As condições de possibilidade da clínica psicanalítica e os princípios do seu poder Rafael Alves Lima Resumo: O saber médico que antecedera a clínica psicanalítica se escorava na associação entre loucura e agitações nervosas; as práticas terapêuticas que lhe são correlatas julgavam que, regulamentando esta agitação por meio da ação sobre o corpo, restaurar-se-ia a harmonia das paixões. Assim se estabeleceria uma concepção de cura regida não por um critério de verdade, mas por uma norma de funcionamento e por um exercício de poder. Se é verdade que o percurso irresoluto da teoria freudiana se sustentou na tensão entre a sua metapsicologia e a recusa a uma redução neuronal dos fatos mentais, também é verdade que a Psicanálise submeteu sua clínica aos seus pressupostos, que, na passagem para a escuta, privilegiam o trabalho sobre a fala e a linguagem. Assumindo continuidades e rupturas em relação aos seus precedentes, o presente trabalho, de cunho teórico, visa mapear os dispositivos constitutivos da clínica psicanalítica a partir de Foucault e Lacan, o que nos conduz a uma nova leitura da categoria de poder no seu interior. “No começo da psicanálise está a transferência” (LACAN, 1968, p. 252). A afirmação de Jacques Lacan em “Proposição de 9 de outubro de 1967” pode servir como um cabeçalho conveniente para apresentar a linha mestra sobre a qual o presente trabalho se debruça. O termo “princípios” da segunda parte do título que faz referência ao texto “A Direção da Cura e os Princípios do seu Poder”, de 1958 (LACAN, 1958), diz aqui respeito tanto à base da ordem de conhecimento expressa em acepções como “preceitos” ou “proposições”, como é capaz de resgatar a idéia de “começo” para atribuir a temporalidade necessária à sustentação de suas formulações historicamente determinadas. Nesses termos, analisar a categoria de poder no interior da clínica psicanalítica exige da composição uma conformidade entre elementos aparentemente distintos. 1 É preciso dizer que um dos primeiros apontamentos de Lacan em relação à categoria de poder na clínica psicanalítica se encontra em “Para além do princípio de realidade”, de 1936 (LACAN, 1936). Dando continuidade ao programa de pesquisa da Tese de 1932 (LACAN, 1932), Lacan dá os primeiros passos em direção a uma teoria do imaginário capaz de sustentar aquilo que Georges Politzer (POLITZER, 1928) denominara de psicologia concreta. Tentando discriminar a confusão herdada da psicologia clássica entre imaginário e ilusório, Lacan confere legitimidade à dimensão imaginária da experiência por, de um lado, costurá-la a um critério vivido de verdade para exercer a crítica ao cientificismo normatizante, e, por outro, para dar contorno àquilo que desde então se firma sob a cara alcunha “experiência analítica”. Se para Politzer o ato interpretativo analisa o drama pessoal por ser capaz de produzir acontecimentos que contemplam o “sujeito todo” (POLITZER, 1928, p. 68), Lacan, por sua vez, carrega para com o filósofo húngaro uma dívida (não manifesta, é verdade) quando avança em direção às operações clínicas do analista. Uma primeira exigência de sistematicidade da releitura crítica do método freudiano que neste texto se apresenta tem em seu horizonte uma aposta no atravessamento que ela pode provocar em sua técnica. Dessa aposta, abre-se a possibilidade de uma descrição “fenomenológica” e de uma decomposição da experiência analítica, condicionada como está desde Freud pela lei da associação livre. O analista, ao se recusar pacientemente a tomar partido da imagem que o analisante dele faz em uma fala que se dirige a alguém, reverte-a justamente por tê-la suscitado e faz incidir o sentido anteriormente obliterado em uma espécie de eixo vertical, já que, com Politzer, é disso que se trata nessa pedra de toque que ele denomina interpretação, assumida por Lacan na qualidade de “elucidação intelectual” (LACAN, 1936, p. 88); vale citar: “é dessa posição que o analista extrai o poder de que irá dispor para sua ação sobre o sujeito” (LACAN, 1936, p. 88, grifos nossos). A interpretação revela assim aquilo que o sujeito ignora, ou seja, a imagem que o explica e sua importância. A