ENTRE VERSOS, ENTRE CRUZ, ENTRE SOUZA... Por: Sandro de Santa Ferreira Mestrando em Educação, Contextos Contemporâneos e Demandas Populares pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. Orientador: Carlos Roberto de Carvalho Ah! Toda a Alma num cárcere anda presa, soluçando nas trevas, entre as grades do calabouço olhando imensidades, mares, estrelas, tardes, natureza. Cruz e Sousa Neste começo de começos, começo com os versos do poeta a quem tomaremos como porta de passagem no tempo que em nossa frente se abre ou se escancara para discutirmos as questões da educação em geral e a formação de intelectuais negros. Todavia, quero antes, sem ir diretamente ao “pote”, ouvir o seu apelo e ao ouvilo, pensar com pesar, mesmo que por entre grades, prisioneiros, sobre questão do legado de um intelectual negro. Quero ver-compreender na/pela escritura dele, o mundo que ele caminhou e enxergou das trevas de seu calabouço - angústia de sua existência. Mundo que apesar dos pesares ele conseguiu perceber - prova-nos com seus versos - vestido de igual grandeza. tudo se veste de uma igual grandeza quando a alma entre grilhões as liberdades sonha e, sonhando, as imortalidades rasga no etéreo o espaço da pureza.(Souza,2014) Quero antes impregnar-me de suas palavras para, quiçá, com elas, desvendarlhes os assombrosos e infaustos acontecimentos da vida. Vida de homem negro. Homem que mesmo preso entre os grilhões das determinações econômicas, históricas e sociais, sonhou com a liberdade e a sonhando se imortaliza na sua lírica simbolista. E, neste sentido, ele ainda vive entre nós, a espera de sua festa de ressurreição. A espera de sua completa liberdade tão sonhada. Sonho dele, sonho meu, sonho de todo aquele que sofre ou sofreu: sonho de igualdade, sonho de liberdade e de fraternidade. Sonho de todos de cada um de nós, poetas cotidianos, poetas vulgares. Cruz e Souza, embora morto, permanece entre nós. Não vivo como antes, mas como uma voz do passado que nos convida ao sonho da liberdade, da igualdade e da fraternidade. Uma voz que nos convida a outro mundo possível; que mesmo presos entre grades e soluços, tal qual ele, somos capazes de contemplar as imensidades dos mares, das estrelas, das tardes, sonhar e lutar. Cruz e Souza permanece vivo na vida da literatura, na literatura da vida, nas páginas dos livros, na boca do povo, lugar e morada definitiva de todo poeta, seu berço seu túmulo. Permanece vivo em nossa cultura como um exemplo raro de um homem que conseguiu escapar as inexoráveis indeterminações sociais e econômicas; que conseguiu escapar aos destinos previamente traçados. Destinos em que muitos acabaram por sucumbir e que muitos ainda sucumbem e, não por acaso, sucumbem a maioria de mulheres e homens que nasceram negros. É esta vida singular, irrepetível e única que aqui nos impele a tecer diálogos entre sua arte e sua vida para pensarmos sobre a educação e formação de um intelectual negro no interior de uma sociedade racista, mas que finge não ser. Antes, mente para si mesma, desperdiçando, como nos afirmaria Boaventura (), na medida em que se desconsidera, se inviabiliza ou se invibiliza a cultura e experiência histórica e social do legado de negras e negros, visto que estes não se inserem na grande narrativa ontológica e universal do progresso. Todavia, ao tomarmos a decisão de examinar a vida desse homem, não queremos torná-lo exemplo cabal único, definitivo, de como um homem negro poderia se educar em uma sociedade racista. Ele é apenas um homem a quem, profundamente, admiramos e queremos fazer circular suas palavras, assim fazendo um sentido possível da presença dx negrx em nossa existência. Conforme Fanon (2008) todo homem negro, não importa quem seja e quais sejam suas condições materiais e intelectuais, nas sociedades racistas, todos xs negrxs são iguais, todos xs negrxs são negrxs e, portanto, todo homem negro será sempre visto como um homem negro, um ser exótico e inferior, inassimiláveis. “A ontologia, quando se admitir de uma vez por todas que ela deixa de lado a existência, não nos permite compreender o ser do negro. Pois o negro não tem mais de ser negro, mas sê-lo diante do branco. (...)os pretos tiveram de situar diante de dois sistemas. Sua metafísica ou, menos