EVANDRO SILVA MARTINS
UFU - MestradolUNESP/CAr
Nosao trabalho visa ao estudo do simile encontrado no romance lracema.
A pesquisa nasceu quando nos deparamos com duas declaraQ6es de Jose de A1encar.
Na primeira, 0 autor afirma que 0 romanee pode se chamar aborigene e se constitui de
lendas e mitos da terra selvagem. Na segunda, assevera que a personagem
Peri fala
com uma "doce pronuncia que parece ter aprendido das auras da terra ou das aves da
ftoresta virgem". Reftetindo sobre estas colocec;6es de A1encar, alguns questionamentos
nos surgiram: 0 indianismo em Iracema estaria na tematica?
Encontra-Io-iamos
no
lexico apontado como 'tupi"?' Por que a maioria das falas das personagens nativas sac
introduzidas por similes?
Manuel Cavalcanti
Proenc;a, um dos mais argutos exegetas
alencariana, nos dlz que 0 autor emprega 0 simile para dar maior precisao
primitiva
(Proenc;a, 1974, p.47). Nao concordamos
e que
e extraida
0 processo 10i
a fim de que 0 autor pudesse introduzir 0 lexico "tupi",
como uma das caracteriza<;6es
personagens nao
a linguagem
com a posic;ao de Proenc;a,
concernente ao emprego do simile em Iracema. Nossa hip6tese
empregado, exaustivamente,
da obra
do seu indianismo.
Percebemos
das "auras da terra", mas, ao contrario,
as palavras, as construc;6es linguisticas
usadas no romance
que a fala das
e portugues
castiC;o:
pelas personagens
indigenas sac as mesmas usadas pelas demais personagens. Nao se Ihes pescam um
artigo, um determinante, um adverbio, um conectivo que nao seja do bom portugues. 0
simile, objeto deste estudo, tambem nao pertence
ao sistema
dos nativos. Lemos
Barbosa afirma queo conceito gramatical decomparac;ao, entre os nativos, desenvolveuse sob a pressao das Iinguas europeias (Lemos Barbosa, sId, 84). Compulsamos 0 texto
"Viagem
a
Terra do Brasil", de Jean de Lery, considerado
documentos do tupi antigo, e nao encontramos
um dos mais velhos
exemplos de similes. A1encar, como
veremos, buscou nas cronicas, nos velhos alfarrabios, nos dicionanos
materiallinguistico
'tupi".
existentes
0
nativo e, para criar a "aura" indianista, introjetou, via simile, 0 lexico
o simile em A1encar
e abundantea bibliografla
NAo
sobre 0 simile em Portugu's.
Embora seja
amplamente usado na literatura, poucos do os estudiosos deste jogo metalinguistico.
Dentre os que se dedlcaram ao estudo do simile em Portugu6s, podemos destacar
Evanildo Bechara e Othon M. Garcia. 0 primeiro, na sua Modema Gramatica Portuguesa,
estudando as subordinativas comparstivas. diz que a comparac;ao pode ser assimila~va
quando se assimila uma coisa. qualidade ou tato a outra mais impressionante,
conhecida.
0 nexo assimilativo,
por excel6ncia.
e
0 !CQ.lDQ.
ou mais
embora encontremos
tambam 0 assim como. Bechara, que toma de Mattoso esta conceituac;ao, exemplifica.
assim:
Beehara nilo vai alem do que se esperava de uma gramatica normativa.
