UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ
INSTITUTO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM GEOGRAFIA
CURSO DE MESTRADO EM GEOGRAFIA
PATRÍCIA OLIVEIRA DA SILVA
A reprodução da agricultura familiar na Região Metropolitana de Belém no
início do século XXI: um estudo acerca dos agricultores dos bairros de Almir
Gabriel e Uriboca no município de Marituba (PA)
BELÉM
2012
PATRÍCIA OLIVEIRA DA SILVA
A reprodução da agricultura familiar na Região Metropolitana de Belém no
início do século XXI: um estudo acerca dos agricultores dos bairros de Almir
Gabriel e Uriboca no município de Marituba (PA)
Dissertação apresentada ao Curso de
Mestrado do Programa de Pós-Graduação em
Geografia do Instituto de Filosofia e Ciências
Humanas da Universidade Federal do Pará
para obtenção do título de Mestre em
Geografia.
Área de concentração: Gestão Urbana e
Regional
Orientador: Prof. Dr. João Santos Nahum
BELÉM
2012
Dados Internacionais de Catalogação-na-Publicação (CIP)
(Biblioteca de Pós-Graduação do IFCH/UFPA, Belém-PA)
Silva, Patrícia Oliveira da
A reprodução da agricultura familiar na Região Metropolitana de Belém no
início do século XXI: um estudo acerca dos agricultores dos bairros de Almir Gabriel
e Uriboca no município de Marituba - Pará / Patrícia Oliveira da Silva; orientador,
João Santos Nahum. - 2012.
Dissertação (Mestrado) - Universidade Federal do Pará, Instituto de Filosofia e
Ciências Humanas, Programa de Pós-Graduação em Geografia, Belém, 2012.
1. Agricultura familiar - Marituba (PA). 2. Produtos agrícolas - Marituba (PA) Comercialização. 3. Trabalhadores rurais - Marituba (PA). 4. Belém, Região
Metropolitana de (PA). I. Título.
CDD - 22. ed. 338.1098115
TERMO DE APROVAÇÃO
PATRÍCIA OLIVEIRA DA SILVA
A reprodução da agricultura familiar na Região Metropolitana de Belém no
início do século XXI: um estudo acerca dos agricultores dos bairros de Almir
Gabriel e Uriboca no município de Marituba (PA)
Dissertação apresentada ao Curso de
Mestrado do Programa de Pós-Graduação em
Geografia do Instituto de Filosofia e Ciências
Humanas da Universidade Federal do Pará
para obtenção do título de Mestre em
Geografia.
Área de concentração: Gestão Urbana e
Regional
Orientador: Prof. Dr. João Santos Nahum
Dissertação defendida e aprovada, em 24 de agosto de 2012, pela comissão
examinadora constituída pelos professores:
_______________________________________________
Prof. Dr. João Santos Nahum
Orientador, PPGEO/IFCH/UFPA
_______________________________________________
Profª. Drª. Janete Marília Gentil Coimbra de Oliveira
Examinadora Interna, PPGEO/IFCH/UFPA
_______________________________________________
Profª. Drª. Angela Maria Endlich
Examinadora Externa, DGE/UEM
Aos
inúmeros
agricultores
familiares, que em meio às
adversidades dos contextos
socioespaciais nos quais estão
inseridos, persistem e recriamse em um estilo de vida
peculiar.
AGRADECIMENTOS
Este momento da dissertação, apesar de não obrigatório, é singular pela sua
importância, pois nos possibilita expressar nossa imensa gratidão a todos que
conosco construíram mais esta etapa acadêmica, e para além desta, uma etapa da
vida, sem os quais certamente nós não conseguiríamos. Neste sentido, é mais do
que necessário agradecer inicialmente a Deus, por guardar meus caminhos e
abençoar sempre minhas decisões e em seguida:
A todos da Pós-Graduação em Geografia da UFPA, agradeço à secretária
Marlene Oliveira, sempre tão prestativa, aos professores, e dentre os quais, destaco
o professor João Santos Nahum, com o qual pude conviver mais tempo na condição
de orientanda e perceber seu comprometimento com o trabalho. Agradeço a este
por ter me aceitado como orientanda, pela paciência com a qual aguardava os meus
escritos, por me lembrar das minhas obrigações sempre que eu me distanciava,
adotando uma postura sempre presente, que foi imprescindível para que eu
finalizasse esta pesquisa.
Agradeço a comissão examinadora, a professora Janete Marília Gentil
Coimbra de Oliveira e a professora Angela Maria Endlich pelo convite aceito, por
terem se disponibilizado em participar da defesa e pela certa e necessária
contribuição à pesquisa. Assim como agradeço a todos os protagonistas desta
história, a todos aqueles que deram vida a este trabalho, realçando as páginas desta
pesquisa com suas histórias, trajetórias, produções, estratégias, aflições, entre
outros, meu muitíssimo obrigada, a Srª. Graciete, a Srª. Maria de Nazaré, ao Sr.
Valdemir, entre outros, pelas experiências reveladas.
À turma 2010 do mestrado PPGEO, na qual reencontrei amigos da graduação
e ao mesmo tempo fiz novas amizades, uma turma repleta de geógrafos,
turismólogos e um biólogo, todos de altíssimo nível, com os quais tive a
oportunidade de compartilhar as aulas no primeiro semestre, muito obrigada:
Viviane, José Luiz, Augusto, Cinthia, Luciano, Elisamar, Renato, Glauco, Sandro,
Paulo, José Maria, Cleber, Denilce, Amanda, Flávia, Jonatha, Eliane, Marcos, Luis.
A toda a equipe de educadores e auxiliares do Projovem Urbano Santa Izabel,
em especial, à Adriana e Carlos, educadores como eu, foram sensíveis a minha
necessidade material de conciliar tanto o mestrado, quanto o trabalho em Santa
Izabel à noite, após as aulas, facilitando meu percurso por meio de uma “santa”
carona da UFPA à Santa Izabel, sem a qual seguramente eu não teria conseguido
finalizar o trabalho na escola, pois teria renunciado pelo mestrado, atitude que me
deixaria extremamente triste, mas graças a eles não ocorreu, meu muito obrigada.
Aos companheiros de trabalho da Polícia Civil (minha certeza de renda no
presente, ainda que mínima). A minha ex-chefe Roberta, ao senhor Amaro, ao
senhor Miguel, ao Senhor Milton, mais conhecido como “Mapinha”, à minha atual
chefe senhora Edna, os quais compreenderam minhas ausências, minhas
necessidades, permitindo certa flexibilização em meus horários, fator fundamental
para que eu participasse das atividades acadêmicas ao longo destes dois anos.
A dois amigos essenciais na produção propriamente dita deste trabalho, os
quais, como dizemos, colocaram a mão na massa , agradeço imensamente ao Frank
e a Rosa, o primeiro pela produção de todos os mapas inseridos neste estudo, sem
os quais a localização ficaria comprometida, e a segunda, por me acompanhar nos
trabalhos empíricos junto aos agricultores do bairro Almir Gabriel, servindo de ponte
entre mim e eles, devido ao seu maior conhecimento da área e amizade com alguns
agricultores.
Às amizades conquistadas ao longo desta história com a Geografia, algumas
difíceis de rever e outras nem tanto, mas não o suficiente para matar as saudades.
Meu muito obrigada aos amigos da trajetória geográfica, Carlos Renato, Adoniel,
Alan, Mateus, Luciano, Diego, Daniel, Eberson, Odilson, Dejanilson, Cleiton, Iranilda,
Roseane, Cinthia, Leno, Ribamar, David, Rogério, Soraia, Padinha, Lorena, Nilberto
(e sua família querida), eterna Marcinha (saudades).
Às “geográficas”, Rafaela, Viviane e Dayane, por não ter dúvidas das energias
positivas emanadas e das suas torcidas pra finalização deste trabalho. Continuo
afirmando que é impossível imaginar a trajetória Geográfica sem a (sempre) forte
presença delas. Afinal, quantos seminários, quantos risos, quantos choros, quantas
experiências confessadas e muitas vezes confundidas nas nossas conversas.
Agradeço por té-las como companheiras nestes tantos anos e por acreditar que
nossas amizades tiveram apenas seu início com a Geografia.
Agradeço a base de tudo, do que sou, o que fiz, as decisões que tomei, tudo
esteve orientado pelos ensinamentos que obtive no seio de minha família, valores
morais e espirituais tão valiosos que me condicionaram a buscar estas experiências.
Neste sentido é mais do que necessário agradecer aos meus avós, dona Nadir e seu
Jardis pela dedicação a mim e ao meu irmão e apoio incondicional à minha mãe,
sobretudo nos momentos mais delicados de nossas vidas. Ainda ao meu irmão
Patrick, aos meus tios Sirleida e Souza; Marilei e Antonio; Célia e Carlos; João e
José (in memorian), primos e primas pelas reuniões sagradas na casa da vovó e do
vovô.
À minha mãe, Sirlene Oliveira da Silva, pela mulher e mãe surpreendentes,
simplesmente um exemplo de coragem e superação, afinal não é tarefa fácil criar
dois filhos sem a participação do pai em nenhum sentido. Ainda que se tenham pais
maravilhosos como meus avós, dando total apoio e assistindo em todas as
necessidades, as dificuldades são muitas ao longo do processo, mas ela não
resignou e se manteve firme na missão de educar seus dois filhos. Te amo minha
mãe, a senhora meus eternos agradecimentos.
E finalmente, sou infinitamente grata a uma pessoa que cruzou o meu
caminho ou eu cruzei o dela, não sei, a certeza que tenho é que apareceu para ficar
para sempre em minha vida. Não somente ele, mas sua família, principalmente sua
mãe Ivana e sua tia Izalinda e família. Esses dois últimos anos que coincidem com o
tempo do mestrado, foram decisivos, para concluir que você, José Luiz Terceros
Sirotheau, é a pessoa que me fez acreditar em nós, na relação a dois, no amor
correspondido e com quem desejo imensamente construir uma família, pois já
constatamos juntos, que “[...] se há dores tudo fica mais fácil, seu rosto silencia e faz
parar, as flores que me manda são fato do nosso cuidado e entrega...”. Te amo meu
mômô. Obrigada pela parceria incondicional.
EPÍGRAFE
A “modernidade” não é só o
“moderno” [...] incorpora também
efetivas relações sociais datadas,
vestígios de outras estruturas e
situações que são ainda, no entanto,
realidades e relações vivas e vitais. E
que anunciam a historicidade do
homem nesses desencontros de
tempos, de ritmos e de possibilidades
[...] (MARTINS, 2008, p.20).
RESUMO
SILVA, P. O. da. A reprodução da agricultura familiar na Região Metropolitana
de Belém no início do século XXI: um estudo acerca dos agricultores dos
bairros de Almir Gabriel e Uriboca no município de Marituba (PA).165 f.
Dissertação (Mestrado) - Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade
Federal do Pará, Belém, 2012.
A presente dissertação versa sobre a reprodução da agricultura familiar na Região
Metropolitana de Belém-Pará, enfocando de forma mais específica agricultores dos
bairros de Almir Gabriel e Uriboca no município de Marituba, o qual está inserido na
região metropolitana supracitada. Nesta perspectiva, centrou-se a análise em
aspectos diversos, como a visão da agricultura presente nos documentos no âmbito
do poder municipal, as políticas públicas voltadas a este segmento, as trajetórias
vivenciadas, as práticas empreendidas por estes grupos no que concerne à
produção e comercialização, enfim, uma amostra das incontáveis ações e processos
que afetam a reprodução destes agricultores no que concerne a sua limitação ou
favorecimento. Em geral, objetivou-se com este apanhado, revelar as estratégias
que possibilitam a reprodução socioespacial dos agricultores familiares que inseridos
em espaços metropolitanos, desenvolvem atividades ligadas à agricultura o que nos
remete a uma tradição rural expressa em movimentos migratórios experimentados.
Palavras-chave: Reprodução, Agricultura familiar, Marituba, Região Metropolitana
de Belém.
ABSTRACT
SILVA, P. O. de. Reproduction of the family farm in the Metropolitan Area of
Belém at the beginning of the xxi century: a study of farmers in the districts of
Almir Gabriel and Uriboca in the town of Marituba (PA). 165 f. dissertation
(Masters Regree) - Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal
do Pará, Belém, 2012.
This dissertation examines the reproduction of farm family in the metropolitan area of
Belém-Pará, focusing more specifically farmers in the districts of Almir Gabriel and
Uriboca, in the town of Marituba, which is inserted in the metropolitan area above. In
this perspective, the analysis focused on various aspects such as the vision of
agriculture in the documents of municipal government, public policies for this
segment, the trajectories experienced, the practices undertaken by these groups with
regard to production and marketing, in short, a sample of the countless actions and
processes that affect the reproduction of these farmers with regard to its limitation or
favor. In general, the objective was reveal the strategies that enable the reproduction
of sociospatial of farm family, in metropolitan areas, that carry out activities related to
agriculture, which brings us back to a rural tradition, expressed in experienced
migratory movements.
Keywords: Reproduction, Farm Family, Marituba, Metropolitan Area of Belém
LISTA DE ILUSTRAÇÕES
FIGURAS
Figura 1 - “A Bragantina paraense clássica”......................................................
59
FOTOGRAFIAS
Fotografia 1 e 2 - Linhas de crédito do PRONAF para a COOPSANT..............
109
Fotografia 3 e 4 - Dois projetos coletivos envolvendo os agricultores...............
123
Fotografia 5 - Produção de alface hidropônica na COOPSANT........................
128
Fotografia 6 - Produção de hortaliças em terreno familiar no Uriboca...............
129
Fotografia 7 - Alface cultivada de forma convencional no bairro Uriboca..........
130
Fotografia 8 - Cultivo da alface hidropônica no bairro Almir Gabriel..................
131
Fotografia 9 - Produtos fitoterápicos produzidos artesanalmente......................
137
Fotografia 10 - Cultivo de plantas ornamentais pelos agricultores....................
138
Fotografia 11 - Novo Mercado Central de Marituba...........................................
143
Fotografia 12 - Alface hidropônica em embalagem padronizada.......................
145
Fotografia 13 - Horta de couve coberta com folha de palmeira.........................
149
GRÁFICOS
Gráfico 1 - Fontes de recursos do PRONAF utilizados no Pará – 2009 a
2011....................................................................................................................
104
MAPAS
Mapa 1 - Expansão Urbana do município de Marituba nos anos de 1984 –
2001 – 2011.......................................................................................................
68
Mapa 2 - Região Metropolitana de Belém (RMB)..............................................
82
Mapa 3 - Divisão político-administrativa do município de Marituba...................
89
Mapa 4 - Localização dos bairros onde residem os agricultores entrevistados.
113
Mapa 5 - Destino da produção dos agricultores familiares de Marituba............
141
QUADROS
Quadro 1 - Zonas de uso e unidades de conservação criadas pelo PDP de
Marituba..............................................................................................................
71
Quadro 2 - Municípios da RMB segundo as macrozonas instituídas pelos
Planos Diretores.................................................................................................
76
Quadro 3 - Enquadramento no PRONAF e linhas de crédito............................
98
Quadro 4 - Discriminação dos agricultores entrevistados nos bairros
pesquisados.......................................................................................................
114
Quadro 5 - Descrição da produção e comercialização dos agricultores
entrevistados......................................................................................................
126
LISTA DE TABELAS
Tabela 1 - Total populacional, área e densidade demográfica do município de
Marituba de 1996 – 2010...................................................................................
66
Tabela 2 - População residente no município de Marituba por situação do
domicilio.............................................................................................................
67
Tabela 3 - Acesso ao crédito do PRONAF por Região no período de 2009 a
2011....................................................................................................................
100
Tabela 4 - Contratos efetuados e créditos do PRONAF repassados aos
estados da Região Norte - 2009 a 2011............................................................
102
Tabela 5 - Estabelecimentos e área da Agricultura Familiar segundo os
estados da Região Norte e Brasil......................................................................
103
Tabela 6 - Quantitativo destinado a cada finalidade do PRONAF no Pará 2009 a 2011.......................................................................................................
105
Tabela 7 - Estabelecimentos e área da Agricultura Familiar segundo a
RMB....................................................................................................................
106
Tabela 8 - Relação de DAP Ativa da RMB por município em fevereiro de
2012....................................................................................................................
107
Tabela 9 - Relação de DAP Ativa do município de Marituba por grupo.............
108
Tabela 10 - Tamanho das propriedades dos agricultores familiares
investigados........................................................................................................
116
Tabela 11 - Origem dos agricultores familiares entrevistados nos dois
bairros.................................................................................................................
118
Tabela 12 - Grau de instrução dos agricultores familiares entrevistados..........
120
Tabela 13 - Renda mensal das famílias proveniente da agricultura..................
121
Tabela 14 - Número de agricultores envolvidos nos projetos coletivos.............
124
LISTA DE SIGLAS
ACU
Área de Consolidação Urbana
AGRINESP
Associação Agrícola Nova Esperança
ALEPA
Assembleia Legislativa do Pará
ANVISA
Agência Nacional de Vigilância Sanitária
APACC
Associação Paraense de Apoio às Comunidades Carentes
APHA
Associação dos Produtores de Hortifrutigranjeiros de Ananindeua
APHAURI
Associação dos Produtores de Hortifrutigranjeiros de Abacatal e
Uriboca
APROVISO
Associação de Produtores Rurais da Vila Sorriso
ASTRAM
Associação Agroecológica da Comunidade Maguary
BCB
Banco Central do Brasil
BASA
Banco da Amazônia
BOC
Bloco Operário Camponês
CELPA
Centrais Elétricas do Pará
CEM
Comissão de Emancipação de Marituba
COOASA
Cooperativa Agrícola Santo Antônio
COOPABEN
Cooperativa Agrícola mista de Benevides
COOPSANT
Cooperativa Agrícola Santo Antônio
COPEM
Comissão Pró-Emancipação de Marituba
CTN
Código Tributário Nacional
DAP
Declaração de Aptidão do Produtor
EFB
Estrada de Ferro Belém-Bragança
EMATER
Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural
EUA
Estados Unidos
FAT
Fundo de Amparo ao Trabalhador
FCO
Fundo Constitucional de Financiamento do Centro-Oeste
FHC
Fernando Henrique Cardoso
FUNCAFE
Fundo de Defesa da Economia Cafeeira
FNE
Fundo Constitucional de Financiamento do Nordeste
FNO
Fundo Constitucional de Financiamento do Norte
IBGE
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
IDESP
Instituto de Desenvolvimento Econômico Social e Ambiental do Pará
INCRA
Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária
IPTU
Imposto sobre Propriedade Predial e Territorial Urbana
ITERPA
Instituto de Terras do Pará
ITR
Imposto sobre Propriedade Territorial Rural
MAA
Ministério da Agricultura e do Abastecimento
MAPA
Ministério de Agricultura Pecuária e Abastecimento
MCR 6.2
Manual de Crédito Rural
MDA
Ministério do Desenvolvimento Agrário
MPA
Movimento dos Pequenos Agricultores
MST
Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra
PCB
Partido Comunista Brasileiro
PDP
Plano Diretor Participativo
PMM
Prefeitura Municipal de Marituba
PNCF
Programa Nacional de Crédito Fundiário
PNRA
Programa Nacional de Reforma Agrária
PRONAF
Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar
P. RURAL
Poupança Rural
RMB
Região Metropolitana de Belém
RMC
Região Metropolitana de Curitiba
RPL
Recursos Próprios Livres
RTN
Recursos do Tesouro Nacional
SAF
Secretaria de Agricultura Familiar
SAGRI
Secretaria Estadual de Agricultura
SDR
Secretaria de Desenvolvimento Rural
SEBRAE/PA
Serviço Brasileiro de apoio à micro e pequena Empresa no Pará
SEMAB
Secretaria Municipal de Agricultura e Abastecimento de Marituba
SEPOF
Secretaria de Estado de Planejamento Orçamento e Finanças
SNCR
Sistema Nacional de Cadastro Rural
SPVEA
Superintendência do Plano de Valorização Econômica da Amazônia
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO.................................................................................................................
19
CAPÍTULO 1 - ABORDAGEM TEÓRICO-CONCEITUAL ACERCA DA
REPRODUÇÃO
DA
AGRICULTURA
FAMILIAR
EM
ESPAÇO
METROPOLITANO.........................................................................................................
30
1.1 AGRICULTURA FAMILIAR: UMA REFLEXÃO NECESSÁRIA.................................
31
1.2 A NATUREZA DA REPRODUÇÃO DA AGRICULTURA FAMILIAR.........................
37
1.3 A RELAÇÃO RURAL-URBANA NA ANÁLISE DA AGRICULTURA FAMILIAR EM
ESPAÇO METROPOLITANO..........................................................................................
42
CAPÍTULO 2 - FORMAÇÃO HISTÓRICO-GEOGRÁFICA DO MUNICÍPIO DE
MARITUBA E SUA RELAÇÃO COM A AGRICULTURA...............................................
55
2.1 A FORMAÇÃO DO MUNICÍPIO DE MARITUBA E SUA RELAÇÃO COM A
AGRICULTURA...............................................................................................................
56
2.2 A ALUSÃO À AGRICULTURA FAMILIAR NO PLANO DIRETOR MUNICIPAL DE
MARITUBA......................................................................................................................
69
2.3 ESPACIALIZAÇÃO DAS INICIATIVAS DE AGRICULTURA FAMILIAR NA
REGIÃO METROPOLITANA DE BELÉM........................................................................
77
CAPÍTULO 3 - DIMENSÕES DAS POLÍTICAS PÚBLICAS VOLTADAS AOS
AGRICULTORES FAMILIARES COM ÊNFASE NO PRONAF......................................
91
3.1 ASPECTOS GERAIS DA POLÍTICA ESTATAL PRONAF........................................
92
3.2 CARACTERÍSTICAS DO PRONAF NA REGIÃO NORTE E NO ESTADO
PARÁ............................................................................................................................... 101
3.3 INDICATIVOS DO PRONAF NA REGIÃO METROPOLITANA DE BELÉM COM
ÊNFASE NO MUNICÍPIO DE MARITUBA....................................................................... 106
CAPÍTULO 4 - ESTRATÉGIAS SOCIOESPACIAIS DE REPRODUÇÃO DA
AGRICULTURA FAMILIAR NO MUNICÍPIO DE MARITUBA........................................ 111
4.1 CARACTERIZAÇÃO DOS PRODUTORES FAMILIARES: TRAJETÓRIAS,
PERFIL SOCIOECONÔMICO E ORGANIZAÇÃO SOCIAL............................................ 112
4.2 AS MÚLTIPLAS PRÁTICAS SOCIOESPACIAIS RELACIONADAS À PRODUÇÃO
E A COMERCIALIZAÇÃO...............................................................................................
125
CONSIDERAÇÕES FINAIS............................................................................................
151
REFERÊNCIAS...............................................................................................................
155
APÊNDICE......................................................................................................................
164
19
INTRODUÇÃO
Esta pesquisa de dissertação tem como objeto de estudo a reprodução da
agricultura familiar na Região Metropolitana de Belém (RMB), enfocando de forma
específica agricultores de dois bairros do município de Marituba. O objetivo geral foi
analisar as estratégias que possibilitam a reprodução social dos agricultores
familiares que inseridos em espaços considerados urbanos, desenvolvem atividades
ligadas à agricultura o que nos remete a uma tradição rural presente nesta região
metropolitana.
É precisamente a partir da consideração do agir e do fazer dos agricultores,
em consonância com a relevância da perspectiva da interação e imbricação dialética
entre rural e urbano, que é possível compreender que em meio a um espaço no qual
as relações urbanas são predominantes, conectam-se a estas práticas tidas
enquanto sinais de um espaço rural, ratificado em muito pelas trajetórias de vida dos
sujeitos históricos.
As regiões metropolitanas guardam em sua essência um mosaico de relações
que se mostra espacial e temporalmente de forma diversa, ainda que estas
apresentem
urbanização,
uma
tendência
expressa
homogeneizante
também
espaços
moldada
e
pelo
relações
processo
de
diferencialmente
complementares, produzidas pelos grupos sociais diversos, são relações cotidianas
que podem ser visualizadas num estilo de vida que se tece tanto no interior das
propriedades dos trabalhadores, nas produções, na organização familiar, na relação
com a terra, quanto externamente na comercialização do que foi produzido, nas
feiras, nas portas das casas, entre outros.
A agricultura familiar, enquanto uma noção chave neste estudo é considerada
na sua essência uma categoria complexa, ligada aos diferentes tipos de agricultores,
que possuem interesses particulares, assim como estratégias próprias de
sobrevivência e de produção. Tal produção se sustenta sobre o tripé terra, trabalho e
família, e guarda um conteúdo socioespacial diverso. A esta abordagem, soma-se a
análise referente à relação rural-urbana que permeia este processo. Estes
referenciais teóricos da pesquisa foram delineados no primeiro capítulo.
O campo teórico no qual esta pesquisa se insere tem como elemento de
análise a reprodução da agricultura familiar em regiões metropolitanas. Neste
campo, encontra-se a tese de Corona (2006), que demonstra as diversas inter-
20
relações da reprodução social da agricultura familiar na Região Metropolitana de
Curitiba (RMC), revelando as estratégias criadas pelos agricultores, que garantem
sua permanência no espaço rural; rural este submetido constantemente ao processo
de transformação, intensificado pela inserção deste em uma região metropolitana.
Os trabalhadores, comumente apresentando trajetórias de vida diferenciadas,
imprimem no espaço metropolitano das cidades, outras formas de apropriação social
e espacial, que muitas vezes destoam do que é predominante no espaço entendido
enquanto urbano. Tratam-se de características diferenciadas de sobrevivência que
se fazem presentes por meio de atividades como a agricultura, as quais se
constituem enquanto atividades que possibilitam uma grande contribuição no
sustento das famílias na metrópole, configurando-se espacialmente de forma
diferenciada no espaço metropolitano.
Noronha (2008) em sua dissertação revela que o rural apresenta
transformações e reformulações em sua forma e seu conteúdo, mostrando isso no
processo de urbanização que se apresenta de forma difusa em bairros rurais do
município de Jundiaí (São Paulo). Um dos elementos analisados por Noronha (2008)
diz respeito à pluriatividade, que se configura enquanto uma estratégia tida pelos
agricultores para se reproduzirem em meio aos espaços dos bairros rurais da Toca e
da Roseira, que tem relação direta com o processo de urbanização.
Em outro sentido, Lima (2008) estuda não a expansão da urbanização sobre
o rural, mas a reprodução do rural nas cidades, observando em sua pesquisa, no
espaço urbano de Imperatriz (Maranhão), que a mudança de residência dos
trabalhadores rurais para a cidade não significou, ao menos em parte, uma
transformação de sua cultura, das atividades, das relações sociais. Mesmo morando
na cidade de Imperatriz os trabalhadores mantiveram as práticas, bem como o modo
de viver trazido de suas experiências no meio rural.
A partir do estudo de Lima (2008) é possível verificar que nas regiões
metropolitanas, as quais revelam uma dimensão material e simbólica dos grupos
sociais, a unidade contraditória e ao mesmo tempo complementar entre o rural e
urbano é expressa nos espaços criados e recriados pelos trabalhadores rurais, os
quais por meio de atividades tidas rurais, vão engendrando na cidade espaços que
contribuem para sua reprodução.
Estes espaços onde se revelam estratégias de sobrevivência ligadas à
agricultura são geralmente tidos como periféricos, enfocados na pesquisa de
21
Miranda (2008), que estão inclusos num estágio de transição rural-urbana. Conforme
esta autora é precisamente nestes espaços, onde os estudos sobre as
possibilidades de planejamento e a aplicação de instrumentos de política urbana
apresentam um déficit.
De acordo com Miranda (2008) estas áreas de transição rural-urbana seriam
espaços em que coexistem características e usos do solo tanto urbanos como rurais,
marcados pela inexistência ou diminuta estrutura urbana contínua, estando propício
a transformações econômicas, sociais e físicas, com uma dinâmica estreitamente
vinculada à presença próxima de um núcleo urbano.
No entendimento das relações e práticas socioespaciais a partir da relação
rural-urbana, faz-se necessário a compreensão de que estes conteúdos se
complementam e se diferenciam nas suas particularidades, como explanou Bagli
(2006) em seu estudo, em nível de dissertação, do rural e urbano nos municípios de
Álvares Machado, Presidente Prudente e Mirante do Paranapanema em São Paulo.
Neste estudo a partir de uma análise das origens da perspectiva dicotômica
entre o rural e urbano, tem reconhecido destaque o esforço de Bagli (2006) em
reconceituar rural e urbano, diante das transformações recentes presentes em
ambos, partindo do princípio de que há complementaridades entre rural e urbano,
contudo estas interrelações não anulam as diferenças entre estes que imprimem no
espaço conteúdos socioespaciais particulares.
Estas diversidades presentes nestes conteúdos, urbano e rural, nos espaços
metropolitanos são resultantes das relações tecidas entre os sujeitos e estes com o
espaço, entendido, conforme Santos (2006), enquanto um sistema de objetos e
ações, que se encontra imbricado num processo de complementaridade, bem como
de diferenciação, expresso na vida cotidiana dos sujeitos sociais.
É precisamente neste debate acerca da reprodução da agricultura familiar em
espaço metropolitano, que se dá a valorização da agricultura familiar enquanto uma
categoria que auxilia na compreensão das transformações no espaço rural, bem
como no espaço tido enquanto urbano. Neste sentido, este estudo tem como ponto
de partida as transformações na dinâmica espacial amazônica que aconteceram em
dois períodos, primeiramente com a colonização dirigida e espontânea para a
Região Bragantina no estado do Pará no século XIX e em segundo a colonização
incentivada pelo Governo Federal a partir da metade do século XX quando a
Amazônia é reinventada a partir de vetores externos de modernização conservadora.
22
Estas transformações, enquanto resultado da primeira e segunda colonização
empreendida pelo Estado, incidiram diretamente no conteúdo e forma da RMB, visto
que se por um lado esta difunde um padrão urbano de vivência, por outro recria
espaços/fragmentos, os quais contêm práticas socioespaciais como a agricultura,
que não necessariamente obedecem a uma lógica reconhecidamente urbana.
Deste modo, analisam-se nesta pesquisa as condições e possibilidades de
reprodução da agricultura familiar na RMB, para tanto enfocou os agricultores de
dois bairros do município de Marituba, a saber, Almir Gabriel e Uriboca. A opção
pelo estudo detalhado deste município se sustenta em decorrência da realização de
um levantamento prévio e sucinto acerca da incidência de agricultura familiar nos
municípios da RMB e a constatação que esta região metropolitana, assim como as
demais são marcadas pela expressão da agricultura familiar em sua composição.
O trabalho empírico empreendido neste estudo se deu no plano do bairro,
primeiramente porque o município de Marituba, não apresenta uma divisão oficial
em zona urbana e zona rural, isto é, os espaços do município, conforme seu plano
diretor, são considerados espaços urbanos ou em expansão urbana, o que resulta
na divisão do município em bairros, caracterizando uma divisão fundamentalmente
urbana, desta forma, para situar os agricultores espacialmente no município, utilizouse o nome dos bairros nos quais os mesmos estão inseridos.
Em segundo, o bairro foi considerado tendo em vista a perspectiva de Carlos
(2001), segundo esta autora, o mesmo se apresenta como uma prática que se
revela no plano do vivido, o qual tem sentido na evidência da vida cotidiana, na qual
se tem a aproximação maior com a dimensão das necessidades, mas também dos
prazeres e emoções dos grupos sociais.
A pesquisa realizada em nível do bairro se justifica pelo entendimento de que
no bairro é possível perceber com uma maior riqueza de detalhes as relações
socioespaciais, sendo estas as relações de vizinhança, bem como as construídas
entre o sujeito e o seu espaço. Nesta perspectiva, concordando com Certeau (1996,
p. 40) o bairro “[...] constitui para o usuário uma parcela conhecida do espaço urbano
na qual [...] ele se sente reconhecido”.
Nestas acepções a escala do bairro é por excelência a escala dos
acontecimentos presentes no cotidiano das famílias, dos vizinhos, das cooperativas
e associações. Cotidiano este, que representa, de acordo com Martins (2008), o
23
espaço do homem comum, que no seu mundo de todos os dias dá vazão as suas
vontades individuais e coletivas.
Com base na pesquisa concisa realizada sobre os municípios da RMB, a
partir de diagnósticos realizados pelo Serviço Brasileiro de Apoio a Micro e Pequena
Empresa no Pará (SEBRAE/PA), bem como por meio de informações obtidas em
outras pesquisas que são especificadas no subtópico do segundo capítulo,
possibilitou o reconhecimento desta agricultura na RMB, permitindo eleger um
município que fosse representativo desta característica presente nesta região
metropolitana, que é a permanência da agricultura familiar enquanto produção
relevante. Neste sentido, selecionou-se o município de Marituba, precisamente os
agricultores dos bairros de Almir Gabriel e Uriboca para análise minuciosa da
reprodução desta agricultura familiar.
O município de Marituba compõe a RMB, em conjunto com mais cinco, a
saber, Belém, Ananindeua, Benevides, Santa Bárbara e Santa Izabel. Destes,
Marituba apresenta um elevado grau de urbanização 87,18 % em 2000, segundo
dados do Relatório de Avaliação do Plano Diretor de Marituba (2009). Contudo,
conforme os resultados preliminares do censo 2010 do Instituto Brasileiro de
Geografia e Estatística (IBGE), esta taxa de urbanização sofreu alteração em
decorrência do aumento da população urbana em detrimento da rural, quantitativo
referente a 127.109 e 1.122 pessoas respectivamente. Apesar destes números,
pode-se dizer que o município apresenta ao mesmo tempo uma produção espacial
relevante pautada na agricultura familiar, muitas vezes desconsiderada ou
negligenciada pelas ações políticas, mas que responde pelo complemento alimentar
e financeiro de muitas famílias.
O estudo das estratégias de reprodução da agricultura familiar contribui para
demonstrar a importância desta atividade para o sustento das famílias, bem como
para os mercados locais em termos de abastecimento e assim apreender em que
medida as estratégias utilizadas na produção dos cultivos neste município se
assemelham e/ou se diferenciam. É exatamente no esforço de se considerar estes
espaços enquanto essenciais na contribuição do sustento de um número
considerável de famílias, residente nesta área metropolitana, que os mesmos
necessitam ser discutidos e valorizados no âmbito de uma proposta de gestão do
espaço regional e local.
24
Por isso, analisa-se o processo de reprodução da agricultura familiar na RMB,
precisamente nos referidos bairros de Marituba, por meio também da revelação de
estratégias de sobrevivência tidas pelos trabalhadores, bem como do conhecimento
de suas trajetórias, as quais guardam muitas vezes idas e vindas experimentadas
pelos grupos sociais. Em meio a esta discussão acerca da reprodução da agricultura
familiar e considerando os meandros da relação entre o urbano e o rural na dinâmica
espacial da composição desta região metropolitana, tendo como base empírica da
pesquisa, os agricultores dos bairros de Almir Gabriel e Uriboca em Marituba,
questiona-se:
 De que forma se dá a reprodução da agricultura familiar na Região Metropolitana
de Belém, especialmente no município de Marituba?
Esta problemática emerge da necessidade de se compreender sobre que
bases tal organização social e produtiva se reproduz diante de um conteúdo
(urbano) e de uma forma (cidade) que pretendem e tendem à homogeneização do
espaço. Por conseguinte, de posse desta problemática mais geral, levantou-se
questões secundárias em torno das estratégias socioespaciais, desenvolvidas pelos
agricultores no município de Marituba. Deste modo a questão norteadora se
desdobrou em três questões secundárias que subsidiaram a presente pesquisa:
 Os agricultores familiares enfatizados são alcançados pelas políticas públicas
direcionadas à agricultura?
 Quem são estes sujeitos sociais, suas trajetórias, experiências?
 Quais as estratégias de reprodução socioespaciais destes agricultores?
Com base nestes questionamentos levantados, os quais suscitam diversos
outros enfoques como a construção das políticas públicas, as trajetórias dos
agricultores, contudo tendo por objeto de estudo a reprodução dos agricultores,
frente à expansão crescente das relações e dos espaços predominantemente
urbanos, objetivou-se em linhas gerais:
25
 Revelar e analisar as condições socioespaciais que explicam a persistência da
agricultura entendida neste estudo enquanto familiar desenvolvida na Região
Metropolitana de Belém, precisamente nos citados bairros de Marituba.
Este objetivo geral está intrinsecamente relacionado a outros três objetivos
secundários pretendidos nesta pesquisa, para a melhor compreensão da
problemática:
 Verificar o nível de participação dos agricultores nas políticas públicas
direcionadas a este segmento
 Revelar as trajetórias vivenciadas pelos trabalhadores e familiares envolvidos na
atividade da agricultura
 Identificar as estratégias socioespaciais realizadas pelos agricultores
Para a realização deste estudo partiu-se da hipótese de que a permanência
destas práticas socioespaciais diferenciadas em Marituba está associada a
necessidade material de sobrevivência dos trabalhadores, assim como a
necessidade subjetiva de trabalhar na atividade da agricultura, seja no espaço
urbano ou rural.
Estes, por sua vez, recriam estratégias socioespaciais ligadas tanto ao
envolvimento da organização familiar na atividade, assim como à inserção destes
trabalhadores em associações e cooperativas que possibilitam o fortalecimento dos
mesmos.
Estes
fatores
combinados
representam
possibilidades
reais
de
sobrevivência para os envolvidos direta e indiretamente na produção.
As trajetórias vivenciadas pelos sujeitos indicam uma diversidade de ações e
caminhos percorridos, que expressam encontros e desencontros com um cotidiano
essencialmente rural, fatores estes que influenciam uma produção socioespacial que
se constitui em objeto de análise da presente pesquisa.
