ENTRE VERSOS, ENTRE CRUZ, ENTRE SOUZA...
Por: Sandro de Santa Ferreira
Mestrando em Educação, Contextos Contemporâneos e Demandas Populares pela
Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro.
Orientador: Carlos Roberto de Carvalho
Ah! Toda a Alma num cárcere anda presa,
soluçando nas trevas, entre as grades
do calabouço olhando imensidades,
mares, estrelas, tardes, natureza.
Cruz e Sousa
Neste começo de começos, começo com os versos do poeta a quem
tomaremos como porta de passagem no tempo que em nossa frente se abre ou se
escancara para discutirmos as questões da educação em geral e a formação de
intelectuais negros.
Todavia, quero antes, sem ir diretamente ao “pote”, ouvir o seu apelo e ao ouvilo, pensar com pesar, mesmo que por entre grades, prisioneiros, sobre questão do
legado de um intelectual negro. Quero ver-compreender na/pela escritura dele, o
mundo que ele caminhou e enxergou das trevas de seu calabouço - angústia de sua
existência. Mundo que apesar dos pesares ele conseguiu perceber - prova-nos com
seus versos - vestido de igual grandeza.
tudo se veste de uma igual grandeza
quando a alma entre grilhões as liberdades
sonha e, sonhando, as imortalidades
rasga no etéreo o espaço da pureza.(Souza,2014)
Quero antes impregnar-me de suas palavras para, quiçá, com elas, desvendarlhes os assombrosos e infaustos acontecimentos da vida. Vida de homem negro.
Homem que mesmo preso entre os grilhões das determinações econômicas, históricas
e sociais, sonhou com a liberdade e a sonhando se imortaliza na sua lírica simbolista.
E, neste sentido, ele ainda vive entre nós, a espera de sua festa de ressurreição. A
espera de sua completa liberdade tão sonhada. Sonho dele, sonho meu, sonho de
todo aquele que sofre ou sofreu: sonho de igualdade, sonho de liberdade e de
fraternidade. Sonho de todos de cada um de nós, poetas cotidianos, poetas vulgares.
Cruz e Souza, embora morto, permanece entre nós. Não vivo como antes, mas
como uma voz do passado que nos convida ao sonho da liberdade, da igualdade e da
fraternidade. Uma voz que nos convida a outro mundo possível; que mesmo presos
entre grades e soluços, tal qual ele, somos capazes de contemplar as imensidades
dos mares, das estrelas, das tardes, sonhar e lutar.
Cruz e Souza permanece vivo na vida da literatura, na literatura da vida, nas
páginas dos livros, na boca do povo, lugar e morada definitiva de todo poeta, seu
berço seu túmulo.
Permanece vivo em nossa cultura como um exemplo raro de um
homem que conseguiu escapar as inexoráveis indeterminações sociais e econômicas;
que conseguiu escapar aos destinos previamente traçados. Destinos em que muitos
acabaram por sucumbir e que muitos ainda sucumbem e, não por acaso, sucumbem a
maioria de mulheres e homens que nasceram negros.
É esta vida singular, irrepetível e única que aqui nos impele a tecer diálogos
entre sua arte e sua vida para pensarmos sobre a educação e formação de um
intelectual negro no interior de uma sociedade racista, mas que finge não ser. Antes,
mente para si mesma, desperdiçando, como nos afirmaria Boaventura (), na medida
em que se desconsidera, se inviabiliza ou se invibiliza a cultura e experiência histórica
e social do legado de negras e negros, visto que estes não se inserem na grande
narrativa ontológica e universal do progresso.
Todavia, ao tomarmos a decisão de examinar a vida desse homem, não
queremos torná-lo exemplo cabal único, definitivo, de como um homem negro poderia
se educar em uma sociedade racista. Ele é apenas um homem a quem,
profundamente, admiramos e queremos fazer circular suas palavras, assim fazendo
um sentido possível da presença dx negrx em nossa existência.
