UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA INSTITUTO DE GEOCIÊNCIAS DEPARTAMENTO DE GEOGRAFIA PERCEPÇÃO AMBIENTAL NO BAIRRO DO CABULA: A QUALIDADE DE VIDA DOS LOGRADOUROS NO ENTORNO DA AVENIDA SILVEIRA MARTINS Por: Anneza Tourinho de Almeida Gouveia Salvador, Junho de 2007. Universidade Federal da Bahia Instituto de Geociências Departamento de Geografia Discente: Anneza Tourinho de Almeida Gouveia Número de Matrícula: 20062906-1 Título: PERCEPÇÃO AMBIENTAL NO BAIRRO DO CABULA: A QUALIDADE DE VIDA DOS LOGRADOUROS NO ENTORNO DA AVENIDA SILVEIRA MARTINS Monografia apresentada ao curso de Bacharelado em Geografia da Universidade Federal da Bahia como requisito parcial à obtenção do título de Bacharel em Geografia. Orientadora: Creuza Santos Lage Salvador, Junho de 2007. APRESENTAÇÃO A presente monografia é fruto da conclusão dos trabalhos de pesquisa realizada pela autora, através de bolsa de iniciação cientifica do PIBIC-FAPESB, entre os meses de julho de 2005 a julho de 2006. Este trabalho faz parte da pesquisa “PERCEPÇÃO AMBIENTAL EM ÁREAS URBANAS: A qualidade de vida sob o olhar do cidadão”, desenvolvida pelo Laboratório de Estudos Ambientais e gestão do Território – LEAGET. Entretanto, excede as perspectivas trazidas pela pesquisa inicial, uma vez que, no transcorrer da elaboração monográfica, foram incorporados novos aspectos, tornando-o mais voltado à linha metodológica desenvolvida pela autora. A pesquisa aborda os problemas ambientais No bairro do Cabula, na cidade de Salvador, a partir da percepção da população, entendendo percepção como a visão/compreensão que as pessoas tem sobre o local no qual vivem. Foi utilizado como critério para a definição da amostragem o universo domiciliar por acreditar que este seja de ampla aplicação para o entendimento de questões teóricas e práticas cotidianas no âmbito da problemática urbana e de sua interface com a questão ambiental urbana, na escala local. Por meio ambiente, segundo as idéias de Jacobi (2000) “se entende um habitat socialmente criado, configurado enquanto um meio físico modificado pela ação humana. Parte-se do pressuposto de que a percepção da questão ambiental, como qualquer outra em geral, é uma resultante não só do impacto objetivo das condições reais sobre os indivíduos; mas também da maneira como sua interveniência social e valores culturais agem na vivência dos mesmos impactos”. Este trabalho foi apresentado de forma expositiva no I Seminário de Estudos Ambientai e Ordenamento Territorial, promovido pelo Laboratório de estudos Ambientai e Gestão do Território e realizado no Instituto de Geociências da UFBA – Salvador-Ba, nos dias 4 e 5 de novembro de 2005. As palavras-chave são: Percepção ambiental, qualidade de vida, cidade e cidadão. RESUMO A questão principal que norteia os nossos estudos é: Como se caracteriza a qualidade de vida do entorno da Avenida Silveira Martins no bairro do Cabula a partir da percepção que os seus moradores têm do espaço onde vivem? Para responder essa questão central, outros questionamentos foram levantados, buscando identificar quais os principais problemas percebidos pelos moradores e que resposta estas pessoas dão ao lugar, quer em grupo ou individualmente, e sua acessibilidade aos equipamentos e serviços urbanos locais. Como procedimento metodológico, as ações pertinentes à pesquisa foram divididas em duas fases. A primeira constituiu-se da análise do processo de produção do espaço do bairro do Cabula, buscando situá-lo no contexto da Região Metropolitana de Salvador; e na segunda foi desenvolvido o trabalho empírico com a determinação do perfil sócio-econômico dos moradores, as condições sócio-ambientais dos espaços do bairro do Cabula, suas formas de uso e ocupação, e o acesso da comunidade aos equipamentos urbanos com base nos indicadores sugeridos por Mora em Keinert e Karruz (2002). A percepção dos moradores em relação a esses problemas foi obtida através de entrevistas e mapas mentais com base nos trabalhos de Tuan (1983) e Lynch (1998). Esses levantamentos tornaram possível a caracterização do perfil sócio-econômico dos moradores, assim como definir o grau de qualidade de vida local. SUMÁRIO INTRODUÇÃO........................................................................................................................... 1 CAPÍTULO 1 OS PIONEIROS NA QUESTÃO DA QUALIDADE DE VIDA E DA PERCEPÇÃO AMBIENTAL NA GEOGRAFIA 1.1. Principais trabalhos anteriores...............................................................................................7 1.2. Bases teórico-conceituais.......................................................................................................9 CAPÍTULO 2 CONFIGURAÇÃO ESPACIAL DO BAIRRO 2.1.O bairro do Cabula no contexto da Região Metropolitana de Salvador...............................11 2.2. Ambiente físico do bairro....................................................................................................11 2.3.Aspectos históricos do Cabula..............................................................................................12 2.4. Configuração atual...............................................................................................................13 CAPÍTULO 3 A QUALIDADE DE VIDA NO BAIRRO DO CABULA 3.1. Uma análise sobre o conceito e sua aplicabilidade..............................................................18 3.2. Indicadores relevantes para a análise da qualidade de vida.................................................20 3.3. Perfil sócio-econômico da população..................................................................................21 3.4. Acessibilidade aos equipamentos e serviços urbanos..........................................................24 3.5. Análise da qualidade de vida nos logradouros.....................................................................29 CAPÍTULO 4 A LEGIBLILIDADE DO BAIRRO E O SENTIMENTO DE TOPOFILIA NO CABULA 4.1. A imagem do espaço e suas implicações.............................................................................32 4.2. A legibilidade do bairro e suas implicações na qualidade de vida.......................................34 4.3. Topofilia e topofobia no bairro do Cabula...........................................................................40 4.4. A repercussão do sentimento nas ações da comunidade......................................................42 4.5. Formas de atuação da Associação de Moradores e organizações não-governamentais......43 CONCLUSÃO ...........................................................................................................................46 ÍNDICE DE FIGURAS E FOTOGRAFIAS Figura 1: Localização da Área de Estudo....................................................................................pág. 5 Figura 2: Área de Estudo no Bairro do Cabula.............................................................................pág.6 Figura 3: Área de Estudo no Mapa da Cidade de Salvador..........................................................pág.6 Figura 4: Imagem Central da Área..............................................................................................pág.15 Figura 5: Cabula: Sistema Viário................................................................................................pág.16 Figura 6: Cabula: Densidade Habitacional.................................................................................pág.17 Figura 7: Cabula: Renda Média de 0 a 2 Salários Mínimos.......................................................pág.23 Figura 8: Cabula: Renda Média de 10 a 20 Salários Mínimos...................................................pág.24 Figura 9: Mapa Mental do Bairro do Cabula por uma moradora do Conj. CHOPM 1..............pág.35 Figura 10: Mapa Mental do Bairro do Cabula por uma moradora da Engomadeira..................pág.36 Foto1: Barraca de concertos em geral no logradouro da Engomadeira.....................................pág.22 Foto 2: “Banquinha” de frutas na Engomadeira........................................................................pág.22 Foto 3: Conjunto Recanto do Cabula.........................................................................................pág. 30 Foto 4: Conjunto CHOPM 1......................................................................................................pág. 30 Foto 5: Engomadeira..................................................................................................................pág. 30 Foto 6: São Gonçalo do Retiro...................................................................................................pág. 30 1 INTRODUÇÃO “A cidade é uma explosão de informações que se renova constantemente na medida em que o Homem, impelido a uma nova forma de ganhar a vida, desenvolve complexas relações com a natureza, consigo e com os outros homens. O ambiente urbano decorre dos impactos produzidos por aquelas relações que, conquanto eficientes para a explicação do fenômeno urbano, não são auto-evidentes, ou seja, não podem ser apreendidos senão pelas marcas e sinais que deixam impressas no cotidiano dos lugares, ou nos hábitos, nas crenças, valores e ações de uma coletividade”. (FERRARA, Lucrecia D’ Alessio Ferrara. 1996). Compartilhando com o conceito de cidade apresentado por FERRARA, o trabalho aqui desenvolvido trata da percepção ambiental em áreas urbanas, tendo como área de estudo a Avenida Silveira Martins (indiscutivelmente a principal via do Cabula) nos setores censitários situados no seu entorno. A questão principal que norteia os nossos estudos é: Como se caracteriza a qualidade de vida do entorno da Avenida Silveira Martins no bairro do Cabula a partir da percepção que os seus moradores tem do espaço onde vivem? Para responder essa questão central, outros questionamentos foram levantados tais como: Como o bairro do Cabula é percebido pelos seus moradores? Quais os principais problemas por eles identificados? Qual a resposta que estas pessoas dão ao lugar, quer em grupo ou individualmente? E o que estas pessoas entendem por qualidade de vida e como elas caracterizam a qualidade de vida do seu bairro? Essas questões atuam como ponto de partida para as análises que pretendem ser feita, contudo em função da complexidade do tema acreditamos que outras questões podem ser levantadas ao longo dos trabalhos que forneçam bases para que o problema central da pesquisa seja resolvido. Os estudos que empregam a percepção ambiental, no sentido de compreender as relações do morador com o seu ambiente, vêm aumentando significativamente. No Brasil, esse tema vem sendo analisado nas áreas de Urbanismo, Planejamento Ambiental e, sobretudo na Geografia. Estudos desenvolvidos por Lívia de Oliveira (1996), Vicente del Rio (1996) e entre os baianos, 2 Ângelo Serpa (2001) têm colocado em destaque as reflexões sobre o lugar na Geografia. Para Lynch (1998) a cidade é objeto de percepção das pessoas das diversas classes sociais e também produto da construção que continuamente está sendo modificada. Os estudos de Tuan (1983) sobre percepção destacam que o espaço em contato com o homem assume muitos significados e “transforma-se em lugar à medida que adquire sentido e significado”. Assim o espaço percebido se transforma em lugar aos olhos do observador. Keinert e Karruz (2002) em suas análises destacam a qualidade de vida na cidade como questão fundamental da gestão pública. O Cabula, um bairro bastante plural quanto aos aspectos sócio-econômicos é palco de grandes problemas sociais e ambientais e apresenta áreas bastante distintas quanto as suas formas e funções. A avenida Silveira Martins foi construída entre os anos de 1965 e 1966 como parte da expansão dos transportes que impulsionou o processo de ocupação urbana em Salvador e direcionou os fluxos de ocupação do Cabula, gerando um espaço dinâmico tanto do ponto de vista habitacional quanto da expansão do setor de serviços no seu entorno. As antigas comunidades quilombolas que habitaram a área do passado colonial também deixaram suas marcas bastante vivas nos espaços periféricos do bairro, sobretudo nas comunidades da Engomadeira, São Gonçalo e Narandiba. Logo, pode-se perceber que as grandes desigualdades sócio-espaciais observadas do bairro sofreram influência da ocupação do espaço que seguiu prioritariamente duas direções: a herança quilombola e as iniciativas de povoamento e urbanização do Estado. Diante da riqueza de fatores que atuaram na configuração sócio-espacial do Cabula, este bairro foi escolhido como objeto de estudos, em função das possibilidades de se obter diferentes visões, de diferentes classes sociais sobre a como as dinâmicas espaciais influenciam em sua qualidade de vida e na qualidade de vida da sua comunidade. A escolha deste tema surge com a necessidade de se analisar as dinâmicas sócio-ambientais sob o olhar do cidadão, valorizando as informações que a percepção dos moradores pode nos trazer. Assim, espera-se com este trabalho obter meios para