A ciência e a técnica a serviço do povo Novo Tempo Distribuição Gratuita Boletim Informativo da Escola Popular Orocílio Martins Gonçalves Belo Horizonte - ano 2 - número 4 - Dezembro de 2005 Matheus Vilhena Matheus Vilhena EPOMG realiza atividade de autogestão Página 3 Thiago Bastos Bertold Brecth: teatro e poesia para transformar o mundo Página 8 Por uma gestão pedagógica participativa! Página 4 Leia nesta edição Editorial Autogestão na ordem do dia! ..................................... 2 Opinião Alfabetização de adultos no Brasil: uma crítica ao Programa Brasil Alfabetizado .............. 2 Capa Alfabetização e Letramento: uma concepção pedagógica próxima dos anseios do povo .................................... 5 Protagonistas Estudantes da UEMG realizam estágio na EPOMG ..................................................... 6 Atividade coletiva quebra barreiras no processo de alfabetização de trabalhadores................6 História da luta do povo 310 anos da morte do herói do povo Zumbi dos Palmares .................................................... 7 Editorial Autogestão na ordem do dia! C hegamos à última edição do boletim Novo Tempo em 2005. Foram 03 números, muitas lutas, discussões e pesquisas. A edição 04 encerra o ano trazendo novas reflexões, principalmente no campo pedagógico. Propostas e idéias sobre a gestão participativa e a alfabetização/ letramento, concepções pedagógicas estudadas nos últimos meses por nossos educadores podem ser lidas nas páginas 4 e 5. A EPOMG avisa que novembro é mês de resistência negra, de Zumbi e dos Arturos. Na página 7 podemos conferir um artigo sobre a resistência de Palmares. Após passados três séculos, persiste ainda um exemplo vivo da justeza da resistência e auto-organização popular. Zumbi e Palmares retumbam, nos dias de hoje, no prédio da rua Ouro Preto. Outro momento importante marca esta edição do Boletim: a realização da nossa Feijoada. Não faltaram dificuldades e obstáculos para consolidarmos a nossa segunda atividade de autogestão, que reuniu aproximadamente 300 trabalhadores. O feijão doado pelos apoiadores, a cooperação e os esforços coletivos fizeram da atividade um sucesso. (página 3) A Escola Popular “Orocílio Martins Gonçalves” encerra o ano trazendo um balanço positivo de suas atividades. Continuamos reafirmando que a escola (educação) não faz revoluções, não muda as relações de produção de uma sociedade. Mas é um instrumento fundamental para a transformação social. Os cursos de formação política realizados junto a dirigentes sindicais confirmam a necessidade desse instrumento. O questionamento da realidade, que implica em não tomá-la por imutável, leva a valorização dessa educação. E toda essa jornada vem sendo aprendida em cima da práxis, “caminhando para fazer o caminho”. O caminhar continua em 2006! Opinião Alfabetização de Adultos no Brasil: uma critica ao Programa Brasil Alfabetizado por EPOMG A alfabetização de adultos, mais do que qualquer outra tarefa educativa, é um ato político que exige um compromisso com os segmentos marginalizados da população brasileira. Isso por que os estudantes atendidos por essa modalidade de ensino são, quase sempre, pessoas que vivem sob a exploração e opressão do sistema vigente: trabalhadores e trabalhadoras que foram intimidados ou impedidos de estudar devido à repetência ou a falta de tempo para ir à escola por terem que trabalhar para o sustento da família. A educação de adultos é a modalidade mais negligenciada da educação oficial brasileira. Prova disso é que, embora a constituição federal de 1988 assegure o ensino fundamental público e gratuito em qualquer idade, a Educação de Jovens e Adultos foi excluída do FUNDEF (Fundo de Desenvolvimento do Ensino Fundamental). Como conseqüência, o investimento realizado nesta modalidade é hoje aproximadamente nove vezes menor que aquele realizado no ensino básico e regular e a oferta dessa educação é bem inferior à demanda potencial. No que se refere à alfabetização, as iniciativas do governo federal se resumem, tradicionalmente, à criação de programas emergenciais cuja história de fracassos revela o descompromisso do poder público com os analfabetos do país. O programa Brasil Alfabetizado, lançado oficialmente em setembro/2003, não foge à regra. Com a ambiciosa meta de erradicar o analfabetismo em 04 anos, o