A ciência e a técnica a serviço do povo
Novo Tempo
Distribuição Gratuita
Boletim
Informativo da Escola Popular Orocílio Martins Gonçalves
Belo Horizonte - ano 2 - número 4 - Dezembro de 2005
Matheus Vilhena
Matheus Vilhena
EPOMG realiza
atividade de autogestão
Página 3
Thiago Bastos
Bertold Brecth:
teatro e poesia
para transformar
o mundo
Página 8
Por uma gestão
pedagógica
participativa!
Página 4
Leia nesta edição
Editorial
Autogestão na ordem do dia! ..................................... 2
Opinião
Alfabetização de adultos no Brasil:
uma crítica ao Programa Brasil Alfabetizado .............. 2
Capa
Alfabetização e Letramento:
uma concepção pedagógica
próxima dos anseios do povo .................................... 5
Protagonistas
Estudantes da UEMG realizam
estágio na EPOMG ..................................................... 6
Atividade coletiva quebra barreiras no
processo de alfabetização de trabalhadores................6
História da luta do povo
310 anos da morte do herói do povo
Zumbi dos Palmares .................................................... 7
Editorial
Autogestão na ordem do dia!
C
hegamos à última edição do
boletim Novo Tempo em 2005.
Foram 03 números, muitas
lutas, discussões e pesquisas. A edição
04 encerra o ano trazendo novas
reflexões, principalmente no campo
pedagógico. Propostas e idéias sobre a
gestão participativa e a alfabetização/
letramento, concepções pedagógicas
estudadas nos últimos meses por nossos
educadores podem ser lidas nas páginas
4 e 5.
A EPOMG avisa que novembro é
mês de resistência negra, de Zumbi e dos
Arturos. Na página 7 podemos conferir
um artigo sobre a resistência de
Palmares. Após passados três séculos,
persiste ainda um exemplo vivo da justeza
da resistência e auto-organização
popular. Zumbi e Palmares retumbam, nos
dias de hoje, no prédio da rua Ouro Preto.
Outro momento importante marca
esta edição do Boletim: a realização da
nossa Feijoada. Não faltaram dificuldades
e obstáculos para consolidarmos a nossa
segunda atividade de autogestão, que
reuniu aproximadamente 300 trabalhadores. O feijão doado pelos apoiadores, a cooperação e os esforços
coletivos fizeram da atividade um
sucesso. (página 3)
A Escola Popular “Orocílio Martins
Gonçalves” encerra o ano trazendo um
balanço positivo de suas atividades.
Continuamos reafirmando que a escola
(educação) não faz revoluções, não muda
as relações de produção de uma
sociedade. Mas é um instrumento
fundamental para a transformação social.
Os cursos de formação política realizados
junto a dirigentes sindicais confirmam a
necessidade desse instrumento.
O questionamento da realidade,
que implica em não tomá-la por imutável,
leva a valorização dessa educação. E toda
essa jornada vem sendo aprendida em
cima da práxis, “caminhando para fazer
o caminho”. O caminhar continua em
2006!
Opinião
Alfabetização de Adultos no Brasil:
uma critica ao Programa Brasil Alfabetizado
por EPOMG
A
alfabetização de adultos, mais do
que qualquer outra tarefa
educativa, é um ato político que
exige um compromisso com os
segmentos marginalizados da população
brasileira. Isso por que os estudantes
atendidos por essa modalidade de ensino
são, quase sempre, pessoas que vivem
sob a exploração e opressão do sistema
vigente: trabalhadores e trabalhadoras que
foram intimidados ou impedidos de
estudar devido à repetência ou a falta de
tempo para ir à escola por terem que
trabalhar para o sustento da família.
A educação de adultos é a
modalidade mais negligenciada da
educação oficial brasileira. Prova disso é
que, embora a constituição federal de
1988 assegure o ensino fundamental
público e gratuito em qualquer idade, a
Educação de Jovens e Adultos foi excluída
do FUNDEF (Fundo de Desenvolvimento
do Ensino Fundamental). Como
conseqüência, o investimento realizado
nesta modalidade é hoje aproximadamente nove vezes menor que aquele
realizado no ensino básico e regular e a
oferta dessa educação é bem inferior à
demanda potencial.
No que se refere à alfabetização,
as iniciativas do governo federal se
resumem, tradicionalmente, à criação de
programas emergenciais cuja história de
fracassos revela o descompromisso do
poder público com os analfabetos do país.
