Perspectiva Sociológica ................................................................................... ISSN 1983-0076
TENDÊNCIAS PEDAGÓGICAS E MÍDIA:
REFLEXÕES SOBRE SEUS PRINCÍPIOS E RELAÇÕES
Ivan Paladino •
Leila Coutinho Magnani Carneiro •
Marcos Antonio Magnani Carneiro •
Resumo
Neste texto, busca-se delinear a interação da mídia com o papel formador da educação e as questões
emergentes desta relação, bem como fazer um esboço das influências da mídia na construção do comportamento
social do indivíduo. Igualmente, busca-se investigar as tendências pedagógicas que buscam dar sustentação a
esta mídia como parceira no processo de socialização consciente do educando.
Palavras-Chaves
Tendências Pedagógicas, Mídia.
1. Desenvolvimento
Entende-se por mídia os meios de comunicação de massa: o rádio, a televisão, o
jornal, a internet, as revistas, os out doors, enfim, todas as formas de veiculação das
informações. Para Hall (2001), “as velhas identidades, que por tanto tempo estabilizaram o
mundo social, estão em declínio, fazendo surgir novas identidades” (p.7). Com efeito, as
informações, as mensagens divulgadas pela mídia são formadoras de cultura, e essa nova
cultura é capaz de forjar identidades.
Não se pode negar que a mídia é hoje a maneira mais abrangente e mais eficiente de se
difundir cultura, política e também de se moldar personalidades. A mídia é capaz de formar e
transformar sociedades. Como uma das vertentes da estrutura social, a educação também se vê
assediada pela mídia transformadora de comportamentos sociais. As pressões externas, os
•
Mestre em Ciências Pedagógicas pelo ISEP – Instituto Superior de Estudos Pedagógicos. Professor de
Geografia do Colégio Pedro II e Escolas Privadas.
•
Mestre em Ciências Pedagógicas pelo ISEP – Instituto Superior de Estudos Pedagógicos. Professora de
Química do Colégio Militar do Rio de Janeiro e Escolas Privadas.
•
Mestre em Ciências Pedagógicas pelo ISEP – Instituto Superior de Estudos Pedagógicos. Professor de Biologia
do Colégio Pedro II e Escolas Privadas.
Ano 2, nº 3, mai.-out./2009
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padrões econômicos e sociais impostos pela globalização, entre outros fatores trazidos pela
mídia, redefinem o papel da educação. As situações vivenciadas nesse mundo globalizado
exigem que os valores inseridos na educação tradicional sejam substituídos por valores mais
críticos, voltados para uma sociedade exposta a todo o tipo de informação veiculada pela
mídia, uma sociedade mais reflexiva, conhecedora do seu potencial. Silva (1988), sobre a
educação tradicional, afirma que a mesma:
“...valoriza uma relação educação-sociedade de caráter conservador, já que a
educação não é fator determinador de mudanças ao nível social, mas atua no
sentido de transmitir valores e conhecimentos indispensáveis à manutenção de
estrutura e funcionamento de uma determinada sociedade.” (p. 89)
O momento atual impõe a substituição dessa educação centralizadora por uma
educação mais reflexiva, na medida em que aprender não é copiar a realidade. Aprender
significa compreender, assimilar novas práticas; implica em novas metodologias, novos
valores intrínsecos a um mundo globalizado.
Nas sociedades tradicionais, a identidade era fixa, sólida e estável. Os atores tinham
seus papéis bem definidos. Com o advento da mídia, os valores decorrentes da globalização
impactaram a identidade cultural. A moda passou a ser uniforme, a música deixou de ser
regional. A própria língua foi-se tornando híbrida, adquirindo caracteres não-nacionais. Hall
(2001) enfatiza que “as transformações associadas à modernidade libertaram o indivíduo de
seus apoios estáveis nas tradições e nas estruturas” (p. 25). É nesse contexto que o papel dos
educadores sofre um redimensionamento. O mundo em que vivemos exige que os valores
fundamentados na educação tradicional, calcados no saber do mestre, sejam repensados.
A partir da década de 60, a influência da mídia se tornou mais evidenciada com as
mensagens veiculadas pela TV, alterando os hábitos. Companheira, no sentido literal da
palavra, a telinha impôs sua presença a ponto de, muitos de nós, sentirmos falta de sua
presença e só conseguirmos dormir embalados pelo seu som. A de se supor que as mudanças
de comportamento trazidas por essa modalidade da mídia são muitas vezes perniciosas, pois
acabam por reduzir o pensamento humano.