pretensiosamente, seus costumes e instâncias de referência foram abolidos porque estavam em contradição com uma civilização que não conheciam e que lhes foi imposta. (...) Um peso inusitados nos oprimiu [xs negrxs]. O mundo verdadeiro invadia o nosso pedaço. No mundo branco o homem de cor encontra dificuldades na elaboração de seu esquema corporal. O conhecimento do corpo é unicamente uma atividade de negação.” (FANON, pp. 104, 2008) É esta condição de subalternidade e de inferioridade que Cruz e Souza, apesar de grande poeta, enfrentou por toda sua vida, mas que apesar disto não o impediu de se tornar um intelectual de grande estirpe. Por isso estamos convencidos que sua vida exemplar é, portanto, capaz de nos fazer ver que: Ao proporcionar às devidas condições para o seu desenvolvimento intelectual é, qualquer ser, é capaz de participar de todas as esferas da criação ideológicas. O branco e negro são aquilo que lhes é dado pelas possibilidades/potenciais de suas condições. É ele, assim, para nós, um exemplo concreto e evidente sobre a pertinência e a necessidade urgente e premente da implantação de um currículo escolar que nos eduque e nos prepare para cultivar o respeito indispensável a todos independente de sua cor, raça, etnia, religião e etc. Daí o nosso interesse por ele. Interesse que não é apenas literário, mas também político, qual seja: contribuir para uma educação que seja antirracista e que acolha a todos, cumprindo, assim, os objetivos fundamentais expressos no terceiro artigo, item IV de nossa Constituição Federal, qual seja: “promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação” (Constituição, 1988). Segundo nosso ponto de vista, nenhuma pessoa, pode ser tomada como principio de explicação para a vida de outro. Cada individuo só pode viver a sua própria vida na sua singularidade e, como tal como um acontecimento único. [...] no mundo da vivencia única, que cada um se encontra quando conhece,pensa, atua e decide; é daqui que participa do mundo em que a vida é transformada em objeto e situa sua identidade sexual, étnica, nacional, profissional, de status social, em um setor determinado do trabalho, da cultura, da geografia política, etc. (BAKHTIN, 2010, p. 21). Em nosso ponto de vista Cruz e Souza foi antes de tudo mais, um homem que soube conduzir a sua vida, assumindo-a inteiramente sob a ótica de sua estrita e intransferível responsabilidade, que soube aproveitar das oportunidades de educação que lhes foi proporcionada. No contato com esta ilustre personagem que vemos uma oportuna ocasião para pensarmos os fenômenos da educação, não só para xs negrxs, mas para todas mulheres e homens sejam estes negrxs ou não. É neste lugar; entre poesia e biografia que esperamos, com nosso trabalho de reflexão e pesquisa contribuir para o desenvolvimento de uma educação antirracista, para uma educação que seja dada e oferecida sem restrição a todos os homens e mulheres, independentes de sua raça, cor, gênero, ideologia política, posição social, religião. Nesse sentido, frente ao assombroso de que todo ser é para outro, seu semelhante, espelho que lhe dá o acabamento (Bakhtin), me pergunto, fazendo minhas, as palavras alheias, tornando minha, a pergunta que a pena do poeta verseja. Eis o que ele nos pergunta, eis também o que vos pergunto me perguntando assombrado em seus versos: Nesses silêncios solitários, graves, que chaveiro do Céu possui as chaves para abrir-vos as portas do Mistério?! (SOUZA, 2014) Resposta que, por enquanto, de nossa parte não temos e tememos jamais ter. Por enquanto ficaremos com a pergunta e com a responsabilidade de respondê-la. Por enquanto vale a busca, vale a luta dessa procura, desse desvendar-se. Valerá a pena? - me pergunto. Por certo que sim, me respondo com as palavras de outro poeta: “Tudo vale a pena se alma não é pequena” (PESSOA, 1998, pp. 48). Vale saber, sobretudo, o porquê do por que por quem se luta. Vale o compromisso e a responsabilidade que todo mundo, enquanto homem enquanto cidadão deve primeiro a si mesmo e depois aos outros. Vale o ato solidário e responsável com a vida de nossos semelhantes. O compromisso que aqui se reafirma é o mesmo pretendido e desejado por Said (2005, pp. 43) sobre a ética que deveria ter todo e qualquer intelectual: o