despertar os moradores, quanto a sua condição real de cidadão, entendendo este como “aquele que ultrapassa a condição de usuário urbano para assumir o pólo das decisões e vetorizados distintos da cidade e dos interesses públicos”. (FERRARA, 1996). Foi realizado um estudo de caso sobre a qualidade de vida urbana no Bairro do Cabula, a partir da percepção que o morador tem do lugar onde vive, ou seja, analisar a qualidade de vida dos habitantes através da forma como ele percebe a cidade onde vive a partir do lugar. Para tanto, 3 foram estabelecidos os seguintes objetivos específicos: Analisar os fatores causais do ordenamento territorial do bairro, analisando sua ocupação histórica; Caracterizar o uso e o potencial de ocupação desses espaços; Caracterizar os moradores do bairro por classes, a partir da qualidade de vida, com base em categorias de análise inspiradas nos trabalhos de Maria Gabriela Camargo Mora; Identificar e caracterizar os problemas sócio-ambientais desse lugar, a partir da percepção dos seus moradores; Identificar e avaliar as formas de atuação dos moradores com relação aos problemas vivenciados em seus bairros; Propor a elaboração de uma agenda de reivindicações com os moradores locais. Quanto aos procedimentos metodológicos, as ações pertinentes à pesquisa forma divididas em duas fases. A primeira fase constitui a análise do processo de produção do espaço do bairro do Cabula, buscando situá-lo no contexto da Região Metropolitana de Salvador. A segunda será o desenvolvido do trabalho empírico sobre o perfil sócio-econômico dos moradores, as condições sócio-ambientais desses espaços, suas formas de usos e ocupação, o acesso da comunidade aos equipamentos urbanos e a percepção dos moradores em relação a esses problemas. A primeira fase foi realizada através de uma pesquisa documental e bibliográfica, a qual permitiu acesso às informações existentes em órgãos públicos de Salvador como a CONDER, SEI, CBPM, CRA. As bibliotecas da UFBA, revistas, jornais e Arquivo Público de Salvador complementaram essa pesquisa. Ainda nesta fase, foram elaborados os instrumentos de pesquisa como: formulários, matriz de observação direta, entrevistas e a carta base da área de pesquisa a partir dos setores censitários do IBGE (2000). Os resultados dessa fase permitiram a análise do processo de ocupação e dos fatores do ordenamento territorial do bairro, assim como a caracterização do uso e potencial de ocupação desses espaços. Na fase inicial foi feito ainda um reconhecimento da área, tendo sido os seis setores censitários percorridos e fotografados de modo a caracterizar e identificar peculiaridades pertencentes a esses espaços. Na segunda fase deu-se ênfase ao trabalho de campo. O levantamento das informações foi feito através de matrizes de observação direta, aplicação de questionários e entrevistas com a comunidade e lideranças locais. A área compreende no total 1880 domicílios ocupados. Foram aplicados questionários a 94 domicílios, de seis setores censitários correspondentes aos logradouros: CHOPM-1(47), São Gonçalo do Retiro (8), Engomadeira (16) e Conjunto Recanto do Cabula (23), locais onde as matrizes de observação, também foram aplicadas, representando 5% do total de domicílios da área. A escolha do universo domiciliar como alvo para a aplicação dos 4 questionários, atende as perspectivas quanto à percepção em relação ao bairro, permitindo o entendimento de questões teóricas e práticas cotidianas no âmbito da problemática urbana e de sua interface com a qualidade de vida. A escolha por Setores Censitários como critério de delimitação da área de estudos se deu em função da dificuldade de obtenção de dados técnicos sobre os bairros de Salvador. Setor Censitário é um conceito apresentado pelo IBGE, sendo caracterizado como uma unidade territorial de coleta formada por área contínua, situada em um único quadro urbano ou rural, com dimensão e número de domicílios que permitam o levantamento das informações por um único recenseador, segundo cronograma estabelecido. Assim notamos que os setores censitários são áreas delimitadas para atender a exigências técnicas, não tendo qualquer relação com as dinâmicas sócio-econômicas do bairro. A cidade é o espaço em que as relações sociais se materializam de forma mais expressiva, contudo, sua percepção, como já foi dito se dá de modo fragmentado pela maioria dos seus moradores. Por isso optou-se por reduzir a escala de estudos para uma unidade menor, o bairro do Cabula, mais precisamente nos logradouros conj. CHOPM1, Conj. Recanto do Cabula, Engomadeira, São Gonçalo do Retiro, por constituírem lugares, onde, as imagens e as relações se tornam mais perceptíveis para os moradores. 5 6 Figura 2 Figura 3: 7 CAPÍTULO 1 OS PIONEIROS NA QUESTÃO DA QUALIDADE DE VIDA E DA PERCEPÇÃO AMBIENTAL NA GEOGRAFIA 1.1. Principais trabalhos anteriores O levantamento bibliográfico sobre o tema mostrou a riqueza dos trabalhos desenvolvidos sobre fenomenologia, percepção ambiental e qualidade de vida. Entre os principais autores podemos citar Kevin Lynch, Yi-Fu Tuan, Tânia M. Keinert, Ana P. Karruz, Lucrecia D’Alessio Ferrara, Rosali Fernades e Ângelo Serpa, os quis foram fundamentais para as analises iniciais nos nossos trabalhos. O artigo “Percepção e Fenomenologia: Em busca de um método humanístico para estudos e intervenções do/no lugar” (SERPA 2001) foi de grande contribuição para esclarecer algumas questões sobre os estudos em Fenomenologia, uma vez que discute a contribuição da Fenomenologia e da Geografia Humanística e da Percepção para os estudos do lugar. A Fenomenologia foi trazida pela primeira vez, como uma nova forma de abordagem do conhecimento, pelo filosofo alemão Edmund Husserl no início do século XX. Lançando através de sua obra Meditações Cartesianas as bases de uma fenomenologia transcendental. Seguindo os passos de Husserl, o autor Merleau-Ponty, em sua obra Fenomenologia da Percepção aborda o espaço antropológico como sendo lugar de experiência de uma relação com o mundo de um ser essencialmente situado em relação com o meio. Outra importante contribuição à pesquisa fenomenológica foi Gaston Bachelard que em sua obra A poética do espaço (1998) cria uma “Fenomenologia da imaginação”, a qual estuda o fenômeno da imagem que emerge na consciência humana como produto do coração, da alma, do ser do homem. Tuan foi fortemente influenciado pelas idéias de Bachelard para propor uma geografia baseada no conceito de topofilia. Os trabalhos de Yi-Fu Tuan, publicados em suas obras Espaço e Lugar e Topofilia, trouxeram para a análise ambiental urbana uma nova perspectiva, teorizando sobre os sentimentos humanos e o lugar onde vivem. Na obra Topofilia são abordados os temas percepção, atitudes e valores para a compreensão da dependência dos problemas humanos, sejam eles econômicos, políticos ou sociais do centro psicológico da motivação, dos valores e atitudes que dirigem as 8 energias para a transformação do espaço. No livro Espaço e Lugar o autor analisa as diferentes maneiras como as pessoas sentem e conhecem o espaço e o lugar, relacionando as experiências humanas e as dinâmicas espaciais, ressaltando a influência que cultura e experiência exercem na interpretação do meio ambiente. Lynch tem contribuído enormemente para a discussão sobre a importância dos símbolos e da infra-estrutura urbana para a percepção e apropriação da cidade por seus moradores. Em seu livro A imagem da cidade, publicado em 1960, traz a idéia de que uma imagem ambiental pode ser decomposta em três componentes: identidade, estrutura e significado, sendo conveniente absorvêlos para análise, desde que não se perca de vista que sempre aparecem juntos. Este autor define paisagem urbana como algo a ser visto e lembrado, um conjunto de elementos que esperamos que nos dêem prazer, associando o conceito de legibilidade à capacidade dos símbolos de atrair a percepção dos indivíduos, sobretudo aqueles que habitam o lugar. O conceito de qualidade de vida, seus indicadores e suas aplicações qualidade de vida, como sugere Maria Gabriela Camargo Mora, pode ser analisada essencialmente sob dois aspectos um seria através de indicadores sócio-econômicos que servem como instrumento de planejamento como: ambiente físico; saúde; educação; habitação; serviços básicos; participação socioeconômica (emprego e renda) e seguridade social e pessoal (segurança pública e seguridade). Uma outra forma de analisar a qualidade de vida urbana é como ela é percebida pelos indivíduos. Esta última forma constitui o enfoque principal dos nossos trabalhos. Quanto aos trabalhos na linha fenomenológica sobre as dinâmicas do espaço periférico, sob a perspectiva da percepção ambiental merece destaque, os trabalhos de SERPA, sobretudo o livro Fala Periferia! Uma reflexão sobre a produção do espaço periférico metropolitano. (2001). Aqui Serpa trabalha periferia no sentido de “áreas com infra-estrutura e equipa-mentos de serviços deficientes, sendo essencialmente o lócus da reprodução sócio-espacial da população de baixa renda”. Esta obra reúne trabalhos de diversos autores sobre o tema. Organizados pelo Dr. Ângelo Serpa, o qual desenvolve diversos trabalhos nesta linha de pesquisa. Em relação aos trabalhos anteriores realizados sobre o bairro do Cabula merece destaque o trabalho de Rosali Braga Fernades: Periferização Sócio-Espacial em Salvador: Análise do Cabula, uma área representativa. Esta obra tem um enfoque urbanístico e trata das transformações ocorridas no espaço do bairro do Cabula e sua configuração atual. 9 1.2. Bases teóricas- conceituais A caracterização da área de estudos teve como fontes primárias de dados as publicações do IBGE com base no censo 2000 e os trabalhos de Fernandes, sobretudo em seus aspectos físicos e históricos. Os estudos de Fernades forma de grande contribuição em função da riqueza de informações levantadas pela autora, uma vez que as informações sobre bairros específicos da cidade de Salvador são raras e muitas vezes superficiais. Com base nas idéias expostas por Lynch em sua obra A imagem da cidade (1960) será tratada com relevância a importância na análise de imagens sob a percepção do morador, através de mapas e relatos, que forneçam a imagem pública da área, seus problemas e qualidades gerais, revelando, de modo crítico, as inter-relações entre os elementos e fornecendo dados para a análise da qualidade de vida no bairro do Cabula, que possam revelar possibilidades de transformação. “Os elementos móveis de uma cidade e, em especial, as pessoas e suas atividades, são tão importantes quanto as partes físicas estacionárias. Não somos meros observadores desse espetáculo, mas parte dele; compartilhamos o mesmo palco com outros participantes. Na maioria das vezes, nossa percepção da cidade não é abrangente, mas antes parcial, fragmentária, misturada com consideração, e a imagem é uma combinação de todos eles”. (LYNCH , p.2, 1999) Com base nas obras Espaço e Lugar (1983) e Topofilia (1980) de Tuan pretende-se analisar os problemas e as potencialidades da área, associando-os aos sentimentos de topofilia (o qual refere-se à afetividade humana para com um lugar) e topofobia (sentimento contrário a topofilia, associado à aversão, repulsa, em relação a um lugar). A qualidade de vida é a temática central deste estudo e encontra fundamentação teórica nas obras de Keinert & Karruz, para quem: “A análise sobre a qualidade de vida envolve perspectivas múltiplas: uma delas seria a possibilidade de sua utilização no planejamento do desenvolvimento econômico, social e urbano; uma outra seria sua evolução ao longo do tempo e, por fim, a perspectiva de como uma dada comunidade considera e percebe a qualidade de vida”. 10 Ainda as mesmas autoras ratificam: “O conceito de qualidade de vida (e seus indicadores) pode ser um instrumento de planejamento, servindo como um parâmetro do grau de cobertura das necessidades dos indivíduos, ou grupos sociais, permitindo a detecção de desigualdades socioespaciais, derivadas dos diferentes graus de satisfação das necessidades, proporcionando bases para a elaboração de estratégias para melhorar o bem estar” (cf. Camargo Mora, 1966). Keinert & Karruz colocam ainda que para se discutir a percepção de um indivíduo, cabe levantar as situações ou contextos nos quais ele se vê inserido, e com base nas idéias de Carlos H. Cardim & Daphinis F. Souto, adotam quatro contextos: o trabalho, a família, as amizades e o lazer; e onze fatores interferentes que são: alimentação, vestuário, habitação, higiene e saúde, educação, trabalho, circulação, comunicação, recreação e lazer. Essas necessidades variam no tempo, e no espaço e das características individuais das pessoas. Assim pode-se dizer que a qualidade de vida está relacionada ao grau de satisfação e às expectativas dos indivíduos, assim como, à capacidade dos governos de atender essas expectativas. Esses conceitos nortearam o estabelecimento de variáveis que serão utilizadas para caracterizar a qualidade de vida do bairro do Cabula. De acordo com os trabalhos de JACOBI (2000) a relação entre meio ambiente urbano e qualidade de vida é pensada levando-se em conta aspectos estritamente relacionados a uma abordagem intersetorial da questão. Em sua obra aborda os problemas ambientais na cidade de São Paulo, e no universo domiciliar, a partir da percepção da população, visando o entendimento de questões teóricas e práticas cotidianas no âmbito da qualidade de vida na problemática urbana e de sua interface com a questão ambiental. “Ao analisar as relações entre meio ambiente urbano e qualidade de vida têm-se como pressuposto estabelecer as mediações entre as práticas do cotidiano vinculadas ao bairro e domicílio, o acesso a serviços, asa condições de habitabilidade da moradia e as formas de interação e participação da população” (McGranahan, 1993. In JACOBI 2000). 