XXXII ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUCAO
Desenvolvimento Sustentável e Responsabilidade Social: As Contribuições da Engenharia de Produção
Bento Gonçalves, RS, Brasil, 15 a 18 de outubro de 2012.
REFLEXÕES SOBRE A ESTRATÉGIA DE
NEGÓCIO PARA A BASE DA PIRÂMIDE:
UM DEBATE ACADÊMICO
Henrique Simonetti (UFRGS)
[email protected]
Monique Sonego (UFRGS)
[email protected]
Istefani Carisio de Paula (UFRGS)
[email protected]
Em 2004 CK Prahalad, doutor em Administração em Harvard e
renomado escritor de livros sobre gestão e inovação, lançou um livro
chamado “Riqueza para a Base da Pirâmide: como erradicar a
pobreza com o lucro”. Neste livro, Prahalad apresenta uma estratégia
empresarial para populações de baixa renda, defendendo que o futuro
dos negócios está nas classes menos favorecidas. Desde 2004, outros
trabalhos a respeito desta estratégia foram publicados. Muitos deles
avançam com as idéias introduzidas por Prahalad, e outros atacam
sua estratégia indagando qual o benefício real que os pobres tiram
deste modelo de negócios. O presente artigo baseia-se em um trabalho
desenvolvido na disciplina de Tópicos Especiais em Desenvolvimento
de Produto, do programa de Pós Graduação em Engenharia de
Produção da Universidade Federal do Rio Grande do Sul no segundo
semestre de 2011. Aos alunos foi apresentada a estratégia de
Prahalad, assim como disponibilizados artigos que propiciam o
conhecimento de outras abordagens a respeito do tema design para a
base da pirâmide, com o intuito de gerar um grupo focado para
discussão do tema, comandando por um mediador. O trabalho se
estrutura da seguinte forma: seção 1 traz introdução do tema e método
para a geração do material apresentado neste artigo; seção 2 traz uma
breve apresentação dos textos trabalhados para a geração da
discussão; seção 3 apresenta a compilação dos resultados provenientes
da discussão gerada em sala de aula; e seção 4 apresenta conclusão e
diretrizes para o desenvolvimento de trabalhos futuros, baseados em
questões abordadas na discussão.
Palavras-chaves: Base da pirâmide, estratégia de negócios
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1. Introdução e método
Segundo a Organização das Nações Unidas (UNITED NATIONS, 2011) existem mais de 2,5
bilhões de homens, mulheres e crianças que vivem com menos de dois dólares por dia no
mundo. Essa pobreza extrema resulta em desnutrição, epidemias e surtos de doenças
facilmente evitáveis, como a malária e o sarampo, além de degradação ambiental, baixos
índices de alfabetização, problemas sociais, econômicos e políticos. Como parte de um
esforço global para erradicar a pobreza, 189 países aprovaram as Metas de Desenvolvimento
do Milênio (ODM), em 2000, visando reduzir pela metade o número de pessoas que vivem
em extrema pobreza ou que não tem acesso a água potável e saneamento adequado.
Em 2004, Coimbatore Krishnarao Prahalad, doutor em Administração em Harvard e
renomado escritor de livros sobre gestão e inovação, lançou a primeira edição de seu livro
“Riqueza para a Base da Pirâmide: como erradicar a pobreza com o lucro” (PRAHALAD,
2010). Neste livro Prahalad apresenta uma estratégia, defendendo que o futuro dos negócios
está em produzir para as classes menos favorecidas. Prahalad alega que se faz muito pouco
pelos países mais pobres e propõe alternativas que possibilitem a erradicação da pobreza
através das práticas lucrativas típicas do modelo econômico vigente. Seu principal objetivo é
o fim da imagem de pobre como vítimas ou fardos para a sociedade, e sim como
consumidores e empreendedores, potencializadores de uma nova era de prosperidade global.
