TIPOS DE DISCURSO E DE SEQUÊNCIAS NO GÊNERO NARRATIVA AUTOBIOGRÁFICA DIGITAL Juliana Schinemann (Curso Letras-Inglês/UNICENTRO), Terezinha Marcondes Diniz Biazi (/UNICENTRO/GP) e-mail: [email protected] Resumo: Este estudo busca analisar, sob o escopo do modelo interacionista sociodiscursivo (ISD) de análise de textos proposto por Bronckart (1999), as escolhas de tipos de discurso e de sequências textuais presentes em um exemplar de texto do gênero narrativa autobiográfica digital. Nossa pesquisa desenvolveu-se a partir da análise de uma narrativa digital, de dois minutos e doze segundos, alojada no popular site Youtube.com, no canal do Centro para Narrativas Digitais, sediado na Califórnia. A narrativa foi produzida por Lindsay Fisher, nomeadamente First Impression, por meio da qual a enunciadora, compartilha sua experiência pessoal em relação a suas imperfeições faciais e a impressão que este as outras pessoas. Pela análise efetuada, observamos que a narrativa apresenta marcas do discurso interativo e relato interativo e identificamos os tipos de sequências, descritiva e scripts. Busca-se, a partir de nossa análise, entender como as escolhas linguísticas se articulam para a construção do ponto de vista da enunciadora e, também, validar a utilização educativa da narrativa digital no domínio do ensino/aprendizagem de Língua Estrangeira, Inglês. Palavras-chaves: narrativa autobiográfica digital; tipos de discurso; tipos de sequências textuais; aulas de Inglês. Introdução O presente trabalho tem como objetivo analisar um exemplar de texto do gênero digital, nomeadamente, narrativa autobiográfica digital, considerando que com o advento da Rede Mundial de Computadores, World Wide Web (1989), as pessoas, acentuadamente, participam das redes cibernéticas não apenas como meras receptoras, mas também como produtoras de mensagem, o que tem resultado em um crescente tipo de mídia feita para e pela comunidade em geral. Essa crescente produção digital dos internautas, mais do que nunca, constitui-se de diferentes textos eletrônicos, entre eles, as narrativas digitais e, que se apresentam como uma diferente forma de produção textual, o que, por sua vez, nos leva a estudar academicamente como essa nova tendência de linguagem cibernética está sendo produzida e oferecida aos leitores. Ressaltamos, também, que a análise do vídeo objetivou validar a utilização educativa da narrativa digital no domínio do ensino/aprendizagem de IV Fórum das Licenciaturas/VI Encontro do PIBID/II Encontro PRODOCÊNCIA – Diálogos entre licenciaturas: demandas da contemporaneidade – UNICENTRO – 2015 – ISSN 2237-1400 Língua Estrangeira, Inglês. Diante desse cenário, pretendemos examinar, especificamente, os tipos de discurso e de sequências textuais presentes na narrativa autobiográfica digital, produzida por Lindsay Fisher, intitulada First Impression, para entender como as escolhas linguísticas se articulam para a construção do ponto de vista da enunciadora. A narrativa autobiográfica digital tem duração de dois minutos e doze segundos e encontra-se alojada no endereço eletrônico: http://www.youtube.com/watch?v=ER_jE51g6II. A investigação foi realizada à luz da teoria do Interacionismo Sociodiscursivo (doravante ISD), a partir do modelo de análise de textos desenvolvido por Bronckart (1999). Materiais e métodos Este trabalho se desenvolveu através de pesquisa qualitativa que ocorreu em duas etapas de investigação. Na primeira etapa, realizou-se investigação no website do Centro para Narrativas Digitais, sediado na Califórnia, para a escolha de uma narrativa digital para estudo. Dentre muitas, nossa opção foi pela narrativa First Impression de Lindsay Fisher, que trata da experiência pessoal de uma mulher em relação a sua aparência física, mais especificamente, em relação a seu rosto e a impressão que este causa a si própria e as outras pessoas. A escolha dessa temática levou em