11 CAPÍTULO 2 CONFIGURAÇÃO ESPACIAL DO BAIRRO 2.1.O bairro do Cabula no contexto da Região Metropolitana de Salvador A área de estudos corresponde a seis setores censitários (160, 181, 182, 273, 274 e 371) localizados ao longo da Avenida Silveira Martins, no bairro do Cabula. Este bairro pertence ao Sub-Distrito de São Caetano, na Região Metropolitana de Salvador, possuindo 1202 domicílios ocupados e uma população total de 42305 habitantes e um rendimento médio de 4,99 salários mínimos, segundo o censo demográfico do IBGE 2002. Esses setores que incorporam a área de estudo possuem no total 1880 domicílios e uma população total de 11030 habitantes. A palavra bairro é considerada neste trabalho como uma construção da mente humana, onde uma determinada porção do espaço é reconhecida, a partir do reconhecimento dos seus moradores de suas características, delimitação física ou identidade ocupacional. O bairro do Cabula constitui um dos maiores bairros da cidade de Salvador, tendo sido feito para este trabalho um recorte espacial que viabilizasse a pesquisa sem deixar de demonstrar a diversidade das suas formas de ocupação. A porção do bairro aqui estudada engloba também logradouros pertencentes aos sub-bairros do São Gonçalo do Retiro e da Engomadeira, que embora no mapa da cidade de Salvador não façam parte do Cabula, são reconhecidos pelos seus moradores como pertencentes a este. Portanto quando incorporamos Engomadeira e São Gonçalo ao Cabula, estamos priorizando a percepção local dos moradores em detrimento às fontes cartográficas oficiais. Assim, em alguns mapas apresentados posteriormente pode-se interpretar Cabula, Engomadeira e São Gonçalo como bairros diferentes, como no exemplo na figura da Área de Estudo no mapa da cidade de Salvador (Figura 3) , pois foi utilizado como base para a elaboração dos elementos cartográficos deste trabalho os dados da CONDER 2000. 2.2. Ambiente físico do bairro O relevo do bairro do Cabula caracteriza-se por um relevo irregular, com quotas que variam de 10 à 110m, em colinas com topos relativamente planos e vales profundos que chegam a alcançar cotas próximas às do litoral. Ainda que tenham algumas vertentes escarpadas, apresentam em geral vertentes suaves. A topografia e os declives têm desempenhado um importante papel para 12 a ocupação da área, uma vez que seu miolo se desenvolve principalmente nas altas e médias vertentes, onde estão as pessoas de renda mais alta. Por outro lado às baixas vertentes e nos lugares com declive acentuados se estabelece a população de classe mais baixa. O clima é quente e úmido, com precipitações intensificadas nos meses de abril a maio. A vegetação existente, apesar de ter sido degradada pela ação antrópica, apresenta, contudo, uma grande exuberância. A concentração em alguns pontos origina zonas de bosque denso, como ocorre na represa do Cascão, nos limites do bairro. O Cabula possui uma das principais mancas de Mata Atlântica de Salvador, área hoje pertencente ao 19º Batalhão de Caçadores, local de treinamento de exército. Além disso, em algumas áreas pode-se identificar manchas de capoeira, vegetação secundária que se desenvolve no lugar de Matas Higrófila e Mesófila destruídas, formadas por árvores de pequeno diâmetro, indo desde a forma arbustiva até a arbórea. 2.3. Aspectos históricos do Cabula A ocupação do Cabula é recente, sua configuração enquanto bairro se deu há cerca de 40 nos, em parte pela evolução dos antigos núcleos quilombolas que pertenciam à área, sobretudo através da ação do Estado. No espaço urbano de Salvador, este bairro apresenta peculiaridades históricas que se contextualizam no processo de ocupação e expansão da Cidade. Enquanto bairro o Cabula caracteriza-se como um espaço recente, uma vez que passou a sofrer a atuação do Estado, do ponto de vista habitacional a partir da década de 60 com as políticas de ocupação do Miolo de Salvador. Entretanto a ocupação dessa área é antiga, representada por comunidades quilombolas que aí se instalaram desde a época colonial. As antigas comunidades quilombolas que habitaram a área no passado colonial também deixaram suas marcas bastante vivas nos espaços periféricos do bairro, sobretudo nos logradouros da Engomadeira, São Gonçalo e Narandiba. Em 1943 instalou-se nessa área o 19º Batalhão de Caçadores, uma unidade do exército que encontrou nesta área manchas da Mata Atlântica importante para seus treinamentos militares. Até hoje, a Mata do Cascão é um referencial de áreas remanescentes de Mata Atlântica em Salvador. Foi também significativo para a ocupação da área os inúmeros sítios e chácaras, muito presentes até a década de 60, que se destacavam como produtores de laranja. A avenida Silveira Martins, principal vetor de expansão urbana do bairro, foi construída entre os anos de 1965 e 1966 como parte das estratégias que impulsionaram o processo de 13 ocupação urbana em Salvador. Essa avenida direcionou os fluxos de ocupação do Cabula, gerando um espaço dinâmico tanto do ponto de vista habitacional quanto da expansão do setor de serviços no seu entorno. Todo esse processo deu origem a um bairro que representa na organização do espaço de Salvador uma área intra-urbana de usos múltiplos. Podemos perceber que as grandes desigualdades sócio-espaciais observadas do bairro sofreram influência da ocupação do espaço que seguiu prioritariamente duas direções: a herança quilombola e as iniciativas de povoamento e urbanização do Estado. 2.4. Configuração atual Atualmente o Cabula constitui-se um bairro plural quanto aos aspectos sócio-econômicos, sendo palco de problemas sociais e ambientais, com áreas de ocupação bastante distintas quanto as suas formas e funções. A diferença entre alguns logradouros é gritante frente à proximidade entre eles. Um bom exemplo é a proximidade espacial e distância social entre a rua Leila Diniz e a baixinha do São Gonçalo do Retiro. Na rua Leila Diniz predominam casas com alto padrão social, algumas com dois andares, ampla varanda e muitas com piscina, e quase todas com muros altos. Este logradouro não foi abrangido pela pelo trabalho empírico em função da dificuldade de se encontrar meios de estabelecer comunicação com os seus moradores. A rua referida trata-se do logradouro onde se observam as melhores condições de moradia, estando suas residências muito acima dos padrões da área, fato que certamente enfraqueceu as análises, contudo, para não excluir o setor 273, onde esta rua se localiza, foram aplicados questionários nos prédios do conjunto Recanto do Cabula situados neste setor. O São Gonçalo do Retiro é um sub-bairro do Cabula, onde havia um grande quilombo, o qual cedeu lugar à ocupação espontânea e hoje é composto predominantemente por casas de pequeno porte e áreas com fraca infra-estrutura urbana. A área mais carente deste sub-bairro constitui, juntamente com a área mais carente da Engomadeira, um grande espaço periférico onde as condições de vida são precárias e a falta de segurança inviabilizou a aplicação dos questionários nesta área. É interessante perceber como por diferentes motivos os extremos sócio-econômicos da área de estudo se mostraram praticamente inacessíveis à aplicação de questionários e entrevistas. Um 14 pelo medo, que eleva os muros e aumenta a busca por mecanismos privados de segurança, dificultando o acesso aos domicílios. O outro, nas áreas mais periféricas, a ausência de intervenções do Estado e a expropriação dessas populações das condições básicas de segurança e infra-estrutura urbana aumentam a criminalidade e a violência no local, o que por sua vez, também dificulta o acesso aos domicílios desses locais mais periféricos. Determinadas áreas pertencentes aos setores 179, mais afastadas da avenida Silveira Martins não serão incorporadas aos trabalhos de campo em função da falta de segurança, pois assim como a chamada “baixinha” da Engomadeira, e na “baixinha” do São Gonçalo, onde é forte a presença do tráfico de drogas e grande a falta de segurança. Entretanto, a exclusão deste não trouxe grande prejuízo à pesquisa, pois o São Gonçalo do Retiro, logradouro predominante neste setor, já se encontra representado pelo setor 371, além disto, a área do setor 179 mais próxima da Avenida Silveira Martins é ocupada pela EMBASA, não constituindo área residencial. Por motivos diferentes, foi também excluído da pesquisa o setor 180, este por sua vez foi retirado por fazer parte do logradouro CHOPM 1, já bastante representado pelos setores 181 e 182, onde foi aplicada uma maior quantidade de questionários, fato que o tornava redundante. 15 Figura 4 16 De acordo com a análise do mapa de sistema viário da área de estudo (Figura 5) e do reconhecimento de campo, pode-se afirmar que o sistema viário do bairro do Cabula se apresenta de modo irregular, sendo constituído por elementos isolados que só são ligados um por um, ou às vezes não tem nenhuma ligação. O elemento principal é a Avenida Silveira, cuja qualidade direcional se deve ao fato de orientar o sentido do bairro, representando a sua via de expansão. Ligados a esta se observam algumas ruas pavimentadas que funcionam como vias de ligação dos logradouros com a avenida principal. É possível observar ruas pavimentadas desconexas do sistema viário, dificultando a circulação, sobretudos nos logradouros mais periféricos. A função de circulação é tão importante no espaço urbano que a construção da Avenida Silveira Martins transformou a área num espaço dinâmico tanto do ponto de vista habitacional quanto da expansão do setor de serviços no seu entorno. Figura 5 17 Figura 6 O indicador densidade habitacional refere-se ao número de habitantes por área. No mapa acima é possível observar que as áreas de maior densidade habitacional correspondem aos logradouros de Engomadeira, Recanto do Cabula, estando o Conjunto CHOPM-1 em situação intermediária e a área de menor densidade habitacional corresponde à parte do São Gonçalo do retiro. É importante destacar que o mapa acima foi gerado com base nos dados do Censo IBGE 2000, o qual organiza a cidade de Salvador em setores censitários que corresponde a uma unidade territorial de coleta formada por área contínua que permitam o levantamento das informações por um único recenseador, segundo cronograma estabelecido. O setor 179 ,que aparece em amarelo no mapa acima, de menor densidade habitacional, não foi incorporado à pesquisa empírica, como já justificado anteriormente, mas por questões de estética cartográfica não foi excluído dos mapas. Esta área caracteriza-se como periférica pela ocupação irregular e deficiência dos serviços urbanos, com elevado número de domicílios, fato que contradiz a baixa densidade ocupacional, indicada pelos dados do IBGE. 18 CAPÍTULO 3 A QUALIDADE DE VIDA NO BAIRRO DO CABULA 3.1. Uma análise sobre o conceito e aplicabilidade. O conceito de qualidade de vida como sugere Maria Gabriela Camargo Mora, pode ser analisado essencialmente sob dois aspectos um seria através de indicadores sócio-econômicos que servem como instrumento de planejamento como: ambiente físico; saúde; educação; habitação; serviços básicos; participação socioeconômica (emprego e renda) e seguridade social e pessoal (segurança pública e seguridade). Uma outra forma de analisar a qualidade de vida urbana é como ela é percebida pelos indivíduos. De acordo com as idéias de Jacobi (2000), ao se relacionar o meio ambiente urbano e a qualidade de vida deve-se estabelecer as mediações entre as práticas do cotidiano vinculadas ao bairro e domicílio, o acesso a serviços, asa condições de habitabilidade da moradia e as formas de interação e participação da população. A mediação entre esses fatores possibilita compreender as relações entre os problemas percebidos pela população, assim como conhecer a cadeia de relações entre o que a população identifica ou não identifica como sendo problemas relativos ao meio ambiente, permitindo também identificar como a população hierarquiza os problemas urbanos; as relações destes problemas com o seu cotidiano e como estes são (ou não) resolvidos ou enfrentados no seu habitat. Segundo o autor: “A análise dos problemas ambientais do bairro e do domicílio permite