O presente texto consiste na consolidação das reflexões realizadas por acadêmicos da
disciplina de Tópicos Especiais em Desenvolvimento de Produto, realizada no programa de
Pós Graduação em Engenharia de Produção da Universidade Federal do Rio Grande do Sul no
segundo semestre de 2011. O tema do trabalho, Design para a Base da Pirâmide, foi
apresentado ao grupo tendo como base o livro ‘Riqueza para a Base da Pirâmide: como
erradicar a pobreza com o lucro’ (PRAHALAD, 2010). Os acadêmicos utilizaram o texto do
livro para compreensão de conceitos básicos desta estratégia empresarial para proceder o
debate sobre 4 artigos selecionados:
 A Base-of-the-Pyamid Perspective on Poverty Alleviation - working paper de Ted
London, julho de 2007 (LONDON, 2007);
 The Mirage of Marketing to the Bottom of the Pyramid: How the private sector can
help alleviate poverty – artigo de Aneel Karnani, 2007 (KARNANI, 2007);
 Designing for the Base of the Pyramid – artigo de Patrick Whitney e Anjali Kelkar,
2004 (WHITNEY, KELKAR, 2004);
 Percepções do público da base da pirâmide com relação aos fatores contextuais e
composicionais do banheiro – artigo de Tarciana Andrade, Mabel Gomes Guimarães e
Leonardo Castillo, 2009 (ANDRADE, GUIMARÃES, CASTILLO, 2009).
Os artigos foram propositalmente selecionados apresentando duas situações de aplicação
prática da estratégia da base da pirâmide e dois artigos de revisão e análise crítica desta
abordagem. Os objetivos principais do debate foram desenvolver clareza sobre o tipo de
contexto ao qual a estratégia se aplica, bem como compreender mecanismos de
implementação prática.
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Importante ressaltar que o grupo de acadêmicos era formado por 19 profissionais pertencentes
às áreas de: engenharia de produção, engenharia civil, engenharia elétrica, administração,
design, fisioterapia, tecnologia da informação, física e arquitetura. Os artigos foram
previamente disponibilizados aos alunos e o debate foi comandado por um integrante do
grupo, denominado mediador, gerando um círculo de discussão que durou cerca de duas
horas.
Durante a discussão, os demais participantes do grupo líder ficaram encarregados de anotar
todas as informações geradas, comentários e opiniões apresentadas pelos participantes para
posterior compilação dos dados. A discussão e a consolidação do debate estão apresentadas na
seção quatro deste artigo.
2. Referências
Este capítulo destina-se a apresentar cada um dos textos utilizados pelo grupo como referência
bibliográfica para promover as discussões relacionadas à base da pirâmide.
2.1 O livro de Prahalad
Lançado em 2004, e re-editado em 2010, o livro ‘Riqueza para a Base da Pirâmide: como
erradicar a pobreza com o lucro’ (PRAHALAD, 2010) é divido em cinco partes, sendo a
primeira parte composta de comentários do autor sobre os avanços na base da pirâmide entre
2004 e 2010, datas das duas edições do livro. A segunda parte é a teoria sobre a riqueza na
base da pirâmide, a qual não sofreu alterações entre uma versão e outra do livro. Na terceira
parte constam as reações de alguns CEO’s ao conceito e ao livro em si. Na quarta parte são
apresentados alguns casos de empresas que atuam produzindo para a base da pirâmide, com
comentários de seus respectivos CEO’s, e a quinta e última parte refere-se aos vídeos contidos
no CD anexado ao livro.
A segunda parte do livro é dividida em seis capítulos e foi o foco da apresentação na
disciplina. Os seis capítulos do livro são brevemente descritos a seguir.