de se aliar a todos aqueles que sofrem e padecem as injustiças e as desumanidades do mundo. Mundo que para muitas mulheres e homens tem sido um verdadeiro vale de lágrimas, um mundo sem portas e sem chaves, sem caminhos para a fraternidade, a liberdade e a igualdade. É preciso encontrar as chaves para abrir essas portas. Coisas essas que o racismo e os preconceitos destroem sistemática e cotidianamente em todo mundo. Mundo cujo tempo é, no dizer de outro poeta1, de absoluta depuração porque Deus pereceu, o amor se tornou inútil, olhos e coração secaram e as mãos tecem apenas seu rude trabalho. Mundo, enfim, que as guerras, as fomes, as discussões provam apenas que a vida prossegue, mas que, no entanto, nem todos se libertaram 1 Fazemos aqui um paráfrase do poema Os ombros suportam o mundo (Poema da obra Sentimento do mundo), de Carlos Drummond de Andrade ainda. Todavia, adverte-nos o poeta, e tempo que não adianta sequer querer morrer, pois este é um tempo sem mistificações, é um tempo que a vida é uma ordem. Coisas essas que embora não tenha sofrido diretamente em minha carne, são também da minha inteira responsabilidade, pois nada que acontece a outro ser pode me ser indiferente. É este também o nosso compromisso e o sentido de nossa pesquisa lutar contra os preconceitos e a favor da liberdade, da fraternidade e da igualdade. Para isso lançaremos mãos da poesia de Cruz e Souza, e não tão somente da obra de sociólogos, psicólogos, antropólogos ou de quaisquer outros pesquisadores e estudiosos das ciências humanas ou sociais que, porventura, pudessem nos ensinar sobre as causas ou as origens dos preconceitos e do racismo. Nossa perspectiva não será esta: a de encontrar explicação para os fenômenos sociais dos preconceitos raciais, isto muitos antes de nós já o fizeram com bastante competência. Diferente de quaisquer perspectivas generalizantes, queremos mostrar os fenômenos do preconceito do racismo a partir de um ponto de vista particular e pela ótica e perspectiva de quem o sofreu em sua própria pele. Que fez de seu sofrimento matéria, forma e conteúdo. Fez da vida conteúdo de sua arte, fez da arte conteúdo da sua poesia e nisso entendermos uma potência/condição de ação responsável. Assim, a partir das palavras do poeta que reformulo a pergunta, a mesma, mas não exatamente: quem possui as chaves para abrir a porta trancada do racismo? A quem cabe procura-la? E esta chave que buscamos encontrar aqui ao longo de nosso estudo sobre o racismo tosco, grosseiro e rude que de muitas vidas tem ceifado os destinos ou impedido caminhos. Mas que muito apesar de tudo, pelo menos em parte, tem escapado. Cruz e Souza foi um destes negros retintos de cujos destinos traçados e desgraçados, rompeu as barreiras da cor e da origem africana e humilde tornou-se grande dentre os grandes e apelidado como o Dante Negro, uma nobre comparação ao poeta italiano Dante Alighieri, il sommo poeta (o sumo poeta) da língua italiana. Em outras palavras: recorro aos versos do poeta, não para responder definitivamente e absolutamente alguma pergunta, antes para pensar como/onde e a partir de uma obra literária podemos repensar as questões do racismo e dos preconceitos, dando prosseguimento outras pesquisas que antes de nós se fizeram. E neste sentido o que aqui se promete não é algo que se enraíza em si mesmo, mas que participa de uma cadeia de outros discursos. Discursos de hoje e de outros tempos. Coisas essas que, por certo ele sofreu (já que nada que vive, vive no vazio e isolado de outros) e que esperamos encontrar, por certo, registrado em sua poética. Na obra de um poeta negro que viveu e morreu no século XIX. Um poeta negro que viveu, portanto, não em um tempo qualquer, mas em um tempo estruturada pela ideologia racial. Que viveu e morreu em um tempo triunfante da ciência eugenista que despudoradamente dividia a humanidade entre raças distintas entre homens inferiores e superiores. “Ciência” essa que hoje ninguém mais acredita, mas que, embora desacreditada, ressoa na ideologia dos discursos cotidianos do senso comum. Portanto, não basta dizer que a teoria era uma falsa teoria e preciso enfrentá-la em seus efeitos na sua encarnação nos discursos cotidianos. Em resumo, segundo Bourdieu (2004) Não basta romper com o