XXXII ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUCAO Desenvolvimento Sustentável e Responsabilidade Social: As Contribuições da Engenharia de Produção Bento Gonçalves, RS, Brasil, 15 a 18 de outubro de 2012. REFLEXÕES SOBRE A ESTRATÉGIA DE NEGÓCIO PARA A BASE DA PIRÂMIDE: UM DEBATE ACADÊMICO Henrique Simonetti (UFRGS) [email protected] Monique Sonego (UFRGS) [email protected] Istefani Carisio de Paula (UFRGS) [email protected] Em 2004 CK Prahalad, doutor em Administração em Harvard e renomado escritor de livros sobre gestão e inovação, lançou um livro chamado “Riqueza para a Base da Pirâmide: como erradicar a pobreza com o lucro”. Neste livro, Prahalad apresenta uma estratégia empresarial para populações de baixa renda, defendendo que o futuro dos negócios está nas classes menos favorecidas. Desde 2004, outros trabalhos a respeito desta estratégia foram publicados. Muitos deles avançam com as idéias introduzidas por Prahalad, e outros atacam sua estratégia indagando qual o benefício real que os pobres tiram deste modelo de negócios. O presente artigo baseia-se em um trabalho desenvolvido na disciplina de Tópicos Especiais em Desenvolvimento de Produto, do programa de Pós Graduação em Engenharia de Produção da Universidade Federal do Rio Grande do Sul no segundo semestre de 2011. Aos alunos foi apresentada a estratégia de Prahalad, assim como disponibilizados artigos que propiciam o conhecimento de outras abordagens a respeito do tema design para a base da pirâmide, com o intuito de gerar um grupo focado para discussão do tema, comandando por um mediador. O trabalho se estrutura da seguinte forma: seção 1 traz introdução do tema e método para a geração do material apresentado neste artigo; seção 2 traz uma breve apresentação dos textos trabalhados para a geração da discussão; seção 3 apresenta a compilação dos resultados provenientes da discussão gerada em sala de aula; e seção 4 apresenta conclusão e diretrizes para o desenvolvimento de trabalhos futuros, baseados em questões abordadas na discussão. Palavras-chaves: Base da pirâmide, estratégia de negócios XXXII ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUCAO Desenvolvimento Sustentável e Responsabilidade Social: As Contribuições da Engenharia de Produção Bento Gonçalves, RS, Brasil, 15 a 18 de outubro de 2012. 1. Introdução e método Segundo a Organização das Nações Unidas (UNITED NATIONS, 2011) existem mais de 2,5 bilhões de homens, mulheres e crianças que vivem com menos de dois dólares por dia no mundo. Essa pobreza extrema resulta em desnutrição, epidemias e surtos de doenças facilmente evitáveis, como a malária e o sarampo, além de degradação ambiental, baixos índices de alfabetização, problemas sociais, econômicos e políticos. Como parte de um esforço global para erradicar a pobreza, 189 países aprovaram as Metas de Desenvolvimento do Milênio (ODM), em 2000, visando reduzir pela metade o número de pessoas que vivem em extrema pobreza ou que não tem acesso a água potável e saneamento adequado. Em 2004, Coimbatore Krishnarao Prahalad, doutor em Administração em Harvard e renomado escritor de livros sobre gestão e inovação, lançou a primeira edição de seu livro “Riqueza para a Base da Pirâmide: como erradicar a pobreza com o lucro” (PRAHALAD, 2010). Neste livro Prahalad apresenta uma estratégia, defendendo que o futuro dos negócios está em produzir para as classes menos favorecidas. Prahalad alega que se faz muito pouco pelos países mais pobres e propõe alternativas que possibilitem a erradicação da pobreza através das práticas lucrativas típicas do modelo econômico vigente. Seu principal objetivo é o fim da imagem de pobre como vítimas ou fardos para a sociedade, e sim como consumidores e empreendedores, potencializadores de uma nova era de prosperidade global. O presente texto consiste na consolidação das reflexões realizadas por acadêmicos da disciplina de Tópicos Especiais em Desenvolvimento de Produto, realizada no programa de Pós Graduação em Engenharia de Produção da Universidade Federal do Rio Grande do Sul no segundo semestre de 2011. O tema do trabalho, Design para a Base da Pirâmide, foi apresentado ao grupo tendo como base o livro ‘Riqueza para a Base da Pirâmide: como erradicar a pobreza