GRUPO DE ESTUDOS: TRANSFERÊNCIA:- HISTÓRIAS DE (DES)AMOR
SUELI SOUZA DOS SANTOS
2º Encontro- 17 de agosto 2015
Sobre o Banquete, sobre o amor
O Banquete, ou Simpósio (em grego antigo: Συμπόσιον; Tò sumpósion) foi escrito em
torno de 380 a.C. por Platão. O encontro tem lugar na casa de Agatão, poeta trágico
ateniense, que reuniu um grupo de notávies para festejar seu sucesso, pois no dia
anterior, vencera um concurso. O Banquete constitui-se basicamente de uma série de
discursos sobre a natureza e as qualidades do amor (Eros).
Entre os convidados estão: Aristodemo, amigo dsicípulo e amante de Sócrates; Fedro,
o jovem retórico; Pausâmias, amante de Agatão; o médico Eriximaco; Aristófanes,
comediante que costuma ridicularizar Sócrates e o político Alcibíades, apaixonado por
Sócrates. Seguindo a visão platônica, o amor não pode ser pensado como absoluto, mas
na relação entre quem ama e aquele que é amado, em suas implicações com a sabedoria
e a ignorância.
Ao longo dos debates, vão sendo oferecidas visões e versões sobre o que é o amor, sua
natureza, suas possibilidades, fragilidades e principalemente, a verdade que se revela
através da impossiblidade de encontro com seu objeto, o que inspira muitos séculos
depois, em nossa Era, os estudos da psicanálise de Freud. Seguem algumas teses
levantadas sobre o tema do amor pelos participantes do Banquete. O quadro abaixo trás
as transcrições de alguns trechos do texto platônico, ressaltando apontamentos sobre
alguns dos temas que foram abordados no grupo de estudos.
FEDRO - O amor é um Deus
Sua característica seria a capacidade de tornar aquele que ama um virtuoso. Aquele que sente o
amor torna o amante virtuoso, bom, belo, justo, porque quando se apaixona se procura dar o
melhor de si ao outro.
Então quando se ama buscamos fazer coisas boas e belas para atrair o amado. “Assim pois
afirmo que o Amor é dos deuses o mais antigo, o mais honrado e o mais poderoso para a
aquisição da virtude e da felicidade entre os homens, tanto em sua vida como após sua morte.”
PAUSÂNEAS - amante de Agatão, inicia seu discurso discordando de Fedro, pois para ele o
amor não é um Deus, são dois Deuses, ou melhor, duas Deusas (Afrodites)
1ª Pandemia- que seria o amor físico, que é perecível.
2ª Urânea- o Amor intelectual, que é superior porque perdura.
Para Pausâneas há várias formas de amor, desejáveis e indesejáveis, quais sejam:
a- Amor entre jovens está preso ao corpo, não havendo experiências que possam fazê-los
virtuosos, sábios. Entre homens e mulheres é ainda mais precário pois as mulheres,
sendo seres inferiores, com pouco inteligência, não tem nada a oferecer aos homens que
possa fazê-los sábios.
b- O amor entre velhos, sábios, não oferece qualquer novidade que possa acrescentar
conhecimento entre eles, pois os dois são sábios.
c-
O amor ideal é entre homens, um sábio e um jovem. Esse é o amor belo, um sábio e
virtuoso e um jovem aprendiz e inteligente. Esse amor garante que as duas pessoas
serão virtuosas, e a sociedade é a mediadora dos amantes, dizendo se os amores são
adequados ou não. A aceitação dos amores diferem de sociedade para sociedade.
ERIXÍMACO - O mundo é feito de opostos.
Opostos harmonizados. Eros é a energia que atrai ordenadamente os opostos; a harmonia é a
moderação entre os opostos, o equilíbrio entre os opostos. Os excessos produzem desequilíbrio.
Para ele, o amor não está apenas nas almas dos homens, e para com os belos jovens, mas também
nas outras partes, e para com muito outros objetos; nos corpos de todos os puros animais, nas
plantas da terra e por assim dizer em todos os seres é o que creio ter constatado pela prática da
medicina; grande e admirável é o deus, e a tudo se estende ele, tanto na ordem das coisas
humanas como entre as divinas. A natureza dos corpos, com efeito, comporta esse duplo Amor;
o sadio e o mórbido são cada um reconhecidamente um estado diverso e dessemelhante, e o
dessemelhante deseja e ama o dessemelhante.
ARISTÓFANES – O mito do andrógeno.
Aristófanes começa seu discurso advertindo que sua forma de discursar será diferente. É preciso
conhecer a história da natureza humana. Havia inicialmente três gêneros de seres humanos, que
eram duplos de si mesmos: havia o gênero masculino masculino, o feminino feminino e o
masculino feminino, o qual era chamado de andrógino. Esses seres poderosos e voluntariosos
desafiaram o poder dos deuses, tentaram chegar a sua morada, subindo uns sobre os outros.