Como a comum no texto gramatical, temos um conceito genarico e um exemplo extraido
de um autor classico.
ethon Garcia, por sua vez, estabeleee a diferenc;a entre a comparac;ao
propriamente dita. a comparac;i.o estritamente gramatical, e a comparac;ilo metaf6rica2
ou simile. Na primeira, os objetos ou seres comparados pertencem ao mesmo nivel de
refer6ncia. Por exemplo:
Ele
e (tilo)
forte como 0 pai
Na segunda, nilo apenas os objetos comparados
referincia
pertencem a niveis de
diferentes, mas tamt>em 0 segundo deles e 0 representante
por excelincia
do atributo que se quer ressaltar no primeiro, 0 que nos permite dizer que 0 simile se
distingue da simples comparac;ao por ser um exagero. uma hiperbole. Por exemplo:
Ele a torte como um touro.
o objetivo
do simile (00 comparac;ao metaf6rica, como se depreende
suas palavrss) visa a tomar mais clara, maiscompreensivel
de
uma ideia nova, desconhecida
do leitor, mediante 0 cotejo ou confronto com outra mais conheeida. cuja caracteristica
predominante
ou atrlbuto por exce16ncia se evidencie de maneira ostensiva, concreta'
mais sensivel (Garcia. 1975, p.77). 0 autor admite que 0 simile, ate certa ponto e usado
em virtude de
s. tar
insufici6ncia
de palavras. indlg6ncia verbal, para exprimir com
exatidAo e clareza todos os possiveis matizas de idalas e sentimentos.
desta afirmac;ao de Garcia, pois nao tol 0 que depreendemos
Discordamos
do 'corpus"
lexical
levantadoemlracema.
Paran6s.Alencarempregou,
para reforQ8r a cor local, para poder !riserir 0 I'xico
dar 0 carater de verossimllhanQ8
eexaustivamente,
-wPi. pegquisado
que a personagem
estemecanismo
e. finalmente, para
exigla. Exp!iquemos
a id'ia de
verossimilhanQ8 para Alenear. Ele nlio Be prende ao sentldo etitnoI6gico do voc8bulo,
Para 0 autor de Iracerna. 0 que considerava verosslmilhan9l
cotidiano. mas 0 posslve!. 0 explavel
de quase-imposslveis.
nio era a normalidade. 0
esteticamente. Emboraoposslvel
fosse entretecido
este posslvel exigia a concorrAncia de circunstAncias
raras de
acaso e coincidAncia, Passemos ao autor a palavra, Em A Viuvinha, declara: "a verdade
dlspensa a verossimilhanQ8",
a verdade?·,
Apoiando-se
Em Senhora, pergunta: "Que ha de mais verosslmil que
neste racioclnio, Alencar consegue prender a atenetao do
leitor. que aceita a possibilidade de a herolna tabajara par no regactO"um por um os filhos
da irara" e Ihes abandonar "os selos mimosos, cuja teta rubra como a pitanga ungia de
mel da abelha", E continua: "cachorrinhos sugam os peitos avaros de leite, lracema curte
dor. como nunca sentiu: parece que Ihe exaurem a vida; mas os seios vao intumescendo:
apojaram afinal. e 6 leite, ainda rubro de sangue de que se forrnou, esguicha". Como se
vA, 0 exemplo ilustra bem 0 seu conceito de verossimilhanQ8. Aclaremos. ainda, nossa
ideia de verossimilhanQ8,
0 Indio foi transforrnado.
no Aomantismo,
no nosso her6i
mltico, Sem 0 cavalheiro medieval, ideal do romantismo europeu. 0 romAntico brasileiro
mitifica 0 homem nativo, dando-Ihe as condiet6es sobre-humanas,
E. para fixar sua
existencia, usa 0 que em essancia caracteriza 0 homem: seu lexico. E 0 simile foi 0
achado para poder, inserindo 0 lexico no termo a sercomparado,
necessaria.
dar a verossimilhanQ8
Edward Lopes, em parte, jli havia percebido isto, quando fez a leltura
isot6pica dos tractOs configuradores
da personagem-tltulo,
paragrafo de Iracema. de modo que possamos
Lopes dispae 0 primeiro
vi-Io no eixo sintagmatico
e no eixo
paradigmatico. No primeiro eixo, temosa leitura denotativa, Os tractOSidentificadores de
Iracema sAo dispostos horizontal mente:
Iracema (que tinha) os cabelos mais negros do que a asa da grauna
Iracema (que tinha) 0 sorriso mais doce do que 0 favo de jati
Iracema (que tinha) 0 halito mais perfumado (que) a baunilha do bosque.