com o lucro’ (PRAHALAD, 2010). Os acadêmicos utilizaram o texto do livro para compreensão de conceitos básicos desta estratégia empresarial para proceder o debate sobre 4 artigos selecionados: A Base-of-the-Pyamid Perspective on Poverty Alleviation - working paper de Ted London, julho de 2007 (LONDON, 2007); The Mirage of Marketing to the Bottom of the Pyramid: How the private sector can help alleviate poverty – artigo de Aneel Karnani, 2007 (KARNANI, 2007); Designing for the Base of the Pyramid – artigo de Patrick Whitney e Anjali Kelkar, 2004 (WHITNEY, KELKAR, 2004); Percepções do público da base da pirâmide com relação aos fatores contextuais e composicionais do banheiro – artigo de Tarciana Andrade, Mabel Gomes Guimarães e Leonardo Castillo, 2009 (ANDRADE, GUIMARÃES, CASTILLO, 2009). Os artigos foram propositalmente selecionados apresentando duas situações de aplicação prática da estratégia da base da pirâmide e dois artigos de revisão e análise crítica desta abordagem. Os objetivos principais do debate foram desenvolver clareza sobre o tipo de contexto ao qual a estratégia se aplica, bem como compreender mecanismos de implementação prática. 2 XXXII ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUCAO Desenvolvimento Sustentável e Responsabilidade Social: As Contribuições da Engenharia de Produção Bento Gonçalves, RS, Brasil, 15 a 18 de outubro de 2012. Importante ressaltar que o grupo de acadêmicos era formado por 19 profissionais pertencentes às áreas de: engenharia de produção, engenharia civil, engenharia elétrica, administração, design, fisioterapia, tecnologia da informação, física e arquitetura. Os artigos foram previamente disponibilizados aos alunos e o debate foi comandado por um integrante do grupo, denominado mediador, gerando um círculo de discussão que durou cerca de duas horas. Durante a discussão, os demais participantes do grupo líder ficaram encarregados de anotar todas as informações geradas, comentários e opiniões apresentadas pelos participantes para posterior compilação dos dados. A discussão e a consolidação do debate estão apresentadas na seção quatro deste artigo. 2. Referências Este capítulo destina-se a apresentar cada um dos textos utilizados pelo grupo como referência bibliográfica para promover as discussões relacionadas à base da pirâmide. 2.1 O livro de Prahalad Lançado em 2004, e re-editado em 2010, o livro ‘Riqueza para a Base da Pirâmide: como erradicar a pobreza com o lucro’ (PRAHALAD, 2010) é divido em cinco partes, sendo a primeira parte composta de comentários do autor sobre os avanços na base da pirâmide entre 2004 e 2010, datas das duas edições do livro. A segunda parte é a teoria sobre a riqueza na base da pirâmide, a qual não sofreu alterações entre uma versão e outra do livro. Na terceira parte constam as reações de alguns CEO’s ao conceito e ao livro em si. Na quarta parte são apresentados alguns casos de empresas que atuam produzindo para a base da pirâmide, com comentários de seus respectivos CEO’s, e a quinta e última parte refere-se aos vídeos contidos no CD anexado ao livro. A segunda parte do livro é dividida em seis capítulos e foi o foco da apresentação na disciplina. Os seis capítulos do livro são brevemente descritos a seguir. No capítulo 1, intitulado ‘O mercado na base da pirâmide’, Prahalad fornece uma visão inicial do tema, defendendo que os pobres são um mercado latente para bens e serviços, e que a base da pirâmide oferece uma nova oportunidade de crescimento para o setor privado, defendendo que quatro a cinco bilhões de pessoas no mundo ganham menos de dois dólares por dia, mas que somadas elas geram um valor grandioso e óbvio, que não foi valorizado anteriormente por outros teóricos ou empresários. O capítulo 2, "Produtos e serviços para a base da pirâmide", tem como ponto principal a definição dos doze princípios de inovação necessários para criação de produtos e serviços voltados à base da pirâmide. O terceiro capítulo, "BP: uma oportunidade global" trata de reafirmar a grande oportunidade de consumo presente na base da pirâmide, possível de se tornar um negócio além de rentável para as empresas, de grande valia para o desenvolvimento de inúmeras sociedades. O capítulo 4, intitulado "O ecossistema