Os deuses ofendidos fazem com que Zeus os castigue. Mas como? Eliminados deixariam os
deuses sem ninguém que os reconhecessem como deuses, então é preciso enfraquecê-los. Zeus
resolve cortá-los ao meio, assim além de punilos, ainda aumentaria os seres para adimirá-los, e
caso seguissem desafiando os deuses, voltaria a parti-los fazendo com que saltitassem em uma só
perna.
Dividios ao meio, manda que Apolo junte as partes do corte, reunindo essas pregas em um único
ponto que resultou no que chamamos de umbigo. Depois, Apolo deveria alizar as pregas
mantendo as características das marcas anteriores, voltando o rosto para frente a fim de que
pudessem ver a cicatriz de sua punição. Assim cortados, os seres passaram a procurar sua parte
perdida. Mas quando se encontravam ficavam tão grudado que definhavam e aquele que
sobrevivia buscava outra metade indefinidamente.
Por compaixão pelo sofriment que provocara aos humamos, Zeus manda Apolo colocar o sexo
para frente dos corpos, assim poderiam as metades buscar o reencontro com sua outras metade e
poderiam se reproduzirem, pois antes fecundavam na terra. Aqueles que foram cortados e eram
andrógino, ou seja homens ou mulheres, procuram o seu contrário. Isto explica o amor
heterossexual. E aquelas que foram o corte da mulher, o mesmo ocorrendo com aqueles que são
o corte do masculino, procurarão se unir ao seu igual. Aqui Aristófanes apresenta uma
explicação para o amor homossexual feminino e masculino.
Por isso, ao encontrar sua metade, os humanos sentem as mais extraordinárias sensações,
intimidade e amor, a ponto de não quererem mais se separar, e sentem-se a vontade de se
"fundirem" novamente num só. O amor para Aristófanes é, portanto, o desejo de encontro com a
metade perdida por causa da nossa injustiça contra os deuses.
AGATÃO - O último a elogiar o amor foi Agatão, o anfitrião do banquete.
Ao contrário dos que o precederam, Agatão não se propõe enaltecer os benefícios que Eros faz
ao homem, mas resolve cantar o próprio deus e a sua essência, buscando muitas referências e
citações. Procura descrever os dotes do amor. Após uma longa lista de virtudes atribuídas a Eros,
nota-se o quanto o poeta se distancia de sua proposta inicial e de seu preceito metodológico.
De forma eloquente ressalta os atributos de eros, que é belo, o mais jovem e delicado, o mais
feliz dos deuses e foge da velhice. O amor habita as almas de deuses e de homens e se afasta dos
que são rudes. O amor não comete injusticas nem contra deuses nem contra homens. É
temperança, por isso o amor busca o semelhante, ou melhor, o semelhante ao semelhante busca.
Se o amor é belo, o belo busca a beleza, então o amor atrai a beleza, daí a identificação entre o
amante e o amado porque são parecidos. Terminado seu discurso todos o aplaudiram
entusiasmados, pois Agatão falou a altura de do seu talento e da dignidade do deus.
SÓCRATES - De forma irônica, inicia elogiando Agatão, dizendo que não teria o que dizer
sobre o amor depois desse discurso tão eloqüente e sábio. Diz Sócrates que pensava que o
importante era a verdade, mas o que importa, segundo Agatão era o belo.
Sócrates faz algumas perguntas à Agatão a respeito de seu discurso sobre o amor e vai
desconstruindo suas certezas sobre sua natureza.
Ele interroga: O amor é de algo ou de nada?
Será que o amor, aquilo de que é amor, ele deseja ou não?
E é quando tem isso mesmo que deseja e ama, ou quando não tem?
Finalmente chega a hora de Sócrates discursar, e ele fala que, sendo o Amor, amor de algo, esse
algo é por ele certamente desejado. Mas este objeto do amor só pode ser desejado quando lhe
falta e não quando o possui, pois ninguém deseja aquilo de que não precisa mais.
Platão ressalta, na fala de Sócrates, seu entendimento sobre o conceito de amor, evidenciando
que se ama é aquilo que não se tem. E se alguém ama a si mesmo,
ama algo imaginário, não o que não é. O amor então é falta, carencia. O objeto do amor sempre
está ausente, mas sempre é solicitado. No entanto é algo que é inapreensível. Está sempre mais
além, impossível de ser atingido, se nos escapa entre os dedos. Essa inquietação na origem de
uma procura, visando uma paixão ou um saber; o amor não é um deus, mas um filósofo. Sendo o
Amor, amor daquilo que falta, forçosamente não é belo nem bom, visto que necessariamente o
Amor é amor do belo e do bom; é o amor de conseguir ter sempre o bem. Ou seja, daquilo que
lhe falta.
DIOTIMA
No mesmo diálogo, Platão ainda fala sobre a origem de Eros (através do mito narrado por
Diotima de Mantineia a Sócrates). Dessa forma Sócrates, na escrita de Platão, coloca na mulher
um poder de sabedoria e inteligência, em contra posião ao discurso de Pausâneas, segundo o
qual, a mulher não pode acrescentar nada ao homem pois é um ser inferior.