No capítulo 1, intitulado ‘O mercado na base da pirâmide’, Prahalad fornece uma visão inicial
do tema, defendendo que os pobres são um mercado latente para bens e serviços, e que a base
da pirâmide oferece uma nova oportunidade de crescimento para o setor privado, defendendo
que quatro a cinco bilhões de pessoas no mundo ganham menos de dois dólares por dia, mas
que somadas elas geram um valor grandioso e óbvio, que não foi valorizado anteriormente por
outros teóricos ou empresários. O capítulo 2, "Produtos e serviços para a base da pirâmide",
tem como ponto principal a definição dos doze princípios de inovação necessários para
criação de produtos e serviços voltados à base da pirâmide. O terceiro capítulo, "BP: uma
oportunidade global" trata de reafirmar a grande oportunidade de consumo presente na base
da pirâmide, possível de se tornar um negócio além de rentável para as empresas, de grande
valia para o desenvolvimento de inúmeras sociedades. O capítulo 4, intitulado "O ecossistema
para a criação de riqueza", relata sobre como operacionalizar o mercado da BP (base de
pirâmide), e define o conceito do autor sobre o mercado como um ecossistema. O quinto
capítulo, "Reduzindo a corrupção: capacidade de governança de transações" versa sobre como
a transparência política e facilidade administrativa de um país pode influenciar no processo de
operacionalização da BP. O sexto e último capítulo, "O desenvolvimento como fator de
transformação social", reenfatiza a abordagem de negócios na BP como uma maneira de
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ajudar as comunidades carentes (além de abrir novas oportunidades de mercado para
empresas).
2.2 Artigo de Ted London
Em seu artigo, o autor afirma que embora o interesse e o debate sobre a base da pirâmide (BP)
como uma perspectiva de redução da pobreza esteja crescendo, a maioria das pesquisas atuais
tem se concentrado em estratégias de negócios para organizações interessadas em explorar
esses mercados. Ainda, ele propõe que mesmo com um número crescente de organizações dos
setores de desenvolvimento, que não visam fins lucrativos, e setor privado estejam
reivindicando para incorporar empreendimentos da BP como parte de sua carteira de
atividades, esta lacuna é cada vez mais insustentável. Em vista disso, o artigo é estruturado a
partir de uma revisão da literatura sobre a BP e destaca um conjunto de princípios que
distinguem esta estratégia da perspectiva tradicional de gestão de negócios voltada para
mercados abastados.
2.3 Artigo de Aneel Karnani
Em sua pesquisa Karnani (2007) concorda que erradicar a pobreza, ou pelo menos aliviá-la, é
um desafio urgente. O autor comenta o argumento do livro de Prahalad de que vender para os
pobres pode ser rentável e erradicar a pobreza simultaneamente, afirmando que esta é,
naturalmente, uma proposta muito atrativa que tem despertado a atenção de gerentes de
grandes empresas e pesquisadores das universidades. Porém, Karnani (2007) argumenta que a
proposição BP não é a melhor maneira de erradicar a pobreza. O autor propõe uma visão
alternativa sobre como o setor privado pode ajudar a aliviar a pobreza. Ao invés de tratar os
pobres principalmente como consumidores, é necessário despertar nos pobres o
empreendedorismo, torná-los produtores e aumentar seu poder de consumo. Diferente do
texto de Prahalad, Karnani (2007) enfatiza o alívio da pobreza através da elevação da renda e
da produtividade.
2.4 Artigo de Patrick Whitney e Anjali Kelkar
A ênfase do artigo está na ferramenta de design adotada para operacionalizar projetos para BP
(Whitney e Kelkar, 2004). Os autores ampliam a idéia da riqueza na base da pirâmide
centrando-se especificamente sobre a criação de riqueza em favelas urbanas no mundo em
desenvolvimento. Sob o ponto de vista filosófico, os autores trabalham visando fazer com que
as economias locais se tornem sustentáveis, incentivar o crescimento de pequenos negócios, e
no longo prazo ajudar os moradores a alcançarem melhores condições de vida. Neste artigo,
os autores enfatizam a melhoria das condições precárias das habitações e do trabalho nas
favelas.
Para criar novos cenários de trabalho e habitação, o projeto é operacionalizado através da
ferramenta denominada POEM (people,objects,environments,messages and services). Os
pesquisadores utilizam a observação e entrevistas documentando as pessoas, seus objetos,
ambiente, impressões e serviços para poder gerar soluções criativas que minimizem os
problemas de moradia e más condições de trabalho na favela.