governo Lula firmou convênio com diversas prefeituras, além de ONGs e empresas. Os convênios prevêem o repasse irrisório de R$ 80 por alfabetizador e R$ 15 por aluno. Às instituições cabe fornecer salas de aula, material didático, a inscrição dos alunos e a organização do curso. E, o mais incrível disso tudo, é que após um período de oito meses de Expediente Equipe www.epomg.com.br [email protected] responsável: Boletim Novo Tempo – Uma publicação da Escola Popular Orocílio Martins Gonçalves Ano 2 – Número 4 – Dezembro de 2005 Rômulo Projeto Gráfico: Luan Gomide. escolarização o alfabetizando já consta nas estatísticas oficiais como mais um alfabetizado pelo programa, quer tenha aprendido ou não. Como se pode ver, nesse programa, as metas quantitativas se sobrepõem às metas qualitativas, deixando claro que o que importa é a quantidade de alunos matriculados e não a qualidade do ensino. Através de uma ampla mobilização, o governo apela para a boa vontade e o voluntarismo da população, desprezando a complexidade do processo de ensino-aprendizagem da língua escrita, que exige, do educador, amplos conhecimentos práticos e teóricos. Não existe um projeto pedagógico definido, os “educadores” não recebem capacitação e o material didático utilizado é de péssima qualidade. Portanto, numa perspectiva critica, o governo Lula, através do programa Brasil Alfabetizado, presta um desserviço a população necessitada do país, uma vez, que em condições tão desconectadas da realidade social, é impossível realizar um trabalho educativo eficiente. É até mesmo pouco provável que esse projeto esteja garantindo a alfabetização dos seus alunos, e muito menos o letramento, indispensável para superar a condição de exclusão a que essas pessoas estão submetidas. As necessidades educacionais do povo estão, mais uma vez, sendo desprezadas enquanto o compromisso do governo se volta, exclusivamente, para a produção de números favoráveis à sua propaganda política. Radicchi, Aline Souza, Matheus Vilhena. Diagramação: Daniel Silva. Tiragem: 1.000 exemplares - Revisão: Aline Souza. Impressão: Gráfica TERRA. Rua Ouro Preto, 294 - 2º andar - Barro Preto - Belo Horizonte - Minas Gerais - CEP 30170-040 - tel: 3291-6712 Escola em Movimento EPOMG realiza sua 1ª Feijoada Escola acredita na autogestão como caminho para sua administração N o último dia 29 de outubro, foi realizada na Escola Popular Orocílio Martins Gonçalves (Epomg) a “1ª Feijoada da Orocílio”, que marcou a segunda atividade de autogestão promovida pela escola. Desde o resultado obtido na Festa Junina, onde foi grande a mobilização de educandos e educadores para o êxito do evento, com arrecadação de grande quantidade de roupas e mantimentos, os colaboradores da escola perceberam o caminho a ser perseguido para o crescimento da Epomg. “A bandeira da autogestão surgiu na visita que fizemos ao núcleo de estudos Makarenko, na Universidade do Paraná, há um ano”, lembra Rômulo Radicchi, coordenador e educador da Epomg, que junto com os demais companheiros da escola vem assimilando idéias do pedagogo russo na gestão da escola. Com um ingresso de R$ 4,99 por pessoa, os cerca de 300 presentes puderam saborear os mais de 70 Kg de carne e 40 Kg feijão, alguns dos ingredientes que compuseram a feijoada, completada por muita laranja e mais de 40 molhos de couve, além de refrigerante, tudo resultado de arrecadações captadas por educadores Carta de agradecimento produzida coletivamente pelos educandos do Nível 1 Caros companheiros, Escrevemos esta carta para dizer o quanto foi importante o apoio dado para a realização da nossa 1º Feijoada, atividade que foi para arrecadar fundos para a melhoria da nossa Escola. Somos independentes e nos apoiamos e mantemos apoiados na força da classe trabalhadora. Lutamos pelos mesmos ideais: aprofundar no conhecimento político, solidariedade entre nós trabalhadores e os oprimidos. Hoje o sonho de estudar está virando realidade nessa escola. Trabalhamos com o espírito coletivo em todas as nossas atividades, apesar das dificuldades. Desejamos que muitos tenham esta oportunidade e desde já agradecemos a todos que depositam confiança no nosso trabalho. Matheus Vilhena e educandos. Ao frisar a qualidade do almoço servido, João Gualberto da Silva, educando da escola e dirigente sindical, ressalta a importância desses eventos: “Devemos criar sempre coisas novas, sair da sala de aula e realizar eventos que incentivem a interação das pessoas com a escola”. Como a idéia da realização da feijoada, comida ligada à história do povo, foi decidida em assembléia geral, o destino do lucro de R$ 1.300,00 também será decidido por todos, em assembléia posterior, quando também será repassado todo o balanço do evento. O esforço de vários companheiros da Epomg foi somado a colaboradores como o Sindicato dos Trabalhadores da Indústria da Construção de Belo Horizonte (Marreta), Sindicato dos Trabalhadores da Indústria da Educandos e educadores saboream a feijoada Construção de Contagem, Federação dos Trabalhadores da Indústria da Construção do Estado de Minas Gerais, Sindicato dos Trabalhadores em Transporte Rodoviário de Belo Horizonte, Sindicato dos Empregados no Comércio de Belo Horizonte e Betim, D.A. Walkiria Afonso Costa – Fae/UFMG, Loja do Paulo, Vitallis Saúde e Clínica Salud. A história da Feijoada A feijoada está diretamente ligada à presença do negro em terras brasileiras. Resultado da fusão de costumes alimentares europeus e a criatividade e resistência do escravo africano, a feijoada é o símbolo da culinária nacional. Esta fusão teve origem na época do descobrimento do ouro na Capitania de São Vicente/SP, na virada do século XVII. O inicio da mineração no Brasil levou à criação de novas capitanias e modificou sensivelmente a economia brasileira. A partir daí incentivouse o uso da moeda nas trocas comerciais, antes baseadas em produtos como o cacau e o algodão e fez crescer a necessidade de mão-de-obra escrava, intensificando o tráfico de negros africanos e, como conseqüência, sua influência em nossos hábitos alimentares. Nas regiões das minas de ouro (Minas Gerais, Goiás, Tocantins e Mato Grosso), como o escravo ficava totalmente absorvido pelo regime de trabalho altamente explorador e opressor, e sem disponibilidade para cuidar de sua própria comida, os mantimentos vinham de outras regiões (litoral paulista e carioca) carregados nos lombos dos animais, daí a origem do não menos famoso ‘Feijão tropeiro’, indicando a forte apreciação nacional pelos pratos feitos à base de feijão. Naquela época, a refeição dos escravos de Diamantina era composta basicamente de fubá de milho, feijão e sal. Assim, o feijão misturado com farinha de mandioca ou fubá grosso de milho, antes de ser servido, virou prato tradicional naquela época. Pouco depois, acrescentou-se a este prato a carne, fundindo o apreciado cozido português, prato com diversos tipos de carne e legumes, cozidos todos juntos, com o já adotado feijão, toucinho e farinha. Estava feita a feijoada. Hoje, à feijoada, constituída de feijão preto cozido, sobretudo com partes do porco (orelhas, rabo, pés etc.) acrescenta-se como acompanhamento à couve refogada com alho, o arroz branco, a farofa de farinha de mandioca e o molho de pimenta. Boletim Novo Tempo - página 3 Capa Por uma gestão pedagógica participativa! A educação ocupa um lugar estratégico no pensamento e na prática do proletariado, enquanto fundamento inerente ao processo de transformação da ordem capitalista e a fundação de uma nova ordem social. A preocupação em formar homens livres e conscientes, capazes de revolucionar a sociedade, é constante na obra dos maiores pensadores comprometidos com o proletariado. Há, na tradição proletária, uma vinculação explícita entre educação e luta política. A educação é um objetivo em si para combater a ignorância e a miséria, e, simultaneamente, instrumento de atuação política e social contra os privilégios, as injustiças e todas as formas de opressão e exploração. A educação é concebida como parte do processo revolucionário, isto é, os lutadores sociais não imaginam que apenas através do ato educativo a revolução tornar-se-á realidade, mas vêem a educação como fundamental. Tratase, na verdade, de romper o círculo vicioso entre a miséria, a ignorância e o preconceito, e, de formar seres humanos autônomos, críticos, solidários e amantes da liberdade. A educação no seio da luta de classes A pedagogia é a teoria crítica da educação, isto é, da ação do homem quando transmite ou modifica a realidade social. A educação não é um fenômeno neutro, ela sofre os efeitos da ideologia, por estar de fato envolvida na política. A sociedade capitalista produz