ESCOLA SUPERIOR DE GUERRA RICARDO SANTOS DE OLIVEIRA ACIDENTES NUCLEARES: estratégia de defesa Rio de Janeiro 2011 RICARDO SANTOS DE OLIVEIRA ACIDENTES NUCLEARES: estratégia de defesa Trabalho de Conclusão de Curso – Monografia apresentada ao Departamento de Estudos da Escola Superior de Guerra como requisito à obtenção do diploma do Curso de Altos Estudos de Política e Estratégia. Orientador: Cel Eng Aer R/1 Carlos Alberto Gonçalves de Araujo. Rio de Janeiro 2011 C2011 ESG Este trabalho, nos termos de legislação que resguarda os direitos autorais, é considerado propriedade da ESCOLA SUPERIOR DE GUERRA (ESG). É permitido a transcrição parcial de textos do trabalho, ou mencioná-los, para comentários e citações, desde que sem propósitos comerciais e que seja feita a referência bibliográfica completa. Os conceitos expressos neste trabalho são de responsabilidade do autor e não expressam qualquer orientação institucional da ESG _________________________________ Ricardo Santos de Oliveira Cel Med Aer Biblioteca General Cordeiro de Farias Oliveira, Ricardo Santos de Acidentes Nucleares: estratégia de defesa / Coronel Médico da Aeronáutica Ricardo Santos de Oliveira - Rio de Janeiro: ESG, 2011. 68 f.: il. Orientador: Cel Eng Aer R/1 Carlos Alberto Gonçalves de Araujo Trabalho de Conclusão de Curso – Monografia apresentada ao Departamento de Estudos da Escola Superior de Guerra como requisito à obtenção do diploma do Curso de Altos Estudos de Política e Estratégia (CAEPE), 2011. 1. Acidentes Nucleares. 2. Estratégia de defesa. 3. Prevenção de Acidentes. 4. Central Nuclear Almirante Álvaro Alberto. I.Título. A todos que durante o meu período de curso contribuíram com ensinamentos e incentivos. À minha mulher Carla e aos meus filhos Thadeu, Matheus e Carolina pela compreensão, como resposta aos momentos de minhas ausências, em dedicação às atividades da ESG. Ao meu pai e à minha mãe pelo constante apoio em todas as horas. AGRADECIMENTO Aos Segurança estagiários e da Desenvolvimento melhor pelo Turma convívio harmonioso de todas as horas. Ao Corpo Permanente da ESG pelos ensinamentos e orientações que me fizeram refletir, cada vez mais, sobre a importância de se estudar o Brasil com a responsabilidade implícita de ter que melhorar. A Marcos Antonio de Oliveira, o querido “GEÓLOGO MARCOS“, a constante orientação e força nos assuntos sobre Energia Nuclear. “O medo é a forma mais eficaz de controle social: sociedades amedrontadas reagem como manadas, se deixando levar pelo primeiro grito de alerta. Em nome da redução de uma ameaça superestimada lideranças podem agir livremente em busca de outros objetivos, alheios à redução da própria ameaça” Leonam dos Santos Guimarães RESUMO Esta monografia aborda um assunto de extrema importância para o nosso país em decorrência da presença da Energia Nuclear como componente da nossa matriz energética. Analisará a política atual de prevenção de acidentes nucleares da Central Nuclear Almirante Álvaro Alberto em Angra dos Reis, seus Sistemas Redundantes de Segurança que protejam não só o meio ambiente como também a saúde e a integridade física dos seus funcionários e da população do seu entorno. O recente acidente afetando as 6 usinas em Fukushima Dai-ichi, no Japão, mostra que nem sempre os que se imaginavam mais preparados para esse tipo de catástrofe conseguem dimensionar os possíveis estragos. No Brasil, a estrutura responsável pelas questões de segurança das atividades nucleares foi denominada “Sistema de Proteção ao Programa Nuclear Brasileiro” – SIPRON, abrangendo, entre outros, a Comissão Nacional de Energia Nuclear – CNEM, a Eletronuclear, a Defesa Civil, o Ministério da Defesa (MD) e a Agência Brasileira de Inteligência (ABIN). Após breve revisão da utilização da energia nuclear em escala mundial, nossa preocupação recairá sobre a estratégia de defesa da CNAAA. Quanto à temporalidade, todas as fontes de pesquisa disponíveis foram utilizadas e quanto ao espaço, falou-se sobre os principais acidentes nucleares ocorridos no mundo desde Three Miles Island, em 1979, nos EUA, até o terremoto seguido de tsunami no Japão, em março de 2011. A metodologia adotada comportou uma pesquisa bibliográfica e documental, a partir de levantamento dos dados clínicos, biológicos e dosimétricos de populações envolvidas nesse tipo de evento. O referencial teórico da pesquisa foi o Decreto nº 2.210, de 22 de abril de 1997 que instituiu o Sistema de Proteção ao Programa Nuclear Brasileiro. Palavras chave: Acidentes Nucleares. Estratégia de Defesa. Prevenção de Acidentes. Central Nuclear Almirante Álvaro Alberto. ABSTRACT This monograph borders on an issue of utmost importance to our country due to the contribution of nuclear energy as a component of our energy matrix. It analyzed the current policy of prevention of nuclear accidents by Almirante Álvaro Alberto Nuclear Centre in Angra dos Reis, its redundant safety systems that protect not only the environment but also the health and physical integrity of its workers and the neighboring population to the Plants. The recent accident affecting the six plants in Fukushima Dai-ichi in Japan shows that not always do those who appear more prepared for this type of disaster, assess correctly what will happen and how to react effectively in the resolution of the problem. In the event of a nuclear accident, the country must be prepared to carry out certain actions and practices in order to minimize possible negative consequences. In Brazil, the structure responsible for the safety and security of nuclear activities is called "System for the Protection of Brazilian Nuclear Program" – SIPRON, which include, among others, the National Commission for Nuclear Energy – CNEMA – Electronuclear, Civil Defense, Ministry of Defence – MD – and the Brazilian Intelligence Agency – ABIN. As accidents can occur in all countries that use nuclear energy, after a brief review of their distribution worldwide, our concern will be on defense strategy of the CNAAA. Timeframe will be a valid research source with any publication or information age. As for space, it shall be a valid review of studies of past accidents such as the Three Mile Island in the USA in 1979, Chernobyl in the former USSR in 1986 and Cesium-137 in GoianiaGO, in 1987 – the latter being a radiological accident – as well as the earthquake and tsunami in Japan in March 2011. The methodology involved review of literature and documents aimed at obtaining theoretical basis, collecting clinical, biological and dosimetric data from populations involved in this type of event and analyzing the data obtained. Keywords: Nuclear Accidents. Defense Strategy. Accident Prevention. Central Nuclear Almirante Álvaro Alberto. LISTA DE ILUSTRAÇÕES FIGURA 1 Reator PWR .....................................................................................21 FIGURA 2 Reator BWR .....................................................................................22 FIGURA 3 Escala Internacional de Acidentes Nucleares (INES) .......................23 FIGURA 4 Three Mile Island..............................................................................24 FIGURA 5 Chernobyl atualmente ......................................................................27 FIGURA 6 Imagem de Satélite de Chernobyl da área atingida pelo acidente ...27 FIGURA 7 Avanço da radiação após o acidente ...............................................33 FIGURA 8 Vila abandonada nos arredores do acidente ....................................33 FIGURA 9 Sarcófago de Chernobyl ..................................................................34 FIGURA 10 Momento que o Tsunami atinge Fukushima .....................................37 FIGURA 11 A Usina totalmente alagada .............................................................38 FIGURA 12 Um mês após o acidente, estragos na Unidade 4............................39 FIGURA 13 Angra 1 ............................................................................................44 FIGURA 14 Angra 2 ............................................................................................45 FIGURA 15 Local de construção de Angra 3 .......................................................46 LISTA DE TABELAS Tabela 1 Tipos de Usinas Nucleares ....................................................................... 17 LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS ABIN Agência Brasileira de Inteligência AFEN Associação dos Físicos de Radioproteção e Segurança Nuclear AIEA Associação Internacional de Energia Atômica ANVISA Agência Nacional de Vigilância Sanitária CMRI Centro Médico de Radiações Ionizantes CNAAA Central Nuclear Almirante Álvaro Alberto CNEM Comissão Nacional de Energia Nuclear ENV Evento Não Usual FUSAR Fundação de Saúde de Angra IBAMA Instituto Brasileiro do Meio Ambiente INB Indústrias Nucleares do Brasil IPEA Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada ITA Instituto Tecnológico de Aeronáutica MD Ministério da Defesa NOS Operador Nacional do Sistema Elétrico PEL Plano de Emergência Local SAPÊ Sociedade Angrense de Proteção Ecológica SBF Sociedade Brasileira de Física SIPRON Sistema de Proteção ao Programa Nuclear Brasileiro TCU Tribunal de Contas da União TEPCO Tokio Eletric Power Company SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO ............................................................................................. 12 2 2.1 2.2 2.3 2.4 2.5 2.6 2.6.1 2.6.2 2.6.3 2.6.4 HISTÓRICO DA ATIVIDADE NUCLEAR ..................................................... 15 ENERGIA ATÔMICA ..................................................................................... 15 A GERAÇÃO DE ENERGIA NUCLEAR........................................................ 16 DISTRIBUIÇÃO MUNDIAL DAS USINAS..................................................... 17 APLICAÇÃO NA GERAÇÃO DE ENERGIA ELÉTRICA ............................... 18 TIPOS DE REATORES................................................................................. 19 REVISÃO DOS PRINCIPAIS ACIDENTES NUCLEARES ............................ 22 Three Miles Island....................................................................................... 24 Chernobyl .................................................................................................... 25 Goiânia – Césio 137 .................................................................................... 35 Fukushima ................................................................................................... 36 3 3.1 3.2 REPERCUSSÕES AMBIENTAIS E DE SAÚDE NOS ACIDENTES NUCLEARES ............................................................................................... 41 REPERCUSSÕES AMBIENTAIS.................................................................. 41 REPERCUSSÕES DE SAÚDE..................................................................... 42 4 4.1 4.2 4.2.1 O COMPLEXO NUCLEAR BRASLEIRO ..................................................... 44 AS USINAS .................................................................................................. 44 PLANO DE DEFESA DE ACIDENTES ......................................................... 48 Exercício geral do plano de emergência .................................................. 52 5 CONCLUSÃO............................................................................................... 54 REFERÊNCIAS ............................................................................................ 56 ANEXO A – MATRIZ ENERGÉTICA NUCLEAR MUNDIAL ....................... 58 ANEXO B – EFEITOS DA RADIAÇÃO NO ORGANISMO HUMANO ........ 59 ANEXO C – SISTEMA DE PROTEÇÃO AO PROGRAMA NUCLEAR BRASILEIRO – SIPRON ......................................................... 64 12 1 INTRODUÇÃO A descoberta da energia atômica em nosso século deveria ter sido uma bênção para a humanidade. E teria sido realmente, se ela tivesse se desenvolvido até aqui de maneira certa. Como não foi esse o caso, é claro que a descoberta dessa energia foi dirigida para caminhos errados. Daí nasceu a bomba atômica e os "aperfeiçoamentos" que se seguiram, como a bomba de hidrogênio, as armas nucleares táticas, os mísseis balísticos intercontinentais de ogivas múltiplas, a bomba de nêutrons, os mísseis lançados de submarinos, o projeto guerra nas estrelas, a bomba termonuclear de cobalto (aparentemente ainda não desenvolvida), que alguns cientistas temem poder deslocar o eixo da Terra se detonada, entre outros. Voltada para "fins pacíficos", como fazem questão de alardear todos os governos que detêm tecnologia nuclear, a energia atômica obtida das usinas nucleares é muito importante no mundo moderno. Os problemas com os rejeitos radioativos registrados até agora, demonstram que muitos cuidados devem ser considerados para que se evitem incidentes ou acidentes de vulto. Os tipos de acidentes que ocorrem nas instalações nucleares podem ser radiológicos ou radioativos, e possuem como principais características: Gerar campos com intensa radiação não direcional; Liberação não controlada de material radioativo em grandes quantidades; Contaminação do meio ambiente e/ou de seres humanos, causando sérios danos à saúde, inclusive a morte. CLASSIFICAÇÃO DE ACIDENTES ENVOLVENDO SERES HUMANOS IRRADIAÇÃO EXTERNA (RADIOEXPOSIÇÃO) corpo inteiro; parcial do corpo; e localizada. 