conhecer as percepções dos moradores em torno do acesso e da qualidade dos serviços urbanos pesquisados, assim como o nível de hierarquização dos aspectos positivos e negativos que interferem no entorno das famílias”. (JACOBI, 2000, p.32). É importante também diferenciar os conceitos de qualidade de vida e padrão de vida, segundo Souza (2000): 19 “Sobre o conceito de qualidade de vida, é conveniente esclarecer a diferença entre ele e o conceito de padrão de vida. Enquanto este diz respeito ao poder aquisitivo de um indivíduo, expressando-se através de uma grandeza mensurável – o dinheiro - e tendo como referência o mercado, a qualidade de vida é algo mais abrangente. Ela engloba também aquelas coisas que não podem ser simplesmente adquiridas pelos indivíduos no mercado (e, em vários casos, nem sequer podem ser mensuradas, a não ser, eventualmente, em uma escala ordinal), mas, que interferem no seu bem-estar. Exemplos são a beleza cênica, a qualidade do ar e a liberdade política”. (SOUZA 2000, P. 111). Sobre a percepção e a qualidade de vida é preciso compreender que são conceitos subjetivos, associados aos critérios pessoais, às aspirações, à cultura e até mesmo ao perfil sócioeconômico, portanto este trabalho não tem a pretensão de diagnosticar os anseios, as expectativas e as opiniões dos moradores de todo o bairro, mas sim de caracterizar de maneira geral as principais necessidades dos moradores dos logradouros estudados no entrono da Avenida Silveira Martins. A abordagem sobre a qualidade de vida, seus indicadores e suas aplicações como um instrumento sociológico e de transformação do espaço, considera as possibilidades dessa discussão não só como campo de estudos mas também de intervenção no espaço geográfico, pois permite melhor entender as condições de vida social, econômica e ambiental, superando a noção econômica de desenvolvimento, pois incorpora a percepção do cidadão em relação ao espaço urbano o qual este faz parte. “... que a discussão sobre a qualidade de vida sirva de base para o desenho não da utopia e da perfeição impossíveis, mas para um compromisso ético de uma sociedade garantidora da vida, onde as potencialidades humanas não sejam brutalizadas nem a natureza destruída”. (HERCULANO, PORTO & FREITAS, 2000). 20 3.2. Indicadores relevantes para a análise da qualidade de vida Com base nos trabalhos de Camargo Mora, 1966, a avaliação e ou mensuração da qualidade de vida de uma população vem sendo proposta de duas formas: em primeiro lugar, examinando-se os recursos disponíveis, as condições sócio-econômicas, as bases materiais, ou seja, a capacidade efetiva de um grupo social para satisfazer suas necessidades. Uma segunda forma é avaliar as necessidades através dos graus de satisfação e dos patamares desejados, mais relacionados à percepção do cidadão em relação à qualidade de vida, sendo portanto uma análise mais subjetiva . Assim, a qualidade de vida vem tentando ser analisada pela distância entre o que se deseja e o que se alcança, ou seja, pelos estágios de consciência a respeito do grau de satisfação cotidiana. Os indicadores além de condensarem as informações facilitando as tomadas de decisões referentes à gestão pública, têm também a função de demonstrar a forma e os rumos que toma o coletivo, permitindo fazer a descrição, a avaliação e a análise dos fenômenos. A seleção dos indicadores é portanto uma importante etapa do estudo. Aqueles utilizados para a análise da qualidade de vida neste trabalho podem ser observados no quadro abaixo: Indicadores Saúde Educação Habitação Participação socioeconômica Segurança pública Equipamentos de lazer Descrição Acesso a cuidados médicos, postos de saúde, clínicas e hospitais Nível mais alto de escolaridade alcançado Tipo de domicílio e propriedade e cômodos Emprego e renda Exposição à violência e ao roubo e acesso ao policiamento Acesso à recreação através de equipamentos de lazer como parques, praças, quadras, etc. Para facilitar a análise dos fenômenos os indicadores descritos acima foram estudados em dois grupos: perfil socioeconômico e equipamentos urbanos, permitindo um maior entendimento sobre os recursos disponíveis e as condições sócio-econômicas dos logradouros estudados. 21 3.3. Perfil sócio-econômico da população O estudo do perfil sócio-econômico tomou como base os dados obtidos através dos trabalhos de campo entre novembro de 2005 e fevereiro de 2006, considerando os indicadores apresentados no tópico anterior, serão apresentados os dados quantitativos referentes aos seguintes aspectos: grau de escolaridade e participação socioeconômica. As análises efetuadas permitiram caracterizar o perfil sócio-econômico dos moradores dos logradouros estudados. Ao se considerar o grau médio de escolaridade dos moradores entrevistados, verifica-se que 52,1% têm Ensino Médio completo e 20,2% Ensino Fundamental Completo. Entretanto, 20,2% não possuem o fundamental completo e apenas 7,5% têm Ensino Superior. Esses dados mostram que de maneira geral, apesar de contar com uma boa oferta de instituições de ensino, inclusive a Universidade Estadual da Bahia - UNEB, os moradores desses logradouros do bairro do Cabula possuem um baixo índice de escolaridade. Escolaridade (Nível de Ensino) no entorno da Av. Silveira Martins 20% 20% Superior Completo Médio Completo 8% 52% Fundamental Completo Fundamental Incompleto Fonte: Trabalhos de campo A participação socioeconômica foi estudada com base em dois aspectos: a ocupação e renda média familiar. A análise do indicador atividade profissional permitiu identificar entre os moradores 35,1% empregados, 18,1% de aposentados e 30,9 % de desempregado, tendo 18,1% se classificaram como autônomos muitos dos quais em trabalho informal. O número de trabalhadores informais é bastante expressivo no bairro (Fotos 1 e 2), variando desde “banquinhas” de frutas a vendedores de CDs e DVDs falsificados, disputando os espaços das ruas principais. Outra consideração importante donas de casa, que apesar de se dedicaram ao trabalho doméstico, foram incorporadas ao percentual de desempregados, ainda assim, o número de pessoas entrevistadas desempregadas mostrou-se bastante elevado, refletindo também na renda média familiar. 22 Foto 1: Barraca de concertos em geral no logradouro da Engomadeira Foto 2: “Banquinha” de frutas na Engomadeira A renda familiar dos entrevistados revela que 59% dos moradores ganham de três a mais de cinco salários mínimos. Por outro lado, 21,4% ganha até 3 salários mínimos e 20,2% menos de um salário. É preciso, porém considerar que as famílias analisadas têm uma média de cinco pessoas, o que relativisa o poder de consumo desta renda. Atividade Profissional no entorno da Av. Silveira Martins 16% Empregado 35% 18% Renda em Sálarios Mínim os (s.m ) no entorno da Av. Silveira Martins 20% 26% Desempregado De 3 à 5 s.m Autônomo Aposentado 31% Fonte: Trabalhos de campo Mais de 5 s.m De 1 à 3 s.m 21% 33% Menos de 1 s.m Fonte: Trabalhos de campo Os mapas abaixo (figuras 7 e 8) referentes à renda média de 0 à 2 salários mínimos e de 10 à 20 salários mínimos, foram elaborados com base nos referentes aos setores censitários do IBGE 2000. Foram utilizados os intervalos extremos de menor renda média e intervalo de maior renda média para permitir uma análise complementar da distribuição de renda nos espaços estudados. A análise dos mapas permite observar que a maior parte da população de renda média entre 0 e 2 salários mínimos encontra-se concentrada nos logradouros da Engomadeira e São Gonçalo. Por outro lado observa-se uma maior concentração de população com renda média entre 10 e 20 23 salários mínimos no Conj recanto do Cabula e Rua Leila Diniz. O Conj. CHOPM-1,encontra-se numa situação intermediária a partir da comparação desses dados. Observou-se que os logradouros da Engomadeira e São Gonçalo, áreas de menor renda média. apresentaram os menores índices de escolaridade, ao passo que a maior parte dos moradores que afirmaram possuir nível superior completos residem no Conjunto Recanto de Cabula, com maior renda média mensal. Esse dado ilustra a inter-relação entre renda e escolaridade, quanto ao perfil sócio-econômico. Figura 7 24 Figura 8 3.4. Acessibilidade aos equipamentos e serviços urbanos A análise desse indicador considerou as condições dos serviços de educação e saúde, segurança, transporte, esgotamento sanitário e lazer que são acessíveis aos moradores da área de estudo. O sistema de ensino enquanto equipamento urbano foi aqui considerado de acordo com a possibilidade de acesso à educação e escolas disponíveis no bairro. O bairro do Cabula apresenta uma grande oferta de instituições de ensino. Só no entorno da Avenida Silveira Martins, encontram-se 15, sendo 6 estaduais e 9 particulares, abrangendo desde a Educação Infantil até o Ensino Médio. Além destas é grande o pequeno número de pequenas escolas nos logradouros, sobretudo os mais carentes: Engomadeira e São Gonçalo, onde algumas casas, incluindo a própria sede da associação de moradores, funcionam como creches e “escolinhas”. Além disso, no bairro encontra-se o campus da UNEB (Universidade Estadual da Bahia), em Salvador, o que favorece a população local com relação ao ensino de terceiro grau. Portanto a oferta de instituições de ensino não é um problema apresentado pelo bairro do Cabula. 25 A percepção dos moradores quanto ao número de escolas no bairro permitiu a elaboração do gráfico abaixo, onde este indicador apresentou-se como satisfatório para quase 78% dos entrevistados, havendo escolas públicas tanto de Ensino Fundamental quanto de Ensino Médio. Os logradouros em que o grau de insatisfação foi maior correspondem aos sub-bairros do São Gonçalo e Engomadeira, onde também se nota a ausência colégios de Ensino Médio. Cabula Número de Escolas 22% Insuficientes 78% satisfatório Os serviços de saúde do bairro estão representados por dois grandes hospitais: o Hospital Roberto Santos e o Hospital Psiquiátrico Juliano Moreira da rede pública, e inúmeras clínicas particulares. Contudo, em menor escala pode-se observar uma carência de postos de saúde, havendo na nossa área de estudos, apenas um na Engomadeira, o qual não possui infra-estrutura suficiente para atender a demanda sempre crescente. Com relação à segurança pública identificou-se na área dois postos policiais e uma viatura para fazer a ronda. Não se constatou, no entanto um policiamento ostensivo. Esse serviço foi o que apresentou maior índice de insatisfação dos moradores locais. É significativo na área conhecida como “baixinha” do São Gonçalo e da Engomadeira a atuação de grupos criminosos relacionados ao tráfico de drogas. Essa área apresenta-se territorializada por esses grupos de modo que o acesso a determinados locais é restrito, precisando de “autorização/conhecimento” dos líderes locais para a prática de trabalhos. Esse foi inclusive um dos fatores que levaram a exclusão de determinadas áreas da pesquisa empírica. O gráfico abaixo é fruto dos trabalhos de campo: Segurança Pública no entorno da Av. Silveira Martins 3% 22% 23% Péssimo Ruim 10% Regular Bom 42% Ótimo 26 O sistema de transporte coletivo é também um ponto importante, aos principais bairros de Salvador, entre os principais bairros de destino dos ônibus das linhas que circulam, no local temos: Barra, Pituba, Campo Grande, Lapa, Ondina, Barroquinha, São Joaquim/Terminal da França, Nazaré, Hospital Geral, Pernambués, Ribeira, Narandiba, Saboeiro, Mata Escura e Jardim Santo Inácio. Apesar de haver uma relativa diversidade de linhas de transporte no bairro, e este ter sido um dos serviços urbanos mais satisfatórios, muitos moradores entrevistados reclamam do fato de que os ônibus passam cheios, sobretudo nos horários de pico, pois estes em sua maioria vêm de outros bairros populosos como Saboeiro, Mata Escura e Tancredo Neves, apontando como necessário um aumento na frota dos ônibus para as linhas já existentes. O gráfico abaixo representa o grau de satisfação dos moradores entrevistados em relação ao sistema de transporte coletivo. Sistema de Transporte no entorno da Av. Silveira Martins 3% 19% Péssimo 2% Ruim 36% Regular Bom 40% Ótimo Fonte: Trabalhos de campo Quanto às condições sanitárias as análises foram feitas em 3 categorias, com base nos dados do IBGE, em: destino de lixo, saneamento básico e abastecimento de água. Além destes foi considerado também a percepção dos moradores quanto aos problemas ambientais do bairro. Os dados referentes ao saneamento básico (tabela 1) demonstram que Engomadeira e São Gonçalo apresentam os maiores problemas com relação a esse tipo de serviço. Alguns domicílios não possuem banheiro ou sanitário e é possível encontrar esgotamento por fossa rudimentar ou despejos diretos no rio. Nos demais setores, predomina o esgotamento sanitário em rede geral, entretanto o CHOPM 1 e o conjunto Recanto do Cabula apresentam considerável número de domicílios com fossa séptica. 