uma coisificação da consciência humana e isto é absorvido pelos indivíduos, que passam a se considerar incapazes de produzir o novo. O conhecimento passa a ser considerado algo exterior a nós, uma coisa que devemos procurar fora de nós, talvez nas Boletim Novo Tempo - página 4 escolas ou nos meios de comunicação de massas, ou seja, para termos o acesso ao “conhecimento” precisamos pedi-lo a algum professor. Mas a verdade é bem diferente, pois o saber se desenvolve na práxis, o verdadeiro ponto de partida para uma real apreensão da realidade. As crianças aprendem a falar na sua relação com o mundo, nas suas relações sociais, ou seja, não é exclusivamente na escola que isto ocorre. Nas sociedades pré-capitalistas (préhistóricas, escravista, feudal, etc.) não havia escolas e as pessoas aprendiam o que era necessário para a sua sobrevivência sem Educandos avaliam atividade coletiva ter que ir a um lugar chamado escola. Elas aprendiam imitando os gestos dos adultos nas atividades diárias e nas cerimônias dos rituais. As crianças aprendiam “para a vida e por meio da vida”, sem que alguém estivesse especialmente destinado a tarefa de ensinar. É na moderna sociedade capitalista que surge a escola oficial e a figura do professor, juntamente com a ideologia de que a “aprendizagem” só pode ocorrer nesta instituição. Por que ocorre isto? Isto ocorre devido ao fato de que se mudaram as necessidades sociais, pois o modo de produção capitalista precisa de expandir o “conhecimento” e, ao mesmo tempo, controlá-lo para que ele não ultrapasse os limites por ele estabelecido. Assim, tornase necessário criar uma instituição para desenvolver/controlar o saber. Tais instituições são as escolas, que são controladas pelo estado, direta ou indiretamente (legislação sobre educação, determinação de programas e grades curriculares, burocracia, etc.). O que seria uma gestão pedagógica participativa? Em uma escola popular e democrática, ela deve ser concebida como uma discussão coletiva para a construção de um projeto político. Este projeto consiste em criar mecanismos para transformar a relação professor-aluno e a relação ensinoRômulo Radicchi aprendizagem. Aponta-se para uma mudança de paradigmas, sendo a principal, a do professor adotar uma pedagogia nãodiretiva, ou seja, não ser mais um diretor da aprendizagem dos alunos e sim um orientador (mediador). Os educandos influenciam diretamente na gestão pedagógica, ou seja, eles conjuntamente com os educadores decidem o que e como aprender. Para que isso aconteça é necessário uma ligação entre a gestão da escola como um todo e o planejamento pedagógico, ou seja, é necessário desconstruir todo um imaginário existente acerca da participação do aluno na produção e difusão do conhecimento. Para se alcançar essa meta, tornase necessário traçar estratégias que incorporem em suas ações a cooperação mútua e a solidariedade. Construir e desenvolver uma gestão pedagógica nas escolas populares, representa um salto de qualidade em seu trabalho, uma vez que contribuiu com o processo de politização e reafirma a possibilidade de se construir novas práticas, a partir e em contraposição às antigas. Alfabetização e Letramento: uma concepção pedagógica próxima dos anseios do povo S e, no início da década de 80, os estudos acerca da língua escrita trouxeram aos educadores o entendimento de que a alfabetização, longe de ser a apropriação de um código, envolve um complexo processo de elaboração de hipóteses sobre a representação lingüística. Já os anos que se seguiram, com a emergência dos estudos sobre o letramento, foram igualmente férteis na compreensão da dimensão sócio-cultural da língua escrita e de seu aprendizado. Em estreita sintonia, ambos os movimentos, nas suas vertentes teórico-conceituais, romperam definitivamente com a idéia que existe uma diferença entre o sujeito que aprende e o professor que ensina. Romperam também com o reducionismo que delimitava a sala de aula como o único espaço de aprendizagem. Entre o homem e o saberes próprios de sua cultura, há que se valorizar os inúmeros agentes mediadores da aprendizagem, não só o professor, nem só a escola, embora estes sejam agentes privilegiados pela sistemática pedagogicamente planejada, os objetivos e intencionalidade assumida. As dimensões do aprender a ler e a escrever Durante muito tempo a