Vemos que as partes do corpo da "virgem dos labios de mel" sao comparadas
partes da naturen:
gralina. jat!. baunilha. Lopes, agora. fara a leitura
leitura do eixo paradigmatico.
com
conotativa, a
Afirrna que a ·Ieitura vertical de cada segmento dessas
cotunas (0 texto Ii disposto em forma de coluna) Iocalizar'
a parte paradigmatica
da
Isotopia que os subssuma num umver.o semAnIiooCOl'101lldo·(lApea.
1972. p. 32-33).
Comosepercebe.a~.flIZpeIo,*doledco
·"'S:
•• encontra no DiciorWio
"tupI". Gratina
Olas. slgniftcando aYe pintada.
de ~
Theodore S8mpai0. vem da forma ya-ti. significando umaeaatadeabelha.
nos mostra que lracema
natureza
brasileira.
(0 c:ompanIdo)
Embora nio
e. por
_1Ijamoa
Ao~
um pl'QC8SlIO metonimico.
preocur-doa
parte da
com a interpretac;io
similes. nlio resistimos l interpretac;io proposta por Lopea.lracema.
natureza brasileira. sendo desvirginada
jati. segundo
dos
parte integrante da
por Martlm Afonso (0 branco) reprellenta
a
pr6pria natureza brasileira agredida.
No ·corpus·
comemorativa
de uma matriz oode 0 X
comparado.
extraido de Iracema (estarnas trabathando
com a edic;ao
do centenSrio da obra. editado pelo INL em 1965) teremos a realizac;ao
e 0 termo
comparado (0 lexico portugues).
(0 lexica "tupi"). eo I representaria
0 termo de chegada.
0 Y. termo a ser
A metilfora seria
lida como no exemplo abaixo:
lracema silvou como a boicininga e arrojoucontra
a fUria dos guerreiros"
Na matriz, encaixarernos 0 exemplo. asaim:
X •• 0 grito de Iracema (0 silvo)
Y •• a boicininga (00 tupi mboy-cyninga.
1
=
a cobra caseavel. chocalhante)
0 bote de lracema
o exemplo
noa mostra 0 "lingimento" de AIencar. A ac;ao de Iracema estli
sendo comparada (seu bote) ao de uma cobra. que se apresenta lexicallzada em • tupi".
Aqui aparece 0 tom de primitividade.
mergulha
no texto acreditando
de cor natural. 0 leitor aceita este fingimento e
se tratar de uma tala nativa. Arrolemos
mais alguns
exemplos:
·Assim como anaje cat das nuvens. assim cat 0 brac;o do guerreiro sobre
o Inimigo· (p. 179)
Anaie: 0 gaviao
·Assim como a ass do majoi romps os ares. 0 pll veloz do guerreiro nao
tem igual na corrida· (p. 180)
Majoi: cerr. mayui ou mbi ui •• a andorinha
"Escuta 0 passo veloz do pove tabajara. Ete vem como tapir. rompendo
a ftoresta· (p. 152).
Tapir. Do tupI tapy'ra •••••
H'
CMOS
em que
0
eIemenIo a sar compIU8do nto pertence ao lexica
"Iupi". No entanID. i8to nlo importalnterlorizada
"Iupi",
0 IeItor
a estrutura do simile como uma
YOZ
IlCeita este "flnglmento" • merguJha na beleza da lmagern, aem questlonar
a ettmoIogia do voc*luIo. Obaervemos alguns exemploa:
"Meu irmio fala como a ri quando anuncia a chuva; mas
0
sa~
1az seu
nInho, nAGsabe •• donnlr' nele" (p. 184)
AI: 00 Iatim rana
"Fuja deles
0
estrangeiro. como
oitib6 da &streta da manhi" (p. 131)
0
0ItIb6 - Eo nome que em algumas provinc:ias
0
povo da ao Csprlmulgus
europeus, conforme se 16no Cat8logo Sistematico e Analitlc:o das Aves de Portugal, de
J.A.Reis JUnior. A proc:ed6nc:iafalsa ao tupi deve-se a Martlus que inseriu
as paginas 444 e 465 dos Glossaria
0
voc:8bulo
Unguarum Brasiliensium, de 1863. 0 s8bIo atemao
foi levado ao arm, porque na primeira edi~o da obra de Gabriel Soares, public:ada em
a
voc:abulo e
1825. e da qual s" utilizava. enc:ontra·se eserito noitibO. nome que os indios davam
aye "':' dizer do cronista luSQ. Em 1879, na edi~o de Varnhagem esse
substituido por oitib6. Como se saba AJenc:arfoi leiter de Martius, dai, possivelmente
0
engano.