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2.5 Artigo de Tarciana Andrade e colaboradores
Neste trabalho, os autores buscam compreender os requisitos do público que pertence à base
da pirâmide em relação aos componentes de um banheiro (Andrade, Guimarães, Castillo,
2009). Sua pesquisa é relevante ao passo que sugere que os valores da população pertencente
à BP norteiam decisões distintas do senso comum. No artigo os autores relatam que os
indivíduos estudados adquirem televisores e equipamentos de som com alta qualidade e
potência, enquanto carecem de itens básicos como válvula de descarga e chuveiro em seus
banheiros. Uma limitação da contribuição deste artigo ao trabalho desenvolvido é o fato dos
pesquisadores terem utilizado exclusivamente o autor Prahalad em seu referencial teórico,
dificultando a compreensão do real ponto de vista dos autores sobre a base da pirâmide.
3. Discussão
As atividades da aula foram iniciadas com uma apresentação do texto de Prahalad através de
slides. Em seguida os líderes deram início ao debate solicitando aos alunos que apontassem os
prós e contras da estratégia BOP. A partir do levantamento desses aspectos o grupo pôde
começar a formular uma opinião crítica a seu respeito.
3.1 Prós e contras
Os debatedores se apoiaram na opinião dos autores lidos e como aspectos positivos foram
indicados: o giro de capital, os esforços por parte das empresas para a redução dos custos dos
produtos, além de inovações que surgem a partir das características específicas que a base da
pirâmide exige, que podem inclusive surgir do esforço das empresas em diminuir custos.
Importante esclarecer que na perspectiva de produzir para a BP é necessário projetar produtos
e serviços que efetivamente atendam às necessidades desta população a custos acessíveis, o
que exige inovação.
Também foi apontada a premência de suprir as necessidades básicas das pessoas na base da
pirâmide, provendo produtos de qualidade diferenciada e contribuindo com sua qualidade de
vida. A promoção e o desenvolvimento das comunidades advindas do giro de capital, do
maior poder de compra, da capacitação de agentes locais para a promoção dos novos
produtos, assim como a inclusão por meio da informação e o sentimento da inclusão advindo
da possibilidade de compra de produtos utilizados por outras camadas da pirâmide são
benefícios alcançados pela abordagem. A necessidade de compreender a percepção de valor
destas populações também foi apontada como um aspecto importante e positivo. O pretenso
enriquecimento do topo da pirâmide é visto como um ponto positivo da abordagem do ponto
de vista de Prahalad (2010), embora considerada discutível se o pobre for exclusivamente
entendido como consumidor e não como produtor.
Posicionamentos desfavoráveis apontados pelos debatedores incluíram o risco de
inadimplência e o crescente endividamento da população, acrescido de uma alta taxa de juros,
que configuram um simples retardamento do problema. Outro aspecto negativo é o risco de
geração de resíduos provocada por um aumento significativo no padrão de consumo mundial
e o consumo de matérias primas, principalmente de fontes não renováveis, capaz de atender a
toda essa nova demanda.
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O grupo líder do debate acrescentou outras informações que corroboraram esta preocupação,
como o relatório Planeta Vivo da WWF de 2010, que aponta que em 2007 os padrões de
consumo mundial já excediam em 50% a capacidade disponível da Terra para produzir
recursos naturais e absorver CO2, e que em 2030 a humanidade necessitará de dois planetas
Terra para absorver as emissões de CO2 e manter o consumo de recursos naturais (WWF,
2010). Essa perspectiva se baseia no padrão de consumo atual, levando em conta que algumas
áreas do planeta consomem menos que outras, devido a fatores econômicos e de
desenvolvimento. O principal aspecto debatido pelo grupo foi: se o padrão de consumo atual
já excede a capacidade do planeta Terra de prover recursos, o que acontecerá se a base da
pirâmide passar a consumir tanto quanto os países desenvolvidos?