27 Tabela 1: Abastecimento de Água em Domicílios Particulares Permanentes Ano: 2006 Setor Censitário 160 181 182 273 274 Rede geral 307 289 330 341 323 Rede geral - canalizada em pelo menos um cômodo 295 289 329 341 264 Rede geral - canalizada só na propriedade ou terreno 12 0 1 0 59 Poço ou nascente (na propriedade) 0 0 0 0 0 Poço ou nascente (na propriedade) - canalizada em 0 0 0 0 0 pelo menos um cômodo Poço ou nascente (na propriedade) - canalizada só na 0 0 0 0 0 propriedade ou terreno Poço ou nascente (na propriedade) - não canalizada 0 0 0 0 0 Outra forma 5 1 0 0 1 Total 619 579 660 682 647 371 TOTAL 156 1 746 156 1 674 0 72 0 0 0 0 0 0 0 0 0 7 312 3 499 Fonte: IBGE, Resultados do Universo do Censo Demográfico 2000 Quanto aos problemas ambientais estes são percebidos em diferentes graus observaram-se diferentes percepções quanto os problemas mais destacados nas áreas de ocupação irregular e nos conjuntos habitacionais. Nas primeiras destacou-se o lixo nas ruas, a presença de insetos e ratos, a falta e a precariedade e esgotamento sanitário. Já nos segundos as principais queixa referentes aos problemas ambientais: a sujeira nas ruas, como lixo e excremento de cachorros, além do deficiente escoamento superficial, o qual provoca alagamentos nos períodos das chuvas, fator que também deteriora o pavimento das ruas. Estes dados podem ser visualizados nos gráficos abaixo: Cabula Existência de Problemas Ambientais Cabula Interferencia dos Problemas Ambientais 14% 43% 57% 19% Sim Não Fonte: Trabalhos de campo 67% Pouco Médio Muito Fonte: Trabalhos de campo 28 A maioria dos logradouros possui o abastecimento de água em domicílio por rede canalizada em pelo menos um cômodo. A EMBASA possui dois grandes reservatórios de água no Cabula, entretanto persistem domicílios que não têm acesso a esse serviço, sendo o caso do São Gonçalo do Retiro. Sobre o destino do lixo (ver tabela 2), todos os setores dispõem de coleta, entretanto a freqüência com que esta é realizada é constante alvo de reclamações. A coleta seletiva não é observada em nenhum logradouro, apesar de ser tida como importante pela comunidade local. Os únicos contêineres de coleta seletiva observados na área estudada encontram-se no estacionamento do supermercado Hiper Bompreço, servindo apenas aqueles moradores que dispõem de tempo e boa vontade de ir até este lugar para depositar o lixo seleto. Tabela 2: Destino do Lixo por Domicílios Particulares Permanentes Ano - 2006 Setor Cencitário 160 181 182 273 Coletado 310 290 321 341 Coletado por serviço de limpeza 113 116 319 341 Coletado em caçamba de serviço de limpeza 197 174 2 0 Queimado (na propriedade) 0 0 0 0 Enterrado (na propriedade) 0 0 0 0 Jogado em terreno baldio ou logradouro 1 0 9 0 Jogado em rio, lago ou mar 0 0 0 0 Outro destino 1 0 0 0 Total 622 580 651 682 274 324 282 42 0 0 0 0 0 648 371 153 153 0 0 0 3 0 0 309 TOTAL 1 739 1 324 415 0 0 13 0 1 3 492 Fonte: IBGE, Resultados do Universo do Censo Demográfico 2000 A coleta de lixo foi tida como satisfatória, pela opinião dos entrevistados, que afirmaram que esta vem acontecendo regularmente, contudo houve algumas reclamações quanto ao descumprimento dos horários por parte dos moradores, sendo necessária uma maior organização por parte da comunidade local, pois o lixo que é depositado após o horário da coleta sé é retirado no dia seguinte, causando desconforto ao ambiente local. Cabula Coleta de Lixo 20% 2% 24% Péssimo Regular Bom 54% Ótimo 29 Os equipamentos de lazer configuraram como uma forte carência do bairro, pois não existem praças nem parques públicos, contando apenas com poucos campos de futebol na Engomadeira e no CHOPM 1, e uma pequena praça no conj. Recanto do Cabula, cujo acesso é restrito aos moradores do conjunto. Estes equipamentos foram considerados insatisfatórios para os moradores, sendo que 72,2% dos entrevistados afirmaram desconhecer a existência desse tipo de equipamento no bairro. Cabula Equipamentos de Lazer 11% 17% Não Possui Insuficiente 72% Satisfatória Fonte: Trabalhos de campo Um fato que se destaca é o número de estabelecimentos comerciais, sobretudo bares, alegando alguns moradores “ser o bar a única opção de lazer”. O Cabula consta com alguns centros comerciais como O Espaço Útil Center, Shopping Conexão Comercial, Plaza Shopping Cabula e Máster Shopping, todos na Avenida Silveira Martins, contudo, seu caráter comercial não permite que estes sejam considerados áreas públicas de lazer, pois servem apenas para aqueles que podem consumir seus serviços. A insuficiência dos equipamentos de lazer é um problema que compromete bastante a qualidade de vida dos cidadãos, pois são as áreas de lazer os espaços mais propícios para se tomar parte da vida em comunidade, sobretudos aos jovens e idosos. 3.5. Análise da qualidade de vida nos logradouros. Para se chegar às conclusões que serão aqui apresentadas foi feito um levantamento através de matrizes de observação direta, aplicação de questionários e entrevistas com a comunidade e lideranças locais. Utilizando os critérios indicados por MORA foram estabelecidos quatro níveis de qualidade de vida para caracterizar o bairro do Cabula: A= aquele onde a maioria disponha de escolaridade do Ensino Superior completo à PósGraduação; renda superior a 5 salários mínimos; boas condições sanitárias e boa satisfação em relação aos equipamentos urbanos. 30 B= escolaridade entre o Ensino Médio completo e o Superior incompleto; renda familiar entre 3 e 5 salários mínimos; boas condições sanitárias e satisfação regular quanto aos equipamentos urbanos. C= escolaridade entre o Ensino Fundamental completo e o Médio incompleto; renda familiar entre 1 e 3 salários mínimos; saneamento básico regular; e baixa satisfação com os equipamentos urbanos. D= escolaridade inferior ao Ensino Fundamental; renda familiar inferior a 1 salário mínimo; saneamento básico regular e insatisfação quanto aos equipamentos urbanos. Com base nesses critérios, nenhum logradouro foi classificado como nível A em qualidade de vida, estando o Conjunto Recanto do Cabula (representado pelos setores 273 e 274) classificado como nível B (Foto 3), o Conjunto CHOPM 1 (representado pelos setores 181 e 182), como nível C (Foto 4) e os logradouros da Engomadeira (Foto 5) e São Gonçalo do Retiro (Foto 6) (setores 160 e 371) como nível D. Foto 3: Conj. Recanto do Cabula Foto 4: Conj. CHOPM 1 Foto 5: Engomadeira Foto 6: São Gonçalo do Retiro 31 A percepção sobre os problemas sócio-ambienatais, como destaca Jacobi1 diferem em relação aos diferentes grupos sociais, assim, a mensuração da qualidade de vida desses logradouros de acordo com o grau de escolaridade e renda, além do acesso e da percepção sobre os equipamentos urbanos objetiva retratar o grau de satisfação dos moradores do Cabula em relação ao cotidiano no espaço urbano. De maneira geral, três indicadores não se apresentaram como problemas para o bairro: o sistema de transportes, segundo a percepção dos moradores, embora apresente falhas, é satisfatório; o serviço educacional, apresentado pelo bairro do Cabula, pois esse dispõe de uma razoável quantidade de estabelecimentos de ensino; e o saneamento básico em que a área estudada tem suas necessidades básicas atendidas. Por outro lado, três indicadores se mostraram mais problemáticos segundo a percepção local: a segurança pública, a qual carece de maior eficiência, sobretudo nos logradouros de classe baixa; os serviços de saúde, principalmente quantos aos posto de saúde; e a escassez de áreas de lazer. Diante dos dados apresentados dos logradouros representados pelos setores censitários estudados podemos caracterizar o perfil socioeconômico dos seus moradores. O Conjunto CHOPM-1 caracteriza-se como um conjunto habitacional, habitado principalmente por uma “classe média baixa”, onde, embora não se manifestem grandes problemas, ainda necessita de maior infra-estrutura, constando apenas com os serviços básicos. A área onde se encontra o conjunto Recanto do Cabula possui melhor infra-estrutura que os demais logradouros estudados, sendo um fator de destaque a rua Leila Diniz, uma verdadeira ilha de casas de luxo no espaço do bairro. Além disto possuem uma melhor condição quanto à segurança e o lazer, tendo seus moradores uma melhor qualidade de vida. De acordo com Serpa, o qual trabalha periferia no sentido de “áreas com infra-estrutura e equipamentos de serviços deficientes, sendo essencialmente o lócus da reprodução sócio-espacial da população de baixa renda”, caracterizam os logradouros Engomadeira e São Gonçalo como áreas periféricas, com maiores necessidades de infra-estrutura urbana e com menor qualidade de vida. 1 “(...) A percepção dos problemas e das soluções varia entre os diferentes grupos sociais, mostrando a interpretação específica e particularizada dos fatores intervenientes, a consideração de fatores qualitativos pensando nas escolhas entorno do que os moradores pensam sobre as práticas sociais e sua relação com aspectos ambientais; entretanto, é importante ressaltar que, freqüentemente, os riscos factuais existentes no meio ambiente são os principais determinantes do risco percebido” (JACOBI, 1999). 32 CAPÍTULO 4 A LEGIBLILIDADE DO BAIRRO E O SENTIMENTO DE TOPOFILIA NO CABULA 4.1. A imagem do espaço e suas implicações Tendo como base os trabalhos de Lynch (1998), para quem a cidade legível seria aquela cuja imagem pudesse ser visualmente apreendida como um conjunto inter-relacionado de símbolos identificáveis, onde bairros, marcos, ou vias fossem facilmente reconhecíveis e agrupados num modelo geral, e acreditando na importância da legibilidade do espaço habitado para uma maior qualidade de vida, tornou-se relevante para este trabalho uma breve análise sobre a imagem do bairro do Cabula. Com base nas idéias expostas por Lynch foram feitas análises de imagens sob a percepção do morador, através de mapas e relatos, os quais forneceram a imagem pública da área, seus problemas e qualidades gerais, revelando, de modo crítico, as inter-relações entre os elementos e fornecendo dados para a análise da qualidade de vida no bairro do Cabula. Este autor define paisagem urbana como algo a ser visto e lembrado, um conjunto de elementos que esperamos que nos dêem prazer, associando o conceito de legibilidade à capacidade dos símbolos de atrair a percepção dos indivíduos, sobretudo aqueles que habitam o lugar2. É importante ressaltar que muitos lugares altamente significativos para certos indivíduos e grupo, têm pouca notoriedade visual, sendo conhecidos emocionalmente, através das relações estabelecidas entre cidadão e lugar. Uma vez que este trabalho trata do tema qualidade de vida e tendo em vista a importância de imagem ambiental e da percepção na qualidade de vida, esta discussão foi proposta para o bairro do Cabula. Buscando adaptar ao bairro os critérios utilizados para o estudo da imagem da cidade, foram considerados os seguintes elementos: vias, limites, pontos nodais e marcos. 2 “O lugar pode ser definido de diversas maneiras. Dentre eles esta: o lugar é qualquer objeto estável que capta nossa atenção. Quando olhamos uma cena panorâmica, nossos olhos se detêm em pontos de interesse. Cada parada é tempo suficiente para criar uma imagem de lugar que, em nossa opinião momentaneamente parece maior. A parada pode ser de tão curta duração e de interesse tão fugaz, que podemos não estar completamente conscientes de ter detido nossa atenção em nenhum objeto em particular; acreditamos que simplesmente estivemos olhando a cena em geral. Entretanto essas paradas acontecem. Não é possível olhar uma cena de uma só vez; nossos olhos continuam procurando pontos onde pousar a vista.” (TUAN, 1983, p. 179) 33 As vias são os canais de circulação ao longo dos quais o observador se locomove de modo habitual. Os limites são referencias laterais, aqui identificadas como fronteiras que delimitam o espaço do bairro. Os pontos nodais são os focos intensivos, de concentração, de conexão e convergências de caminhos ou fatos. E os marcos constituem um tipo de referência externa, em geral, um objeto físico bem definido, que se destaque no espaço, sendo sua principal característica física a singularidade, algum aspecto que seja único ou memorável no contexto. A construção da imagem ambiental é o resultado de um processo dialético entre o observador e o ambiente observado, de modo que as especificidades e relações do segundo são selecionadas e organizadas pelo primeiro, o qual confere significado àquilo que vê. A imagem assim desenvolvida limita e enfatiza o que é visto, podendo variar significativamente entre observadores diferentes. Enquanto objeto de estudo, a imagem ambiental pode ser decomposta, segundo Lynch (1998), em três componentes: identidade, estrutura e significado. Apesar do esforço em decompor estas partes, não se deve perder de vista que sempre aparecem juntas. Assim, o estudo da imagem requer dois momentos: sua identificação, diferenciação em relação aos demais objetos, e reconhecimento enquanto entidade separável, conferindo-lhe assim unicidade, identidade; em segundo lugar, a imagem deve incluir a relação espacial ou paradigmática do objeto com o observador e outros objetos, esta relação se dá a partir da estrutura e significado que a imagem confere ao observador. Será também utilizado o conceito de legibilidade, uma vez que para Lynch os conceitos de imagem e legibilidade são equivalentes3. Apesar de entender a magnitude dos problemas urbanos quanto à infra-estrutura básica, sobretudo nas metrópoles dos países subdesenvolvidos, acreditamos que um ambiente característico e legível não oferece apenas segurança na localização, mas também aprofunda e intensifica a experiência humana cotidiana. “Embora a vida esteja longe de ser impossível no caos visual da cidade moderna, a mesma ação cotidiana 3 “A Imaginabilidade segundo Lynch é a característica, num objeto física, que lhe confere uma alta probabilidade de evocar uma imagem forte em qualquer observador dado. È aquela forma, cor ou disposição que facilita a criação de imagens mentais claramente úteis do ambiente. Também poderíamos chamá-la de legibilidade ou, talvez, de visibilidade num sentido mais profundo, em que os objetos não são apenas passíveis de serem vistos, mas também nítida e intensamente presentes aos sentidos”. (LYNCH, 1998). 