para a criação de riqueza", relata sobre como operacionalizar o mercado da BP (base de pirâmide), e define o conceito do autor sobre o mercado como um ecossistema. O quinto capítulo, "Reduzindo a corrupção: capacidade de governança de transações" versa sobre como a transparência política e facilidade administrativa de um país pode influenciar no processo de operacionalização da BP. O sexto e último capítulo, "O desenvolvimento como fator de transformação social", reenfatiza a abordagem de negócios na BP como uma maneira de 3 XXXII ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUCAO Desenvolvimento Sustentável e Responsabilidade Social: As Contribuições da Engenharia de Produção Bento Gonçalves, RS, Brasil, 15 a 18 de outubro de 2012. ajudar as comunidades carentes (além de abrir novas oportunidades de mercado para empresas). 2.2 Artigo de Ted London Em seu artigo, o autor afirma que embora o interesse e o debate sobre a base da pirâmide (BP) como uma perspectiva de redução da pobreza esteja crescendo, a maioria das pesquisas atuais tem se concentrado em estratégias de negócios para organizações interessadas em explorar esses mercados. Ainda, ele propõe que mesmo com um número crescente de organizações dos setores de desenvolvimento, que não visam fins lucrativos, e setor privado estejam reivindicando para incorporar empreendimentos da BP como parte de sua carteira de atividades, esta lacuna é cada vez mais insustentável. Em vista disso, o artigo é estruturado a partir de uma revisão da literatura sobre a BP e destaca um conjunto de princípios que distinguem esta estratégia da perspectiva tradicional de gestão de negócios voltada para mercados abastados. 2.3 Artigo de Aneel Karnani Em sua pesquisa Karnani (2007) concorda que erradicar a pobreza, ou pelo menos aliviá-la, é um desafio urgente. O autor comenta o argumento do livro de Prahalad de que vender para os pobres pode ser rentável e erradicar a pobreza simultaneamente, afirmando que esta é, naturalmente, uma proposta muito atrativa que tem despertado a atenção de gerentes de grandes empresas e pesquisadores das universidades. Porém, Karnani (2007) argumenta que a proposição BP não é a melhor maneira de erradicar a pobreza. O autor propõe uma visão alternativa sobre como o setor privado pode ajudar a aliviar a pobreza. Ao invés de tratar os pobres principalmente como consumidores, é necessário despertar nos pobres o empreendedorismo, torná-los produtores e aumentar seu poder de consumo. Diferente do texto de Prahalad, Karnani (2007) enfatiza o alívio da pobreza através da elevação da renda e da produtividade. 2.4 Artigo de Patrick Whitney e Anjali Kelkar A ênfase do artigo está na ferramenta de design adotada para operacionalizar projetos para BP (Whitney e Kelkar, 2004). Os autores ampliam a idéia da riqueza na base da pirâmide centrando-se especificamente sobre a criação de riqueza em favelas urbanas no mundo em desenvolvimento. Sob o ponto de vista filosófico, os autores trabalham visando fazer com que as economias locais se tornem sustentáveis, incentivar o crescimento de pequenos negócios, e no longo prazo ajudar os moradores a alcançarem melhores condições de vida. Neste artigo, os autores enfatizam a melhoria das condições precárias das habitações e do trabalho nas favelas. Para criar novos cenários de trabalho e habitação, o projeto é operacionalizado através da ferramenta denominada POEM (people,objects,environments,messages and services). Os pesquisadores utilizam a observação e entrevistas documentando as pessoas, seus objetos, ambiente, impressões e serviços para poder gerar soluções criativas que minimizem os problemas de moradia e más condições de trabalho na favela. 4 XXXII ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUCAO Desenvolvimento Sustentável e Responsabilidade Social: As Contribuições da Engenharia de Produção Bento Gonçalves, RS, Brasil, 15 a 18 de outubro de 2012. 