alfabetização foi entendida como mera sistematização do “B + A = BA”, isto é, como a aquisição de um código fundado na relação entre fonemas e grafemas. Em uma sociedade constituída em grande parte por analfabetos e marcada por reduzidas práticas de leitura e escrita, a simples consciência fonológica que permitia aos sujeitos associar sons e letras para produzir/interpretar palavras (ou frases curtas) parecia ser suficiente para diferenciar o alfabetizado do analfabeto. Enquanto a alfabetização se ocupa da aquisição da escrita por um indivíduo, ou grupo de indivíduos, o letramento focaliza os aspectos sócio-históricos da aquisição de uma sociedade. Segundo a professora Magda Soares: “...alfabetização é o processo pelo qual se adquire o domínio de um código e das habilidades de utilizá-lo para ler e escrever, ou seja: o domínio da tecnologia – do conjunto de técnicas – para exercer a arte e ciência da escrita. Ao exercício efetivo e competente da tecnologia da escrita denomina-se Letramento que implica habilidades várias, tais como: capacidade de ler ou escrever para atingir diferentes objetivos”. Ao permitir que o sujeito interprete, divirta-se, seduza, sistematize, confronte, induza, documente, informe, oriente-se, reivindique, e garanta a sua memória, o efetivo uso da escrita garante-lhe uma condição diferenciada na sua relação com o mundo, um estado não necessariamente conquistado por aquele que apenas domina o código. Por isso, aprender a ler e a escrever implica não apenas o conhecimento das letras e do modo de decodificá-las (ou de associá-las), mas a possibilidade de usar esse conhecimento em benefício de formas de expressão e comunicação, possíveis, reconhecidas, necessárias e legítimas em um determinado contexto cultural. Em função disso, talvez a diretriz pedagógica mais importante no trabalho dos professores, tanto na educação de crianças e adolescentes quanto na educação de adultos, seja a utilização da escrita verdadeira nas diversas atividades pedagógicas. Em outras palavras, é importante a utilização da escrita em sala, correspondendo às formas pelas quais ela é utilizada verdadeiramente nas práticas sociais. Nesta perspectiva, assume-se que o ponto de partida e de chegada do processo de alfabetização escolar é o texto: trecho falado ou escrito, caracterizado pela unidade de sentido que se estabelece numa determinada situação discursiva. O significado do aprender a ler e a escrever Ao permitir que as pessoas cultivem os hábitos de leitura e escrita, podendo inserir-se criticamente na sociedade, a aprendizagem da língua escrita deixa de ser uma questão estritamente pedagógica para alçar-se à esfera política, evidentemente pelo que representa o investimento na formação humana. O povo brasileiro, na sua dura jornada emancipadora, necessita compreender a fundo a realidade em que vive, para assim, desenvolver instrumentos sólidos de transformação. A alfabetização e o desenvolvimento da aprendizagem devem estar a serviço desse processo transformatório e, para isso, precisam estar conectados e próximos dos anseios do povo. É por isso que nas escolas populares e democráticas, como também na prática dos educadores sérios das escolas públicas do país, a discussão sobre alfabetização e letramento deve estar constantemente presente na agenda pedagógica da escola e/ou na prática docente. Boletim Novo Tempo - página 5 Protagonistas Protagonistas Atividade coletiva quebra barreiras no processo de alfabetização de trabalhadores A Thiago Bastos equipe de alfabetização realizou neste semestre uma atividade de produção de texto coletiva. Esta atividade despertou interesse nos alfabetizandos, como aponta João Guedes, educando do nível 1, “...