetivos, relação com as disciplinas e de que modo se apresentam no Projeto PolíticoPedagógico (PPP) tais reflexões e ações.
Não se observou claramente relatos sobre experiências significativas com o uso dos
computadores realizadas por professores e alunos nas escolas. Os depoimentos dos gestores
indicam que os professores estão “familiarizados” ao uso do computador para pesquisas e
elaboração de materiais para suas aulas. Destacam como dificuldades para o uso dos
Laboratórios por professores e alunos o número insuficiente de máquinas, mas reconhecem a
necessidade de estudo e uso das Salas de Informática, porém, pode-se observar que há pouca
clareza quanto aos objetivos de utilização dos recursos dos computadores nas aulas. Desse
modo, destaca-se que as escolas públicas possuem Salas de Informática, as quais se
7
De acordo com dados quantitativos disponibilizados no portal do MEC, os recursos orçamentários executados
pelo Programa Nacional de Informática na Educação (ProInfo), entre os anos de 1997 a 2006, foram de R$
239.021.464,00. O total de escolas com Laboratórios de Informática é de 201.657, uma média quantitativa de
11,85%. O número de alunos e professores beneficiados pelos laboratórios do ProInfo, respectivamente, é de
13.366,829 e 507.431. Disponível em: <http://sip.proinfo.mec.gov.br/relatorios/indicadores_rel.html>. Acesso
em: 4 set. 2008.
8669
constituem em espaços pedagógicos e que, em muitos casos, não são usados para este fim,
especialmente, por falta de formação dos que lidam diretamente no processo de ensino e de
aprendizagem. Acredita-se que a pesquisa seja necessária para contribuir para a reflexão e
ação dos gestores e professores sobre o uso do computador na sala de aula, o que requer
repensar a própria atuação pedagógica.
Neste ponto, faz-se necessário pontuar a necessidade de estudo sobre os PPPs das
escolas para esclarecimento de concepções e questões relativas ao uso de tecnologias pelas
mesmas. As escolas públicas da rede estadual de ensino do Estado do Paraná, desde 2003,
reelaboram os textos de seus Projetos Políticos-Pedagógicos. Em leitura aos PPPs das escolas
de um dos Núcleos Regionais de Educação (NRE) do Estado do Paraná, pode-se observar que
a maioria das escolas da rede estadual de ensino, de um total de trinta e quatro escolas, não
apontam as Salas de Informática, como espaços pedagógicos, ou seja, um local em que
podem ocorrer práticas educativas e processos de ensino e de aprendizagem. As Salas de
Informática, quando mencionadas nos PPPs, são caracterizadas enquanto espaços físicos. A
caracterização passa pelos seguintes pontos, entre outros: a quantidade de computadores
existente, a existência de acesso à rede Internet, se a sala é arejada. Por outro lado, o aspecto
pedagógico de uso da Sala de Informática não ocorre; não há apresentação de um plano
pedagógico, com objetivos educacionais claros, para o uso e funcionamento deste espaço. Em
um dos projetos lidos, a escola se preocupa em expor normas para (a não) utilização da Sala
de Informática, prevendo punições para quem vier a usar e danificar qualquer um dos
equipamentos. Enfim, ainda há muito que se estudar acerca da questão, além de que, para
muitas crianças da rede pública, a escola constitui-se no único meio para que tenham acesso
ao uso de computadores8 e outras tecnologias.
Pensar uma escola de qualidade inserida numa realidade tecnológica requer uma “nova
mentalidade”, exige mudanças nas estruturas e no funcionamento não somente dos espaços
informatizados, como as Salas de Informática, mas no processo de ensino como um todo.
(KENSKI, 2006). As mudanças implicam fundamentalmente, além da ampliação das
possibilidades de aprendizagem, o envolvimento de todos os que participam do processo de
ensino. Essa situação demanda mudanças na gestão educacional, que pode adotar “[...] novas
8
De acordo com pesquisas publicadas no documento “Mapa das Desigualdades Digitais no Brasil”, os espaços
públicos que deveriam promover a democratização de acesso dos alunos aos computadores, como as escolas, não
tem cumprido esta função. “Entre os estudantes do ensino fundamental, só 2,5% dos mais pobres usaram
computador na escola. Esse índice sobe para 37,3% no grupo de alunos de maior nível de renda”.
(WAISELFISZ, 2008, p. 8)
8670
formas de decisão, mais rápidas e menos burocráticas, garantindo maior autonomia aos
departamentos e áreas específicas da instituição [...]”(KENSKI, 2006, p. 223.), contrariando
um sistema linear e centralizador de decisões.
Considerações finais
Sem desconsiderar as discussões acerca da utilização e da finalidade do uso de
tecnologias na educação brasileira, se faz necessário pensar ações no plano político e
pedagógico. A utilização de computadores na educação exige dos professores e gestores
escolares pensarem a concepção de educação, [...] exige dos docentes uma fundamentação
teórica e metodologia para trabalhar no ambiente informatizado (TERUYA, 2006, p. 91). É
preciso pensar uma nova organização escolar, o que requer planejar “[...] novas concepções
para as abordagens dos conteúdos, novas metodologias de ensino e novas perspectivas para a
ação dos professores, alunos e todos os profissionais da educação” (KENSKI, 2006, p. 224).
Os gestores e professores, desafiados a pensar uma escola com uso de tecnologias, precisam
pensar uma realidade de interação e comunicação que já ocorre nas relações cotidianas.
Acredita-se que o trabalho, até então iniciado e desenvolvido, levanta problemáticas
passíveis de investigação e estudos por parte dos que se interessam pela temática. A pesquisa
aponta para a necessidade de investigação do papel da gestão educacional nas escolas e da
importância do PPP, enquanto expressão da organização do trabalho pedagógico das escolas
públicas (VEIGA, 2005; VASCONCELLOS, 2002a). Neste sentido, é possível levantar as
seguintes questões. A ação dos professores nos ambientes informatizados estão planejadas,
previstas, refletidas nos PPPs das escolas? Qual é a relação entre a formação dos professores e
o trabalho desenvolvido com os alunos nos ambientes informatizados? Em que medida as
mudanças nas relações humanas, mediadas
constantemente por tecnologias, são
compreendidas e articulam-se às discussões sobre a prática escolar?
A proposta de intervenção na realidade das escolas, por meio de estudos, a partir da
análise das práticas, pode contribuir para a reflexão e possíveis encaminhamentos para uma
(re) definição do uso adequado das tecnologias e dos ambientes informatizados.
Para concluir, vale destacar que professores e gestores escolares precisam estudar
sobre o uso de tecnologias na educação, o que requer fundamentação teórica e metodologia de
trabalho, no sentido de superar a idéia de que apenas a introdução de uma nova tecnologia
gerará mudanças na educação que temos. O professor, enquanto responsável pela mediação de
8671
todo o processo educativo, é o profissional em condições de realizar análises e interferências
sobre ações e meios necessários à formação crítica do aluno.
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