Pressupõe-se também que apesar de ter tido um acréscimo nas políticas
públicas voltadas para as atividades ligadas aos espaços rurais, ainda assim um
número considerável de trabalhadores não é beneficiado com os incentivos, fator
que decorre entre outros, do desconhecimento ou negligência quanto ao caráter
26
heterogêneo intrínseco aos grupos sociais envolvidos, sejam estes atuantes em um
espaço rural ou urbano.
Contudo, os agricultores familiares vêm assumindo espaço político destacado
no período recente e buscam afirmar-se como categoria social estratégica, haja vista
que estão apresentadas as condições políticas e institucionais para que estes
agentes possam participar de um desenvolvimento rural tão propagandeado nas
políticas. Estas políticas que se configuram isentas de neutralidade, visto que
expressam um movimento contraditório intrínseco da sociedade.
No que se refere ao instrumental metodológico, realizou-se pesquisa e análise
bibliográfica, assim como levantamento e análise documental e de dados
secundários em instituições públicas ligadas à agricultura familiar, como a Empresa
de Assistência Técnica e extensão Rural (EMATER); Secretária Municipal de
Agricultura e Abastecimento (SEMAB); Prefeitura Municipal de Marituba (PMM);
Secretária Estadual de Agricultura (SAGRI); Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística (IBGE), entre outros, com o objetivo de conhecer os números da
população rural e urbana, planos, políticas públicas concebidas para este grupo,
cadastro dos agricultores, dados relativos à produção agrícola, entre outros.
A entrevista semiestruturada é uma técnica adotada nesta pesquisa por
permitir conforme May (2004) que sejam apreendidas nos diálogos, não somente
elementos quantitativos, mas de igual importância informações qualitativas, uma vez
que o entrevistador ao utilizar esta técnica possa ir além da padronização contida
nos questionários.
Associada à entrevista semiestruturada, utilizou-se as entrevistas não
estruturadas ou abertas, especificamente a história de vida. Esta técnica permite
perceber com mais clareza as contradições sociais que envolvem a vida cotidiana
dos trabalhadores, a relação destes com o espaço produzido, com a família, com a
terra, com o espaço de comercialização e a possível relação entre este cotidiano
vivenciado e as experiências reveladas por meio das histórias relatadas por estes
trabalhadores.
Para May (2004, p. 150) a opção por determinada técnica de pesquisa está
intrinsecamente ligada aos objetivos e resultados pretendidos pelo pesquisador e no
geral, a escolha pela técnica de entrevista aberta se justifica pela compreensão de
que “[...] as entrevistas estruturadas dão pouco espaço para as pessoas
27
expressarem as suas próprias opiniões da maneira que escolherem. Elas têm que se
ajustar a quadros ou categorias que o pesquisador já predeterminou”.
Partindo da necessidade de conhecer os espaços dos trabalhadores, bem
como suas práticas socioespaciais, as quais produzem espaços diferenciados, fezse necessário observar os processos experimentados pelos sujeitos, por meio das
conversas com os mesmos. Segundo Silva (2004) os relatos podem revelar que a
memória é uma reconstrução social, e pode transformar o presente, na medida em
que reinterpreta o passado.
Para analisar as estratégias que respondem pela reprodução dos agricultores
dos bairros selecionados, foi delimitado o número de agricultores entrevistados,
utilizando a técnica da amostragem. Diante da impossibilidade de entrevistar todos
os agricultores familiares residentes em Marituba, em decorrência da natureza da
entrevista implementada, que requer um tempo maior para a realização e análise,
bem como a ausência de recursos suficientes para subsidiar os procedimentos,
dentre outros fatores, priorizou-se a seleção de um número predefinido de
agricultores.
O total de agricultores entrevistados obedeceu a uma seleção pautada em
critérios indissociáveis, que dizem respeito, tanto à representatividade dos
agricultores, quanto à espacialidade destes no que se refere à agricultura. A amostra
de agricultores, não necessariamente representativa, encontra-se inserida no
universo de estabelecimentos da agricultura familiar contabilizados pelo censo
agropecuário do ano de 2006 (BRASIL, 2006), o qual totalizou cento e dezesseis
unidades familiares produtivas.
Neste sentido, foram entrevistados vinte agricultores familiares, sendo dez
agricultores, localizados no bairro Almir Gabriel, reconhecidos pela produção
hidropônica e orgânica e dez agricultores do bairro Uriboca, representativos, pela
produção de hortaliças para o fornecimento, principalmente, na feira do Ver-o-Peso
no município de Belém. Na sistematização das informações obtidas no trabalho
empírico, buscou-se preservar a identidade dos entrevistados, para evitar possíveis
contratempos, entretanto, os mesmos foram identificados por meio de números, de 1
a 20, conforme o número de entrevistas.
Essa etapa de campo se constituiu em uma das etapas fundamentais desta
pesquisa, uma vez que nela se deu a reconstrução das trajetórias familiares no
estabelecimento por meio de uma detalhada investigação, da qual resultaram
28
importantes e enriquecedores depoimentos, os quais foram utilizados no processo
de análise e expostos nesta pesquisa, sobretudo no terceiro capítulo.
Além da utilização das entrevistas como ferramenta essencial, o aporte
metodológico da pesquisa foi desenvolvido por levantamento cartográfico, bem como
visitas ao recorte empírico com observação sistemática, registro fotográfico, tanto
dos espaços de produção, quanto de comercialização com o propósito de conhecer
e revelar as práticas socioespaciais cotidianas destes grupos sociais. Tanto as
observações sistemáticas, quanto as entrevistas, e o registro fotográfico,
configuram-se enquanto instrumentos fundamentais para a constatação da
persistência destas estratégias no espaço metropolitano, precisamente em Marituba,
ratificando a relevância da análise em questão para a região.
Do mesmo modo que a pesquisa balizou-se por um aporte metodológico, esta
também se orientou por um referencial teórico-conceitual, que tem como teorias e
conceitos chaves, primeiramente o espaço enquanto a indissociação entre sistema
de objetos e sistema de ações conforme Santos (2006). A agricultura familiar
enquanto uma categoria genérica que guarda uma diversidade de formas sociais na
perspectiva de Wanderley (1996; 2003), assim como uma categoria socioprofissional
institucionalizada conforme Neves (2007) e a concepção da reprodução das
relações sociais, concebida, sobretudo por Lefebvre (1999), Bourdieu (2004);
Bourdieu e Passeron (1992), além da utilização de apontamentos da obra de Marx e
Engels (2009).
A pesquisa necessitou da orientação de algumas noções e conceitos
secundários, mas não menos imprescindíveis para o entendimento dos processos, a
saber, a relação de diferenciação e complementaridade entre rural e urbano,
baseando-se em Alentejano (2000), Marques (2002) e Spósito (2006), além da
discussão sobre metropolização do espaço partindo da concepção de Lencioni
(2003), assim como os aspectos do cotidiano concebido por Martins (2008), entre
outros.
A pesquisa estruturou-se em alguns momentos que se materializaram em
quatro capítulos, os quais foram subdivididos em tópicos para o melhor
direcionamento do trabalho escrito. Contudo os capítulos resultantes desta pesquisa,
não se encontram isolados, mas conectados pela problemática central deste estudo.
No primeiro capítulo intitulado “Abordagem teórico-conceitual acerca da
reprodução da agricultura familiar em espaço metropolitano”, discutiu-se as
29
perspectivas conceituais acerca da agricultura familiar, bem como os elementos
caracterizadores. Em seguida, foram analisadas algumas interpretações referentes
ao conceito de reprodução, assim como a ênfase na relação rural-urbana, relação
esta que permeia o processo de reprodução da agricultura familiar na região
metropolitana de Belém.
No segundo capítulo “Formação histórico-geográfica do município de Marituba
e sua relação com a agricultura”, caracterizou-se de forma geral o processo histórico
de ocupação do município em sua relação com a atividade agroindustrial, sua
constituição enquanto município, sua localização, dados secundários relativos à sua
população. Destacando-se, neste segundo capítulo, como o plano diretor municipal
definiu o zoneamento dos espaços agrícolas em Marituba e por fim a espacialização
da composição metropolitana com ênfase para as iniciativas da agricultura familiar
na RMB.
Já no terceiro capítulo intitulado “Dimensões das políticas públicas voltadas
aos agricultores familiares com ênfase no PRONAF”, partiu-se das políticas públicas
direcionadas
aos
agricultores,
explorando
os
conteúdos
dos
programas,
principalmente do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar
(PRONAF), além da análise de dados secundários e primários que indicaram o nível
de participação dos agricultores nestas políticas, bem como a relevância destas na
reprodução destes grupos.
Finalmente no quarto capítulo ”Estratégias socioespaciais de reprodução da
agricultura familiar no município de Marituba”, sistematizou-se as estratégias
socioespaciais de reprodução destes agricultores, revelando as estratégias dos
agricultores no que concernem as práticas socioespaciais de produção e
comercialização,
perpassando
pelas
suas
trajetórias,
características
socioeconômicas e organização social em cooperativas e associações. Estas
estratégias conjugadas convergem para reprodução das famílias ligadas à
agricultura no município de Marituba, inserido na RMB.
30
CAPÍTULO
1
-
ABORDAGEM
TEÓRICO-CONCEITUAL
ACERCA
DA
REPRODUÇÃO DA AGRICULTURA FAMILIAR EM ESPAÇO METROPOLITANO
A análise acerca da compreensão da categoria agricultura familiar no campo
teórico, assim como os processos que envolvem a sua reprodução em espaço
metropolitano e que por sua vez expressam uma relação rural-urbana presente
nestes espaços recortados para a análise, configuram-se sobremaneira no objeto de
apreciação neste primeiro capítulo.
Neste sentido este primeiro momento da dissertação está sistematizado em
três itens. Primeiramente destacam-se às distintas concepções sobre a agricultura
familiar,
presente
nos estudos de
Abramovay (2007), Fernandes (2002),
principalmente de Wanderley (1996; 2003), Neves (2007), Schmitz (2008), entre
outros que se debruçaram sobre a temática.
No segundo, discute-se o conceito de reprodução, pautando-se, sobretudo no
trabalho de Lefebvre (1999) intitulado “Estrutura social: a reprodução das relações
sociais”, além dos escritos de Bourdieu (2004); Bourdieu e Passeron (1992) acerca
da problemática da reprodução em consonância também com apontamentos da obra
de Marx e Engels (2009), buscando neste subtópico os elementos que caracterizam
este processo de reprodução dos agricultores.
Já a abordagem, desenvolvida no terceiro e último item deste capítulo, referese à relação rural-urbana, a qual é entendida a partir da imbricação dialética entre os
conteúdos, tanto de complementaridade, quanto de diferenciação, fundamentou-se
principalmente nos trabalhos de Marques (2002), Alentejano (2000), Guerra (2006),
Spósito (2006) entre outros, enfatizados neste estudo.
Este momento da dissertação foi construído com o intuito de subsidiar de
forma teórica e conceitual o objetivo que busca identificar as estratégias
socioespaciais dos agricultores, uma vez definida à perspectiva conceitual de
agricultura familiar, bem como de reprodução atrelada às estratégias, no contexto da
relação rural-urbana, associada à pesquisa empírica propriamente desenvolvida no
terceiro capítulo, certamente será realizada a análise acerca das estratégias
empreendidas pelos agricultores.
Objetivou-se em síntese, neste primeiro momento da dissertação, entender no
plano teórico a reprodução da agricultura familiar, presente não somente no espaço
31
rural, mas também sendo desenvolvida no espaço urbano, demonstrando uma
relação de complementaridade e diferenciação entre o par rural-urbano, frisando a
valorização da agricultura familiar não a partir de sua forma, mas sobremaneira
tomando como referencial seu conteúdo, sendo esta desenvolvida no campo ou na
cidade, no rural ou no urbano ou na imbricação entre ambos.
1.1 AGRICULTURA FAMILIAR: UMA REFLEXÃO NECESSÁRIA
O recorte empírico privilegiado nesta dissertação apresenta atividades
pautadas na produção agrícola, sobretudo de hortaliças, bem como na criação de
animais de pequeno porte, realizadas por familiares ou cooperados no município de
Marituba. Estas práticas socioespaciais são desenvolvidas nos quintais das casas,
em áreas não utilizáveis por residências ou outras construções, estes espaços
utilizados são, geralmente, reduzidos, pois estão localizados em espaços urbanos
ou próximos a estes, conforme zoneamento proposto pelo plano diretor municipal do
município de Marituba vigente desde o ano de 2007.
A percepção da realidade presenciada condicionou ao entendimento de que
esta forma de produzir, associada à produção propriamente dita, apresenta
proximidade com uma concepção genérica de agricultura familiar, pautada na
organização social e produtiva administrada pela família ou por cooperados.
Ao se definir a agricultura familiar enquanto um primeiro termo essencial para
a pesquisa, o qual guarda uma discussão teórica extensa, faz-se necessária uma
apreciação teórica do termo agricultura familiar, conforme a análise de alguns
autores, principalmente de Wanderley (1996, 2003), Neves (2007), Abramovay
(2007), Schmitz (2008), Fernandes (2002), entre outros, que se debruçaram sobre a
temática.
Schmitz (2008) em consonância com Neves (2007) demonstra que a
discussão acerca do termo agricultura familiar comumente aparece associada
distinta ou indistintamente a dois conceitos, de campesinato e pequena produção.
Estes termos, segundo os autores enfatizados, surgiram no Brasil de forma
cronológica relacionados a diferentes modelos de desenvolvimento, cuja emergência
se deu tanto em âmbito político, quanto em âmbito analítico com o propósito de
descrever a categoria.
32
No âmbito político, inúmeras instituições tiveram significativa contribuição na
elaboração e uso dos conceitos, seja referente ao campesinato, a pequena
produção, ou a agricultura familiar, dentre estas, destaca-se, conforme Schmitz
(2008) O Partido Comunista Brasileiro (PCB) que criou o Bloco Operário e
Camponês (BOC) em 1927 e as primeiras ligas camponesas nos anos 1940; o
Governo Militar (anos 1960), Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra
(MST), Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), Universidades, Governos
democráticos (anos 1990), entre outros.
Nesta perspectiva cronológica, a literatura indica que o campesinato como um
conceito chave no contexto da questão agrária brasileira surge a partir dos anos
1950, incorporando uma diversidade de relações de trabalho e de formas de acesso
a terra. Desta forma o conceito de campesinato foi, de acordo com Schmitz (2008, p.
3) “associado a um conteúdo político-ideológico e o conceito oposto foi o de
latifúndio”.
Conforme Moraes (1998) a análise que as Ciências Sociais no Brasil fazem
sobre o campesinato perpassou basicamente por três grandes matrizes, uma de
cunho marxista, com ênfase no processo de proletarização, portanto enfatizando
muito mais o desenvolvimento do capitalismo em detrimento do campesinato. Em
outro enfoque primou-se pelas análises ditas culturalistas, pautadas em Redfield,
Wolf, Mendras, Shanin.
E por último a análise chayanoviana a partir de sua teoria dos sistemas nãocapitalistas e ainda a teoria marxista do modo de produção camponês, com base em
Tepicht e Galeski compondo o terceiro enfoque. No âmbito da análise do
campesinato propriamente dito, estes dois últimos enfoques se destacam, por
analisarem o camponês “[...] como algo específico, seja como cultura ou como
economia, buscando a partir ora de um, ora de outro desses aspectos, o irredutível,
a identidade” camponesa. (MORAES, 1998, p. 124)
Outro conceito que emerge no cenário político e acadêmico brasileiro é o
conceito de pequena produção atrelado aos camponeses, o qual tem seu
surgimento por volta dos anos de 1970, este estava estritamente relacionado com as
transformações políticas do Estado com a Ditadura Militar, e a consequente
valorização do latifúndio e desarticulação de alguns movimentos que tinham por
base a unidade camponesa, atribuída, sobretudo neste período o adjetivo de
pequena produção.
33
Já a agricultura familiar, configura-se em outro termo que emerge nas
análises da questão agrária. Para Neves (2007), foi precisamente a partir da última
década do século XX (1990), que o termo passou a receber destaque em nível
internacional, frisando que em pesquisas foi constatado que de 1935 até 1984, não
houve referência ao uso do termo agricultura familiar. Este termo surge inicialmente
nos trabalhos estadunidenses e europeus, contrapondo-se ao modelo de
interdependência entre agricultura e indústria.
É exatamente neste contexto que segundo Neves (2007) se inicia um
processo de construção do agricultor familiar a partir da redemocratização do Brasil,
bem como da elaboração de políticas públicas direcionadas a esta categoria, a qual
é denominada pela autora de socioprofissional, uma vez que seu reconhecimento
resulta de um processo político de enquadramento institucional.
A emergência desta categoria traz consigo um debate acerca das abordagens
que enfocam os termos agricultura familiar e campesinato a partir do prisma da
diferenciação. Nesta perspectiva é elucidativa a tese de doutoramento de
Abramovay (2007). Neste estudo o referido autor demonstra que as unidades
familiares de pequeno porte, associadas a sua crescente tecnificação e
investimentos por parte dos estados europeus e dos Estados Unidos se mostraram
mais eficazes na produção de alguns tipos de produtos alimentares, ressaltando,
porém que este agricultor em nada se assemelha ao campesinato tradicional.
Numa perspectiva de mudanças e permanências e até certo ponto
evolucionistas, Abramovay (2007) explicita que as mudanças sofridas pela produção
familiar na agricultura são tão intensas que não permitiram que as características
centrais da produção camponesa permanecessem, pontuando que
Tanto Chayanov como Tepicht [...] têm perfeita consciência de que por mais
importante que seja a caracterização do camponês como uma forma social
estável, esta tende irrefreavelmente a transformação e, no limite, à extinção.
(ABRAMOVAY, 2007, p. 67)
Neste sentido Abramovay (2007, p. 137) frisa os camponeses do Sul do
Brasil, os quais se integraram plenamente às estruturas do mercado nacional,
transformando sua base técnica e conseqüentemente se metamorfoseando “[...]
numa nova categoria social: de camponeses, tornam-se agricultores profissionais.
34
Aquilo que antes de tudo era um modo de vida converte-se numa profissão, numa
forma de trabalho”.
Com uma abordagem visando à valorização do campesinato, em detrimento
do agricultor familiar, tem-se outro trabalho significativo, o estudo de Fernandes
(2002) intitulado “Agricultura familiar e/ou agricultura camponesa”, no qual
demonstra a importância, valor histórico e político-ideológico que o conceito de
camponês tem frente ao termo agricultura familiar. Para Fernandes (2002) há um
grupo de teóricos que valoriza a agricultura familiar em detrimento do campesinato,
enquanto conceito, alegando que este último vem perdendo seu poder explicativo,
diante das transformações ocorridas no espaço agrário.
Fernandes (2002) enfatiza que em geral as análises que elegem a agricultura
familiar, pautam-se sobremaneira numa racionalidade econômica, sugerindo uma
compreensão parcial, na qual não há o aprofundamento da análise da questão
agrária. Para este autor a construção teórica acerca da agricultura familiar tem
contribuído para uma imagem negativa dos camponeses, visto que as abordagens
relacionam o camponês ao velho, arcaico e atrasado ao passo que o agricultor
familiar representa o novo, o moderno, o progresso.
Em sentido divergente a análise de Fernandes (2002) e partindo da
compreensão de que a agricultura familiar tem na sua base a combinação genérica
terra-trabalho-família, Wanderley (1996), entende que a agricultura familiar
corresponde a uma categoria que incorpora uma diversidade de situações
específicas, podendo se caracterizar, entre outras formas, enquanto uma agricultura
camponesa, ou uma agricultura de subsistência, multiplicidades estas que se
associam às particularidades inerentes às diferenciadas produções socioespaciais
dos agricultores.
Esta combinação inerente à categoria agricultura familiar em recortes
temporal e espacialmente distintos revela formas sociais que demandam uma
análise com base no empírico, por sua vez uma formulação conceitual, como no
caso da agricultura camponesa, da agricultura de subsistência, entre outras.
Contudo para outros autores como Neves (2007), este caráter diverso
atribuído à agricultura familiar é forjado por políticas públicas voltadas a este
segmento, que visando à construção de uma única categoria socioprofissional,
reúne num mesmo aporte analítico, diversos e heterogêneos grupos sociais. Tal
35
postura, ao invés de esclarecer, segundo a autora, confunde as características
essenciais de grupos com organização social, cultural e econômica diferenciadas.
É reconhecida também por Schmitz e Mota (2007) a dificuldade de
diferenciação interna concernente à agricultura familiar, porém quando se trata de
distingui-la
da
agricultura
dita
patronal,
além
do
tamanho
da
área
do
estabelecimento como critério notoriamente utilizado, deve-se considerar outros
critérios relevantes como o grau de utilização da mão-de-obra familiar, a renda do
agricultor, a significância do autoconsumo, as regras de herança, o aspecto cultural,
a relação com os recursos naturais, dentre outros.
Para Hurtienne (2005) a diversidade da agricultura familiar na Amazônia não
se esclarece somente pelos fatores socioeconômicos e políticos, mais também com
base nos agroecológicos, estes últimos ainda pouco compreendidos, uma vez que
ainda perdura a concepção equivocada de que a agricultura familiar eleva, em
grande escala, os níveis de desmatamento. Divergindo deste pensamento
incoerente acerca da agricultura familiar, o mesmo expõe que,
[...] o que sempre foi percebido como pequena produção de subsistência
sem grandes chances de aumentar sua produtividade é reinterpretado como
um campo bem mais diverso de formas de agricultura familiar com
possibilidades econômicas também diversas. (HURTIENNE, 2005, p. 30)
A dificuldade em se caracterizar uma agricultura familiar, deve-se inicialmente
ao não reconhecimento de sua heterogeneidade, bem como a consideração de
somente um critério ou outro para a definição da mesma. Comumente se utiliza, de
forma inconsistente, um único critério, a saber, tamanho da propriedade, para se
definir a agricultura familiar, bem como produtores familiares.
Dentre os elementos para se caracterizar a agricultura familiar, bem como
seus produtores, há de se considerar, além do tamanho dos estabelecimentos, a
significância da subsistência, assim como as tradições e heranças relacionadas à
estruturação e práticas socioespaciais que envolvem a vivência destes sujeitos, bem
como sua organização social são elementos fundamentais no entendimento desta
categoria.
Partindo da diversidade intrínseca à categoria agricultura familiar e
convergindo com Wanderley (2003), tem-se certa resistência em valorizar
demasiadamente o camponês como único sujeito detentor de conteúdo histórico, em
36
detrimento do agricultor familiar como supõe Fernandes (2002), assim como há um
descontentamento com a proposição, essencialmente evolucionista, de que o
camponês estará cedo ou tarde fadado ao desaparecimento, visto que com a
inserção de tecnologias, investimentos estatais e intensificação da relação com o
mercado, este estará “irrefreavelmente” nos termos de Abramovay (2007) se
transformando em agricultor profissional.
Antes de se considerar esta passagem irreversível da condição de camponês
tradicional para de agricultor familiar profissional nos moldes de Abramovay (2007),
ou a negação do agricultor familiar enquanto sujeito ausente de história e
resumidamente objeto de ação do Estado, deve ser considerado conforme
Wanderley (2003) a capacidade de resistência e de adaptação dos agricultores aos
novos contextos econômicos e sociais, os quais são outros e, por sua vez
demandam outras estratégias, conforme o que ocorreu com os agricultores de
Marituba, dentre os quais, um número relevante foi forçado a migrar de suas terras
anteriormente.
Mesmo não devendo conceber agricultura familiar enquanto um conceito, mas
uma categoria de ação política como advoga Neves (2007), em geral, veiculada pelo
Estado, é necessário, ponderar como explicita Wanderley (2003) que,
Mesmo sendo uma identidade “atribuída”, na maioria dos casos, ela é
incorporada pelos próprios agricultores e à diferença de outras
denominações impostas de fora (agricultor de baixa renda, por exemplo),
ela aponta para qualidades positivamente valorizadas e para o lugar desse
tipo de agricultura no próprio processo de desenvolvimento. (WANDERLEY,
2003, p. 58)
Convém esclarecer, que o objetivo desta análise foi menos uma proposição
de distinção e conceituação entre agricultores familiares e camponeses e mais uma
necessidade de entendimento deste caráter diverso da agricultura frente às
atividades industriais, comerciais e de serviços, predominantes nos espaços
metropolitanos, como é percebido no recorte espacial.
Neste sentido, enfatiza-se a natureza da reprodução desta agricultura familiar,
no próximo item, relacionando às diversas e diferenciadas formas que estes
dispõem para a organização em cooperativas ou no núcleo familiar para produzir,
para seleção de critérios sobre o que produzir, a relação tida com o mercado, entre
37
outros. Estas questões possivelmente são passíveis de esclarecimentos, quando se
eleva a importância da pesquisa empírica com estes produtores, em espaços rurais
ou urbanos, atrelada às apreciações teóricas.
1.2 A NATUREZA DA REPRODUÇÃO DA AGRICULTURA FAMILIAR
O entendimento da permanência da agricultura familiar em regiões
metropolitanas perpassa necessariamente pela compreensão do processo de
reprodução, possibilitado pelas diversas estratégias realizadas pelos agricultores.
Estas estratégias estão diretamente associadas às práticas socioespaciais das
famílias, que envolvem desde a organização do núcleo familiar e das cooperativas
até a comercialização da produção.
Neste sentido, objetivando compreender a
reprodução, buscando um quadro de análise no que concerne ao termo, enfocou-se
a categoria a partir das elaborações, sobretudo de Lefebvre (1999), bem como de
Bourdieu e Passeron (1992); Bourdieu (2004), para o qual o processo de reprodução
está intrinsecamente relacionado às estratégias, além de alguns apontamentos da
obra de Marx e Engels (2009).
A teoria marxiana em geral, e os escritos de Marx e Engels (2009)
especificamente na primeira parte da Ideologia Alemã, já delineavam princípios
essenciais na compreensão da reprodução nas suas diversas dimensões. Partindo
da diferenciação entre “os homens” e os animais, pautada não somente na
consciência e religião por parte do primeiro, mas sobremaneira na sua capacidade
de produção dos meios de subsistência, os quais conforme os autores não devem
ser entendidos somente enquanto uma reprodução biológica, mas uma reprodução
social, conforme expõe Marx e Engels (2009, p. 24).
Esse modo de produção não deve ser considerado no seu mero aspecto de
reprodução da existência física dos indivíduos. Trata-se já, isto sim, de uma
forma determinada da atividade desses indivíduos, de uma forma
determinada de exteriorizarem a sua vida, de um determinado modo de
vida dos mesmos. Como exteriorizam a sua vida, assim os indivíduos o são.
[...] Aquilo que os indivíduos são depende, portanto, das condições
materiais de produção. (MARX E ENGELS, 2009, p. 24, grifo nosso).
38
Na concepção de Marx e Engels (2009) a reprodução para além de uma
reprodução biológica, deve ser entendida enquanto social, a qual consiste na
produção, por parte dos grupos sociais, dos meios de sobrevivência, os quais estão
associados aos estilos de vida dos grupos. Neste sentido, a reprodução dos
agricultores de Marituba expressa um “determinado modo de vida”, o qual
possivelmente revela uma tradição rural presente no cotidiano destes trabalhadores.
Marx e Engels (2009, p. 23-24/40) ao definirem que a concepção materialista
da história, em contraposição a concepção idealista, seria engendrada tendo por
base “[...] os indivíduos reais, a sua ação e as suas condições materiais de vida,
tanto as que encontraram quanto as que produziram pela sua própria ação”, os
autores negaram a perspectiva embasada na imaginação e consciência enquanto
determinantes, e primaram pela percepção empírica fundamentada na história, a
qual por sua vez tem como primeiro ato, a produção dos meios para satisfação das
necessidades, fazendo parte, sobretudo “[...] comer e beber, habitação, vestuário e
ainda algumas outras coisas”.
Para Lefebvre (1999) se num primeiro momento analítico Marx e Engels ao
formular acerca do sistema de produção capitalista e a gênese deste na história,
ainda que se tenha indicado outros elementos, enfocaram a reprodução de forma
marcadamente produtiva no sentido dos meios de produção, em outro momento por
volta de 1863, Marx em uma carta encaminhada a Engels comentando o quadro
econômico de Quesnay, reconhece o conceito de “reprodução total”, o qual é
permeado por uma dinâmica relação entre permanência e inovação, a qual envolve
todo o processo de reprodução das relações sociais.
[...] Marx julga que este quadro não resume apenas uma circulação de bens
e dinheiro, mostra de que modo e por que razão o processo não se
interrompe, pois reproduz as suas próprias condições [...] Já não se trata,
portanto, da reprodução dos meios de produção, mas da reprodução das
relações sociais. (LEFEBVRE, 1999, p. 222)
Lefebvre (1999) analisa a reprodução das relações sociais de produção,
demonstrando que os trabalhos que se dedicaram ao esclarecimento dos processos
que permearam e possibilitaram a reprodução das relações sociais apresentaram
um caráter reducionista e parcial, constituindo-se em abordagens incompletas sobre
a problemática da reprodução.
39
Neste sentido Lefebvre (1999) aponta que um segmento da corrente
estruturalista reduziu o problema da reprodução das relações de produção a um
componente elementar, os meios de produção, as indústrias, as empresas,
centrando excepcionalmente na reprodução da força de trabalho, conforme é
possível perceber na citação a seguir:
Na perspectiva do marxismo estrutural-funcionalista, a reprodução das
relações de produção reduz-se a um simples reforço, a uma duplicação
destas relações pela intervenção do estado. [...] Este Estado intervém
enquanto moderador, reduzindo os conflitos conforme interesse da fração
hegemônico-burguesa. (LEFEBVRE, 1999, p. 236)
Nesta perspectiva de demonstrar que a reprodução das relações sociais de
produção não se explica tão somente pelas indústrias, ou pela empresa, Lefebvre
(1999) frisa que a problemática da reprodução foi abordada de forma prudente, mas
incompleta pelo marxista Wilhelm Reich, o qual percebeu nas relações sexuais e
familiares analogias com as relações de produção capitalistas, propondo o lar
familiar enquanto centro onde se produz e reproduz as relações sociais de produção
em analogia a empresa capitalista.
Outras análises parciais, mas não menos coerentes sobre o processo de
reprodução e suas nuances foram construídas. Lefebvre (1999, p. 245) partindo do
pressuposto de que ao contrário de um sistema acabado, sempre existirá o esforço
com propósito de sistematização, defende enquanto hipótese estruturante que “[...] o
lugar da reprodução das relações de produção não se pode localizar na empresa, no
local de trabalho e nas relações de trabalho”.
A partir de um exame retrospectivo acerca da realidade francesa, Lefebvre
(1999) constrói sua tese no âmbito da reprodução das relações de produção,
pautando-se na concepção de que o capitalismo como se apresenta transformou
concepções, bem como criou elementos chaves na sociedade, a concepção de
lazer, cultura, entre outros, apropriando-os ao seu uso.
O capitalismo não subordinou apenas a si próprio, setores exteriores e
anteriores: produziu setores novos transformando o que preexistia [...] Não
é apenas toda a sociedade que se torna o lugar da reprodução (das
relações de produção e não já apenas dos meios de produção): é todo o
espaço. (LEFEBVRE, 1999, p. 247)
40
Com base na citação acima, observa-se que a hipótese estruturante de
Lefebvre (1999) perpassa menos pelas abordagens isoladas e parciais acerca da
reprodução e mais pela perspectiva totalizante, haja vista o enfoque no espaço, no
qual são condicionadas, bem como erigidas as inúmeras possibilidades de
reprodução das relações sociais de produção.
A reprodução das relações sociais de produção no âmbito do sistema de
produção capitalista, para Lefebvre (1999) não pode ser mais associado unicamente
aos meios de produção, as empresas, ainda que se considere o lucro imediato ou o
crescimento da produção, há além deste valor quantitativo, uma mudança qualitativa
nas relações reveladas num cotidiano reduzido ao consumo programado mascarado
pelas aparências e ideologias.
A reprodução da agricultura familiar na RMB e especialmente em Marituba ao
mesmo tempo em que revela um cotidiano reduzido ao consumo programado,
expressa também relações cotidianas que estão além das rotinas. Na acepção de
Martins (2008) está associada a um modo de viver, o qual não se reduz aos
aspectos repetitivos e rotineiros ausentes de história.
Nesta perspectiva de demonstrar outras dimensões da reprodução das
relações sociais, que não necessariamente via indústria, enfatiza-se o trabalho de
Bourdieu e Passeron (1992) intitulado “A Reprodução”, no qual os autores se voltam
para o funcionamento do sistema educacional francês e identificam que a escola, no
geral, não cumpre com seu papel de transformação social, acentuando as
desigualdades de classe.
Esta relação desigual deve-se ao fato da escola negligenciar as diferenças
socioculturais entre as classes abastada e desprovida, privilegiando em sua teoria e
prática pedagógica os valores culturais que dizem respeito à classe dominante.
Neste sentido para Bourdieu e Passeron (1992) esta ação pedagógica se configura
enquanto uma violência simbólica, na medida em que esta é imposta
arbitrariamente, tendendo a uma reprodução cultural e social.
As transformações empreendidas pelo capitalismo e que permeiam as
relações sociais em todas as suas dimensões, não são isentas de conflitos e
contradições apesar dos poderes e tendências coercitivas. Se o espaço por um lado,
torna-se lugar por excelência da reprodução das relações de produção, por outro
lado, este tende a reproduzir-se conforme as práticas sociais fruto das contestações
41
e insatisfações próprias dos grupos sociais descontentes com a tendência
homogeneizante diante das diferenças, como expõe Lefebvre (1999).
Se o espaço se torna lugar da reprodução (das relações de produção),
torna-se também lugar de uma vasta contestação não localizável, difusa,
que cria o centro às vezes num sítio e logo noutro. Essa contestação não
pode desaparecer, pois o rumor e a sombra prenhe de desejo e de
expectativa que acompanham a ocupação do mundo pelo crescimento
econômico, pelo mercado e pelo Estado (capitalista e socialista).
(LEFEBVRE, 1999, p. 248)
Esta contradição inerente ao processo de reprodução das relações sociais
revela o imprevisível, o incalculável, visto que a reprodução dos grupos sociais, não
se configura enquanto uma repetição, caracterizada por uma determinação
mecânica. Para Bourdieu (2004, p. 81) este caráter dinâmico implícito à reprodução
tem relação direta com outro elemento chave na sua pesquisa, as estratégias, as
quais constituem, conforme o autor “[...] produtos do senso prático como sentido do
jogo, de um jogo social particular”.
As estratégias na análise de Bourdieu (2004) não devem ser entendidas e
consideradas de forma isolada, nem na valorização de uma em detrimento de outra,
como no seu estudo sobre casamento no Béarn, onde as estratégias matrimoniais
não podiam ser dissociadas do conjunto das estratégias (de fecundidade,
educativas, econômicas, entre outras), visto que é,
Através das quais que a família visa se reproduzir biologicamente e,
sobretudo socialmente, isto é, reproduzir as propriedades que lhe permitem
conservar sua posição, sua situação no universo social considerado.
(BOURDIEU, 2004, p. 87)
Transferido a concepção de Bourdieu (2004) acerca das estratégias para a
análise da agricultura familiar nos bairros enfatizados, pode-se dizer que as
estratégias praticadas pelos agricultores não devem ser analisadas de forma
isolada, uma vez que as estratégias de organização política, técnicas, produtivas,
territoriais, de comercialização, entre outras, convergem para um único objetivo, a
reprodução destes agricultores.
Bourdieu (2004) ao longo de sua dedicação à pesquisa das sociedades
contemporâneas e das relações sociais que mantêm os diferentes grupos sociais, e
convergindo metodologicamente com Marx e Engels (2009, p. 41) no que se refere à
42
valorização de condições vitais como a satisfação das necessidades, a produção da
própria
vida
material,
observou
problemas
fundamentais,
muitas
vezes
desconsiderados, como por exemplo, a compreensão da,
[...] lógica específica das estratégias que os grupos,
famílias, empregam para se produzir e reproduzir,
perpetuar sua unidade, logo, sua existência enquanto
sempre, e em todas as sociedades, a condição da
posição no espaço social. (BOURDIEU, 2004, p. 94)
e particularmente as
isto é, para criar e
grupos, que é quase
perpetuação de sua
A necessidade de entender os mecanismos, as estratégias que perpassam e
dão sentido a todo o processo de reprodução dos grupos sociais desde a produção
das necessidades elementares à reprodução das condições de existência, como
enfocou Marx e Engels (2009), assim como Bourdieu (2004), consiste no principal
propósito deste estudo, ou seja, a reprodução dos agricultores na RMB que estando
em espaços urbanos ou próximos a estes conseguem resistir a esta tendência
homogeneizante da qual versou Lefebvre (1999) e reproduzir-se a partir de
condições materiais diferenciadas do entorno.
A reprodução da vida social envolve tanto a mudança de algumas estruturas
quanto a permanência de outras. É um processo dinâmico, não implica na
perpetuação imutável de uma realidade: dá-se em meio a transformações e
adaptações, viabilizadas pelas estratégias engendradas pelos indivíduos. Estas
transformações, considerando os agricultores enfatizados na pesquisa e sua
localização em recortes entendidos como urbanos, tem como processo balizador a
relação rural-urbana, processo que será analisado no tópico seguinte.
1.3 A RELAÇÃO RURAL-URBANA NA ANÁLISE DA AGRICULTURA FAMILIAR EM
ESPAÇO METROPOLITANO
Apesar da predominância de relações socioespaciais urbanas, bem como
comerciais e de serviços, revela-se no espaço metropolitano das cidades outras
formas de apropriação, imprimindo neste, características diferenciadas de vivência e
sobrevivência que podem significar a possibilidade do rural nas regiões
metropolitanas, visualizadas na relação intrínseca entre os objetos e as ações.