13 CONTAMINAÇÃO (RADIOCONTAMINAÇÃO) externa (superfície); e interna (inalação/ingestão/injeção/absorção de pele ou ferimentos). COMBINADOS (MISTOS) Após um período de intenso desenvolvimento em escala internacional, a geração de energia elétrica a partir de fonte nuclear atravessou uma fase de baixo crescimento, em decorrência, principalmente, de (três) acidentes com usinas nucleares: Three Mile Island (EUA, 1979), Chernobyl (Ucrânia, 1986) e mais recentremente o de Fukushima Daí-ichi (Japão, 2011). Entretanto, as alterações climáticas do planeta, devido à emissão de gases causadores do efeito estufa produzidos, entre outros, pela operação de usinas termelétricas; a previsão de escassez de petróleo e a contínua elevação do seus preços; a necessidade de garantia de abastecimento de combustíveis; as instabilidades geopolíticas internacionais, e a necessidade de diversificação da matriz energética e de redução de fontes externas de abastecimento vêm motivando a reconsideração, em vários países, da viabilidade de incremento da utilização da energia nuclear. No caso das usinas nucleares, seus defensores argumentam que a usina nuclear produz energia elétrica “limpa”. Ou seja, não lança na atmosfera substâncias como o gás carbônico, que produzem o efeito estufa e provoca o aquecimento global, além de não ocupar grandes áreas para gerar energia com as hidrelétricas. Os críticos às usinas nucleares dizem que este processo de geração de energia elétrica é caro, perigoso e ultrapassado. Salientam que os rejeitos se constituem num problema caro, perigoso e sem solução, pois o custo de segurança não justifica o seu investimento, e ainda será deixado como herança para as gerações futuras. Em comparação com as usinas hidrelétricas, as nucleares são mais onerosa devido aos investimentos em segurança, sistemas de emergência, armazenamento de resíduos radioativos, bem como o seu descomissionamento, isto é, a desmontagem definitiva e descontaminação das instalações quando atingirem o limite de suas vidas úteis. Mesmo considerando que as hidrelétricas demandam uma série de impactos sociais e ambientais com a inundação de grandes áreas e o deslocamento de populações. 14 Entretanto, o problema em questão é verificar se em caso de um acidente nuclear na CNAAA, as medidas previstas nos Sistemas Redundantes de Segurança serão eficientes para reduzir possíveis danos. Portanto, o objetivo geral desta monografia é analisar a estratégia de defesa e a eficiência dos Sistemas Redundantes de Segurança da CNAAA que impeçam a liberação de radiação para o meio ambiente e protejam a saúde e integridade física de seus funcionários ou residem no seu entorno. Para o desenvolvimento do trabalho serão utilizadas duas questões norteadoras, que são: Será que no nosso país pode ocorrer um acidente nuclear nas proporções do ocorrido em Fukushima Daí-ichi, no Japão? No caso de um acidente nuclear na CNAAA, os Sistemas Redundantes de Segurança serão suficientes para evitar grandes danos como em Fukushima Daíichi, no Japão? Inicialmente, será feito um histórico da atividade nuclear, como funcionam e qual a distribuição mundial das Usinas Nucleares, descrevendo os tipos de reatores mais utilizados. Na seqüência, abordaremos também os principais acidentes nucleares acontecidos ao longo da História. Posteriormente, trataremos das repercussões para a Saúde e para o Meio Ambiente, nos casos de exposição nuclear. A seguir, será tratada a estratégia de defesa de uma forma geral, com destaque para o acidente em Fukushima Daí-ichi e como está a ação da Secretaria Nacional de Defesa Civil em articulação com as defesas civis estadual e municipal em relação à CNAAA. Falaremos também sobre o SIPRON e finalmente serão analisadas as questões norteadoras bem como as conclusões fruto do trabalho de pesquisa. A análise do plano de emergência permite avaliar a sua eficácia e identificar os pontos onde podemos contribuir para sua melhora. Predominou a pesquisa qualitativa quanto à natureza e exploratória quanto ao objetivo geral. Face ao tempo limitado foram utilizados dados estatísticos, de literatura sobre o tema e dados da internet. A identificação de um plano efetivo de segurança para a CNAAA e a procura de aspectos relevantes que possam melhorar o que já está implantado, foi perseguido todo o tempo na execução deste TCC. 15 2 HISTÓRICO DA ATIVIDADE NUCLEAR 2.1 ENERGIA ATÔMICA A história do uso da energia do átomo tem início em 1895 quando o alemão Wilheim Konrad Roentgen (1845-1923) revela a existência dos raios X. O “x” no caso foi a expressão adotada por ele para expressar sua ignorância (uma incógnita, portanto) quanto ao que era essa energia invisível capaz de atravessar o corpo humano e revelar os ossos. Três anos depois o inglês Joseph-John Thomson (1856-1940) percebeu que a energia elétrica se propaga graças a transmissão de partículas que ele batizou de elétrons. Em 1907 a teoria da relatividade, esboçada por Albert Einstein dois anos antes, ganha uma formulação matemática mais eficiente, feita pelo alemão Hermann Minkowski. Desta forma fica mais fácil analisar teoricamente o que acontece nas dimensões atômicas e cósmicas. Ernest Rutherford, neozeolandes nascido em 1871, e o dinamarquês Niels Bohr (1885-1962), estabelecem um modelo para o átomo: com um núcleo e elétrons girando à sua volta. Este modelo sofreria alterações, com a descoberta, no futuro, de novas partículas. Em 1927 as convicções sobre o átomo são abaladas e geram uma suspeição sobre todas as experiências feitas com ele. O alemão Werner Carl Heinsenberg (1901-1976) define o Princípio da incerteza. Ele diz que não é possível medir com exatidão, ao mesmo tempo, a velocidade e a posição dos átomos – os valores se alteram quando submetidos à medição. Somente em 1934 o italiano Enrico Fermi (1901-1954) descobre a existência de uma força nuclear. O japonês Hideki Yukawa (1907-1981) descobre que existe uma força nuclear que gruda as partículas subatômicas. Quatro anos depois os físico-químicos alemães Otto Hahn (1879-1968) e Lise Meitner (1876-1968) realizam a fissão do núcleo do urânio, abrindo a possibilidade de geração de energia atômica. O mundo conheceu o poder destruidor da energia atômica em 1945, quando os Estados Unidos lançaram duas bombas sobre as cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki. A segunda guerra já estava ganha pelos aliados, mas era 16 preciso testar o novo artefato. E isso foi feito pelos norte-americanos, matando mais de 150 mil civis. O grupo que levou os Estados Unidos à bomba e daí ao massacre da população japonesa foi liderado pelo físico Robert Oppenheimer, e tinha Enrico Fermi e outros cientistas, entre os seus colaboradores. 2.2 A GERAÇÃO DE ENERGIA NUCLEAR A energia elétrica é obtida de fonte nuclear a partir do calor da reação do combustível (urânio) utilizando o princípio básico de funcionamento de uma usina térmica convencional: a queima do combustível produz calor, esse ferve a água de uma caldeira transformando-a em vapor. O vapor movimenta uma turbina que, por sua vez, dá partida a um gerador que produz a eletricidade. O combustível “queimado” no caso é a energia de coesão dos prótons no núcleo. Para entender como isso ocorre, é preciso conhecer um pouco os átomos. No urânio presente na natureza são encontrados átomos que têm em seu núcleo 92 prótons e 143 nêutrons (cuja soma dá 235); átomos com 92 prótons e 142 nêutrons (234); e outros ainda, com 92 prótons e 146 nêutrons (238). Como os prótons e elétrons são em número igual (92), podemos dizer que esses átomos são quimicamente iguais e os chamaremos de isótopos (“iso”= iguais) do mesmo elemento, isto é, do urânio. Para diferenciá-los, usa-se o símbolo químico do elemento e um número, de acordo com seu peso atômico: Isótopo U-234, Isótopo U-235 e Isótopo U-238. O choque de um nêutron livre com o isótopo U-235 causa a divisão do núcleo desse isótopo em duas partes - dois outros átomos - e ocasiona uma liberação relativamente alta de energia. Dá-se a esse fenômeno o nome de fissão nuclear. A fissão nuclear ocasiona a transformação da matéria em energia, através da divisão do isótopo U-235. Por que o U-235 e não o U-234 ou o U-238? Quando a fissão do isótopo U-235 ocorre o núcleo divide-se em duas partes formando dois elementos novos, e dele se desprendem 2 ou 3 nêutrons que, por seu turno, podem chocar-se com outro núcleo de U-235 acarretando nova fissão, novos 17 elementos são formados, provocando uma seqüência de fissões denominada reação nuclear em cadeia. Somente o U-235 na natureza tem a propriedade de se fissionar e portanto, sustentar uma reação em cadeia. O aproveitamento e o controle dessa energia liberada são feitos dentro de reatores nucleares que, nas usinas nucleares, fazem o mesmo papel que a caldeira desempenha nas usinas térmicas comuns. A fim de otimizar as reações nucleares, costuma-se enriquecer o urânio antes do seu uso nos reatores. Esta operação consiste simplesmente em aumentar o teor do Isótopo U-235 (o único que se fissiona) na mistura de isótopos do urânio natural (U-234, U-235 e U-238). 2.3 DISTRIBUIÇÃO MUNDIAL DAS USINAS As usinas nucleares participam em torno de 16% do total da energia elétrica produzida no mundo, embora correspondam apenas de 12% da capacidade elétrica instalada. Isso indica que a maior parte das usinas nucleares opera com fatores de utilização superiores aos das usinas elétricas convencionais. O quadro a seguir mostra a matriz energética mundial. Tabela 1: Participação mundial dos diversos tipos de Usinas (Nucleares) TIPO DE USINA PARTICIPAÇÃO (%) Carvão 40,1 Gás 19,4 Hidrelétricas 15,9 Nuclear 15,8 Óleo 6,9 Outros 1,9 TOTAL 100,0 Fonte: Agência Internacional de Energia Atômica – AIEA Temos ainda no Anexo A o quadro contendo a participação da energia nuclear na matriz energética dos países que a utilizam. 18 2.4 APLICAÇÃO NA GERAÇÃO DE ENERGIA ELÉTRICA A energia elétrica é essencial ao desenvolvimento sócio-econômico dos países. É sinônimo de melhor qualidade de vida. A sua importância decorre principalmente das seguintes razões: É facilmente transportável. Pode ser produzida no local mais conveniente e transmitida para consumidores distantes por uma simples rede de condutores (fios); É facilmente transformável em outras formas de energia. Exemplo: calor, luz, movimento; e É elemento fundamental para a ocorrência de muitos fenômenos físicos e químicos que formam a base de operação de máquinas, equipamentos, etc., dos tempos atuais. Exemplo: eletromagnetismo, efeito termiônico, efeito semicondutor, fotovoltaico, oxidação e redução, etc. Existem várias formas de se gerar energia elétrica. Mas, em se tratando de geração comercial de energia elétrica, as opções ficam reduzidas à geração termelétrica, hidroelétrica, solar e eólica. A geração termelétrica é a mais largamente empregada no mundo. Existem, basicamente, três formas de produção de energia elétrica por este meio: 1ª) a queima de um combustível fóssil (carvão e derivados de petróleo) diretamente em um motor produz movimento em uma turbina, daí transmitido a um gerador que produz energia elétrica; 2ª) a queima do combustível (fóssil ou biomassa) aquece uma caldeira, o vapor da caldeira aciona turbinas (a vapor) que, por sua vez, movem o gerador de energia elétrica; e 3ª) a geração termonuclear, que deve ser entendida como uma termelétrica a vapor, que usa um reator nuclear como fonte de calor para aquecer as caldeiras. Como em qualquer usina termoelétrica a vapor, nas usinas termonucleares, o calor é usado para vaporizar água. O vapor é forçado a passar pelas pás de uma 19 turbina e a girá-la. Assim, a energia térmica é transformada em energia mecânica de rotação. O eixo da turbina aciona um gerador, que transforma a energia mecânica em energia elétrica. O processo de geração de energia elétrica a partir da energia nuclear, então, pode ser esquematizado em três passos: No reator: transformação da energia nuclear em energia térmica, através da reação nuclear em cadeia; Na turbina: transformação da energia térmica em energia mecânica, através da ação do vapor d’água aquecido; e No gerador: transformação da energia mecânica em energia elétrica. Na geração hidrelétrica a energia potencial de uma queda d’água é usada para acionar turbinas que, por sua vez, acionam os geradores elétricos. Na geração solar, em geral, a energia da radiação solar é convertida diretamente em eletricidade com o uso de células fotovoltaicas. A potência obtida – conforme a tecnologia atual - é baixa, e há necessidade de acumuladores (baterias) para suprir picos de demanda e fornecer energia durante a noite. É empregada principalmente para suprir pequenas unidades residenciais em zonas rurais distantes das redes elétricas. No método eólico, a força dos ventos aciona pás que giram geradores. A viabilidade de sua implantação depende das características de vento na região. Em alguns países sua participação vem aumentando, devido à possibilidade de se obter quantidades razoáveis de energia sem impactos ambientais significativos. 