2.5 Artigo de Tarciana Andrade e colaboradores Neste trabalho, os autores buscam compreender os requisitos do público que pertence à base da pirâmide em relação aos componentes de um banheiro (Andrade, Guimarães, Castillo, 2009). Sua pesquisa é relevante ao passo que sugere que os valores da população pertencente à BP norteiam decisões distintas do senso comum. No artigo os autores relatam que os indivíduos estudados adquirem televisores e equipamentos de som com alta qualidade e potência, enquanto carecem de itens básicos como válvula de descarga e chuveiro em seus banheiros. Uma limitação da contribuição deste artigo ao trabalho desenvolvido é o fato dos pesquisadores terem utilizado exclusivamente o autor Prahalad em seu referencial teórico, dificultando a compreensão do real ponto de vista dos autores sobre a base da pirâmide. 3. Discussão As atividades da aula foram iniciadas com uma apresentação do texto de Prahalad através de slides. Em seguida os líderes deram início ao debate solicitando aos alunos que apontassem os prós e contras da estratégia BOP. A partir do levantamento desses aspectos o grupo pôde começar a formular uma opinião crítica a seu respeito. 3.1 Prós e contras Os debatedores se apoiaram na opinião dos autores lidos e como aspectos positivos foram indicados: o giro de capital, os esforços por parte das empresas para a redução dos custos dos produtos, além de inovações que surgem a partir das características específicas que a base da pirâmide exige, que podem inclusive surgir do esforço das empresas em diminuir custos. Importante esclarecer que na perspectiva de produzir para a BP é necessário projetar produtos e serviços que efetivamente atendam às necessidades desta população a custos acessíveis, o que exige inovação. Também foi apontada a premência de suprir as necessidades básicas das pessoas na base da pirâmide, provendo produtos de qualidade diferenciada e contribuindo com sua qualidade de vida. A promoção e o desenvolvimento das comunidades advindas do giro de capital, do maior poder de compra, da capacitação de agentes locais para a promoção dos novos produtos, assim como a inclusão por meio da informação e o sentimento da inclusão advindo da possibilidade de compra de produtos utilizados por outras camadas da pirâmide são benefícios alcançados pela abordagem. A necessidade de compreender a percepção de valor destas populações também foi apontada como um aspecto importante e positivo. O pretenso enriquecimento do topo da pirâmide é visto como um ponto positivo da abordagem do ponto de vista de Prahalad (2010), embora considerada discutível se o pobre for exclusivamente entendido como consumidor e não como produtor. Posicionamentos desfavoráveis apontados pelos debatedores incluíram o risco de inadimplência e o crescente endividamento da população, acrescido de uma alta taxa de juros, que configuram um simples retardamento do problema. Outro aspecto negativo é o risco de geração de resíduos provocada por um aumento significativo no padrão de consumo mundial e o consumo de matérias primas, principalmente de fontes não renováveis, capaz de atender a toda essa nova demanda. 5 XXXII ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUCAO Desenvolvimento Sustentável e Responsabilidade Social: As Contribuições da Engenharia de Produção Bento Gonçalves, RS, Brasil, 15 a 18 de outubro de 2012. O grupo líder do debate acrescentou outras informações que corroboraram esta preocupação, como o relatório Planeta Vivo da WWF de 2010, que aponta que em 2007 os padrões de consumo mundial já excediam em 50% a capacidade disponível da Terra para produzir recursos naturais e absorver CO2, e que em 2030 a humanidade necessitará de dois planetas Terra para absorver as emissões de CO2 e manter o consumo de recursos naturais (WWF, 2010). Essa perspectiva se baseia no padrão de consumo atual, levando em conta que algumas áreas do planeta consomem menos que outras, devido a fatores econômicos e de desenvolvimento. O principal aspecto debatido pelo grupo foi: se o padrão de consumo atual já excede a capacidade do planeta Terra de prover recursos, o que acontecerá se a base da pirâmide passar a consumir tanto quanto os países desenvolvidos? O grupo considerou a importância de incluir no escopo dos projetos a reeducação de consumo, não somente para os indivíduos da base da pirâmide, mas para toda a sociedade. É válido ressaltar que a intenção do comentário não é proibir ou defender a ideia que a BP deve continuar consumindo pouco para não sobrecarregar a capacidade da Terra em produzir