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Caderno Virtual de Turismo
ISSN: 1677-6976
Vol. 4, N° 3 (2004)
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Impactos Sócio-Culturais do Turismo sobre as
Comunidades Receptoras: Uma Análise
Conceitual
Ewerthon Veloso Pires*
Resumo
É fato notável, que o turismo, é uma atividade econômica que mobiliza grandes fluxos em
todo o mundo e, que por sua vez, gera altíssimos índices de trocas comerciais e negócios
entre as regiões de emissão e recepção de turistas. Tão relevante quanto o aspecto
Impactos Sócio-Culturais do Turismo sobre as Comunidades Receptoras: Uma Análise Conceitual
dimensões que tratamos nesse artigo.
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LTDS
Laboratório de Tecnologia e
Desenvolvimento Social
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Ewerthon Veloso Pires
econômico da atividade turística, é a dimensão social e cultural que o abriga. É sobre essas
ISSN: 1677-6976
Vol. 4, N° 3 (2004)
Introdução
para os que trabalham na indústria
do turismo tanto quanto para as
pessoas que querem ser turistas;
fluxos em todo o mundo e, que por sua vez,
Equivalência de parceria, isto é, os
turistas tratando os que o servem
como parceiros iguais e não como
subalternos.
gera altíssimos índices de trocas comerciais e
Por essa dimensão do Turismo a que se
É fato notável, que o turismo, é uma
atividade econômica que mobiliza grandes
negócios entre as regiões de emissão e
refere
recepção
como
atualidade, entre os estudiosos, uma
conseqüência mais visível a movimentação
discussão sobre o ponto de vista dos
de
mercado
impactos do Turismo no universo cultural das
internacional. Sendo, por essa razão,
comunidades receptoras. Principalmente a
considerado um dos maiores setores
respeito do seu caráter negativo para as
produtivos da economia global.
comunidades locais, na manifestação de
cifras
de
turistas.
astronômicas
Tendo
no
Tão relevante quanto o aspecto
econômico da atividade turística, é a
dimensão social e cultural que o abriga. O
Turismo é um fenômeno de aproximação ou
do afastamento das pessoas. Através do
contato que promove entre as diferentes
culturas, uma vez que coloca ao mesmo
tempo em um espaço temporariamente
compartilhado a pluralidade cultural da
humanidade. Apesar dessa dimensão
historicamente
não
ter
merecido
a
adequada atenção dos estudiosos do
Turismo, que preferiram se ater aos aspectos
puramente econômicos, o encarando,
simplesmente,
como
uma
atividade
produtiva de um mercado promissor.
Sobre essa dimensão sócio-cultural do
* Bacharel em Turismo pela Escola Superior de
Turismo da PUC-MINAS, especialista em
Turismo, Políticas Públicas e Desenvolvimento
Local pela PUC-MINAS, professor no curso
superior de Turismo da Universidade Federal de
Ouro Preto - UFOP e consultor do Sebrae - MG.
1A comunidade autóctone, portanto, pode ser
definida como aquele coletivo humano que
recebe uma dupla corrente migratória: a
turística e laboral; influi sobre ambas e se
afetado por elas. BENI, Mario Carlos. Análise
estrutural do turismo / Mario Carlos Beni. - 6º
ed. Atual. - São Paulo: Editora SENAC, 2001.
Ética, em outras palavras, a indústria
do turismo agindo com honestidade
em relação ao turista e sendo ética
na forma de lidar com os seus
fornecedores e, igualmente, os
governos destas localidades sendo
éticos em relação a sua população
local e aos turistas;
Turismo, Swarbrooke (2000), assim a defende,
na sua forma ideal de ocorrência:
Swarbrooke,
ganha
eco
na
suas tradições culturais, no efeito sobre os seus
valores e comportamentos sociais; e,
portanto, no reflexo sobre a identidade das
comunidades autóctones1 impactadas pela
atividade. Em contra ponto, também
emerge o discurso de que o Turismo pode
contribuir, consideravelmente, para a
valorização social das comunidades e de
seus hábitos culturais, trazendo para o
autóctone também efeitos e impactos
positivos. Especialmente no que concerne a
sua capacidade de sustentação de uma
comunidade turística, mantendo em seus
ofícios tradicionais a população dessas
regiões.