2.5 TIPOS DE REATORES Existem muitas combinações de materiais e disposições possíveis para se construir um reator nuclear operacional. Devido a isso, temos várias classificações para os tipos de reatores: a) quanto à finalidade: reatores de pesquisa e desenvolvimento, destinados a pesquisa e não objetivam a produção de energia elétrica. São úteis na produção de radio-isótopos, utilizados em aplicações medicas, por exemplo; 20 reatores de produção e reatores de potencia são usados para o aproveitamento dos materiais férteis (U-238 e Th-232), a partir dos quais são fabricados os elementos físseis. Existem poucos reatores desse tipo. Podem ser facilmente adaptados para produção de combustível nuclear para armas; e reatores de potência são os utilizados para produção de energia elétrica. Existem reatores fixos (os das centrais nucleares) e os móveis, utilizados em navios e submarinos. b) quanto à combinação moderador e refrigerante: Existem diversas combinações possíveis de moderador e refrigerante, destacando-se: Moderador .................................................... Refrigerante Água leve ...................................................... Água leve Água pesada ................................................ Dióxido de carbono Grafite ........................................................... Hélio Berílio ........................................................... Sódio líquido c) quanto ao combustível: O urânio com teor de U-235 variando do urânio natural (0,7%) a levemente enriquecido (3%) a altamente enriquecido (90%) é empregado em vários reatores, com o enriquecimento dependendo do conjunto. Os nuclídeos físseis Pu-239 e U233 são produzidos e consumidos em reatores contendo quantidades significativas de U-238 ou Th-232. O Pu-239 serve como combustível para reatores rápidos regeneradores e podem ser reciclados como combustível para reatores térmicos. O combustível pode ter várias apresentações físicas: metal ou liga, composto UO2. d) quanto à disposição: Pode-se isolar o combustível do refrigerante, formando a chamada disposição heterogênea, que é a mais utilizada. Outras disposições são as chamadas homogêneas, onde se tem a mistura de combustível e moderador ou combustível e moderador-refrigerador. 21 e) quanto aos materiais estruturais: As várias funções num reator são usadas para dar nome a certo tipo de reator. Alguns dos reatores de potencia mais utilizados são o PWR ou BWR. O PWR – iniciais da expressão inglesa Pressurized Water Reactor (reator a água pressurizada) foi desenvolvido inicialmente pela Westinghouse e utiliza água leve pressurizada como moderador e arrefecedor, como pode ser visto na figura a seguir. Os reatores instalados na CNAAA são desse modelo. Figura 1: Reator PWR Fonte: GLASSTONE, Samuel (Bibliografia) O BWR – iniciais da expressão inglesa Boiling Water Reactor (reator a água fervente) desenvolvido pela General Eletric, utiliza água leve como moderador e arrefecedor, e pode ser visto na figura a seguir. 22 Figura 2: Reator BWR Fonte: GLASSTONE, Samuel (Bibliografia) 2.6 REVISÃO DOS PRINCIPAIS ACIDENTES NUCLEARES Em alguns casos uma contaminação radioativa acontece, mas em muitos casos o acidente envolve uma fonte selada ou a libertação de radioatividade é pequena, enquanto a radiação direta é grande. Devido à confidencialidade do governo e da indústria, nem sempre é possível determinar com certeza a freqüência ou a extensão de alguns eventos no início da história da indústria nuclear. Nos dias atuais, acidentes e incidentes que resultem em ferimentos, mortes ou séria contaminação ambiental tendem a ser melhores documentados pela Agência Internacional de Energia Atómica. Devido à diferente natureza dos eventos, é melhor dividi-los em acidentes “nucleares” e "de radiação”. Um exemplo de acidente nuclear pode ser aquele no qual o núcleo do reator é danificado, tal como em Three Mile Island, enquanto um acidente de radiação pode ser um evento de acidente de Medicina Nuclear, onde um trabalhador derruba a fonte de radiação (a substância radioativa: o radionucleotídeo) num rio. Estes acidentes de radiação, tais como aqueles envolvendo fontes de radiação, como os radionucleotídeos usados para a elaboração de radiofármacos, frequentemente têm tanta ou mais probabilidade de causar sérios danos aos 23 trabalhadores e ao público quanto os bem conhecidos acidentes nucleares, possivelmente porque dispositivos de Tomografia por emissão de positrões (PET), a cintilografia e a radioterapia (braquiterapia), designadamente, estão presentes em muitos dos hospitais e o público em geral desconhece seus riscos. Foi o caso, por exemplo, do acidente radiológico em Goiânia, com o césio-137. Acidentes de radiação são mais comuns que acidentes nucleares, e são freqüentemente de escala limitada. Por exemplo, no Centro de Pesquisa Nuclear de Soreq, um trabalhador sofreu uma dose que era similar à mais alta dose sofrida por um trabalhador no local do acidente nuclear de Chernobil no primeiro dia. Porém, devido ao fato de que a fonte gama não era capaz de passar o invólucro de concreto de dois metros de espessura, ela não foi capaz de ferir muitos outros. A Escala Internacional de Acidentes Nucleares (mais conhecida pelas suas siglas, INES) foi introduzida pela OIEA para permitir a comunicação sem falta de informação importante de segurança em caso de acidentes nucleares e facilitar o conhecimento dos meios de comunicação e a população de sua importância em matéria de segurança. Definiu-se um número de critérios e indicadores para assegurar a informação coerente de acontecimentos nucleares por diferentes autoridades oficiais. Há 7 níveis na escala, como mostra a figura 3: 7 Acidente grave 6 Acidente importante 5 Acidente com risco fora da localização 4 Acidente sem risco fora da localização 3 Incidente importante 2 Incidente 1 Anomalia 0 Desvio (Sem significação para a segurança) Figura 3: Escala Internacional de Acidentes Nucleares (INES) Fonte: Agência Internacional de Energia Atômica - AIEA 24 Os acontecimentos de nível 1 - 3, sem consequência significativa sobre a população e o meio ambiente, qualificam-se de incidentes, os níveis superiores (4 a 7), de acidentes. O último nível corresponde a um acidente cuja gravidade é comparável ao ocorrido em 26 de abril de 1986 na central nuclear de Chernobil e ao de 11 de Março de 2011 na central nuclear de Fukushima. 2.6.1 Three Mile Island Three Mile Island é a localização de uma central nuclear que em 28 de Março de 1979 sofreu uma fusão parcial, havendo vazamento de radioatividade para a atmosfera. A central nuclear de Three Mile Island fica na ilha no Rio Susquehanna no condado de Dauphin, próximo de Harrisburg, com uma área de 3,29 km², e pode ser vista na figura 4. Figura 4: Three Mile Island Fonte: http://www.threemileisland.org O acidente ocorrido em 28 de março de 1979, na usina nuclear de Three Mile Island, Pensilvânia nos Estados Unidos, foi causado devido a falhas no sistema e erro operacional. Houve corte de custos que afetaram economicamente a 25 manutenção e uso de materiais inferiores. Mas, principalmente apontaram-se erros humanos, com decisões e ações erradas tomadas por pessoas despreparadas. O acidente desencadeou-se pelos problemas mecânico e elétrico que ocasionaram a parada de uma bomba de água que alimentava o gerador de vapor, que acionou certas bombas de emergência que tinham sido deixadas fechadas. O núcleo do reator começou a se aquecer e parou e a pressão aumentou. Uma válvula abriu-se para reduzir a pressão que voltou ao normal. Mas a válvula permaneceu aberta, ao contrário do que o indicador do painel de controle assinalava. Então, a pressão continuou a cair e seguiu-se uma perda de líquido refrigerante ou água radioativa: 1,5 milhão de litros de água foram lançados no rio Susquehanna. Gases radioativos escaparam e atingiram a atmosfera. Outros elementos radioativos atravessaram as paredes. Um dia depois foi medido a radioatividade em volta da usina que alcançava até 16 quilômetros com intensidade de até 8 vezes maior que a letal. Apesar disso,o governador do estado da Pensilvânia iniciou a retirada só dois dias depois do acidente. O governador Dick Thornburgh aconselhou o chefe da NRC, Joseph Hendrie, a iniciar a evacuação "pelas mulheres grávidas e crianças em idade préescolar em um raio de 5 milhas ao redor das intalações". Em poucos dias, 140.000 pessoas haviam deixado a área voluntariamente. 2.6.2 Chernobyl O acidente nuclear de Chernobil ocorreu dia 26 de abril de 1986, na Usina Nuclear de Chernobil (originalmente chamada Vladimir Lenin) na Ucrânia (então parte da União Soviética). É considerado o pior acidente nuclear da história da energia nuclear, produzindo uma nuvem de radioatividade que atingiu a União Soviética, Europa Oriental, Escandinávia e Reino Unido, com a liberação de 400 vezes mais contaminação que a bomba que foi lançada sobre Hiroshima. [1] Grandes áreas da Ucrânia, Bielorrússia e Rússia foram muito contaminadas,[2] resultando na evacuação e reassentamento de aproximadamente 200 mil pessoas. Cerca de 60% de radioatividade caiu em território bielorrusso. O acidente fez crescer preocupações sobre a segurança da indústria nuclear soviética, diminuindo sua expansão por muitos anos, e forçando o governo soviético a ser menos secreto. Nos dias atuais, a Rússia, a Ucrânia e a Bielorrússia têm 26 suportado um contínuo e substancial custo de descontaminação e cuidados de saúde devidos ao acidente de Chernobil. É difícil dizer com precisão o número de mortos causados pelos eventos de Chernobil, devido às mortes esperadas por câncer, que ainda não ocorreram e são difíceis de atribuir especificamente ao acidente. Um relatório da Organização das Nações Unidas de 2005 atribuiu 56 mortes até aquela data – 47 trabalhadores acidentados e nove crianças com câncer da tireóide – e estimou que cerca de 4000 pessoas morrerão de doenças relacionadas com o acidente.[2] O Greenpeace, entre outros, contesta as conclusões do estudo. O governo soviético procurou esconder o ocorrido da comunidade mundial, até que a radiação em altos níveis foi detectada em outros países. Segue um trecho do pronunciamento do líder da União Soviética, na época do acidente, Mikhail Gorbachev, quando o governo admitiu a ocorrência: “Boa tarde, meus camaradas. Todos vocês sabem que houve um inacreditável erro – o acidente na usina nuclear de Chernobyl. Ele afetou duramente o povo soviético, e chocou a comunidade internacional. Pela primeira vez, nós confrontamos a força real da energia nuclear, fora de controle.” A usina de Chernobil está situada no assentamento de Pripyat, Ucrânia, 18 quilômetros a noroeste da cidade de Chernobil, 16 quilômetros da fronteira com a Bielorrússia, e cerca de 110 quilômetros ao norte de Kiev. A usina era composta por quatro reatores, cada um capaz de produzir um gigawatt de energia elétrica (3,2 gigawatts de energia térmica). Em conjunto, os quatro reatores produziam cerca de 10% da energia elétrica utilizada pela Ucrânia na época do acidente. A construção da instalação começou na década de 1970, com o reator nº 1 comissionado em 1977, seguido pelo nº 2 (1978), nº 3 (1981), e nº 4 (1983). Dois reatores adicionais (nº 5 e nº 6, também capazes de produzir um gigawatt cada) estavam em construção na época do acidente. As quatro unidades geradoras usavam um tipo de reator chamado RBMK-1000.[3] As figuras 5 e 6 mostram o estado atual das estalações da usina de Chernobil já desativada e a imagem de satélite da área atingida. 