técnica, que oscila entre interpretação e transferência, diz respeito à criação das condições de possibilidade de uma “ação” inspirada por uma concepção de cura que pode ser circunscrita na seguinte afirmação: à medida que o sujeito prossegue na experiência e no processo vivido onde se reconstitui a imagem, a conduta deixa de imitar sua sugestão, as lembranças retomam sua densidade 2 real, e o analista vê o fim de seu poder, doravante inutilizado pelo fim dos sintomas e pelo arremate da personalidade (LACAN, 1936, p. 88) Dessa – para os nossos fins – importante citação, destaca-se a composição tríplice entre fim do poder do analista, fim dos sintomas e arremate da personalidade. Ou seja, uma composição que aqui faz referência, conforme já dito, e não seria arriscado dizer, necessariamente a Politzer, mas que, não obstante, exige uma particularização desse poder, de que se pode dispor para a ação sobre um sujeito, que não é exclusividade da crítica politzeriana. Como bem observa Simanke (SIMANKE, 2002), encontra-se uma similitude entre a insuficiência da psicologia clássica apontada por Politzer e o programa de pesquisa inaugurado por Michel Foucault em Doença Mental e Psicologia (FOUCAULT, 1954). Neste texto, questiona-se o caráter explicativo dos fatos mentais no empreendimento freudiano a partir de dois mitos com os quais aquele se depara em sua fronteira, a saber: a noção biopsicológica de libido e a analogia entre o doente mental, a criança e o primitivo. Dediquemo-nos a um comentário sobre o primeiro mito. Quanto a ele, houve um movimento da teorização psicanalítica de rejeição (ainda que não radical) ao evolucionismo “para aceder à dimensão histórica do psiquismo humano” (FOUCAULT, 1954, p. 40). Segundo Foucault, teria sido possível a Freud ultrapassar o horizonte evolucionista, mas não romper com este. É na História da Loucura (FOUCAULT, 1961) que o autor demonstra que o biologicismo dessa noção seria oriundo da sustentação de um saber médico que associava a experiência da loucura às agitações sofridas pelos seus nervos; os meios físicos de ação sobre o corpo que práticas terapêuticas como consolidação, purificação, imersão e regulação do movimento propõem são guiados pela idéia de que, regulamentando esta agitação nervosa, restaurar-se-ia, assim, a harmonia das paixões. Ou seja: a relação de si para consigo, ou uma certa relação entre o ser e a verdade, desaparecem na era clássica para dar lugar a ações de controle e punição sobre o corpo do louco. Assim, “a cura não se rege mais pela presença do verdadeiro, mas por uma norma de funcionamento” (FOUCAULT, 1961, p. 321): por um exercício de poder. O que aqui está em jogo é, como bem resume Cazeto, “o conceito normativo de ‘possessão de si’, o que 3 significa supor a normalidade como o centramento de um sujeito em si mesmo, da mesma forma que a soberania devia se centrar nas mãos do povo” (CAZETO, 2001, p. 170). Mapeando mais atenciosamente os elementos estratégicos dessas práticas terapêuticas: os métodos de supressão da doença reportavam-se a três figuras: despertar o louco de seu estado delirante, exercer a realização teatral para operar no plano imaginário do delírio e promover o retorno ao imediato por meio do trabalho como universo por excelência da “sabedoria” e do “comedimento” (FOUCAULT, 1961, p. 327-336). Ou seja, verifica-se na era clássica uma terapêutica atrelada a uma concepção de imaginário que em larga medida se confunde com idéias como “erro”, “delírio”, “ilusão” e “irrealidade”. É exatamente nessa avaliação que a experiência intelectual do jovem Lacan antecede à de Foucault na problemática do poder na clínica. Se é verdade que “uma coisa é certa: Foucault conhecia o nome de Lacan desde 1952, lia-o e citava-o” (ERIBON, 1991, p. 97), pode-se tentar entender porque a partir de 1961 “Lacan mostrou-se muito favorável ao antipsicologismo de Foucault (...) [e] saudou a publicação da História da Loucura como um acontecimento maior”. (ROUDINESCO, 1994, p. 301). A nossa hipótese é a de que a Crítica dos Fundamentos da Psicologia vai lhe fornecer a base de sustentação de uma “primeira teoria do imaginário” capaz de descrever a experiência