Diotíma ensina que: Eros teria a natureza da falta justamente por ser filho de Recurso e Pobreza.
Primeiramente ele é sempre pobre, e longe está de ser delicado e belo, mas é duro, seco, descalço
e sem lar, sempre por terra e sem forro, deitando-se ao desabrigo, às portas e nos caminhos,
porque tem a natureza da mãe, sempre convivendo com a precisão. Segundo o pai, prorém, ele é
insidioso com o que é belo e bom, e corajoso, decidido e enérgico, caçador terrível, sempre a
tecer maquinações, ávido de sabedoria e cheio de recursoso, a filosofar por toda a vida; terrível
mago, feiticeiro, sofista; e nem imortal é a sua natureza nem mortal, e no mesmo dia ora ele
germina e vive, quando enriquece, ora morre e de novo ressuscita, graças à natureza do pai. E o
que consegue sempre lhe escapa, de modo que nem empobrece o Amor nem enriquece, assim
como também está no meio da sabedoria e da ignorância.
Didotima fala ainda sobre a finitude e a imortalidade. Segundo ela, não só o corpo com o passar
do tempo sofre alterações, se renovando e perdendo alguma coisa. A alma também em seus
modos, os costumes, as opiniões, desejos, prazeres, aflições, temores, cada um desses afetos
jamais permanece o mesmo em cada um de nós, mas uns nascem, outros morrem... É desse modo
que tudo que é mortal se conserva, e não pelo fato de absolutamente ser sempre o mesmo, como
o que é divino, mas pelo fato de deixar o que parte e envelhece um outo ser novo, tal qual ele
mesmo era... Segundo ela, por uma virtude imortal e por tal renome e glória que todos tudo
fazem, e quanto melhores tanto mais. Pois é o imortal que eles amam.
ALCIBÍADES – Seu discurso é detrator de Sócrates, denuncia não ter conseguido o amor que
esperava de Sócrates que o desprezou, ou pelo menos, não correspondeu a seu assédio.
Alcibíades diz: “Julgando, porém que ele estava interessado em minha beleza, considerei um
achado e um maravilhoso lance de fortuna, como se me estivesse ao alcance, depois de aquiescer
a Sócrates, ouvir tudo o que ele sabia; o que, com efeito, eu presumi da beleza de minha
juventude era extraordinário!
A queixa de desamor por Alcibíades é desmascarada por Sócrates, pois a encenação procura criar
uma intriga separando Agatão de Sócrates, por acreditar haver um amor entre os dois.
Esses resumidos elementos discursivos aqui apontados, apenas tem como objetivo
disparar uma discussão que se aprofundará ao longo do estudo do conceito de
transferência, na medida em que avançarmos nas leituras do Seminário Livro 8.
O texto do Banquete nos remete a algumas aproximações com relação ao estudo da
transferência, desde as ligações que são feitas nos discursos em análise, no cotidiano da
clínica, quando os enunciados vão sendo construídos como verdades vividas, sem
possibilidade de manter uma linha de tempo, posto que as memórias vêm de um lugar
atemporal. Além disso, não podemos garantir que são memórias do vivido, mas podem
ser falsas memórias, reminiscências, histórias ou mitos familiares que não tem
sustentação no real nem na realidade, mas construções imaginárias. Ou seja, presente e
passado se mesclam e atualizam histórias, quem sabe, vividas projetivamente em uma
tela, que como nos sonhos, não sabemos precisar a ordem, a sequência dos
acontecimentos e muito menos sua fidedignidade.
Histórias de amores e desejos impossíveis, embora qualquer maneira de amor esteja
sempre em risco de perda, falta, falha, considerando que o mito de completude
imaginária contado por Aristófanes, deixe claro que a completude é impossível, posto
que torna os humanos intemperantes, arrogantes, poderosos, aspirando o lugar de um
deus. Essa busca fusional, em um narcisismo primário, resulta em uma autofagia e
indiferenciação, como no mito do andrógeno que explica os amores homo e
heterossexuais. Evidencia que não há possibilidade de o humano se constituir sem
marca, sem trauma, sem perda. Aí está, no corpo, nossa marca de corte que inscreve a
impossibilidade da existência sem o rompimento fusional.
‘Umbigo’ ou castração, não importa como chamemos essa marca corpórea, é preciso
romper com o espelhamento da unidade, do somos Um, para que emerja um ser
singular. Os processos identificatórios com os objetos nos possibilitam uma
subjetivação, na medida em que são processos de reconhecimento da diferença. Apenas
a partir do narcisismo secundário, quando abrimos mão da fusão indissolúvel, podemos
ser um, e podemos carregar as marcas, agora sim, identificatórias dos objetos amorosos
e podemos amar um outro. O texto de Platão nos catapulta para os conceitos de relação
de objeto, narcisismo, identificação, castração, frustração, privação, transferência, amor,
desejo, prazer, falo que alimentaram a construção da psicanálise. Temas que tanto Freud
como Lacan trabalharam brilhantemente, bebendo na filosofia. Resta-nos honrá-los e
tentar seguir ‘humanamente’ suas pegadas.
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