Negar a ação da mídia nos processos sociais seria descompromisso com a realidade.
As influências das mensagens transmitidas pela mídia na construção da personalidade da
criança e do adolescente são verificáveis pela observação da maneira como se vestem e agem
ou dos brinquedos com os quais se entretêm as crianças, são sempre os mesmos: comem
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hambúrgueres seguindo o american way of life, compram roupas de grife e se divertem com
jogos eletrônicos. Difícil é saber até onde essas mensagens podem interferir na construção do
saber. Se pensarmos que a própria família abaliza as atitudes dos filhos, comprando
“sandalinhas X” para as meninas e “tênis Y” para os meninos ou ainda comprando para a casa
um eletrodoméstico “Nonono”, sem verificar se é mais econômico energeticamente falando,
mas porque está todos os dias nos comerciais da TV. Cabe aqui repensar o
poder de
influência da mídia na capacidade crítica do indivíduo.
Um dos pontos polêmicos da relação ente a mídia e a educação é a formação de
identidades. Steinberg (apud SILVA, 1997) sinaliza que analisar o analfabetismo na mídia, ou
seja, o desenvolvimento de habilidades trazidas pela mídia, passa a ser uma habilidade básica
para negociar a identidade. A cultura imposta pela mídia seria, assim, capaz de fragmentar
nossas identidades e transformar nossa cultura numa só, multifacetada, porém global.
Uma pedagogia que se preocupa com o desenvolvimento do cidadão tem que se
preocupar com os efeitos que os meios de comunicação provocam no seu dia-a-dia. A
educação tradicional não cabe neste contexto. Se a cultura não é mais sistematizada, se o meio
exterior é capaz de interferir no processo de conhecimento, o professor não pode mais
continuar com uma imagem pré-estabelecida. Afirma Fischmann (2000) que essa abordagem
é insuficiente porque:
“Embora vivamos a época, por excelência, da imagem soberana, tanto ao vivo, nas
vaidades de cada dia, quanto “via satélite”, nos Narciso criados e/ou alimentados pela
mídia , é patente a diferença entre ser e parecer” (p.94).
As possibilidades pedagógicas que se apresentam nas imagens, nos sons eletrônicos e
nos out doors são infinitas. A pedagogia deve desenvolver estratégias para que o estudante
faça a leitura correta desses símbolos em termos de ética ou valores de uma sociedade, já que
esses mecanismos podem também estar relacionados à determinada linha de doutrinação de
certos grupos de interesse, que queiram se impor na sociedade a ser dominada. Se nos
apropriarmos do conhecimento de como os recursos usados pela mídia são utilizados para
atingir o indivíduo, seremos capazes de assumir uma postura crítica em relação aos meios de
comunicação de massa.
Quando analisamos a mídia dos anos 60, dentro de uma visão tradicionalista,
verificamos que as mensagens veiculadas eram explícitas, tinham um caráter diretivo, ou seja,
as mensagens tinham a idade, a cor, o sexo e o nível cultural do indivíduo que queriam
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atingir. Hoje, dentro de uma tendência mais crítica, em que o indivíduo questiona o
desenvolvimento do conhecimento, verificamos que a mídia se preocupa mais com o
processo. Essa diferença de visão de mundo direciona a mídia.
Sabemos que as mensagens divulgadas pela mídia não são ocasionais ou inocentes.
Elas são cuidadosamente planejadas, articuladas para atingir um determinado tipo de público.
Elas são capazes de vender um produto, seja ele material ou ideológico. Por exemplo, em
períodos que antecedem as eleições, somos seduzidos no campo ideológico por políticos. Para
nos seduzirem, eles fazem propagandas eleitorais bem elaboradas; cuidam da aparência e se
preocupam com o discurso. A de se entender que a sociedade de hoje encontra-se está mais
crítica, mais reflexiva.
Muito pertinente é a fala de Freire e Shor (1987), quando dizem que a “educação que
provoca criticamente a consciência do estudante necessariamente trabalha contra alguns
mitos, que nos deformam” (p. 26). É nesse contexto que a educação crítica se faz necessária:
urge racionalizar cada discurso para não sermos robotizados.
Fischmann (2000) enfatiza que o indivíduo deve aprender a adquirir informações
necessárias à construção do seu saber e que, criticamente, assimile o que lhe for essencial ou
interessante. Seguindo esta linha de raciocínio, a teoria crítica da educação conduz a um
posicionamento capaz de orientar o ser no sentido de favorecer e formar conhecimento e
estabelecer relações do “eu”’ coletivo com o “eu” individual.