O grupo considerou a importância de incluir no escopo dos projetos a reeducação de
consumo, não somente para os indivíduos da base da pirâmide, mas para toda a sociedade. É
válido ressaltar que a intenção do comentário não é proibir ou defender a ideia que a BP deve
continuar consumindo pouco para não sobrecarregar a capacidade da Terra em produzir
recursos. O ‘topo’, assim como o ‘meio’ da pirâmide, são os maiores responsáveis pelo
elevado padrão de consumo mundial e devem, urgentemente, aprender a consumir de forma
sustentável para preservar o planeta.
Outro tópico abordado foi a distorção do consumo. O quanto promover o consumo entre as
comunidades mais pobres realmente as ajuda? Em seu livro, Prahalad (2010) enfatiza “o
pobre consumidor”, afirmando que essa relação de consumo tem que se concretizar dentro de
uma perspectiva de relação “ganha-ganha”, na qual ganha a empresa que obtém lucro com a
venda de seus produtos, e também o pobre, visto que acesso a produtos diferenciados a um
preço que possa pagar. Porém, fica a dúvida a respeito do que o pobre está ganhando.
Promover o consumo de produtos discutivelmente essenciais para a sobrevivência, como
xampus e ketchups, produtos citados por Prahalad em seu livro como exemplos, não apresenta
melhoria significativa na vida das pessoas e não alivia o problema da pobreza.
Após a rodada de posicionamentos favoráveis e desfavoráveis o líder mediador conduziu a
discussão para formas de operacionalização da estratégia de negócios BOP.
3.2 Operacionalização da estratégia BP
Uma vez posta a questão da operacionalização da estratégia BP, o grupo convergiu para os
doze princípios de inovação apresentados por Prahalad (2010). Na opinião do grupo, apesar
de cada princípio ser abordado como se fosse único e independente, estes podem ser
categorizados e então, mais de um princípio poderá pertencer a uma mesma categoria. Desta
forma, os doze princípios da inovação de Prahalad, foram categorizados pelos acadêmicos e
se encontram organizados na figura 1.
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Figura 1: análise dos princípios da inovação de Prahalad
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Qualidade, melhoria contínua, inovação, logística são temas relacionados a gestão de
processos produtivos; soluções de projeto foi a categoria usada para acomodar recomendações
contidas nos princípios para o projeto de um produto ou serviço, o que e assemelha ao que
propõe ferramenta como o Dfx. Acredita-se que análises mais detalhadas destes princípios
possam levar a resultados distintos das categorias propostas pelo grupo de acadêmicos.
Os princípios de Prahalad (2010) foram considerados elementos que contribuem para
operacionalização da estratégia BP por funcionarem como recomendações, premissas que
serviriam para nortear o projeto de negócios desta natureza. Por variarem em grau de
abstração desde recomendações muito pontuais até recomendações mais abrangentes, os
princípios seriam insuficientes para o gestor estruturar um negócio BP. Neste sentido, o artigo
de London (2007) trouxe contribuições significativas para operacionalização da estratégia sob
estudo.
3.3 Abordagem London
London (2007) apresentou também princípios para erradicação da pobreza na base da
pirâmide, os quais organizou em três grupos. Princípios de design, implementação e
desempenho, e todos eles estão compreendidos dentro do sistema denominado por ele de
ambiente. A representação dos princípios de London e suas relações podem ser observadas na
figura 2.
Figura 2: princípios de alívio da pobreza (adaptado de LONDON, 2007)
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No grupo “design” o autor desdobra os elementos parceria externa, que significa a
necessidade de se buscar relações de colaboração recíprocas com empresas e organizações a
fim de suprir as necessidades da base da pirâmide. O princípio da co-criação significa buscar
ouvir a voz das populações da BP para desenvolver produtos e serviços ajustados às suas
necessidades, ao invés de simplesmente adaptar tecnologias e soluções pré-existentes.