Um dos fatores que contribuem para a
eleição de uma visão estritamente pessimista
e negativa sobre o Turismo é que, quando,
especialmente o Turismo Internacional; tem
importância econômica para um país ou
Eqüidade, assegurando que todos os
que investem no turismo sejam
tratados de forma justa;
região, esse se torna um poderoso elemento
modificador
da
estrutura
social
da
comunidade receptora. O que nem sempre
Equivalência de oportunidade, tanto
é bem visto por essa comunidade.
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Tem-se notado que os impactos
econômicos
do
turismo
são
freqüentemente observados em curto
prazo, ou até mesmo imediatamente.
Pode-se ver turistas chegando em
aeroportos e gastando dinheiro. Os
impactos sociais e culturais levam
mais tempo para aparecer e, como
mudanças qualitativas, podem ser
sutis e difíceis de mensurar. LICKORISH
e JENKINS (2000, p. 109).
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Tal fato se relaciona, especialmente, ao
e incorporado à cultura do local, do nativo;
contato entre autóctone e visitante em
que se percebe diante de uma série de
condições
pela
apelos consumistas, de necessidades e
globalização da economia que cada vez
hábitos até então não experimentados e
mais pontua o universo do desenvolvido e
proporcionados pela realidade local. É uma
do subdesenvolvido, do central e do
nova lógica de consumo sendo atribuída ao
periférico.
impostas
da
seu universo cultural. Fato que reflete
globalização ou globalizada (do visitante)
diretamente na modificação da percepção
que se dá pela não aceitação da cultura
do autóctone sobre o seu universo sócio-
local (do visitado). Acentuando-se, assim, as
cultural. Uma nova atribuição de uso e de
desigualdades não só econômicas, mas
valor é impressa ao seu fazer cultural. O que
sócio-culturais existentes entre regiões distintas
o transforma restritivamente, grande parte
do planeta, representadas pela relação
das vezes, em um produto cultural.
Afirmando
a
cultura
CA
turistas e comunidade receptora.
Paralelo a isso, uma reação do
O turista, quando chega na região de
autóctone é ensaiada. E, essa, pode se
destino, não se despe de sua referência
expressar de duas formas: como rejeição do
cultural para incorporar a referência
visitante por parte do autóctone e,
autóctone. Quando viaja, o turista leva
conseqüentemente
consigo
atividade turística na localidade, ou por uma
todos
os
seus
hábitos
e
2
Ocorre mais visivelmente quando a
população local copia o tipo de roupa do
visitante, seus padrões de comportamento,
seus gostos e valores. È a população local
passando a aspirar a realidade material e
cultural do visitante.
rejeição
autóctone
adoção
de destino, independente de qual seja a
comportamentais
destinação escolhida. Mesmo no caso do
decorrência de uma negação da sua
Turismo Cultural, onde o que suscita o
identidade. Essa última se caracteriza como
deslocamento do turista (a viagem) é o
sendo um 2efeito de demonstração social,
interesse pela cultura do outro.
onde, o nativo, aspira como suas referências
do
dos
da
comportamentos de consumo para a região
O que se percebe é que a influência
do
uma
padrões
visitante
em
o padrão cultural do visitante.