43
Estes objetos e ações interdependentes e articulados dialeticamente,
conforme Santos (2006) designam um espaço geográfico provisório, o qual antes de
indicar o sentido de localização, expressa processos sociais que guardam
organizações
socioespaciais
próprias
que
interagem
numa
dada
região
metropolitana.
Os objetos sociais são entendidos, neste estudo, como sendo a materialidade
das práticas sociais, ou seja, produto das ações dos sujeitos, resultando na
espacialização dos mesmos. Este par objeto-ação é lido no espaço e compreendido
a partir da interação destes entre si e com o espaço como um todo.
Os objetos na leitura de Santos (2006) são tudo o que existe na terra, herança
da história natural e resultante da objetivação das ações humanas. Os objetos nesta
visão designam o extenso, a objetividade, o que o homem constrói e se torna
instrumento material de sua vida.
A análise geográfica que se empreende do espaço metropolitano, no que
circunscreve o município de Marituba, deve está alicerçada na inseparabilidade
entre as ações e os objetos, uma vez que “[...] o enfoque do espaço geográfico,
como resultado da conjugação entre sistemas de objetos e sistemas de ações,
permite transitar do passado ao futuro, mediante a consideração do presente.”
(SANTOS, 2006, p. 100).
O espaço, neste sentido, exprime a produção histórico-social da sociedade,
consequentemente a visualização das marcas desta sociedade só pode ser possível
no mesmo e a partir dele, em consonância com Carlos (2001);
Os diversos elementos que compõem a existência comum dos homens
inscrevem-se em um espaço; deixam aí suas marcas. Lugar onde se
manifesta a vida, o espaço é condição, meio e produto da realização da
sociedade humana em toda a sua multiplicidade. (CARLOS, 2001, p. 11)
Este espaço aludido por Carlos (2001), num contexto metropolitano, guarda
um mosaico de relações múltiplas e diferenciadas, que por sua vez, fazem com que
estes espaços, enquanto materialidades do viver expressem as intermináveis
possibilidades do ser humano.
A compreensão destes espaços individualizados, inseridos numa lógica
metropolitana, dá-se com base na interpretação do conteúdo dos objetos que por si
só não se explicam, se não associados ao conjunto das ações. Nos termos de
44
Santos (2006, p. 66) “[...] a forma nos dá um ponto de partida, mas está longe de
nos dá um ponto de chegada, sendo insuficiente para oferecer, sozinha, uma
explicação”.
Associando-se esta abordagem à leitura de Lefebvre (2001), faz-se pertinente
a diferenciação concernente à cidade, bem como ao urbano, na qual a cidade
constitui a realidade “presente”, “imediata”, “arquitetônica”, ao passo que o urbano
designa um modo de viver que,
[...] comporta sistemas de objetos e sistema de valores. Os mais conhecidos
dentre os elementos do sistema urbano de objetos são á água, a
eletricidade, o gás (butano nos campos) que não deixam de se fazer
acompanhar pelo carro, pela televisão, pelos utensílios de plástico, pelo
mobiliário “moderno”, o que comporta novas exigências no que diz respeito
aos “serviços”. Entre os elementos do sistema de valores, indicamos os
lazeres ao modo urbano (danças, canções), os costumes, a rápida adoção
das modas que vêm da cidade. E também as preocupações com a
segurança, as exigências de uma previsão referente ao futuro, em suma,
uma racionalidade divulgada pela cidade. (LEFEBVRE, 2001, p. 19)
É inconcebível o entendimento de uma determinada realidade, pautando-se
somente em seus objetos, faz-se necessário, conforme Santos (2006), o diálogo
entre o sistema de objetos e o sistema de ações e/ou valores na acepção de
Lefebvre (2001), além da consideração da intencionalidade do sujeito, o que por sua
vez, anima e recria estes objetos.
A intencionalidade das ações, das práticas sociais é guardada pelos objetos,
os quais são valorizados e/ou renovados para aquisição de novo valor. Visto que os
sistemas de objetos e ações, não são estáveis, estes se alteram, através de novas
formas, bem como de novas intencionalidades, ao longo do processo histórico.
Este dinamismo inerente ao espaço é frisado também por Carlos (2001), ao
analisar o espaço da metrópole sob a ótica da acumulação do capital, assim como a
partir da reprodução da vida. Enfatizando, no primeiro a padronização dos espaços a
partir do capital, por outro lado, evidenciando, no segundo, as relações cotidianas
vivenciadas e reproduzidas pelos sujeitos.
Relações cotidianas estas, que estão além das rotinas e banalidades de todos
os dias, este cotidiano, ou melhor, a vida cotidiana, na acepção de Martins (2008),
está associada a um modo de viver, o qual não se reduz aos aspectos repetitivos e
rotineiros ausentes de história.
45
Nesta perspectiva, Martins (2008) pautando-se numa leitura lefebvriana do
cotidiano, expõe que este só tem coerência perante a relevância das contradições
do processo histórico, uma vez que não há cotidiano sem história, partindo do
pressuposto de que o:
[...] cotidiano não é residual, [...] mas sim a mediação que edifica as grandes
construções históricas, que levam adiante a humanização do homem. A
história é vivida e, em primeira instancia decifrada no cotidiano (MARTINS,
2008, p. 125)
É necessário entender o cotidiano aludido neste estudo, associando-o a um
espaço-tempo qualitativo das relações, dos usos dos sujeitos em intensa relação de
interação e diferenciação com um cotidiano regido por um tempo da acumulação,
condicionado pela mediação do valor de troca das mercadorias, conforme a análise
de Martins (2008).
É no fragmento de tempo do processo repetitivo produzido pelo
desenvolvimento capitalista, o tempo da rotina, da repetição e do cotidiano,
que essas contradições fazem saltar fora o momento da criação e de
anúncio da história [...]. Esse anúncio revela ao homem comum, na vida
cotidiana, que é na prática que se instalam as condições de transformação
do impossível em possível. (MARTINS, 2008 p. 57)
Partindo, sobretudo, da acepção de Santos (2006) acerca dos sistemas de
objetos e ações, associada à contribuição conceitual de Lefebvre (2001) referente ao
par cidade-urbano, além da pertinência do cotidiano na leitura de Martins (2008),
pode-se reconhecer no espaço, especialmente o metropolitano, uma multiplicidade
de ações/práticas sociais que o torna diferenciado apesar da tendência
homogeneizante, conforme expõe Carlos (2001).
A construção da cidade, hoje, revela a dupla tendência entre a imposição de
um “espaço que se quer moderno”, logo homogêneo e monumental,
definido, ou melhor, “desenhado” como espaço que abriga construções em
altura associadas a uma rede de comunicação densa e rápida, e de outro
“as condições de possibilidade”, que se referem à realização da vida (que
se acham à espreita, de modo contestatório) revelando uma luta intensa em
torno dos modos de apropriação do espaço e do tempo da metrópole – um
processo que ocorre de modo profundamente desigual, revelando-se em
seus fragmentos. (CARLOS, 2001, p. 36)
46
Em consonância com a reflexão de Carlos (2001) sobre os fragmentos na
cidade, observam-se no município de Marituba, “fragmentos” que destoam de uma
forma espacial padronizada apresentada pela cidade capitalista, a qual, através de
seus elementos, predomina no espaço urbano da região metropolitana de Belém.
Haja vista a existência no espaço de Marituba formas outras de produção espacial,
alicerçada em objetos e ações que possivelmente caracterizam e revelam práticas
socioespaciais diversas.
É especificamente nestes “fragmentos” contidos na metrópole que segundo
Carlos (2001), a vida cotidiana, enquanto produto e condição da reprodução humana
se revela no:
[...] cenário da superação das necessidades, lugar onde nasce o novo, onde
se dá sua busca de como romper o igual, porque o vivido ocorre no plano
do imediato, que corresponde ao nível de realização da sociedade e dos
modos como é produzida a existência dos homens em sua plenitude.
(CARLOS, 2001, p. 303)
Partindo da constatação de práticas socioespaciais diferenciadas, resultante
de um sistema de objetos e ações particulares presentes na vida cotidiana, que se
buscou, por meio da pesquisa empírica o conhecimento da trajetória de vida destes
agricultores, com o propósito de verificar se estes objetos ou elementos, decorrentes
das práticas sociais destas famílias, designam as marcas no urbano de um espaço
rural de onde estes moradores, certamente, provieram.
Visto que para Wanderley (2000), pautando-se numa análise dialética dos
espaços e relações, as populações entendidas enquanto rurais, assim como
urbanas interagem cotidianamente nas distintas e múltiplas dimensões da vida
social, sendo o espaço:
[...] por excelência, o lugar da convergência entre o rural e o urbano, no qual
as particularidades de cada um não são anuladas, ao contrário, são a fonte
de integração e da cooperação, tanto quanto da afirmação dos interesses
específicos dos diversos atores sociais [...]. (WANDERLEY, 2000, p. 120)
Observa-se um processo intenso no campo brasileiro, sobretudo no que diz
respeito ao processo de mecanização do espaço rural. Contudo, assim como há um
entendimento do rural para além das atividades agrícolas, deve haver uma
compreensão do urbano para além das atividades industriais, comerciais e de
serviços, uma vez que se percebe a reprodução de atividades ligadas a agricultura,
47
sendo desenvolvidas no espaço urbano, precisamente em quintais, terrenos baldios,
entre outros espaços revelando, ao menos aparentemente, uma relação rural-urbana
presente nas cidades.
Estas observações já foram registradas por muitos pesquisadores, dentre
estes tem destaque os trabalhos de Bicalho (1992), os quais estiveram voltados ao
estudo das atividades agrícolas em áreas urbanas no contexto das regiões
metropolitanas. Bicalho (1992) advoga que estas produções agrícolas por estarem
sendo desenvolvidas nas áreas urbanas ou próximas a estas, em espaços
reduzidos, indefinidos enquanto rurais ou urbanos, possam ser definidas enquanto
agricultura urbana ou até mesmo metropolitana.
Estas produções agrícolas encontradas na cidade, se por um lado não
transformam os espaços em rural, por outro, expressam a possibilidade de uma
imbricação ainda mais efetiva entre o par rural e urbano conforme Guerra (2006).
Todavia, sem a pretensão de discutir se esta agricultura é urbana ou rural, mas,
considerando o interesse de agricultores pela delimitação da zona rural no
município, negligenciada pelo plano diretor de Marituba, cabe a este estudo a
análise deste processo e sua reprodução, mediante a intrínseca ligação que este
processo de reprodução da agricultura familiar tem com a relação rural-urbana.
A
análise
acerca da
compreensão
do
par
rural-urbano, diante das
transformações no espaço geográfico, no que tange, a inserção de inovações
tecnológicas no campo, bem como a expansão do processo de urbanização, resulta
no descortinamento de distintas abordagens sobre a relação rural-urbana,
perspectivas presentes nos estudos de Marques (2002), Endlich (2006), Graziano da
Silva (1999), Alentejano (2000), entre outros, enfatizados neste estudo.
Em meio a estas vertentes, sobressai-se à visão dicotômica, a qual fragmenta
o espaço, evidenciando o urbano em detrimento do rural, Marques (2002) insere os
estudos de Sorokim e Zimmerman (1986) nesta perspectiva, por expressarem de
forma fragmentada a relação rural-urbana.
(1) diferenças ocupacionais ou principais atividades em que se concentra a
população economicamente ativa; (2) diferenças ambientais, estando à área
rural mais dependente da natureza; (3) diferenças no tamanho das
populações; (4) diferenças na densidade populacional; (5) diferenças na
homogeneidade e na heterogeneidade das populações; (6) diferenças na
diferenciação, estratificação e complexidade social; (7) diferenças na
mobilidade social e (8) diferenças na direção da migração. (SOROKIN E
ZIMMERMANN, 1986 apud MARQUES, 2002, p. 97)
48
Nas diferenças evidenciadas por Sorokin e Zimmermann (1986) apud
Marques (2002), nota-se o rural, de modo geral, sendo definido a partir do urbano,
numa relação de dependência, portanto, com base em suas deficiências, postura
esta que negligencia as particularidades inerentes a este espaço denominado de
rural.
Endlich (2006) em seu trabalho acerca das perspectivas sobre o rural e
urbano, sistematizou determinados critérios adotados na designação de rural e
urbano, que aparecem como insuficientes para caracterizarem estes conteúdos
socioespaciais. Dentre os critérios de diferenciação, tem-se a delimitação pelos
limites político-administrativos definidos oficialmente, ou seja, sedes e distritos são
considerados urbanos.
Outro critério exposto pela referida autora é a definição de rural e urbano a
partir do fator demográfico, estabelecendo o espaço com maior número de
habitantes como urbano, e a carência enquanto rural, a natureza das atividades
econômicas também se configura num elemento de classificação. Considerando
estas perspectivas sobre rural e urbano, observa-se uma tendência de definição do
rural a partir do urbano, isto é, de suas deficiências. Para Endlich (2006),
Estabelecer o rural e o urbano a partir dos critérios mencionados, de forma
descontextualizada, sem analisar a historicidade presente nos fatos e
processos, parece estático demais. Ainda que se justifique pela finalidade
pragmática, torna-se inadequado para compreender a dinâmica da
sociedade. (ENDLICH, 2006, p. 19)
Esta visão dualista da realidade também foi questionada por Alentejano
(2000, p. 103), o qual frisa que nesta há implicitamente a construção de um
estereótipo do rural como “agrícola”, “atrasado”, “natural”, ao passo que o urbano é
empreendido, no cerne desta abordagem, como sinônimo de “moderno”, de
“progresso” de sede industrial e tecnológica.
Não muito distinta da vertente dicotômica, emerge outra perspectiva
denominada de continuum, a qual apreende o rural meramente como uma extensão
do
espaço
urbano.
Esta
interpretação
do
espaço
rural
pressupõe
uma
homogeneização entre os espaços, sobretudo no contexto das transformações no
campo. Dentre os expoentes desta perspectiva do rural, enquanto um contínuo do
urbano está Graziano da Silva (1999), para o qual:
49
A diferença entre o rural e o urbano é cada vez menos importante. Pode-se
dizer que o rural hoje só pode ser entendido como um “continuum” do
urbano do ponto de vista espacial; do ponto de vista da organização da
atividade econômica, as cidades não podem mais ser identificadas apenas
com a atividade industrial, nem os campos com a agricultura e a pecuária;
e, do ponto de vista social, a organização do trabalho na cidade se parece
cada vez mais com a do campo e vice-versa. (GRAZIANO DA SILVA, 1999,
p.1)
Para Marques (2002), em síntese as vertentes dicotômica e de continuum,
diferem no que diz respeito aos seus princípios, contudo convergem em sua
essência, entendendo este rural produzido e reproduzido com base no urbano,
desconsiderando a interpretação deste espaço diferenciado independentemente do
urbano, ou seja, a partir de suas características intrínsecas.
É com base na análise de outros trabalhos que a concepção da categoria
rural, enquanto uma categoria dispensável ao entendimento das distintas e diversas
relações e espacializações que se tecem e se constroem no campo brasileiro, não
representa a única alternativa de compreensão destas realidades diferenciadas.
Em contraponto a estas concepções do rural, enquanto antítese ou continuum
do urbano é enfatizado por Alentejano (2000) um processo mais amplo, no qual, em
meio à complexidade, outras formas de organização surgem redesenhando espaços
caracterizados como rurais e urbanos.
Não se trata da eliminação pura e simples do rural e sua transmutação em
urbano, mas de um fenômeno mais complexo, onde um novo urbano e um
novo rural surgem do choque entre ambos. Na realidade, a diversidade de
formas de organização social que proliferam, tanto no campo como na
cidade, poderia nos levar a sucumbir à tentação de dizer que não existe um
urbano e um rural, mas vários urbanos e rurais (ALENTEJANO, 2000, p.
103)
Diversidades estas expostas por Alentejano (2000) que envolve tanto objetos,
quanto práticas socioespaciais que em conjunto, refletem um modo de viver
diferenciado que, por sua vez, produz e reproduz espaços entendidos enquanto
rurais, os quais não estão ligados diretamente às transformações promovidas pelo
capital.
Nesta perspectiva, frisa-se por fim, uma terceira vertente em vias de
estruturação,
que
advoga
uma
análise
dialética
da
relação
rural-urbana,
reconhecendo as transformações pelas quais o espaço rural passa, no entanto
50
acreditando na pertinência do mesmo enquanto categoria de explicação da
realidade, embora tenha sofrido alterações em seu significado, conforme Alentejano
(2000).
[...] ainda há lugar para o rural como elemento de descrição e explicação da
realidade, mas seu significado atual mudou. Consideramos fundamental
demonstrar que, apesar das inegáveis transformações sociais, econômicas,
culturais e espaciais resultantes do desenvolvimento do fenômeno urbano, o
rural não deixou e nem deixará de existir, apenas teve e está tendo seu
significado alterado. (ALENTEJANO, 2000, p. 103)
Esta abordagem possibilita um entendimento do rural a partir de suas próprias
características reveladas num modo particular de vivência, diferentemente das
demais abordagens, que concebem o rural secundariamente, a partir da definição do
urbano. É preciso compreender o par dialético rural-urbano, partindo da conexão e
imbricação existente entre ambos, sabendo que ao mesmo tempo em que
interagem, guardam certas particularidades inerentes a cada um, perceptíveis no
espaço. De acordo com Wanderley (2000, p. 90), “[...] destas relações, resultam
práticas e representações particulares a respeito do espaço, do tempo, do trabalho,
da família etc.”.
O espaço rural, na acepção acima, é entendido na/pela sua inter-relação
dialética com o urbano, cujos espaços, enquanto sistema de objetos e ações
encontram-se imbricados num processo de complementaridade, bem como de
diferenciação expressos na vida cotidiana dos sujeitos históricos, os quais, por sua
vez, produzem e reproduzem seus espaços de acordo com seus anseios e
necessidades materiais e subjetivas.
Esta vivência peculiar aludida por Alentejano (2000) estaria relacionada às
práticas socioespaciais que são empreendidas pelos trabalhadores em seus
espaços de morada e produção, os quais exprimem a produção histórico-social
destes sujeitos, visualizada por meio dos objetos e ações produzidos em seus
espaços de produção e de comercialização.
No espaço diferenciado produzido pelos agricultores e produtores rurais de
modo geral, as ações fazem referência às relações tecidas entre os envolvidos na
produção, bem como as relações com o espaço de cultivo e comercialização da
produção. Já os objetos dizem respeito às práticas de cultivo dos sujeitos, práticas
estas que fazem parte, segundo Hurtienne (2005, p. 20), de “[...] uma tendência de
51
diversificação crescente dos sistemas de produção agrícola, incluindo de forma
variável culturas perenes, pequena criação, criação vegetal e até pecuária”.
Para este autor, esta diversificação significativa, ao menos no estado do Pará,
representa para os produtores, seja do estuário, da terra firme, assim como da
várzea, certa estabilidade em suas vidas por meio de práticas cotidianas, as quais
na RMB e no município de Marituba, estão associadas a um estilo de vida, ligado a
agricultura, a criação de animais de pequeno porte, a floricultura, entre outros.
Este processo de constituição da metrópole está intimamente ligado à
reprodução do capital em escala cada vez mais ampliada, impondo-se, assim, sobre
a cidade, a qual expressa, entre outros, à concentração espacial de recursos
necessários à acumulação do capital. O entendimento do que seja metrópole, neste
estudo, está em consonância com a acepção de Carlos (2001), acerca do termo:
A nosso ver o termo “metrópole” revela um momento histórico do processo
de reprodução da cidade, portanto não estamos diante de um novo
processo, mas de transformações históricas no processo de constituição do
espaço urbano. (CARLOS, 2001, p. 12)
Esta reprodução cada vez mais ampliada condiciona e é condicionada pelo
processo denominado por Monte-Mór (2006, p. 17) de urbanização extensiva, a qual
consiste na expansão da base material e valores do tecido urbano explicitados por
Lefebvre (2001), para além das cidades “[...] integrando espaços rurais e regionais
[...]”, por meio tanto dos eixos de circulação, quanto pelas redes de comunicação.
A mesma dinâmica metropolitana que, por meio da expansão urbana,
incorpora espaços que outrora apresentavam uma dinâmica rural, possibilita,
simultaneamente, que espacialidades e temporalidades sejam criadas e/ou recriadas
nos interstícios do processo de urbanização, com práticas socioespaciais
essencialmente rurais distintas e complementares ao espaço urbano, como aponta
Endlich (2006) a partir de uma leitura lefebvriana.
A urbanização tende a apagar a distinção cidade-campo, mas em
decorrência da maneira contraditória como ocorre, com o império do valor
de troca e com a permanência de ilhas de ruralidade. A relação urbanidaderuralidade ao invés de desaparecer, intensifica-se. (ENDLICH, 2006, p. 19)
52
Estas práticas diferenciadas respondem às necessidades de moradores que
já residiam na cidade sem outras opções de trabalho ou dizem respeito a grupos
sociais que foram expropriados de seus espaços de morada localizados no espaço
rural, haja vista que apesar dos indicadores populacionais do período censitário de
1991 a 2000 do IBGE apresentarem uma diminuição no ritmo de crescimento,
Spósito (2006) se contrapondo a esta constatação pontua:
Ao contrário, os movimentos migratórios campo → cidade permanecem.
Bem como os que se estabelecem na direção cidades pequenas → médias
→ grandes → metropolitanas, ainda que as intensidades desses fluxos
ocorram de modo e em ritmos diferentes nas diversas regiões brasileiras.
(SPÓSITO, 2006, p. 127)
Desta forma, tem-se neste estudo, o entendimento de que estas experiências
tidas pelos sujeitos podem revelar um movimento condicionado – a migração, a qual
esteve e está associada aos anseios destes grupos sociais, sejam estes de ordem
pessoal ou profissional; pelo fracasso ou sucesso, enfim, partindo de uma
necessidade do sujeito de fazer tal movimento, justificado por causas que vão do
âmbito material ao subjetivo.
Abramovay (1999) frisa que o êxodo rural, enquanto uma especificidade de
movimento, apesar de ter sofrido certa redução em relação às décadas anteriores,
não se pode afirmar, de modo geral, que houve uma reversão total da tendência
observada desde os anos de 1940, na qual mais de um terço da população
residente no meio rural no início do período, migrava em direção às cidades.
Os intensos movimentos, realizados pelos grupos sociais, impulsionados por
diversos anseios, apresentam certa complexidade no que concerne a sua natureza,
no geral podendo, de acordo com a matriz teórica, serem designados, conforme
Salim (1992, p.119) como sendo um movimento “[...] contínuo, circular, intermitente,
de retorno, por situação de domicílio, intra ou inter-regional [...]” formas estas nem
sempre explicitadas nas estatísticas dos censos.
Diante da ausência de “unidade conceitual”, bem como dos discursos acerca
de migração, em meio a esta diversidade de definições, Salim (1992) adota um
conceito de migração que denota mobilidade espacial de determinada população
entre unidades administrativas distintas. Sendo assim, tem-se a migração, a qual
53
une migrantes e não-migrantes em uma complexa teia de relações e expectativas
mútuas, na perspectiva de Salim (1992), como sendo:
[...] o deslocamento de uma área definidora do fenômeno para outra (ou um
deslocamento a uma distância mínima especificada), que se realizou
durante um intervalo de migração determinado e que implicou uma
mudança de residência. (SALIM, 1992, p. 120)
A migração, enquanto um processo social complexo de múltiplas feições
guarda os desejos e ansiedades dos sujeitos históricos, os quais comumente se
colocam no movimento em busca de melhores condições de vida pra si e para a
família, condicionando muitas vezes à mudança de residência dos mesmos.
Entretanto, a suposição destes sujeitos, produtores destes espaços
diferenciados, terem experimentado a migração possivelmente do campo para a
cidade, não significou um rompimento com as relações e práticas tidas em seu
convívio anterior. Conforme Lima (2008), em seu estudo no espaço urbano de
Imperatriz, é possível perceber a permanência de atividades econômicas, sociais e
culturais semelhantes às praticadas anteriormente.
[...] a mudança de moradia desses trabalhadores rurais para a cidade não
implicou em parte, em uma mudança de suas atividades econômicas, de
suas relações sociais e de sua cultura. Isto é, apesar de estarem morando
na cidade, continuaram mantendo as atividades e o modo de viver que
foram trazidos de sua experiência no meio rural. (LIMA, 2008, p. 24)
Neste sentido, têm-se os trabalhadores migrantes ou não construindo e
reconstruindo espaços e relações diferenciadas, na RMB, alicerçadas nas atividades
rurais, as quais resistem e persistem mesmo em face ao processo de urbanização
do espaço metropolitano, graças às estratégias e alternativas criadas pelos
trabalhadores, cuja permanência constitui-se enquanto questão central deste estudo.
É exatamente a partir da consideração do agir e do fazer, em consonância
com a relevância da perspectiva da interação e imbricação dialética entre rural e
urbano, que é possível compreender que em meio a um espaço no qual as relações
urbanas são predominantes, conectam-se a estas práticas tidas enquanto sinais de
um espaço rural, ratificado em muito pelas trajetórias de vida dos sujeitos históricos.
54
Neste contexto, estudos que analisem com profundidade as relações
socioespaciais, econômicas, de comercialização e características tecnológicas
referentes à agricultura familiar são de grande importância, na medida em que
podem orientar as ações de pesquisa e, principalmente, de fomento para esse
conjunto de produtores localizados nas regiões metropolitanas.
Neste sentido, esta pesquisa, a partir do que foi analisado neste primeiro
capítulo, compreende que a agricultura familiar, bem como os agricultores, no
recorte empírico estudado, convergindo com os apontamentos de Wanderley (1996;
2003) e Neves (2007), constituem-se em uma categoria analítica, em parte
construída pelo Estado, mas, sobretudo, sujeitos históricos, que guardam
experiências de vida ligadas a conteúdos rurais, e que por sua vez, imprimem nos
espaços de morada, este estilo de vida, por meio das atividades empreendidas, as
quais revelam uma relação rural-urbana presente no município de Marituba, que não
se define pelas carências, mas conforme a perspectiva de Alentejano (2000) pela
imbricação e complementaridade.
Portanto a reprodução destes grupos está atrelada a uma dependência para
com os mercados locais, porém como enfatizado por Lefebvre (1999) e Bourdieu
(2004), as estratégias de reprodução destes grupos estão além destas estratégias
econômicas, englobando também estratégias sociais e espaciais, pautadas na
organização social destes produtores.
55
CAPÍTULO 2 - FORMAÇÃO HISTÓRICO-GEOGRÁFICA DO MUNICÍPIO DE
MARITUBA E SUA RELAÇÃO COM A AGRICULTURA
Este capítulo tem como objeto a caracterização do município de Marituba,
contextualizando sua formação histórica, bem como, localizando-o espacialmente,
analisando seu zoneamento territorial proposto pelo plano diretor municipal no que
se refere à delimitação de suas zonas e a conseqüente influência deste na
reprodução dos agricultores.
Neste sentido este segundo momento da dissertação está sistematizado em
três itens. Primeiramente contextualizou-se histórica e geograficamente o município
de Marituba e sua relação com a colonização da Região Bragantina, tendo por
fundamento os estudos de Penteado (1967), Mitschein (1989), Conceição (2002),
Hurtienne (1999, 2005), entre outros que fazem alusão ao processo.
No segundo item abordou-se como a agricultura e as atividades entendidas
enquanto rurais são consideradas no plano diretor municipal. Enfocou-se este plano
e o zoneamento proposto para Marituba, pautando-se, sobretudo na lei do plano
diretor municipal, bem como no relatório estadual de avaliação do plano diretor
municipal de Marituba elaborado pelo governo do Estado do Pará (2009). No terceiro
item, destacaram-se as iniciativas de agricultura familiar encontradas na região
metropolitana, assim como no município de Marituba e para tanto, utilizaram-se
trabalhos realizados por Frere e Martins (1999), Santos e Guerreiro Filho (2003), e
também pelo SEBRAE/PA (2010).
Neste sentido o objetivo deste capítulo foi demonstrar que a compreensão da
reprodução da agricultura familiar em espaços da RMB, em especial do município de
Marituba perpassa pelo conhecimento e entendimento da sua formação histórica e
espacial. Desta forma, este capítulo tem relevância para a pesquisa na sua
totalidade, uma vez que contribui para um conhecimento do município de Marituba,
conforme o mesmo se configurou no passado e como este se apresenta no
presente, auxiliando na contemplação do primeiro objetivo da pesquisa, que consiste
em desvendar as trajetórias vivenciadas pelos trabalhadores envolvidos na atividade
da agricultura.
56
2.1 A FORMAÇÃO DO MUNICÍPIO DE MARITUBA E SUA RELAÇÃO COM A
AGRICULTURA
Os processos de ocupação e desenvolvimento da agricultura no estado do
Pará foram objeto de estudo de diversos autores, os quais enfocando espaços
diferenciados do território paraense sistematizaram os processos de ocupação,
colonização e desenvolvimento da agricultura no estado. O Estado do Pará, pela
diversidade de processos sociais que marcaram sua ocupação, apresenta espaços
com características particulares no que se refere aos processos de colonização.
Hébette (2004) enfatizou, a partir de 1970, a colonização na rodovia transamazônica
empreendida pelo Governo Federal por meio da criação do Instituto Nacional de
Colonização e Reforma Agrária (INCRA).
Conforme Hébette (2004) por volta de 1962 os representantes de diversos
países se reuniram, comprometendo-se a desenvolver programas de reforma
agrária. Contudo, no Brasil a implantação do projeto com o propósito de assentar
cem mil famílias camponesas por meio da abertura da rodovia Transamazônica,
tomou outros rumos, incentivando a grande propriedade em detrimento dos
camponeses e, por conseguinte a concentração de terras no estado do Pará e a
geração de conflitos.
Segundo Veiga, Oliveira e Bentes (2007) até a década de 1960 nos
municípios da região sul do Pará, a exemplo de Marabá, predominava a economia
extrativista tanto de Castanha-do-Pará, quanto de outros produtos. Entretanto por
volta de 1960 esta região passa a ser alvo de projetos e programas de colonização,
de crescimento econômico e integração nacional por meio da construção de
rodovias incentivado pelo Governo Federal dos militares (1964-1985). A partir
dessas alterações provocadas na região, predominou no meio rural o uso da terra
pautada na atividade da pecuária, a qual, por sua vez, tornava as áreas inviáveis às
lavouras.
A colonização da região bragantina se constituiu em outro exemplo de
colonização incentivada pelo Estado, esta, por sua vez, ocorrida no século XIX,
sendo dirigida pela província do Estado do Pará. Penteado (1967), Conceição
(2002), Hurtienne (1999; 2005), Mitschein (1989), entre outros autores, expõem
acerca da colonização da região Bragantina, a qual teve início em 1875, mantendose até o governo de intervenção de Magalhães Barata (1930-1937). O projeto estava
57
voltado para o abastecimento dos seringais e da capital Belém, por meio de uma
colonização que pretendia atrair famílias de imigrantes europeus.
Este projeto de colonização da Bragantina de acordo com Miranda (2008)
deve ser entendido no contexto em que a Amazônia vivencia a economia da
borracha, oriunda da extração do látex da seringueira (Hevea brasiliensis Muell.
Arg.). Entre 1840 e 1910, em decorrência da implementação pela revolução
industrial de uma série de avanços técnicos, dentre eles a vulcanização da borracha,
matéria-prima utilizada na produção de determinados produtos industrializados,
como, por exemplo, na fabricação de pneumáticos.
Nesta perspectiva de sistematização dos períodos de colonização e ocupação
espacial, Hurtienne (1999) periodiza o desenvolvimento histórico específico do
espaço agrário paraense, objetivando a comparação entre as formas de colonização
mais antigas e mais recentes, bem como a compreensão das causas da grande
diversidade entre os campesinatos no Pará, o referido autor identifica três momentos
históricos distintos do desenvolvimento agrícola no estado como se observa no
fragmento a seguir:
Durante séculos, extrativistas tradicionais e agricultores itinerantes como os
grupos indígenas, caboclos e ribeirinhos (e no nordeste do Pará, os
paraenses) foram os grupos populacionais mais importantes na Amazônia
rural. O segmento desses camponeses agroextrativistas ainda é importante
até na Zona Bragantina.
Com a construção da ferrovia entre Belém e Bragança no começo do século
se estabelece um campesinato agrícola na Zona Bragantina com a base
numa agricultura itinerante de pousio já altamente orientado ao suprimento
do mercado de Belém. Nos anos 40 e 50, antes da construção, da rodovia
Belém-Brasília, esse processo de colonização se estendeu a região da
Guajarina no nordeste Paraense (Capitão Poço e Irituia).
A grande imigração de colonos do Nordeste e do Sul do Brasil depois da
abertura da Amazônia através dos novos eixos rodoviários, os programas
de colonização oficial a partir de 1973 e os grandes projetos foram à base
para a formação de um campesinato mais novo. Este se formou sobretudo
no sul do Pará (Marabá, Transamazônica) [...] (HURTIENNE, 1999, p. 76)
Com base na periodização sistematizada por Hurtienne (1999, p. 77) e tendo
em vista os propósitos deste capítulo, que objetivam elucidar a formação do
município de Marituba neste contexto de colonização, enfoca-se o período da
constituição da Região Bragantina, enquanto “fronteira agrária mais antiga da
Amazônia, estabelecida cem anos atrás com a construção da Estrada de Ferro
Belém-Bragança – EFB”.
58
A expansão desta fronteira, conforme Hurtienne (1999), apesar de pensada
para os imigrantes europeus, esteve caracterizada pela colonização organizada e
espontânea, na sua maioria de colonos nordestinos, com lotes de 25 hectares (ha),
distribuídos durante o Governo Vargas pelo Interventor Magalhães Barata nos anos
de 1930, pela falta de latifúndios, pelo desaparecimento da mata primária e a
predominância da vegetação secundária na cobertura vegetal, além da estabilização
do campesinato agrícola com títulos de propriedade.
Apesar deste formato inicial da Região Bragantina, conforme Mitschein (1989)
sua ocupação se tornou concentradora, devido há uma mudança produtiva de
natureza capitalista, a qual não foi acompanhada pelos ocupantes históricos deste
espaço, pelas dificuldades financeiras, ecológicas e de mercado, desencadeando
um processo de perda dos meios de subsistência, situação que se revela, pela
tentativa de ingresso no precário mercado de trabalho no próprio lugar, ou se inserir
no movimento migratório. Segundo
Mitschein (1989) esta “desapropriação
silenciosa” ocorre devido à contínua degradação de suas condições de produção por
diversos fatores, dentre eles a redução de suas áreas.
[...] A média propriedade representa a sua possibilidade de reprodução
econômica, pois contem o território necessário ao extrativismo vegetal, à
caça e ao cultivo itinerante que caracterizam a sua produção; a pequena
propriedade representa a etapa semifinal do seu processo de proletarização
(perda das condições objetivas de produção), pois é insuficiente ao tipo de
exploração citado e só pode ser economicamente viabilizada mediante a
mudança do tipo de exploração, mudança esta que, por suas implicações
tecnológicas e financeiras, está além das possibilidades desta população.
Graças à abundância de recursos naturais ainda presentes na microrregião,
mesmo os arrendentários e pequenos sitiantes conseguem ainda
sobreviver, mas precariamente e com poucas perspectivas sócioeconômicas. E muitos tendem a procurar novas alternativas, geralmente
vinculadas a processos migratórios. (MITSCHEIN, 1989, p. 79)
Fazendo um comparativo entre as culturas desenvolvidas na Bragantina,
Mitschein (1989) demonstra o avanço da modernização agrícola em detrimento do
agroextrativismo tradicional, por meio da verificação que em um tempo médio de
trinta anos, enquanto a produção de hortícolas, pimenta-do-reino e mamão hawaí
(culturas importadas) cresceram de forma exorbitante, as culturas tradicionais
caboclas, como mandioca, milho e o arroz apresentaram, conforme o autor
supracitado, um decréscimo ou crescimento muito pequeno, como o caso da
mandioca, neste mesmo período.
59
Penteado (1967) em sua tese de doutorado ao enfocar problemas de
colonização e de uso da terra na Região Bragantina caracterizou a diversidade
espacial compreendida nesta região, a qual segundo este autor se estendia entre o
município de Belém e o município de Bragança, conforme se pode observar na
figura 1, contida no estudo de Conceição (2002).
Figura 1 - “A Bragantina paraense clássica”
Fonte: CONCEIÇÃO (2002, p. 136)
A região Bragantina foi dividida em sub-regiões, denominadas de porção
ocidental, correspondendo ao trecho compreendido entre Belém e Castanhal; porção
central, correspondente ao perímetro entre Castanhal e Capanema; e a porção
oriental condizente ao trecho de Capanema a Bragança. Esta classificação está de
acordo com a ocupação do solo para fins comerciais, conforme exposto por
Penteado (1967).
60
[...] do ponto de vista da ocupação do solo, apesar do domínio das
capoeiras que mascaram a paisagem, é perfeitamente possível reconhecer
a existência de sub-regiões na bragantina; são bem típicas as áreas
produtoras de malva, pimenta e fumo – as três lavouras comerciais da
região, caracterizando a porção central, a ocidental e a oriental da mesma.
(PENTEADO, 1967, p. 220)
No que se refere à porção ocidental compreendida pelo contínuo entre Belém
e Castanhal, esta poderia ser subdividida, segundo Penteado (1967) em duas
porções distintas, levando em consideração a expansão urbana de Belém, uma
eminentemente mista, de Belém a Ananindeua composta por loteamentos, granjas,
retiros, pimentais, entre outros, e outra precisamente no trecho de Marituba a
Castanhal, predominantemente agrícola, voltada principalmente para a produção de
pimenta-do-reino (Piper nigrum).