27 Figura 5: Chernobyl atualmente Fonte: Stone, Richard – Inside Chernobyl. National Geographic Figura 6: Imagem de Satélite de Chernobyl da área atingida pelo acidente Fonte: Stone, Richard – Inside Chernobyl. National Geographic Sábado, 26 de abril de 1986, à 1:23:58 a.m. hora local, o quarto reator da usina de Chernobil - conhecido como Chernobil-4 - sofreu uma catastrófica explosão de vapor que resultou em incêndio, uma série de explosões adicionais, e um derretimento nuclear. Há duas teorias oficiais, mas contraditórias, sobre a causa do acidente. A primeira foi publicada em agosto de 1986, e atribuiu a culpa, exclusivamente, aos 28 operadores da usina. A segunda teoria foi publicada em 1991 e atribuiu o acidente a defeitos no projeto do reator RBMK, especificamente nas hastes de controle. Ambas teorias foram fortemente apoiadas por diferentes grupos, inclusive os projetistas dos reatores, pessoal da usina de Chernobil, e o governo. Alguns especialistas independentes agora acreditam que nenhuma teoria estava completamente certa. Na realidade o que aconteceu foi uma conjunção das duas, sendo que a possibilidade de defeito no reator foi exponencialmente agravado pelo erro humano. Porém o fator mais importante foi que Anatoly Dyatlov, engenheiro chefe responsável pela realização de testes nos reatores, mesmo sabendo que o reator era perigoso em algumas condições e contra os parâmetros de segurança dispostos no manual de operação, levou a efeito intencionalmente a realização de um teste de redução de potência que resultou no desastre. A gerência da instalação era composta em grande parte de pessoal não qualificado em RBMK: o diretor, V.P. Bryukhanov, tinha experiência e treinamento em usina termo-elétrica a carvão. Seu engenheiro chefe, Nikolai Fomin, também veio de uma usina convencional. O próprio Anatoli Dyatlov, ex-engenheiro chefe dos Reatores 3 e 4, somente tinha "alguma experiência com pequenos reatores nucleares". Em particular: O reator tinha um fração de vazio positivo perigosamente alto. Dito de forma simples, isto significa que se bolhas de vapor se formam na água de resfriamento, a reação nuclear se acelera, levando à sobrevelocidade se não houver intervenção. Pior, com carga baixa, este coeficiente a vazio não era compensado por outros fatores, os quais tornavam o reator instável e perigoso. Os operadores não tinham conhecimento deste perigo e isto não era intuitivo para um operador não treinado; Um defeito mais significativo do reator era o projeto das hastes de controle. Num reator nuclear, hastes de controle são inseridas no reator para diminuir a reação. Entretanto, no projeto do reator RBMK, as pontas das hastes de controle eram feitas de grafite e os extensores (as áreas finais das hastes de controle acima das pontas, medindo um metro de comprimento) eram ocas e cheias de água, enquanto o resto da haste - a parte realmente funcional que absorve os nêutrons e portanto pára a reação - era feita de carbono-boro. Com este projeto, quando as hastes eram inseridas no reator, as pontas de grafite deslocavam uma 29 quantidade do resfriador (água). Isto aumenta a taxa de fissão nuclear, uma vez que o grafite é um moderador de nêutrons mais potente. Então nos primeiros segundos após a ativação das hastes de controle, a potência do reator aumenta, em vez de diminuir, como desejado. Este comportamento do equipamento não é intuitivo (ao contrário, o esperado seria que a potência começasse a baixar imediatamente), e, principalmente, não era de conhecimento dos operadores; e Os operadores violaram procedimentos, possivelmente porque eles ignoravam os defeitos de projeto do reator. Também muitos procedimentos irregulares contribuíram para causar o acidente. Um deles foi a comunicação ineficiente entre os escritórios de segurança (na capital, Kiev) e os operadores encarregados do experimento conduzido naquela noite. É importante notar que os operadores desligaram muitos dos sistemas de proteção do reator, o que era proibido pelos guias técnicos publicados, a menos que houvesse mau funcionamento. De acordo com o relatório da Comissão do Governo, publicado em agosto de 1986, os operadores removeram pelo menos 204 hastes de controle do núcleo do reator (de um total de 211 deste modelo de reator). O guia já mencionado proibia a operação do RBMK-1000 com menos de 15 hastes dentro da zona do núcleo. Dia 25 de abril de 1986, o reator da Unidade 4 estava programado para ser desligado para manutenção de rotina. Foi decidido usar esta oportunidade para testar a capacidade do gerador do reator para gerar suficiente energia para manter seus sistemas de segurança (em particular, as bombas de água) no caso de perda do suprimento externo de energia. Reatores como o de Chernobil têm um par de geradores diesel disponível como reserva, mas eles não são ativados instantaneamente – o reator é portanto usado para partir a turbina, a um certo ponto a turbina seria desconectada do reator e deixada a rodar sob a força de sua inércia rotacional, e o objetivo do teste era determinar se as turbinas, na sua fase de queda de rotação, poderiam alimentar as bombas enquanto o gerador estivesse partindo. O teste foi realizado com sucesso previamente em outra unidade (com as medidas de proteção ativas) e o resultado foi negativo, isto é, as turbinas não geravam suficiente energia, na fase de queda de rotação, para alimentar as bombas, mas melhorias adicionais foram feitas nas turbinas, o que levou à necessidade de repetir os testes. 30 A potência de saída do reator 4 devia ser reduzida de sua capacidade nominal de 3,2 GW para 700 MW a fim de realizar o teste com baixa potência, mais segura. Porém, devido à demora em começar a experiência, os operadores do reator reduziram a geração muito rapidamente, e a saída real foi de somente 30 MW. Como resultado, a concentração de nêutrons absorvendo o produto da fissão, xenon-135, aumentou (este produto é tipicamente consumido num reator em baixa carga). Embora a escala de queda de potência estivesse próxima ao máximo permitido pelos regulamentos de segurança, a gerência dos operadores decidiu não desligar o reator e continuar o teste. Ademais, foi decidido abreviar o experimento e aumentar a potência para apenas 200 MW. A fim de superar a absorção de neutrons do excesso de xenon-135, as hastes de controle foram puxadas para fora do reator mais rapidamente que o permitido pelos regulamentos de segurança. Como parte do experimento, à 1:05 de 26 de abril, as bombas que foram alimentadas pelo gerador da turbina foram ligadas; o fluxo de água gerado por essa ação excedeu o especificado pelos regulamentos de segurança. O fluxo de água aumentou à 1:19 – uma vez que a água também absorve nêutrons. Este adicional incremento no fluxo de água requeria a remoção manual das hastes de controle, produzindo uma condição de operação altamente instável e perigosa. À 1:23, o teste começou. A situação instável do reator não se refletia, de nenhuma maneira, no painel de controle, e não parece que algum dos operadores estivesse totalmente consciente do perigo. A energia para as bombas de água foi cortada, e como elas foram conduzidas pela inércia do gerador da turbina, o fluxo de água decresceu. A turbina foi desconectada do reator, aumentando o nível de vapor no núcleo do reator. À medida que o líquido resfriador aquecia, bolsas de vapor se formavam nas linhas de resfriamento. O projeto peculiar do reator moderado a grafite RBMK em Chernobil tem um grande coeficiente de vazio positivo, o que significa que a potência do reator aumenta rapidamente na ausência da absorção de nêutrons da água, e nesse caso a operação do reator torna-se progressivamente menos estável e mais perigosa. À 1:23 os operadores pressionaram o botão AZ-5 (Defesa Rápida de Emergência 5) que ordenou uma inserção total de todas as hastes de controle, incluindo as hastes de controle manual que previamente haviam sido retiradas sem cautela. Não está claro se isso foi feito como medida de emergência, ou como uma simples método de rotina para desligar totalmente o reator após a conclusão do 31 experimento (o reator estava programado para ser desligado para manutenção de rotina). É usualmente sugerido que a parada total foi ordenada como resposta à inesperada subida rápida de potência. Por outro lado Anatoly Syatlov, engenheiro chefe da usina Nuclear de Chernobil na época do acidente, escreveu em seu livro: “Antes de 01:23, os sistemas do controle central... não registravam nenhuma mudança de parâmetros que pudessem justificar a parada total. A Comissão... juntou e analisou grande quantidade de material, e declarou em seu relatório que falhou em determinar a razão pela qual a parada total foi ordenada. Não havia necessidade de procurar pela razão. O reator simplesmente foi desligado após a conclusão do experimento.” Devido à baixa velocidade do mecanismo de inserção das hastes de controle (20 segundos para completar), as partes ocas das hastes e o deslocamento temporário do resfriador, a parada total provocou o aumento da velocidade da reação. O aumento da energia de saída causou a deformação dos canais das hastes de controle. As hastes travaram após serem inseridas somente um terço do caminho, e foram portanto incapazes de conter a reação. Por volta de 1:23:47, o a potência do reator aumentou para cerca de 30GW, dez vezes a potência normal de saída. As hastes de combustível começaram a derreter e a pressão de vapor rapidamente aumentou causando uma grande explosão de vapor, deslocando e destruindo a cobertura do reator, rompendo os tubos de resfriamento e então abrindo um buraco no teto. Para reduzir custos, e devido a seu grande tamanho, o reator foi construído com somente contenção parcial. Isto permitiu que os contaminantes radioativos escapassem para a atmosfera depois que a explosão de vapor queimou os vasos de pressão primários. Depois que parte do teto explodiu, a entrada de oxigênio – combinada com a temperatura extremamente alta do combustível do reator e do grafite moderador – produziu um incêndio da grafite. Este incêndio contribuiu para espalhar o material radioativo e contaminar as áreas vizinhas. Há alguma controvérsia sobre a exata sequência de eventos após 1:22:30 (hora local) devido a inconsistências entre declaração das testemunhas e os registros da central. A versão mais comumente aceita é descrita a seguir. De acordo a esta teoria, a primeira explosão aconteceu aproximadamente à 1:23:47, sete segundos após o operador ordenar a parada total. É algumas vezes afirmado que a explosão aconteceu antes ou imediatamente em seguida à parada total (esta é a 32 versão do Comitê Soviético que estudou o acidente). Esta distinção é importante porque, se o reator tornou-se crítico vários segundos após a ordem de parada total, esta falha seria atribuída ao projeto das hastes de controle, enquanto a explosão simultânea à ordem de parada total seria atribuída à ação dos operadores. De fato, um fraco evento sísmico foi registrado na área de Chernobil à 1:23:39. Este evento poderia ter sido causado pela explosão ou poderia ser coincidente. A situação é complicada pelo fato de que o botão de parada total foi pressionado mais de uma vez, e a pessoa que o pressionou morreu duas semanas após o acidente, envenenada pela radiação. 26 de abril de 1986 - Acidente no reator 4, da Central Elétrica Nuclear de Chernobil. Aconteceu à noite, entre 25 e 26 de abril de 1986, durante um teste. A equipe operacional planejou testar se as turbinas poderiam produzir energia suficiente para manter as bombas do líquido de refrigeração funcionando, no caso de uma perda de potência, até que o gerador de emergência, a óleo diesel, fosse ativado. Para prevenir o bom andamento do teste do reator, foram desligados os sistemas de segurança. Para o teste, o reator teve que ter sua capacidade operacional reduzida para 25%. Este procedimento não saiu de acordo com planejado. Por razões desconhecidas, o nível de potência de reator caiu para menos de 1% e por isso a potência teve que ser aumentada. Mas 30 segundos depois do começo do teste, houve um aumento de potência repentina e inesperada. O sistema de segurança do reator, que deveria ter parado a reação de cadeia, falhou. Em frações de segundo, o nível de potência e temperatura subiram em demasia. O reator ficou descontrolado. Houve uma explosão violenta. A cobertura de proteção, de 1000 toneladas, não resistiu. A temperatura de mais de 2000°C, derreteu as hastes de controle. A grafite que cobria o reator pegou fogo. Material radiativo começou a ser lançado na atmosfera. de 26 de abril até 4 de maio de 1986 - a maior parte da radiação foi emitida nos primeiros dez dias. Inicialmente houve predominância de ventos norte e noroeste. No final de abril o vento mudou para sul e sudeste. As chuvas locais frequentes fizeram com que a radiação fosse distribuída local e regionalmente. Na figura 6, pode-se verificar o avanço da radiação após o acidente. 