O programa Brasil Alfabetizado, lançado
oficialmente em setembro/2003, não foge
à regra. Com a ambiciosa meta de
erradicar o analfabetismo em 04 anos, o
governo Lula firmou convênio
com diversas prefeituras, além
de ONGs e empresas. Os
convênios prevêem o repasse
irrisório de R$ 80 por
alfabetizador e R$ 15 por
aluno. Às instituições cabe
fornecer salas de aula,
material didático, a inscrição
dos alunos e a organização do
curso. E, o mais incrível disso
tudo, é que após um período
de
oito
meses
de
Expediente
Equipe
www.epomg.com.br
[email protected]
responsável:
Boletim Novo Tempo – Uma publicação da Escola Popular Orocílio Martins Gonçalves
Ano 2 – Número 4 – Dezembro de 2005
Rômulo
Projeto Gráfico: Luan Gomide.
escolarização o alfabetizando já consta
nas estatísticas oficiais como mais um
alfabetizado pelo programa, quer tenha
aprendido ou não.
Como se pode ver, nesse
programa, as metas quantitativas se
sobrepõem às metas qualitativas,
deixando claro que o que importa é a
quantidade de alunos matriculados e não
a qualidade do ensino. Através de uma
ampla mobilização, o governo apela para
a boa vontade e o voluntarismo da
população, desprezando a complexidade
do processo de ensino-aprendizagem da
língua escrita, que exige, do educador,
amplos conhecimentos práticos e
teóricos. Não existe um projeto
pedagógico definido, os “educadores” não
recebem capacitação e o material
didático utilizado é de péssima qualidade.
Portanto, numa perspectiva critica,
o governo Lula, através do programa
Brasil Alfabetizado, presta um desserviço
a população necessitada do país, uma
vez, que em condições tão desconectadas
da realidade social, é impossível realizar
um trabalho educativo eficiente. É até
mesmo pouco provável que esse projeto
esteja garantindo a alfabetização dos
seus alunos, e muito menos o letramento,
indispensável para superar a condição de
exclusão a que essas pessoas estão
submetidas. As necessidades educacionais do povo estão, mais uma vez,
sendo desprezadas enquanto o
compromisso do governo se volta,
exclusivamente, para a produção de
números favoráveis à sua propaganda
política.
Radicchi,
Aline
Souza,
Matheus
Vilhena.
Diagramação: Daniel Silva. Tiragem: 1.000 exemplares -
Revisão:
Aline
Souza.
Impressão: Gráfica TERRA.
Rua Ouro Preto, 294 - 2º andar - Barro Preto - Belo Horizonte - Minas Gerais - CEP 30170-040 - tel: 3291-6712
Escola em Movimento
EPOMG realiza sua 1ª Feijoada
Escola acredita na autogestão como caminho para sua administração
N
o último dia 29 de outubro, foi
realizada na Escola Popular
Orocílio Martins Gonçalves
(Epomg) a “1ª Feijoada da Orocílio”, que
marcou a segunda atividade de
autogestão promovida pela escola.
Desde o resultado obtido na Festa
Junina, onde foi grande a mobilização de
educandos e educadores para o êxito do
evento, com arrecadação de grande
quantidade de roupas e mantimentos, os
colaboradores da escola perceberam o
caminho a ser perseguido para o
crescimento da Epomg. “A bandeira da
autogestão surgiu na visita que fizemos
ao núcleo de estudos Makarenko, na
Universidade do Paraná, há um ano”,
lembra Rômulo Radicchi, coordenador e
educador da Epomg, que junto com os
demais companheiros da escola vem
assimilando idéias do pedagogo russo na
gestão da escola.
Com um ingresso de R$ 4,99 por
pessoa, os cerca de 300 presentes
puderam saborear os mais de 70 Kg de
carne e 40 Kg feijão, alguns dos
ingredientes que compuseram a feijoada,
completada por muita laranja e mais de
40 molhos de couve, além de
refrigerante, tudo resultado de
arrecadações captadas por educadores
Carta de agradecimento produzida
coletivamente pelos educandos do Nível 1
Caros companheiros,
Escrevemos esta carta para dizer o
quanto foi importante o apoio dado para a
realização da nossa 1º Feijoada, atividade
que foi para arrecadar fundos para a
melhoria da nossa Escola.
Somos independentes e nos apoiamos
e mantemos apoiados na força da classe
trabalhadora. Lutamos pelos mesmos
ideais: aprofundar no conhecimento
político, solidariedade entre nós
trabalhadores e os oprimidos.
Hoje o sonho de estudar está virando
realidade nessa escola. Trabalhamos com
o espírito coletivo em todas as nossas
atividades, apesar das dificuldades.
Desejamos que muitos tenham esta
oportunidade e desde já agradecemos a
todos que depositam confiança no nosso
trabalho.