A produção de pimenta-do-reino, introduzida pelos colonos japoneses, neste
período, era considerado um negócio significativo para proprietários que residindo
em Belém dispusessem de terrenos no entorno ou nos espaços localizados na
porção ocidental. Neste sentido, a introdução da cultura da pimenta-do-reino na
Bragantina, era localizada, de acordo com Penteado (1967) em Belém, Ananindeua,
Castanhal, e principalmente em Santa Izabel.
Ressalta-se que Marituba não é mencionada enquanto município, pois o
território que pertence ao atual município, no período em questão, estava anexado a
Ananindeua. Marituba, neste período, constituía-se enquanto vila operária, erguida a
partir da construção da Estrada de Ferro Belém-Bragança.
É precisamente no território do município de Marituba, que por volta da
década de 1950 foi instalada uma das maiores plantações de pimenta-do-reino,
localizado na fazenda Oriboca, ratificando a compreensão de que os pimentais
representavam uma das atividades mais importantes da economia bragantina neste
período. Segundo Penteado (1967), na citação a seguir é possível observar a
localização da fazenda.
A fazenda Oriboca é o maior empreendimento, no gênero, que a Bragantina
conhece. Situada em terras do município de Ananindeua vizinho a Belém, a
referida propriedade ocupa uma área grosseiramente retangular, limitada,
ao sul pelo rio Guamá, a leste pelos rios Tacaiunas e Tajassui; e a oeste
pelo igarapé Oriboquinha, e a norte, por uma linha de demarcação artificial
de traçado bastante irregular [...]. (PENTEADO, 1967, p. 328)
61
A decisão do cultivo da pimenta-do-reino na fazenda Oriboca da empresa
Pirelli S.A, que detinha a administração da fazenda e resolveu plantar o pimental
para cobrir as despesas, enquanto aguardava o desenvolvimento e retorno do
seringal, também cultivado pela empresa. O seringal foi incentivado, precisamente a
partir de 1951, pelo governo federal para suprir a demanda industrial crescente pela
matéria-prima da borracha.
Este empreendimento surge no âmbito do Plano de Valorização Econômica
da Borracha, lançado pelo governo federal e que depois seria objeto dos cuidados
da Superintendência do Plano de Valorização Econômica da Amazônia (SPVEA). A
Pirelli, em conjunto com outras empresas, instalou-se no Brasil na década de 1920,
no contexto de ampliação do mercado mundial de pneumáticos, liderados pelos
Estados Unidos (EUA), desde o início do século XX. Conforme Acevedo Marin e
Castro (2004), os EUA possuíam uma estratégia:
A estratégia da indústria norte-americana na economia da borracha
consistia em produzir sua própria matéria-prima, o que explica a expansão
da heveicultura em países do Sudeste Asiático e na região amazônica
desde os primeiros anos deste século. (ACEVEDO MARIN; CASTRO, 2004,
p. 72).
Acevedo Marin e Castro (2004) relatam em seu trabalho os conflitos
territoriais entre a empresa Pirelli e a comunidade quilombola de Abacatal, a qual,
conforme mapeamento realizado pelo Instituto de Terras do Pará (ITERPA) está
localizada no município de Ananindeua, estendendo-se até o município de Marituba,
às margens do igarapé Uriboquinha. Segundo Acevedo Marin e Castro (2004), as
terras de herança concedidas pelo Conde Coma Mello às suas três filhas com sua
escrava Olímpia, foi de uma sesmaria equivalente a 2.100 ha.
Entretanto, com a retomada de uma política estatal da borracha pautada no
cultivo da seringueira (Hevea brasiliensis Muell.Arg.), a empresa Pirelli obteve uma
doação do Estado de 7.300 ha ao longo do rio Guamá. Em meio a esta doação
territorial, estava parte das terras que por herança pertenciam à comunidade de
Abacatal, a qual teve o seu território reduzido de 2.100 ha, herdado pelo Conde
Coma Mello, para 312 ha, conforme a titularização das terras da comunidade em 13
de maio de 1999 pelo ITERPA.
62
Neste sentido o controle da firma, estendeu-se até o igarapé Uriboquinha
onde estava localizado o antigo cemitério das famílias de Abacatal, sendo assim o
cemitério São Sebastião, espaço sagrado para a comunidade, foi ocupado pelo
empreendimento. Segundo Acevedo Marin e Castro (2004), além da redução das
terras sentida pelos moradores, no que concerne ao espaço de reprodução por meio
das atividades de caça, coleta, agricultura, realizadas pelos moradores o que causou
um descontentamento para o grupo de moradores da comunidade de Abacatal.
Na área onde atualmente se localiza a floresta da antiga empresa Pirelli, a
qual inicialmente foi transferida por meio de uma hipoteca e posteriormente foi
colocada à venda conforme Acevedo Marin e Castro (2004), havia uma grande
extensão de terras com seringueiras plantadas para exploração comercial.
Posteriormente o local foi considerado desfavorável àquele uso, e substituído por
pastagens, dada à baixa produtividade registrada.
A fazenda Oriboca, pertencente à empresa Pirelli, abrangendo mais de sete
mil hectares, destoava do que, segundo Penteado (1967) era e ainda é
predominante na Região Bragantina. Nesta região são em maior número os
estabelecimentos agrícolas inferiores a 100 ha, tendo destaque as propriedades de
2 e 5 ha e entre 20 e 50 ha.
Trata-se de uma região na qual as pequenas propriedades têm grande
destaque, ou seja, de uma área onde o agricultor e sua família executam
todas as tarefas necessárias, ocasionalmente empregando restrito número
de auxiliares. Sendo pouco numerosa a família, um ou mais estranhos
poderão existir em caráter permanente. (PENTEADO, 1967, p. 394)
Conceição (2002) pondera que para além destas culturas comerciais
implantadas na região com características de “plantations” 1, deve-se destacar
também a produção e beneficiamento de culturas como arroz, plantio de milho, de
feijão e do produto básico nas lavouras da região Bragantina, o cultivo da mandioca
para a produção de farinha, a qual se configura em uma das principais fontes de
alimento e renda de inúmeras famílias na região.
1
Propriedades constituídas de imensas áreas, marcadas pela especialização ou monoatividade na
produção ou cultivo de um produto, há geralmente uma nítida separação entre direção e trabalho
sendo regida por regime assalariado mediante contrato de trabalho, voltada para exportação,
antecedida de uma fase de transformação do produto colhido. (PENTEADO, 1979)
63
A partir dos registros históricos apresentados, constata-se que os municípios
da porção ocidental da região Bragantina, sobretudo o trecho de Marituba a
Castanhal
era
predominantemente
agrícola,
com
culturas
eminentemente
comerciais, voltadas para o mercado externo, bem como lavouras voltadas tanto
para o sustento das famílias, quanto para a comercialização nas feiras da região,
sobretudo em Belém.
Neste sentido, o município de Marituba, recorte empírico deste estudo, tem
sua formação histórico-geográfica marcada pela relação com a colonização da
região Bragantina, seja na forma de ocupação pela agroindústria, ou, sobretudo na
ocupação por migrantes, da região nordeste para trabalharem nas lavouras,
baseadas na agricultura familiar ou na construção e manutenção da estrada de ferro.
O município de Marituba, localizado na mesorregião metropolitana de Belém,
estando circunscrito ao norte com o município de Benevides, ao sul com os
municípios de Acará e Belém, a leste com o município de Benevides e a oeste com
o município de Ananindeua, originou-se a partir da inauguração da vila operária de
Marituba, conseqüência direta da instalação em 1883, da EFB que ligava Belém a
região Bragantina.
A vila operária acomodava uma população constituída, quase exclusivamente,
de funcionários da Estrada de Ferro, uma vez que a mesma consistia num posto de
abastecimento e reparo das locomotivas. Diante disso, pode-se dizer que o
crescimento da vila esteve vinculado à Estrada de Ferro, a qual foi desativada em
1965.
Contudo, conforme Trindade Jr. (1998), foi somente a partir da abertura da
Rodovia Belém-Brasília, a qual influenciou consideravelmente no surgimento do
novo vetor de expansão urbana de Belém ao longo da rodovia BR-316, que Marituba
gradativamente se insere como espaço de assentamento no contexto metropolitano
de Belém.
Para Granhen (2002), no processo histórico de constituição do atual município
de Marituba, deve-se evidenciar a chegada dos ferroviários no ano de 1906, fixando
definitivamente em meados de 1920. Além da ocupação da antiga Colônia de
Marituba, atualmente bairro Dom Aristides, pelos hansenianos que atraíram para a
localidade suas famílias e no atual espaço de morada constituíram outras.
Marituba,
inicialmente
constituída
de
um
povoado,
apresentou
um
crescimento relevante visualizado no número crescente de ocupações surgidas
64
neste espaço, fazendo com que este estivesse inserido tanto no município de
Benevides, quanto de Ananindeua. Situação esta que gerou um quadro de
carências, intensificado pelo desinteresse administrativo de ambos os municípios, o
que desencadeou gradativamente movimentos emancipatórios em Marituba.
No que diz respeito ao processo de emancipação do município de Marituba
deve-se revelar o grande número de pessoas que passa a residir nestas áreas
periféricas2, as quais passam a demandar do poder público, melhorias no espaço de
morada. Demandas estas que, por sua vez, não são atendidas pelo poder político
local, decorrente principalmente da ausência dos poderes políticos municipais
comprometidos, como explica Trindade Jr. (1998):
Essa localidade teve um crescimento significativo, principalmente através de
várias ocupações, fazendo com que sua malha urbana passasse a fazer
parte de dois municípios: Benevides e Ananindeua. Esse fato causou uma
situação de indefinição quanto às responsabilidades administrativas desses
dois municípios. (TRINDADE JR., 1998, p. 313)
Sendo assim, têm-se as iniciativas de emancipação do município de Marituba
aflorando desde 1984. Desde então comitês foram organizados para a efetivação da
criação do município, a exemplo da Comissão de Emancipação de Marituba (CEM),
que neste primeiro movimento não apresentou avanços no que se referiu à
concretização da criação de Marituba, enquanto município.
Por volta de 1991, tem-se uma segunda tentativa de emancipação, na qual já
havia uma participação efetiva de políticos, precisamente de deputados estaduais,
aliados às lideranças locais formando a Comissão Pró-Emancipação de Marituba
(COPEM). Contudo o número de votantes (que foi de 30%) não atingiu o mínimo
exigido (que é de 50% mais um), para tornar legítimo o resultado do plebiscito
viabilizado neste momento.
Finalmente em 1994 foi declarada a emancipação e consequente criação do
município de Marituba, resultado de uma nova mobilização por parte do movimento
emancipátorio, apoiado por parlamentares estaduais, que viabilizou a realização de
um novo plebiscito que diferentemente do anterior, apresentou resultado favorável e
2
O entendimento que se tem de áreas periféricas neste, está em consonância com a acepção de
Trindade Jr. (1998, p. 123) acerca do termo periferia, o qual o relaciona “ao espaço produzido
socialmente, onde se reproduz a força de trabalho de baixo poder aquisitivo, definindo ambientes
segregados no conjunto do espaço urbano”.
65
legítimo a emancipação. Conforme Trindade Jr. (1998) a emancipação de Marituba,
não demonstrou ser um movimento organizado,
[...] por grandes grupos econômicos que querem se beneficiar da criação do
município, ainda que algumas empresas deles participem [...] Em que pese
o apoio logístico desses empresários, não são eles que encaminham o
processo [...]. (TRINDADE JR., 1998, p. 319)
Para este referido autor, apesar de o movimento num primeiro momento
apresentar
na
sua
essência
um
caráter
reivindicativo,
em
contrapartida,
posteriormente passa a ser apropriado pelas lideranças políticas locais, as quais
viram neste, a possibilidade de sua promoção política, uma vez que o crescimento
dos números de residentes neste “novo espaço de assentamento” representou um
acréscimo de eleitores.
De acordo com Trindade Jr. (1998), após aproximadamente dez anos de
iniciativas emancipacionistas não consolidadas, Marituba inicialmente constituída de
um núcleo urbano que integrava os municípios de Ananindeua e Benevides, em
1994 foi declarada a emancipação e, por conseguinte, a criação do município de
Marituba por meio da lei nº 5857 de 22/09/94.
Conforme o recorte territorial do município, este passou a representar a
menor extensão territorial do estado do Pará com 108,60 km², e por sua vez uma
das maiores concentrações populacionais por quilômetro quadrado, conforme os
dados do IBGE, os quais foram organizados pelo órgão estadual do Pará, Secretaria
de Estado de Planejamento, Orçamento e Finanças (SEPOF).
Na tabela 1, foram agrupados dados estatísticos do período de 1996 a 2010,
concernentes à população, área e total de habitantes por quilômetro quadrado do
município de Marituba. Após a emancipação do município no ano de 1994, tem-se a
primeira contagem populacional de Marituba divulgada em 1996, na qual a
população total estava contabilizada em 49.239 habitantes, a partir deste ano, os
dados
populacionais
revelam
a
cada
ano
um
acréscimo,
passados
aproximadamente 15 anos, a população saltou de aproximadamente 50.000
habitantes para 108.223 em 2010, conforme indicado na tabela 1.
66
Tabela 1 - Total populacional, área e densidade demográfica do município de
Marituba de 1996 - 2010
Ano
População
Área (Km²)
Densidade (Hab./Km²)
1996
49.239
109,10
451,32
1997*
52.956
109,10
485,39
1998*
56.087
109,10
514,09
1999*
59.224
109,10
542,84
2000
74.429
108,60
682,21
2001*
80.046
108,60
737,07
2002*
82.095
108,60
755,94
2003*
85.652
108,60
788,69
2004*
93.723
108,60
863,01
2005*
97.254
108,60
895,53
2006*
101.356
108,60
933,30
2007
93.416
108,60
860,18
2008*
98.746
108,60
909,26
2009*
101.158
108,60
931,47
2010
108.223
108,60
996,53
Fonte: Dados do IBGE, adaptado a partir da elaboração do SEPOF (PARÁ, 2011)
Legenda: (*) População estimada
Não são apenas os dados da população total que apresentam considerável
alteração, os dados populacionais referentes à situação de domicílio também
requerem atenção, visto que no ano de 1996, Marituba apresentava uma população
rural 89,62% superior à urbana, contabilizada em 44.130 residentes rurais, enquanto
que o total de residentes urbanos totalizava 5.109 pessoas. Contudo no censo
demográfico do ano de 2000, as informações foram invertidas, o que antes foi
considerada como população rural, passou a ser considerada como urbana, está
67
população recenseada aparece predominantemente urbana, conforme, verifica-se
na tabela 2.
Tabela 2 - População residente no município de Marituba por situação do domicílio
População residente (pessoas)
População residente (percentual)
Ano
Urbana
Rural
Total
Urbana
Rural
Total
1996
5.109
44.130
49.239
10,38
89,62
100
2000
64.884
9.545
74.429
87,18
12,82
100
2007
81.420
11.996
93.416
87,16
12,84
100
Fonte: Dados do IBGE, adaptado a partir da elaboração do SEPOF (PARÁ, 2011)
A partir dos dados relativos à população residente por situação de domicílio, o
IBGE, parece ter desconsiderado sua classificação em 1996, passando a denominar
a maioria da população, que antes era rural, de urbana em 2000. Acredita-se que as
alterações no espaço de Marituba, apesar de crescentes, não tenham transformado
completamente suas formas (de campo em cidade) e seus conteúdos (de rural em
urbano), em apenas quatro anos. Ao que parece a condição conferida a Marituba, de
distrito a município, no final do ano de 1994, tenha influenciado nesta classificação.
O mapa 1 da expansão urbana do município de Marituba apresenta uma
análise multitemporal dos períodos de 1984, 2001 e 2011 (a escolha do período
esteve vinculado à disponibilidade das imagens). Ao se observar o mapa priorizando
os anos de 1984 a 2001, ou seja, num intervalo de dezessete anos, percebeu-se
uma expansão significativa, coerente com os processos socioespaciais que
ocorreram neste período, inicialmente com a infraestrutura herdada da estrada de
ferro (desativada em 1965), a exemplo da vila operária, abastecimento de água,
entre outros, até a mudança na configuração espacial no que concerne a extinção
da ferrovia e a consequente abertura de rodovias, como a BR-316.
Já o período que compreende entre 2001 a 2011, segundo o espraiamento da
mancha urbana no mapa 1, não demonstra uma alteração tão significativa em
termos de expansão, ainda que seja num intervalo significativo de dez anos. Este
fato demonstra que dificilmente do ano de 1996 a 2000, tenha havido uma expansão
urbana tão considerável a ponto de transformar as formas e os conteúdos
socioespaciais rurais em urbanos num intervalo de quatro anos, conforme é indicado
pela SEPOF (PARÁ, 2011) com base nos dados do IBGE.
68
Mapa 1 – Expansão Urbana do município de Marituba nos anos de 1984 – 2001 – 2011
69
De acordo com Lima, Cardoso e Holanda (2005) o processo de transformação
do município de Marituba, deu-se a partir tanto do processo migratório para a região
metropolitana como um todo, inclusive para Marituba, quanto da transformação
parcial de áreas rurais em conjuntos habitacionais e ocupações informais que foram
reconhecidos como bairros, em alguns destes inclusive coexistem habitações e
plantações de hortaliças, criação de animais de pequeno porte, como no bairro Almir
Gabriel, no bairro Uriboca, dentre outros, demonstrando o caráter rural de espaços
contidos no município de Marituba.
O Relatório de Avaliação do Plano Diretor Participativo do município de
Marituba elaborado por Cardoso (PARÁ, 2009) com base nos dados estatísticos
acerca da população residente em Marituba pondera que apesar dos números
absolutos relativos à população rural serem baixos, observa-se que houve um
crescimento deste segmento durante a última década conforme a tabela 2 indica,
demonstrando a coexistência de duas realidades espaciais, rural e metropolitana.
Diferenciações estas que mesmo presentes no cotidiano do município não ficou
precisamente delimitado no plano diretor de Marituba, como se percebe no tópico a
seguir.
2.2 A ALUSÃO À AGRICULTURA FAMILIAR NO PLANO DIRETOR MUNICIPAL DE
MARITUBA
A implementação de instrumentos de planejamento em âmbito municipal a
exemplo dos planos diretores, constituem-se numa ferramenta imprescindível para
os gestores municipais definirem de forma sistematizada a aplicação de políticas
públicas para as cidades e para o desenvolvimento do município. Conforme os
instrumentos legais que balizam a elaboração dos planos diretores municipais, tais
como o Estatuto da Cidade (BRASIL, 2001), a construção dos planos precisa
necessariamente contar com a participação da população e associações que
representem as diversas esferas econômicas e sociais da cidade, não só no
momento de sua elaboração, mas, sobretudo, na gestão das decisões concernentes
ao plano.
Com a Constituição Federal (BRASIL, 1988), o plano diretor passou a ser
obrigatório para todas as cidades com mais de 20.000 habitantes. Já o Estatuto da
Cidade (BRASIL, 2001), estendeu esta obrigatoriedade para diversas categorias de
70
cidade, tais como as integrantes das áreas metropolitanas, de áreas de especial
interesse turístico, entre outras. Todavia, apesar da importância associada ao plano
diretor enquanto um dos instrumentos do planejamento municipal, Villaça (2005)
expõe que este foi tido pelos municípios mais como um cumprimento legal e menos
como um instrumento de planejamento e direcionamento das ações políticas
municipais. Neste sentido para o referido autor há uma,
[...] falsa valorização dos planos urbanos que se insere no contexto da
supremacia do conhecimento técnico e científico como guia da ação
política, ou seja, a ideologia da tecnocracia. Isso fica claro não só pela
obrigatoriedade constitucional do plano diretor, mais também de um lado,
pela desordem na exigência indiscriminada de planos por parte da
legislação [...] e de outro pela falta de seriedade com que o poder público
vem tratando os planos há décadas. (VILLAÇA, 2005, p.1)
É neste contexto de exigência constitucional que no ano de 2007 foi concluído
o Plano Diretor Participativo (PDP) do município de Marituba (MARITUBA, 2007), o
qual foi elaborado pelos munícipes (representados pelos líderes comunitários dos
bairros) com o apoio integral da Prefeitura Municipal de Marituba e a colaboração da
CC&F - Planejamento, Consultoria e Assessoria de Negócios S/S Ltda., com o
propósito de ser um instrumento estratégico que visa englobar a política municipal
de desenvolvimento em âmbito econômico, social, urbano e ambiental, sendo
composto por redação e mapas3.
Esta lei abrange a totalidade do território do município e prioriza definir “I- A
política de desenvolvimento econômico, social, urbano e ambiental; II- A função
social da propriedade urbana; III- As políticas públicas; IV- O plano urbanísticoambiental; V- A gestão democrática”. (MARITUBA, 2007, p. 3)
Para a aplicação do PDP foram criadas zonas de uso e unidades de
conservação com o propósito de um zoneamento do território municipal. Na redação
do plano, faz-se referência a duas grandes áreas ou macrozonas, a Área de
Consolidação Urbana (ACU) (definida no texto), e a Área de Expansão Urbana
(somente citada no plano). Nestas áreas, por sua vez, estariam contidas as zonas e
as áreas de conservação.
3
Ao solicitar junto à Prefeitura Municipal de Marituba o Plano Diretor do município, foi fornecida
somente a redação do plano, com a justificativa de que os mapas que correspondem aos anexos do
referido plano, tinham sido perdidos com a formatação dos computadores do respectivo órgão,
informação cedida pelo secretário municipal de Planejamento e Finanças de Marituba.
71
O zoneamento apresentado pelo PDP do município de Marituba define
dezoito áreas específicas, onde são localizados usos, identificadas atividades
praticadas no território municipal ou ainda o estabelecimento de áreas para
equipamentos comunitários, as quais estão dispostas no quadro a seguir:
Quadro 1 - Zonas de uso e unidades de conservação criadas pelo PDP de Marituba
Zonas de uso e unidades de conservação criadas no município de Marituba
I
Área de Consolidação Urbana - ACU
II
Área de Cemitérios – ADC
III
Projeto de Macrodrenagem - PDM
IV
Hierarquia Viária – HV
V
Área de Portos e Orlas - APO
VI
Área de Distrito Industrial – ADI
VII
Área de Atividade Rural - AAR
VIII
Reserva de Área para Lazer e Esporte – RALE
IX
Corredor Comercial – CC
X
Área de Hotelaria – AH
XI
Área de Preservação – AP
XII
Zona Especial de Interesse Social – ZEIS
XIII
Área de Implantação de Comércio Atacadista – AICA
XIV
Área de Interesse Turístico e Histórico - ZITH
XV
Zona Residencial – ZR
XVI
Zona Residencial Mista – ZRM
XVII
Zona de Vazio – ZV
XVIII
Área Condominial – AC
Fonte: Adaptado do PDP do município de Marituba (MARITUBA, 2007)
72
A partir dos recortes espaciais propostos pelo PDP de Marituba, e conforme o
Relatório de Avaliação do PDP do município de Marituba elaborado por Cardoso
(PARÁ, 2009), o texto do plano não traz o macrozoneamento do território municipal
precisamente definido. Dentre as grandes zonas de Consolidação Urbana e
Expansão Urbana, a lei esclarece, no Art. 43º, somente a Área de Consolidação
Urbana. Ressalta-se que no texto da lei não há a descrição da Área de Expansão
Urbana, nem a indicação da zona rural no município, a qual é compreendida
integrando a referida área de expansão urbana.
Apesar do PDP, em questão, reconhecer no município a existência da
produção agrícola, conforme verificado no Art. 18º, com o estímulo e apoio ao
desenvolvimento rural por meio de diversas diretrizes, não houve, por parte do
plano, de acordo com o conteúdo do Relatório de Avaliação (PARÁ, 2009), a
delimitação do perímetro rural ou da zona rural no município de Marituba,
considerando as atividades rurais inseridas no recorte urbano ou de expansão
urbana.
Esta desconsideração dos espaços rurais ou da zona rural e, por conseguinte
sua delimitação no município nas elaborações dos planejamentos e leis municipais
gera implicações desfavoráveis aos agricultores e produtores rurais. Conforme
Kozenieski (2010), as concepções e imprecisões que permeiam as definições de
perímetro urbano e rural nos municípios incidem, entre outros, sobre o tipo de
imposto tributário a ser arrecadado pelos órgãos competentes.
No que concerne aos impostos arrecadados, relacionados ao patrimônio no
Brasil, precisamente sobre a propriedade, o Código Tributário Nacional (CTN)
(BRASIL, 1966) e a Constituição Federal (BRASIL, 1988) estabelecem dois tributos
a serem arrecadados, o Imposto sobre a Propriedade Predial e Territorial Urbana
(IPTU) e o Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural (ITR).
O IPTU é instituído pelos municípios e abrange os imóveis que estão
localizados nas zonas urbanas ou em áreas de expansão urbana delimitadas pelos
municípios. A delimitação da zona urbana e sua possível expansão é
responsabilidade da esfera municipal. Conforme é possível observar no Art. 156º da
Constituição Federal (BRASIL, 1988), o IPTU compete aos municípios e no Art. 32º
do CTN (BRASIL, 1966) sua definição se dá a partir do critério espacial, isto é, da
localização do imóvel.
73
Art. 156. Constituição Federal: Compete aos Municípios instituir impostos
sobre:
I - propriedade predial e territorial urbana;
[...]
Art. 32. CTN: O imposto, de competência dos Municípios, sobre a
propriedade predial e territorial urbana tem como fato gerador a
propriedade, o domínio útil ou a posse de bem imóvel por natureza ou por
acessão física, como definido na lei civil, localizado na zona urbana do
Município.
§ 1º Para os efeitos deste imposto, entende-se como zona urbana a definida
em lei municipal; observado o requisito mínimo da existência de
melhoramentos indicados em pelo menos 2 (dois) dos incisos seguintes,
construídos ou mantidos pelo Poder Público:
I - meio-fio ou calçamento, com canalização de águas pluviais;
II - abastecimento de água;
III - sistema de esgotos sanitários;
IV - rede de iluminação pública, com ou sem posteamento para distribuição
domiciliar;
V - escola primária ou posto de saúde a uma distância máxima de 3 (três)
quilômetros do imóvel considerado.
§ 2º A lei municipal pode considerar urbanas as áreas urbanizáveis, ou de
expansão urbana, constantes de loteamentos aprovados pelos órgãos
competentes, destinados à habitação, à indústria ou ao comércio, mesmo
que localizados fora das zonas definidas nos termos do parágrafo anterior.
[...]
Já o ITR, segundo o Art. 153º da Constituição Federal (BRASIL, 1988), bem
como o Art. 29º do CTN (BRASIL, 1966), corresponderia aos imóveis localizados
fora da zona já determinada, a zona urbana, conseqüentemente na zona entendida
enquanto rural. Este imposto é recolhido pela Receita Federal, mediante a
legitimação e reconhecimento do imóvel rural registrado no Sistema Nacional de
Cadastro Rural (SNCR) administrado pelo INCRA.
Art. 153. Constituição Federal: Compete à União instituir impostos sobre:
[...] VI - propriedade territorial rural;
[...]
Art. 29. CTN: O imposto, de competência da União, sobre a propriedade
territorial rural tem como fato gerador a propriedade, o domicílio útil ou a
posse de imóvel por natureza, como definido na lei civil, localização fora da
zona urbana do Município.
Art. 30. A base do cálculo do imposto é o valor fundiário.
Art. 31. Contribuinte do imposto é o proprietário do imóvel, o titular de seu
domínio útil, ou o seu possuidor a qualquer título.
[...]
Conforme precisamente o Art. 32º, o CTN (BRASIL, 1966) atribuiu, à
legislação municipal a competência para definir o que é zona urbana, zona de
expansão urbana, áreas industriais, entre outras. Nas entrelinhas desta definição
está implícito um conceito de rural, totalmente condicionado à definição de urbano,
74
visto que, parte-se do princípio de que, o que não for definido como urbano ou de
expansão urbana, será considerado rural, ou seja, está impregnado nesta definição
um conceito de rural que não se explica pelo seu conteúdo e sim por uma exclusão
do que não é urbano.
No que se refere à definição do imposto a ser aplicado à propriedade, esta
perpassou por diversos critérios gerando até algumas indefinições. A legislação
federal em períodos anteriores considerou a destinação do imóvel enquanto critério
para definir o tributo a ser cobrado, a exemplo da Lei Federal n.° 4.504/64, o
Estatuto da Terra (BRASIL, 1964) que em seu Art. 4º, definiu imóvel rural como
sendo “[...] prédio rústico, de área contínua qualquer que seja a sua localização que
se destina à exploração extrativa, agrícola, pecuária ou agro-industrial, quer através
de planos públicos de valorização, quer através de iniciativa privada;”.
Em contrapartida, a Lei Federal nº 9393/96 (BRASIL, 1996) que dispõe dentre
outras providências, especificamente sobre o ITR, ratifica a localização do imóvel
rural fora da zona urbana, em consonância com o CNT, porém com o propósito de
esclarecer acerca das divergências em torno da classificação do imóvel rural para
fins de tributação, delimita a localização deste imóvel rural na zona rural do
município, como se observa no parágrafo 2º do Art. 1º “[...] Para os efeitos desta Lei,
considera-se imóvel rural a área contínua, formada de uma ou mais parcelas de
terras, localizada na zona rural do município”.
Com relação à implementação de impostos territoriais, IPTU e ITR, o plano
diretor do município de Marituba (MARITUBA, 2007) menciona acerca somente do
IPTU, em consonância com as zonas urbanas criadas. De acordo com Kozenieski
(2010), O IPTU para as prefeituras apresenta-se enquanto um instrumento
estratégico, pois comparativamente o IPTU geralmente tem alíquotas superiores ao
ITR, pois, entre outros, visa dotar tal espaço com um grande conjunto de
infraestruturas, além de evitar vazios urbanos e a conseqüente especulação
imobiliária.
A partir das definições das leis supracitadas referentes às zonas onde se
localizam as propriedades sobre as quais iram incidir os impostos, torna-se possível
fazer uma relação entre as perspectivas expressas entre urbano e rural nas leis e
abordagens teóricas sobre este par dialético. Nas leis, sobretudo no CTN (BRASIL,
1966), rural e urbano, são aparentemente entendidos de maneira dicotômica,
enquanto que o urbano, ou a zona urbana é compreendida sendo dotada de
75
serviços, infraestrutura, a zona rural, passa a ser a sua antítese. É neste sentido de
valorização dos espaços urbanos em detrimento dos rurais que alguns municípios
delineam seus planos diretores, a exemplo do município de Marituba.
Para Guerra (2006), a definição de rural e urbano no Brasil, esteve
relacionada aos censos demográficos, nos quais o urbano era representado pela
sede municipal, enquanto o rural era delimitado pela distância e diferença tida com o
urbano, este previamente delimitado. De acordo com este autor “A perspectiva
quantitativa se afirma de tal maneira que o município e cidade são tratados como
sinônimos nos escritos sobre tamanho dos municípios […]”. (GUERRA, 2006, p. 100)
Contudo, geralmente a consideração e delimitação de duas zonas, de
consolidação urbana e expansão urbana, extinguindo zona rural, inviabiliza aos
agricultores, inúmeras possibilidades de participação em programas federais de
assistência, a possibilidade de pagar menos impostos por meio do ITR, o não
cadastramento no SNCR, e por sua vez o não reconhecimento de agricultor familiar,
produtor rural ou trabalhador rural para fins de financiamento, situação relatada na
pesquisa exploratória realizada com agricultores familiares residentes no município
de Marituba.
Situação esta também exposta pelo técnico da EMATER em entrevista
realizada no âmbito desta pesquisa, segundo o técnico do escritório local da
EMATER em Marituba, está havendo um embate para viabilizar o financiamento
para o agricultor familiar junto ao Banco da Amazônia (BASA), em decorrência de
não haver um aparato legal em nível de município que defina a área agrícola e
produtiva do município, bem como zona rural, em decorrência deste entrave, muitos
agricultores existentes no município não são reconhecidos.
Diante desta indefinição a EMATER fica impossibilitada de emitir a
Declaração de Aptidão do Produtor (DAP), de acordo com o técnico da EMATER,
tem que haver uma mobilização por parte de todos, agricultores, órgãos voltados a
este segmento em âmbito estadual e municipal, para que alinhavados, possam
reivindicar esta delimitação expressa em um documento legal, bem como a emissão
de documento que comprove o vínculo do agricultor com a produção agrícola.
Considerando o plano diretor dos demais municípios da RMB, a saber, Belém,
Ananindeua, Benevides, Santa Bárbara e Santa Izabel, constatou-se que somente
Marituba e Belém não apresentam delimitação da zona rural no município, conforme
se observa no quadro 2. Esta indefinição da zona rural, e por sua vez, a
76
consideração somente de espaço urbano nos planos diretores gera aos agricultores
e produtores, entendidos enquanto rurais em Marituba e em outros municípios,
diversas restrições que implicam diretamente na reprodução destes grupos no
espaço metropolitano devido, entre outros, aos acréscimos nas taxas e impostos
pagos, bem como na limitação de seus direitos enquanto agricultores e
trabalhadores rurais.
Quadro 2 - Municípios da RMB segundo as macrozonas instituídas pelos Planos
Diretores
Município
Ano de Emancipação
Plano Diretor vigente
Belém
1616
Lei nº 8.655/2008
Ananindeua
1943
Lei nº 2.237/2006
Marituba
1994
Lei nº 170/2007
Benevides
1961
Lei nº 1.031/2006
Santa Bárbara
1991
Lei nº 003/2006
Santa Izabel
1931
Lei nº 71/2006
Macrozonas Instituídas
Ambiente Urbano e
Ambiente Natural
Urbana e Rural
Consolidação Urbana e
Expansão Urbana
Urbana e Rural
Urbana;
Expansão
Urbana; Rural e de
Preservação
Urbana; Expansão Urbana
e Rural
Fonte: Elaborado por Silva (2011), adaptado dos Planos Diretores dos respectivos municípios.
O desenvolvimento dos municípios, pautado no planejamento territorial, deve
considerar as diferenças pautadas nos estilos de vida urbano e rural, a partir do
prisma da complementaridade e da valorização. Contudo, Guerra (2006, p. 108)
expõe que a estruturação histórica da sociedade sempre expressou formas de
dominação de um modo sobre outro, fazendo com que fosse construído o
entendimento “[...] que, para obter os níveis de qualidade de vida que os citadinos
obtiveram, deverão sair do meio rural e não transformá-lo coerentemente com suas
aspirações e estilo de vida”.
No entendimento de Spósito (2006) a tendência à homogeneização do
espaço, ainda que no plano legislativo, como se observou no plano diretor de
Marituba atende a interesses diversos, visto que, conforme esta autora, para uma
77
parcela da sociedade como os proprietários e incorporadores a transformação das
terras rurais em terras urbanas, e a conseqüente extensão do perímetro urbano,
ainda que seja na legislação, é relevante, pois cria a possibilidade real de ampliação
da renda, por meio dos loteamentos urbanos, o que por um lado beneficia os
empresários, e por outro limita a reprodução dos trabalhadores que vivem da
produção na terra, como a agricultura.
2.3 ESPACIALIZAÇÃO DAS INICIATIVAS DE AGRICULTURA FAMILIAR NA
REGIÃO METROPOLITANA DE BELÉM
A compreensão da reprodução de espaços diferenciados nos municípios que
compõem uma região metropolitana, em especial a de Belém, perpassa
necessariamente pelo conhecimento e entendimento da formação histórica, bem
como da composição desta área metropolitana, visto que a expansão mais recente
da metrópole Belém está intrinsecamente ligada ao processo de integração da
região Amazônica ao território nacional, a partir da implementação nesta região de
projetos, incentivados pelo governo nacional.
O processo de integração regional da Amazônia ao território nacional,
estimulado, sobretudo a partir da década de 1960 pelo governo federal, por meio da
construção de rodovias, bem como da implantação dos grandes empreendimentos,
revela um novo arranjo espacial observado na região Amazônica4.
Com as políticas veiculadas pelo governo federal referente à disponibilidade
de terras, bem como de matérias-primas na Amazônia, nos termos de Rodrigues
(1996), criou:
[...] as condições para a transferência de vultosos contingentes
populacionais à região, para funcionar como exercito de força de trabalho
necessário à implantação dos projetos e programas que, particularmente
após 1964, através de seguidos planos nacionais e regionais de
desenvolvimento, vão consolidar seu papel (da Amazônia) como fronteira de
expansão da acumulação [...]. (RODRIGUES, 1996, p. 30-31)
4
Para maiores detalhes, ver Trindade Jr. e Rocha (2002).
78
Os projetos econômicos e de infraestrutura concebidos e implementados nos
espaços amazônicos pré-estabelecidos, resultaram, conforme Trindade Jr. e Rocha
(2002, p.17) “[...] em profundas transformações no espaço herdado, provocando
bruscas rupturas no padrão de ocupação do espaço local e nas sociabilidades até
então definidas”.
Com base em Rodrigues (1996) uma das implicações deste processo faz
referência a um expressivo movimento populacional do campo em direção as
cidades, desencadeando problemas como o excedente populacional nos grandes
centros urbanos, assim como o agravamento do processo de favelização em ampla
escala.
As formas de apropriação do espaço introduzidas na Amazônia, sobretudo
pós-60, foram também reconhecidas por Visentini (2004) da seguinte forma:
Talvez, nenhum outro período da história de ocupação deste território tenha
deixado marcas tão profundas como este mais recente, que coincidiu com a
instauração no país, por mais de trinta anos, de um dos regimes políticos
mais autoritários e violentos de sua história [...] Manaus ascendeu
definitivamente à condição de metrópole, juntamente com Belém.