do visitante no visitado é muito maior que o
Nesse caso, um duplo problema se
contrário. Principalmente em se tratando do
apresenta: a perda de identificação do
turismo internacional, que coloca em contato
visitado com o seu universo cultural, frente a
pessoas
de
uma absorção fragmentada e ilusória da
economias centrais com populações de
cultura do visitante que passa a predominar
países de economia periférica. Em grande
no inconsciente coletivo da população do
parte dos casos, quando o visitante chega
destino turístico; e uma frustração do visitante,
a um local turístico - geralmente uma praia,
que buscava na experiência do local
uma região paradisíaca, ou uma cidade com
visitado
relevante acervo arquitetônico, dotado de
comportamental diferente da que ele está
excelente infra-estrutura e facilidades para
habituado.
provenientes
de
países
uma
realidade
cultural
e
atender ao gosto e ao costume do turista -
Entretanto, o contrário também pode
ele instala na destinação, os hábitos e
acontecer, e acontece, em alguns casos. O
padrões de consumo que traz, e, mais ainda,
Turismo pode se apresentar - aliado a outras
a relação que alimenta entre objeto de
ações setoriais - como uma solução para os
desejo e poder de satisfação desse desejo.
problemas econômicos de uma região,
Relação essa, alimentada puramente pelo
agindo, conseqüentemente, no sentimento
valor monetário ou de troca das coisas. O
de pertencimento do morador ao seu local
que muitas vezes é transplantado, imbuído
de vivência, fruto principalmente das
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opositoras,
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condições que esse o oferece para viver.
universo cultural das localidades turísticas e,
Muitas vezes, em uma região pobre, que não
conseqüentemente, na identidade cultural
oferece oportunidades de trabalho para a
dos moradores dessas comunidades, cabe
população jovem, pode-se gerar nessa, um
explicitar as razões que influenciam a
sentimento de revolta e de repúdio ao seu
experiência turística nos lugares a tomar
universo cultural. Nesse caso, o Turismo pode
rumos socialmente aceitáveis ou não. Sobre
ser um fator de minimização dessa condição
isso, Swarbrooke nos afirma que:
Há um grande número de fatores que
determinam se o resultado dos
impactos socioculturais será positivo ou
negativo num local específico, dentre
eles:
essa população uma nova oportunidade de
trabalho, de geração de renda, de
valorização do seu universo social e cultural,
de manutenção dos seus valores, e
principalmente, de seu sentimento de
pertencer a uma coletividade com a qual
* A força e a coerência da sociedade
e da cultura locais;
essa população se identifica.
* A natureza do turismo na localidade;
A respeito dessa dupla possibilidade de
* O grau de desenvolvimento social e
econômico da população local em
relação aos turistas;
impacto sobre a cultura e sobre a identidade
das comunidades autóctones, Lickorish e
Jenkins (2000, p. 108), afirmam:
* As medidas tomadas, s efor o caso,
pelo setor público para administrar o
turismo de modo a minimizar seus custos
socioculturais.
O turismo pode gerar custos sociais em
geral difíceis de estimar, mas que nem por
isso são menos importantes. Um exemplo é a
Ainda, segundo o mesmo autor, os mais
ameaça aos hábitos tradicionais de cada
país e, muitas vezes, de regiões específicas.
Entretanto, o turismo pode se tornar o
elemento que irá garantir a manutenção de
certas tradições originais que atraem os
relevantes problemas desse nível costumam
ocorrer nas destinações turísticas localizadas
em
países
subdesenvolvidos
ou
de
economia periférica, onde a maioria do fluxo
visitante é composto por estrangeiros e a
turistas.
presença do poder público é inexpressiva
Diante
do
até
então,
exposto,
ou desastrosa.
evidencia-se a dualidade do fenômeno
Turismo. Ressaltando-se que, a qualidade dos
impactos da atividade sobre a população
das regiões turísticas depende muito mais da
sociedade que o implanta, ou o recebe, que
do próprio Turismo, na sua condição de
oferecer aos núcleos receptores prejuízos ou
contribuições para o seu processo de
consolidação e afirmação da identidade
local. Recai sobre a comunidade receptora,
nesse
caso,
a
responsabilidade
de
3
Existe um efeito externo quando a atividade
de um agente econômico - consumo ou
produção - afeta a atividade de outro, sem
que o primeiro se veja obrigado pelas
instituições sociais a cobrir de uma maneira
ou de outra o custo de sua atividade. O
impacto da atividade do primeiro agente recai
sobre terceiros que não podem decidir sobre
sua produção, nem sobre sua intensidade.