recursos. O ‘topo’, assim como o ‘meio’ da pirâmide, são os maiores responsáveis pelo elevado padrão de consumo mundial e devem, urgentemente, aprender a consumir de forma sustentável para preservar o planeta. Outro tópico abordado foi a distorção do consumo. O quanto promover o consumo entre as comunidades mais pobres realmente as ajuda? Em seu livro, Prahalad (2010) enfatiza “o pobre consumidor”, afirmando que essa relação de consumo tem que se concretizar dentro de uma perspectiva de relação “ganha-ganha”, na qual ganha a empresa que obtém lucro com a venda de seus produtos, e também o pobre, visto que acesso a produtos diferenciados a um preço que possa pagar. Porém, fica a dúvida a respeito do que o pobre está ganhando. Promover o consumo de produtos discutivelmente essenciais para a sobrevivência, como xampus e ketchups, produtos citados por Prahalad em seu livro como exemplos, não apresenta melhoria significativa na vida das pessoas e não alivia o problema da pobreza. Após a rodada de posicionamentos favoráveis e desfavoráveis o líder mediador conduziu a discussão para formas de operacionalização da estratégia de negócios BOP. 3.2 Operacionalização da estratégia BP Uma vez posta a questão da operacionalização da estratégia BP, o grupo convergiu para os doze princípios de inovação apresentados por Prahalad (2010). Na opinião do grupo, apesar de cada princípio ser abordado como se fosse único e independente, estes podem ser categorizados e então, mais de um princípio poderá pertencer a uma mesma categoria. Desta forma, os doze princípios da inovação de Prahalad, foram categorizados pelos acadêmicos e se encontram organizados na figura 1. 6 XXXII ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUCAO Desenvolvimento Sustentável e Responsabilidade Social: As Contribuições da Engenharia de Produção Bento Gonçalves, RS, Brasil, 15 a 18 de outubro de 2012. Figura 1: análise dos princípios da inovação de Prahalad 7 XXXII ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUCAO Desenvolvimento Sustentável e Responsabilidade Social: As Contribuições da Engenharia de Produção Bento Gonçalves, RS, Brasil, 15 a 18 de outubro de 2012. Qualidade, melhoria contínua, inovação, logística são temas relacionados a gestão de processos produtivos; soluções de projeto foi a categoria usada para acomodar recomendações contidas nos princípios para o projeto de um produto ou serviço, o que e assemelha ao que propõe ferramenta como o Dfx. Acredita-se que análises mais detalhadas destes princípios possam levar a resultados distintos das categorias propostas pelo grupo de acadêmicos. Os princípios de Prahalad (2010) foram considerados elementos que contribuem para operacionalização da estratégia BP por funcionarem como recomendações, premissas que serviriam para nortear o projeto de negócios desta natureza. Por variarem em grau de abstração desde recomendações muito pontuais até recomendações mais abrangentes, os princípios seriam insuficientes para o gestor estruturar um negócio BP. Neste sentido, o artigo de London (2007) trouxe contribuições significativas para operacionalização da estratégia sob estudo. 3.3 Abordagem London London (2007) apresentou também princípios para erradicação da pobreza na base da pirâmide, os quais organizou em três grupos. Princípios de design, implementação e desempenho, e todos eles estão compreendidos dentro do sistema denominado por ele de ambiente. A representação dos princípios de London e suas relações podem ser observadas na figura 2. Figura 2: princípios de alívio da pobreza (adaptado de LONDON, 2007) 8 XXXII ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUCAO Desenvolvimento Sustentável e Responsabilidade Social: As Contribuições da Engenharia de Produção Bento Gonçalves, RS, Brasil, 15 a 18 de outubro de 2012. No grupo “design” o autor desdobra os elementos parceria externa, que significa a necessidade de se buscar relações de colaboração recíprocas com empresas e organizações a fim de suprir as necessidades da base da pirâmide. O princípio da co-criação significa buscar ouvir a voz das populações da BP para desenvolver produtos e serviços ajustados às suas necessidades, ao invés de simplesmente adaptar tecnologias e soluções pré-existentes. No grupo