consideração o contexto escolar de alunos do Ensino Médio, já que os jovens, nessa faixa etária, são significativamente influenciados pelos modelos de referência de beleza ditados pela mídia e, portanto, a utilização dessa narrativa digital em sala de aula pode servir para o questionamento do estereotipado padrão de beleza imposto pelos meios de comunicação. Na segunda etapa, analisou-se a atuação dos tipos de discurso e de sequências textuais na narrativa de Lindsay, sob a perspectiva teórica do ISD, centrando-nos no modelo de análise de textos de Bronckart (1999). A narrativa de Lindsay Fisher discute sobre a primeira impressão que as pessoas tem ao vê-la pela primeira vez, bem como do que ela mesma percebe ao olhar-se no espelho. Lindsay coloca que seu objetivo com este vídeo é apresentar-nos sua fisionomia e revela sua curiosidade em saber se o que vemos nos é agradável ou não. Em seguida, revela suas imperfeições faciais e relata sua experiência na infância, quando acreditava que ser “diferente” a aproximava das pessoas, ao contrário da adolescência, quando ela percebeu, IV Fórum das Licenciaturas/VI Encontro do PIBID/II Encontro PRODOCÊNCIA – Diálogos entre licenciaturas: demandas da contemporaneidade – UNICENTRO – 2015 – ISSN 2237-1400 que as pessoas afastavam-se dela. Já adulta, ela demonstra não preocupar-se tanto com a opinião alheia, e afirma que quando está em um dia bom, sente que seu rosto não é apenas uma primeira impressão que os outros possam ter, mas é sua representação, é sua história, sua vida, conforme afirma: “Sou eu”. A jovem finaliza, sugerindo que seu rosto possibilita a nós e a si própria uma forma diferente de ver as coisas. Resultados e Discussão Conforme já exposto, adotamos o modelo de análise de arquitetura textual, postulado pelo ISD de Bronckart (1999), e focalizamos, especificamente, nos tipos de discursos e tipos sequências textuais, que atuam na construção da narrativa de Lindsay. Em nossa análise, encontramos marcas do discurso interativo e relato interativo e identificamos os tipos de sequências, descritiva e scripts. Reiterando, em relação aos tipos de discursos empregados na narrativa, reconhecemos características de discurso interativo e relato interativo. O discurso interativo é predominante, com 21 (vinte e uma) ocorrências de verbos no tempo do presente do indicativo. A ocorrência dessas unidades indica uma conjunção à situação de comunicação na autobiografia, onde os fatos são expostos, apresentados como acessíveis e ancorados no momento dessa realização. Para falar sobre coisas que acontecem em sua vida, Lindsay faz uso do pronome relativo when, como no caso de “When I pull my hair back” e ao longo de seu discurso, recorre ao presente simples para descrever suas características físicas (I have a missing ear), para expressar o que sente ou sabe (The face is the first thing you see). Dessa forma, as marcas do discurso implicado-conjunto são evidenciadas pela enunciadora no texto, conforme ilustramos a seguir: Quadro 01: Ocorrência de unidades verbais que indicam a conjunção à situação de comunicação na autobiografia Verbos no tempo do presente do indicativo 1. 2. 3. 4. 5. 6. 7. This is my face/ I’m here. I’m wondering/ If you like it. My face is asymmetrical/ My nose is crooked/ my eyes are not level. I remember looking in the mirror and putting my index fingers. I pull my hair back/ I have a relatively normal ear/ I have a missing ear. I have a little knob/ I hate it/ I love it/ A boy kisses. I remember feeling lucky. 