No grupo implementação, quando o autor desdobra o princípio de ligação do local com o nãolocal, ele busca chamar a atenção para a aproximação de culturas, produtos e soluções que se
encontram distantes para a abordagem na base da pirâmide. O princípio da inovação gradativa
visa salientar que a criação de soluções para a BP não é fácil nem simples e pode levar tempo,
então faz-se necessário tratar a inovação como um processo contínuo que segue por etapas.
No grupo de desempenho, quando o autor desdobra o princípio do crescimento autofinanciado, ele defende que para a verdadeira melhoria de vida na BP acontecer, não basta
criar serviços e produtos, são necessários acordos, inclusive em longo prazo, com
organizações, instituições comunitárias e empresas já atuantes na BP. Desta forma, haveria o
fortalecimento do comércio e da economia da sociedade que vive na base da pirâmide, a fim
de proporcionar um consumo e um retorno econômico sustentável.
3.4 Contribuição de Karnani
A discussão do grupo a respeito dos conceitos apresentados por Karnani (2007)
concentraram-se no questionamento crítico realizado pelo autor em relação ao texto de
Prahalad (2010). Karnani questiona se realmente existem tantas pessoas vivendo na BP
quanto afirma Prahalad em seu livro, visto que de acordo com dados de outras organizações
este número parece inferior a quatro bilhões de pessoas. Em segundo lugar, Karnani 2007
argumenta que os casos apresentados do livro de Prahalad não ilustram negócios da base da
pirâmide, por desrespeitarem os próprios princípios de inovação propostos por Prahalad.
A partir das críticas apontadas por Karnani (2007) os acadêmicos identificaram algumas
questões pertinentes a base da pirâmide, porém, que foram difíceis e talvez até polêmicas
demais para serem respondidas. Algumas delas: seria considerada inovação para a BP a
simples redução de qualidade e custos de um produto já existente? Seria possível a criação de
produtos e serviços, reduzindo custos e efetivamente mantendo a qualidade?
Outro aspecto importante comentado pelo grupo foi a consideração do pobre como produtor, e
não apenas como mero consumidor. Karnani reforça a idéia de London (2007) e propõe que a
erradicação da pobreza na BP não está baseada em vender produtos mais baratos para os
pobres (consumismo forçado), mas sim em investimentos na BP para que a riqueza seja
gerada a partir do estímulo de suas competências e do desenvolvimento de novas habilidades
e do aumento de sua produtividade.
4. Considerações finais
Entende-se que os objetivos principais do debate também foram atingidos, uma vez que foi
possível ampliar o entendimento do grupo de acadêmicos a respeito da estratégia BP, bem
como compreender mecanismos de implementação prática, conforme sintetizado a seguir.
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Houve consenso do grupo de que é mérito de Prahalad (2010) ter introduzido a ideia de
produção para as populações da Base da Pirâmide como forma de geração de riqueza. Além
de suscitar a discussão, Prahalad traz elementos novos para a estratégia de gestão, que são
organizadas e aprimoradas no trabalho de outros autores. Estes últimos puderam desdobrar as
suas ideias colaborando com a evolução do conhecimento a respeito deste tema.
Uma vez considerando os indivíduos da base da pirâmide como consumidores, torna-se
essencial identificar o que realmente demandam, e não o que os indivíduos do ‘centro’ e do
‘topo’ da pirâmide creem que eles desejam. Isso corrobora a idéia de que não se pode intuir o
que os indivíduos da base da pirâmide, ou de qualquer outro nicho desejam. A linha de
raciocínio desenvolvida pelos indivíduos de um dado grupo não necessariamente será a
mesma de outro grupo, visto que o conjunto de crenças e valores é particular do grupo e não
intercambiável. Por outro lado, existe o risco de que desenvolver um produto voltado
exclusivamente à base da pirâmide pode assumir um caráter preconceituoso, tendo em vista
que a posse de determinados produtos têm o poder simbólico de nivelar os indivíduos.