34 poderia assumir um novo significado se fosse praticada num cenário de maior clareza”. (Lynch 1998) Para que se possa analisar a legibilidade do bairro, é preciso entendê-lo enquanto recorte espacial. Os bairros são entendidos, para o estudo da sua imagem, como áreas relativamente grandes da cidade, possuidoras de algumas características em comum que permitem ao cidadão/observador penetrar nele mentalmente. Essas características que o determinam podem consistir em textura, espaço, forma, detalhe, símbolo, tipo de construção, usos, atividades, habitantes, estados de conservação, topografia. 4.2. A legibilidade do bairro e suas implicações na qualidade de vida. A caracterização da imagem do bairro se deu a partir de duas fases: primeiro foi feito o reconhecimento de campo sistemático da área a pé pela pesquisadora, observando e mapeando a presença de diversos elementos. Essa fase permitiu uma avaliação subjetiva com base na aparência desses elementos de campo e o reconhecimento fotográfico da área. Na segunda fase foram feitas entrevistas com uma pequena amostra dos moradores visando obter suas primeiras imagens do meio onde vivem, o significado dos objetos e as suas percepções. Resultante do reconhecimento de campo, a primeira impressão superficial do bairro foi o seu caráter predominantemente residencial, apesar da intensa ocorrência comercial. A avenida Silveira Martins é indiscutivelmente a avenida principal do bairro, ao longo do seu percurso há um predomínio de conjuntos habitacionais e estabelecimentos comerciais fixos, destacando-se os shoppings de pequeno e médio porte, e os equipamentos do estado, como o 19º Batalhão de Caçadores, a Embasa, e as companhias telefônicas, privatizadas a partir de 1990, como a “Telemar” (antiga TELEBAHIA) e a “Vivo” (antiga TELEBAHIA celular). O bairro do Cabula acompanha sua avenida principal ocorrendo um adensamento habitacional através dos sub-bairros por ele incorporados, como a Engomadeira e o São Gonçalo, onde as ocupações irregulares e comercio informal ou de pequeno porte são predominantes. De maneira geral, o caráter das construções são o fator de maior identificação entre os logradouros. O sistema viário mostra-se irregular (ver figura 5), uma vez que exceto a avenida principal, que é a direciona o sentido do bairro, as vias transversais, em sua maioria aparecem como elementos isolados ou ligadas uma a uma. Este é, do ponto de vista estrutural um fator problemático no bairro, pois congestiona o fluxo na Silveira Martins, dificultando a circulação. 35 Quanto à segunda fase, as entrevistas incluíam pedidos de descrição e identificação de objetos através de mapas mentais e perguntas referentes à percepção dos moradores em relação aos seus bairros. As entrevistas foram feitas com os moradores mais antigos dos logradouros pesquisados entendendo que estes, por possuírem mais tempo de vivencia no bairro, teriam também maior grau de percepção dos objetos e processos capazes de compor a sua imagem. Os mapas mentais exemplificam a forma como os moradores vêem seu bairro. Neles fica clara a ausência de uma visão abrangente do bairro, os mapas eram geralmente fragmentados, dando-se ênfase aos logradouros onde habitavam. Figura 9 Mapa mental do bairro do Cabula pela Sra. Rose, moradora a mais de 20 anos no local. O mapa mental feito pela moradora do conjunto CHOPM 1, mostra-se direcionado pela avenida principal, a partir de onde surgem os conjuntos habitacionais representados pelos prédios. Outro fator de destaque é a presença bem clara da Universidade Estadual da Bahia - UNEB, do supermercado Hiper Bompreço e da Empresa de Saneamento – Embasa, identificados como marcos pela moradora. Nota-se que a imagem do bairro se dá a partir da identificação do logradouro onde a moradora habita, destacando a importância do sentimento de identificação pessoal com o lugar, para a formação da sua imagem. 36 Não há ocorrência de casas nessa representação, fato que o diferencia da representação da moradora da Engomadeira, observado abaixo. Figura 10 Mapa Mental do logradouro da Engomadeira pela Sra. “Chica”, moradora a mais de 20 anos no local. O mapa mental observado acima foi feito por uma moradora da Engomadeira, onde pode-se observar que os elementos que marcam o bairro para ela são as casas, não sendo observados prédios, como no mapa mental da moradora do CHOPM1. Observa-se também a presença dos pontos comerciais, no caso do mapa acima os “mercadinhos”, destacando a importância dos estabelecimentos de pequeno porte neste logradouro. Dos quatro objetos desenhados, dois foram estabelecimentos comercias e dois residenciais. Outro fato que merece destaque é a ausência de vias neste mapa mental, não há ligação entre os elementos representados, o que destaca a deficiência na conexão do sistema viário, ausente no imaginário e na percepção da moradora da engomadeira. 37 Os mapas mentais analisados acima demonstram que a imagem do bairro está mais muito relacionada às características mais percebidas pelo morador do que sua configuração espacial real. À luz dos trabalhos de TUAN e com base neste fato é possível dizer que a habilidade espacial4 em se localizar e se locomover no cotidiano, pode não se traduzir num conhecimento espacial consciente. É muito comum pessoas que se deslocam com facilidade em determinados lugares, mas têm dificuldade em descrever os caminhos a outras pessoas. Não se trata de negligenciar a importância do conhecimento espacial, mas sim de estacar a importância deste para um melhor conforto ambiental. Embora a articulação simbólica em palavras e imagens do espaço não sejam necessárias para as ações cotidianas, o conhecimento espacial aumenta a habilidade espacial. Quanto mais legível um espaço, mais fáceis se tornam os fluxos neste, o que aumenta a identidade com o lugar, tornando maior o conforto ambiental e conseqüentemente a qualidade de vida. O estudo da percepção dos moradores do Cabula, em relação à imagem e legibilidade do bairro, foi feito através de entrevistas aplicadas durante os trabalhos de campo, juntamente com os questionários referentes ao perfil-sócio econômico e equipamentos urbanos. A entrevista consistia em quatro perguntas, a partir das quais os moradores poderiam falar sobre as suas impressões e percepções, foram elas: 1. O que a palavra Cabula lhe traz à mente? 2. Onde começa e onde termina o bairro do Cabula? (Quais os seus limites?). 3. Há algum(ns) símbolo(s) ou marco(s) identificado(s) no bairro? Qual(is)? 4. Na sua opinião, há algo que caracterize/diferencie o bairro do Cabula? Quando perguntado qual a primeira coisa que a palavra Cabula trás à mente as respostas tendiam para a mesma direção: “nada de especial” e “bairro”. As entrevistas eram admiráveis pela falta de informação quanto à imagem do bairro, as pessoas não pareciam ver sentido nas perguntas sobre a imagem e legibilidade do espaço em que habitam, mesmo após a explicação a respeito da 4 “A habilidade espacial se transforma em conhecimento espacial quando podem ser intuídos os movimentos e as mudanças de localização. Desde que a habilidade espacial consiste na realização de atividades cotidianas corriqueiras, o conhecimento espacial, embora acentue tal habilidade, não é necessário a ela. Pessoas que são capazes de encontrar seu caminho na cidade, podem não saber dar a localização das ruas a alguém que esteja pedindo e são incapazes de desenhar mapas.” (TUAN, 1983) 38 importância desse dessas informações. O contrário do que acontecia quando questionados sobre os problemas do bairro sobre o que os moradores se mostraram bastante eloqüentes. Quanto aos limites do bairro, não há nitidez, as respostas foram bastante variadas. Em relação ao inicio do bairro, a ladeira do Cabula apareceu como consenso, no entanto, o limite final e os limites laterais variaram muito entre os entrevistados. De maneira geral podemos afirmar que para a maior parte dos moradores, o Cabula possuía seus limites finais no contato com os bairros do Saboeiro e Narandiba, onde termina a Avenida Silveira Martins. Alguns moradores dos conjuntos habitacionais não reconheciam o São Gonçalo e a Engomadeira como Cabula, o contrário da maioria dos moradores desses logradouros que os descreviam como pertencentes ao Cabula, chegando alguns a considerar até mesmo Mata Escura e Santo Inácio, ao longo da estrada das Barreiras como parte da “região do Cabula”, como descrito. De modo geral podemos, a partir da análise da opinião dos diversos entrevistados que o bairro do Cabula possui um núcleo de conjuntos habitacionais no entorno da avenida principal, e sub-bairros que são a ele incorporados, não só pela proximidade, que a partir da expansão urbana ligou esses espaços, mas também por suas ligações históricas, uma vez que boa parte esta área era conhecida no passado colonial como quilombola. Assim, o bairro do Cabula representaria hoje uma “região” no espaço na cidade de Salvador, identificada por seus usos e ocupação, englobando todos os conjuntos habitacionais no entorno da avenida principal (entre eles o conj. Chácara do Cabula, conj. Resgate, conj. Planalto do Cabula, conj. CHOPM-1, conj. CHOPM 2 e o conj. Recanto do cabula); mais os sub-bairros a ela ligada (Engomadeira, São Gonçalo, Mata escura e Santo Inácio). Quando perguntado sobre que área ou construção, ou seja, que marco5, melhor caracterizaria o bairro, a maior parte dos moradores indicaram o campus da Universidade Estadual da Bahia – UNEB como sendo a construção de maior destaque, aparecendo poucas vezes o Hospital Roberto Santos. Entre os elementos gerais, os mais presentes foram os prédios e casas. Muitos moradores disseram não haver nada que caracterizasse o bairro ou o diferenciasse dos demais da cidade. 5 “Um marco não é necessariamente um objeto de grandes dimensões; pode ser tanto uma maçaneta de porta como uma cúpula de catedral. Sua localização é crucial: se grande ou alto, deve estar localizado de tal modo que seja visto; se pequeno, existem certas regiões que recebem mais atenção perceptiva do que outras: pisos ou fachadas próximas, no nível do olho ou pouco abaixo”. (Lynch, 1998) 39 Em relação às vias, estas exceto a avenida Silveira Martins, cuja identidade é muito forte, pouco apareceram nas descrições. Entre os pontos nodais6 da área que abrange os logradouros em questão destaca-se o cruzamento entre a Silveira Martins e a Estrada das Barreiras, onde localizase o supermercado Hiper Bompreço e a UNEB, um em cada lado do cruzamento. Qualquer interrupção do fluxo de trânsito – cruzamentos, pontos de tomada de decisão – é um lugar onde nossa percepção se torna mais intensa, talvez esse seja um fator que contribua para a incidência da UNEB como principal marco do bairro. Outro cruzamento importante foi entre a avenida Silveira Martins e a rua do São Gonçalo, conhecida pelos moradores desse logradouro como “rua da Embasa”, identificada pelos moradores do São Gonçalo como referencial para a localização do logradouro. Este cruzamento é conhecido pelos moradores como “a tesoura”. Para quase todos dos moradores entrevistados, havia um certo ar de “monotonia” na descrição do bairro, uma vez que muitos não conseguiam definir claramente a imagem do bairro e, por conseguinte, destacavam poucos elementos em suas percepções. Assim considerando-se a importância dos símbolos, constatamos que o bairro do Cabula como um todo não dispõe de elementos na paisagem que possam atribuir significado aos moradores. A falta de características próprias é evidente, assim como a escassez de marcos reconhecíveis. Contudo, foi possível concluir através da observação dos mapas mentais e dos depoimentos a respeito da imagem e dos problemas do bairro que a percepção varia muito a cada observador, estando essas variações relacionadas também às diferentes classes sociais, confirmando as idéias expostas na obra de Lynch7 nos diferentes logradouros estudados no bairro. Mesmo entre os moradores dos logradouros da Engomadeira e São Gonçalo, áreas mais periféricas, foi constantemente manifestada uma satisfação com os aspectos gerais do Cabula. 