Matheus Vilhena
e educandos. Ao frisar a
qualidade do almoço servido,
João Gualberto da Silva,
educando da escola e dirigente
sindical, ressalta a importância
desses eventos: “Devemos criar
sempre coisas novas, sair da sala
de aula e realizar eventos que
incentivem a interação das
pessoas com a escola”.
Como a idéia da realização
da feijoada, comida ligada à
história do povo, foi decidida em
assembléia geral, o destino do
lucro de R$ 1.300,00 também será
decidido
por
todos,
em
assembléia posterior, quando
também será repassado todo o
balanço do evento.
O esforço de vários
companheiros da Epomg foi
somado a colaboradores como o
Sindicato dos Trabalhadores da
Indústria da Construção de Belo
Horizonte (Marreta), Sindicato dos
Trabalhadores da Indústria da
Educandos e educadores saboream a feijoada
Construção de Contagem,
Federação dos Trabalhadores da Indústria da Construção do Estado de Minas Gerais,
Sindicato dos Trabalhadores em Transporte Rodoviário de Belo Horizonte, Sindicato
dos Empregados no Comércio de Belo Horizonte e Betim, D.A. Walkiria Afonso Costa
– Fae/UFMG, Loja do Paulo, Vitallis Saúde e Clínica Salud.
A história da Feijoada
A feijoada está diretamente ligada à
presença do negro em terras brasileiras.
Resultado da fusão de costumes alimentares
europeus e a criatividade e resistência do
escravo africano, a feijoada é o símbolo da
culinária nacional.
Esta fusão teve origem na época do
descobrimento do ouro na Capitania de São
Vicente/SP, na virada do século XVII. O inicio
da mineração no Brasil levou à criação de
novas capitanias e modificou sensivelmente
a economia brasileira. A partir daí incentivouse o uso da moeda nas trocas comerciais,
antes baseadas em produtos como o cacau
e o algodão e fez crescer a necessidade de
mão-de-obra escrava, intensificando o tráfico
de negros africanos e, como conseqüência,
sua influência em nossos hábitos alimentares.
Nas regiões das minas de ouro (Minas
Gerais, Goiás, Tocantins e Mato Grosso),
como o escravo ficava totalmente absorvido
pelo regime de trabalho altamente explorador
e opressor, e sem disponibilidade para cuidar
de sua própria comida, os mantimentos vinham
de outras regiões (litoral paulista e carioca)
carregados nos lombos dos animais, daí a
origem do não menos famoso ‘Feijão tropeiro’,
indicando a forte apreciação nacional pelos
pratos feitos à base de feijão.
Naquela época, a refeição dos escravos
de Diamantina era composta basicamente de
fubá de milho, feijão e sal. Assim, o feijão
misturado com farinha de mandioca ou fubá
grosso de milho, antes de ser servido, virou prato
tradicional naquela época.
Pouco depois, acrescentou-se a este
prato a carne, fundindo o apreciado cozido
português, prato com diversos tipos de carne e
legumes, cozidos todos juntos, com o já adotado
feijão, toucinho e farinha. Estava feita a feijoada.
Hoje, à feijoada, constituída de feijão
preto cozido, sobretudo com partes do porco
(orelhas, rabo, pés etc.) acrescenta-se como
acompanhamento à couve refogada com alho,
o arroz branco, a farofa de farinha de mandioca
e o molho de pimenta.
Boletim Novo Tempo - página 3
Capa
Por uma gestão pedagógica participativa!
A
educação ocupa um lugar
estratégico no pensamento e na
prática do proletariado, enquanto
fundamento inerente ao processo de
transformação da ordem capitalista e a
fundação de uma nova ordem social. A
preocupação em formar homens livres e
conscientes, capazes de revolucionar a
sociedade, é constante na obra dos
maiores pensadores comprometidos com o
proletariado. Há, na tradição proletária, uma
vinculação explícita entre educação e luta
política. A educação é um objetivo em si
para combater a ignorância e a miséria, e,
simultaneamente, instrumento de atuação
política e social
contra os privilégios, as injustiças e todas as
formas de opressão e exploração.
A educação
é concebida como
parte do processo
revolucionário, isto
é, os lutadores
sociais não imaginam que apenas
através do ato educativo a revolução
tornar-se-á realidade, mas vêem a
educação como
fundamental. Tratase, na verdade, de
romper o círculo
vicioso entre a
miséria, a ignorância e o preconceito, e, de formar seres humanos
autônomos, críticos, solidários e amantes da
liberdade.