senso comum vulgar, em com o senso comum douto na sua forma corrente; é preciso romper com os instrumentos de ruptura que anulam a própria experiência contra a qual eles se construíram (BOURDIEU, 2004, p.48) Sua obra, portanto, não será apenas tomada sob o ponto de vista estético apenas, mas também como um discurso entre a arte e a vida. Embora poético, mas também social e político. Versos que são tomados aqui por nós como respostas que o poeta produziu e procurando se dirigir aos homens e mulheres do seu tempo. Tempo esse que ainda não passou, mas que, ao contrário, ainda entre nós insiste e persiste. Assim como ele nos faz ver na primeira estrofe que aqui nos servimos como epigrafe e que o poeta nos lança como um apelo: a de que toda alma vive presa em cárcere e soluçando nas trevas, entre grades de um calabouço olhando imensidades, mares, estrelas, tardes, naturezas. E a resposta ao racismo e aos preconceitos que entre nós vigem que nossa pesquisa buscará perceber na poesia de Cruz e Sousa e, quiçá, compreender estas questões. Produzir uma resposta as mulheres e homens de nosso tempo, colocando em circulação, mais uma vez, as palavras do poeta. Seguimos assim os conselhos de Bakhtin (2010) que é no cotidiano que a obra de arte se renova recebe nova vida e novo sentido. E se nada mais fosse possível, só isto nos justificaria ou nos bastaria. Tudo vale o esforço do pensar, não vale como grandeza em si, vale a grandeza e nobreza do ato. Vale a nossa intenção, pois nada vale se não o fazemos com paixão. Todavia, já sei, desde o começo desse começo, que não é a nobreza do objeto, portanto, que fará desta ou de qualquer outra pesquisa algo importante, mas esse sentimento de pensá-lo com grandeza - e com toda nossa alma e com todo nosso envolvimento em direção a ele. No nosso caso, ele não é uma teoria, uma abstração nem tão pouco um objeto inanimado, estático, mas um sujeito dinâmico que existiu num determinado tempo, no século XIX num determinado espaço, em Nossa Senhora do Desterro (atual Florianópolis), um brasileiro, negro afrodescendente, filho de pais de origem africana. Um homem que nasceu negro, pobre e filho de escravos alforriados, mas que teve a sorte mudada por obra e graça do destino. Que teve a sorte de construir uma história bem diferente da de milhares de outros meninos negros que da pobreza inexoráveis destinos de milhares de negros - não escaparam e muitos ainda não escapam pelo simples fatos de terem nascidos pobres e negros. Diferente destes milhares de meninos negros entregues as desventuras da miséria material desde o nascimento, João da Cruz recebeu apoio material e, principalmente carinho, amor incondicional (coisa de que necessita qualquer pessoa seja ela, branca, negra ou etc.) de um casal sem filho: o Marechal Guilherme Xavier de Sousa e de sua esposa, dona Clarinda Fagundes Xavier de Souza, ex-senhores de seus pais alforriados, o senhor Guilherme da Cruz e de dona Carolina Eva da Conceição. Foi deste golpe de sorte, que o menino João da cruz teve acrescentado ao seu nome de batismo o sobrenome “e Souza”, nome de família de seus tutores, e passou a chamar-se João da Cruz e Souza, uma clara indicação que, embora adotado, era filho assumido, era membro daquela família. Da família Souza, doravante, sem deixar de ser Souza. Foi deste golpe de sorte, sorte que não teve milhares de outrxs meninxs negrxs que João da Cruz e Souza pode ter acesso a uma educação refinada. Estudou francês, latim, grego, matemática e ciências naturais. Foi deste golpe de sorte que Cruz e Souza deixou de ser apenas um menino negro entre tantxs meninxs negrxs (cujos destinos foram e são bem diferentes daquele que ele teve) para se tornar um dos maiores poetas de nossa literatura , um de nossos maiores intelectuais negrxs. Mas o pensamento não vale nada para, vale em si. O pensamento não faz nada além de pensar e por isso não tange o mundo, a não ser se corporificado em minhas/nossas palavra-alheias: em textos orais ou escritos, em obras. Duvido do pensamento: mas se tudo que existe, existe por causa de alguma coisa: para que serve - desculpe-me o pragmatismo- o existir do pensamento? Nas palavras de Martin Heidegger (Apud Arendt, 2012, p.17) ele serve apenas para abrir os olhos do espírito (o