analítica como uma experiência estritamente de fala e de linguagem. Linguagem que nesse momento quer dizer ainda apenas “signo”, “uma unidade relativamente estável, composta de um símbolo e uma idéia” (SIMANKE, 2002, p. 203), mas que já traz em seu bojo – em uma afirmação como “a linguagem, antes de significar alguma coisa, significa para alguém” – os ingredientes que encaminharão as exigências de sistematicidade de uma formulação vigorosa no final dos anos 40 e no começo dos anos 50 de um registro simbólico, sob o impacto da tese estruturalista. Não cabe aqui reconstituir este caminho passo a passo 1; é nossa tarefa ao menos indicar que a progressiva decantação de um registro simbólico acarretará na postulação de uma dimensão imaginária calcada nos processos de alienação do sujeito, em algo que é da ordem do desconhecimento (méconnaissance) e daquilo que Freud denominara “falsa ligação” (mésalliance) (FREUD, 1895). A partilha ou o laço imaginário, assim, estaria aquém da natureza linguageira da transferência propriamente dita, ou seja, desalinhado do exercício do médico enquanto “um clínico por excelência da vida íntima” 1 Cf., a este respeito, por exemplo, MULLER, J. P.; RICHARDSON, N. J. Lacan and Language: a reader’s guide to Écrits. New York: International University Press, 1996. 4 (LACAN, 1936, p. 84) que tem por finalidade “resolver uma ilusão” (LACAN, 1936, p. 89). Inevitável, portanto, reconhecer os ecos que esses dois últimos excertos terão nos escritos posteriores de Lacan. Será ainda em momentos posteriores que Lacan poderá decididamente se afastar de uma teoria organicista da loucura e empreender sua crítica a ela. Tanto o funcionalismo de Jackson quanto a tentativa de resolução de seus problemas no organo-dinamicismo do colega “dos tempos da psiquiatria” Henry Ey esbarram no “problema dos limites da neurologia e da psiquiatria – que por certo não teria maior importância do que em relação a qualquer outra especialidade médica, se não comprometesse a originalidade própria do objeto de nossa experiência”. É em defesa da anunciada “experiência analítica” que Lacan poderá recusar o modelo neuro-biológico da determinação do fatos mentais em benefício daquilo que ele chama “idéia verdadeira” (LACAN, 1946, p. 154). O apelo à concepção de verdade será decisivo para que Lacan categoricamente mantenha uma respeitável distância da psiquiatria que o formou. Respeito que faz justiça a Clerambault, seu “único mestre em psiquiatria”2 (LACAN, 1966, p. 229), é preciso dizer, menos pela sua teoria do automatismo mental do que pela sua obstinação clínica. Se por um lado, como bem afirma Simanke, a “destituição do organicismo como explicação psicopatológica (...) restaura a soberania da clínica como espaço e método para a produção do conhecimento” (SIMANKE, 2002, p. 225), por outro, escolhe-se aqui o termo “obstinação” para resgatar a referência à “preocupação de curar” admitida, segundo Lacan, por Freud em sua autobiografia3. A nossa hipótese é que isso que aqui se esboça como “preocupação de curar” terá destino categórico para a análise da dinâmica de poder no interior dos dispositivos clínicos da psicanálise. Foucault pôde definir a centralização historicamente determinada da relação médico-paciente. A psicanálise é oriunda dessa centralização na medida em que surge da crise provocada pela histeria, que forma uma “frente de resistência a esse gradiente demencial que o duplo jogo de poder psiquiátrico e da disciplina asilar implicava” 2 É falando de Clerambault e de “seu ser do olhar” (LACAN, 1966, p. 70) que Lacan fará uma das duas referências nos Escritos a O Nascimento da Clínica de Foucault. A outra referência está no início de “Variantes do tratamento-padrão” (LACAN, 1955, p. 326). 