(VISENTINI, 2004, p. 180)
O dito “desenvolvimento” da região Amazônica, pretendido pelo governo
federal, associado à iniciativa privada, através da implantação dos polos de
desenvolvimento, a saber, agrominerais, madeireiros, agropecuários, agroindustriais
e urbanos, mantêm relação direta com o desenvolvimento das metrópoles regionais
em formação na região, como Manaus, São Luis e Belém (RODRIGUES, 1996).
A constituição das metrópoles na referida região está relacionada a uma
dinâmica particular referente à região, mas também obedece a uma lógica mais
geral, de âmbito nacional, exposta por Davidovich (2003).
A institucionalização da metrópole no país se constitui em um dos marcos
de um projeto geopolítico de integração do território nacional e do
desenvolvimento industrial com base em uma sociedade dominantemente
urbana. (DAVIDOVICH, 2003, p. 57)
Neste sentido, tem-se a formação das metrópoles, conforme Davidovich
(2003), ligadas tanto à iniciativa federal, estabelecidas no regime militar,
apresentando mais de um milhão de habitantes, dentre as quais Belém está
79
inserida; quanto às associadas à iniciativa estadual, cuja criação se deu por volta de
1994, de acordo com os termos da política urbana delegada aos governos estaduais
pela constituição de 1988 (DAVIDOVICH, 2003).
Na visão de Lojkine (1997), na medida em que o capitalismo se apropria do
espaço, este restringe a acessibilidade ao mesmo, revelando desta forma um centro
que concentra o trabalho intelectual e de comando e a periferia subjugada ao
anterior, processo este reflexo da articulação e fragmentação intrínsecas ao modo
de produção capitalista, o qual, por sua vez, divide a sociedade no que concerne ao
seu uso:
[...] de um lado, a fração monopolista do capital que tende a garantir para si
o monopólio do uso dos equipamentos coletivos urbanos mais ricos em
meios de reprodução ampliada do trabalho intelectual e, do outro lado, o
conjunto das camadas não monopolistas, tanto capitalistas como
assalariados, exclusivos desse uso social (LOJKINE, 1997, p. 168).
No que diz respeito especificamente à constituição da área metropolitana de
Belém, pode-se perceber, com base em Rodrigues (1996) períodos concernentes ao
processo de expansão desta metrópole, cuja fundação enquanto cidade data de
1616 com a ofensiva portuguesa sobre o território Amazônico.
Neste sentido, tem-se enquanto primeiro momento de expansão da metrópole
Belém, o eixo inicial de extensão da malha urbana de Belém o qual esteve
associado ao aterramento do Igarapé do Pirí, este considerado o divisor de águas
entre a área central e o bairro da Campina. Este bairro da Campina surge neste
contexto do século XVII, concomitante a abertura das vias que atualmente
entrecortam a área comercial da cidade como a Rua dos Mercadores, atualmente
Rua Conselheiro João Alfredo e Rua Manoel Barata, anteriormente designada de
São Vicente.
Com o apogeu da atividade da borracha e consequente instalação da estrada
de ferro Belém-Bragança, tem-se conforme Rodrigues (1996, p. 143) o surgimento
de um “[...] novo vetor de espraiamento horizontal [...]”, o qual teve seu início com a
formação de núcleos agrícolas e vilas operárias ao longo da ferrovia, os quais
posteriormente resultariam nos atuais municípios tais como Ananindeua e Marituba.
Um terceiro momento de expansão da malha urbana de Belém, neste
contexto, para além dos limites da 1º Légua Patrimonial5, se efetiva a partir da
5
“Em 1º de setembro de 1627, onze anos após a fundação da cidade de Belém, o governo da
província do maranhão e Grão-Pará, por meio da Carta de Doação e Sesmaria, doa ao Conselho da
80
década de 1950, em virtude, principalmente dos altos índices populacionais, os
quais foram intensificados na década de 1960 com implementação dos grandes
projetos na região Amazônica.
Neste período mais recente, a população passa a se concentrar nas periferias
distantes, incorporando a metrópole Belém, espaços de outros municípios,
imprimindo nestes últimos, características que até então eram exclusivas da
metrópole. Este momento mais recente foi enfatizado por Rodrigues (1996), o qual o
descreveu da seguinte forma:
A partir dos anos 50 percebe-se uma intensa expansão horizontal para além
de uma vasta extensão de terras, comumente denominada de “cinturão
institucional” que a partir da década de 40 formou-se no entorno do arco da
1ª. Légua patrimonial, ao mesmo tempo em que se realizava um intenso e
progressivo processo de ocupação de áreas de “baixada” dentro dos
marcos da 1ª. Légua [...]. Para além da 1ª. Légua a malha urbana espraiouse no sentido da Av. Tavares bastos, pela Rodovia Augusto Montenegro
[...]; Rodovia Artur Bernardes e eixo Belém-Ananindeua e estrada do
Coqueiro. (RODRIGUES, 1996, p. 143)
Para Trindade Jr. (1998) é precisamente em meados da década de 1980, que
se estabelecem de forma intensa os recentes espaços de assentamento em Belém,
espaços estes orientados a partir de duas vias de expansão, um sentido
representado pela Rodovia Augusto Montenegro, ligando Belém a Icoaraci e Outeiro
(distritos administrativos do município de Belém), bem como outro importante eixo
referente à Rodovia BR-316, unindo os municípios de Belém, Ananindeua, Marituba
e Benevides.
Os vetores responsáveis pela expansão horizontal justificam-se em grande
parte pela localização dos novos empreendimentos industriais ao longo das rodovias
e, sobretudo pela construção dos primeiros conjuntos habitacionais resultantes de
doações feitas pelo governo Federal à COHAB-PA (Companhia de habitação do
Estado do Pará), com localização tanto ao longo da Rodovia Augusto Montenegro
em direção ao Distrito de Icoaraci, quanto na rodovia BR-316 em direção a BelémBrasília, os quais se constituíram enquanto atrativos, para um significativo
Câmara de Belém uma légua patrimonial, para que pudesse explorá-la economicamente, exercendo
assim o jus domine; posteriormente, em 29 de março de 1628, o Conselho da Câmara toma posse do
patrimônio, por meio do Auto de Posse da Légua Patrimonial da Câmara de Belém. Essa légua foi
demarcada em 20 de agosto de 1703. Esse território corresponde hoje à porção dotada de melhor
infra-estrutura e mais valorizada da região metropolitana de Belém.” (CARDOSO; et al.. 2007, p. 147)
81
contingente populacional para estas áreas, ocupando efetivamente a chamada
Segunda Légua Patrimonial6:
Já no início da década de 80, a cidade ganha um grande investimento na
área de habitação, os conjuntos [...] que constituem um novo setor urbano,
extenso, infindo, de unidades habitacionais para pessoas de baixa renda
que vão agregar esta nova população urbana (VISENTINI, 2004, p. 180).
Neste sentido, tem-se a composição da RMB primeiramente com Belém,
fundada em 1616 com o nome de Santa Maria de Belém do Grão-Pará por
Francisco Caldeira Castelo Branco. Na sequência, em 1931, a emancipação do
município de Santa Izabel, já em 1943 foi criado o município de Ananindeua e
instalado oficialmente em 1944. O surgimento deste município guarda intima relação
com a existência de uma estação de embarque e desembarque de passageiros da
extinta Estrada de Ferro Belém-Bragança, a qual data de 1883, destinada a escoar a
produção agrícola e extrativista, sobretudo do nordeste paraense.
Assim como o município de Ananindeua, o município de Benevides,
emancipado em 1961, inicialmente colônia agrícola de Benevides, sofreu influência
direta da Estrada de Ferro. Já o município de Santa Barbara do Pará, criado em
1991, originário do antigo Engenho Araci, constituiu-se em município a partir do
desmembramento de Benevides. E por último, tem-se a criação do município de
Marituba o qual se emancipou em 1994.
A Região Metropolitana de Belém, conforme Trindade Jr. (1998) era
constituída, de acordo com a Lei complementar Federal nº 14 de 08/07/1973 que a
instituiu, pelos municípios de Belém e Ananindeua. Posteriormente, por meio da Lei
complementar Estadual nº 027 de 19/10/1995, foram incluídos os municípios de
Marituba, Benevides e Santa Bárbara. O Projeto de Lei complementar 002/2001 que
tramitava desde 2001, foi aprovado em 07/04/2011 pela Assembléia Legislativa do
Pará (ALEPA), resultando na inclusão do município de Santa Izabel à RMB. Neste
sentido, a RMB em sua composição integra os seguintes municípios: Belém,
Ananindeua, Marituba, Benevides, Santa Bárbara, Santa Izabel.
6
Nos termos de Trindade Jr. (1998, p. 104) “[...] corresponde a uma outra légua acrescentada
à Primeira Légua Patrimonial no final do século XIX, doadas, desta feita pelo governo do Estado, mas
que diferentemente da outra doação não chegou a ser delimitada”.
82
Mapa 2 - Região Metropolitana de Belém (RMB)
Fonte: Elaborado a partir do IBGE (2007)
83
Para Lencioni (2003), o relevante investimento de capitais, associado à
concentração das condições para produção, como a infraestrutura de transportes,
bem como as atividades de gestão do capital, são indicadores que denunciam a
ocorrência do processo de metropolização do espaço. Nestes termos, tem-se a
expansão da RMB, a qual foi concomitantemente expressão da ampliação do capital
imobiliário e financeiro, bem como produto e produtora da espacialização das
populações que não encontraram a efetivação das políticas de assentamento
difundidas pelo governo federal para a Amazônia, sobretudo a partir da década de
1960 com o governo militar (1964-1985).
A RMB segundo Trindade Jr. (1998) não teve seu crescimento fomentado
pelo setor industrial. Esta área metropolitana inseriu-se no conjunto das cidades que
se destacam pelas atividades comerciais e de serviços. Estas cidades na concepção
de Mitschein (1989, p. 30) guardam no seu conteúdo urbano uma parcela “[...]
substancial de visões tradicionais referentes à relação homem/natureza e de formas
pré-industriais de vida que moldam a vivência histórica do indivíduo”.
Frações da região metropolitana expressam um estilo de vida, pautado no
cultivo de hortaliças, plantas medicinais, pomares domésticos, criação de animais,
na sua maioria de pequeno porte, revelando um espaço metropolitano, que antes de
se constituir um todo homogêneo, tem a construção de diferentes espacialidades e
temporalidades que se realiza a partir das diversas formas de inserção social dos
grupos, os quais guardam experiências vividas consonantes com relações rurais ou
realidades expressivamente urbanas.
Estes
trabalhadores,
comumente
apresentando
trajetórias
de
vida
diferenciadas, imprimem no espaço metropolitano das cidades, outras formas de
apropriação social e espacial. São características diferenciadas de vivência que se
fazem presentes por meio de atividades como a agricultura, as quais se constituem
enquanto meios que possibilitam uma grande contribuição no sustento das famílias,
além do atendimento de um mercado consumidor crescente na cidade.
Estes espaços que guardam em sua composição socioespacial, uma relação
próxima com uma vivência ainda com elementos tipicamente rurais, expressa uma
relação rural-urbana presente na RMB. Neste sentido, pretende-se, a partir de
estudos desenvolvidos no âmbito da agricultura familiar na RMB, apresentar estas
produções espaciais nos municípios que compõem o espaço metropolitano em
84
questão, assim como a importância que estas atividades representam para as
famílias que as desenvolvem.
O desenvolvimento da produção familiar de modo geral e da agricultura
familiar em particular não ocorre somente no espaço metropolitano de Belém,
decerto está presente na vida cotidiana de muitas regiões metropolitanas brasileiras,
fato este negligenciado por muitos que não legitimaram esta produção socioespacial,
enquanto uma forma e um conteúdo que representa de um lado, a subsistência de
muitas famílias e de outro mais uma possibilidade de produtos para a população,
representando uma contribuição ao sustento tanto aos envolvidos na atividade nas
cidades, onde os índices de desemprego e a falta de oportunidades estão cada vez
mais significativos.
Neste sentido, no que se refere à caracterização da agricultura no município
de Belém de acordo com Frere e Martins (1999), frisa-se a pesquisa empreendida
pela
organização
não
governamental Associação
Paraense
de
Apoio
às
Comunidades Carentes (APACC), a qual realiza programas de desenvolvimento nos
bairros periféricos de Belém, com o objetivo de auxiliar as famílias carentes a
melhorarem suas condições de vida. Em um estudo desenvolvido durante cinco
anos sendo parcialmente finalizado em 1999, a APACC enfocou a agricultura urbana
no município de Belém, precisamente em sua porção continental, definindo alguns
bairros para a pesquisa.
Com base nos dois levantamentos realizados
pela APACC, foram
selecionados os bairros da Terra Firme, Guamá, Jurunas, Curió-Utinga, Benguí,
Tapanã, Tenoné, Coqueiro, Águas Lindas. Nestes bairros, foram realizadas
entrevistas que, segundo os consultores, consistiam em questionamentos referentes
tanto às características da família quanto a suas atividades agrícolas. O propósito
era de compreender o papel da agricultura urbana tendo como referência a família,
assim como de perceber como as atividades agrícolas eram utilizadas na vida
destes.
Para Frere e Martins (1999) a agricultura urbana de Belém é primeiramente
uma agricultura de populações carentes. Utilizada por um grande número de famílias
que freqüentemente não tem alternativas para melhorar suas condições de vida,
esta agricultura se apresenta, conforme os resultados da pesquisa, em uma
agricultura de subsistência, praticada por famílias que tentam produzir algo para
85
consumir, trocar ou eventualmente vender, sendo desenvolvida por cinquenta mil
famílias entre os bairros pesquisados.
Também foi observada a agricultura com conotação recreativa, praticada
pelas famílias mais favorecidas ou que tem acesso às condições de instalação mais
privilegiadas, correspondendo a dezessete mil famílias que por meio do plantio de
árvores e plantas ornamentais tentam melhorar seu ambiente. Encontrou-se também
a agricultura comercial, reduzidamente representada por 1% das casas dos bairros
carentes, correspondendo a 1500 famílias para as quais os benefícios das
atividades agrícolas constituem o principal da sua renda. Em síntese, conforme
Frere e Martins (1999),
A agricultura urbana é essencialmente uma agricultura de subsistência
exercida por 50 mil famílias carentes que visam melhorar suas condições de
vida. Esta forma de agricultura, que é encontrada em todos os bairros, mas
em proporções diferentes, utiliza quintais de estrutura muito diferentes
quanto ao tamanho (80% variando de 1 a 200 m²) e aos problemas
causados pelo alagamento. Ela tem por função produzir alimentos e
substitutos aos medicamentos comprados na farmácia, e possui um papel
de segurança alimentar e de poupança. Além da função econômica ela
também desempenha um papel social importante por permitir a troca de
produtos entre os vizinhos e melhorar o ambiente da família, a maior parte
do tempo isolada das zonas rurais de onde é originária. (FRERE E
MARTINS, 1999, p. 34)
Neste enfoque de estudos referentes à agricultura na RMB, o SEBRAE/PA
(2010), em parceria com outras instituições, realizou um diagnóstico da cadeia
produtiva de hortaliças de alguns municípios da RMB, sendo estes os municípios de
Ananindeua, Marituba e Benevides, além do município de Santo Antônio do Tauá, o
qual não está inserido na RMB. O estudo esteve concentrado no campo da
olericultura 7, isto é, no cultivo das hortaliças (verduras e legumes), plantas de
consistência herbácea, geralmente de cultivo intensivo, exigente de tratos culturais e
altamente perecíveis.
Conforme a pesquisa desenvolvida pelo SEBRAE/PA (2010), a olericultura
está distribuída em grandes grupos de produtos: a) grandes olerícolas: alho, batata,
cebola e tomate; b) as frutas olerícolas melancia, melão, morango, e c) os legumes e
7
Considerando a definição de Filgueira (2000) a olericultura consiste numa terminologia técnicocientífica empregada no meio agronômico que diz respeito ao estudo e cultivo das culturas oleráceas,
que são espécies vegetais de consistência tenra, ciclo biológico curto, exigentes em tratos culturais
intensivos e, comumente, cultivadas em pequenas áreas.
86
verduras, constituindo-se de todos os tipos de raízes, folhas, hastes, frutos e flores
comestíveis, entre outros. Porém as olerícolas principalmente cultivadas pelos
produtores dos municípios frisados na RMB restringem-se em sua maioria às
folhosas como alface, coentro (cheiro-verde), salsa, cebolinha, chicória, couve,
jambu, entre outros.
O associativismo e o cooperativismo, segundo o diagnóstico realizado pelo
SEBRAE/PA (2010), são bastante significativos entre os agricultores dos municípios
estudados. O grau mais elevado de associativismo foi representado pelo município
de Ananindeua (96,15%). Neste, os produtores entrevistados pertenciam à
Associação dos Produtores de Hortifrutigranjeiros de Ananindeua (APHA).
Em segundo, o município de Benevides (66,67%), no qual se destacaram as
seguintes entidades: Cooperativa Agrícola Mista de Benevides (COOPABEN),
Associação Agrícola Nova Esperança (AGRINESP), Associação Agroecológica da
Comunidade Maguary (ASTRAM) e Associação de Produtores de Nova Olinda.
No município de Marituba, ocupando a terceira posição, as associações
identificadas foram a Associação dos Produtores de Hortifrutigranjeiros de Abacatal
e Uriboca (APHAURI) localizada no bairro Uriboca e a Cooperativa Agrícola Santo
Antônio (COOPSANT) localizada no bairro Almir Gabriel.
No que se refere à COOPSANT no Município de Marituba, a dissertação de
Prado (2008) destaca a cooperativa enquanto uma referência no estado do Pará e
em nível nacional como empreendimento coletivo no ramo da produção da alface
hidropônica, plantas ornamentais e hortaliças orgânicas. O objetivo da pesquisa de
Prado (2008) foi analisar o processo de autogestão da cooperativa. Para este autor
a cooperativa, em meio às dificuldades de mobilizar a cooperação, tem uma
autogestão equilibrada com a participação ativa de seus sócios.
A pesquisa de Prado (2008) identifica a importância da família no processo de
fortalecimento da cooperativa; a mesma participa de forma ativa no trabalho
individual e coletivo, fortalecendo o caráter familiar do empreendimento associativo.
Por isto os cooperados, mesmo os que não têm familiares envolvidos, dizem que a
cooperativa é um empreendimento familiar. Os cooperados se identificam, tanto
como agricultor, quanto como cooperado. A identidade dos membros cria um vínculo
entre eles e a organização a qual pertencem.
Conforme o estudo de Santos e Guerreiro Filho (2003) outra associação se
destaca na RMB, precisamente no município de Santa Izabel do Pará, a Associação
87
de Produtores Rurais da Vila Sorriso (APROVISO), cujos membros, migrantes de
outros municípios paraenses como Capitão Poço e Cachoeira do Piriá, iniciaram a
produção de hortaliças no município.
Santos e Guerreiro Filho (2003) pontuam as dificuldades enfrentadas pelos
agricultores no que se refere aos fatores infraestruturais como o difícil acesso a água
para irrigação, a energia elétrica, ao transporte. Estes problemas se apresentavam
em maior intensidade no início com a iniciativa de produzir, bem como de se
organizar em associação, mas que ainda persistem, em menor grau, no cotidiano
dos produtores e, por sua vez, influenciando na reprodução destes.
Conforme dados da pesquisa realizada junto à associação APROVISO por
Santos e Guerreiro Filho (2003), observou-se que a comercialização da produção
desta associação se dá por meio de três canais. O primeiro, respondendo por 80%
da produção é vendida para atravessadores, os quais correspondem aos agentes
intermediários entre os produtores e as redes de supermercados de Belém, esta
relação, por sua vez, gera aos agricultores, no geral, uma situação de desvantagem,
pelo atraso nos pagamentos e pelo valor inferior da mercadoria, atribuído pelo
atravessador.
Partindo de uma pesquisa empírica realizada pela autora desta dissertação,
referente especificamente ao município de Marituba, foi possível observar o cultivo
de hortaliças (produção em destaque no município) em consonância com os outros
municípios e além deste a existência de atividades de natureza agropecuária, como
avicultura, suinocultura, além da fruticultura, floricultura, produção de adubo
orgânico.
A economia do município de Marituba está alicerçada na indústria e no setor
de serviços que em 2007 representaram R$ 87.611 mil e R$ 269.493 mil da renda
bruta respectivamente. Já a produção agropecuária é mencionada na estatística
respondendo, em 2007, por cerca de R$ 4.404 mil da renda municipal (PARÁ, 2011).
Ainda que a produção diretamente ligada a terra não seja tão perceptível a um
cálculo econômico, o que é produzido por estas famílias que se dedicam a esta
produção na RMB, revela-se enquanto complemento ou a única fonte de renda para
estas famílias.
A partir dos estudos referenciados acerca da agricultura na RMB, incluindo a
pesquisa empírica no município de Marituba, constatou-se que nesta forma de
trabalhar, bem como de produzir, predomina o caráter familiar. Na pesquisa
88
empreendida pelo SEBRAE/PA (2010) que envolve os municípios de Ananindeua,
Benevides e Marituba da RMB, o percentual de mão-de-obra familiar empregada na
produção
foi
significativo,
correspondendo
a
72,22%,
60%,
e
88,64%
respectivamente.
O reconhecimento do caráter familiar fortemente presente na agricultura
desenvolvida na RMB, foi identificado também pela pesquisa realizada sobre a
APROVISO por Santos e Guerreiro Filho (2003), a qual surge a partir de um núcleo
familiar. Por Prado (2008) sobre os cooperados da COOPSANT em Marituba e por
Frere e Martins (1999) no estudo concernente à agricultura urbana em Belém.
Considerando as informações verificadas na pesquisa exploratória, realizada
em Marituba, observou-se, assim como os estudos citados desenvolvidos nos outros
municípios, que a agricultura, a qual se enfatiza neste estudo, está concentrada em
áreas reduzidas, geralmente nos quintais das residências, nos quais são cultivados,
principalmente alface, jambu, salsa, cheiro verde, entre outros pelo núcleo familiar
ou por cooperados e associados.
A alface, cultivada de forma convencional ou hidropônica, uma das principais
hortaliças produzidas, faz parte do que Mitschein (1989) denominou de culturas nãotradicionais caboclas, em conjunto com o maracujá, a pimenta-do-reino, entre
outras, as quais foram introduzidas por migrantes estrangeiros, sobretudo nipônicos,
que chegaram ao Pará por volta de 1929, com a assistência, do governo do Estado.
Esta produção, predominantemente de hortaliças, está localizada nos diversos
bairros de Marituba, com destaque primeiramente para o bairro de Almir Gabriel e
Uriboca, seguidos por São Francisco, Santa Lúcia, entre outros.
O município de Marituba, constituído nos termos de Trindade Jr. (1998) em
um “novo espaço de assentamento”, foi sendo, sobremaneira a partir da década de
1980, ligeiramente ocupado tendo sua expansão urbana marcada tanto pelas
construções de conjuntos habitacionais financiados pela COHAB-PA, como o
conjunto Nova Marituba, o conjunto Beija-flor, quanto por inúmeras ocupações
espontâneas, as quais por sua vez, foram transformadas em bairros, os quais
compõem o espaço geográfico do município, dentre eles, o Centro, o Uriboca, Dom
Aristides, Decouville, Novo Horizonte, Nova união, Almir Gabriel, entre outros,
conforme a divisão política dos bairros, exposta no mapa 3.
89
Mapa 3 - Divisão político-administrativa do município de Marituba
Fonte: Adaptado da Prefeitura Municipal de Marituba – PMM
90
Os bairros enfocados neste estudo, a saber, Almir Gabriel e Uriboca,
apresentam semelhança no que concerne a infraestrutura, são bairros precários no
que diz respeito à pavimentação das ruas, mesmo estes bairros não estando tão
distante do centro do município, a disponibilidade de infraestrutura básica ainda está
aquém do necessário. Em termos de oferta de serviços elementares, destaca-se à
energia elétrica e escolas, já outros serviços como abastecimento de água, coleta de
lixo, segurança pública, serviço de saúde e pavimentação das ruas, apresentam
considerável carência.
Este segundo capítulo em síntese, consistiu em apresentar a constituição
histórica do município de Marituba e sua relação com a agricultura, demonstrando
que, conforme Hurtienne (1999), Penteado (1967), entre outros, a colonização antiga
da região da Bragantina, influenciou diretamente no surgimento do município de
Marituba, por meio da construção da EFB, assim como pela instalação de empresas
na região, assim como as mudanças no âmbito dos eixos de circulação que antes se
davam via ferrovia, e posteriormente passaram a ser através das rodovias, estas
transformações contribuíram para a atração populacional para a RMB.
Em sua relação com a dissertação, este capítulo, contextualiza histórica e
geograficamente a agricultura familiar na RMB, assim como em Marituba,
apresentando algumas iniciativas de agricultura familiar nesta região, bem como
identificando instrumentos legais que a partir de suas definições podem limitar as
possibilidades de reprodução dos agricultores, a exemplo dos planos diretores e dos
zoneamentos propostos, os quais geralmente não consideram estas produções
socioespaciais diferenciadas no espaço.
91
CAPÍTULO 3 - DIMENSÕES DAS POLÍTICAS PÚBLICAS VOLTADAS AOS
AGRICULTORES FAMILIARES COM ÊNFASE NO PRONAF
A legitimação e valorização da agricultura familiar, assim como as políticas
públicas
específicas
para
este
segmento
numeroso
e
heterogêneo
são
extremamente recentes no Brasil. É precisamente a partir da década de 1990 que se
observa a criação de políticas públicas especificamente para este segmento do
espaço
agrário,
neste
contexto
tem
destaque
o
Programa
Nacional
de
Fortalecimento da Agricultura Familiar (PRONAF).
À reflexão que se teceu neste estudo, está alicerçada numa análise crítica
acerca do programa em questão, compreendendo que a criação deste revela o
reconhecimento e importância fundamental da categoria agricultura familiar no
abastecimento alimentar do país. A esta abordagem, somam-se as análises do
conteúdo do programa já citado, bem como a utilização de indicadores secundários
e primários referentes a outros programas.
Este terceiro momento da dissertação está organizado em três itens, que
auxiliaram na compreensão das políticas públicas voltadas aos agricultores, com
ênfase no PRONAF. Neste sentido realizou-se no primeiro tópico, a exposição e, por
conseguinte, análise dos aspectos gerais intrínsecos ao referido programa, no que
se referem aos grupos atendidos, linhas de financiamento, dentre outros.
No segundo item priorizaram-se os financiamentos, seus direcionamentos e
finalidades, sobretudo no que concerne à região Norte, precisamente o estado do
Pará. E por fim a construção do último item esteve relacionada aos indicativos do
PRONAF na RMB e especialmente no município de Marituba, além de dados
primários que revelaram a existência de outras políticas voltadas aos agricultores,
como a obrigatoriedade de produtos advindos da produção familiar na merenda
escolar dos municípios.
Este capítulo, em síntese, evidencia o papel tido pela agricultura familiar no
cenário brasileiro, a qual passa da condição de atividade secundária para assumir
papel de destaque nas políticas públicas empreendidas para este grupo social,
sobretudo no que tange ao PRONAF. A análise acerca, principalmente, do programa
não consistiu em elevar seus limites, mas de reconhecer a sua importância, e
contribuir
para
seu
aprimoramento
desenvolvimento destes grupos sociais.
enquanto
política
pública
voltada
ao
92
3.1 ASPECTOS GERAIS DA POLÍTICA ESTATAL PRONAF
Analisar as políticas públicas exige discernimento acerca de sua composição,
visto que, as políticas públicas, em geral, já nascem com certo grau de
interferências, pois não estão isentas das inúmeras influências dos quadros
institucionais envolvidos, dos elaboradores, dos executores, dos beneficiários, enfim,
de todos os inseridos no processo. Neste sentido, estas são sempre contraditórias,
uma vez que resultam do movimento da sociedade, bem como da ação coletiva de
diversos atores sociais.
Nesta perspectiva, uma política pública se apresenta sob a forma de um
programa de ação coletiva, no qual o papel da autoridade pública ou de várias
autoridades públicas é imprescindível para implementação da política, atrelado a
este elemento, tem-se a interação entre o Estado e a sociedade, para a eficiência da
mesma. As políticas públicas consistem num processo dinâmico, com negociações,
tensões, acordos e conflitos de interesses.
Segundo Souza (2006), a formulação de políticas públicas compõe um
processo, em que os governos expressam seus objetivos em programas e ações
que tendem a resultar em mudanças na sociedade ou em parte dela. Na medida em
que são colocadas em prática, são submetidas a sistemas de acompanhamento de
execução e avaliação. Vale ressaltar ainda que a política pública envolve diversos
atores e níveis de decisão, embora seja materializada por meio dos governos, não
se restringe a estes. Fundamentada em outros autores, Souza (2006) menciona que
a política pública pode se apresentar sob quatro enfoques:
O primeiro é o das políticas distributivas, decisões tomadas pelo governo,
que desconsideram a questão dos recursos limitados, gerando impactos
mais individuais do que universais, ao privilegiar certos grupos sociais ou
regiões, em detrimento do todo. O segundo é o das políticas regulatórias,
que são mais visíveis ao público, envolvendo burocracia, políticos e grupos
de interesse. O terceiro é o das políticas redistributivas, que atinge maior
número de pessoas e impõe perdas concretas e no curto prazo para certos
grupos sociais, e ganhos incertos e futuro para outros; são, em geral, as
políticas sociais universais, o sistema tributário, o sistema previdenciário e
são as de mais difícil encaminhamento. O quarto é o das políticas
constitutivas, que lidam com procedimentos. Cada uma dessas políticas
públicas vai gerar pontos ou grupos de vetos e de apoios diferentes,
processando-se, portanto, dentro do sistema político de forma também
diferente. (SOUZA, 2006, p. 28)
93
Nesta perspectiva frisada por Souza (2006) acerca dos enfoques das políticas
públicas, destacam-se as políticas distributivas, de caráter segmentado e seletivo,
para enquadrar o programa voltado aos agricultores familiares, a saber, o PRONAF,
o qual está inserido numa sistematização que tem como foco o desenvolvimento
rural, neste sentido, conforme a diferenciação de Giovanni (2012; n/p) acerca das
políticas públicas, o PRONAF designa uma política especificamente estatal e não de
governo, a qual está para além de um mandato de um governo específico,
estendendo-se a outros governos.
Em geral, diz-se que as políticas de Estado são aquelas que conseguem
ultrapassar os períodos de um governo. Ou seja, políticas públicas são
políticas de Estado ou políticas de governo. A diferença entre aquilo que é
política de Estado e o que é política de governo é a maneira como elas são
institucionalizadas. Se elas são fortemente institucionalizadas em uma
sociedade, não há quem as mude. Não adianta trocar o governo.
(GIOVANNI, 2012; n/p)
Porém, a agricultura familiar não foi sempre prioridade nas políticas, ao longo
do processo histórico as autoridades públicas persistiram em privilegiar um modelo
de desenvolvimento alicerçado na agroexportação e na grande propriedade,
sobretudo desenvolvida em latifúndios, ou seja, grandes extensões de terra,
utilizando um número elevado de mão-de-obra assalariada e apresentando elevados
índices de renda com a produção, na sua maioria, voltada às monoculturas.
Para Oliveira (2007, p.21), pode-se dizer que a agricultura apresentou dois
caminhos, “[...] desenvolveu-se em duas direções: de um lado, a agricultura
especificamente capitalista, baseada no trabalho assalariado e nos arrendamentos;
de outro, a agricultura baseada na articulação com as formas de produção nãocapitalistas [...]”, como a voltada à subsistência, bem como a produção para o
mercado local.
Desta forma para Wanderley (1996), a grande propriedade se impôs como
modelo a ser legitimado e a receber o estímulo econômico expresso nas políticas
agrícolas nacionais. Já a agricultura desenvolvida pelos agricultores nos núcleos
familiares, neste contexto, ocupou um espaço secundário na sociedade brasileira,
ficando em segundo plano nas políticas de incentivo, e impossibilitada, desta forma,
de desenvolver-se plenamente enquanto forma social específica de produção.
94
A
agricultura
familiar
enfatizada
nesta
pesquisa,
marginalizada
historicamente, passa a partir, sobretudo da década de 1990 a ser referência nas
políticas agrícolas. Dentre as políticas concernentes à agricultura familiar, Denardi
(2001) destaca o papel da Previdência Social como sendo a política social de maior
abrangência, acompanhada do PRONAF.
No que se refere ao PRONAF, este foi criado por meio do Decreto 1.946, de
28 de junho de 1996, em princípio, esteve sob a coordenação da Secretaria de
Desenvolvimento Rural (SDR) do então Ministério da Agricultura e do Abastecimento
(MAA). Em 1999, no início do segundo mandato do então presidente Fernando
Henrique Cardoso (FHC), o programa foi transferido para a Secretaria de Agricultura
Familiar (SAF) do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA).
O reconhecimento da agricultura, com predomínio da mão de obra familiar
realizada em áreas reduzidas se comparadas aos latifúndios, por parte do governo
federal traduzido numa política pública voltada para este segmento, deve ser
entendido num contexto maior, o qual inclui à reorganização, bem como o
surgimento dos movimentos populares do campo, a partir do fim do regime militar. A
partir deste período são retomadas as lutas pela reforma agrária, além das
reivindicações em torno do crédito rural.
Conforme Altafin (2003), se por um lado não se pode desconsiderar a
influência dos movimentos rurais nas medidas adotadas no início do governo FHC,
por outro, a tendência para um novo ordenamento do Estado também condicionou
este processo. O PRONAF segue essa tendência mundial, que se materializa nas
orientações preconizadas pelo Banco Mundial desde o início da década de 1990. As
recomendações do banco têm como referência principal a trajetória dos países
desenvolvidos, onde a agricultura familiar ocupou papel relevante na modernização
do setor.
Neste sentido, O PRONAF que objetiva o fortalecimento da agricultura familiar
por meio de apoio técnico e financeiro para promover o desenvolvimento rural
sustentável, tem como meta principal fortalecer a capacidade produtiva da
agricultura familiar e assim contribuir para a geração de emprego e renda e melhoria
da qualidade de vida dos agricultores familiares. Para tanto está definido duas
formas de crédito: o crédito de custeio e o crédito de investimento.
O crédito de custeio destina-se aos financiamentos das atividades
agropecuárias e não agropecuárias e de beneficiamento ou industrialização de
95
produtos, também poderá contemplar verbas para a manutenção do beneficiário e
de sua família, bem como aquisição de animais destinados à produção necessária à
subsistência.
Enquanto os créditos de investimento contemplam recursos para financiar
investimentos em projetos técnicos que demonstrem retorno financeiro e capacidade
de pagamento suficientes do empreendimento; investimentos, inclusive em
infraestrutura (implantação de agroindústrias, unidades centrais de apoio gerencial,
aquisição de equipamentos de informática), que visem o beneficiamento e o
processamento.
Este programa concebe a agricultura familiar enquanto um modelo de
organização produtiva agropecuária, no qual predomina a combinação entre gestão,
propriedade, produção, os quais são direcionados pelo trabalho familiar, sendo
complementado pelo trabalho assalariado, este apresentando limites no que diz
respeito ao acesso ao crédito.
Para efeitos legais, considera-se agricultor familiar aquele que se enquadra
no Art. 3º da lei 11.326/06 (BRASIL, 2006) e também silvicultores, assentados da
reforma agrária, aqüicultores, extrativistas e pescadores que atendam os requisitos
estabelecidos na mesma lei. Desta forma, a categoria de agricultor familiar passou a
ter respaldo legal para ser utilizado em políticas públicas.
o
Art. 3 Para os efeitos desta Lei, considera-se agricultor familiar e
empreendedor familiar rural aquele que pratica atividades no meio rural,
atendendo, simultaneamente, aos seguintes requisitos:
I - não detenha, a qualquer título, área maior do que 4 (quatro) módulos
fiscais;
II - utilize predominantemente mão-de-obra da própria família nas atividades
econômicas do seu estabelecimento ou empreendimento;
III - tenha percentual mínimo da renda familiar originada de atividades
econômicas do seu estabelecimento ou empreendimento, na forma definida
pelo Poder Executivo; .
IV - dirija seu estabelecimento ou empreendimento com sua família.
Para Neves (2007) a referida caracterização, bem como o público pretendido
pelo PRONAF, guarda uma diversidade, que ao invés de caracterizar os
agricultores, recai numa descaracterização dos mesmos, uma vez que aglutinam
numa mesma perspectiva teórica, metodológica e conceitual, agricultores com
histórias, experiências, culturas e modos de vida diversos.
96
A ponderação feita anteriormente faz referência à incorporação de uma
heterogeneidade de grupos sociais entendidos enquanto agricultores familiares
como os assentados (beneficiados do Programa Nacional da Reforma Agrária),
posseiros,
arrendatários
ou
parceiros,
pescadores
artesanais,
extrativistas,
silvicultores, aquicultores, maricultores, piscicultores, comunidades quilombolas,
povos indígenas e criadores de animais silvestres. Os quais para serem atendidos
pelo programa necessitam atender a alguns critérios, conforme documento oficial:
Para ter acesso ao PRONAF, é necessário:
-trabalhar na terra em condição de proprietário, posseiro, arrendatário,
parceiro ou concessionário (assentado) do Programa Nacional de Reforma
Agrária (PNRA);
-residir na propriedade rural ou em local próximo;
-dispor de área inferior a quatro módulos fiscais. O módulo fiscal é uma
unidade de medida expressa em hectare fixada para cada município. Varia
de 5 a 110 hectares (procure saber o tamanho do módulo fiscal na
prefeitura, nos sindicatos rurais e dos trabalhadores rurais e nos agentes
financeiros);
-ter renda bruta anual do grupo familiar entre R$ 6 mil e R$ 110 mil com
pelo menos 70% provenientes da exploração agropecuária e não
8
agropecuária do estabelecimento, ou abaixo de R$ 6 mil com pelo menos
30% provenientes da exploração agropecuária e não agropecuária do
estabelecimento;
-ter, no máximo, dois empregados, sendo que a mão de obra deve ser
prioritariamente familiar. Eventualmente, em épocas de plantio e colheita,
pode ter mão de obra temporária, devendo essa mão de obra ser
predominantemente familiar. (Cartilha de acesso ao PRONAF, 2011-2012,
p.8)
Os beneficiários do PRONAF são pessoas que compõem as unidades
familiares de produção rural e que comprovem seu enquadramento mediante
apresentação da Declaração de Aptidão ao PRONAF (DAP), esta representa um
atestado confirmando que o proponente se enquadra na categoria de agricultor
familiar, segundo critérios definidos pelas normas do Banco Central do Brasil (BCB).