6 “Os pontos nodais são focos estratégicos nos quais o observador pode entrar; são tipicamente, conexões de vias ou concentrações de alguma característica. Mas, ainda que conceitualmente sejam pequenos pontos nodais na imagem da cidade, na verdade podem ser grandes praças, formas lineares de uma certa amplitude ou mesmo bairros centrais inteiros, quando a cidade está sendo considerada num nível suficientemente amplo. De fato, a cidade inteira pode ser tornar um ponto nodal, se concebermos a amplitude em nível nacional ou internacional”. (LYNCH 1998, p.80-81). 7 Segundo Lynch a criação da imagem ambiental é um processo bilateral entre observador e observado. O que ele vê é baseado na forma exterior, mas o modo como ele interpreta e organiza isso, e como dirige sua atenção, afeta por sua vez aquilo que ele vê. O organismo humano é extremamente adaptável e flexível, e grupos diferentes podem ter imagens muitíssimo diferentes da mesma realidade exterior. (LYNCH 1998, p. 149) 40 A importância de se conhecer as diferentes formas de construção da imagem ambiental na área de estudo se reflete na relação que o morador/observador tem com o bairro e como ele percebe os elementos que o compõem. Estes elementos, de acordo com a sua legibilidade e com as sensações que possam trazer ao morador, refletem diretamente o grau de relação afetiva deste com o lugar onde vive, e, portanto interfere também na sua qualidade de vida. É válido destacar alguns depoimentos que mais se repetiram nas entrevistas e que reforçam as idéias discutidas anteriormente. Para todos os entrevistados no São Gonçalo, este faz parte do Cabula, cujo marco foi o 19º BC -Batalhão de Caçadores (área do exército). Quanto aos aspectos gerais do bairro, não foi identificado há nada que retrate o Cabula, ou o diferencie. Todos os moradores da Engomadeira afirmaram que este pertence ao Cabula, embora digam que moram na Engomadeira, como se este fosse um logradouro do Cabula. Muitos não identificaram marcos, e quando identificado a UNEB é o mais lembrado, havendo também o Hospital Geral em menor freqüência. Sobre este logradouro foi bastante ilustrativo o depoimento da Sra. Antonieta da Conceição Souza Santos, presidente do Conselho de Moradores do Bairro da Engomadeira – COMOBE e moradora do bairro a mais de 20 anos: “A Engomadeira vai desde a rua direta até a baixada, cercada pelo rio, menos o conjunto ACM. Antes era tudo Cabula, depois foi crescendo e se separando, mas eu ainda considero a Engomadeira como parte do Cabula!” A partir da percepção dos moradores é possível notar a dinâmica de expansão do bairro. Apesar do forte crescimento das áreas periféricas e o surgimento de novos sub-bairros no seu entorno a partir do crescimento de seus núcleos iniciais, estes ainda possuem um sentimento de pertencimento ao Cabula, fato que hoje faz deste um dos maiores bairros de Salvador. 4.3. Topofilia e topofobia no bairro do Cabula Com base nos trabalho de TUAN faremos uma breve análise sobre os sentimentos dos moradores em relação ao bairro do Cabula. Para o autor Topofilia é o elo afetivo entre a pessoas e o lugar ou ambiente físico. Difuso como conceito é vívido como experiência pessoal. Para esta discussão foram acrescentadas três perguntas às entrevistas: De maneira geral está satisfeita com o bairro? Você gosta de morar no bairro? O que você mais gosta no Cabula? 41 É importante o reconhecimento do sentimento de satisfação e afinidade com o bairro, pois se sentir bem no lugar em que habita é condição fundamental à qualidade de vida. Além disso, apesar da criteriosidade com que os fatores de ordenamento territorial e os aspectos físicos e infraestrutura do bairro foram analisados na pesquisa, ninguém melhor que o sentimento de Topofilia dos moradores em relação ao bairro para a avaliação deste. Segundo TUAN, 1980: “A avaliação do meio ambiente pelo visitante é essencialmente estética. É a visão de um estranho. O estranho julga pela aparência, por algum critério formal de beleza. É preciso um esforço especial para provocar empatia em relação às vidas e valores dos habitantes”. As imagens da topofilia são derivadas das relações cotidianas na realidade circundante. As pessoas atentam para aqueles aspectos do meio ambiente que lhes inspiram respeito ou lhes prometem sustento e satisfação no contexto das finalidades de suas vidas. O meio ambiente, o espaço físico, pode não ser a causa direta da topofilia, mas fornece o estímulo sensorial que, ao agir como imagem percebida, dá forma às nossas alegrias e idéias, que são construídas nas relações cotidianas. Assim, além do meio ambiente, devem ser consideradas as relações sociais. Cabe ressaltar que diferente das análises referentes aos equipamentos urbanos, os depoimentos sobre o sentimento de Topofilia referiam-se sobretudo, às ruas onde habitavam os entrevistados, por constituírem o lugar onde as relações cotidianas são mais intensas. Logo, aqui lugar pode ser entendido como um espaço que nos seja inteiramente familiar. Para TUAN 1983: “A rua onde se mora é parte da experiência íntima de cada um. A unidade maior, o bairro, é um conceito. O sentimento que se tem pela esquina da rua local não se expande automaticamente com o tempo até atingir todo o bairro. O conceito depende da experiência, porém não é uma consciência inevitável da experiência” . Apesar disso podemos expandir essa análise ao bairro como um todo8. 8 “A unidade maior adquire visibilidade através de um esforço da mente. Então bairro inteiro torna-se um lugar. Todavia, é um lugar conceitual, que não envolve emoções. As emoções começam a dar cor ao bairro inteiro, recorrendo e extrapolando da experiência direta de cada uma de suas partes. Assim, o sentimento afetuoso que se tem por uma esquina expande-se para incluir a área maior.” (TUAN. 1983, p. 189) 42 4.4. A repercussão do sentimento nas ações da comunidade e atuação das associações de moradores A qualidade vida urbana traz à discussão a forma como o indivíduo percebe as situações e os contextos nos quais ele se vê inserido. Essas percepções individuais sofrem influência da cultura e da educação dos indivíduos. Entre esses contextos encontra-se o papel das associações de moradores na gestão do lugar onde se insere. Buscando identificar e avaliar as formas de atuação dos moradores com relação aos problemas vivenciados em seu bairro, o grau de participação dos moradores locais nas AMs e o grau de percepção dos moradores à atuação das AMs, foram aplicados questionários através de seguinte matriz de observação, a qual originou os seguintes resultados: SIM NÃO TOTAL % TOTAL 1- Conhece a associação de moradores do bairro? 36 66,6 18 2- Sabe quem é o atual presidente? 19 35,2 35 3- Participa das reuniões e discussões? 4 7 50 4- Já participou / participa de alguma campanha / ação 5 9,3 49 promovida no bairro? 5- Quais as ações a AMs vem promovendo? 7 13 47 6- Levou alguma reivindicação à AMs? 6 11,1 78 7- Está satisfeito(a) com a infra-estrutura do bairro? 26 48,1 28 8- Está satisfeito(a) com a atuação da AMs? 13 24 41 9- Gostaria de propor ações/campanhas para o bairro? 35 64,8 19 PERGUNTAS % 33,4 64,8 92,6 90,7 87 88,9 51,9 76 35,2 Fonte: Trabalhos de campo. Os dados referentes às perguntas observadas acima no questionário permitiram a elaboração do gráfico abaixo, que ilustra melhor a amplitude das respostas. % Cabula Percepção dos moradores sobre a atuação das AMs 100 90 80 70 60 50 40 30 20 10 0 Sim Não 1 2 3 4 5 9 Perguntas 7 8 9 43 Com as entrevistas pode-se observar nos gráficos abaixo que a grande maioria dos moradores conhecem a associação de moradores do bairro, apesar de menos da metade dos entrevistados afirmarem conhecer o atual presidente. Os primeiros dados já são um indicativo da fraca aproximação entre moradores e AMs. Esse fato é confirmado quando a grande maioria dos entrevistados afirma não participar das reuniões e discussões, assim como foram predominantemente negativas as respostas a respeito da participação em campanhas ou ações, e o fato de a maioria dos moradores desconhecer as ações que a AMs vem promovendo. Outro dado contraditório que pôde ser observado é o fato de que apesar de muitos não estarem satisfeitos com a atuação da AMs, a maioria jamais levou alguma reivindicação à associação, apesar de terem manifestado vontade de propor ações ou campanhas para o bairro. Quando questionados se satisfeitos com o bairro de maneira geral, as respostas positivas excederam 60% do percentual, apesar de muitas vezes essa resposta ter sido dada em tom vacilante. Apesar de reconhecerem os problemas do bairro, no momento de responder a essa pergunta o fator predominante é o sentimento de pertencimento e afinidade com o lugar, demonstrando a importância da Topofilia na percepção dos problemas locais. 4.5. Formas de atuação da Associação de Moradores e organizações não-governamentais Os ativismos de bairro fazem parte da dinâmica do mundo urbano, sendo de grande importância na luta por melhores condições de vida. Entendendo estas questões, foram entrevistados representantes das Associações de Moradores – AMs dos bairros estudados, com o objetivo de analisar as formas de atuação destas frente aos principais problemas identificados no bairro, assim como a participação da comunidade nessas ações. Com o objetivo de analisar as formas de atuação das associações de moradores frente aos problemas sócioambientais apresentados em seus bairros, foram entrevistados os representantes das Associações de Moradores - AMs. As perguntas foram referentes à origem, estrutura e funcionamento. As Associações entrevistadas no bairro do Cabula foram a COMOBE – Conselho de Moradores do Bairro da Engomadeira e Associação de Moradores do CHOPM1- Conjunto Habitacional da Polícia Militar. 44 Na COMOBE - Conselho de Moradores do Bairro da Engomadeira foi entrevistada a Sr. Antonieta da Conceição Souza Santos, presidente do conselho. A COMOBE foi fundada em 1º de agosto de 1985, funcionando há 21 anos, sendo a única AMs registrada e reconhecida pela FABS em toda a Engomadeira. Possui 30 sócios, e atua de acordo com as necessidades imediatas, não havendo assim um plano ou projeto de trabalho. Entre as formas de atuação destacam-se: a Escolinha Comunitária Fonte do Saber que funciona na sede; a cooperativa de pães; funcionava o curso Pré Vestibular Quilombo Cabula, já tiveram também cursos de sabonete, artesanato, cortecostura. Atualmente, com o apoio do LTECS - Laboratório de Desenvolvimento de Tecnologias Sociais, será implantado um laboratório de informática para a comunidade, já possuindo 8 computadores, falta apenas implementar a infra-estrutura da sede, onde o laboratório será instalado. Entre os principais problemas identificados no bairro pela associação foram: a falta de segurança, a forte criminalidade, a prostituição infantil, a qual vem crescendo no bairro; o saneamento “muito precário na baixinha” e a saúde, pois o posto não é suficiente para atender a demanda local. Quanto às ações frente a esses problemas a representante afirmou não poder denunciar a violência e prostituição, pois estão ligados ao tráfico e seria muito perigoso. A participação dos moradores nas reuniões e decisões dessa associação, foi descrita como pouco significativa, sendo a procura relacionada aos serviços oferecidos. Quando cessam os cursos, diminuem as participações. Em relação à existência de parcerias com alguma instituição (pública ou privada), a AMs afirmou que atualmente vem trabalhando em parceria com a UNEB. A associação nunca participou de nenhuma discussão sobre o PDDU, mas tem levado reivindicações à Secretaria de Saúde do Município, buscando melhorias para o posto, pede ajuda à “Secretaria da Pobreza” e vem recebendo apoio de representantes políticos, sem contudo estar ligada diretamente a nenhum político ou instituição. Na Associação dos Moradores do CHOPM-1 foi entrevistado o vice-presidente, Sr. Valdemar, segundo o qual a associação funciona há 25 anos e atua em todo o conjunto, abrangendo cerca de 4000 moradores, entretanto destes apenas 10% são associados. Não existe nesta Associação um plano ou projeto de trabalho, as ações são norteadas pelos fatos que vão ocorrendo, ou seja, vai resolvendo os problemas que vão surgindo. É reconhecida pela FABS, porém não possui parceria com nenhuma instituição, contando apenas com a ajuda de um vereador que acompanha as ativamente da AMs. 45 Atualmente está sendo construído um grande residencial próximo à área do conjunto, sendo necessária à aprovação da Associação de moradores para o andamento de diversas etapas da obra. Desde então a construtora responsável pela obra, vem se comprometendo a oferecer benefícios ao conjunto CHOPM1, como melhorar a pavimentação, a construção