Conforme Fanon (2008) todo homem negro, não importa quem seja e quais
sejam suas condições materiais e intelectuais, nas sociedades racistas, todos xs
negrxs são iguais, todos xs negrxs são negrxs e, portanto, todo homem negro será
sempre visto como um homem negro, um ser exótico e inferior, inassimiláveis.
“A ontologia, quando se admitir de uma vez por todas que ela deixa
de lado a existência, não nos permite compreender o ser do negro.
Pois o negro não tem mais de ser negro, mas sê-lo diante do branco.
(...)os pretos tiveram de situar diante de dois sistemas. Sua
metafísica ou, menos pretensiosamente, seus costumes e instâncias
de referência foram abolidos porque estavam em contradição com
uma civilização que não conheciam e que lhes foi imposta. (...) Um
peso inusitados nos oprimiu [xs negrxs]. O mundo verdadeiro invadia
o nosso pedaço. No mundo branco o homem de cor encontra
dificuldades na elaboração de seu esquema corporal. O
conhecimento do corpo é unicamente uma atividade de negação.”
(FANON, pp. 104, 2008)
É esta condição de subalternidade e de inferioridade que Cruz e Souza, apesar
de grande poeta, enfrentou por toda sua vida, mas que apesar disto não o impediu de
se tornar um intelectual de grande estirpe.
Por isso estamos convencidos que sua vida exemplar é, portanto, capaz de nos
fazer ver que: Ao proporcionar às devidas condições para o seu desenvolvimento
intelectual é, qualquer ser, é capaz de participar de todas as esferas da criação
ideológicas.
O
branco
e
negro
são
aquilo
que
lhes
é
dado
pelas
possibilidades/potenciais de suas condições.
É ele, assim, para nós, um exemplo concreto e evidente sobre a pertinência e a
necessidade urgente e premente da implantação de um currículo escolar que nos
eduque e nos prepare para cultivar o respeito indispensável a todos independente de
sua cor, raça, etnia, religião e etc.
Daí o nosso interesse por ele. Interesse que não é apenas literário, mas
também político, qual seja: contribuir para uma educação que seja antirracista e que
acolha a todos, cumprindo, assim, os objetivos fundamentais expressos no terceiro
artigo, item IV de nossa Constituição Federal, qual seja: “promover o bem de todos,
sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de
discriminação” (Constituição, 1988).
Segundo nosso ponto de vista, nenhuma pessoa, pode ser tomada como
principio de explicação para a vida de outro. Cada individuo só pode viver a sua
própria vida na sua singularidade e, como tal como um acontecimento único.
[...] no mundo da vivencia única, que cada um se encontra quando
conhece,pensa, atua e decide; é daqui que participa do mundo em
que a vida é transformada em objeto e situa sua identidade sexual,
étnica, nacional, profissional, de status social, em um setor
determinado do trabalho, da cultura, da geografia política, etc.
(BAKHTIN, 2010, p. 21).
Em nosso ponto de vista Cruz e Souza foi antes de tudo mais, um homem que
soube conduzir a sua vida, assumindo-a inteiramente sob a ótica de sua estrita e
intransferível responsabilidade, que soube aproveitar das oportunidades de educação
que lhes foi proporcionada. No contato com esta ilustre personagem que vemos uma
oportuna ocasião para pensarmos os fenômenos da educação, não só para xs negrxs,
mas para todas mulheres e homens sejam estes negrxs ou não.
É neste lugar; entre poesia e biografia que esperamos, com nosso trabalho de
reflexão e pesquisa contribuir para o desenvolvimento de uma educação antirracista,
para uma educação que seja dada e oferecida sem restrição a todos os homens e
mulheres, independentes de sua raça, cor, gênero, ideologia política, posição social,
religião.