O primeiro passo para o agricultor familiar conseguir o financiamento do PRONAF é
procurar a EMATER de seu município ou o Sindicato a que esteja afiliado para obter
a sua DAP, esta é gratuita e sua finalidade é identificar os agricultores familiares
8
Como atividades não agropecuárias, são incluídos os serviços relacionados com turismo rural,
produção artesanal, agronegócio familiar e outros serviços no meio rural que sejam compatíveis com
a natureza da exploração rural e com o melhor emprego da mão de obra familiar.
97
e/ou formas associativas organizadas em pessoas jurídicas, aptos a realizarem
operações de crédito rural.
Neste processo de financiamento as agências bancárias são imprescindíveis,
neste sentido há um esforço por parte do governo em atrair os parceiros sejam estes
estatais e/ou privados para as aplicações do PRONAF, o governo instituiu algumas
vantagens aos bancos que participassem da concessão de empréstimos ao
PRONAF. Contudo, o financiamento não é um procedimento simples, requer uma
série de informações e comprovações por parte do agricultor, os quais, na sua
maioria, não estão familiarizados com o processo.
Possivelmente uma das maiores dificuldades enfrentadas pelo programa
tenha sido as exigências bancárias. Conforme os relatos dos agricultores, as
requisições colocadas pelos bancos oficiais distanciaram considerável contingente
de agricultores dos financiamentos. Os agricultores familiares, em geral, não
trabalham com esta lógica do crédito, coordenada pela instituição bancária.
No que concerne ao crédito no PRONAF, o mesmo está diretamente atrelado
à renda bruta dos agricultores, a qual define em que grupo os agricultores serão
enquadrados, bem como a natureza do crédito concedido, ou seja, de custeio ou
investimento. Estes financiamentos visam, em síntese, à ampliação da integração
destes agricultores ao mercado, o qual se configura em um dos objetivos principais
do programa.
Conforme as características contidas no PRONAF, elaborou-se um quadro
demonstrativo da delimitação dos diferenciados grupos9 beneficiados com as linhas
de créditos tidas pelo programa, à especificação dos grupos e de suas respectivas
rendas, bem como seus limites de créditos. Este programa tem como eixos básicos,
o financiamento da produção agrícola, o financiamento de infraestrutura e serviços
municipais, a capacitação e profissionalização dos agricultores familiares, entre
outros.
9
Além destes grupos, o PRONAF também criou linhas especiais de crédito para a Agroindústria,
Mulher, Jovem, Semiárido, Agroecologia, Floresta, Eco, Mais Alimentos e Cotas-Parte, contudo nos
deteremos nesta pesquisa, somente aos grupos genéricos.
98
Quadro 3 - Enquadramento no PRONAF e linhas de crédito
Linhas de
crédito
Especificação
Renda
bruta
a.a
Limite
Grupo A
(Investimento)
Agricultores familiares
assentados
pelo
Programa
Nacional de Reforma
Agrária
(PNRA),
e
público-alvo
do
Programa Nacional de
Crédito
Fundiário
(PNCF)
e
os
reassentados em função
da
construção
de
barragens
Agricultores familiares
assentados pelo PNRA
ou público-alvo
do PNCF
Que
já
tenham
contratado a primeira
operação no
Grupo A
Até R$
14 mil
Até R$
21,5 mil
0,5% a
Até R$
14 mil
Até R$
15 mil
0,5 % ao
ano
Até 2 anos
Agricultores familiares
que
tenham
uma
propriedade menor que
quatro módulos fiscais
com no máximo dois
empregados
Antigos Grupos
“C’’ “D” “E” “V”
(grupos consolidados)
Até R$
6 mil
Até R$
2 mil por
operaçã
o
0,5% ao
ano
Até 2 anos
Acima
de R$ 6
mil até
R$ 110
mil
Custeio/
Investim
ento:
Até R$
50 mil
Custeio:
Até R$ 50
mil 1,5%
a 4,5% ao
ano.
Investime
nto: Até
R$ 50 mil
1% a 2%
ao ano
Custeio agrícola:
até 3 anos.
Custeio pecuário:
até 1 ano.
Investimento: até 10
anos
Grupo A/C
(Custeio)
Grupo B
Microcrédito
rural
(Investimento)
Grupo AF
Agricultor
familiar
(Custeio
e
investimento)
Juros
Prazo
Até 10 anos
1% ao
ano
(R$ 5
mil por
operaçã
o)
Agricultores
-Pescadores artesanais;
familiares
-Extrativistas que se dediquem à exploração extrativista ecologicamente
Também
se sustentável;
enquadram,
-Silvicultores que cultivem florestas nativas ou exóticas;
exceto
nos -Aquicultores, maricultores e piscicultores;
grupos "A" e -Comunidades quilombolas;
"A/C"
- Povos indígenas;
Renda até R$ -Agricultores familiares que se dediquem à criação ou ao manejo de animais
110 mil
silvestres para fins comerciais;
Fonte: Adaptado da cartilha do PRONAF 2011/2012
Apesar do investimento indiscutível a este segmento do espaço agrário, temse ainda a notória expressão, nas entrelinhas do programa em questão, de uma
99
classificação arbitrária que caracteriza a agricultura familiar e seus produtores, não
pelo conteúdo, mas por suas formas, buscando sua conformidade com a agricultura
patronal, uma vez que busca a especialização produtiva, bem como a uniformidade
tecnológica entre os agricultores consolidados denominados de agricultores
familiares (anteriormente enquadrados nos grupos D, E, V) e os entendidos em
transição (grupo A, B), esta perspectiva pode ser confirmada a partir da ênfase nas
atividades que geram renda, condição para obtenção dos financiamentos.
No que se refere a esta tecnificação da agricultura familiar por meio do
PRONAF, Carneiro (1997) já advertia para o fato desta dotação tecnológica em nível
elevado resultar na migração forçada de muitos trabalhadores rurais para os centros
e principalmente para as periferias urbanas, por não conseguirem sua inserção no
trabalho, e consequentemente atenuando a expropriação do trabalhador rural, ao
invés de fixá-lo ao campo.
Ao analisar a base dos dados da implementação do PRONAF, Alentejano
(2000) revela que os créditos concedidos à agricultura familiar ainda são
extremamente limitados, visto que a liberação dos créditos estava concentrada, na
sua maioria, na região Sul, precisamente em três estados, do total de cinco regiões
contempladas pelo programa. Dentre as cinco regiões brasileiras, as regiões Sul e
Sudeste lideram em créditos recebidos do PRONAF. Os dados do BCB comprovam
a grande participação na tomada de crédito dos agricultores dos estados destas
regiões, estes financiamentos são cedidos principalmente aos agricultores já
consolidados, aqueles denominados pelo programa de agricultor familiar.
Na tabela a seguir, a partir de uma consulta ao anuário estatístico do crédito
rural de 2009 a 2011, disponível pelo BCB (BRASIL, 2012), a qual apresenta a
adição das atividades financiadas (agricultura e pecuária), bem como a finalidades
dos créditos (custeio e financiamento), foi possível perceber certa disparidade entre
as regiões, com destaque para o grande volume de financiamentos concentrados na
região Sul e em segundo na região Sudeste, onde possivelmente se localizam os
agricultores familiares mais modernizados e integrados as agroindústrias, ficando
uma parcela significativa de agricultores familiares aquém deste processo,
localizados principalmente na região Norte.
100
Tabela 3 - Acesso ao crédito do PRONAF por Região no período de 2009 a 2011
2009
R
E Contrato
2010
2011
Valor (R$)
Contrato
Valor (R$)
Contrato
Valor (R$)
53.930
763.666.470,51
53.222
843.649.371,77
49.311
886.377.493,57
2
643.452
1.383.572.556,85
643.163
1.531.694.494,54
644.028
1.659.650.994,71
3
102.150
798.131.207,46
94.505
852.332.766,70
72.652
785.651.766,85
4
272.892
2.588.303.717,69
266.703
2.914.069.852,52
243.416
2.957.165.245,95
5
632.523
5.685.173.145,98
527.893
5.846.890.904,92
504.343
6.537.619.517,35
11.218.847.098,49
1.585.486
11.988.637.390,45
1.513.750
12.826.465.018,43
1
B 1.704.947
Fonte: BCB (BRASIL, 2012)
Legenda: RE (Região); 1 (Centro-Oeste); 2 (Nordeste); 3 (Norte); 4 (Sudeste); 5 (Sul); B (Brasil)
Ao analisar os dados da tabela 3, observa-se que a região Nordeste é a única
região que em números de contratos, vem apresentando um crescimento ao longo
destes três anos, consolidando-se na primeira posição, no que se refere ao número
de contratos financiados. Contudo apesar do Nordeste ter sido a região que mais
contratou financiamento nestes últimos anos, a região Sul, embora tenha gerado um
número de contratos inferior, foi à região ao longo destes anos, que mais recebeu
dinheiro do PRONAF, levando em consideração o montante em reais.
Considerando tanto as informações acerca dos créditos repassados as
regiões, quanto os dados relativos às linhas de crédito e os limites de crédito para
cada linha, supõe-se que apesar do número de contratos da região Sul ser inferior à
região Nordeste, os grupos que obtiveram estes financiamentos estão inseridos nos
grupos de agricultores familiares consolidados, os quais podem obter um
financiamento maior junto ao programa, esta se configura numa possível explicação
para a diferença de valores em crédito repassados para as regiões Sul e Nordeste,
tendo em vista o número de contratos obtidos por estas regiões.
As instituições financeiras responsáveis pelo repasse destes créditos ao
programa são o Fundo de Amparo ao trabalhador (FAT), Fundo constitucional de
financiamento do Centro-Oeste (FCO), Fundo constitucional de financiamento do
Nordeste (FNE), Fundo constitucional de financiamento do Norte (FNO), Fundo de
defesa da economia cafeeira (FUNCAFE), Manual de Crédito Rural (MCR 6.2),
101
Poupança Rural (P. RURAL), Recursos Próprios Livres (RPL), Recursos do Tesouro
Nacional (RTN).
Para Alentejano (2000), apesar das políticas agrícolas, sobretudo a partir da
década de 1990, estarem sendo direcionadas ao fomento da agricultura familiar no
Brasil, como o PRONAF, ainda não se percebeu estas políticas sendo efetivamente
concretizadas na sua totalidade. Para este autor, isto se dá em decorrência de tais
políticas revelarem um caráter estruturalmente excludente, uma vez que partem,
[...] da consideração de que as ações visando à modernização da
agricultura familiar devem se voltar para a parcela de agricultores familiares
considerados em situação intermediária ou em transição, ou seja, excluem a
maioria dos agricultores familiares brasileiros considerando que não
possuem terra, capital, ou qualificação suficiente para acompanhar tal
processo. (ALENTEJANO, 2000, p.5)
O PRONAF se apresenta enquanto uma política estatal para quem tem terra,
mas não se pode negligenciar número significativo de agricultores que não tem terra
e luta de forma organizada, para tê-la como espaço de trabalho e moradia.
Conforme
Mitidiero
Junior
(2011),
os
dados
do
MST,
apresentam
que
aproximadamente quatro milhões de famílias existentes no Brasil não possuem
terra, totalizando mais de dez milhões de pessoas.
3.2 CARACTERÍSTICAS DO PRONAF NA REGIÃO NORTE E NO ESTADO PARÁ
A região Norte do Brasil é composta por sete estados: Pará (PA), Amapá
(AP), Amazonas (AM), Tocantins (TO), Roraima (RR), Rondônia (RO) e Acre (AC). A
sua população, segundo o IBGE (2010) corresponde a 15.484.929 habitantes,
destes 11.664.509, ou seja, 73,5% são considerados população urbana e 26,5% ou
4.199.945 foram quantificados enquanto população rural. Apesar de ser uma das
maiores regiões em termos de extensão e apresentar uma população rural
significativa, esta região, conforme a tabela 3 foi a que concentrou menor número de
contratos, bem como menor valor de créditos em relação às outras regiões do Brasil.
Estas disparidades estão presentes também na distribuição do montante de créditos
repassados aos seus respectivos estados, como se observa na tabela 4.
102
Tabela 4 - Contratos efetuados e créditos do PRONAF repassados aos estados da
Região Norte - 2009 a 2011
2009
Valor (R$)
2010
Valor (R$)
2011
Valor (R$)
UF
Contrato
PA
45.885
301.437.023,37
41.339
286.211.809,01
28.037
228.831.931,52
RO
20.772
230.117.302,03
21.483
296.249.672,25
15.200
274.397.905,27
TO
14.672
127.333.309,35
13.654
106.450.170,68
15.643
145.814.138,00
AM
11.332
69.169.637,49
8.838
74.320.333,22
7.728
69.229.577,19
AC
5.630
43.609.832,12
6.534
58.638.348,19
5.178
53.986.602,26
RR
1.990
8.215.666,37
902
13.528.298,52
457
8.221.991,10
AP
1.869
18.248.436,73
1.755
16.934.134,83
409
5.169.621,51
Norte
102.150
798.131.207,46
94.505
852.332.766,70
72.652
785.651.766,85
Contrato
Contrato
Fonte: BCB (BRASIL, 2012)
Considerando o triênio definido de 2009 a 2011, percebe-se na tabela 4, um
declínio no repasse de créditos para a maioria dos estados da Região Norte, assim
como uma diminuição no número de contratos efetuados pelos estados, com
exceção para o estado do Tocantins que apresentou um acréscimo mínimo nestes
indicativos.
No geral, tem-se na região Norte o estado do Pará que, apesar das reduções,
apresentou ao longo destes três anos o maior número de contratos, bem como
maior investimento em termos de crédito disponibilizado, números que expressam a
posição do estado do Pará em termos de estabelecimentos familiares na região
Norte. Nesta região, um dos principais bancos voltados à aprovação de créditos aos
agricultores é o BASA.
O Censo Agropecuário de 2006 trouxe informações oficiais acerca dos
agricultores familiares no Brasil, pautando-se na Lei Federal 11.326 de 24 de julho
de 2006, que define a agricultura familiar. Neste sentido, a partir dos dados
divulgados, confirmou-se que dentre os estados da região Norte o Pará é o estado
que apresenta o maior número de estabelecimentos familiares, apresentando
196.150 mil estabelecimentos, conforme a tabela 5.
103
Tabela 5 - Estabelecimentos e área da Agricultura Familiar segundo os estados da
Região Norte e Brasil
Estado
Região
Agricultura Familiar Lei 11.326
Não Familiar
Estabelecimentos
Área (ha)
Estabelecimento
Área (ha)
PA
196.150
6.909.156
25.878
15.556.870
RO
75.251
3.302.769
11.826
5.026.364
TO
42.899
2.695.201
13.668
11.597.721
AM
61.843
1.477.045
4.941
2.157.265
AC
25.187
1.494.424
4.295
1.996.859
RR
8.908
637.963
1.402
1.061.871
AP
2.863
130.770
664
743.018
Norte
413.101
16.647.328
62.674
38.139.968
Brasil
4.367.902
80.250.453
807.587
249.690.940
País
Fonte: Censo Agropecuário de 2006 (BRASIL, 2006)
Contudo, apesar do estado do Pará apresentar o maior número de
estabelecimentos familiares da região Norte, também é um dos maiores estados em
concentração fundiária. Mesmo este estado possuindo um número considerável de
agricultores familiares segundo o censo agropecuário (2006), os créditos obtidos
junto ao PRONAF, nos anos de 2009, 2010 e 2011, correspondem a 2,68 %; 2,38 %;
1,78 %, respectivamente.
Estes percentuais demonstram a reduzida parcela de créditos destinados ao
estado que mais recebe incentivo do PRONAF na região Norte, o Pará além de
receber financiamento que não atinge 3% do valor total disponibilizado pelo
programa, nos anos de 2009 a 2011, ainda apresenta um decréscimo nestes
repasses.
As fontes de financiamento utilizadas para a região Norte ao longo destes três
últimos anos foram o FAT, o FNO, O MCR 6.2, a Poupança Rural e o RTN, sendo
que destas fontes, a que se sobressai em termos de recurso diz respeito ao FNO.
Estas fontes de recursos também foram responsáveis pelo repasse ao estado do
Pará, conforme podemos observar no gráfico 1, o qual apresenta as fontes que
104
repassaram recursos para o estado do Pará, com finalidade de custeio e
financiamento da agricultura e da pecuária.
Gráfico 1 - Fontes de recursos do PRONAF utilizados no Pará – 2009 a 2011
250000000
200000000
FAT
FNO
P. RURAL
RTN
150000000
100000000
50000000
0
2009
2010
2011
Fonte: BCB (BRASIL, 2012)
Conforme o gráfico 1 indica, no geral as fontes de recursos do PRONAF para
o estado do Pará apresentaram ao longo destes três anos um declínio nos valores
repassados. Os dados revelam também uma disparidade entre as fontes no
repasse, visto que das cinco fontes de financiamento, três, a saber, FAT, RTN e
MRC 6.2, apresentaram de acordo com o gráfico, repasses reduzidos, em relação à
poupança rural e o FNO, este último se destacando no que concerne ao valor
repassado, contudo, também apresentando uma redução acentuada no repasse dos
financiamentos.
Os créditos disponibilizados pelo programa atendem a duas linhas, como já
mencionado: de custeio e investimento. Os créditos de custeio destinam-se aos
financiamentos
das
atividades
agropecuárias
e
não
agropecuárias
e
de
beneficiamento de produtos, incluindo a produção indispensável à subsistência. Em
contrapartida os créditos de investimento priorizam atividades mais rentáveis do
ponto de vista econômico, seus recursos estão voltados aos investimentos de
projetos técnicos que demonstrem retorno financeiro e capacidade de pagamento
suficientes do empreendimento; investimentos, inclusive em infraestrutura.
Na tabela 6, estão discriminados os créditos repassados pelo PRONAF para o
estado do Pará por finalidade, nesta perspectiva os dados revelam que as remessas
105
ao longo dos três anos privilegiaram, no geral, a pecuária enquanto atividade
considerada rentável pelo programa, demonstrando que os financiamentos na linha
de investimento foram superiores a linha de custeio.
Tabela 6 - Quantitativo destinado a cada finalidade do PRONAF no Pará - 2009 a
2011
Finalidade
2009 (R$)
2010 (R$)
2011 (R$)
Custeio Agrícola
38.576.991,33
33.491.518,83
24.244.656,89
Custeio Pecuária
21.215.666,41
27.495.574,55
25.950.822,25
Investimento
52.665.973,99
Agrícola
Investimento
188.978.391,64
Pecuária
Fonte: BCB (BRASIL, 2012)
50.951.097,63
28.238.369,43
174.273.618,00
150.398.082,95
Esta característica expressa o caráter diverso da política estatal, a qual no
discurso visa atingir e dinamizar as inúmeras atividades dos agricultores familiares,
contudo a análise do quantitativo dos créditos, do destino dos financiamentos, bem
como de suas finalidades, indicam um distribuição desigual destes investimentos,
revelando muito mais um direcionamento dos interesses nacionais em função das
atividades geradoras de lucro e que possuem mercado consumidor, principalmente
externo, que uma preocupação com o desenvolvimento pleno dos grupos diversos
englobados na política do PRONAF.
É em meio a este processo excludente também resultante das políticas
públicas a exemplo do PRONAF, que muitos agricultores se colocam no movimento,
em busca de melhores condições de vida pra si e para a família, condicionando
muitas vezes à mudança de residência dos mesmos, do espaço agrário para as
metrópoles, nas quais predominam relações socioespaciais urbanas.
Contudo, na maioria das vezes estes agricultores familiares não são
reconhecidos, devido estarem residindo em cidades, onde predominam atividades
urbanas, a desconsideração da produção destes agricultores nos espaços definidos
como urbanos, dificultam o acesso destes as políticas públicas como o PRONAF,
considerando estas iniciativas agrícolas nas regiões metropolitanas, enfatiza-se, em
escala menor, no estado do Pará, a Região Metropolitana de Belém e inserido nesta,
o município de Marituba como representantes deste processo de acesso as políticas
de fomento agrícola.
106
3.3 INDICATIVOS DO PRONAF NA REGIÃO METROPOLITANA DE BELÉM COM
ÊNFASE NO MUNICÍPIO DE MARITUBA
A RMB apresenta em torno de 1.829 estabelecimentos de agricultura familiar
e 500 não familiares conforme o censo agropecuário 2006 (BRASIL, 2006). Apesar
do número maior de estabelecimentos familiares, a tabela 7 demonstra uma
estrutura fundiária ainda concentrada na RMB, uma vez que a agricultura familiar
ocupa um total de 13.382 ha, enquanto que os estabelecimentos não-familiares, em
menor número, ocupam 50.317 ha, ou seja, aproximadamente quatro vezes maior
que a área total dos núcleos de agricultura familiar, conforme se pode observar na
tabela 7.
Tabela 7 - Estabelecimentos e área da Agricultura Familiar segundo a RMB
RMB
Agricultura Familiar Lei 11.326
Estabelecimentos
Área (ha)
Não Familiar
Estabelecimentos
Área (ha)
Belém
273
1.385
122
1.1874
Ananindeua
181
1.030
37
3.743
Marituba
116
219
26
5.279
Benevides
41
153
38
2.867
Santa Bárbara
25
110
15
848
Santa Izabel
1.193
10.485
262
25.706
Fonte: Adaptado do Censo Agropecuário de 2006 (BRASIL, 2006)
Tendo em vista, o número de estabelecimentos familiares na RMB,
demonstrado pela tabela 7, assim como o número total de DAP emitidas na RMB até
o mês de fevereiro do ano de 2012, de acordo com a tabela 8, fez-se um
comparativo entre estes indicadores, com a finalidade de perceber se o número de
agricultores registrados por meio da DAP, cujo documento é fundamental para o
acesso ao financiamento do PRONAF, aproxima-se do número de estabelecimentos
familiares identificados pelo censo agropecuário (BRASIL, 2006).
107
Tabela 8 - Relação de DAP Ativa da RMB por município em fevereiro de 2012
Município
nº DAP ativadas
% de nº DAP por grupo
Belém
820
28,58
Ananindeua
164
5,72
Marituba
126
4,39
Benevides
194
6,76
Santa Bárbara
234
8,16
Santa Izabel
1.331
46,39
RMB
2.869
100
Fonte: Adaptado da lista de DAP disponível no MDA gerada em 02/01/2012 (BRASIL, 2012)
Neste sentido, comparando os dados, observou-se que o número de DAP
emitidas nos cinco dos seis municípios da RMB, com exceção de Ananindeua, foi
superior ao número de estabelecimentos familiares, quantificado pelo censo
agropecuário. Este resultado reflete diferenças concernentes às formas de
entendimento e categorização da agricultura familiar por parte dos órgãos estatais,
os quais partindo de uma mesma matriz consideram aspectos diferenciados, como
por exemplo, as cooperativas de agricultores, as quais não foram computadas pelo
censo agropecuário enquanto estabelecimentos familiares, entretanto as mesmas
são consideradas pelo PRONAF para efeito de financiamento.
Numa escala menor, no município de Marituba, enquanto objeto empírico
desta pesquisa, identificou-se a partir do PRONAF, 126 agricultores beneficiados,
sendo que destes 86 agricultores fazem parte do grupo B e 40 agricultores estão
classificados nos grupos com uma margem de recursos maior, são os denominados
de agricultores familiares, conforme a nomenclatura do PRONAF. Este último grupo,
com a reformulação, engloba os grupos C (com 25 agricultores), D (com 5
agricultores), E (com 1 agricultor) e V (com 9 agricultores), a tabela 9 traz um
resumo dos grupos.
108
Tabela 9 - Relação de DAP Ativa do município de Marituba por grupo
Enquadramento
nº DAP ativadas
% de nº DAP por grupo
A
0
0
B
86
68,25
A/C
0
0
AF (C; D; F; V)
40
31,75
Total
126
100
Fonte: Adaptado da lista de DAP disponível no MDA gerada em 02/01/2012 (BRASIL, 2012)
O grupo de agricultor familiar que engloba os antigos grupos C, D, F, V, ou
seja,
grupos
com
uma
margem
de
investimentos
maior
apresentou
aproximadamente 32% do total das DAP emitidas, enquanto que o grupo B,
predominante no município, respondia por 68% das DAP emitidas, este grupo
conforme o PRONAF, tem acesso a microcréditos, isto é, créditos de até 6 mil reais.
Aproximadamente cem por cento destas DAP foram emitidas pela EMATER, a
emissão da DAP é imprescindível para a obtenção do financiamento, contudo sua
obtenção não garante por si só o financiamento junto ao PRONAF.
No bairro Almir Gabriel, os agricultores sócios da cooperativa agrícola, que
cultivam
hortaliças
de
forma
hidropônica
foram
contemplados
com
dois
financiamentos advindos do PRONAF, ambos os financiamentos foram mediados
pelo BASA, o FNO consistiu na fonte destes recursos. O projeto de hidroponia foi
desenvolvido com os agricultores pela EMATER.
Nas fotografias a seguir, têm-se na entrada da propriedade da cooperativa,
dois banners afixados, demonstrando os dois financiamentos já obtidos pela
cooperativa em períodos distintos, o primeiro no valor de 72.000 reais e o segundo
no valor de 141.693,93 reais. Ao observar as duas imagens, nota-se a mudança de
nomenclatura dos grupos do PRONAF, uma vez que o primeiro financiamento
indicado na fotografia à esquerda, foi enquadrado no PRONAF-C, grupo com
possibilidade de financiamento maior, anos depois esta mesma cooperativa, recebeu
outro financiamento, o qual passou a ser enquadrado como PRONAF-AF, grupo que
congregou não somente o antigo grupo C, mas também os grupos D,F,V.
109
Fotografia 1 e 2 - Linhas de crédito do PRONAF para a COOPSANT
Fonte: Patrícia Oliveira da Silva (24/02/2012)
Contudo, apesar deste exemplo de financiamento de crédito para os
agricultores, muitos agricultores entrevistados na pesquisa empírica, mencionaram
ainda desconhecimento em relação ao programa de financiamento, além de outros
fatores que impedem o acesso dos mesmos a esta política pública, a saber, a
exigência dos documentos do agricultor, bem como da área cultivada, contudo nem
todos possuem os documentos completos, outro fator é a inadimplência, muitos
entrevistados declararam está inadimplentes, e por este motivo estavam impedidos
de obter financiamento.
Estes agricultores que relataram sobre o PRONAF, também informaram que
estavam sendo beneficiados por outra iniciativa estatal, que é a determinação de
pelo menos 30% dos recursos para aquisição da merenda escolar, ser destinado
para obtenção de gêneros alimentícios diretamente da agricultura familiar, de acordo
com a Lei 11.947 de 16 de junho de 2009 (BRASIL, 2009) que dispõe sobre o
atendimento da alimentação escolar. Assim, no intuito de fomentar a implementação
da Lei, o MDA lançou uma chamada, com o objetivo de selecionar projetos que
110
promovam a inserção da agricultura familiar na alimentação escolar em centros
urbanos com tais especificidades. Dos vinte agricultores entrevistados, oito
agricultores fornecem hortaliças para a merenda escolar no município, sem
quantificar os agricultores que estão se organizando para se inserirem neste
programa, como é o caso do agricultor 13 entrevistado.
Mandei limpar, agora eu vou plantar jerimum, eu plantei umas sementes,
mas ela falhou, agora vou plantar esse jerimum pra merenda escolar da
prefeitura, eles vão comprar de mim a 2,50 o kilo, essa semana já vou
plantar, e é rápido que ele dá, porque a gente planta aduba e é rápido que
dá. Eu limpei está área todinha pra merenda escolar [...] (Agricultor 13 do
bairro Almir Gabriel, fevereiro/2012)
Em síntese, a caracterização da agricultura familiar por parte das políticas
públicas deve considerar, além do tamanho dos estabelecimentos e rendimento
econômico, a significância da subsistência, assim como as tradições e heranças
relacionadas à estruturação e práticas socioespaciais que envolvem a vivência
destes sujeitos. Fatores estes muitas vezes desconsiderados pelas políticas
propostas pelos governos, que apesar de crescentes como frisado por alguns
autores como Abramovay (1999), não contemplam segundo Alentejano (2000) os
agricultores familiares na sua totalidade,
[...] a política governamental é claramente seletiva, distinguindo entre os
agricultores que devem ser alvo de uma política agrícola ativa e os que
devem ser alvo de políticas sociais compensatórias. Assim 2,3 milhões de
estabelecimentos familiares são excluídos do âmbito da política agrícola,
por sua classificação como periféricos, ou seja, inviáveis economicamente.
(ALENTEJANO, 2000, p. 7)
Apesar desta ênfase ao econômico por parte das políticas agrícolas, em
certas situações o fator econômico não aparece como o único e principal elemento a
ser valorizado pelos agricultores, Martins (2003, p. 41) fundamentado em suas
pesquisas realizadas em diversos assentamentos observou que o interesse principal
percebido nas conversas com as populações não dizia respeito ao econômico. Mas,
sobretudo ter uma moradia digna, viver na companhia dos familiares, terem uma
perspectiva em termos de patrimônio para seus descendentes, “[...] mais do que
mera sobrevivência [...] essas populações buscam sobreviver com dignidade, com
base num modo de vida peculiar que é o da economia familiar [...]”.
111
CAPÍTULO 4 - ESTRATÉGIAS SOCIOESPACIAIS DE REPRODUÇÃO DA
AGRICULTURA FAMILIAR NO MUNICÍPIO DE MARITUBA
Conforme os escritos de Bourdieu (2004) as estratégias fazem referência a
todos os mecanismos encontrados pelo grupo social para se reproduzir, as quais
estão associadas no estudo sobre os agricultores do município de Marituba,
precisamente localizados nos bairros de Almir Gabriel e Uriboca, as estratégias de
financiamento e obtenção de créditos, já mencionadas no capítulo anterior, bem
como as estratégias de localização, de organização política, de produção, de
comercialização, entre outras. São estas estratégias relacionadas à espacialização,
organização, produção e comercialização que foram enfatizadas neste quarto
momento da dissertação.
Este capítulo da pesquisa está sistematizado em dois momentos, com os
quais se objetivou entender no plano empírico a reprodução dos agricultores
familiares. Inicialmente, realizou-se uma caracterização do agricultor, com enfoque
para suas trajetórias, perfil socioeconômico e organização social, pautando-se,
sobretudo nos relatos e histórias dos mesmos. Já a abordagem construída no último
item, diz respeito às múltiplas práticas socioespaciais relacionadas à produção e a
comercialização dos agricultores, ou seja, foram enfatizadas as estratégias de
produção e comercialização que culminam com a reprodução destes, sem
negligenciar as dificuldades e limitações enfrentadas pelos produtores neste
processo de sobrevivência por meio da agricultura familiar, desenvolvida em
espaços definidos como urbanos pelos órgãos públicos como a Prefeitura Municipal.
Em síntese, este capítulo enfatiza a situação específica do município de
Marituba, na qual se observa e se ratifica, por meio das entrevistas, a reprodução de
espaços voltados sobremaneira à realização da vida, destoantes de espaços
dominantes na metrópole, produzidos predominantemente pelo e para o capital. Fato
este observado neste município, mas que se apresenta na vida cotidiana de muitas
cidades amazônicas, as quais guardam uma multiplicidade de usos do espaço.
112
4.1 CARACTERIZAÇÃO DOS PRODUTORES FAMILIARES: TRAJETÓRIAS,
PERFIL SOCIOECONÔMICO E ORGANIZAÇÃO SOCIAL
As estratégias de reprodução dos agricultores pesquisados neste estudo, não
estão circunscritas somente as possibilidades de financiamento por meio das
políticas de Estado, envolvem também outras dinâmicas complementares. Neste
sentido, fez-se necessário compreender, neste processo de reprodução dos
agricultores, as suas possíveis trajetórias, seu perfil social e econômico, seu
envolvimento em ações políticas coletivas, a exemplo das associações e
cooperativas. Foi com este intuito de desvendar necessidades e estratégias dos
agricultores em espaço metropolitano, que se evidenciou, como já mencionado, dois
bairros de Marituba na análise, a saber, o bairro Uriboca e o bairro Almir Gabriel.
O bairro Uriboca consideravelmente antigo, segundo registros históricos do
município de Marituba, teve sua formação associada aos eixos que marcaram a
história do referido município, primeiramente a EFB, que foi transformada em parte
na rodovia BR-316, juntamente com a abertura de outras rodovias como a BelémBrasília, estimulando a ocupação deste espaço. Com isso, houve o surgimento dos
primeiros bairros, dentre eles, o Uriboca, este bairro acomodou em seu espaço,
tanto os trabalhadores que vinham se empregar nas oficinas de manutenção dos
trens, quanto àqueles desapropriados ou não de suas terras no interior, vindo em
busca de alternativas na RMB.
O bairro Almir Gabriel, com sua organização mais recente, tem seu
surgimento em 1997, a partir da ocupação da fazenda Santo Amaro em Marituba,
por diversas famílias residentes no município e de outros municípios do estado do
Pará. A fazenda pertencia à família Manoel Pinto da Silva, com a ocupação, a área
recebeu a denominação de Che Guevara. Contudo, conforme Prado (2008) em
reconhecimento ao ato do Governador do Estado no período, Sr. Almir Gabriel, de
autorizar a compra da fazenda pelo governo e sua transferência ao município de
Marituba, a área foi municipalizada e denominada Residencial Almir Gabriel.
Ressalta-se que o objetivo da dissertação, não foi alcançar a totalidade de
agricultores de Marituba. Procurou-se a partir de uma amostra10, reconhecer
elementos e estratégias que respondem pela reprodução dos agricultores.
10 Metodologia explicitada na introdução desta dissertação.
113
Mapa 4 - Localização dos bairros onde residem os agricultores entrevistados
Fonte: Adaptado da Prefeitura Municipal de Marituba (PMM)
114
A pesquisa empírica realizada com os agricultores residentes nestes bairros
proporcionou a elaboração de um quadro com a relação dos agricultores
entrevistados, informações gerais referentes à idade, gênero, fontes de renda,
relação temporal com a agricultura, assim como alguns dados complementares
registrados em tabelas acerca da renda proveniente da agricultura, grau de
instrução, ou seja, minimamente, objetivou-se conhecer o perfil destes agricultores.
Quadro 4 - Discriminação dos agricultores entrevistados nos bairros pesquisados
Fonte de renda familiar
Agricultores
Idade
Gênero
Trabalha com a
agricultura
1
31
Feminino
2
45
3
Somente
Agricultura
Outras
Fontes
5 anos
Sim
Não
Feminino
15 anos
Não
Comerciante
41
Masculino
22 anos
Sim
Não
4
45
Masculino
sempre
Sim
Não
5
40
Feminino
25 anos
Não
Empregado
6
35
Feminino
sempre
Não
Vigilante
7
54
Feminino
10 anos
Sim
Não
8
41
Feminino
sempre
Não
Empregado
9
49
Feminino
20 anos
Sim
Não
10
33
Masculino
sempre
Sim
Não
11
56
Feminino
sempre
Não
Servente
12
29
Feminino
sempre
Sim
Não
13
65
Feminino
sempre
Não
Pensionista
14
33
Masculino
sempre
Sim
Não
15
44
Masculino
sempre
Sim
Não
16
72
Masculino
sempre
Não
Aposentado
17
26
Masculino
3 anos
Sim
Não
18
43
Feminino
sempre
Não
Diarista
19
32
Masculino
12 anos
Não
Monitor
20
28
Masculino
Fonte: Trabalho de campo, 2012.
10 anos
Sim
Não
Uriboca
Almir
Gabriel
115
Observou-se a partir dos dados primários que a fonte de renda familiar de
55% dos agricultores advém exclusivamente da agricultura, de modo geral esta se
configura enquanto o alicerce econômico dos agricultores familiares, ainda que
muitos complementem sua renda oriunda da agricultura, com outras provenientes de
atividades diversas. Conforme o quadro apresentado sobre algumas das
características dos agricultores, 45% dos entrevistados complementa sua renda com
outras fontes, sem renunciarem da produção agrícola. As outras fontes de renda
consistem no emprego temporário e assalariado, além do comércio, das
aposentadorias e auxílios do governo federal como bolsa família.
Ressalta-se, que a mulher tem destaque no desenvolvimento da agricultura
nestes espaços, conforme as entrevistas, enquanto alguns maridos são empregados
em empresas ou prestam serviços temporários, as esposas com o auxílio dos filhos,
ficam responsáveis pelo plantio, colheita, comercialização, isto é, por todas as
etapas que envolvem a agricultura. Dentre os entrevistados, onze eram mulheres,
representando 55% dos entrevistados, ou seja, a reprodução da agricultura em
Marituba está intrinsecamente ligada ao envolvimento da mulher nesta produção.