é um trabalho que faz parte do aprendizado, que esta sendo bem aproveitado pois possibilita exercitamos a memória e a criatividade”. Percebe-se que há, em uma turma de trabalhadores adultos, riquezas de experiências e conhecimentos adquiridos ao longo da vida, que têm de ser valorizado e explorado nos processos de alfabetização. A produção de texto coletivo permite a interação entre a turma e faz com que a heterogeneidade presente na sala de aula diminua, pois quem ainda não consegue registrar as suas idéias no papel as expõem com liberdade. Esta prática possibilita a quebra das barreiras e da opressão impostas pelo analfabetismo. O medo de se comunicar e de expressar seus pensamentos faz com que o aluno não veja a sua capacidade criativa e critica. Ainda assim, o educando pode contribuir de forma efetiva para o desenvolvimento do coletivo, e de forma coletiva se torna mais fácil enfrentar os desafios. Esta atividade fornece aos educandos instrumentos para que possam ver as informações e elaborar pensamento e ações de forma critica. Sendo assim, ele percebe a sua capacidade de intervir conscientemente em sua realidade a fim de transformá-la. “Quem disse que um dia conversaria como eu converso hoje, a gente coloca as idéias para fora, agente desabafa”, explica João Guedes. Os textos produzidos pela turma, que muitas vezes ultrapassam Educandos participam de oficina de o ambiente escolar (são literatura publicados em jornais, boletins expostos em murais e lidos em algumas atividades das quais a escola participa), fazem com que se eleve a auto-estima dos educandos e eles passam a perceber que o universo da leitura e da escrita faz parte de suas vidas. Estudantes da FaE/UEMG realizam estágio na EPOMG Durante uma semana, estudantes do curso de Pedagogia da UEMG, trocaram experiências com os educadores e educandos da Escola Popular “Orocílio Martins Gonçalves”. O Boletim Novo tempo, publica um texto produzido pelos estudantes onde eles trazem suas reflexões e impressões sobre o período de estágio. “Nós, alunos da FAE UEMG, estudantes de 2o período de Pedagogia do noturno, escolhemos a EPOMG para fazer nosso estágio de observação a respeito da identidade do pedagogo. Realizamos o estágio no período de 24 a 31 de outubro. O foco do estágio era conhecer mais de perto os campos onde o profissional (no caso: o pedagogo) pode atuar e como ele intervêm nesses espaços, nos quais a educação se processa. Escolhemos a EPOMG por seu caráter diferenciado dentro do âmbito educacional e ainda por utilizar uma metodologia nãoconvencional das instituições educativas, pois a Escola Popular combina ensino e consciência política, conseguindo assim aliar a teoria (ciência) ao cotidiano do trabalhador na construção de um conhecimento que serve à transformação da vida do povo. Outro aspecto importante a ressaltar é a maneira como a autogestão democrática se faz na escola. Na EPOMG isso funciona de verdade. Pudemos comprovar como ela acontece quando presenciamos a um mutirão de limpeza, onde os próprios alunos realizam esse trabalho. Enquanto o mutirão acontecia outros companheiros adiantavam os preparativos para a feijoada que aconteceria no sábado dia 29 de outubro. Tivemos ainda a oportunidade de participar da “1a Feijoada da Orocílio”, onde a comunidade escolar pôde se reunir num ambiente agradável, que além de ser uma atividade de autogestão, foi também um evento muito divertido.” Boletim Novo Tempo - página 6 Impressões do estágio “Uma escola revolucionária e diferente. Um exemplo de que quando há força de vontade as coisas acontecem. Valeu EPOMG!!!” (Willian) “Nestes dias em que tive o prazer de conviver com os companheiros da EPOMG, tive a oportunidade de ver como funciona a educação classista e democrática, baseadas no grande mestre Makarenko”.(David) “Gostei muito de ter feito estágio na Escola Popular, pois ela apresenta um método diferenciado de outras EJA’S, foi uma experiência muito interessante para mim, lá eu pude conviver como pessoas com histórias de vida diversificadas.” (Mary) “A realização do estágio na EPOMG foi para mim uma experiência muito válida, que contribuirá muito para minha formação e prática, enquanto pedagoga. As pessoas que compõe a escola foram bastante acolhedoras e através do convívio com elas pude perceber que a educação popular funciona na prática. Realmente, é uma iniciativa que merece nossas palmas”.(Carla) “O que mais me encantou, foi sentir nas palavras e nos gestos das pessoas uma grande vontade de aprender, ensinar e participar mais ativamente das questões sociais. Foi para mim uma experiência realmente enriquecedora. Obrigada pelo carinho e pela atenção de todos.” (Lidiane) ”Acredito que a Escola Popular é uma prática educativa muito importante, pois possui cunho político e pedagógico aliados em um mesmo ideal, que é – promover a educação e a participação política de trabalhadores dentro de um contexto social. O trabalho desenvolvido nesta escola é uma resistência ao tipo de sistema escolar vigente. Parabenizo a todos que de uma maneira ou de outra participam e contribuem para o sucesso desta instituição, com a qual eu me identifico como profissional”.