Nesse sentido, frente ao assombroso de que todo ser é para outro, seu
semelhante, espelho que lhe dá o acabamento (Bakhtin), me pergunto, fazendo
minhas,
as palavras alheias, tornando minha, a pergunta que a pena do poeta
verseja. Eis o que ele nos pergunta, eis também o que vos pergunto me perguntando
assombrado em seus versos:
Nesses silêncios solitários, graves,
que chaveiro do Céu possui as chaves
para abrir-vos as portas do Mistério?! (SOUZA, 2014)
Resposta que, por enquanto, de nossa parte não temos e tememos jamais ter.
Por enquanto ficaremos com a pergunta e com a responsabilidade de respondê-la.
Por enquanto vale a busca, vale a luta dessa procura, desse desvendar-se. Valerá a
pena? - me pergunto. Por certo que sim, me respondo com as palavras de outro poeta:
“Tudo vale a pena se alma não é pequena” (PESSOA, 1998, pp. 48). Vale saber,
sobretudo, o porquê do por que por quem se luta. Vale o compromisso e a
responsabilidade que todo mundo, enquanto homem enquanto cidadão deve primeiro
a si mesmo e depois aos outros. Vale o ato solidário e responsável com a vida de
nossos semelhantes.
O compromisso que aqui se reafirma é o mesmo pretendido e desejado por
Said (2005, pp. 43) sobre a ética que deveria ter todo e qualquer intelectual: o de se
aliar a todos aqueles que sofrem e padecem as injustiças e as desumanidades do
mundo. Mundo que para muitas mulheres e homens tem sido um verdadeiro vale de
lágrimas, um mundo sem portas e sem chaves, sem caminhos para a fraternidade, a
liberdade e a igualdade. É preciso encontrar as chaves para abrir essas portas. Coisas
essas que o racismo e os preconceitos destroem sistemática e cotidianamente em
todo mundo.
Mundo cujo tempo é, no dizer de outro poeta1, de absoluta depuração porque
Deus pereceu, o amor se tornou inútil, olhos e coração secaram e as mãos tecem
apenas seu rude trabalho. Mundo, enfim, que as guerras, as fomes, as discussões
provam apenas que a vida prossegue, mas que, no entanto, nem todos se libertaram
1
Fazemos aqui um paráfrase do poema Os ombros suportam o mundo (Poema da obra Sentimento do
mundo), de Carlos Drummond de Andrade
ainda. Todavia, adverte-nos o poeta, e tempo que não adianta sequer querer morrer,
pois este é um tempo sem mistificações, é um tempo que a vida é uma ordem.
Coisas essas que embora não tenha sofrido diretamente em minha carne, são
também da minha inteira responsabilidade, pois nada que acontece a outro ser pode
me ser indiferente. É este também o nosso compromisso e o sentido de nossa
pesquisa lutar contra os preconceitos e a favor da liberdade, da fraternidade e da
igualdade.
Para isso lançaremos mãos da poesia de Cruz e Souza, e não tão somente da
obra de sociólogos, psicólogos, antropólogos ou de quaisquer outros pesquisadores e
estudiosos das ciências humanas ou sociais que, porventura, pudessem nos ensinar
sobre as causas ou as origens dos preconceitos e do racismo. Nossa perspectiva não
será esta: a de encontrar explicação para os fenômenos sociais dos preconceitos
raciais, isto muitos antes de nós já o fizeram com bastante competência. Diferente de
quaisquer perspectivas generalizantes, queremos mostrar os fenômenos do
preconceito do racismo a partir de um ponto de vista particular e pela ótica e
perspectiva de quem o sofreu em sua própria pele. Que fez de seu sofrimento matéria,
forma e conteúdo. Fez da vida conteúdo de sua arte, fez da arte conteúdo da sua
poesia e nisso entendermos uma potência/condição de ação responsável.