A educação no seio da luta de classes
A pedagogia é a teoria crítica da
educação, isto é, da ação do homem
quando transmite ou modifica a realidade
social. A educação não é um fenômeno
neutro, ela sofre os efeitos da ideologia, por
estar de fato envolvida na política.
A sociedade capitalista produz uma
coisificação da consciência humana e isto
é absorvido pelos indivíduos, que passam
a se considerar incapazes de produzir o
novo. O conhecimento passa a ser
considerado algo exterior a nós, uma coisa
que devemos procurar fora de nós, talvez nas
Boletim Novo Tempo - página 4
escolas ou nos meios de comunicação de
massas, ou seja, para termos o acesso ao
“conhecimento” precisamos pedi-lo a algum
professor.
Mas a verdade é bem diferente, pois o
saber se desenvolve na práxis, o verdadeiro
ponto de partida para uma real apreensão
da realidade. As crianças aprendem a falar
na sua relação com o mundo, nas suas
relações sociais, ou seja, não é
exclusivamente na escola que isto ocorre.
Nas sociedades pré-capitalistas (préhistóricas, escravista, feudal, etc.) não havia
escolas e as pessoas aprendiam o que era
necessário para a sua sobrevivência sem
Educandos avaliam atividade coletiva
ter que ir a um lugar chamado escola. Elas
aprendiam imitando os gestos dos adultos
nas atividades diárias e nas cerimônias dos
rituais. As crianças aprendiam “para a vida
e por meio da vida”, sem que alguém
estivesse especialmente destinado a tarefa
de ensinar.
É na moderna sociedade capitalista
que surge a escola oficial e a figura do
professor, juntamente com a ideologia de
que a “aprendizagem” só pode ocorrer
nesta instituição. Por que ocorre isto? Isto
ocorre devido ao fato de que se mudaram
as necessidades sociais, pois o modo de
produção capitalista precisa de expandir
o “conhecimento” e, ao mesmo tempo,
controlá-lo para que ele não ultrapasse os
limites por ele estabelecido. Assim, tornase necessário criar uma instituição para
desenvolver/controlar o saber. Tais
instituições são as escolas, que são
controladas pelo estado, direta ou
indiretamente (legislação sobre educação,
determinação de programas e grades
curriculares, burocracia, etc.).
O que seria uma gestão pedagógica
participativa?
Em uma escola popular e
democrática, ela deve ser concebida como
uma discussão coletiva para a construção
de um projeto político. Este projeto consiste
em criar mecanismos para transformar a
relação professor-aluno e a relação ensinoRômulo Radicchi aprendizagem.
Aponta-se para
uma mudança de
paradigmas,
sendo a principal, a do professor adotar uma
pedagogia nãodiretiva, ou seja,
não ser mais um
diretor da aprendizagem dos alunos e sim um
orientador (mediador).
Os educandos influenciam diretamente
na gestão pedagógica, ou seja,
eles conjuntamente com os educadores decidem o
que e como
aprender. Para que isso aconteça é
necessário uma ligação entre a gestão
da escola como um todo e o
planejamento pedagógico, ou seja, é
necessário desconstruir todo um
imaginário existente acerca da
participação do aluno na produção e
difusão do conhecimento.
Para se alcançar essa meta, tornase necessário traçar estratégias que
incorporem em suas ações a cooperação
mútua e a solidariedade. Construir e
desenvolver uma gestão pedagógica nas
escolas populares, representa um salto
de qualidade em seu trabalho, uma vez
que contribuiu com o processo de
politização e reafirma a possibilidade de
se construir novas práticas, a partir e em
contraposição às antigas.
Alfabetização e Letramento: uma concepção
pedagógica próxima dos anseios do povo
S
e, no início da década de 80, os
estudos acerca da língua escrita
trouxeram aos educadores o
entendimento de que a alfabetização, longe
de ser a apropriação de um código, envolve
um complexo processo de elaboração de
hipóteses sobre a representação lingüística.
Já os anos que se seguiram, com a
emergência dos estudos sobre o letramento,
foram igualmente férteis na compreensão
da dimensão sócio-cultural da língua escrita
e de seu aprendizado. Em estreita sintonia,
ambos os movimentos, nas suas vertentes
teórico-conceituais, romperam definitivamente com a idéia que existe uma
diferença entre o sujeito que aprende e o
professor que ensina. Romperam também
com o reducionismo que delimitava a sala
de aula como o único espaço de
aprendizagem.
Entre o homem e o saberes próprios
de sua cultura, há que se valorizar os
inúmeros agentes mediadores da
aprendizagem, não só o professor, nem só
a escola, embora estes sejam agentes
privilegiados
pela
sistemática
pedagogicamente planejada, os objetivos e
intencionalidade assumida.