implementação, quando o autor desdobra o princípio de ligação do local com o nãolocal, ele busca chamar a atenção para a aproximação de culturas, produtos e soluções que se encontram distantes para a abordagem na base da pirâmide. O princípio da inovação gradativa visa salientar que a criação de soluções para a BP não é fácil nem simples e pode levar tempo, então faz-se necessário tratar a inovação como um processo contínuo que segue por etapas. No grupo de desempenho, quando o autor desdobra o princípio do crescimento autofinanciado, ele defende que para a verdadeira melhoria de vida na BP acontecer, não basta criar serviços e produtos, são necessários acordos, inclusive em longo prazo, com organizações, instituições comunitárias e empresas já atuantes na BP. Desta forma, haveria o fortalecimento do comércio e da economia da sociedade que vive na base da pirâmide, a fim de proporcionar um consumo e um retorno econômico sustentável. 3.4 Contribuição de Karnani A discussão do grupo a respeito dos conceitos apresentados por Karnani (2007) concentraram-se no questionamento crítico realizado pelo autor em relação ao texto de Prahalad (2010). Karnani questiona se realmente existem tantas pessoas vivendo na BP quanto afirma Prahalad em seu livro, visto que de acordo com dados de outras organizações este número parece inferior a quatro bilhões de pessoas. Em segundo lugar, Karnani 2007 argumenta que os casos apresentados do livro de Prahalad não ilustram negócios da base da pirâmide, por desrespeitarem os próprios princípios de inovação propostos por Prahalad. A partir das críticas apontadas por Karnani (2007) os acadêmicos identificaram algumas questões pertinentes a base da pirâmide, porém, que foram difíceis e talvez até polêmicas demais para serem respondidas. Algumas delas: seria considerada inovação para a BP a simples redução de qualidade e custos de um produto já existente? Seria possível a criação de produtos e serviços, reduzindo custos e efetivamente mantendo a qualidade? Outro aspecto importante comentado pelo grupo foi a consideração do pobre como produtor, e não apenas como mero consumidor. Karnani reforça a idéia de London (2007) e propõe que a erradicação da pobreza na BP não está baseada em vender produtos mais baratos para os pobres (consumismo forçado), mas sim em investimentos na BP para que a riqueza seja gerada a partir do estímulo de suas competências e do desenvolvimento de novas habilidades e do aumento de sua produtividade. 4. Considerações finais Entende-se que os objetivos principais do debate também foram atingidos, uma vez que foi possível ampliar o entendimento do grupo de acadêmicos a respeito da estratégia BP, bem como compreender mecanismos de implementação prática, conforme sintetizado a seguir. 9 XXXII ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUCAO Desenvolvimento Sustentável e Responsabilidade Social: As Contribuições da Engenharia de Produção Bento Gonçalves, RS, Brasil, 15 a 18 de outubro de 2012. Houve consenso do grupo de que é mérito de Prahalad (2010) ter introduzido a ideia de produção para as populações da Base da Pirâmide como forma de geração de riqueza. Além de suscitar a discussão, Prahalad traz elementos novos para a estratégia de gestão, que são organizadas e aprimoradas no trabalho de outros autores. Estes últimos puderam desdobrar as suas ideias colaborando com a evolução do conhecimento a respeito deste tema. Uma vez considerando os indivíduos da base da pirâmide como consumidores, torna-se essencial identificar o que realmente demandam, e não o que os indivíduos do ‘centro’ e do ‘topo’ da pirâmide creem que eles desejam. Isso corrobora a idéia de que não se pode intuir o que os indivíduos da base da pirâmide, ou de qualquer outro nicho desejam. A linha de raciocínio desenvolvida pelos indivíduos de um dado grupo não necessariamente será a mesma de outro grupo, visto que o conjunto de crenças e valores é particular do grupo e não intercambiável. Por outro lado, existe o risco de que desenvolver um produto voltado exclusivamente à base da pirâmide pode assumir um caráter preconceituoso, tendo em vista que a posse de determinados produtos têm o poder simbólico de nivelar os indivíduos. Além disso, um dos aspectos