Assim, a partir das palavras do poeta que reformulo a pergunta, a mesma, mas
não exatamente: quem possui as chaves para abrir a porta trancada do racismo? A
quem cabe procura-la? E esta chave que buscamos encontrar aqui ao longo de nosso
estudo sobre o racismo tosco, grosseiro e rude que de muitas vidas tem ceifado os
destinos ou impedido caminhos. Mas que muito apesar de tudo, pelo menos em parte,
tem escapado. Cruz e Souza foi um destes negros retintos de cujos destinos traçados
e desgraçados, rompeu as barreiras da cor e da origem africana e humilde tornou-se
grande dentre os grandes e apelidado como o Dante Negro, uma nobre comparação
ao poeta italiano Dante Alighieri, il sommo poeta (o sumo poeta) da língua italiana.
Em outras palavras: recorro aos versos do poeta, não para responder
definitivamente e absolutamente alguma pergunta, antes para pensar como/onde e a
partir de uma obra literária podemos repensar as questões do racismo e dos
preconceitos, dando prosseguimento outras pesquisas que antes de nós se fizeram. E
neste sentido o que aqui se promete não é algo que se enraíza em si mesmo, mas que
participa de uma cadeia de outros discursos. Discursos de hoje e de outros tempos.
Coisas essas que, por certo ele sofreu (já que nada que vive, vive no vazio e
isolado de outros) e que esperamos encontrar, por certo, registrado em sua poética.
Na obra de um poeta negro que viveu e morreu no século XIX. Um poeta negro
que viveu, portanto, não em um tempo qualquer, mas em um tempo estruturada pela
ideologia racial. Que viveu e morreu em um tempo triunfante da ciência eugenista que
despudoradamente dividia a humanidade entre raças distintas entre homens inferiores
e superiores. “Ciência” essa que hoje ninguém mais acredita, mas que, embora
desacreditada, ressoa na ideologia dos discursos cotidianos do senso comum.
Portanto, não basta dizer que a teoria era uma falsa teoria e preciso enfrentá-la em
seus efeitos na sua encarnação nos discursos cotidianos. Em resumo, segundo
Bourdieu (2004)
Não basta romper com o senso comum vulgar, em com o
senso comum douto na sua forma corrente; é preciso romper
com os instrumentos de ruptura que anulam a própria
experiência contra a qual eles se construíram (BOURDIEU,
2004, p.48)
Sua obra, portanto, não será apenas tomada sob o ponto de vista estético
apenas, mas também como um discurso entre a arte e a vida. Embora poético, mas
também social e político. Versos que são tomados aqui por nós como respostas que o
poeta produziu e procurando se dirigir aos homens e mulheres do seu tempo.
Tempo esse que ainda não passou, mas que, ao contrário, ainda entre nós
insiste e persiste.
Assim como ele nos faz ver na primeira estrofe que aqui nos
servimos como epigrafe e que o poeta nos lança como um apelo: a de que toda alma
vive presa em cárcere e soluçando nas trevas, entre grades de um calabouço olhando
imensidades, mares, estrelas, tardes, naturezas.
E a resposta ao racismo e aos preconceitos que entre nós vigem que nossa
pesquisa buscará perceber na poesia de Cruz e Sousa e, quiçá, compreender estas
questões. Produzir uma resposta as mulheres e homens de nosso tempo, colocando
em circulação, mais uma vez, as palavras do poeta. Seguimos assim os conselhos de
Bakhtin (2010) que é no cotidiano que a obra de arte se renova recebe nova vida e
novo sentido. E se nada mais fosse possível, só isto nos justificaria ou nos bastaria.
Tudo vale o esforço do pensar, não vale como grandeza em si, vale a
grandeza e nobreza do ato. Vale a nossa intenção, pois nada vale se não o fazemos
com paixão.
Todavia, já sei, desde o começo desse começo, que não é a nobreza do
objeto, portanto, que fará desta ou de qualquer outra pesquisa algo importante, mas
esse sentimento de pensá-lo com grandeza - e com toda nossa alma e com todo
nosso envolvimento em direção a ele.