No que se refere ao tamanho das famílias, foi observado que em torno de 100
pessoas estão vinculadas às famílias dos 20 agricultores entrevistados, o que
corresponde a uma média de aproximadamente cinco pessoas por família. A média
de idade dos agricultores familiares é de 42,1 anos, sendo que 85% apresentam
mais de 30 anos. Apenas uma pequena parcela, que corresponde a 15%, tem
menos de 30 anos de idade, demonstrando que a agricultura vem sendo
desempenhada cada vez menos pelos mais jovens que, de modo geral, buscam
outras ocupações de natureza não agrícola.
Os terrenos pertencentes aos agricultores que contribuíram com a pesquisa
foram, na sua maioria, adquiridos por meio da compra e venda. No bairro Uriboca,
de acordo com as dez entrevistas realizadas, constatou-se que exatamente 100% do
total de entrevistados revelaram ser própria sua residência, esta situação também foi
verificada no bairro Almir Gabriel, contudo alguns agricultores que participaram do
processo de ocupação da fazenda Santo Amaro que originou o bairro, não possuem
a documentação definitiva da área.
Os elementos presentes nos relatos dos entrevistados acerca da extensão
dos terrenos, bem como o percentual elevado no que se refere à forma de aquisição
das residências por meio da compra, ratificam que a escolha pelos terrenos com
116
quintais, no município de Marituba, teve relação direta com a busca, entre outros,
por espaços amplos, o que representou um elemento significativo na decisão dos
agricultores.
Na tabela 10, é possível verificar o tamanho aproximado das propriedades
dos agricultores, ficando evidente que a área total das propriedades, em 55% dos
casos, é inferior a um hectare (equivalente a 10.000 m²), sendo que apenas duas
propriedades, dentre as visitadas, apresentam área superior a um hectare. Estes
dados demonstram que uma característica relevante sobre a produção de hortaliças
no município de Marituba, é que seu desenvolvimento se dá, principalmente em
áreas reduzidas.
Tabela 10 - Tamanho das propriedades dos agricultores familiares investigados
Especificação
Frequência
%
Menos de 1.000 m²
6
30,00
Mais de 1.000 até 5.000 m²
5
25,00
Mais de 5.000 até 10.000 m²
2
10,00
Mais de 10.000 até 30.000 m²
1
5,00
Mais de 30.000 m²
1
5,00
Não informaram
5
25,00
Total
20
100
Fonte: Trabalho de campo, 2012.
Conforme o quadro 4, enfatiza-se também, que os agricultores apresentam
significativa tradição na agricultura,
pois 55% dos entrevistados, revelaram que
sempre estiveram envolvidos com a agricultura. Já, 25% dos entrevistados
desenvolvem há mais de 10 anos. O contingente de produtores que ingressaram
recentemente, que apresentam envolvimento com a agricultura até 10 anos, também
é significativo e representa 20% do total de entrevistados, o que reforça a
importância da agricultura, também, para os mais jovens especialmente num
contexto de desemprego.
117
Outro fator importante a ser enfocado acerca dos entrevistados, diz respeito
ao reconhecimento destes como agricultores familiares, bem como produtores
familiares. Como foi observado nos diálogos, os agricultores entrevistados se
identificam como “agricultor”, e “agricultor familiar”. Disseram “sou agricultor, sou
produtor, sou agricultor familiar”. “Sim, é daí que a gente vive”, “Com certeza desde
pequena, desde pequena, negócio de plantar, negócio de roça”, demonstrando uma
identidade construída ou reconstruída de agricultor familiar.
Ao elucidar acerca do conceito de identidade, reconhecendo seu caráter
polissêmico nas diversas ciências humanas, têm-se como orientação, sobretudo a
perspectiva conceitual de Hall (2006), o qual destaca que na segunda metade do
século XX, surgem grandes teorizações sociais por parte de reconhecidos
estudiosos, que resultaram em reformulações no conceito de identidade. Acerca
destas teorizações enfatizadas por Hall (2006), destacam-se três, primeiramente, a
consideração a partir da perspectiva marxiana, do sujeito histórico, ou seja, as
condições históricas, enquanto determinantes da ação individual.
Em segundo, as formulações freudianas que negam a identidade como inato
ao ser humano, explicitando a formação da identidade continuamente por processos
inconscientes. Em terceiro, o caráter controlador, punitivo, coercitivo, das instituições
sobre a vida dos indivíduos, numa formulação foucaultiana. Para Hall (2006) a interrelação entre essas três perspectivas, direciona a mudança conceitual sobre
identidade antes tida como fixa e estável e que, com a inserção destes elementos,
apresenta-se plural, inacabada, e até mesmo contraditória.
Medeiros (2004), compartilhando desta apreensão, aponta que passaram a
existir pertencimentos múltiplos a vários grupos, relacionando-se de formas
diferenciadas com uma incontável quantidade de pessoas, lugares, situações,
características que dão ao conceito de identidade um caráter relativo, dinâmico e
que se desenvolve no cerne das trocas sociais, construção e reconstrução, processo
de reelaboração permanente, resultado de constante negociação entre nós e os
outros.
Nesta perspectiva acerca de identidade, compreende-se que há por um lado
uma autoidentificação, um reconhecimento, ratificando a hipótese mencionada
inicialmente neste estudo, de que a categoria agricultura familiar não se resume a
uma categoria socioprofissional forjada pelo Estado, mas incorpora e revela como
enfatizado por Wanderley (2000) inúmeras experiências e vivências, assim como um
118
sentido de pertença, identidade esta acionada pela possibilidade de reconhecimento
e beneficiamento. Enfim, como destacado por Hall (2006), diversas influências as
quais foram moldando a identidade deste agricultor familiar.
Convergindo com este reconhecimento dos agricultores, o levantamento
empírico possibilitou obter informações acerca da origem dos agricultores que
experimentaram o processo de migração. Este dado obtido por meio da pesquisa se
mostra relevante, uma vez que os esclarecimentos referentes à origem das famílias
contribuem para o entendimento da relação rural-urbana presente no município de
Marituba, sobretudo nas áreas agrícolas dos bairros frisados, visto que como
demonstrado anteriormente, a maioria destes agricultores possuem uma relação
histórica com a agricultura.
Tabela 11 - Origem dos agricultores familiares entrevistados nos dois bairros
Origem
Frequência
%
Belém
2
10,00
Ananindeua
1
5,00
Marituba
6
30,00
Microrregião Bragantina
10
50,00
Outros Estados
1
5,00
Total
20
100
Fonte: Trabalho de campo, 2012.
A pesquisa empírica realizada nestes dois bairros de Marituba demonstrou,
por meio da tabela 11, que existe uma parcela significativa de agricultores tanto no
Uriboca, quanto no Almir Gabriel, provenientes em geral, de outros municípios do
estado do Pará, tendo destaque para os municípios da mesorregião do Nordeste do
estado, mas precisamente para a microrregião Bragantina11, dentre os municípios,
Bragança constou nos relatos dos entrevistados, como sendo o principal espaço de
origem dos agricultores familiares.
11
Os municípios que compõem esta microrregião Bragantina são Augusto Corrêa, Bonito, Bragança,
Capanema, Igarapé-Açu, Nova Timboteua, Peixe-Boi, Primavera, Quatipuru, Santa Maria do Pará,
Santarém Novo, São Francisco, Tracuateua (IBGE, 2012)
119
O relevante resultado do percentual de migrantes residentes nos bairros
percorridos revela os diversos anseios, dentre os apreendidos nas entrevistas, a
busca por melhores condições, estando, desta forma, em conformidade com os
dados da dissertação de Rodrigues (1996, p. 128), os quais revelaram que 68,28%
dos migrantes que chegaram a Belém a partir da década de 1970, eram originários
do Estado do Pará, ratificando um “[...] indício claro de que a região metropolitana
passou a exercer uma grande atração para as populações trabalhadoras expulsas
do campo pela expansão capitalista”, conforme história do agricultor 11, que migrou
do município de Bragança, onde trabalhava na roça para Marituba, em busca de
emprego.
Moro em Marituba desde 1979, moro aqui (no bairro Almir Gabriel) tem 14
anos, minha família veio embora pra cá, meu marido arranjou serviço pra
cá, a gente trabalhava na roça (referindo-se ao lugar de origem, município
de Bragança), aí chegamos pra cá, morei lá em Marituba, lá no centro, não
fazia nada, só tomava conta de casa, ai depois pegamos esse terreno pra
cá, em 97 foi que agente começou a trabalhar na horta, eu tenho horta lá
em casa, eu moro logo pra cá, aqui por dentro desta mata aqui. (Agricultor
11 do bairro Almir Gabriel, fevereiro/2012)
Segundo Alentejano (2000), as estratégias socioespaciais de reprodução dos
agricultores familiares revelam um rural experimentado, o qual antes de ser
apreendido
pelas
suas
carências
ou
pela
sua
suposta
tendência
ao
desaparecimento é atrelado a um modo particular de vivência, do qual se ressalta as
dimensões, simbólica, afetiva, bem como os processos de herança e sucessão.
Neste sentido as práticas socioespaciais, simbolizam representações particulares
acerca do espaço e do tempo os quais se traduzem em sinais de um conteúdo rural
vivo nos agricultores.
Os agricultores em questão, no geral, migrantes do espaço rural, não tiveram
possibilidades de frequentar a escola em todos os seus níveis, por diversos fatores,
que vão desde a ausência da escola regular acessível a muitos até a
responsabilidade destes em complementar o trabalho dos pais, visando à
sobrevivência da família, tida por uma parcela significativa dos agricultores,
conforme verificado nos relatos. Neste sentido, o que se tem é um número
considerável de agricultores que não conseguiram concluir o ensino fundamental,
como se pode apreender da tabela 12.
120
Tabela 12 - Grau de instrução dos agricultores familiares entrevistados
Especificação
Freqüência
%
Nunca frequentou o ensino regular
1
5,00
Ensino fundamental incompleto
12
60,00
Ensino fundamental completo
3
15,00
Ensino médio incompleto
2
10,00
Ensino médio completo
2
10,00
Total
20
100
Fonte: Trabalho de campo, 2012.
Quanto ao grau de instrução dos agricultores, os resultados indicam um baixo
nível de escolaridade dos agricultores entrevistados. Foi observado que 60% deles
não conseguiram concluir o ensino fundamental, ou seja, frequentaram menos de
nove anos a escola formal. Os outros 35%, correspondem aos que concluíram pelo
menos o ensino fundamental, e 5% diz respeito ao agricultor que nunca frequentou a
escola regular.
Há agricultores que, em seus relatos, justificaram que a persistência na
agricultura, decorre da ausência de estudos, visto que para a agricultura não se
exige tanto estudo, já para conseguir um emprego formal, sobretudo com carteira
assinada, há a exigência de um currículo, no qual conste a escolaridade.
É perceptível, que se por um lado, há um aspecto fundamental relacionado ao
envolvimento histórico com a agricultura por parte do agricultor, por outro, há um
anseio em aumentar a sua renda, seja por meio unicamente da agricultura ou
complementando-a com o trabalho acessório, o qual já era mencionado por
Chayanov (1925), o qual embora tratando exclusivamente da unidade de produção
camponesa, já frisava esta ocupação dos camponeses e familiares em atividades
não agrícolas.
Com base nas entrevistas com os agricultores, constatou-se que um
percentual significativo de agricultores complementa sua renda com algum trabalho
acessório, configurando-se enquanto uma estratégia de sobrevivência. No entanto,
no que se refere à renda familiar obtida por meio da agricultura, conforme dados
primários, esta se apresenta enquanto referência econômica dos agricultores. Com
121
relação à renda dos mesmos, oriunda somente da agricultura, de acordo com a
pesquisa, foi possível extrair alguns parâmetros para análise, expostos na tabela 13,
tendo por base o reajuste do salário mínimo para 622,00 reais.
Tabela 13 - Renda mensal das famílias proveniente da agricultura
Especificação
Frequência
%
Até metade de 1 salário mínimo
6
30,00
Até 1 salário mínimo
9
45,00
Até 2 salários mínimos
5
25,00
Total
20
100
Fonte: Trabalho de campo, 2012.
No que concerne à distribuição por faixa de renda, obtida por meio da
agricultura, verificou-se que 25% dos agricultores investigados obtêm rendimentos
mensais de até dois salários mínimos, 45% dos entrevistados apresenta
rendimentos de até um salário mínimo e 30% apresenta apenas renda de até meio
salário mínimo. Alguns agricultores informaram que seus rendimentos são reduzidos
em decorrência da subtração dos pagamentos dos financiamentos para a
agricultura, e que ao quitarem os empréstimos, a renda aumentaria. Outro valor
descontado da renda da maioria dos agricultores entrevistados é o percentual às
organizações sociais, nas quais estão inseridos como sócios.
A organização social e política dos agricultores familiares, por meio de um
projeto coletivo, também contribui, em certa medida, para a sua reprodução, neste
sentido destaca-se a formação de duas organizações envolvendo agricultores nos
bairros investigados, A COOPSANT e a APHAURI. Contudo, faz-se necessário
ressaltar, que o acesso às reuniões, assim como aos registros documentados em
Atas e Estatutos, não foi possibilitado, houve restrições quanto à obtenção de
algumas informações mais precisas acerca do histórico de constituição das duas
organizações. Em decorrência disto, a pesquisa obteve informações nos relatos dos
entrevistados.
A COOPSANT está situada no Município de Marituba na área agrícola, do
bairro Almir Gabriel, como denominada pela Prefeitura Municipal de Marituba. Esta
cooperativa foi reformulada a partir da antiga Cooperativa Agrícola Santo Antônio
122
(COOASA). Inicialmente em 1998, constituída com trinta cooperados, já no ano de
realização desta pesquisa, seu quadro social foi reduzido para dezoito cooperados,
conforme informações do diretor operacional da mesma. No relato a seguir de um
agricultor cooperado, a formação da cooperativa recebeu apoio de políticos da
região como o ex-deputado federal Babá.
No início da coisa, quando foi na vinda do Babá, ele sugeriu que a gente
fizesse uma cooperativa, me colocaram como presidente, a primeira
presidente da área agrícola fui eu, ai foi indo, foi indo, foi na época meu
marido morreu, fiquei viúva com os filhos, terminou o mandato, fiquei como
sócia na cooperativa e tô até hoje, meu filho me ajuda na cooperativa.
(Agricultor 11 do bairro Almir Gabriel, fevereiro/2012)
As
atividades
desenvolvidas
pela
cooperativa
estão
relacionadas
principalmente a produção hidropônica12 (na propriedade da cooperativa), seguida
pela produção de plantas ornamentais e também a produção de hortaliças orgânicas
(estas duas últimas nos terrenos das residências dos cooperados). Os cooperados
estão reunidos em grupos de acordo com as atividades da cooperativa e não
participam necessariamente de todas as atividades.
A APHAURI está localizada no bairro Uriboca, segundo dados do vicepresidente, está foi criada por volta de 1990, no período da pesquisa obteve-se a
informação de que a associação está composta por vinte e dois sócios ativos,
residentes no bairro Uriboca e dez sócios pertencentes à comunidade quilombola de
Abacatal. Diferentemente da COOPSANT, a APHAURI não dispõe de uma área
própria para a produção dos associados, os quais produzem em seus terrenos, na
maioria das vezes, ou em terrenos ocupados. A produção está pautada
principalmente na agricultura convencional de hortaliças, a saber, a alface, couve,
cheiro verde, cariru, cebolinha, jambu, entre outros.
Nas imagens a seguir, visualiza-se a identificação das organizações sociais já
mencionadas, a imagem 3 apresenta um banner afixado na entrada da propriedade
da COOPSANT, no qual consta a identificação da cooperativa, assim como o
segundo projeto hidropônico, implementado pela mesma. Enquanto a imagem 4,
mostra o prédio da APHAURI identificado.
12
A hidroponia, conforme Filgueira (2000) consiste num sistema de cultivo, no qual as plantas se
desenvolvem fixadas em substratos, ou colocadas em canais de cultivo, por onde circula um solução
nutritiva em aquoso com os nutrientes necessários ao desenvolvimento da planta. Esta solução
nutritiva é composta por micronutrientes e macronutrientes.
123
Fotografias 3 e 4 - Dois projetos coletivos envolvendo os agricultores
Fonte: Patrícia Oliveira da Silva (foto 3 - 24/02/2012 / foto 4 - 14/02/2012)
No que concerne às diferenças entre cooperativa e associação, estas nem
sempre são captadas, são, geralmente, entendidas enquanto sinônimos. A
cooperativa, no geral, é uma associação para realizar uma atividade econômica em
benefício comum, já a associação tem por objetivo facilitar as atividades
econômicas, culturais, entre outras, dos seus sócios. As práticas das associações se
aproximam muito das práticas das cooperativas, apresentando algumas diferenças
somente em suas legislações.
Para Prado (2008) os custos para a formalização de uma cooperativa são
elevados, em decorrência deste fator, muitas associações não se transformam em
cooperativas e perdem o seu foco, passando a comercializar seus produtos,
reinvestir na produção e distribuir os ganhos provenientes da comercialização, a
exemplo da APHAURI. A partir da pesquisa empírica, observou-se que muitos dos
agricultores, estão envolvidos nos projetos coletivos existentes nestes bairros.
A tabela 14 apresenta o número absoluto e o percentual dos agricultores
familiares envolvidos nas organizações, dos vinte agricultores investigados nos dois
124
bairros, apenas quatro não participam de nenhuma organização, isto é, 80% dos
agricultores familiares com os quais se conversou, estão inseridos na cooperativa ou
na associação, conforme a tabela a seguir, estes números indicam uma busca por
parte do agricultor, em se organizar socialmente, por meio de uma forma associativa.
Tabela 14 - Número de agricultores envolvidos nos projetos coletivos
Especificação
Frequência
%
Cooperativa
7
35,00
Associação
9
45,00
Não participa de organização
4
20,00
Total
20
100
Fonte: Trabalho de campo, 2012.
A COOPSANT, bem como a APHAURI, já apresentam a constituição de um
patrimônio material coletivo, um exemplo é o caminhão doado pelo governo do
Estado do Pará, por meio do MDA para ambas as organizações. As normas para
utilização do caminhão no transporte dos produtos foram estabelecidas em reuniões
e sistematizadas por procedimentos práticos, ficando acordado o preço do
transporte da produção para os envolvidos nas organizações e uma taxa maior para
os agricultores não associados.
Na perspectiva de Neves (2003) as organizações como as associações,
representam unidades de ação política, concebidas como recurso de mediação para
o relacionamento de agentes diversamente posicionados. Contudo, para esta autora,
no Brasil, a grande maioria das associações de agricultores tem vida curta e está
fadada ao descrédito por parte dos associados. Esta afirmativa, relacionada ao
descrétido por parte de alguns associados e ex-associados, foi percebida nas duas
organizações enfatizadas.
Percebeu-se em alguns relatos, insinuações referentes a comportamentos
políticos marcados pelo individualismo, posturas individualistas que, segundo alguns
entrevistados, concentram informações, e com isso apenas uma parte dos
agricultores são beneficiados. A impossibilidade de construção de um projeto
durável está relacionada também, como percebido nos diálogos com os agricultores,
125
sobretudo no que se refere à APHAURI, a inadimplência de alguns associados e por
sua vez a inadimplência da associação.
Neves (2003) frisa, num ponto de vista sociológico, que as dificuldades
enfrentadas para o funcionamento e reprodução destas organizações derivam do
fato destas existirem diante de movimentos e mobilizações temporárias. Tendo em
vista o exposto, ressalta-se que as associações não podem ser compreendidas
enquanto unidades individualizadas, elas fazem parte de um projeto coletivo, a
exemplo da COOPSANT e da APHAURI, que apesar das dificuldades, representam
um mecanismo de fortalecimento e reconhecimento dos agricultores familiares.
4.2
AS
MÚLTIPLAS
PRÁTICAS
SOCIOESPACIAIS
RELACIONADAS
À
PRODUÇÃO E A COMERCIALIZAÇÃO
As diversas práticas socioespaciais, pautando-se em Trindade Jr. e Chagas
(2002) dizem respeito à materialização das formas erguidas com base nas relações
sociais, abarcando a reunião de usos diferenciados do espaço, usos estes que
envolvem dois aspectos referentes ao espaço; a representação do espaço e o
espaço da representação. A representação do espaço pressupõe as “concepções
mentais/intelectuais” ligadas principalmente ao planejamento e a gestão, ao passo
que o espaço da representação está intrinsecamente ligado:
[...] a prática cotidiana e imaginária dos sujeitos; prática esta repleta de
significados, simbologias, subjetividades e que contém a dimensão do
“irracional”, das emoções, das necessidades, do subterrâneo, das obras e
dos símbolos, recobertos de códigos subjetivos, linguagens e resíduos, que
vão além das concepções e práticas convencionais. (TRINDADE JR.;
CHAGAS, 2002, p. 198-199).
Nesta perspectiva, é priorizado neste momento, sobremaneira o espaço da
representação, no qual se toma conhecimento, por meio da pesquisa empírica, das
práticas socioespaciais reproduzidas pelos agricultores, resultando por sua vez, no
estabelecimento dos elementos denunciadores da reprodução das relações ruralurbanas produzidas e condicionadas pela agricultura. No que concerne às práticas
socioespaciais de produção e comercialização empreendidas pelos agricultores,
sistematizou-se no quadro a seguir as características relacionadas à produção dos
agricultores, bem como os espaços de comercialização.
126
Quadro 5 - Descrição da produção e comercialização dos agricultores entrevistados
Agricultores
Produção
Característica
produtiva
Comercialização
Jambú, cebolinha, couve, cheiro
verde
Convencional
Ver-o-peso
Alface, jambu, chicória, couve,
plantas medicinais e
ornamentais
Convencional
Feira de Marituba
Comércio em casa
Mastruz, cheiro verde, couve,
cebolinha, plantas medicinais
Convencional
Ver-o-peso
3
Cheiro verde, jambú, couve,
cariru,cebolinha, alface
Convencional
Ver-o-peso
4
Cheiro verde, jambú, couve,
cariru,cebolinha, alface
Convencional
Ver-o-peso / merenda escolar
5
Alface, jambú, couve
Convencional
Ver-o-peso
Couve, cariru, cebolinha
Convencional
Ver-o-peso / merenda escolar
Cheiro verde, jambú, couve,
cariru,cebolinha, alface
Convencional
Ver-o-peso / merenda escolar
8
Cheiro verde, jambu, couve,
cariru,cebolinha, alface
Convencional
Ver-o-peso
9
Cheiro verde, jambu, couve,
cariru,cebolinha, alface
Convencional
Ver-o-peso
10
Alface hidropônica, cheiro
verde, cariru, pimentinha
Hidropônica /
Convencional
Feira do Almir Gabriel
11
Orgânica
Feira Orgânica (Praça Batista
Campos/Praça Brasil)
Feira do bairro Almir Gabriel
Feira Orgânica (Praça Batista
Campos/Praça Brasil)
Feira do Almir Gabriel
Feira de Marituba
Feira do Almir Gabriel
Feira de Marituba
Feira do Almir Gabriel
Feira de Marituba
Feira do Almir Gabriel
Feira Orgânica (Praça Batista
Campos/Praça Brasil)
Feira do bairro Almir Gabriel
Feira do Almir Gabriel
1
2
Uriboca
6
7
12
13
Almir
Gabriel
Couve, cebolinha, pepino,
pimentinha, feijão de corda,
banana, plantas ornamentais
Cheiro verde, cebolinha, couve,
alface, plantas medicinais e
ornamentais
Cheiro verde, alface, cebolinha
Orgânica
Convencional
14
Alface, plantas ornamentais
15
Alface
Hidropônica /
Convencional
Hidropônica
16
17
18
19
Couve, cebolinha, feijão de
corda, rúcula, cheiro verde
Cebolinha, couve, cheiro verde,
berinjela, macaxeira
Couve, cebolinha, pepino,
pimentinha,chicória
20 Alface, Cheiro verde
Fonte: Trabalho de campo, 2012.
Orgânica
Convencional
Orgânica
Hidropônica /
Convencional
Feira Orgânica (Praça Batista
Campos/Praça Brasil)
Feira do Almir Gabriel
Feira de Marituba
Feira do Almir Gabriel
127
No quadro 5, é possível observar que a produção dos agricultores de ambos
os bairros, tem sua base nas hortaliças. Contudo, esta produção de hortaliças
apresenta características produtivas diferenciadas, que passam pela metodologia
convencional, hidropônica e até orgânica, revelando uma diversidade produtiva, a
qual é complementada pelo cultivo de plantas ornamentais, medicinais e frutíferas.
Já a comercialização da produção, faz-se, sobretudo pelo canal das feiras locais,
estratégia esta que será enfatizada no decorrer deste subcapítulo.
A
produção
dos
agricultores,
entendida
enquanto
uma
estratégia
socioespacial de reprodução, não é realizada exclusivamente nos terrenos onde se
localizam suas residências, os espaços ocupados para produzir, vão desde as
propriedades da cooperativa, passando pelos terrenos familiares, onde diversos
núcleos de uma mesma família cultivam, até a ocupação de terrenos que se
apresentam improdutivos para o desenvolvimento da agricultura.
No que concerne às propriedades, onde estão localizadas as residências dos
agricultores que contribuíram com a pesquisa, foram, na sua maioria, adquiridas por
meio da compra e venda, sobremaneira, no bairro Uriboca. Contudo alguns
agricultores, como já mencionado, ocupam áreas aparentemente desocupadas e
improdutivas, no geral terrenos baldios, utilizados para o desenvolvimento da
agricultura.
No bairro Almir Gabriel, a maioria dos agricultores associados na COOPSANT
produz na propriedade da cooperativa somente a alface hidropônica, os demais
agricultores produzem nos seus terrenos de morada, a agricultura orgânica e
convencional, com ênfase às hortaliças, medicinais, ornamentais e frutíferas. O
trabalho na cooperativa é dividido em etapas, as quais são realizadas pelos sócios
com a ajuda da família, visto que o trabalho é praticamente todo manual.
Neste
bairro,
não
foi
registrado
nenhum
agricultor
que
estivesse
desenvolvendo a agricultura em terrenos improdutivos ocupados, houve a ocorrência
de agricultores compartilhando o terreno familiar. Na fotografia 5, visualiza-se uma
das áreas de produção dos agricultores, esta se refere à propriedade da
COOPSANT, onde os cooperados produzem a alface hidropônica, estão presentes
nesta imagem as estufas, onde são cultivadas as hortaliças, nesta etapa da
produção cada cooperado, com o auxílio de seus familiares, fica responsável pela
produção de pelo menos uma estufa.
128
Fotografia 5 - Produção de alface hidropônica na COOPSANT
Fonte: Patrícia Oliveira da Silva (23/03/2011)
Já no bairro Uriboca a agricultura familiar é desenvolvida tanto em terrenos
familiares, nos quais vários núcleos de uma grande família dispõem de uma área, ou
canteiros como os agricultores designam. Além destas áreas, frisa-se a ocupação de
terrenos de terceiros, que estão improdutivos, para o cultivo das hortaliças, a
APHAURI não dispõe de uma propriedade coletiva para o cultivo da agricultura pelos
associados, a qual é majoritariamente cultivada nos próprios quintais dos
agricultores.
A imagem seguinte, expressa uma forma de produção característica dos
agricultores do bairro Uriboca, o compartilhamento da propriedade pertencente à
família para o cultivo das hortaliças, neste caso particular, tem-se uma área familiar,
sendo cultivada por vários núcleos familiares, cada um responsável por sua horta.
Na fotografia 6, identificou-se uma horta com características convencionais de
produção de hortaliças como couve e cariru.
129
Fotografia 6 - Produção de hortaliças em terreno familiar no Uriboca
Fonte: Patrícia Oliveira da Silva (10/04/2011)
Na unidade produtiva de base familiar, constatou-se que a produção agrícola
é resultante basicamente do trabalho tradicional e não mecanizado. Os instrumentos
de trabalho são, entre outros, a enxada, a mangueira, regadores e, sobretudo, a
força de trabalho. Os agricultores, de modo geral, não utilizam maquinário na sua
horta, sua rotina de trabalho, inicia-se, em regra, muito cedo, ainda de madrugada,
tanto nos dias de manutenção da horta, quanto nos dias reservados à colheita para
a comercialização nas diversas feiras locais. Todos estes fatores, verificados nas
duas realidades exemplificadas, demonstram a jornada intensa e penosa dos
agricultores familiares.
No município de Marituba, observa-se uma diversidade produtiva referente à
agricultura, precisamente no que diz respeito à produção de hortaliças. A pesquisa
empírica identificou, nos dois bairros investigados, pelo menos três modelos
produtivos, alicerçados na produção convencional, na produção hidropônica, e na
produção orgânica. No que concerne à produção convencional designada nesta
130
pesquisa, à mesma faz referência ao cultivo das hortaliças de modo convencional,
na terra, com a utilização de insumos como os fertilizantes químicos.
Fotografia 7 - Alface cultivada de forma convencional no bairro Uriboca
Fonte: Patrícia Oliveira da Silva (14/02/2012)
Contudo, faz-se necessário uma ressalva quanto à afirmativa sobre a
utilização dos insumos químicos, uma vez que os agricultores familiares revelaram
que não utilizam os produtos químicos demasiadamente, na maioria das vezes o uso
objetiva o controle de algumas pragas que aparecem nos cultivos, estes agricultores
entendidos enquanto convencionais, fazem uso dos produtos químicos, porém
valorizam a utilização de insumos orgânicos também, ou seja, há uma imbricação
dos modelos empregados por parte do agricultor.
Já a produção oriunda do modelo hidropônico, a qual apresenta um
diferencial de agregação de valor, em decorrência da limpeza apresentada pelas
hortaliças e da sua durabilidade, estas são cultivadas de forma suspensa, sob
estufas, o que garante a proteção das hortaliças das chuvas e de outros fenômenos
climáticos, conforme, observa-se na fotografia 8.
131
Fotografia 8 - Cultivo da alface hidropônica no bairro Almir Gabriel
Fonte: Patrícia Oliveira da Silva (23/03/2011)
A hidroponia é uma técnica para cultivo, em ambiente protegido, para
diversas espécies agrícolas. Esta técnica consiste na circulação regular, junto ao
sistema radicular das plantas, de um filme de solução nutritiva. O projeto hidropônico
consiste na aplicação de técnicas, materiais e equipamentos para a produção de
hortaliças por meio do cultivo sem o solo. Neste sistema hidropônico, assim como
nos outros sistemas, são exigidos constantemente acompanhamento e manutenção
do sistema, a fim de que todas as etapas sejam realizadas.
A partir da observação do sistema hidropônico implementado pela
COOPSANT, apreendeu-se algumas vantagens apresentadas pela técnica, como
por exemplo, maior aproveitamento da água, reutilização dos nutrientes, utilização
de áreas com solos inadequados à agricultura, entre outros. Por outro lado, este
sistema apresenta algumas desvantagens como a dependência de eletricidade, alto
custo das instalações, bem como atividades rotineiras, que não podem deixar de
serem realizadas.
Outro modelo produtivo faz referência à agricultura orgânica, a qual também é
desenvolvida pelos agricultores familiares. É no quintal destes agricultores, por meio
132
das práticas socioespaciais voltadas ao bem estar das famílias, como no caso do
agricultor 13, que se observam “[...] experiências que potencializam na superação de
uma prática cotidiana homogeneizadora, programada pelas relações da sociedade
moderna” (TRINDADE JR., 1999, p. 154).
O sistema produtivo desenvolvido pela agricultora em questão, na sua
propriedade, tem outro elemento importante referente ao auto-sustento das
plantações, no que diz respeito ao processo de adubação que é feito. O adubo que é
utilizado na sua horta, bem como nos outros cultivos como de plantas medicinais e
ornamentais, tem sua origem no próprio quintal.
O adubo advindo do quintal do agricultor 13 é um adubo denominado
orgânico, o qual é proveniente de resíduos vegetais e animais que passaram pelo
processo de decomposição, sendo a adição deste ao solo de fundamental
importância pelo acréscimo de nutrientes tanto ao solo quanto às plantas.
O adubo natural que é produzido neste espaço de morada se origina do
reaproveitamento do esterco de galinha, dos caroços de açaí, das folhas secas, da
casca de mandioca, dentre outros, que já foram descartados após seu principal uso.
Este material é depositado numa composteira, construída no quintal, onde sofrem o
processo de decomposição, transformando-se em adubos orgânicos para os cultivos
desta família. Este processo foi relatado por um agricultor que produz de forma
orgânica, conforme o fragmento a seguir.
Esta parte aqui eu não posso desmatar ela, porque eu ajunto estas folhas e
vai direto pra esterqueira, estas folhas é tudo juntado e ido pra esterqueira
pra se transformar em adubo orgânico [...] o processo é esse aqui, ta tudo
cheio viu, aqui é colocado tudinho aqueles nutrientes que a gente ajunta de
lá, joga aqui, depois ele tem uma peneira que ele côa e fica assim, aqui
passa mais de 120 dias pra aprontar e colocar nas plantas, completamente
orgânico. Lá tá uma camada de esterco, uma camada de folha, uma
camada de casca de mandioca, uma camada de caroço de açaí, é por
camada, ai vai fazendo as camadas até completar um metro, depois de tudo
preparado, a gente coloca o calcário que é para corrigir, farinha de osso e
torta de mamona que é como complemento. Ai a gente coloca e é o término.
(Agricultor 13 do bairro Almir Gabriel, fevereiro/2012)
Conforme relato do agricultor 13, é acrescentado a este material decomposto
calcário, farinha de osso, torta de mamona, entre outros. Este processo de
transformação em adubo orgânico, dura em torno de 120 dias, após este processo,
o adubo é destinado ao cultivo e também à venda. Além desta agricultora residente
133
do bairro Almir Gabriel, outra família de agricultores, identificados neste estudo como
os agricultores 12 e 19, do mesmo bairro, desenvolvem o mesmo sistema produtivo.
É necessário entender os quintais, bem como os cultivos, enquanto objetos
do espaço de morada, os quais devem na acepção de Santos (2006) está
indissociados da compreensão das ações, as quais em conjunto com os objetos
guardam uma intencionalidade do sujeito, que está circunscrita a produção dos
diversos cultivos, a criação de animais, a produção de uma história e, por
conseguinte, a reprodução da vida numa intrínseca relação com a terra.
Os quintais tidos enquanto sistemas produtivos familiares, que possibilitam
uma diversidade de benefícios à família, são observados enquanto essenciais na
sobrevivência destes agricultores, contribuindo na superação das dificuldades e
necessidades do dia a dia, principalmente por meio da produção que é desenvolvida
nestes, neste sentido, destaca-se alguns fragmentos extraídos das narrações dos
agricultores acerca da importância da agricultura em suas vidas.
É o desenvolvimento da gente, do dia a dia né, porque a gente tá li naquela
lida, então principalmente a gente que chega essa fase, se tú fô ficar no
canto sem tu ter um movimento tu vai adoecer pior, então pra mim acho que
uma coisa muito importante é a agricultura, porque ali você recebe, mas
você ensina sua família também né, porque você vai, mas a família fica,
então eu acho muito bom esta parte da agricultura, você vai dedicar seus
filhos pra eles apreender e ver quanto é, porque nos sem agricultura
ninguém vive, porque é da agricultura que sai o alimento [...] (Agricultor 11
do bairro Almir Gabriel, fevereiro/2012)
Minha horta é o pão de cada dia, todo dia tenho meu dinheirinho pra
comprar minha comida trabalho com cheiro verde, couve, cariru, tendo
cheiro verde todo dia tem dinheiro, (Agricultor 9 do bairro Uriboca,
fevereiro/2012)
Pra mim, vou lhe falar a verdade, a agricultura representa tudo, fonte de
renda representa tudo porque a gente tira pra nossa alimentação, alimenta
o povo, não é só porque ela sustenta a família, [...] porque eu trabalho
porque eu gosto. (Agricultor 4 do bairro Uriboca, fevereiro/2012)
A coisa mais importante é agricultura pra gente, a gente tendo terra pra
produzir, tudo à gente produz um pouco, tudo. (Agricultor 3 do bairro
Uriboca, fevereiro/2012)
Estilo de vida mais saudável, meio de sobrevivência, […] (Agricultor 12 do
bairro Almir Gabriel, fevereiro/2012)
134
Neste espaço é revelada uma rotina desempenhada pela família para além do
cultivo das hortas, relacionada aos processos de lavagem e secagem das louças,
bem como das roupas da família, tendo destaque à presença do jirau (termo de
origem indígena), o qual consiste numa armação de madeira improvisada para o
auxílio de suas atividades. Este objeto observado nos terrenos tanto no bairro
Uriboca, quanto no Almir Gabriel, guarda um tempo-espaço outro, intrínseco a
maneira de agir e de fazer de alguns moradores, distinto do tempo-espaço
hegemônico presente na metrópole.
O quintal enquanto uma extensão da casa, bem como da vida dos moradores,
traduz-se em condição, produto e meio de sobrevivência destas famílias, por meio
do trabalho. Neste sentido o terreno que acomoda a moradia, bem como a
produção, aparece como possibilidade real da reprodução da vida tanto material,
quanto subjetiva destes agricultores e seus familiares. (CARLOS, 2001)
Estes agricultores fazem parte do grupo que não produz na propriedade da
cooperativa, e sim em seus próprios terrenos, pois a agricultura orgânica não é
desenvolvida na propriedade da COOPSANT, a qual é destinada à produção
hidropônica. Contudo, os agricultores enquanto associados, usufruem do caminhão
pertencente à COOPSANT, para o transporte da produção, por uma taxa reduzida,
além de participarem de eventos representando à cooperativa, todavia, há uma
preocupação por parte dos agricultores que estão envolvidos com a produção
orgânica, que é a ausência da certificação, como é explicitado por um agricultor:
A certificação é uma dificuldade, o meu é orgânico, a gente não usa
agrotóxico, mas o que garante que o produto é orgânico é a certificação,
outra dificuldade é o custo do produto orgânico, é mais caro, mais caro que
o convencional, as pessoas não querem pagar o valor do orgânico [...].