33 Figura 7: Avanço da radiação após o acidente Fonte: Revista Átomo, Número 86, Janeiro/2006 de 27 de abril a 5 de maio de 1986 - aproximadamente 1800 helicópteros jogaram cerca de 5000 toneladas de material extintor, como areia e chumbo, sobre o reator que ainda queimava. 27 de abril de 1986 - os habitantes da cidade de Pripyat foram evacuados. A figura 7 mostra a situação de uma residência no entorno do local do acidente. Figura 8: Vila abandonada nos arredores do acidente Fonte: Stone, Richard – Inside Chernobyl. National Geographic 34 28 de abril 1986, 23 horas - um laboratório de pesquisas nucleares da Dinamarca anunciou a ocorrência do acidente nuclear em Chernobil. 29 de abril de 1986 - o acidente nuclear de Chernobil foi divulgado como notícia pela primeira vez, na Alemanha; até 5 de maio 1986 - durante os 10 dias após o acidente, 130 mil pessoas foram evacuadas; 6 de maio de 1986 - cessou a emissão radioativa; de 15 a 16 de maio de 1986 - novos focos de incêndio e emissão radioativa; 23 de maio de 1986 - o governo soviético ordenou a distribuição de solução de iodo à população; Novembro de 1986 - o "sarcófago" que abriga o reator foi concluído, como mostra a figura 8. Ele destina-se a absorver a radiação e conter o combustível remanescente. Figura 9: “Sarcófago de Chernobyl” Fonte: Stone, Richard – Inside Chernobyl . National Geographic Considerado uma medida provisória e construído para durar de 20 a 30 anos, seu maior problema é a falta de estabilidade, pois, como foi construído às pressas, há risco de ferrugem nas vigas; 1989 - o governo russo embargou a construção dos reatores 5 e 6 da usina; e 12 de dezembro de 2000 - depois de várias negociações internacionais, a usina de Chernobil foi desativada. 35 2.6.3 Goiânia – Césio 137 O acidente radiológico de Goiânia, amplamente conhecido como acidente com o Césio-137, foi um grave episódio de contaminação por radioatividade ocorrido no Brasil. A contaminação teve início em 13 de setembro de 1987, quando um aparelho utilizado em radioterapias das instalações de um hospital abandonado foi encontrado, na zona central de Goiânia, no estado de Goiás. Foi classificado como nível 5 na Escala Internacional de Acidentes Nucleares. O instrumento, irresponsavelmente deixado no hospital, foi encontrado por catadores de um ferro velho do local, que entenderam tratar-se de sucata. Foi desmontado e repassado para terceiros, gerando um rastro de contaminação, o qual afetou seriamente a saúde de centenas de pessoas. O acidente com Césio-137 foi o maior acidente radioativo do Brasil e o maior do mundo ocorrido fora das usinas nucleares. A contaminação em Goiânia originou-se de uma cápsula que continha cloreto de césio - um sal obtido do radioisótopo 137 do elemento químico césio. A cápsula radioativa era parte de um equipamento radioterapêutico, e, dentro deste, encontrava-se revestida por uma caixa protetora de aço e chumbo. Essa caixa de proteção continha também uma janela feita de irídio, que permitia a passagem da radiação para o exterior. A caixa contendo a cápsula radioativa estava, por sua vez, contida num contentor giratório que dispunha de um colimador. Este servia para direcionar o feixe radioativo, bem como para controlar a sua intensidade. Não se pôde conhecer ao certo o número de série da fonte radioativa, mas pensa-se que a mesma tenha sido produzida por volta de 1970, pelo Laboratório Nacional de Oak Ridge, nos Estados Unidos da América. O material radioativo contido na cápsula totalizava 0,093 kg e a sua radioatividade era, à época do acidente, de 50,9 Terabecquerels (TBq) ou 1375 Ci. O equipamento radioterápico em questão era do modelo Cesapam F-3000. Foi projetado, nos anos 1950, pela empresa italiana Barazetti e Cia., e comercializado pela empresa italiana Generay SpA. O objeto onde contia a capsula de césio foi recolhida pelos militares do exército, e encontra-se exposto como um trófeu no interior da Escola de Instrução 36 Especializada, na cidade do Rio de Janeiro. É um modo de agradecimento aos que participaram da limpeza da área contaminada. O Instituto Goiano de Radioterapia (IGR) era um instituto privado, localizado na Avenida Paranaíba, no Centro de Goiânia. O equipamento que gerou a contaminação na cidade entrou em funcionamento em 1971, tendo sido desativado em 1985, quando o IGR deixou de operar no endereço mencionado. Com a mudança de localização, o equipamento de teleterapia foi abandonado no interior das antigas instalações. A maior parte das edificações pertencentes à clínica foi demolida, mas algumas salas - inclusive aquela em que se localizava o aparelho - foram mantidas em ruínas. Houve onze mortes e 600 pessoas foram contaminadas, mas muitos alegam ser impossível medir em números o tamanho de uma catástrofe nuclear. Foi no ferro-velho de Devair que a cápsula de césio foi aberta para o reaproveitamento do chumbo. O dono do ferro-velho expôs ao ambiente 19,26 g de cloreto de césio-137 (CsCl), um sal muito parecido com o sal de cozinha (NaCl), mas que emite um brilho azulado quando em local desprovido de luz. Devair ficou encantado com o pó que emitia um brilho azul no escuro. Ele mostrou a descoberta para a mulher Maria Gabriela, bem como o distribuiu para familiares e amigos. Pelo fato de esse sal ser higroscópico, ou seja, absorver a umidade do ar, ele facilmente adere à roupa, pele e utensílios, podendo contaminar os alimentos e o organismo internamente. Devair passou pelo tratamento de descontaminação no Hospital Marcílio Dias, no Rio de Janeiro, e morreu sete anos depois. A Comissâo Nacional de Energia Nuclear (CNEN) mandou examinar toda a população da região, No total 112.800 pessoas foram expostas aos efeitos do césio, muitas com contaminação corporal externa revertida a tempo. Destas, 129 pessoas apresentaram contaminação corporal interna e externa concreta, vindo a desenvolver sintomas e foram apenas medicadas. Porém, 49 foram internadas, sendo que 21 precisaram sofrer tratamento intensivo; destas, quatro não resistiram e acabaram morrendo. 2.6.4 Fukushima O acidente nuclear de Fukushima diz respeito a uma série de falhas em andamento de equipamentos e lançamentos de materiais radioativos na Central Nuclear de Fukushima I, no Japão, em consequência dos danos causados pelo 37 sismo e tsunami de Tōhoku que aconteceu às 14:46 JST em 11 de março de 2011.[1] A central nuclear é composta por seis reatores de água fervente em separado mantidos pela Tokyo Electric Power Company (TEPCO). Os reatores 4, 5 e 6 haviam sido fechados para manutenção antes do terremoto. Os reatores restantes foram fechados automaticamente após o terremoto e geradores de emergência foram iniciados para manter as bombas de água necessárias para resfriá-los. A central foi protegida por um dique projetado para resistir a um maremoto de 5,7 metros de altura, mas cerca de 15 minutos após o terremoto foi atingido por uma onda de 14 metros, que chegou facilmente ao topo do paredão. A planta inteira, incluindo o gerador de baixa altitude, foi inundada, como mostram as figura 9 e 10. Como consequência, os geradores de emergência foram desativados e os reatores começaram a superaquecer devido à deterioração natural do combustível nuclear contido neles. Os danos causados pela inundação e pelo terremoto impediram a chegada da assistência que deveria ser trazida de outros lugares. Figura 10: Momento que o Tsunami atinge Fukushima Fonte: Tepco – Tokio Eletric Power Evidências apontaram uma fusão parcial do núcleo nos reatores 1, 2 e 3; explosões destruíram o revestimento superior de hidrogênio dos edifícios de alojamento dos reatores 1, 3 e 4; uma explosão danificou o confinamento dentro do reator 2; e múltiplos incêndios eclodiram no reator 4. Além disso, as barras de combustível armazenado em piscinas de combustível irradiado das unidades 1-4 38 começaram a superaquecer os níveis de água nas piscinas abandonadas. Receios de vazamentos de radiação levaram a uma evacuação de 20 km de raio ao redor da planta. Os trabalhadores da fábrica sofreram exposição à radiação e foram temporariamente evacuados em vários momentos. Em 11 de abril, as autoridades japonesas designadas a magnitude do perigo em reatores 1, 2 e 3 no nível 7 no ponto 7 da Escala Internacional de Acidentes Nucleares (INES). A energia foi restaurada para partes da central nuclear em 20 de março, mas máquinas danificadas por inundações, incêndios e explosões permaneceram inoperantes. Figura 11: A usina totalmente alagada Fonte: Tepco – Tokio Eletric Power Medições realizadas pelo Ministério da Ciência e Educação do Japão nas áreas do norte do país entre 30 e 50 km da planta apresentaram níveis altos de césio radioativo, suficientes para causar preocupação. Alimentos produzidos na área foram proibidos de serem vendidos. Foi sugerido que as medições mundiais de iodo131 e de césio-137 indicaram que os lançamentos radioativos de Fukushima são da mesma ordem de grandeza que os lançamentos de isótopos do desastre de Chernobil em 1986; O governo de Tóquio recomendou que a água da torneira não deve ser usada temporariamente para preparar alimentos para crianças. Contaminação por plutônio foi detectada no solo em dois locais da central nuclear. A Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) anunciou em 27 de março que os trabalhadores da central foram internados por precaução, em 25 de março, por terem sido expostos a níveis de radiação entre 2 e 6 Sv em seus tornozelos quando em pé na água na unidade 3. A reação internacional ao acidente também estava preocupada. O governo japonês e a TEPCO têm sido criticados por 39 má comunicação com o público e esforços de limpeza improvisados. Especialistas dizem que uma força de trabalho de centenas ou mesmo milhares levariam anos ou décadas para limpar a área. Em 20 de março, o chefe de gabinete do secretário Yukio Edano anunciou que a estação seria desativada logo que a crise acabar. A figura 11 mostra os danos causados na Unidade 4. Figura 12: Um mês após o acidente, estragos na Unidade 4 Fonte: Tepco – Tokio Eletric Power Que lições podem ser aprendidas pela indústria nuclear até o momento? A primeira delas é que as usinas nucleares são as construções humanas melhor adaptadas a resistir a eventos naturais de severidade milenar, como mostram as centrais de Onagawa, Fukushima Daini e Tokai. Outra é que a resistência das usinas nucleares localizadas em áreas de alto risco sísmico, especialmente aquelas em zonas costeiras sujeitas a tsunamis, que são muito poucas dentre as 440 em operação no mundo, deve ser reavaliada e, eventualmente, reforçada. Certamente, passada a fase acidental que ainda vivemos, a análise técnica profunda do evento levará a muitas outras lições aplicáveis não só as usinas do tipo BWR, mas também às demais em operação, bem com àquelas que estão em projeto e construção, aperfeiçoando a segurança num processo de melhoria contínua. Isso ocorre sistematicamente na indústria nuclear mesmo para eventos pouco significativos, quanto em mais em eventos severos como o que se vivencia hoje. Foi assim para os acidentes de Three Miles Island em 1979 nos EUA e de Chernobyl, na ex-URSS. 40 Note-se que quaisquer comparações do que pode ainda vir a ocorrer em Fukushima Dai-ichi com o que ocorreu em Tchernobyl não são tecnicamente corretas, na medida em que, naquele trágico acidente, os materiais radioativos foram dispersos em grande quantidade e a grandes distâncias devido à energia liberada pelo incêndio de centenas de toneladas de grafite que havia no interior do reator, que levou vários dias para ser apagado, ao custo da vida de dezenas de heróicos “terminators”. Num reator a água, que não usa grafite nem outra forma de acumulação de grande quantidade de energia liberável em curto período, como são os BWR afetados e os PWR que juntos compõe cerca de 90% da frota mundial, não existe energia disponível para tal dispersão. No pior caso, essa dispersão se limitaria ao raio de evacuação e, em menor quantidade, ao raio de abrigagem já estabelecidos na região. Demandas por ações imediatas no sentido de desligar usinas em operação ou interromper obras de usinas em construção são precipitadas pelo clima catastrofista que tem sido predominante na divulgação do evento pela mídia, que influencia fortemente a opinião pública, ou deflagradas por razões de natureza política e ideológica, as quais, ainda que legítimas nas sociedades democráticas, não encontram fundamento técnico que as suportem. Isto porque, mesmo no contexto da tragédia que se abateu sob o Japão, a maioria das usinas nucleares afetadas permanecem em condição segura, não implicando em nenhuma conseqüência adicional às populações já atingidas e aquelas, em minoria, que não resistiram plenamente, tiveram suas conseqüências mitigadas pelo acionamento de um Plano de Emergência Externo ampliado, que está protegendo as populações evacuadas mesmo para as condições em que venha a ocorrer o pior caso de liberação de material radioativo, o que até o presente não ocorreu e as informações atuais indicam que não ocorrerá. Obviamente, esses poucos argumentos técnicos não encerram o debate. Nas sociedades democráticas, como a brasileira, ele está apenas se iniciando e deverá resultar numa indústria nuclear ainda mais segura. Devemos, entretanto, nos precaver de decisões precipitadas, tomadas pelo calor da emoção ou por oportunismo, que venham a prejudicar as próprias sociedades às quais se pretende defender, como seria o caso de uma “proscrição” da geração elétrica nuclear, com paralisação de usinas em operação e de projetos em construção em planejamento. 