No nosso caso, ele não é uma teoria, uma abstração nem tão pouco um objeto
inanimado, estático, mas um sujeito dinâmico que existiu num determinado tempo, no
século XIX num determinado espaço, em Nossa Senhora do Desterro (atual
Florianópolis), um brasileiro, negro afrodescendente, filho de pais de origem africana.
Um homem que nasceu negro, pobre e filho de escravos alforriados, mas que
teve a sorte mudada por obra e graça do destino. Que teve a sorte de construir uma
história bem diferente da de milhares de outros meninos negros que da pobreza inexoráveis destinos de milhares de negros - não escaparam e muitos ainda não
escapam pelo simples fatos de terem nascidos pobres e negros.
Diferente destes milhares de meninos negros entregues as desventuras da
miséria material desde o nascimento, João da Cruz recebeu apoio material e,
principalmente carinho, amor incondicional (coisa de que necessita qualquer pessoa
seja ela, branca, negra ou etc.) de um casal sem filho: o Marechal Guilherme Xavier de
Sousa e de sua esposa, dona Clarinda Fagundes Xavier de Souza, ex-senhores de
seus pais alforriados, o senhor Guilherme da Cruz e de dona Carolina Eva da
Conceição.
Foi deste golpe de sorte, que o menino João da cruz teve acrescentado ao seu
nome de batismo o sobrenome “e Souza”, nome de família de seus tutores, e passou a
chamar-se João da Cruz e Souza, uma clara indicação que, embora adotado, era filho
assumido, era membro daquela família. Da família Souza, doravante, sem deixar de
ser Souza.
Foi deste golpe de sorte, sorte que não teve milhares de outrxs meninxs negrxs
que João da Cruz e Souza pode ter acesso a uma educação refinada. Estudou
francês, latim, grego, matemática e ciências naturais. Foi deste golpe de sorte que
Cruz e Souza deixou de ser apenas um menino negro entre tantxs meninxs negrxs
(cujos destinos foram e são bem diferentes daquele que ele teve) para se tornar um
dos maiores poetas de nossa literatura , um de nossos maiores intelectuais negrxs.
Mas o pensamento não vale nada para, vale em si. O pensamento não faz
nada além de pensar e por isso não tange o mundo, a não ser se corporificado em
minhas/nossas palavra-alheias: em textos orais ou escritos, em obras.
Duvido do pensamento: mas se tudo que existe, existe por causa de alguma
coisa: para que serve - desculpe-me o pragmatismo- o existir do pensamento? Nas
palavras de Martin Heidegger (Apud Arendt, 2012, p.17) ele serve apenas para abrir
os olhos do espírito (o nous). Fora isso, o pensamento não traz conhecimento como as
ciências, não produz sabedoria prática utilizável, não resolve os enigmas do universo
tampouco nos dota diretamente com poder de agir. Na visão de Hannah Arendt
(Idem), o pensamento visa apenas contemplação, e nele termina. O fim do
pensamento é o próprio ato de pensar o pensamento. Em relação à ciência, a vida
prática, aos enigmas do universo e ao agir humano, o pensamento não é instrumento
para fabricar coisas mundanas, tangíveis.
E neste sentido não tem nenhuma
serventia. O pensamento é contemplação, não é atividade, mas passividade.
Então a primeira coisa a fazer, no início e deixar que a coisa nos apareça; que
a coisa nos encontre, para, então, nos encontrarmos implicados nela. E a partir deste
núcleo do sujeito e o “objeto” que ambos passam existir um para o outro. Nem um nem
outro existe antes. A gênese do objeto de pesquisa e a gênese do sujeito. Ambos só
existem nessa relação.
É ai que pensamos o começa de nossa pesquisa: na solidão do ato de pensar.
No afastamento do mundo povoado de coisas. Deixar-nos no primeiro momento, e
antes de tudo o mais, a procura... Não de algo, mas do vazio. Deixar-se vagar pelo
vazio para que a coisa que não se procura nos encontre. Pensamos que é no cessar
da dessa vontade de dominar/conhecer o objeto é que ele se nos apresentará deveras
na sua inteireza, mas não em seu acabamento. Deste modo, a tarefa do pesquisador
diante da aparência da coisa, não é outra: a de produzir o acabamento. Não o
acabamento definitivo, mas só aquele que ele, o objeto, se revela ao pesquisador.