(Roseli) História da luta do povo 310 anos da morte do herói do povo A Zumbi dos Palmares escravidão de negros africanos e seus descendentes nas Américas, que se estendeu de meados do século XVI aos fins do XIX, foi um dos episódios mais opressivos da História da Humanidade. Porém, em oposição a toda essa crueldade que despovoou a África e vitimou milhões de seus melhores filhos, surgiu um modelo de resistência admirável: os quilombos. Na Angola pré-colonial, o mito de arraiais militares e núcleos habitacionais e comerciais abertos a africanos de quaisquer etnias, já desempenhavam um papel político e econômico fundamental. Transplantada para as Américas, a instituição (chamada ‘cumbe’ ou ‘palanque’ na América Hispânica) firmou sua importância na resistência à escravidão. De todos os quilombos americanos, sem dúvida o mais importante foi a Confederação de Palmares. Ela nasceu por volta de 1590, quando escravos de um engenho pernambucano, depois de uma rebelião sangrenta, refugiaram-se na serra da Barriga, atual Alagoas, e lá criaram as bases de um incômodo “Estado livre” em pleno Brasil colonial. Até a destruição de seu reduto principal, em 1694 (cem anos depois), Palmares foi, de fato, um verdadeiro Estado autônomo encravado na capitania de Pernambuco. No auge de sua produtiva existência suas relações com as comunidades vizinhas chegaram a ter momentos de uma troca econômica rica e organizada. E essa autonomia, abalando a autoridade colonial, motivou uma repressão jamais vista. De 1596 a 1716, ano da destruição de seu último reduto, os palmarinos suportaram investidas de 66 expedições militares e atacaram 31 vezes. Em toda essa luta avulta a figura de um importante líder: Zumbi. Grande estrategista, Zumbi dos Palmares, morto à traição em 20 de novembro de 1695, aos 40 anos de idade, é hoje visto como o maior líder da resistência antiescravista nas Américas. Quilombo dos palmares: organização e luta Já na virada para o século XVII, o número de escravos e libertos reunidos em Palmares somava centenas de quilombolas. Por necessidade de sobrevivência eles muitas vezes desciam para saltear os engenhos vizinhos. Da desorganização inicial seguiu-se uma estruturação do reduto. Tanto que, por volta de 1630, Palmares já teria cerca de três mil aquilombados, desenvolvendo uma agricultura avançada para os padrões locais e da época, plantando cana de açúcar, milho, feijão, mandioca, batata e legumes; fabricando artefatos de palha, manteiga e vinho; criando galinhas e porcos; e desenvolvendo uma organizada atividade metalúrgica, necessária à sua subsistência e à sua defesa. A chegada dos holandeses a Pernambuco, em 1630, e as guerras que essa presença motivou, facilitaram a fuga de mais gente para Palmares. Em conseqüência, o quilombo (agora já uma confederação de aldeias) foi se fortalecendo e se transformando em uma real e perigosa ameaça ao poder colonial. Foi então que a repressão tomou corpo. Durante sua longa existência, Palmares teve vários líderes. Mas a História até agora conhecida reservou para Zumbi o papel de protagonistas principais dessa verdadeira epopéia. A partir de 1680 a repressão a Palmares vai se tornando cada vez mais cruel, com a participação de milhares de soldados, de milícias patrocinadas pelos senhores de terras e até mesmo de combatentes mercenários. Quinze anos depois, o líder Zumbi - após dezessete anos de combate em que se notabilizou como um dos maiores generais da história da humanidade, atraiçoado por um de seus comandados, morre, durante a expedição repressora de Domingos Jorge Velho. Zumbi Vive! A experiência palmarina foi a maior e mais longa contestação à ordem escravista em todo o mundo e em todos os tempos. Por extensão - e mesmo por ter sido Palmares um reduto que abrigava negros, índios e brancos pobres - a saga de Zumbi é um rico episódio de luta contra o racismo. Assim, o dia que marca o seu “ingresso na História”, 20 de novembro, deve ser considerado como uma data do povo, celebrada como um dia de luta e de reflexão. Um dia para confirmar a justeza da resistência popular. Boletim Novo Tempo - página 7 Cultura Popular Bertold Brecth teatro e