3 Cf. FREUD, S. (1925) Um Estudo Autobiográfico. In: Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996; Vol XX. 5 (FOUCAULT, 1973-1974, p. 324); logo, Charcot é responsável pela retirada da histeria do domínio psiquiátrico, movimento que é caracterizado sob o nome de “despsiquiatrização”. A despsiquiatrização promovida por Freud tenta tornar adequados produção de verdade e poder médico na noção mesma de transferência: Freud fez deslizar na direção do médico todas as estruturas que Pinel e Tuke haviam organizado no internamento. Ele de fato libertou o doente dessa existência asilar na qual o tinham alienado seus “libertadores”. Mas não o libertou daquilo que havia de essencial nessa existência; agrupou os poderes dela, ampliou-os ao máximo, ligando-os nas mãos do médico. Criou a situação psicanalítica, onde, por um curto circuito genial, a alienação torna-se desalienante, porque, no médico, ela se torna sujeito. O médico, enquanto figura alienante, continua a ser a chave da psicanálise. (FOUCAULT, 1961, p. 503) De fato, uma leitura de Freud confirmaria a hipótese de Foucault. Outra longa citação, de Tratamento Psíquico, Tratamento da Alma, de 1890: A expectativa confiante com que ele [o paciente] vai ao encontro da influência direta de uma providência médica depende, de um lado, da extensão de sua própria ânsia de cura, e, de outro, de sua confiança em ter dado o passo certo para isso, ou seja, de seu respeito pela arte médica em geral; depende ainda do poder que ele atribui à pessoa do médico, e até mesmo da simpatia puramente humana que este desperta nele. (...) Assim, tanto naquela época [Antiguidade] quanto hoje, a pessoa do médico era uma das condições principais para promover no doente o estado psíquico propício a cura. (FREUD, 1890, p. 279) Contudo, o que escapou a Foucault foi exatamente que a “figura do médico”, “chave da psicanálise”, dirige a cura analítica por não permanecer em sua condição “alienante”. Este Freud ao qual fizemos referência – vale lembrar, anterior mesmo à própria Interpretação dos Sonhos que data de 1900 – esboçaria aqui um certo médico, que, dadas as condições socialmente compartilhadas de “respeito pela arte médica em geral”, vincula-se por meio de uma “confiança” necessária ao estabelecimento daquilo que somente em 1905 receberá o nome de transferência (Übertragung). Se, como vimos, em Psicoterapia da Histeria “a transferência para o médico se dá por meio de uma falsa 6 ligação” (FREUD, 1905, p. 313), Lacan já havia indicado tal falsa ligação no registro imaginário. Pode-se dizer que o “pivô da transferência” que Lacan chamará de sujeito suposto saber, ao passo que deve ser dissolvido e cair, não deve ser confundido com o “pivô da cura”, a saber, o desejo do analista. Ou seja, Lacan conferirá uma ordem ética à sua concepção de transferência, como bem afirma Serge Cottet, em “não suturar o conflito psíquico com um acosso interpretativo que não passaria de uma variante da sugestão ou do adestramento educativo” (COTTET, 1989, p. 124). Todos os apelos até aqui destacados – da recorrência primeira à Crítica dos Fundamentos da Psicologia de Geroges Politzer para diferenciar imaginário de ilusório, da crítica aos seus colegas psiquiatras devido ao comprometimento de suas concepções de funcionamento mental com um modelo organicista, do recurso a uma concepção de verdade, que será verdade do desejo, capaz de fazer jus a uma legítima “experiência analítica” – estariam a serviço de uma nova leitura da categoria de poder no interior da especificidade da clínica psicanalítica que se orienta a uma recusa ao exercício de um poder. Texto privilegiado nesse sentido é “A Direção do tratamento e os princípios do seu poder”, de 19584. Categoricamente afirma-se que o primeiro princípio do tratamento psicanalítico é o de que o psicanalista dirige o tratamento, mas não o paciente, recusando assim toda e qualquer prática de direção de consciência tal como ela aparece na ascese cristã da Idade Média (LACAN, 1958, p. 592). A mésalliance anunciada por Freud em Psicoterapia da Histeria imputa ao analista ser algo ou alguém (precisamente, uma imagem) que lhe está alhures. A redução da análise “a uma sugestão grosseira” (LACAN, 1958, p. 597) é evitada quando a fala do analista é ouvida enquanto proveniente do Outro da transferência, ou por uma fórmula simples, na medida em que não lhe escapa interpretar o efeito de sua interpretação. A doutrina do significante é evocada para ressaltar que “a localização da verdade analítica aparece em filigrana” (LACAN, 1958, p. 599); Lacan afirmará: Nada é mais temível do que dizer algo que possa ser verdadeiro. Pois logo se transformaria nisso, se o fosse, e Deus sabe o que acontece quando alguma coisa, por ser 4 Vale dizer que a edição brasileira adota “tratamento” para traduzir cure em francês; ou seja, uma tradução fidedigna seria “A Direção da Cura e os Princípios do seu Poder”. 