É neste ponto exato que me encontro: em estado de vazio e ouvinte: em
estado de pensamento para, assim, pensar a poética de Cruz e Souza. Deixar-me
encontrar por ela nas palavras suas, minhas e alheias. Desta feita, não para resolver
explicar os problemas do mundo, os enigmas do universo, antes, quiçá, tentar
compreender, a partir de sua obra poética o mundo em que ele viveu (século XIX).
Deixar que ela, a obra, onde se encontra o seu autor nos diga como o mundo lhe
aparece.
Obra talvez, esquecida em alguma estante de uma biblioteca ou livraria à
espera de quem as abra, as leia. Releia e as renove, lhe dando nova vida. Assim
como Bakhtin (2010) nos faz ver quando nos comenta sobre a ligação orgânica entre
produções ideológicas e a ideologia do cotidiano.
Não existe a primeira nem a última palavra, e não há limites para o
contexto dialógico (este se estende ao passado sem limites e ao
futuro sem limites). Nem o sentido do passado, isto é, nascidos no
diálogo dos séculos passados, podem jamais ser estáveis
(concluídos, acabados de uma vez por todas): eles sempre irão
mudar (renovando-se) no processo de desenvolvimento subsequente,
futuro do diálogo. Em qualquer momento do desenvolvimento
sucessivo desenvolvimento do diálogo, em seu curso, tais sentidos
serão relembrados e reviverão em forma renovada (em novo
contexto). Não existe nada absolutamente morto: cada sentido terá
sua festa de renovação. (Bakhitin, pp. 410, 2010)
E desta ligação orgânica que dependem todas as obras de arte. Só assim na
atualização cotidiana que ela vive e se renova. Atualiza-se, para continuar sua
existência significante no mundo dos homens.
Segundo Bakhtin (2010, pp. 410) os sistemas ideológicos cristalizam-se a partir
da ideologia do cotidiano. Mas, se por um lado a existência e a conservação dos
sistemas ideológicos acabados dependem da ideologia cotidiana, por outro eles
exercem uma forte influência sobre a ideologia do cotidiano, dando-lhe, assim, o seu
tom. Para Bakhtin (Idem), portanto, os elos entre ideologia do cotidiano e os produtos
ideológicos constituídos são necessários. Não são elos arbitrários, mas orgânicos. São
elos vivos que interagem entre si organicamente e em reciprocidade. Fora dessa
ligação orgânica e recíproca nenhuma obra humana pode perdurar, antes, morrem,
perdem seu sentido ou finalidade. Portanto, é na e pela a ideologia do cotidiano que os
sistemas ideológicos da moral social, da ciência, da arte e da religião retiram sua seiva
vital. Uma obra literária acabada, por exemplo, só pode durar quando apreciada e
avaliada pelos leitores. São os leitores que a alimentam, lhe dão vida. Fora dessa
relação orgânica morrem. Deixam de existir como produtos ideológicos vivos e
atuantes na sociedade.
Segundo Bakhtin (Idem) é a avaliação crítica dada pela ideologia cotidiana, à
razão de ser de toda a produção ideológica acabada, seja ela artística, cientifica, moral
ou religiosa. È pela avaliação critica da linguagem da ideologia do cotidiano, que a
obra encontra seu sentido de ser, sua determinação social. É pela avaliação critica da
ideologia cotidiana que a obra restabelece seus vínculos com o conteúdo total dos
indivíduos receptores e somente aí pode ser apreendida, no contexto dessa
consciência que lhe é contemporânea. Nas palavras de Bakhtin
Em cada época de sua existência...