As dimensões do aprender
a ler e a escrever
Durante muito tempo a alfabetização
foi entendida como mera sistematização
do “B + A = BA”, isto é, como a aquisição
de um código fundado na relação entre
fonemas e grafemas. Em uma sociedade
constituída em grande parte por
analfabetos e marcada por reduzidas
práticas de leitura e escrita, a simples
consciência fonológica que permitia aos
sujeitos associar sons e letras para
produzir/interpretar palavras (ou frases
curtas) parecia ser suficiente para
diferenciar o alfabetizado do analfabeto.
Enquanto a alfabetização se ocupa
da aquisição da escrita por um indivíduo,
ou grupo de indivíduos, o letramento
focaliza os aspectos sócio-históricos da
aquisição de uma sociedade. Segundo a
professora
Magda
Soares:
“...alfabetização é o processo pelo qual se
adquire o domínio de um código e das
habilidades de utilizá-lo para ler e escrever,
ou seja: o domínio da tecnologia – do
conjunto de técnicas – para exercer a arte
e ciência da escrita. Ao exercício efetivo e
competente da tecnologia da escrita
denomina-se Letramento que implica
habilidades várias, tais como: capacidade
de ler ou escrever para atingir diferentes
objetivos”.
Ao permitir que o sujeito interprete,
divirta-se, seduza, sistematize, confronte,
induza, documente, informe, oriente-se,
reivindique, e garanta a sua memória, o
efetivo uso da escrita garante-lhe uma
condição diferenciada na sua relação com
o mundo, um estado não necessariamente
conquistado por aquele que apenas domina
o código. Por isso, aprender a ler e a
escrever implica não apenas o
conhecimento das letras e do modo de
decodificá-las (ou de associá-las), mas a
possibilidade de usar esse conhecimento
em benefício de formas de expressão e
comunicação, possíveis, reconhecidas,
necessárias e legítimas em um determinado
contexto cultural.
Em função disso, talvez a diretriz
pedagógica mais importante no trabalho dos
professores, tanto na educação de crianças
e adolescentes quanto na educação de
adultos, seja a utilização da escrita
verdadeira nas diversas atividades
pedagógicas. Em outras palavras, é
importante a utilização da escrita em sala,
correspondendo às formas pelas quais ela
é utilizada verdadeiramente nas práticas
sociais. Nesta perspectiva, assume-se que
o ponto de partida e de chegada do
processo de alfabetização escolar é o texto:
trecho falado ou escrito, caracterizado pela
unidade de sentido que se estabelece numa
determinada situação discursiva.
O significado do aprender
a ler e a escrever
Ao permitir que as pessoas cultivem
os hábitos de leitura e escrita, podendo
inserir-se criticamente na sociedade, a
aprendizagem da língua escrita deixa de ser
uma questão estritamente pedagógica para
alçar-se à esfera política, evidentemente pelo
que representa o investimento na formação
humana.
O povo brasileiro, na sua dura jornada
emancipadora, necessita compreender a
fundo a realidade em que vive, para assim,
desenvolver instrumentos sólidos de
transformação. A alfabetização e o
desenvolvimento da aprendizagem devem
estar a serviço desse processo
transformatório e, para isso, precisam estar
conectados e próximos dos anseios do povo.
É por isso que nas escolas populares
e democráticas, como também na prática
dos educadores sérios das escolas públicas
do país, a discussão sobre alfabetização e
letramento deve estar constantemente
presente na agenda pedagógica da escola
e/ou na prática docente.
Boletim Novo Tempo - página 5
Protagonistas
Protagonistas
Atividade coletiva quebra barreiras no
processo de alfabetização de trabalhadores
A
Thiago Bastos
equipe de alfabetização realizou neste semestre uma
atividade de produção de texto coletiva. Esta atividade
despertou interesse nos alfabetizandos, como aponta João
Guedes, educando do nível 1, “...é um trabalho que faz parte do
aprendizado, que esta sendo bem aproveitado pois possibilita
exercitamos a memória e a criatividade”.
Percebe-se que há, em uma turma de trabalhadores adultos,
riquezas de experiências e conhecimentos adquiridos ao longo da
vida, que têm de ser valorizado e explorado nos processos de
alfabetização. A produção de texto coletivo permite a interação entre
a turma e faz com que a heterogeneidade presente na sala de aula
diminua, pois quem ainda não consegue registrar as suas idéias no
papel as expõem com liberdade.