abordados no trabalho de London (2007) ressalta a informalidade que caracteriza a maioria das transações realizadas pelas populações da base da pirâmide, visto que grande parte das transações é baseada na troca. Dentro do debate das implicações sócio-econômicas que a abordagem da BP carrega consigo, foi discutida a transformação dos empregos e transações econômicas informais em empregos e transações legais. Outro tópico da discussão é o fato de que muitos integrantes da BP não possuem carteira de trabalho e muitas vezes nem carteira de identidade, e a partir do momento que estes indivíduos conseguem se inserir na legalidade, eles conseguem usufruir de direitos que até então não tinham e atendimento aos requisitos fiscais para transações econômicas, sendo passíveis de usufruir de serviços bancários como consignação de crédito. Este último, o crédito simplificado é uma das estratégias propostas no texto de Prahalad (2010). As diretrizes apresentadas por London e os 12 Princípios de Prahalad fornecem um guia de características e aspectos importantes a serem considerados no esforço de operacionalização desta estratégia de negócio. Ainda sobre a operacionalização da base da pirâmide, houve consenso que a implementação de serviços e a criação de produtos para este segmento devem ser realizadas em etapas. Estas etapas, inclusive, devem ser ajustadas para as diferentes populações da BP dependendo se estão localizadas na América, na África, na Ásia ou em outro lugar, visto que cada sociedade possui características relacionados a sua cultura e tradições que se traduzem em necessidades particulares. Dentre todos os aspectos discutidos durante a realização do trabalho, duas questões revelaram-se muito fortes na discussão do tema: a primeira é que para iniciar o desenvolvimento de uma política de erradicação da pobreza deve-se ir além da percepção do pobre como consumidor e passar a percebê-lo também como um empreendedor ou produtor, e a segunda, é sobre a relação do design para a BP com o modelo econômico capitalista. É difícil afirmar que o capitalismo é o sistema econômico mais indicado para o desenvolvimento de uma estratégia de negócios centrada na produção para os mais pobres. Isso por que a implementação desta abordagem exigiria um grande esforço de adaptação desse sistema para o desenvolvimento do princípio de forma sustentável. Provavelmente a solução para este impasse esteja relacionada com a necessidade de formação de redes entre locais e não locais, bem como parcerias entre setores governamentais e privados para que o sistema possa ser sustentável em suas dimensões ambiental, social e econômico-financeira. 10 XXXII ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUCAO Desenvolvimento Sustentável e Responsabilidade Social: As Contribuições da Engenharia de Produção Bento Gonçalves, RS, Brasil, 15 a 18 de outubro de 2012. Como proposta de sugestão para pesquisas futuras, fica a necessidade de tradução do conjunto de atividades necessárias para a operacionalização da base da pirâmide em atividades ou ferramentas que possam ser aplicadas e replicadas. Nesse sentido, retoma-se a importância de exemplos de estudos práticos, e com método definido como aqueles dos artigos estudados neste debate. Referências ANDRADE, T.; GUIMARÃES, M.G.; CASTILLO, L. Percepções do público da base da pirâmide com relação aos fatores contextuais e composicionais do banheiro. 5º Congresso Internacional de Pesquisa em Design, Bauru, 2009. KARNANI, A. The Mirage of Marketing to the Bottom of the Pyramid: How the private sector can help alleviate poverty. California Management Review. Vol. 49, pg. 90-112, 2007. LONDON, T. A. Base-of-the-Pyramid Perspective on Poverty Alleviation. Working Paper. School of Business at the University of Michigan. 2007. PRAHALAD, C.K. A Riqueza na Base da Pirâmide: como erradicar a pobreza com o lucro. Porto Alegre: Bookman, 2005. UNITED NATIONS. End Poverty. Disponível em <http://www.un.org/works/sub2.asp?lang=en&s=17>. Acesso em 29 out. 2011. WHITNEY, P.; KELKAR, A. Designing for the Base of the Pyramid. Design Management Review, reprint, 2004. WWF Brasil. Relatório Planeta Vivo 2010. <http://www.wwf.org.br/informacoes/?uNewsID=26162> . Acesso 25 out. 2011. Disponível em 11