(Agricultor 19 do bairro Almir Gabriel, fevereiro/2012)
Como se pode apreender do relato deste agricultor, produzir de forma
orgânica é uma decisão que acarreta diversos comprometimentos. Neste sentido,
faz-se necessário ressaltar, que produzir de forma orgânica requer o atendimento de
diversas exigências previstas em lei específica. A lei nº 10.831 de 33 de dezembro
de 2003 (BRASIL, 2003), dispõe sobre a agricultura orgânica, definindo, no artigo 1°,
o sistema orgânico, enquanto um sistema, no qual,
135
[...] se adotam técnicas específicas, mediante a otimização do uso dos
recursos naturais e socioeconômicos disponíveis e o respeito à integridade
cultural das comunidades rurais, tendo por objetivo à sustentabilidade
econômica e ecológica, a maximização dos benefícios sociais, a
minimização da dependência de energia não renovável, empregando,
sempre que possível, métodos culturais, biológicos e mecânicos, em
contraposição ao uso de materiais sintéticos, a eliminação do uso de
organismos geneticamente modificados e radiações ionizantes, em qualquer
fase do processo de produção, processamento, armazenamento,
distribuição e comercialização, e a proteção do meio ambiente.
Esta referida lei, torna compulsória a certificação dos produtos orgânicos, com
exceção dos produtos vendidos diretamente pelos produtores nas feiras. Exige-se,
porém, o credenciamento em uma organização de controle social cadastrado no
Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) ou em outro órgão
fiscalizador federal, estadual ou distrital conveniado. Com isso, os agricultores
familiares passam a fazer parte do cadastro nacional de produtores orgânicos.
A certificação que concede a produção o título de orgânica, por meio de um
organismo de avaliação da conformidade, credenciado ao MAPA, que garante por
escrito que uma produção foi metodicamente avaliada e está em conformidade com
as normas de produção orgânica vigentes. Após passar por todas as etapas de
avaliação da conformidade orgânica, uma unidade de produção está apta a utilizar o
selo em seus produtos. Cada organismo de avaliação, neste caso as certificadoras
possui um selo próprio, somente mediante este selo que os produtos são
comercializados nas redes de supermercados.
O sistema de certificação consiste num conjunto de regras e procedimentos
adotados por uma entidade certificadora, que, por meio de auditoria, avalia a
conformidade do produto, objetivando à sua certificação. Ao se submeter a esta
avaliação, o agricultor terá algumas regras a cumprir, como desenvolver um plano
de manejo sobre sua área de produção, está atento à origem dos insumos utilizados
na produção, como sementes ou mudas, às quais devem ter sido produzidas
organicamente, além da origem da água, e consequentemente do controle de sua
qualidade, e também a origem e produção do esterco, isto é, do adubo orgânico que
será adicionado aos cultivos, estes são alguns dos critérios elencados para a
obtenção da certificação.
Tendo por base as exigências para reconhecer uma produção enquanto
orgânica, bem como as observações realizadas nas áreas de cultivo, considera-se
136
que estes agricultores enfatizados nesta pesquisa, em consonância com a
expressão utilizada pelo técnico da EMATER, em entrevista realizada durante a
pesquisa, estes agricultores ainda não são efetivamente produtores orgânicos,
encontram-se em processo de “transição do modelo convencional ao sistema
orgânico”. Estes agricultores têm como obstáculo para efetivarem esta mudança de
paradigma produtivo, principalmente a falta de renda para investir na sua produção,
visto que produzir de forma orgânica, sobretudo visando obter a certificação, requer
um investimento elevado em insumos de origem orgânica, bem como em outras
exigências, motivos estes que fazem com que muitos agricultores familiares fiquem
impossibilitados de levarem o projeto à diante.
O projeto da agricultura orgânica, desenvolvido com os agricultores do bairro
Almir Gabriel, teve início por volta do ano de 2006, a partir de uma iniciativa dos
agricultores e das instituições que prestam assistência, como a EMATER e o
SEBRAE, os quais desenvolveram em conjunto com os agricultores, atividades
como
cursos
direcionados
à
produção
de
plantas
orgânicas,
substrato,
compostagem e outros como empreendedorismo, organização em associações e
cooperativas, produção de fitoterápicos, entre outros. No que diz respeito ao
orgânico, segundo dados do técnico da EMATER, dos doze agricultores que
iniciaram o projeto, somente três famílias de agricultores estão dando continuidade
ao projeto.
Ainda nesta perspectiva da produção orgânica, tem destaque o quintal do
agricultor 13, pela variedade produtiva, a qual inclui além das hortaliças,
evidenciadas neste estudo, o cultivo de plantas ornamentais e plantas medicinais,
estas últimas se destacam enquanto matéria-prima para a produção de produtos
fitoterápicos, os quais são definidos pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária
(ANVISA) por meio da Resolução nº. 48, de 16 de março de 2004 (BRASIL, 2004),
como medicamento obtido, empregando-se matérias-primas ativas vegetais.
Os produtos fitoterápicos produzidos pelo agricultor 13, demonstrados na
fotografia 9, originados a partir de plantas medicinais cultivadas em seu quintal,
como a arruda, o boldo, o hortelã, o alecrim, a babosa, capim santo, entre outros,
configuram-se numa paixão do agricultor, o qual mostrou com bastante entusiasmo
seu laboratório, onde os mesmos são produzidos.
137
Fotografia 9 - Produtos fitoterápicos produzidos artesanalmente
Fonte: Patrícia Oliveira da Silva (24/02/2012)
Além do cultivo de plantas medicinais, a produção de plantas ornamentais é
uma ocorrência entre os agricultores entrevistados, assim como as plantas
medicinais, o cultivo de ornamentais se apresenta enquanto um complemento à
renda destes agricultores, os quais não estão voltados exclusivamente para as
espécies ornamentais. A cultura de hortaliças folhosas é a produção privilegiada
pelos agricultores familiares entrevistados nos dois bairros, seja na produção
convencional, hidropônica ou orgânica, contudo, os mesmos necessitando
ampliarem sua renda, desenvolvem também o cultivo das plantas.
A pesquisa indica que a maioria dos agricultores envolvidos com as plantas
ornamentais é formada por um público feminino. Esta participação expressiva da
mão de obra feminina se deve em grande parte, ao fato da floricultura ser uma
atividade familiar, uma vez que, como a agricultura de modo geral, necessita do
apoio de todos os membros da família. Nesta especificidade da produção agrícola
de Marituba, as mulheres se destacam no ordenamento da produção das plantas
ornamentais em todas as etapas.
138
As plantas produzidas como sorriso, amor crescido, orquídea (esta última em
destaque na fotografia 10), de acordo com as entrevistas, as mesmas são
comercializadas, sobremaneira, nas feiras locais, nas portas das casas, sendo que
este fluxo se intensifica, sobretudo em datas específicas como dia de finados, visto
que no município de Marituba existem três cemitérios particulares e dois cemitérios
públicos, os quais respondem por uma expressiva demanda neste período. O
SEBRAE ainda articula a participação dos agricultores representados pelas
organizações das quais os mesmos fazem parte, em feiras e demais eventos,
organiza junto com a SAGRI a visita deste grupo a outros estados, para conhecer
experiências coletivas na produção de plantas e flores.
Fotografia 10 - Cultivo de plantas ornamentais pelos agricultores
Fonte: Patrícia Oliveira da Silva (14/02/2012)
O quintal, na vida destas famílias, tem múltiplos usos que vão desde a sua
apreensão para propósitos materiais, como para usos de caráter mais subjetivos.
Em meio aos usos de cunho mais simbólicos, acrescenta-se, ainda dentre as
funções, ou melhor, as possibilidades proporcionadas pela agricultura aos
entrevistados nos bairros em questão, a possibilidade do terreno enquanto um
139
espaço da socialização do grupo familiar, no que concerne ao lazer e ao encontro,
visto que as sombras das árvores existentes no quintal consistem geralmente num
convite ao descanso, à conversa entre os familiares e/ou vizinhos. Atribuição esta
bastante enfatizada tanto pelos agricultores do bairro Almir Gabriel, quanto pelos
produtores do bairro Uriboca, para o espaço dos quintais.
Na perspectiva de Certeau (1996), estes seriam os espaços produzidos pelos
sujeitos para seu bem estar, incluindo as próximas e fortes relações familiares e de
vizinhança entre os agricultores. Estas relações para este autor supracitado destoam
das relações distantes que marcam espaços construídos na cidade dentro dos
moldes capitalistas, voltados ao mercado. Ao analisar o sujeito em sua relação com
o espaço, acordando com o que se pretendeu também expor neste estudo, acerca
dos espaços reproduzidos pelas famílias, Certeau (1996) ressalta que:
Diante do conjunto da cidade, atravancado por códigos que o usuário não
domina, mas que deve assimilar para poder viver ai, em face de uma
configuração dos lugares impostos pelo urbanismo, diante dos desníveis
sociais internos ao espaço urbano, o usuário sempre consegue criar para si
algum lugar de aconchego, itinerários para o seu uso ou seu prazer, que
são as marcas que ele soube, por si mesmo, impor ao espaço urbano
(CERTEAU, 1996, p. 42).
Os agricultores familiares, assim como criam estratégias relacionadas à
produção e socialização com a família, também revelam estratégias socioespaciais
referentes à comercialização que se refletem na reprodução destes grupos. O
estudo das redes e sistemas de trocas, bem como dos mercados se apresenta como
uma possibilidade real de identificar as relações socioespaciais que expressam a
imbricação entre rural e o urbano no espaço. Nesta perspectiva, é imprescindível
caracterizar esta dinâmica comercial vivenciada pelos agricultores familiares de
Marituba.
Considerando a organização do espaço enfocando o fator econômico e
mercadológico, Santos (2008) destaca a existência de dois circuitos econômicos
presentes no sistema urbano, a saber, o circuito superior da economia e o circuito
inferior da economia, os quais mantêm com os espaços da cidade um tipo particular
de relações. Nesta perspectiva dos circuitos, observou-se na pesquisa empírica, que
a configuração da comercialização dos agricultores familiares, aproxima-se dos
elementos inerentes aos dois sistemas econômicos designados por Santos (2008)
de circuito inferior da economia e circuito superior da economia.
140
O circuito superior, de acordo com Santos (2008), tem sua origem vinculada à
modernização tecnológica, tendo se beneficiado do progresso técnico, a exemplo
dos bancos, das redes de supermercados, do comércio e indústria de exportação,
entre outros. Já o circuito inferior é pautado em atividades de pequena dimensão,
compreendendo atividades tradicionais, como o artesanato, as vendas autônomas, o
qual manipula pequenas mercadorias se comparado ao circuito superior.
As feiras enquanto espaços de comercialização dos agricultores de Marituba
guardam uma característica singular da relação produtor – consumidor, que consiste
numa certa flexibilização dos preços dos produtos, os quais no circuito inferior são
passíveis de discussão e negociação por meio do ato de “pechinchar”. Enquanto que
as relações inerentes ao circuito superior não permitem ao consumidor esta
possibilidade. Outra característica marcante é a significância do trabalho humano no
circuito inferior como apontado por Santos (2008),
O circuito superior utiliza uma tecnologia importada e de alto nível, uma
tecnologia “capital intensivo”, enquanto no circuito inferior a tecnologia é
“trabalho intensivo” e frequentemente local ou localmente adaptada ou
recriada. O primeiro é imitativo, enquanto o segundo dispõe de um potencial
de criação considerável. (SANTOS, 2008, p. 43)
A predominância deste circuito inferior nas relações comerciais dos
agricultores, não exclui a presença do circuito superior da economia nas técnicas de
produção utilizadas por alguns agricultores, os quais fazem uso da tecnologia do
sistema hidropônico que reúne um conjunto de técnicas e equipamentos específicos
para o cultivo de hortaliças suspensas como já mencionado. Entretanto, a maioria
dos agricultores familiares, na dificuldade de se inserir neste circuito superior, busca,
como medida de sobrevivência e reprodução, o circuito inferior da economia, ou por
falta de opção no caso dos produtores orgânicos que não possuem certificação, ou
por escolha, uma vez que, segundo os agricultores, os supermercados não pagam o
devido valor pelo produto fornecido.
Nesta inserção no circuito inferior da economia, os agricultores familiares de
Marituba direcionam sua produção, sobretudo, as feiras locais e de outros
municípios
como
o
município
de
Belém.
Considerando
os
destinos
de
comercialização, elaborou-se o mapa 5, indicando os vetores de comercialização da
produção oriunda tanto dos agricultores do bairro Uriboca, quanto dos produtores do
bairro Almir Gabriel.
141
Mapa 5 - Destino da produção dos agricultores familiares de Marituba
Fonte: Trabalho de campo, 2012
142
Conforme, observa-se no mapa 5, a comercialização da produção agrícola
familiar do município de Marituba, não está restrita a este município, esta produção
dos agricultores além de contribuir no abastecimento das feiras locais, também é
distribuída no município de Belém. O mapa 5 apresenta os destinos da produção, de
acordo com os vetores, verifica-se que o que é produzido no município é direcionado
ao centro do município, precisamente para o mercado central, e às feiras localizadas
nos próprios bairros, sendo destinado também às feiras do produtor orgânico e ao
mercado do Ver-o-Peso, ambos localizados no município de Belém.
A produção orgânica de hortaliças cultivada no bairro Almir Gabriel é
comercializada de forma autônoma, basicamente na feira do Almir Gabriel, no
mercado central de Marituba e na feira do produtor orgânico que acontece na praça
Batista Campos e na praça Brasil no município de Belém. Estas feiras do produtor
orgânico acontecem nestas praças nos dias de sábado, sendo organizadas em
sábados alternados em cada praça, nestas se reúnem agricultores dos diversos
municípios da RMB com o objetivo de comercializarem sua produção.
Devido à ausência da certificação do produto orgânico cultivado por estes
agricultores familiares, sua comercialização não é permitida com os supermercados,
neste sentido, estes têm como alternativa de comercialização as feiras do produtor
orgânico, bem como as feiras locais do município. No que concerne ao escoamento
da produção, como meios de transporte utilizados nesta prática, tem-se o caminhão
da cooperativa fretado por um preço previamente estabelecido em assembleia para
os cooperados, além do uso de bicicletas para transportar as hortaliças para as
feiras locais.
O mercado central de Marituba também é destino para a comercialização dos
agricultores familiares pesquisados, está localizado no bairro Centro do município,
em frente à rodovia BR-316. É um espaço onde se encontram os mais diversos
produtores, feirantes, comerciantes, atravessadores, consumidores, é um ponto que
converge produtos agrícolas não somente dos agricultores de Marituba, mas de
outros municípios, que vêm atraídos pelo movimento da feira, a mesma oferece uma
diversidade de produtos que vão desde a venda de alimentos às roupas e calçados,
encontram-se ali um mosaico de diferentes tipos de comercializações em seu
espaço.
143
Fotografia 11 - Novo Mercado Central de Marituba
Fonte: Patrícia Oliveira da Silva (24/02/2012)
Na fotografia 11, visualiza-se o movimento no novo mercado de Marituba,
construído para acomodar os feirantes que improvisavam um espaço ao ar livre,
próximo ao antigo mercado, este último ainda em funcionamento. De segunda a
domingo, os mercados estão em plena atividade. Os feirantes e comerciantes
geralmente começam suas atividades por volta de 4h as 6h da manhã com a
presença dos vendedores, fornecedores, atravessadores de frutas e verduras e se
prolonga até à noite com o funcionamento dos bares. Quando se iniciam as
atividades do mercado, vê-se um aglomerado de pessoas transitando pelos
corredores em um movimento impregnado de cores, sons, cheiros, que imprime um
sentido particular a este espaço e a todos os outros marcados por estas práticas
socioespaciais cotidianas.
A comercialização realizada pelos associados da APHAURI, localizada no
bairro Uriboca acontece, em sua maioria, na feira do Ver-o-Peso, feira que é
patrimônio cultural, uma das feiras mais expressivas do Brasil, localizada no
município de Belém, os agricultores fornecem para os feirantes de outras localidades
144
de Belém que vem comprar no Ver-o-Peso. Não há relação destes agricultores com
os supermercados, os mesmos preferem fornecer nas feiras, com o argumento de
que nestes espaços a comercialização é melhor.
Estes agricultores se organizam semanalmente, por meio de escala
estabelecida entre eles, a qual é organizada de terça-feira a domingo, cada dia da
semana, um grupo de agricultores vai vender, enquanto os outros aguardam para
comercializarem no seu dia estabelecido. Em média um agricultor familiar vai vender
no Ver-o-Peso, dois dias na semana, dias estes que se iniciam muito cedo para
estes trabalhadores, pois necessitam fazer a colheita, armazenar e transportar para
o local de comercialização, o transporte utilizado é o caminhão cedido à associação
pelo MDA.
Os agricultores informaram que não há um valor fixo para as hortaliças,
podendo o seu preço variar, conforme a oferta e demanda na feira, além da
qualidade do produto, a qual se altera de acordo com as condições climáticas, com a
adubação e também com a estrutura da horta. Desta forma, em média um agricultor
familiar comercializa semanalmente na feira, geralmente, cem a trezentos maços de
jambu, cariru, cheiro verde, alface, entre outras hortaliças, cujo valor dos maços
alterna de cinquenta centavos a dois reais.
No que diz respeito à comercialização na COOPSANT, os associados
comercializavam pela cooperativa, somente as hortaliças hidropônicas, inicialmente
com as redes de supermercados locais, no entanto, segundo os agricultores 11 e 15,
sócios da cooperativa, devido aos prejuízos decorrentes da devolução aos
agricultores das hortaliças que não eram vendidas pelos supermercados, as quais já
estavam desidratadas, ocasionando perdas na produção, conforme informações dos
agricultores cooperados.
[...] vendo aqui na feira mermo, a gente vendia no supermercado, só que a
gente tinha muito gasto, perdia muito, a gente só pegava o que eles
vendiam, o que eles não vendiam a gente não tinha nem retorno. (Agricultor
11 do bairro Almir Gabriel, fevereiro/2012)
A pior dificuldade que tinha pra ti vender pra supermercado era desperdício,
se tu mandar 200 maços de alface pra lá, só passar 50, sobra 150, pega lá
só um relatório e vem dizendo que perdeu 150, mas não pega embalagem,
não pega nem um maço de volta, entregava ao supermercado a 1,50 reais,
é preferível entregar pro cara aqui a 1,00 real, te pagar do que tu perder,
gasta com transporte, vai pagar motorista e tem a embalagem que tu perde,
é melhor tu vender aqui a 1,00 real. (Agricultor 15 do bairro Almir Gabriel,
fevereiro/2012)
145
Diante das perdas com o fornecimento de hortaliças hidropônicas aos
supermercados, os agricultores optaram pelo circuito inferior, ou seja, pelas feiras
livres locais já mencionadas, para comercializarem a alface, a qual é armazenada de
forma
padronizada
em
embalagens
apropriadas,
que
trazem
informações
importantes acerca do produto, como informações nutricionais, a cooperativa que
produziu, endereço da propriedade, entre outras, como mostra a fotografia 12.
Fotografia 12 - Alface hidropônica em embalagem padronizada
Fonte: Patrícia Oliveira da Silva (24/02/2012)
Para Santos (2008), há destaque no circuito inferior o trabalho familiar e
também autônomo, sendo este circuito, por excelência, fornecedor de ocupação
para a população pobre13 da cidade, assim como os migrantes sem qualificação,
convergindo com os dados relativos aos agricultores de Marituba, os quais
apresentam baixa escolaridade.
Outro elemento relevante referente ao circuito
inferior, no qual os agricultores pesquisados estão predominantemente situados, é a
13
Pobre na ótica de Santos (2008, p. 49), [...] são aqueles que não têm acesso, de modo regular, aos
bens de consumo corrente considerados como o mínimo indispensável numa certa sociedade [...].
146
noção de lucro, a qual é diferenciada em cada um dos dois circuitos, conforme é
explicitado por Santos (2008).
No circuito superior, trata-se de acumular capitais indispensáveis à
continuidade das atividades e à sua renovação em função dos progressos
técnicos. No circuito inferior, a acumulação de capital não constitui a
primeira preocupação ou simplesmente não há essa preocupação. Trata-se,
antes de tudo, de sobreviver e assegurar a vida cotidiana da família, bem
como tomar parte, na medida do possível, de certas formas de consumo
particulares à vida moderna. (SANTOS, 2008, p. 46).
A identificação desses circuitos e fluxos, na lógica da comercialização da
produção agrícola dos agricultores familiares, abre a possibilidade de se entender,
sob outra ótica, esse sistema produtivo e essa forma peculiar de vida social. Esta
constatação leva a identificar a feira livre, enquanto símbolo deste circuito inferior, e
representante espacial e social da comercialização dos agricultores, apresentandose enquanto um fator fundamental na reprodução dos agricultores familiares de
Marituba.
A feira é por excelência o espaço que proporciona tradicionalmente trocas
comerciais, o compartilhar de experiências, a possibilidade do encontro. Neste
contexto, entende-se a feira, como um local institucionalizado de trocas, com seus
agentes sociais, os quais lhe imprimem as práticas cotidianas que caracterizam este
espaço, o qual se configura enquanto peça central para a sobrevivência de muitos
que dependem destes espaços, cobertos ou improvisados com barracas ao ar livre,
para comercializarem seus produtos.
Nesta pesquisa, priorizou-se apreender também as principais dificuldades
e/ou entraves enfrentados pelos agricultores. Neste sentido, quando questionados
acerca da atuação dos órgãos de assistência em suas propriedades, cerca de 35%
dos agricultores entrevistados expressaram um descontentamento, revelando que
alguns órgãos como a EMATER, não realizam visitas técnicas em suas áreas de
produção. Considerando esta informação, realizou-se uma entrevista com o técnico
da EMATER do escritório local de Marituba, para verificar esta informação, bem
como oportunizar um esclarecimento por parte do referido órgão.
Segundo o técnico da EMATER, as visitas são realizadas periodicamente, o
levantamento da empresa de assistência acerca dos agricultores de Marituba não
está completo, visto que, na visão do técnico, muitos agricultores familiares têm
147
outras atividades, outros trabalhos, e muitas vezes não estão na propriedade para
fazer o cadastro junto ao órgão. Além deste fator, outro motivo revelado pelo técnico,
diz respeito à indisponibilidade de alguns agricultores, em ceder parte de seu tempo
para as orientações de assistência técnica por parte da EMATER, condizentes com
as culturas desenvolvidas.
Neste sentido, conforme o técnico da EMATER entrevistado, diante da
indisponibilidade de alguns agricultores, o órgão seleciona os agricultores que
realmente expressam interesse em serem assistidos e desenvolve o processo de
assistência
com
estes,
com
as
orientações
pertinentes,
bem
como
as
demonstrações técnicas adequadas ao que é produzido pelos agricultores. Contudo
esta postura por parte do órgão, não impede, segundo o técnico, que o agricultor
num momento de necessidade, procure a EMATER, uma vez que a mesma estará
disposta a atendê-lo.
Para este técnico, a produção agrícola aludida nesta pesquisa, apresenta
uma baixa variedade em termos de espécies cultivadas, haja vista que o alicerce da
produção está pautado majoritariamente em hortaliças folhosas, quando deveria
fazer a associação entre espécies folhosas e também de frutos, produção está que
possivelmente ampliaria seu mercado consumidor, e consequentemente suas
possibilidades de comercialização.
Diante desta constatação, necessita-se por meio de parcerias com os demais
órgãos envolvidos com a questão agrícola em âmbito local, regional e nacional,
buscar a diversificação da produção, por meio de projetos a serem desenvolvidos
com os agricultores, objetivando, inclusive, a inserção de um maior número de
agricultores no fornecimento da merenda escolar para o município de Marituba.
A diversificação produtiva por parte dos agricultores de fato constitui-se uma
dificuldade, uma vez que a produção, como mostrado inicialmente no quadro 5, é
constituída predominantemente de hortaliças folhosas, como pontuou o técnico da
EMATER. Conforme os agricultores, o cultivo de determinadas espécies, requer
materiais específicos relacionados à estrutura das mesmas, como plástico, ferro,
madeira, para a cobertura da horta, contudo o acesso a esses materiais nem sempre
é possível, pois falta dinheiro para a aquisição.
Assim como é difícil o acesso aos materiais para a cobertura dos cultivos, os
insumos voltados à produção propriamente dita, como as sementes, o adubo, entre
outros, também estão disponíveis no mercado por um preço elevado, tornando a
148
reprodução dos agricultores complicada. Outro fator explicitado pelos agricultores
familiares consiste na taxa de energia cobrada pelas Centrais Elétricas do Pará
(CELPA), a qual é elevada, devido ao funcionamento da bomba para irrigação das
hortaliças.
Muitos agricultores reclamam da CELPA, devido esta não realizar o cadastro
destes como produtores rurais, procedimento este que beneficiaria os agricultores,
uma vez que os mesmos passariam a pagar um valor reduzido ao referido órgão.
Esta observação foi feita principalmente pelos agricultores do Uriboca, enquanto que
os agricultores do Almir Gabriel em sua maioria não mencionaram esta demanda.
Esta diferença é explicada, devido à maioria dos entrevistados do bairro Almir
Gabriel, ser associado da COOPSANT, a qual mantém um cadastro junto a CELPA,
de redução da energia, informação obtida com o diretor operacional da referida
cooperativa agrícola. No geral, os agricultores familiares ficam sem instrumentos
legais para reivindicar seus direitos, visto que o município de Marituba, segundo o
técnico da EMATER, não dispõe de um aparato legal como uma lei que defina área
agrícola no município em questão.
O agricultor, em decorrência destas indefinições, é negligenciado ou
desconsiderado enquanto produtor agrícola, esta ausência de titularidade da
propriedade produtiva que comprove a produção agrícola, impossibilita ao técnico da
EMATER emitir a DAP, documento que atesta o vínculo com a agricultura, para
iniciar o procedimento de financiamento de crédito junto ao BASA, ou a obtenção da
redução nos custos de energia com a CELPA.
Entre as dificuldades nos relatos dos agricultores que residem no bairro
Uriboca, referentes à comercialização, destaca-se a dificuldade de um local
adequado e específico para os mesmos venderem sua produção no Ver-o-Peso. Já
os agricultores do bairro Almir Gabriel reclamam da promessa feita pela Prefeitura
de Marituba, de construir uma feira do produtor, localizada na entrada do bairro,
próximo à rodovia BR- 316, obra que ainda não foi concretizada.
Contudo, diante das inúmeras dificuldades enfrentadas pelos agricultores
familiares, dificuldades estas que limitam a sua reprodução socioespacial, estes com
seu “[...] potencial de criação considerável”, nos termos de Santos (2008, p. 43)
conseguem, na medida do possível, superar as limitações ao longo do processo,
conforme a fotografia 13 ilustra, na ausência da estrutura padrão composta por ferro
149
e plástico para cobrir a horta, cria-se uma estrutura com o que se tem disponível, ou
seja, hastes de madeira e folhas de palmeira.
Fotografia 13 - Horta de couve coberta com folha de palmeira
Fonte: Patrícia Oliveira da Silva (09/02/2012)
É nesta perspectiva que os agricultores familiares devem ser compreendidos,
ou seja, em consonância com o entendimento de Wanderley (2003), enquanto
capazes de resistir e adaptar-se aos desafios econômicos e socioespaciais que se
impõem, conforme visualizado na imagem 13, a qual demonstra que em meio à
ausência dos recursos apropriados para a proteção da horta, os agricultores criam
instrumentos marcados pelo improviso para superar estas adversidades.
Podem-se entender estas práticas socioespaciais associadas à combinação,
até certo ponto, de elementos cotidianos concretos, passados por uma tradição
familiar e realizado dia a dia através das ações-objetos, os quais se traduzem em
fragmentos na metrópole, que conforme Carlos (2001) exprimem espaços-tempos
outros, os quais estão em contínua relação com os demais conteúdos e formas
espaciais e temporais existentes no espaço metropolitano.
150
É necessário entender as estratégias socioespaciais dos agricultores
familiares, concernentes tanto à produção, quanto a comercialização, enquanto
práticas, as quais devem na acepção de Santos (2006) estarem indissociadas da
compreensão dos objetos, os quais conjugados guardam uma intencionalidade do
sujeito, que possivelmente está circunscrita a reprodução dos agricultores. Estas
práticas socioespaciais decifradas, por excelência, no cotidiano, na perspectiva de
Martins (2008), revela um momento de criação, superação, bem como de
transformação da condição, na qual estes agricultores se encontram.
151
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Na presente dissertação, buscou-se inicialmente enfocar a agricultura familiar,
assim como sua reprodução em espaços metropolitanos, no plano teórico e
conceitual, primando pela agricultura familiar, não a partir de seu caráter
institucional, mas buscando como fundamento também, as relações de produção, de
afetividade, relações historicamente construídas. Neste sentido, a compreensão que
permeou toda a pesquisa, esteve, sobretudo, pautada na perspectiva de Wanderley
(2003) sobre a capacidade de resistência e de adaptação dos agricultores aos novos
contextos econômicos e sociais.
Num segundo momento, objetivou-se contextualizar historicamente e
geograficamente o município de Marituba em sua relação com a agricultura de
caráter familiar, enfocando o tratamento concedido ao espaço rural no plano diretor
do referido município. Tendo em vista o PDP de Marituba (MARITUBA, 2007),
constatou-se que não se priorizou, neste documento, a zona rural no município ou
simplesmente o rural, visto que não há menção no plano sobre a delimitação da
zona rural, este fato acarreta aos agricultores, dificuldade em comprovar a produção
agrícola em área rural ou agrícola, junto aos órgãos financiadores de crédito, haja
vista as regras expressas nas políticas.
Este processo histórico de constituição do município de Marituba, delineado
no segundo capítulo, bem como a exposição acerca das iniciativas de agricultura
familiar na RMB, auxiliou na compreensão, assim como na verificação das hipóteses
deste estudo relacionadas, a questão da permanência destes trabalhadores na
agricultura mesmo em espaço delimitado e considerado enquanto urbano, bem
como seu fortalecimento por meio da inserção em associações e cooperativas.
No terceiro capítulo, considerando
tanto a pesquisa documental e
bibliográfico, quanto o trabalho empírico, os quais possibilitaram revelar as
estratégias socioespaciais empreendidas pelos agricultores para garantir ainda que
de forma parcial a sua reprodução, tem-se, dentre as estratégias, o acesso ao
crédito, por meio de políticas públicas, por parte de alguns agricultores, entretanto,
apesar da existência de políticas públicas voltadas a agricultura familiar, a exemplo
do PRONAF, ainda um número significativo de agricultores não é beneficiado com
os incentivos.
152
Este fator está associado, entre outros, ao desconhecimento por parte dos
agricultores das normas estabelecidas pelos bancos para os financiamentos, assim
como da carência de um trabalho mais esclarecedor e efetivo pela EMATER,
enquanto órgão de assistência. Contudo, vale ressaltar que o técnico da EMATER
entrevistado, frisou a insuficiência de servidores, uma vez que foi mencionado
apenas um técnico responsável pelo município de Marituba.
É precisamente no quarto capítulo que a questão que orientou toda a
pesquisa14 pode ser plenamente contemplada, uma vez que neste, objetivou-se
revelar as condições de persistência do estilo de vida organizado em torno da
agricultura familiar. No primeiro momento deste capítulo as entrevistas realizadas
propiciaram conhecer as principais características dos agricultores familiares no que
concerne ao perfil socioeconômico dos mesmos.
Neste sentido, verificou-se que um número considerável dos entrevistados é
proveniente de outros municípios do Estado do Pará, principalmente da microrregião
Bragantina, os quais, na sua maioria, apresentam escolaridade baixa, equivalente ao
nível fundamental incompleto. A média de idade dos agricultores entrevistados é de
42 anos, somente 15% destes, tem menos de trinta anos, revelando que a
agricultura vem sendo desempenhada cada vez menos pelos mais jovens.
O trabalho de campo também revelou que de modo geral a agricultura
representa a base econômica das famílias envolvidas, contudo vale ressaltar que
devido os rendimentos não serem tão elevados com a comercialização da produção,
conforme dados da pesquisa, um grupo de agricultores complementa sua renda com
algum
trabalho
acessório,
configurando-se
enquanto
uma
estratégia
de
sobrevivência para estes agricultores familiares.
A organização social e política é uma postura presente entre os agricultores
entrevistados, uma parcela significativa dos entrevistados revelou a participação em
cooperativas e associações. Iniciativas que expressam por parte dos agricultores, o
desejo de se fortalecerem coletivamente, apesar de em meio a estes, serem notadas
posturas individualistas referentes à socialização das informações e benefícios das
organizações.
14
De que forma se dá a reprodução da agricultura familiar na Região Metropolitana de Belém, especialmente no
município de Marituba?
153
Além das estratégias já mencionadas, aludiu-se na pesquisa as estratégias
relacionadas à produção e comercialização, no que concerne esta primeira, os
agricultores fazem uso, na ausência dos materiais adequados à estrutura, do
improviso com folhas e madeiras para proteger as hortas. Outra característica é que
em meio aos agricultores existem grupos mais voltados a produção hidropônica,
outros implementando a agricultura orgânica, ou seja, num mesmo bairro, têm-se
técnicas diferenciadas sendo empregadas na agricultura.
Entretanto, percebe-se a necessidade de ampliação da diversidade produtiva,
no que se refere à variedade das espécies cultivadas pelos agricultores, visto que a
produção tanto no bairro Almir Gabriel, quanto no bairro Uriboca, está voltada as
espécies folhosas, quando deveria incluir também as espécies de frutos, visando
uma oferta mais diversificada ao comércio.
As estratégias associadas à comercialização se referem à escolha da feira,
como o espaço, por excelência, para a comercialização da produção. Neste sentido,
predomina a inserção destes agricultores familiares no circuito inferior da economia,
no que concerne aos locais de comercialização como as feiras. Contudo, observouse que o circuito superior da economia está presente também de forma
complementar nas técnicas utilizadas por alguns agricultores, sobretudo presente no
sistema hidropônico, no qual se faz necessário um aparato tecnológico para o
funcionamento do sistema.
Neste sentido, na agricultura desenvolvida em Marituba, tem-se a imbricação
dos dois sistemas teorizados por Santos (2008), o circuito superior da economia
respondendo pelas técnicas diversificadas implementadas pelos agricultores, bem
como
o
circuito
comercialização,
inferior
da
apresentando
economia,
uma
maior
caracterizado
aproximação
pelas
entre
relações
produtor
de
e
consumidor, por meio da flexibilização proporcionada por este circuito.
Diante disto, inferir que o município de Marituba é mais urbano tomando
exclusivamente como referência o quantitativo de pessoas morando na área
delimitada como urbana, segundo critérios político-administrativos definidos pelo
IBGE, é desconsiderar as características e singularidades da imbricação ruralurbana. Nesse município, morar na cidade não significa necessariamente a inserção
total num estilo de vida urbano, já que atividades agrícolas desenvolvidas nessas
áreas consideradas urbanas constituem a essência das práticas socioespaciais de
produção e reprodução da vida.
154
Estas marcas impostas ao urbano se traduzem no interesse dos grupos sociais
em reproduzir, mesmo que de forma parcial as formas, bem como o conteúdo de
seus espaços de origem no seu espaço atual de morada. Estas relações de
afetuosidade com o espaço, decifradas nas práticas apreendidas no cotidiano dos
agricultores, se por um lado se perdem em decorrência da tendência uniformizante
do capital, por outro lado se recriam e se renovam na vida cotidiana dos grupos.
Convergindo com a observação de Mitschein (1989) acerca das experiências do
passado que em contextos novos não deixam de influenciar as práticas
socioespaciais dos grupos.
Nesta perspectiva a cidade de Marituba, com seus estilos de vida mais urbanos
e outros mais próximos da natureza, de conteúdo mais rural, aparece enquanto uma
síntese de diversos ritmos de vida, bem como de formas de uso do espaço, os quais
ao mesmo tempo em que estão dialeticamente articulados, revelam-se em
fragmentos constituintes tanto deste município, quanto presentes e persistentes na
Região Metropolitana de Belém, não como um resíduo, mas como uma produção
socioespacial que se reafirma por meio de estratégias de reprodução.
155
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164
APÊNDICE
165
UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ
INSTITUTO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM GEOGRAFIA
Roteiro de entrevistas realizadas com os agricultores dos bairros investigados
Dia: __/__/__
Bairro: __________________
a) Qual o seu nome?
b) Qual sua idade?
c) Qual a sua profissão?
d) Qual a Renda familiar?
e) Qual o grau de instrução?
f) Quanto tempo reside neste imóvel?
g) O seu terreno é próprio?
h) Qual o tamanho da sua área?
i) Quantas pessoas moram com você?
j) Em que trabalha atualmente?
1) Onde morava? Em que trabalhava?
2) Como você chegou aqui?
3) Porque escolheu este lugar?
4) Como e quando você começou a trabalhar com a agricultura?
5) Você trabalha sozinho ou com ajuda de alguém?
6) Quais são os principais produtos cultivados?
7) Quanto você produz?
8) Quais os locais de comercialização da sua produção?
9) Você se considera um agricultor? Produtor rural? (familiar)
10) O que a agricultura representa para você?
11) Quais as dificuldades enfrentadas na sua propriedade?
12) Existe alguma organização ou associação da qual você faz parte?
13) Você recebe ou já recebeu algum financiamento para a agricultura?
14) Você já teve algum contato com a Secretária de Agricultura de Marituba e com a
EMATER?
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