Esta prática possibilita a quebra das barreiras e da opressão
impostas pelo analfabetismo. O medo de se comunicar e de
expressar seus pensamentos faz com que o aluno não veja a sua
capacidade criativa e critica. Ainda assim, o educando pode
contribuir de forma efetiva para o desenvolvimento do coletivo, e de
forma coletiva se torna mais fácil enfrentar os desafios.
Esta atividade fornece aos educandos instrumentos para que
possam ver as informações e elaborar pensamento e ações de
forma critica. Sendo
assim, ele percebe a sua
capacidade de intervir
conscientemente em sua
realidade a fim de
transformá-la. “Quem
disse que um dia
conversaria como eu
converso hoje, a gente
coloca as idéias para
fora, agente desabafa”,
explica João Guedes.
Os textos produzidos pela turma, que
muitas vezes ultrapassam
Educandos participam de oficina de
o ambiente escolar (são
literatura
publicados em jornais,
boletins expostos em murais e lidos em algumas atividades das
quais a escola participa), fazem com que se eleve a auto-estima
dos educandos e eles passam a perceber que o universo da leitura
e da escrita faz parte de suas vidas.
Estudantes da FaE/UEMG realizam estágio na EPOMG
Durante uma semana, estudantes do curso de Pedagogia da
UEMG, trocaram experiências com os educadores e
educandos da Escola Popular “Orocílio Martins Gonçalves”.
O Boletim Novo tempo, publica um texto produzido pelos
estudantes onde eles trazem suas reflexões e impressões
sobre o período de estágio.
“Nós, alunos da FAE UEMG, estudantes de 2o período de
Pedagogia do noturno, escolhemos a EPOMG para fazer nosso
estágio de observação a respeito da identidade do pedagogo.
Realizamos o estágio no período de 24 a 31 de outubro. O foco
do estágio era conhecer mais de perto os campos onde o
profissional (no caso: o pedagogo) pode atuar e como ele intervêm
nesses espaços, nos quais a educação se processa.
Escolhemos a EPOMG por seu caráter diferenciado dentro
do âmbito educacional e ainda por utilizar uma metodologia nãoconvencional das instituições educativas, pois a Escola Popular
combina ensino e consciência política, conseguindo assim aliar a
teoria (ciência) ao cotidiano do trabalhador na construção de um
conhecimento que serve à transformação da vida do povo.
Outro aspecto importante a ressaltar é a maneira como a
autogestão democrática se faz na escola. Na EPOMG isso
funciona de verdade. Pudemos comprovar como ela acontece
quando presenciamos a um mutirão de limpeza, onde os próprios
alunos realizam esse trabalho. Enquanto o mutirão acontecia
outros companheiros adiantavam os preparativos para a feijoada
que aconteceria no sábado dia 29 de outubro.
Tivemos ainda a oportunidade de participar da “1a Feijoada
da Orocílio”, onde a comunidade escolar pôde se reunir num
ambiente agradável, que além de ser uma atividade de autogestão,
foi também um evento muito divertido.”
Boletim Novo Tempo - página 6
Impressões do estágio
“Uma escola revolucionária e diferente. Um exemplo de que quando há
força de vontade as coisas acontecem. Valeu EPOMG!!!” (Willian)
“Nestes dias em que tive o prazer de conviver com os companheiros
da EPOMG, tive a oportunidade de ver como funciona a educação
classista e democrática, baseadas no grande mestre
Makarenko”.(David)
“Gostei muito de ter feito estágio na Escola Popular, pois ela apresenta
um método diferenciado de outras EJA’S, foi uma experiência muito
interessante para mim, lá eu pude conviver como pessoas com
histórias de vida diversificadas.” (Mary)
“A realização do estágio na EPOMG foi para mim uma experiência
muito válida, que contribuirá muito para minha formação e prática,
enquanto pedagoga. As pessoas que compõe a escola foram
bastante acolhedoras e através do convívio com elas pude perceber
que a educação popular funciona na prática. Realmente, é uma
iniciativa que merece nossas palmas”.(Carla)
“O que mais me encantou, foi sentir nas palavras e nos gestos das pessoas
uma grande vontade de aprender, ensinar e participar mais ativamente das
questões sociais. Foi para mim uma experiência realmente enriquecedora.
Obrigada pelo carinho e pela atenção de todos.” (Lidiane)
”Acredito que a Escola Popular é uma prática educativa muito importante,
pois possui cunho político e pedagógico aliados em um mesmo ideal,
que é – promover a educação e a participação política de trabalhadores
dentro de um contexto social. O trabalho desenvolvido nesta escola é
uma resistência ao tipo de sistema escolar vigente. Parabenizo a todos
que de uma maneira ou de outra participam e contribuem para o sucesso
desta instituição, com a qual eu me identifico como profissional”.(Roseli)
História da luta do povo
310 anos da morte do herói do povo
A
Zumbi dos Palmares
escravidão de negros
africanos e seus descendentes nas Américas, que se
estendeu de meados do século XVI aos
fins do XIX, foi um dos episódios mais
opressivos da História da Humanidade.