de uma praça e a reforma do campo de futebol., Tais parcerias refletem os interesses políticos tanto de representantes do poder público quanto do capital, em criar uma imagem positiva para os moradores do bairro, o primeiro por questões políticas e o segundo por interesses burocráticos e imobiliários, uma vez que tais melhorias servirão também para promover a valorização da área. Entre os principais problemas do bairro foram destacados: a falta de infra-estrutura, a segurança pública e falta de fundos para promover as reformas necessárias. Entre as ações mais recentes destacam-se a reforma da sede, e a promoção de atividades recreativas oferecidas gratuitamente pela AMs como aulas judô, curso de Xadrez, de teatro, além de funcionar como salão de festas uma vez que os prédios desse conjunto não contam com este equipamento. Segundo o entrevistado, é difícil o acesso aos órgãos públicos, não há reuniões com os representantes das AMs, de modo que as discussões com estes órgãos possuem um caráter esporádico e reivindicatório por parte da AMs, mas não vem surtindo resultado. Em relação ao PDDU, a AMs participou de uma reunião na prefeitura em 2006, mas não voltou a se inteirar do assunto. Assim como nas demais associações entrevistadas a participação dos moradores foi caracterizada como pouco representativa, apesar das reuniões serem divulgadas antecipadamente em cada um dos prédios abrangidos. Até mesmo a participação dos síndicos é reduzida, de modo que nas reuniões costumam haver cerca de oito a dez participantes. Com base nas entrevistas relatadas acima é possível perceber que há muitos pontos em comum entre estas Associações de Moradores: são associações antigas, que apesar de atuarem em áreas populosas, possuem poucos sócios, sendo a participação da comunidade local nas reuniões pouco expressiva. Além disto essas associações não possuem planos ou projetos de trabalho, atuam apenas direcionando as ações para medidas mitigadoras. 46 CONCLUSÃO Com a conclusão dos trabalhos foi possível perceber que as grandes desigualdades sócioespaciais observadas do bairro do Cabula sofreram influência da ocupação do espaço que seguiu prioritariamente duas direções: a herança quilombola e as iniciativas de povoamento e urbanização do Estado, que juntas, imprimiram as feições heterogêneas características do bairro. Entendendo que a qualidade de vida está relacionada ao grau de satisfação e às expectativas dos indivíduos, assim como, à capacidade dos governos de atender essas expectativas, sendo necessária a mobilização dos indivíduos para organizar as reivindicações a serem feitas ao Estado, torna-se fator positivo a força das relações sociais observada em todos os logradouros pesquisados. Há uma afetividade em relação à vizinhança e ao bairro, apesar dos problemas diagnosticados. Assim, o Cabula é um bairro que cultiva sentimento de afinidade entre seus moradores, o que facilita a mobilização para que sejam planejadas ações que melhorem este espaço, tornando a gestão participativa, uma possibilidade de convocar a comunidade para cuidar deste espaço, possibilitando grandes transformações. O espaço além de uma necessidade biológica de todos os animais, é também para os seres humanos uma necessidade psicológica, um requisito social. Quanto mais eficientes os equipamentos e maior a qualidade de vida oferecida pelo espaço urbano, maior será o sentimento de afinidade com o lugar e maior a apropriação deste pelos seus cidadãos, nisto consiste a importância da gestão participativa para uma produção mais eficiente do espaço. Em relação à imagem ambiental pôde-se constatar que faltam a esse espaço símbolos que tragam mais beleza e identidade à paisagem, implicando maior significado e auto-estima aos moradores, aumentando conseqüentemente a qualidade de vida destas pessoas. Visto que foi identificada uma grande carência quanto às áreas de lazer, a opção mais coerente seria a construção de praças e jardins, os quais desempenhariam dupla função: área de lazer e marcos na paisagem. Os dados obtidos na pesquisa empírica evidenciaram os problemas sócio-ambientais dos diferentes logradouros e o grau de percepção da comunidade. Conseguiu-se ainda avaliar as formas de atuação dos moradores locais através das associações de bairro. Com o diagnóstico obtido dos moradores elaborou-se a agenda das necessidades com propostas para o desenvolvimento local. 47 Agenda de necessidades A agenda de necessidades é fruto da análise dos principais problemas sócio-ambientais do bairro a partir da percepção dos seus moradores. Assim, é entendida, neste trabalho, como um instrumento de auxilio a implementação de um planejamento urbano mais participativo, uma vez que traz propostas diretamente relacionadas aos anseios dos cidadãos locais. Historicamente o planejamento urbano foi tratado como um documento técnico, produzido por especialistas a serviço das prefeituras, onde são elaborados planos para modificar o traçado de ruas e praças, alterar formas espaciais existentes e criar novas, com o objetivo de melhorar a “funcionalidade” e a beleza de certas áreas. Raramente sendo considerada a opinião dos moradores e usuários a respeito das intervenções propostas. Para Souza (2004) o ato (o processo) de se planejar uma cidade deve ser algo essencialmente distinto: os próprios cidadãos devem poder decidir sobre os destinos dos espaços em que vivem, por meio de debates livres, abertos transparentes. Segundo o autor: “Por mais relevantes que sejam seus conhecimentos (principalmente como basilamento para a escolha dos meios mais adequados para a concretização dos fins politicamente acordados em meio a uma discussão livre e transparente entre os cidadãos), eles não poderão substituir a experiência, os sentimentos e as aspirações dos homens e das mulheres que vivem nos lugares e são usuários dos espaços que serão, eventualmente, objeto de alguma intervenção”. (SOUZA, 2004, p. 34). A identificação dos problemas urbanos a partir da percepção dos moradores torna-se importante para que estes, participando de maneira mais incisiva, sejam estimulados a atuar nas medidas a serem tomadas com vista a sanar esses problemas. De acordo com Jacobi, a implementação de ações implica não somente uma articulação sócio-política, mas também um acordo quanto aos procedimentos de disseminação pública – seja através de campanhas públicas de informação, seja através de mecanismos orientados para a constituição de um esforço comunitário para estimular e consolidar um eficiente e consistente processo de participação. Tal articulação legitima as ações, tornando-as mais eficientes quanto à resolução/amenização dos principais problemas sócio-ambientais diagnosticados no local. 48 Os principais pontos de insatisfação identificados a partir dos relatos dos moradores e a análise dos dados foram: a ineficácia da segurança, o número reduzido de postos de saúde e a escassez áreas de lazer. Assim, almejando um planejamento urbano voltado às necessidades percebidas pelo cidadão o bairro do Cabula carece de um melhor sistema de segurança, a implantação de mais postos de saúde, sobretudo nas comunidades mais carentes como os logradouros da Engomadeira e do São Gonçalo e a construção de áreas públicas de lazer, como praças e áreas esportivas. Tais intervenções aumentariam o acesso dessas populações aos equipamentos urbanos assim como sua qualidade de vida e podem ser sintetizadas nas seguintes ações: • Reivindicar frente à Secretaria de Segurança Pública a implementação de mais postos policiais no bairro, assim como uma maior circulação de policiais. Uma alternativa seria o fortalecimento da Polícia Comunitária; • A requalificação dos postos de saúde já existentes, assim como a implantação de novos postos, sobretudo nas comunidades mais carentes como os logradouros da Engomadeira, do São Gonçalo; • A construção de áreas públicas de lazer, como praças e áreas esportivas. Tais intervenções aumentariam o acesso dessas populações aos equipamentos urbanos assim como sua qualidade de vida. • Discutir a possibilidade de se implantar a coleta seletiva nos logradouros, o que reduziria o problema do lixo nas ruas, criando também a possibilidade de criação de oficinas de reciclagem e de arrecadar mais recursos para as associações. A proposta deste trabalho não se restringe ao enfoque nas áreas degradadas, nem tampouco tem a pretensão de indicar soluções para os problemas diagnosticados, mas parte da idéia de que a melhor forma de diminuir os impactos e problemas relacionados ao lugar é estimular o sentimento de afinidade e mutualismo entre o lugar e os seus moradores, ou seja, potencializar o sentimento na comunidade de que estes pertencem ao lugar, assim como o lugar os pertence. A relevância acadêmica dessa pesquisa se expressou nos resultados que ofereceu ao projeto Percepção Ambiental em Áreas Urbanas, desenvolvido pelo LEAGET, na discussão sobre a percepção ambiental urbana de Salvador a partir da visão dos moradores dos logradouros estudados. Do ponto de vista social, este trabalho contribuiu com a sensibilização da comunidade aos problemas sócioambientais gerando uma agenda de necessidades voltada para o desenvolvimento local. 49 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS CERVO, A. L & BERVIAN, P.A. Metodologia Científica. Ed. Afiliada, SP, 1996. DEL RIO, Vicente e Oliveira, Lívia. Org. Percepção ambiental A experiência brasileira. São Paulo: Ed. Studio Nobel; São Carlos, SP, 1996. FERNANDES, Rosali B., Periferização Sócio-Espacial em Salvador: Análise do Cabula, uma área representativa. HERCULANO, Selene, PORTO, Marcelo F. de S. & FREITAS, Carlos M de. Qualidade de vida e riscos ambientais. Niterói, RJ: EdUFF, 2000. KEINERT, Tânia, M., KARRUZ, Ana P. 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Diefel S.A. 1983. 50 APÊNDICES • MATRIZ DE OBSERVAÇÃO DO PERFIL SÓCIOECONÔMICO DOS MORADORES DO ENTORNO DA AVENIDA SILVEIRA MARTINS • MATRIZ DE AVALIAÇÃO QUANTO À ATUAÇÃO DAS AMs • TABELAS 51 MATRIZ DE OBSERVAÇÃO DO PERFIL SÓCIOECONÔMICO DOS MORADORES DO ENTORNO DA AVENIDA SILVEIRA MARTINS SETOR _______ LOGRADOURO_________________ Famílias Identificação do entrevistado Sexo: M/F Atividade Profissional Empregado Desempregado Autônomo Aposentado Renda Familiar Até 1SM De 1 à 3 SM De 3 à 5 SM Mais de 5 SM Escolaridade do chefe da família Fundamental incompleto Fundamental completo Ensino Médio incompleto Ensino Médio completo Superior incompleto Superior completo Moradia Casa Apartamento Próprio(a) Alugado(a) De 1 a 3 cômodos De 3 a 6 cômodos Mais de 6 cômodos Questões ambientais Problemas ambientais: S/N Eles lhe afetam: S/N Com qual intensidade: P/M/Mui Sistema de transporte Péssimo Ruim Regular Bom Ótimo Segurança pública Péssimo Ruim Regular Bom Ótimo Equipamentos de lazer F1 F2 F3 F4 F5 F6 F7 F8 F9 F10 52 Não possui Insuficientes Satisfatórios MATRIZ DE AVALIAÇÃO QUANTO À ATUAÇÃO DAS AMs Atuação da AMs / Participação nas ações 1- Conhece a associação de moradores do bairro? 2- Sabe quem é o atual presidente? 3- Participa das reuniões e discussões? 4- Já participou / participa de alguma campanha / ação promovida no bairro? 5- Quais as ações a AMs vem promovendo? 6- Levou alguma reivindicação à AMs? 7- Está satisfeito(a) com a infra-estrutura do bairro? 8- Está satisfeito(a) com a atuação da AMs? 9- Gostaria de propor ações/campanhas para o bairro? D1 S D2 N S D3 N S D4 N S D5 N S D6 N S D7 N S D8 N S D9 N S D10 S N N TABELAS As tabela a seguir originaram os gráficos inseridos no texto. Escolaridade A B C D Total Fonte: Trabalho de Campo A = Ensino Superior completo Escolaridade por Setor Censitário Setor 160 181 182 273 274 0 2 1 1 2 3 10 18 4 13 5 2 10 0 0 8 0 2 2 1 16 14 31 7 16 371 1 1 2 6 10 Total 7 49 19 19 94 % 7,5 52,1 20,2 20,2 100 53 B = Ensino Médio completo C = Ensino Fundamental Completo D = Ensino Fundamental incompleto Atividade Empregado Desempregado Autônomo Aposentado Total Fonte: Trabalho de Campo Atividade Profissional por Setor Censitário Setor 160 181 182 273 274 5 4 15 1 5 7 5 7 4 6 2 2 4 2 2 2 3 7 0 3 16 14 33 7 16 Renda 160 A 1 B 1 C 4 D 10 Total 16 Fonte: Trabalho de Campo A = mais de 5 salários mínimos B = de 3 a 5 salários mínimos C = de 1 a 3 salários mínimos D = menos de 1 salário mínimo Renda Familiar por Setor Censitário Setor 181 182 273 274 4 10 2 4 2 17 3 3 5 4 2 5 3 2 0 4 14 33 7 16 371 3 5 0 0 8 Sistema de Transporte por Setor Censitário Setor Opinião 160 181 182 273 274 371 Péssimo 1 0 1 0 1 0 Ruim 0 1 1 0 0 0 Regular 13 3 9 2 3 4 Bom 0 6 16 3 8 4 Ótimo 2 4 6 2 4 0 Total 16 14 33 7 16 8 Fonte: Trabalho de Campo Segurança Pública por Setor Censitário Setor Opinião 160 181 182 273 274 371 Péssimo 3 6 8 1 4 0 Ruim 2 2 1 0 1 3 Regular 10 4 13 3 4 5 Bom 0 1 10 3 7 0 Ótimo 1 1 1 0 0 0 Total 16 14 33 7 16 8 Fonte: Trabalho de Campo 371 3 0 5 0 8 Total 33 29 17 15 94 Total % 25,5 32,9 21,4 20,2 100 24 31 20 19 94 Total % 3 2 34 37 18 94 3,2 2,1 36,2 39,4 19,1 100 22 9 39 21 3 94 % 23,4 9,6 41,5 22,3 3,2 100 Total % 35,1 30,9 18 16 100 54