41 3 REPERCUSSÕES NUCLEARES AMBIENTAIS E DE SAÚDE NOS ACIDENTES Os danos causados por um acidente nuclear podem afetar tanto o meio ambiente quanto à saúde da população residente no seu entorno, como podemos verificar. 3.1 REPERCUSSÕES AMBIENTAIS A poluição nuclear é causada pela destinação incorreta ou vazamento de resíduos radioativos proveniente de diversas fontes que utilizam a energia nuclear, como, por exemplo, as usinas nucleares ou aparelhos de raios-x, e se caracteriza pelo alto grau de periculosidade devido a capacidade de causar alterações nas estruturas das células provocando, assim, alterações no organismo como um todo. Na prática, o lixo nuclear tem grande poder de poluição, que não costuma ocorrer, devido aos cuidados de segurança que impedem sua liberação para o meio ambiente. A grande e importante diferença é que o lixo nuclear possui a capacidade de permanecer ativo por milhares de anos exigindo o monitoramento constante e, no caso de acidentes as conseqüências são muito piores podendo, inclusive, causar danos por várias gerações, como no caso do acidente com o Césio-137 em Goiânia para o qual foi criada uma Superintendência permanente para tratar das vítimas do acidente (Superintendência Leide das Neves). O principal argumento da corrente contra a energia nuclear é justamente o perigo de que acidentes como esse, voltem a acontecer. Com a criação de novas usinas termonucleares para geração de energia a quantidade de resíduos que deverá ser estocada, também aumentará. Esses resíduos são provenientes não apenas das usinas termonucleares, mas durante todo o processo, desde a fase de mineração até a fase final de reprocessamento do combustível nuclear, quando o urânio não queimado do reator e o plutônio gerado são separados dos produtos formados na fissão. Esses resíduos serão classificados de acordo com o nível de radioatividade sendo classificados como baixa, média ou alta atividade e armazenados segundo normas da CNEN (Comissão Nacional de Energia Nuclear). Mas, mesmo assim permanecerão por um bom tempo como uma potencial fonte de poluição e perigo. 42 De fato, a grande resistência atual quanto à utilização da energia nuclear concentra-se na produção e gerenciamento dos resíduos radioativos gerados pelas usinas. A França, que atualmente tem cerca de 80% de suas necessidades elétricas supridas por usinas nucleares, conta com a desaprovação de 55% da população quanto à forma como os resíduos são gerenciados. E quase 80% da população européia concordam que não há uma forma segura de descartar os resíduos nucleares. Entretanto, antecipando-se às iniciativas da Comunidade Européia de tentar acelerar as discussões a respeito, a França lança mão de incentivos fiscais para as cidades que se dispuserem a receber os resíduos gerados por suas usinas nucleares e aprova uma lei onde estipula que os resíduos serão armazenados em abrigos subterrâneos, traçando um cronograma para cumprir seu objetivo até 2015. Inclusive, um dos argumentos daqueles que são a favor da implementação de um programa energético baseado na energia nuclear argumentam que a tecnologia evoluiu muito nos últimos anos tornando as usinas termonucleares muito mais seguras. Com certeza, se compararmos as termoelétricas movidas à energia nuclear com aquelas movidas a carvão, que respondem por 53% da energia gerada nos EUA, por exemplo, chegaremos à conclusão óbvia de que a primeira polui muito menos, visto que a segunda emite níveis de CO2 (dióxido de carbono) altíssimos, sendo um dos principais responsáveis pelo efeito estufa. Ou seja, a energia nuclear polui sim, ou é possível poluir se não houver os devidos cuidados. O que acontece é que isso pode ser evitado armazenando-se e monitorando os resíduos. Situação que, porém, eleva e muito, os custos da energia nuclear. 3.2 REPERCUSSÕES DE SAÚDE A radiação pode ser benéfica quando bem empregada como vemos na medicina para o tratamento de alguns cânceres, mas este não é o foco de nosso texto. Falaremos aqui dos efeitos adversos da radiação, principalmente com aqueles que acontecem com acidentes nucleares. 43 A radiação mede-se em unidades diferentes. O roentgen (R) mede a quantidade desta no ar. O gray (Gy) é a quantidade de energia realmente absorvida por qualquer tecido ou substância após uma exposição à radiação. Os efeitos prejudiciais da radiação dependem da quantidade (dose), da duração e do grau de exposição. Uma única dose rápida de radiação pode ser mortal, mas a mesma dose total aplicada num lapso de semanas ou meses pode provocar efeitos mínimos. A dose total e o grau de exposição determinam os efeitos imediatos sobre o material genético das células. Os efeitos da radiação são cumulativos, ou seja, cada exposição é somada às anteriores até determinar a dose total e o seu provável efeito sobre o organismo. Da mesma forma, à medida que aumenta a proporção da dose ou a dose total, aumenta também a probabilidade de se produzirem efeitos detectáveis. Os efeitos da radiação também dependem da percentagem do organismo que é exposto. Por exemplo, se uma área grande do corpo for exposta pode provocar a morte quando a radiação se distribui sobre toda a superfície corporal. No entanto, quando se limita a uma área pequena, como acontece na terapia contra o cancro, é possível aplicar 3 ou 4 vezes esta quantidade sem que se produzam danos graves no organismo. As células do nosso organismo que se multiplicam rapidamente, como o intestino e a medula óssea, são mais acometidas pela radiação do que os tecidos cujas células se multiplicam mais lentamente, como os músculos e os tendões. O Anexo B mostra os malefícios causados nos seres humanos expostos além dos níveis permitidos à radiação nuclear. 44 4 O COMPLEXO NUCLEAR BRASILEIRO 4.1 AS USINAS A Central, situada no município de Angra dos Reis, foi assim denominada em justa homenagem ao pesquisador pioneiro da tecnologia nuclear no Brasil e principal articulador de uma política nacional para o setor. Embora a construção da primeira usina tenha sido sua inspiração, o Almirante, nascido em 1889, não chegou a ver Angra 1 gerando energia, pois faleceu em 1976. Mas sua obra persiste na competência e capacitação dos técnicos que fazem o Brasil ter hoje usinas nucleares classificadas entre as mais eficientes do planeta. Atualmente estão em operação as usinas Angra 1- com capacidade para geração de 657 megawatts elétricos, e Angra 2 - de 1350 megawatts elétricos. Angra 3, que será praticamente uma réplica de Angra 2 (incorporando os avanços tecnológicos ocorridos desde a construção desta usina), está prevista para gerar 1405 megawatts. ANGRA 1 A primeira usina nuclear brasileira opera com um reator do tipo PWR (água pressurizada), que é o mais utilizado no mundo. Desde 1985, quando entrou em operação comercial, Angra 1 (figura 12) gera energia suficiente para suprir uma capital como Vitória ou Florianópolis, com 1 milhão de habitantes. Figura 13: Angra 1 Fonte: Eletronuclear / Eletrobrás 45 Esta primeira usina nuclear foi adquirida sob a forma de “turn key”, como um pacote fechado, que não previa transferência de tecnologia por parte dos fornecedores. No entanto, a experiência acumulada pela Eletrobras Eletronuclear em todos esses anos de operação comercial, com indicadores de eficiência que superam o de muitas usinas similares, permite que a empresa tenha, hoje, a capacidade de realizar um programa contínuo de melhoria tecnológica e incorporar os mais recentes avanços da indústria nuclear. Como, por exemplo, realizar a troca de dois dos principais equipamentos de Angra 1, os geradores de vapor. Com esses novos equipamentos, a vida útil de Angra 1 se prolongará e a usina estará apta a gerar mais energia para o Brasil. ANGRA 2 Fruto de um acordo nuclear Brasil-Alemanha, a construção e a operação de Angra 2 (figura 13) ocorreram conjuntamente à transferência de tecnologia para o país, o que levou também o Brasil a um desenvolvimento tecnológico próprio, do qual resultou o domínio sobre praticamente todas as etapas de fabricação do combustível nuclear. Desse modo, a Eletrobras Eletronuclear (Indústrias Nucleares do Brasil) reúnem, hoje, profissionais qualificados e sintonizados com o estado da arte do setor. Figura 14: Angra 2 Fonte: Eletronuclear / Eletrobrás 46 Angra 2 também opera com um reator tipo PWR, isto é, água pressurizada, e sua potência nominal é de 1350 MW. Angra 2, sozinha, poderia atender ao consumo de uma região metropolitana do tamanho de Curitiba, com dois milhões de habitantes. Como tem o maior gerador elétrico do hemisfério Sul, Angra 2 contribui decisivamente com sua energia para que os reservatórios de água que abastecem as hidrelétricas sejam mantidos em níveis que não comprometam o fornecimento de eletricidade da região economicamente mais importante do país, o Sudeste. ANGRA 3 Angra 3 (figura 14) será a terceira usina da Central Nuclear Almirante Álvaro Alberto, localizado na praia de Itaorna, município de Angra dos Reis (RJ). Figura 15: Local de construção de Angra 3 Fonte: Eletronuclear / Eletrobras A nova usina terá uma potência bruta elétrica de 1.405 MWe, podendo gerar cerca de 10,9 milhões de MWh por ano - energia equivalente a um terço do consumo do Estado do Rio de Janeiro – e será similar a Angra 2, em operação há cerca de 8 anos. Por conta dessa semelhança, grande parte do projeto de engenharia a ser utilizado na nova usina está pronta. Além disso, a experiência com a construção e montagem de Angra 2 demonstrou a significativa capacidade técnica das empresas nacionais em atuar nesse segmento. Uma parcela considerável dos equipamentos importados já foi adquirida, notadamente os componentes mecânicos de grande porte. 47 Uma vez retomada a obra, o prazo estimado para a conclusão de Angra 3 é de 5,5 anos, com início na concretagem das fundações do edifício do reator, além das obras civis. Sua implantação inclui a montagem eletromecânica, o comissionamento de equipamentos e sistemas e os testes operacionais. Hoje, o empreendimento Angra 3 apresenta um progresso físico de cerca de 30%. Serão necessários investimentos adicionais de R$ 8,56 bilhões (base dezembro de 2008), sendo que 70% dos gastos serão realizados no mercado nacional e apenas 30% no exterior. O local definido para a implantação de Angra tem sido monitorado desde a década de 70 por meio de diversos estudos e programas ambientais, seguindo as principais normas e diretrizes estabelecidas pelos órgãos reguladores e fiscalizadores competentes. NOVAS CENTRAIS Em julho de 2008, o Governo Federal criou o Comitê de Desenvolvimento do Programa Nuclear Brasileiro. A função do Comitê é fixar diretrizes e metas para o desenvolvimento do Programa e supervisionar sua execução. Em agosto do mesmo ano, Othon Luiz Pinheiro da Silva, secretárioexecutivo do Comitê e presidente da Eletrobras Eletronuclear, apresentou ao Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, os objetivos e metas definidos pelo grupo. Na área de geração elétrica, para atender ao Plano Decenal de Energia (PDE 2007/2016), elaborado pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE) vinculada ao Ministério de Minas e Energia, a Usina Angra 3, com capacidade de produzir 1.405 MWe, deverá entrar em operação em maio de 2015, concluindo assim a implantação da Central Nuclear Almirante Álvaro Alberto, em Angra dos Reis, no Rio de Janeiro. Já o Plano Nacional de Energia (PNE 2030) que subsidia o Governo na formulação de sua estratégia para a expansão da oferta de energia até 2030 aponta a necessidade de o sistema elétrico brasileiro ter mais 4.000 MWe de origem nuclear até 2025. O Comitê, então, apresentou ao Presidente Lula a proposta de construção de mais quatro usinas nucleares com capacidade de 1.000 MW cada, sendo duas no Nordeste e outras duas no Sudeste. Conforme a evolução futura da necessidade de 48 expansão da oferta de eletricidade existe a possibilidade do acréscimo de mais duas usinas (2.000 MW) adicionais. 