Porém, em oposição a toda essa
crueldade que despovoou a África e
vitimou milhões de seus melhores
filhos, surgiu um modelo de resistência
admirável: os quilombos.
Na Angola pré-colonial, o mito
de arraiais militares e núcleos
habitacionais e comerciais abertos a
africanos de quaisquer etnias, já
desempenhavam um papel político e
econômico fundamental. Transplantada
para as Américas, a instituição
(chamada ‘cumbe’ ou ‘palanque’ na
América Hispânica) firmou sua
importância na resistência à
escravidão.
De todos os quilombos
americanos, sem dúvida o mais
importante foi a Confederação de
Palmares. Ela nasceu por volta de
1590, quando escravos de um engenho
pernambucano, depois de uma
rebelião sangrenta, refugiaram-se na serra
da Barriga, atual Alagoas, e lá criaram as
bases de um incômodo “Estado livre” em
pleno Brasil colonial.
Até a destruição de seu reduto
principal, em 1694 (cem anos depois),
Palmares foi, de fato, um verdadeiro Estado
autônomo encravado na capitania de
Pernambuco. No auge de sua produtiva
existência suas relações com as
comunidades vizinhas chegaram a ter
momentos de uma troca econômica rica e
organizada. E essa autonomia, abalando
a autoridade colonial, motivou uma
repressão jamais vista.
De 1596 a 1716, ano da
destruição de seu último reduto, os
palmarinos suportaram investidas de 66
expedições militares e atacaram 31
vezes. Em toda essa luta avulta a figura
de um importante líder: Zumbi. Grande
estrategista, Zumbi dos Palmares, morto
à traição em 20 de novembro de 1695,
aos 40 anos de idade, é hoje visto como
o maior líder da resistência antiescravista nas Américas.
Quilombo dos palmares:
organização e luta
Já na virada para o século XVII, o
número de escravos e libertos reunidos
em Palmares somava centenas de
quilombolas. Por necessidade de
sobrevivência eles muitas vezes
desciam para saltear os engenhos
vizinhos. Da desorganização inicial
seguiu-se uma estruturação do reduto.
Tanto que, por volta de 1630, Palmares
já teria cerca de três mil aquilombados,
desenvolvendo uma agricultura
avançada para os padrões locais e da
época, plantando cana de açúcar, milho,
feijão, mandioca, batata e legumes;
fabricando artefatos de palha, manteiga
e vinho; criando galinhas e porcos; e
desenvolvendo uma organizada
atividade metalúrgica, necessária à sua
subsistência e à sua defesa.
A chegada dos holandeses a
Pernambuco, em 1630, e as guerras
que essa presença motivou, facilitaram
a fuga de mais gente para Palmares.
Em conseqüência, o quilombo (agora
já uma confederação de aldeias) foi se
fortalecendo e se transformando em
uma real e perigosa ameaça ao poder
colonial. Foi então que a repressão
tomou corpo.
Durante sua longa existência,
Palmares teve vários líderes. Mas a
História até agora conhecida reservou
para Zumbi o papel de protagonistas
principais dessa verdadeira epopéia. A
partir de 1680 a repressão a Palmares vai
se tornando cada vez mais cruel, com a
participação de milhares de soldados, de
milícias patrocinadas pelos senhores de
terras e até mesmo de combatentes
mercenários. Quinze anos depois, o líder
Zumbi - após dezessete anos de combate
em que se notabilizou como um dos maiores
generais da história da humanidade,
atraiçoado por um de seus comandados,
morre, durante a expedição repressora de
Domingos Jorge Velho.
Zumbi Vive!
A experiência palmarina foi a maior
e mais longa contestação à ordem
escravista em todo o mundo e em todos os
tempos. Por extensão - e mesmo por ter sido
Palmares um reduto que abrigava negros,
índios e brancos pobres - a saga de Zumbi
é um rico episódio de luta contra o racismo.
Assim, o dia que marca o seu “ingresso na
História”, 20 de novembro, deve ser
considerado como uma data do povo,
celebrada como um dia de luta e de reflexão.
Um dia para confirmar a justeza da
resistência popular.