nous). Fora isso, o pensamento não traz conhecimento como as ciências, não produz sabedoria prática utilizável, não resolve os enigmas do universo tampouco nos dota diretamente com poder de agir. Na visão de Hannah Arendt (Idem), o pensamento visa apenas contemplação, e nele termina. O fim do pensamento é o próprio ato de pensar o pensamento. Em relação à ciência, a vida prática, aos enigmas do universo e ao agir humano, o pensamento não é instrumento para fabricar coisas mundanas, tangíveis. E neste sentido não tem nenhuma serventia. O pensamento é contemplação, não é atividade, mas passividade. Então a primeira coisa a fazer, no início e deixar que a coisa nos apareça; que a coisa nos encontre, para, então, nos encontrarmos implicados nela. E a partir deste núcleo do sujeito e o “objeto” que ambos passam existir um para o outro. Nem um nem outro existe antes. A gênese do objeto de pesquisa e a gênese do sujeito. Ambos só existem nessa relação. É ai que pensamos o começa de nossa pesquisa: na solidão do ato de pensar. No afastamento do mundo povoado de coisas. Deixar-nos no primeiro momento, e antes de tudo o mais, a procura... Não de algo, mas do vazio. Deixar-se vagar pelo vazio para que a coisa que não se procura nos encontre. Pensamos que é no cessar da dessa vontade de dominar/conhecer o objeto é que ele se nos apresentará deveras na sua inteireza, mas não em seu acabamento. Deste modo, a tarefa do pesquisador diante da aparência da coisa, não é outra: a de produzir o acabamento. Não o acabamento definitivo, mas só aquele que ele, o objeto, se revela ao pesquisador. É neste ponto exato que me encontro: em estado de vazio e ouvinte: em estado de pensamento para, assim, pensar a poética de Cruz e Souza. Deixar-me encontrar por ela nas palavras suas, minhas e alheias. Desta feita, não para resolver explicar os problemas do mundo, os enigmas do universo, antes, quiçá, tentar compreender, a partir de sua obra poética o mundo em que ele viveu (século XIX). Deixar que ela, a obra, onde se encontra o seu autor nos diga como o mundo lhe aparece. Obra talvez, esquecida em alguma estante de uma biblioteca ou livraria à espera de quem as abra, as leia. Releia e as renove, lhe dando nova vida. Assim como Bakhtin (2010) nos faz ver quando nos comenta sobre a ligação orgânica entre produções ideológicas e a ideologia do cotidiano. Não existe a primeira nem a última palavra, e não há limites para o contexto dialógico (este se estende ao passado sem limites e ao futuro sem limites). Nem o sentido do passado, isto é, nascidos no diálogo dos séculos passados, podem jamais ser estáveis (concluídos, acabados de uma vez por todas): eles sempre irão mudar (renovando-se) no processo de desenvolvimento subsequente, futuro do diálogo. Em qualquer momento do desenvolvimento sucessivo desenvolvimento do diálogo, em seu curso, tais sentidos serão relembrados e reviverão em forma renovada (em novo contexto). Não existe nada absolutamente morto: cada sentido terá sua festa de renovação. (Bakhitin, pp. 410, 2010) E desta ligação orgânica que dependem todas as obras de arte. Só assim na atualização cotidiana que ela vive e se renova. Atualiza-se, para continuar sua existência significante no mundo dos homens. Segundo Bakhtin (2010, pp. 410) os sistemas ideológicos cristalizam-se a partir da ideologia do cotidiano. Mas, se por um lado a existência e a conservação dos sistemas ideológicos acabados dependem da ideologia cotidiana, por outro eles exercem uma forte influência sobre a ideologia do cotidiano, dando-lhe, assim, o seu tom. Para Bakhtin (Idem), portanto, os elos entre ideologia do cotidiano e os produtos ideológicos constituídos são necessários. Não são elos arbitrários, mas orgânicos. São elos vivos que interagem entre si organicamente e em reciprocidade. Fora dessa ligação orgânica e recíproca nenhuma obra humana pode perdurar, antes, morrem, perdem seu sentido ou finalidade. Portanto, é na e pela a ideologia do cotidiano que os sistemas ideológicos da moral social, da ciência, da arte e da religião retiram sua seiva vital. Uma obra literária acabada, por exemplo, só pode durar quando apreciada e avaliada pelos leitores. São os leitores que a alimentam, lhe dão vida. Fora dessa relação orgânica morrem. Deixam de