McLaren (1997) sinaliza que “os educadores críticos argumentam que nós temos
responsabilidades não somente pela maneira com a qual agimos individualmente ou
socialmente, mas também pelo sistema no qual participamos .” (p.196)
Reforçando esse argumento, Giroux (apud McLAREN, 1997) sinaliza que o currículo
reflete os interesses dos que o rodeiam. É incontestável que conceitos pré-estabelecidos não
interessam a nossos estudantes. Para aprender, eles precisam de contexto e é isso que a mídia
oferece. Diante deste quadro, eles se deixam seduzir pela mídia, já que, através dela, os
conhecimentos são oferecidos de uma forma transdisciplinar.
Há que se refletir sobre uma metodologia que faça uso da mídia e dela tire proveito.
Fugir do convencional, do pré-estabelecido, para atingir um grau maior de comunicação, é o
caminho da educação. Com muita propriedade, Anísio Teixeira (2000) argumenta que “o
homem moderno sabe que pode mudar as coisas e que deve mudá-las” (p. 31). Se o indivíduo
está inserido num mundo em transformação, se as informações caminham com a velocidade
da luz ou do som, a educação tem que se transformar para atender às demandas desse mundo.
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2. Considerações Finais
A mídia armazena um imenso volume de informações e as transportam em grandes
velocidades, em curto espaço de tempo e em diferentes formatos. Para a comunidade
científica, é uma ferramenta rápida e eficiente para troca de informações e, para a educação, a
mais abrangente e complexa rede de aprendizado do mundo.
A mídia como um canal de construção de conhecimento pedagógico é um desafio para
os educadores no século XXI, apresentando uma concepção socializadora da informação.
Porém, as escolas estão caminhando de uma forma muito lenta quando comparadas a outros
setores sociais. Administradores, educadores, diretores e pais estão preocupados e debatendo
sobre como a mídia está adentrando na vida cotidiana dos alunos, seja por meio pedagógico,
ético ou pornográfico.
É necessário aumentar a instrumentalização das escolas, bem como a atualização e a
preparação dos educadores frente à nova era da telemática (conjunto de tecnologias de
transmissão de dados resultante da junção entre os recursos das telecomunicações e da
informática). Só assim será possível alertar sobre mídias não confiáveis, além de relacionar e
aumentar os conceitos, aprendidos em aulas convencionais.
A mídia pode, contribuindo com o processo educacional, manifestar e confrontar
idéias, opiniões e pensamentos, fazendo a sala de aula não ficar mais confinada a quatro
paredes. O estudante, peça central deste processo e um dos alvos da mídia, tem importância
capital no cenário da escola, da sociedade e no próprio uso das tecnologias, em face de seu
papel de cidadão. Assim, é necessário desenvolverem-se esforços para que a influência da
mídia e as informações passadas na escola não sejam conflitantes, mas que se somem no seu
processo formativo socializante. O princípio pedagógico que nos norteia é a decodificação da
mídia para incorporá-la à educação. Aprender num mundo em constante mutação implica em
assimilar conhecimentos e ser capaz de transformá-los em trampolim para novas
aprendizagens.
Referências Bibliográficas
FREIRE, Paulo; SHOR, Ira. Quais os temores e os riscos da transformação? In: Medo e
ousadia – o cotidiano do professor. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.
FISCHMANN, Roseli. Identidade, identidades – indivíduo, escola: passividade, ruptura,
construção. In: Multiculturalismo: mil e uma faces da escola. Rio de Janeiro: DP&A, 2000.
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HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A, 2001.
MCLAREN, Peter. O surgimento da pedagogia crítica. In: A vida nas escolas. Porto Alegre:
Artes Médicas, 1977.
SILVA, Sônia. A escola tradicional e suas bases axiológicas. In: Valores em educação.
Petrópolis: Vozes, 1988.
STEINBERG, Shirley R. Kindercultura: a construção da infância pelas grandes corporações.
In: SILVA, Luiz Heron, AZEVEDO, José e SANTOS, Edmilson (org). Identidade social e a
construção do conhecimento. Porto Alegre: SME, 1997.
TEIXEIRA, Anísio. Pequena introdução à filosofia da educação: a escola progressiva ou a
transformação da escola. Rio de Janeiro: DP&A, 2000.
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