O que nos anima no início desta empresa são as palavras de Walter Benjamin
(1985, p.223) na sua terceira tese “Sobre o conceito da história”: “levar em conta a
verdade de que nada do que um dia aconteceu pode ser considerado perdido para
história”. Assim como Benjamin, assim pensamos ao debruçarmos sobre a obra desse
poeta negro que é, no nosso ponto de vista, um dos maiores poeta que nossa nação
produziu, mas quase sempre esquecido nos e pelos currículos escolares.
Quem foi Cruz e Souza? O que ele escreveu? Basta fazer estas simples
perguntas a qualquer um de nossos alunos e alunas do ensino fundamental, médio ou
superior - exceto os que cursam letras ou literatura- para ficarmos sabendo que pouco
ou quase nada sabem sobre ele. Ousamos, então, afirmar que uma ínfima parte de
nossos estudantes brasileiros poderiam responder a essas simples perguntas a
respeito da vida e da obra deste poeta que, como já disse, é um ícone de nossa
literatura.
Nesse sentido, embora tenha vivido em nosso país (1861-1898) e de ter sido
um dos maiores poetas negros ele é para a maioria de nós um completo
desconhecido. Ele sequer está morto, ele simplesmente nunca existiu. Ou dizendo de
outra maneira: Embora ele tenha existido em nosso país por quase quarenta anos não
tomamos consciência de sua existência. Reviver a vida e a obra deste grande poeta
na alma de todos nós é uma das tarefas que pretendemos realizar com nossa
pesquisa. Não saber que algo ou alguém existiu, não quer dizer que este algo ou
alguém não existiu, nós apenas ainda não lhe dirigimos a palavra. Assim como na vida
só passamos a existir quando alguém no dirige a palavra também o será na vida da
arte, o artista e sua arte só ganham existência quando lhes concedemos o direto de
nos dizer, quando lhes lançamos a pergunta: o que este autor o nos tem para dizer.
Tudo que foi um dia terá sua festa de ressurreição. Neste sentido, interessanos ainda colocar em circulação a obra deste poeta negro. Assim como nos fez pensar
Bakhtin (2010, pp. 410) a obra em contacto com a vida cotidiana, pois é aí nos
espaços tempos cotidianos que obra de arte se resignifica, ganha nova vida, novos
sentidos. Aí que toda obra de arte, ganha seu caráter enunciativo.
A tarefa que nos propomos é, em principio, e só em principio, aparentemente
simples: compreender pelas palavras de outrem o mundo em que vivemos.
Especificando um pouco mais: no versejar do poeta, contemplar a banalidade do mal
(ARENDT, 2012, pp. 19). A banalidade dos preconceitos e do racismo que,
porventura, seus belos poemas possam nos fazer ver.
O que nos interessa, portanto, nesse estudo, é mergulhar, passivamente e
lentamente, na alma desse poeta negro para compreender as questões da negritude,
do racismo e do preconceito. Racismo e preconceitos que ainda hoje padecem muitos
negros e negras.
Bibliografia
ARENDT, H. A vida do espírito. Tradução Cesar Augusto de Almeida, Antônio
Abranches, Helena Martins. Rio de Janeiro. Civilização Brasileira, 2012, 3ª ed.
BAKHTIN, M. Estética da Criação Verbal. Tradução Paulo Bezerra. São Paulo. WMF
Martins Fontes, 2010, 5a ed.
BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Rio de Janeiro : Bertrand Brasil, 2004.
FANON, F. Pele Negra Máscaras Brancas. Tradução Renato da Silveira. Salvador.
EDUFABA, 2008.
PESSOA, F. Mensagem. São Paulo. Martin Claret. 3ª ed.
SAID, E. W. Representações do intelectual – As Conferências Reith de 1993.
Tradução Milton Hatoum. São Paulo. Companhia das Letras, 2005.
SOUZA, C. J. Cárceres de Almas, http://literaturalinguagens.bligoo.com.br /carceredas-almas-cruz-e-sousa-0, acessado em 16/03/2014.
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