7 verdadeira, já não pode recair na dúvida. Será esse o procedimento da análise, um progresso da verdade? (LACAN, 1958, p. 622) O que está sendo problematizado nesta pergunta provocativa é a obturação que a interpretação demasiadamente correta provoca no campo de acesso à verdade do desejo. É somente partindo do pressuposto da expressão do desejo na superfície que se pode constatar, ao nível do significante, aquilo que a interpretação produz de novo: para confirmar a pertinência de uma interpretação, o que importa não é a convicção que ela acarreta, já que melhor se reconhecerá seu critério no material que vier a surgir depois. (LACAN, 1958, p. 601) O exercício do poder nada mais seria, portanto, do que o impasse na assimilação do cerne da experiência analítica enquanto tal, do problema em captar sua ação em sua autenticidade. Sobre o jogo de poder que é próprio à análise, Lacan retoma também as “metáforas guerreiras” estratégia, tática e política, modelo formulado pelo general e teórico militar prussiano Carl Von Clausewitz. Predileção também exercida na analítica do poder foucaultiana5, em detrimento do modelo de linguagem do direito. Lacan dirá que: o analista é menos livre em sua estratégia do que em sua tática.(...) O analista é ainda menos livre naquilo que domina a estratégia e a tática, ou seja, em sua política, onde ele faria melhor situando-se em sua falta-a-ser do que em seu ser. (LACAN, 1958, p. 596) Tal importação permitirá aprimorar aquela concepção vista em “Para além do princípio do prazer” referente às operações do analista, que oscilam entre transferência e interpretação, agora em, respectivamente, manobras estratégicas e posições táticas. Ou seja, uma leitura das relações de poder na clínica psicanalítica que necessariamente não se adequa a, por exemplo, o exercício do poder soberano. Sua justificativa pode ser encontrada em outra comparação: com um jogo de cartas. Lacan afirma que o lugar do analista é o lugar do “morto”, ou, pela assunção da Dialética do Senhor e do Escravo de Hegel, o 5 Cf. a antepenúltima resposta dada por Foucault a Bernard Henri-Lévi em FOUCAULT, M. (1977) Não ao sexo-rei. In.: Microfísica do Poder. 23 ed. Rio de Janeiro: Graal, 2007, p. 241. 8 lugar do Escravo. É deste lugar que o analista paga o tratamento, com palavras, com a sua pessoa e com o seu juízo mais íntimo. “Pagamento”, que havia sido uma noção cara à leitura que Foucault faz da psicanálise em O Poder Psiquiátrico, será tardiamente reconhecida por ele na figura do “libertador da psicanálise” (FOUCAULT, 1981) Lacan, na Hermenêutica do Sujeito (FOUCAULT, 1982): creio que Lacan foi o único depois de Freud a querer recentralizar a questão da psicanálise precisamente nesta questão das relações entre sujeito e verdade. (...) Em termos do próprio saber analítico, ele tentou colocar a questão do preço que o sujeito tem a pagar para dizer o verdadeiro e a questão do efeito que tem sobre o sujeito o fato de que ele disse, de que pode dizer e disse, a verdade sobre si próprio.(FOUCAULT, 1982, p. 40) Pode-se verificar que tal reconhecimento se inscreve justamente na relação entre sujeito e verdade no ato da fala, que aqui foi sugerido que esteve talvez desde “Para além do princípio do prazer” nas exigências de formulação teóricas de Lacan, que, em larga medida assim como Foucault, esteve advertido de “como a impotência em sustentar autenticamente uma práxis reduz-se, como é comum na história dos homens, ao exercício de um poder” (LACAN, 1958, p. 592, grifos nossos) 9 Referências bibliográficas: CAZETO, S. J. A constituição do inconsciente em práticas clínicas na França do século XIX. São Paulo: Escuta/Fapesp, 2001. COTTET, S. Freud e o Desejo do Psicanalista. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1989. ERIBON, D. 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