4.2 PLANO DE DEFESA DE ACIDENTES Os eventos acontecidos nas usinas nucleares do Japão após a ocorrência de um terremoto seguido de tsunami tornaram necessária a execução do plano de emergência das centrais atingidas, incluindo medidas como a evacuação dos habitantes vizinhos a estas unidades, de forma preventiva. Este fato pode causar dúvidas ou questionamentos em relação ao plano de emergência da central nuclear de Angra. Para sanar as dúvidas, realizamos uma série de questionamentos ao Engenheiro Mário Almeida Filho da Assessoria de Responsabilidade Socioambiental da Eletrobrás, como veremos a seguir. Existe um plano de emergência? É feito algum tipo de treinamento com a população local? Usinas como Angra 1 e Angra 2 foram projetadas e construídas com barreiras de proteção sucessivas e preparadas para resistir a um acidente mais sério. No entanto, como é comum e recomendável nos locais onde existem instalações industriais, um plano de emergência foi elaborado para orientar a população que mora nas proximidades da Central Nuclear Almirante Álvaro Alberto (CNAAA). No PEE/RJ constam ações específicas a serem implementadas nas Zonas de Planejamento de Emergência, que são áreas vizinhas à CNAAA, delimitadas por círculos, com raios, respectivamente, de 3 km, 5 km, 10 km e 15 km, centrados no edifício do reator de Angra 1. No âmbito do Plano de Emergência, como são classificados os eventos e a partir de que nível devem preocupar a população? Existe um modelo internacional de classificação e comunicação de emergências ao órgão regulador e às demais autoridades, que prevê ações sempre preventivas e antecipatórias. O modelo pressupõe quatro etapas possíveis de evolução dos eventos em função do possível grau de impacto. Vão desde as mais simples, sem nenhum reflexo sobre a saúde e a segurança da população, até as 49 mais sérias, que podem ter como consequência a liberação de material radioativo para o meio ambiente. O PEE/RJ da CNAAA é acionado gradativamente, conforme as etapas descritas a seguir: 1) Evento Não Usual (ENU) – é uma condição anormal na usina sem nenhuma possibilidade de liberação de material radioativo para o meio ambiente; 2) Alerta – indicação de real ou provável degradação nos níveis de segurança. São ativados os centros de emergência internos das usinas e os externos em Angra dos Reis, Rio de Janeiro e Brasília, sem a necessidade de ações de evacuação dos trabalhadores nem da população. Em casos de Alerta e ENU não está prevista qualquer ação junto à população; 3) Emergência de Área – indicação de real ou possível falha nas funções de segurança; não há indicação de falha iminente do núcleo do reator. Os trabalhadores não envolvidos com a emergência são retirados das usinas, conforme estabelece o Plano de Emergência Local (PEL); e 4) Emergência Geral – indicação de real ou possível liberação de material radioativo; indicação de degradação iminente ou real do núcleo do reator. A população da ZPE-3 será evacuada para a ZPE-5 e, no caso de um agravamento, a população da ZPE-5 será removida para a ZPE-10. A população será orientada pela Defesa Civil, que tem destacamentos a leste e oeste da CNAAA, através das 8 sirenes instaladas nas ZPEs 3 e 5. O Plano de Emergência Externo do Estado do Rio de Janeiro (PEE/RJ) estabelece a remoção da população terrestre que não possui meios próprios, por meio de ônibus da Eletronuclear e das empresas concessionárias de transporte da região. Os abrigos serão escolas municipais e estaduais predefinidas no plano. Os ilhéus serão removidos pelo 1o Distrito Naval e serão abrigados no Colégio Naval de Angra dos Reis. A cada dois anos são realizados exercícios simulados com a participação voluntária de parte da população e de todos os órgãos envolvidos na resposta a uma situação de emergência na CNAAA. 50 Como funciona o Plano de Emergência Externo? O planejamento prevê ações em uma área de até 5 km em torno da central nuclear de Angra, que conta com um sistema de som capaz de transmitir alertas e informações. As estações locais de rádio e TV também fazem parte do plano e estão preparadas para divulgar instruções em caso de necessidade. Campanhas de esclarecimento também são realizadas, incluindo a distribuição anual de 40 mil calendários, de casa em casa, com instruções sobre como os moradores devem agir em situações de emergência. O calendário chama a atenção, também, para o teste mensal do sistema de som nas localidades próximas às usinas. O teste acontece todo dia 10, às 10 horas da manhã, para não confundir os moradores. As ações especificadas nesse plano, coordenadas pela Defesa Civil do Estado do Rio de Janeiro, sob a supervisão geral do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República (GSI/PR), que é o órgão central do Sistema de Proteção ao Programa Nuclear Brasileiro (Sipron), e a supervisão técnica da Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen), envolvem, também, a participação das seguintes organizações: Exército, Marinha, Aeronáutica, Agência Brasileira de Inteligência (Abin), Departamento Nacional de Infraestrutura (Dnit), Polícia Rodoviária Federal (PRF), Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro, Defesa Civil de Angra dos Reis, Defesa Civil de Paraty, empresas de eletricidade, de telefonia, de abastecimento de água e empresas de transporte urbano da região, além de outras secretarias estaduais e municipais. Visando a manter esse plano sempre em condições de acionamento, são realizados, anualmente, nos anos pares, os Exercícios de Emergência – Parcial, quando são testadas, entre outras ações previstas no PEE/RJ, a eficácia da cadeia de comunicações e a eficiência da ativação dos centros de emergência, e, nos anos ímpares, os Exercícios de Emergência – Geral, quando são postas em prática e testadas todas as ações revistas no plano, inclusive a capacidade de mobilização de meios em pessoal e material; a disseminação de informações ao público e à imprensa; a ativação de alguns abrigos e até mesmo a simulação de evacuação de voluntários residentes na ZPE-3 e na ZPE-5, embora a possibilidade de remoção da população circunvizinha à Central Nuclear seja uma hipótese muito pouco provável. 51 Como funciona o Plano de Emergência Local? O Plano de Emergência Local (PEL) tem como objetivo proteger a saúde e garantir a segurança dos trabalhadores das usinas e do público em geral presente na Área de Propriedade da Eletronuclear em qualquer situação de emergência radiológica em Angra 1 e/ou Angra 2. O PEL abrange toda a área da CNAAA, a Vila Residencial de Praia Brava e a região de Piraquara de Fora. Esse Plano contempla, ainda, o apoio a ser prestado à Defesa Civil do Estado do Rio de Janeiro e à Cnen na ZPE-3 e na ZPE-5. Para testar e aprimorar a eficiência das equipes que, vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana, respondem pela atuação inicial nas usinas dos Grupos e das Equipes de Emergência, previstas no PEL, a Eletronuclear realiza dez exercícios anuais, sendo cinco por usina. Além desses exercícios simulados, os Grupos e as Equipes de Emergência participam, ainda, dos Exercícios de Emergência – Parcial e dos Exercícios de Emergência – Geral em conjunto com os diversos órgãos dos diferentes níveis de governo diretamente envolvidos no PEE/RJ. Em caso de um acidente grave, que área poderia ser atingida? Com base nos critérios estabelecidos pela Cnen, as ações para a proteção da população, em situações de emergência na central nuclear de Angra, são esquematizadas segundo as Zonas de Planejamento de Emergência – ZPEs, com graus de planejamento de resposta que variam de acordo com a distância da central nuclear. A ZPE-3 está compreendida num raio de 3 km ao redor de Angra 1, a ZPE-5 num raio de 5 km e as ZPEs 10 e 15 em raios de 10 km e 15 km, respectivamente. O Plano de Emergência Externo prevê as ações preventivas e urgentes de remoção da população num raio de 3 km e, em caso de agravamento do acidente, também num raio de 5 km. Nessas zonas é que estão instaladas as sirenes para notificação da população. As ZPEs 10 e 15 são consideradas zonas de controle ambiental, onde não são previstas medidas de proteção urgentes e preventivas e sim medidas baseadas numa monitoração do meio ambiente. Há quantas pessoas aproximadamente nas ZPEs 3 e 5? A Defesa Civil Municipal de Angra trabalha, na ZPE-3, com uma estimativa de 360 pessoas e, na ZPE-5, com 16.836 pessoas. 52 É possível ocorrer um acidente semelhante ao de Fukushima – Daí – Ichi no Brasil? Devido a estabilidade sísmica e geológica da plataforma continental brasileira, a ocorrência de acidente semelhante, torna-se extremamente improvável. 4.2.1 Exercício geral do plano de emergência No último Exercício Geral do Plano de Emergência da CNAAA, realizado em 01/09/2011 representantes de órgãos nacionais e internacionais estiveram presentes como observadores, entre eles do MD, Comando da Marinha, Defesa Civil Nacional, Ibama, Cemig, TCU e demais representantes convidados pela AIEA – Agência Internacional de Energia Atômica. Depois de constatada a existência de uma Emergência Geral teve início a evacuação da população localizada em um raio de 3 km ao redor de Angra. Por volta das 11h30, houve a simulação da transferência de uma paciente contaminada por radiação, a funcionária foi transferida do CMRI, localizado na vila histórica de Mambucaba para o Hospital Marcílio Dias, no Rio de Janeiro em helicóptero da Força Aérea. Na parte da tarde os moradores do “Frade” se reuniram na entrada do “Sertãozinho” em um Ponto de Reunião simulando a evacuação da comunidade. Logo após, funcionários da FUSAR realizaram a distribuição de pastilhas de iodeto de potássio na Praia Vermelha e foi testada também a retirada da população por via marítima e terrestre. Concluído o Exercício Geral, todos os órgãos envolvidos no Plano de Emergência elaboram um Relatório a ser entregue as equipes analisadoras da Eletronuclear/Eletrobrás para que haja uma conclusão de como foram as ações e o que deverá ser feito para melhorá-las. Importante ressaltar as ações que compõe o Planejamento Global de Defesa, com o fundamental esclarecimento prévio da população, seu cadastramento e os exercícios simulados periódicos. Órgãos como a SIPRON e Secretária Nacional de Defesa Civil farão a gestão efetiva de todo o processo. Sendo assim, em função dos dados levantados e analisados concluiu-se que: Em caso de um acidente nuclear na CNAAA, as medidas previstas nos Sistemas Redundantes de Segurança serão eficientes para reduzir os danos que por ventura venham acontecer; e 53 Não é possível ocorrer um acidente nas mesmas proporções do ocorrido em Fukushima Daí-ichi, no Japão, devido às características sísmicas e geológicas do nosso país. Soma-se o fato que os reatores de Angra são do tipo PWR (Pressurized Water Reactor) mundialmente reconhecidos como mais modernos e seguros que os do tipo BWR (Boiling Water Reactor) de Fukushima. 