OMT (2001)
estabelecer democrática e coletivamente
as bases nas quais a atividade turística em
Pois, na ânsia de garantir resultados
econômicos em curto prazo, mais sensíveis e
menos atrelados a uma necessidade de altos
investimentos, do que na implementação de
outras atividades econômicas; os governos
e também a iniciativa privada lançam mão
de todos os incentivos e publicidade para
induzirem e incrementar a atividade turística
nas regiões potenciais. Mesmo que isso
represente 3 custos sociais altos em longo
prazo, em decorrência da ausência de uma
preocupação com o devido planejamento
e controle da atividade, bem como de seus
seu território deve se assentar.
resultados sobre a comunidade.
Delimitado,
então,
o
caráter
dicotômico do turismo na sua relação com o
O primeiro ponto que se negligencia,
nesse caso, é o fato de que o Turismo é um
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desfavorável, uma vez que apresenta para
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fenômeno de apropriação e que, o
para o Turismo. E ainda, que não sejam
ambiente onde ele se instala ou do qual se
meramente precificados pelo mercado de
apropria, deve ser preparado para recebe-
viagens e turismo e, friamente, transformados
la. Pois, não se trata somente da estrutura
em produtos culturais submetidos aos desejos
física, paisagística e edificada de uma
e demandas de quem pode pagar pela
localidade turística, mas também da sua
aquisição do produto cultural: o turista.
estrutura cultural, social e ideológica.
Uma vez que essa estrutura pode
BARRETO, Margarita. Manual de iniciação ao
constituir o atrativo turístico por excelência
estudo do turismo / Margarita Barreto - 2º
da localidade, então, o primeiro passo seria
ed. - Campinas, SP: PAPIRUS, 1997
saber se a população autóctone deseja
(Coleção Turismo)
oferece-la para servir também ao Turismo. E,
BARRETO, Margarita. Turismo e legado
mais ainda, prepará-la e muni-la de
cultural / Margarita Barreto - 4º ed. -
condições para que ela (população
Campinas, SP: PAPIRUS, 2000. (Coleção
autóctone) defina, direcione e operacionalize
Turismo)
esse processo, determinando as bases nas
BENI, Mario Carlos. Analise estrutural do turismo
quais deve se assentar o desenvolvimento
/ Mario Carlos Beni. - 6º ed. atual. - São
do Turismo. Inserindo-se como ator desde o
Paulo: Editora SENAC São Paulo,2001.
início de tal processo e, não somente como
JENKINS, Carson L e LICKORISH, Leonard J.
objeto de curiosidade e atração do turista.
Isso se justifica, pois, só com uma
Introdução ao turismo - Rio de Janeiro:
CAMPUS, 2000
participação local ativa, no processo
SWARBROOKE, John. Turismo sustentável:
turístico, e na eleição e organização desse, é
conceitos e impactos ambientais, vol. 1 /
que se pode garantir que os custos sociais
John Swarbrooke: (tradução Margarete
da atividade turística nas comunidades
Dias Pulido). - São Paulo: ALEPH, 2000.
a
RODRIGUES, Adyr Balastreri. Turismo e
manifestação cultural das populações das
desenvolvimento local / Adyr Balastreri
áreas receptoras, seus hábitos, crenças,
Rodrigues, organizadora. - 3º ed. - São
rituais, valores e visão de mundo não sejam
Paulo: HUCITEC, 2002.
locais
sejam
minimizados.
E,
que
manipulados, usurpados e alienados pelo e
18
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REFERENCIAS BIBLIOGRAFICAS
Portanto, sua identidade cultural e social.
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