existir como produtos ideológicos vivos e atuantes na sociedade. Segundo Bakhtin (Idem) é a avaliação crítica dada pela ideologia cotidiana, à razão de ser de toda a produção ideológica acabada, seja ela artística, cientifica, moral ou religiosa. È pela avaliação critica da linguagem da ideologia do cotidiano, que a obra encontra seu sentido de ser, sua determinação social. É pela avaliação critica da ideologia cotidiana que a obra restabelece seus vínculos com o conteúdo total dos indivíduos receptores e somente aí pode ser apreendida, no contexto dessa consciência que lhe é contemporânea. Nas palavras de Bakhtin Em cada época de sua existência... O que nos anima no início desta empresa são as palavras de Walter Benjamin (1985, p.223) na sua terceira tese “Sobre o conceito da história”: “levar em conta a verdade de que nada do que um dia aconteceu pode ser considerado perdido para história”. Assim como Benjamin, assim pensamos ao debruçarmos sobre a obra desse poeta negro que é, no nosso ponto de vista, um dos maiores poeta que nossa nação produziu, mas quase sempre esquecido nos e pelos currículos escolares. Quem foi Cruz e Souza? O que ele escreveu? Basta fazer estas simples perguntas a qualquer um de nossos alunos e alunas do ensino fundamental, médio ou superior - exceto os que cursam letras ou literatura- para ficarmos sabendo que pouco ou quase nada sabem sobre ele. Ousamos, então, afirmar que uma ínfima parte de nossos estudantes brasileiros poderiam responder a essas simples perguntas a respeito da vida e da obra deste poeta que, como já disse, é um ícone de nossa literatura. Nesse sentido, embora tenha vivido em nosso país (1861-1898) e de ter sido um dos maiores poetas negros ele é para a maioria de nós um completo desconhecido. Ele sequer está morto, ele simplesmente nunca existiu. Ou dizendo de outra maneira: Embora ele tenha existido em nosso país por quase quarenta anos não tomamos consciência de sua existência. Reviver a vida e a obra deste grande poeta na alma de todos nós é uma das tarefas que pretendemos realizar com nossa pesquisa. Não saber que algo ou alguém existiu, não quer dizer que este algo ou alguém não existiu, nós apenas ainda não lhe dirigimos a palavra. Assim como na vida só passamos a existir quando alguém no dirige a palavra também o será na vida da arte, o artista e sua arte só ganham existência quando lhes concedemos o direto de nos dizer, quando lhes lançamos a pergunta: o que este autor o nos tem para dizer. Tudo que foi um dia terá sua festa de ressurreição. Neste sentido, interessanos ainda colocar em circulação a obra deste poeta negro. Assim como nos fez pensar Bakhtin (2010, pp. 410) a obra em contacto com a vida cotidiana, pois é aí nos espaços tempos cotidianos que obra de arte se resignifica, ganha nova vida, novos sentidos. Aí que toda obra de arte, ganha seu caráter enunciativo. A tarefa que nos propomos é, em principio, e só em principio, aparentemente simples: compreender pelas palavras de outrem o mundo em que vivemos. Especificando um pouco mais: no versejar do poeta, contemplar a banalidade do mal (ARENDT, 2012, pp. 19). A banalidade dos preconceitos e do racismo que, porventura, seus belos poemas possam nos fazer ver. O que nos interessa, portanto, nesse estudo, é mergulhar, passivamente e lentamente, na alma desse poeta negro para compreender as questões da negritude, do racismo e do preconceito. Racismo e preconceitos que ainda hoje padecem muitos negros e negras. Bibliografia ARENDT, H. A vida do espírito. Tradução Cesar Augusto de Almeida, Antônio Abranches, Helena Martins. Rio de Janeiro. Civilização Brasileira, 2012, 3ª ed. BAKHTIN, M. Estética da Criação Verbal. Tradução Paulo Bezerra. São Paulo. WMF Martins Fontes, 2010, 5a ed. BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Rio de Janeiro : Bertrand Brasil, 2004. FANON, F. Pele Negra Máscaras Brancas. Tradução Renato da Silveira. Salvador. EDUFABA, 2008. PESSOA, F. Mensagem. São Paulo. Martin Claret. 3ª ed. SAID, E. W. Representações do intelectual – As Conferências Reith de 1993. Tradução Milton Hatoum. São Paulo. Companhia das Letras, 2005. SOUZA, C. J. Cárceres de Almas, http://literaturalinguagens.bligoo.com.br /carceredas-almas-cruz-e-sousa-0, acessado em 16/03/2014.