"Abre-se a Imensidade dos mares, e a borrasc:a enverga, como
as fosc:as asas sabre
0
0 condor,
abismo" (p. 84)
Condor: avefalc:oniforme, da familia dos c:atartideos. 0 voc:abulo pertence
ao quic:hua, lingua andina.
Conc:lusao
Empregando os similes, AIenc:arobt8m, a prec:lsllo, a expressio justa,
0
tempero "tupi" para a obra indianista. Busc:andointegrar-se no &Spirito de nac:lonalldade
que vlc:ejava no BraSIl, 0 Iivro traz nio 86 peIa terl\Mlc:a, IYlJS 1amb8m peio opulento
l8xic:o, a tintura nac:ionallsta que a 8poc:a pedia.
Como tentarnos mostrar.
"achado", para poder incorporar
0
0
autor de Irac:ema encontrou no simile,
18xlc:o"\upi". Os nativos nao
doc:umentos nao no-Io mencionam. Entretanto.
vestimerna, a 9&rac:teriza~
para
0
0
0
que importa? 0 importante era dar a
mito nacional. A linguagern foi a abertura
a fala da
e metaf6ric:a, conotativa.
aJenc:ariana.0 Iexlc:o. 0 velculo nec:essarlo. 0 simile, a fim de dar poetic:idade
personagern, surgia como
0
0
conhec:iam. Os
rec:urso. A frase comparativa
Ora, tudo iato preenchia 0 ideal do romantismo. E. assim, per meiO deste
jogo parafrUtico.
A1encar p&fer88llzar
0 ideal ind ••••
lltMIielro: criat_lIngu8gem.
o her61 nacional.
NOTAS
1 • A nossa preocupa~o
nio
tol estudar a chamada
lingua tupi.- 0
objetivo tol mostraro use do simile par Alencar. SaDemos que 0 Tupl niore.P"eaenta
troncos Iingiiisticos
indigenas
os
brasileiros e, per ••••• razio. 0 uS8/'!'lOs sempre entre
aspas.
2 - A este tipo de exemplo, Dubois chama de compara~o
metal6gica.
(Dubois. 1974. p. 160)
AIROSA. Plinio. Estudos tuojnol6aicos.
Sao Paulo. Instituto de Estudos Brasileiros,
USP.1967.
BARBOSA, Pe. A. Lemos. Curse de tupi anljgo. Rio, Siio Jose,
BECHARA, Evanildo. M$na
sid.
Qram8tica DOrtuauesa. Siio Paulo. 1968.
CAMARA JUNIOR, Joaquim Mattoso. Introducio
as Ilnguas
brasileiras.
Rio. Acade-
mica, 1967.
COUTINHO. Afrinio
(org.) A Iiteratura no Brasil. Vol II. Rio, Sui Americana S.A., 1968.
DUBOIS, Jean et alii.- Ret6rica geral. Tradwyao de Carlos Felipe Moises e outros. Sao
Paulo, Cultrix, 1974.
GARCIA, Othon M. Corounicacag em pross modema. Rio. FGV, 1968.
PROEN<;A, M. Cavalcanti. Estudos Iiterarios. Rio, J. Olympio, Brasilia, INl, 1974 ~
de Alencar na literatura brasileira. RiO, Civiliza~
Brasileira, 1966.
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EVANDRO SILVA MARTINS