Boletim Novo Tempo - página 7
Cultura Popular
Bertold Brecth
teatro e poesia para transformar o mundo
Quem foi Bertold Brecth
“...Não precisamos só do remendo,
Brecht nasceu em Augsburg, na Alemanha, no
precisamos o casaco inteiro.
ano de 1898, período auge do capitalismo em seu
Não precisamos de pedaços de pão,
país.
precisamos de pão verdadeiro.
Ele viveu os maiores acontecimentos do
Não precisamos só do emprego,
século XX: a primeira e a segunda guerra mundial,
toda a fábrica precisamos.
a Revolução Bolchevique e o holocausto em sua
E mais o carvão.
própria terra natal. Dedicou toda a sua obra à luta
E mais as minas.
contra o capitalismo, o fascismo, a opressão
O povo no poder.
nacional e para isso buscou respostas em Marx e
É disso que precisamos.
Engels.
Que tem vocês
A revolta contra a exploração do homem pelo
a nos dar?”
homem: eis a matéria-prima de seu espírito, de sua
mente, de sua arte. Brecth foi um artista que
(parte final do poema
procurou refletir na sua poesia e no seu teatro as
Canção do casaco e do remedo)
causas concretas das dificuldades da vida e da
inclemência dos tempos. É no compromisso com
a transformação da dura realidade social de seu
tempo, que se encontra a chave para compreender
não só o teatro de Brecht como também o sentido
e a razão de sua atividade poética.
boa repercussão entre o público, como Mãe, Os Fuzis da Senhora
Carrar, Galileu Galilei, Terror e Misérias do III Reich, A Ópera dos
A busca por um mundo diferente do que vivia fez com que
Três Vinténs, Santa Joana dos Matadouros e outras.
Brecht definisse seu lado na vida: o lado dos oprimidos e explorados.
O teatro Brechtiano
A atualidade de Brecth
Segundo Brecth, o espectador deverá distanciar-se do
espetáculo para melhor compreendê-lo e, assim, deixar de ser
espectador para tornar-se um sujeito ativo na transformação do
mundo. Também na poesia há algo de inovador e revolucionário: a
não preocupação com a rima.
Brecht queria que os homens refletissem sobre suas condições
de vida. Por isso, para ele, não é o espectador quem deve ter os
olhos postos no espetáculo, é o espetáculo que tem os olhos postos
no espectador. Não é só o espetáculo que leva a tragédia aos
homens, são os homens que levam a tragédia ao espetáculo.
A luta contra o capitalismo e suas mazelas foram temas de
suas peças. A maioria delas foi encenada aqui no Brasil e teve uma
Brecht falava do ser humano do futuro, ele acreditava que um
outro mundo era possível. Por isso, colocou toda a sua arte a serviço
da construção desse outro mundo. Acredita-se que ele gostaria que
os seus poemas fossem envelhecendo e saindo de cena à medida
que “o seu futuro” chegasse.
Brecth, artista singular de seu tempo e do nosso tempo, pode
atualmente com seus poemas e peças suscitar entre os trabalhadores
uma reflexão sobre a realidade vivida pelos mesmos.
Nas escolas populares espalhadas pelo Brasil, a arte de Brecth
deve estar presente no cotidiano escolar, ao nosso ver,
potencializando a luta daqueles que ele há quase um século se colocou
ao lado: os homens e mulheres das classes exploradas e oprimidas.
O teatro dialético
A peça, Um Homem é um Homem,
teve sua estréia na Alemanha em 1926. Sob
a influência do materialismo dialético, a peça
tem o objetivo claro de mostrar que o homem
se modifica, tanto no sentido de sua
desintegração pela sociedade burguesa
quanto no sentido de que ele pode se
transformar e transformar o mundo.
Ela contém elementos do teatro épico,
que será depois uma constante no trabalho
do dramaturgo. É uma estória em que os
personagens interrompem a ação e se
dirigem diretamente à platéia, comentando
ou ironizando um fato. A linguagem é didática
e direta. As músicas se relacionam com o
Boletim Novo Tempo - página 8
texto ajudando a narrar a história.
Em contraposição à forma lírica e à forma
dramática, a épica relaciona-se com tudo o que
seja amplo, exterior, objetivo. Para Brecht, que
trabalha com o método marxista, o personagem
é objeto de forças sociais e econômicas, não
é um sujeito absoluto, mas sim, concreto e
determinado por sua situação social e
econômica.
É isso que o trabalho de Brecth procura
deixar claro. Importantes dramaturgos
brasileiros, como Augusto Boal classifica o
teatro do dramaturgo alemão como teatro
dialético, abrindo espaço para produções de
espetáculos nessa linha a partir da década de
1950 no país.
Montagem de “Um Homem é Homem”, peça
escrita por Brecth
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