8. I’m 28/ My face is not just a first impression/ It is me/ My face creates the possibility. IV Fórum das Licenciaturas/VI Encontro do PIBID/II Encontro PRODOCÊNCIA – Diálogos entre licenciaturas: demandas da contemporaneidade – UNICENTRO – 2015 – ISSN 2237-1400 Fonte: autora Além da presença de discurso interativo, há a inserção de alguns segmentos de discurso de relato interativo, em que a enunciadora narra fatos passados de sua vida por meio de tempos verbais no pretérito perfeito e imperfeito, contabilizados em 14 (quatorze) ocorrências. Portanto, podemos afirmar que a enunciação apresenta marcas típicas do narrar implicado, uma vez que indica que o momento de interação no texto está afastado dos acontecimentos da vida da enunciadora, numa operação disjunta à situação de produção da biografia. O passado simples é utilizado sempre que a autora traz suas lembranças à tona, como em “I didn’t know this until a boy friend pointed it out to me”. Listamos no quadro abaixo os segmentos de discurso disjunto-implicado, empregados: Quadro 02: Ocorrência de unidades verbais que indicam a disjunção à situação de comunicação na autobiografia Verbos no tempo do no pretérito perfeito e imperfeito 1. I didn’t know/ a boyfriend pointed. 2. Someone drew/ he was done/ he said/ I was beautiful/ I looked in the mirror/ I was perfect. 3. I was a child/ believed/brought people closer to me. 4. I was a teenager/ believed/drove people away. Fonte: autora Já em relação aos tipos de sequências na autobiografia de Lindsay, distinguimos a sequência descritiva e os scripts. A sequência descritiva é constitutiva do gênero autobiografia, pois é partir dela que Lindsay consegue descrever-se física e emocionalmente ao seu receptor. Sua descrição é estruturada da seguinte forma: Logo, no início de sua fala, Lindsay destaca seu tema central, “The face is the first thing you see when meeting someone. It is called first impression”. Em seguida, vários aspectos de seu tema são enumerados e decompostos em partes, buscando descrever partes de sua face,para fortalecer e completar seu tema central “my nose; my eyes; my right ear; my left ear; my curled up skin” para guiar a atenção do receptor. Num último momento, os elementos descritos por ela são incorporados a outras informações colaterais, “when I was a child; when I was a teenager; I’m 28 now”, para guiar a atenção, olhar e percepção do receptor para a possibilidade de aprender a ver seu rosto além de uma primeira impressão formada logicamente num primeiro momento a partir de sua aparência física e, finaliza, manifestando sua opinião de que há a possibilidade tanto para ela quanto para seu receptor de poder desconstruir uma concepção pré-concebida e abrir-se para ver e conhecer a IV Fórum das Licenciaturas/VI Encontro do PIBID/II Encontro PRODOCÊNCIA – Diálogos entre licenciaturas: demandas da contemporaneidade – UNICENTRO – 2015 – ISSN 2237-1400 diversidade individual e humana, enfim. Por sua vez, o script busca organizar o conteúdo temático, seguindo uma ordem cronológica dos acontecimentos narrados. Identificamos uma sequência nos acontecimentos constitutivos na autobiografia de Lindsay por meio de marcas linguísticas temporais como, that night, entre outros, que são características do gênero autobiografia, nos segmentos que ora apresentamos: “When a boy kisses it, I can feel it through my entire body.I didn’t know this until a boyfriend pointed it out to me. Once, someone drew a picture of me and when he was done, he said I was beautiful. That night when I looked in the mirror, I was perfect.” Conclusões Buscamos com essa análise, entender como a narrativa digital de Lindsay foi construída com base nos tipos de discurso e tipos de sequências textuais e, também, validar a utilização educativa da narrativa digital no domínio do ensino/aprendizagem de Língua Estrangeira, Inglês. Referências BRONCKART, Jean-Paul. Atividade de Linguagem, textos e discursos. Anna Rachel Machado; Pericles Cunha (Trad.). São Paulo: Educ. 1999. FISHER, Lindsay. First impression. Disponível em: http://www.youtube.com/watch? v=ER_jE51g6II. Acesso em: 23 jul. 2014. IV Fórum das Licenciaturas/VI Encontro do PIBID/II Encontro PRODOCÊNCIA – Diálogos entre licenciaturas: demandas da contemporaneidade – UNICENTRO – 2015 – ISSN 2237-1400