Além disso, um dos aspectos abordados no trabalho de London (2007) ressalta a
informalidade que caracteriza a maioria das transações realizadas pelas populações da base da
pirâmide, visto que grande parte das transações é baseada na troca. Dentro do debate das
implicações sócio-econômicas que a abordagem da BP carrega consigo, foi discutida a
transformação dos empregos e transações econômicas informais em empregos e transações
legais. Outro tópico da discussão é o fato de que muitos integrantes da BP não possuem
carteira de trabalho e muitas vezes nem carteira de identidade, e a partir do momento que
estes indivíduos conseguem se inserir na legalidade, eles conseguem usufruir de direitos que
até então não tinham e atendimento aos requisitos fiscais para transações econômicas, sendo
passíveis de usufruir de serviços bancários como consignação de crédito. Este último, o
crédito simplificado é uma das estratégias propostas no texto de Prahalad (2010).
As diretrizes apresentadas por London e os 12 Princípios de Prahalad fornecem um guia de
características e aspectos importantes a serem considerados no esforço de operacionalização
desta estratégia de negócio. Ainda sobre a operacionalização da base da pirâmide, houve
consenso que a implementação de serviços e a criação de produtos para este segmento devem
ser realizadas em etapas. Estas etapas, inclusive, devem ser ajustadas para as diferentes
populações da BP dependendo se estão localizadas na América, na África, na Ásia ou em
outro lugar, visto que cada sociedade possui características relacionados a sua cultura e
tradições que se traduzem em necessidades particulares.
Dentre todos os aspectos discutidos durante a realização do trabalho, duas questões
revelaram-se muito fortes na discussão do tema: a primeira é que para iniciar o
desenvolvimento de uma política de erradicação da pobreza deve-se ir além da percepção do
pobre como consumidor e passar a percebê-lo também como um empreendedor ou produtor, e
a segunda, é sobre a relação do design para a BP com o modelo econômico capitalista. É
difícil afirmar que o capitalismo é o sistema econômico mais indicado para o
desenvolvimento de uma estratégia de negócios centrada na produção para os mais pobres.
Isso por que a implementação desta abordagem exigiria um grande esforço de adaptação desse
sistema para o desenvolvimento do princípio de forma sustentável. Provavelmente a solução
para este impasse esteja relacionada com a necessidade de formação de redes entre locais e
não locais, bem como parcerias entre setores governamentais e privados para que o sistema
possa ser sustentável em suas dimensões ambiental, social e econômico-financeira.
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Como proposta de sugestão para pesquisas futuras, fica a necessidade de tradução do conjunto
de atividades necessárias para a operacionalização da base da pirâmide em atividades ou
ferramentas que possam ser aplicadas e replicadas. Nesse sentido, retoma-se a importância de
exemplos de estudos práticos, e com método definido como aqueles dos artigos estudados
neste debate.
Referências
ANDRADE, T.; GUIMARÃES, M.G.; CASTILLO, L. Percepções do público da base da pirâmide com
relação aos fatores contextuais e composicionais do banheiro. 5º Congresso Internacional de Pesquisa em
Design, Bauru, 2009.
KARNANI, A. The Mirage of Marketing to the Bottom of the Pyramid: How the private sector can help
alleviate poverty. California Management Review. Vol. 49, pg. 90-112, 2007.
LONDON, T. A. Base-of-the-Pyramid Perspective on Poverty Alleviation. Working Paper. School of Business
at the University of Michigan. 2007.
PRAHALAD, C.K. A Riqueza na Base da Pirâmide: como erradicar a pobreza com o lucro. Porto Alegre:
Bookman, 2005.
UNITED NATIONS. End Poverty. Disponível em <http://www.un.org/works/sub2.asp?lang=en&s=17>.
Acesso em 29 out. 2011.
WHITNEY, P.; KELKAR, A. Designing for the Base of the Pyramid. Design Management Review, reprint,
2004.
WWF
Brasil.
Relatório
Planeta
Vivo
2010.
<http://www.wwf.org.br/informacoes/?uNewsID=26162> . Acesso 25 out. 2011.
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