poesia para transformar o mundo Quem foi Bertold Brecth “...Não precisamos só do remendo, Brecht nasceu em Augsburg, na Alemanha, no precisamos o casaco inteiro. ano de 1898, período auge do capitalismo em seu Não precisamos de pedaços de pão, país. precisamos de pão verdadeiro. Ele viveu os maiores acontecimentos do Não precisamos só do emprego, século XX: a primeira e a segunda guerra mundial, toda a fábrica precisamos. a Revolução Bolchevique e o holocausto em sua E mais o carvão. própria terra natal. Dedicou toda a sua obra à luta E mais as minas. contra o capitalismo, o fascismo, a opressão O povo no poder. nacional e para isso buscou respostas em Marx e É disso que precisamos. Engels. Que tem vocês A revolta contra a exploração do homem pelo a nos dar?” homem: eis a matéria-prima de seu espírito, de sua mente, de sua arte. Brecth foi um artista que (parte final do poema procurou refletir na sua poesia e no seu teatro as Canção do casaco e do remedo) causas concretas das dificuldades da vida e da inclemência dos tempos. É no compromisso com a transformação da dura realidade social de seu tempo, que se encontra a chave para compreender não só o teatro de Brecht como também o sentido e a razão de sua atividade poética. boa repercussão entre o público, como Mãe, Os Fuzis da Senhora Carrar, Galileu Galilei, Terror e Misérias do III Reich, A Ópera dos A busca por um mundo diferente do que vivia fez com que Três Vinténs, Santa Joana dos Matadouros e outras. Brecht definisse seu lado na vida: o lado dos oprimidos e explorados. O teatro Brechtiano A atualidade de Brecth Segundo Brecth, o espectador deverá distanciar-se do espetáculo para melhor compreendê-lo e, assim, deixar de ser espectador para tornar-se um sujeito ativo na transformação do mundo. Também na poesia há algo de inovador e revolucionário: a não preocupação com a rima. Brecht queria que os homens refletissem sobre suas condições de vida. Por isso, para ele, não é o espectador quem deve ter os olhos postos no espetáculo, é o espetáculo que tem os olhos postos no espectador. Não é só o espetáculo que leva a tragédia aos homens, são os homens que levam a tragédia ao espetáculo. A luta contra o capitalismo e suas mazelas foram temas de suas peças. A maioria delas foi encenada aqui no Brasil e teve uma Brecht falava do ser humano do futuro, ele acreditava que um outro mundo era possível. Por isso, colocou toda a sua arte a serviço da construção desse outro mundo. Acredita-se que ele gostaria que os seus poemas fossem envelhecendo e saindo de cena à medida que “o seu futuro” chegasse. Brecth, artista singular de seu tempo e do nosso tempo, pode atualmente com seus poemas e peças suscitar entre os trabalhadores uma reflexão sobre a realidade vivida pelos mesmos. Nas escolas populares espalhadas pelo Brasil, a arte de Brecth deve estar presente no cotidiano escolar, ao nosso ver, potencializando a luta daqueles que ele há quase um século se colocou ao lado: os homens e mulheres das classes exploradas e oprimidas. O teatro dialético A peça, Um Homem é um Homem, teve sua estréia na Alemanha em 1926. Sob a influência do materialismo dialético, a peça tem o objetivo claro de mostrar que o homem se modifica, tanto no sentido de sua desintegração pela sociedade burguesa quanto no sentido de que ele pode se transformar e transformar o mundo. Ela contém elementos do teatro épico, que será depois uma constante no trabalho do dramaturgo. É uma estória em que os personagens interrompem a ação e se dirigem diretamente à platéia, comentando ou ironizando um fato. A linguagem é didática e direta. As músicas se relacionam com o Boletim Novo Tempo - página 8 texto ajudando a narrar a história. Em contraposição à forma lírica e à forma dramática, a épica relaciona-se com tudo o que seja amplo, exterior, objetivo. Para Brecht, que trabalha com o método marxista, o personagem é objeto de forças sociais e econômicas, não é um sujeito absoluto, mas sim, concreto e determinado por sua situação social e econômica. É isso que o trabalho de Brecth procura deixar claro. Importantes dramaturgos brasileiros, como Augusto Boal classifica o teatro do dramaturgo alemão como teatro dialético, abrindo espaço para produções de espetáculos nessa linha a partir da década de 1950 no país. Montagem de “Um Homem é Homem”, peça escrita por Brecth