54 5 CONCLUSÃO A cruzada nacional que os especialistas fazem para convencer os leigos que a energia nuclear tem inúmeras vantagens e é segura, é legítima, pois é inegável a importância do acesso a informação quando se deseja tomar decisões, mas este procedimento não é de forma alguma neutro. A defesa incondicional de um ponto de vista, mesmo que oriunda da Ciência, que tem por princípio a neutralidade, a isenção e a imparcialidade a respeito dos debates, comporta um determinado interesse e um juízo de valor. Diante de uma situação de “perigo”, diferentes pessoas terão reações distintas. Mesmo que existam normas e padrões, culturas distintas frustram a tentativa de tornar os estudos do risco uma ciência objetiva com instrumentos de mensuração quantitativos. Numa sociedade democrática, não se pode inibir o debate sob o pretexto de que os opositores são desqualificados, e é isso que ocorre em debates de natureza tecnológica. O debate acerca da energia nuclear não deve se limitar aos aspectos técnicos, pois o processo como um todo não será gerido apenas por técnicos, mas também por pessoas que estão sujeitas a emocionais que não podem ser previstos pela análise puramente técnica, mas que no final, serão decisivos. Os últimos 100 anos apresentaram um aumento substancial da emissão de gases à atmosfera, levando a sociedade e governos a iniciativas como o protocolo de Kyoto. Entretanto, as demandas econômicas têm dificultado a implementação do acordo. Os especialistas afirmam que a energia nuclear pode contribuir muito para a redução das emissões de gases causadores do efeito estufa. A percepção da energia nuclear pela população é muito superficial. As informações provêm da imprensa, raramente de estudos, fazendo com que ela seja desconhecida, temida e rejeitada. Em geral, as pessoas não sabem defini-la, sequer parcialmente, nem conhecem a maioria das suas aplicações. Desde o início, a energia nuclear tem suscitado as mais diversas reações junto à população em geral. Reações de incredubilidade, admiração, desconfiança, rejeição e ódio. 55 Com as bombas atômicas de Hiroshima e Nagazaki e os acidentes e incidentes nucleares, a energia nuclear e tudo que a ela esteja relacionado, passou a ser questionado e, logo após, houve intensas campanhas de combate ao seu uso. A imprensa certamente foi a maior responsável pelo preconceito em relação à energia nuclear. As notícias de caráter sensacionalista geraram por anos uma imagem negativa de tudo que tenha o termo “nuclear” associado. Em geral, a fonte de informações invariavelmente citada, o ponto de referencia do saber, é a imprensa: jornais, televisão, revistas. Nunca uma aula, um livro ou uma revista de divulgação científica! Considerando que os jornalistas, incluindo os de colunas científicas, não costumam ter uma boa formação em ciências, o valor científico e a credibilidade das informações veiculadas na imprensa são no mínimo questionáveis, principalmente pela falta de comprovação nas matérias publicadas. Por mais remota que seja a possibilidade de ocorrência de um acidente, devemos estar preparados para saber o que fazer, como fazer e quando fazer e ainda treinar estes procedimentos em exercícios simulados. Esse comportamento é a diferença em ser mais ou menos afetado. Em relação à CNAAA, observamos que a estratégia de defesa, o Plano de Segurança e os Sistemas Redundantes alcançam o objetivo maior de torná-la o mais segura possível. Os Sistemas Redundantes como pôde ser verificado nas pesquisas e no último exercício simulado conseguem tornar a CNAAA com uma estratégia de defesa contra acidentes nucleares plena e bem estabelecida. “É bom lembrar que as decisões que tomarmos em relação a escolha da matriz energética, deve levar em conta que os efeitos dessas decisões nas gerações futuras.” 56 REFERÊNCIAS A NUCLEAR disaster (Oracle Think Quest Education Foundation). Chernobyl, Ucrânia: s.n., 1986. ANDRADE, Alexandre. Monitor Nuclear. Website. Disponível em: <http://www.energiatomica.hpg.ig.com.br>. Acesso em: 12 jun. 2011. BARNABY, Frank; KEMP, James. Secure Energy? Civil Nuclear Power, Security and Global Warming. London: Oxford Research Group, 2007. Disponível em: <http://www.oxfordresearchgroup.org.uk/publications/briefing_papers/pdf/secureener gy.pdf>. Acesso em: 22 jun. 2011. CÂMARA De Comércio França-Brasil. Perspectivas da energia nuclear e a viabilidade de angra 3. 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Brasil 2% Fonte: Agência Internacional de Energia Atômica – AIEA 59 ANEXO B – EFEITOS DA RADIAÇÃO NO ORGANISMO HUMANO A exposição à radiação provoca dois tipos de lesões: Agudas (imediatas) podendo afetar diversos órgãos Verifica-se numa pequena proporção de doentes depois de um tratamento com radiação (radioterapia), especialmente se tiver sido aplicada sobre o abdômen. Os sintomas compreendem náuseas, vômitos, diarréia, perda de apetite, dor de cabeça, sensação de mal-estar geral e um ritmo cardíaco acelerado (taquicardia). Costumam regredir de horas a poucos dias. Crônicas (tardias) Cérebro e sistema nervoso: Os primeiros sintomas são náuseas e vômitos, seguidos de apatia, sonolência e, em alguns casos, coma. Estes sintomas são provocados, muito provavelmente, pela inflamação do tecido cerebral (inchaço cerebral). Em poucas horas ocorrem os tremores, convulsões, incapacidade para andar e, finalmente, a morte. É provocada quando a dose total de radiação é extremamente alta (mais de 30 grays). Revela-se sempre mortal. Grandes doses acumuladas sobre a coluna dorsal podem provocar uma lesão gravíssima, que pode acabar em paralisia. Trato gastro intestinal: Os sintomas consistem em náuseas, vômitos e diarréias graves, que provocam grande desidratação, que pode ser a causa da morte. Inicialmente é provocada pela morte das células que revestem a mucosa do estomago e intestino. Os sintomas persistem devido ao desprendimento progressivo do revestimento mucoso e ao desenvolvimento de infecções bacterianas, mais tardiamente. Finalmente, as células que absorvem nutrientes ficam completamente destruídas e produz-se perda de sangue na zona lesionada, para o interior do intestino, normalmente em grandes quantidades. Entre 4 e 6 dias depois da exposição à radiação podem crescer novas células. Mas, mesmo que assim seja, as vítimas provavelmente morrerão em virtude de uma insuficiência da medula óssea, entre 2 e 3 semanas mais tarde. É produzida a partir de doses menores de radiação, mas também igualmente altas (4 grays ou mais). Sistema sanguíneo: ocorre quando a medula óssea é afetada bem como o baço e os gânglios linfáticos, que são os principais centros de produção de células sanguíneas (hematopoiese). Manifesta-se depois de uma exposição de 2 a 10 grays de radiação e começa com perda de apetite (anorexia), apatia, náuseas e vômitos. 60 Estes sintomas são mais graves ao fim de 6 a 12 horas depois da exposição (muito agudo e um dos primeiros a se manifestarem) e podem regredir completamente entre 24 e 36 horas mais tarde. Durante este período em que não há sintomas, as células produtoras de sangue localizadas nos gânglios linfáticos, no baço e na medula óssea começam a desgastar-se, a diminuir e não se formam de novo, o que implica uma grave carência de glóbulos brancos (LEUCEMIA) e vermelhos (ANEMIA). A falta de glóbulos brancos (que combatem as infecções) costuma provocar infecções graves e lesões características na pele. Lesões da pele: As lesões de pele após a exposição à radiação, são decorrentes, na maioria das vezes pela leucemia. Foto 14: Lesões Papulo Nodulares Fonte: Sociedade Brasileira de Dermatologia As manifestações cutâneas da leucemia causadas por exposições radioativas ou não, podem ser as mais variadas possíveis e encontram- se de diversas formas, incluem lesões cutâneas específicas, primárias, resultantes de infiltração direta da pele e tecido subcutâneo pelas células leucêmicas. As lesões papulo-nodulares da leucemia cutânea apresentam-se como pápulas (elevações da pele), crostas, placas ou nódulos dérmicos marrom-avermelhados a violáceos, endurecidos. Nódulos cutâneos pigmentados são comuns. 61 Foto 15: Eritrodermia Fonte: Sociedade Brasileira de Dermatologia As lesões iniciais podem ser maculares. Outras apresentações clínicas da leucemia cutânea incluem bolhas, ulcerações e eritrodermia (dermatite esfoliativa) resultante da infiltração leucêmica difusa da pele. Foto 16: Eritrodermia Fonte: Sociedade Brasileira de Dermatologia Se a dose total de radiação for de mais de 6 grays, as insuficiências hematopoiéticas e gastrointestinais costumam ser mortais. Músculos: Pode provocar uma doença dolorosa que inclui atrofia muscular e a formação de depósitos de cálcio. Poucas vezes estas alterações provocam tumores musculares malignos. 62 Pulmão: A radiação pode provocar inflamação dos mesmos (pneumonite radioativa) e uma grande dose provocará graves cicatrizações (fibrose) no tecido pulmonar, o que pode ser mortal. Coração: O coração e o seu revestimento (pericárdio) podem inflamar-se depois de uma exposição à radiação. Material genético: A radiação altera o material genético das células que se multiplicam. Nas células que não pertencem ao sistema reprodutor, estas alterações podem provocar anomalias no crescimento celular, como cancro ou cataratas. Quando os ovários e os testículos são expostos à radiação, a possibilidade de a descendência ter anomalias genéticas (mutações) aumenta nos animais de laboratório, mas este efeito ainda não foi devidamente comprovado nos seres humanos. Uma exposição prolongada ou repetida a baixas doses de radiação proveniente de implantes radioativo ou de fontes externas pode provocar: A interrupção dos períodos menstruais (amenorréia); Uma menor fertilidade tanto nos homens como nas mulheres; Também pode aparecer um menor impulso sexual (libido); e Cataratas. As doses muito elevadas aplicadas sobre zonas limitadas do corpo provocam: A queda do cabelo; Enfraquecimento da pele e formação de feridas abertas (úlceras), calos e veias aracniformes (pequenas áreas avermelhadas que contêm vasos sanguíneos dilatados que se encontram sob a pele, ou aranhas vasculares); Anos depois da ingestão de certos compostos radioativo, como os sais de rádio, podem formar-se tumores ósseos. O prognóstico depende da dose, da quantidade de radiação e da sua distribuição no corpo. As análises ao sangue e à medula óssea podem fornecer informação adicional acerca da gravidade da lesão. Quando se manifesta os sintomas de acometimento cerebral ou gastrointestinal, o diagnóstico é claro e o prognóstico pouco animador. O acometimento cerebral é mortal num período de tempo que varia entre horas e 63 poucos dias e o comprometimento gastrointestinal, geralmente, é mortal num período de tempo que varia de 3 a 10 dias, apesar de algumas pessoas sobreviverem algumas semanas. Quando se há o acometimento do sistema sanguíneo (hematopoiético) a morte poderá ocorrer em períodos de 8 a 50 dias. A morte pode ser provocada por uma infecção grave ou por uma abundante perda de sangue (hemorragia). Algumas medidas tomadas após exposição à radiação poderão diminuir o efeito maléfico ao material exposto e são preconizados: A pele contaminada por materiais radioativos deverá ser lavada de imediato com água abundante e, se for possível, com uma solução especificamente fabricada para tal fim; Qualquer ferida, por pequena que seja, deverá ser energicamente limpa para eliminar todas as partículas radioativas; Se a pessoa tiver ingerido material radioativo, deverá provocar o vômitos; As pessoas expostas a uma radiação excessiva podem ser controladas com análises ao ar expirado e à urina, em busca de sinais de radiatividade; Nos casos de acometimento do sistema sanguíneo hematopoiético, as células sanguíneas são repostas por meio de transfusões, mas esta medida é só temporária, porque é muito pouco provável que a medula óssea danificada pela radiação se regenere; Os esforços para evitar as infecções incluem o tratamento com antibióticos e o isolamento, para que o doente se mantenha afastado de outros possíveis portadores de microrganismos que provoquem doenças. Em certos casos faz-se um transplante da medula óssea, mas o índice de êxito é baixo; Para tratar os efeitos mais tardios da exposição crônica, o primeiro passo é eliminar a fonte de radiação. Certas substâncias radioativas, como o rádio, o tório e o estrôncio, podem ser eliminadas do corpo com medicamentos que aderem a estas substâncias e depois são excretadas pela urina. No entanto, estes medicamentos conseguem melhores resultados se forem administrados pouco depois da exposição o que não ocorre normalmente. 64 ANEXO C - SISTEMA DE PROTEÇÃO AO PROGRAMA NUCLEAR BRASILEIRO SIPRON INTRODUÇÃO O Sistema de Proteção ao Programa Nuclear Brasileiro – SIPRON foi instituído pelo Decreto-Lei nº 1.809, de 7 de outubro de 1980, e regulamentado pelo Decreto nº 2.210, de 22 de abril de 1997, com o objetivo de assegurar o planejamento integrado e de coordenar a ação conjunta e execução continuada de providências, que visem atender às necessidades de segurança das atividades e dos projetos nucleares brasileiros, da população e do meio ambiente. Para se alcançar esse objetivo, os órgãos de defesa civil têm atribuições de planejar e de implementar ações preventivas e de preparação, com a finalidade de proteger a população na eventualidade de situação de emergência. A legislação brasileira de proteção da população, em caso de acidente nuclear, foi uma conseqüência direta da construção da Usina Angra 1, a partir de 1974. Em 1981, foram realizados os primeiros testes operacionais e, em 1982, a usina recebeu autorização para operar com 30% da sua capacidade. Em 26 de dezembro de 1984, a Usina recebeu autorização para operar comercialmente. A Central Nuclear Almirante Álvaro Alberto - CNAAA, conhecida também por Usina Angra I, está localizada na região de Mambucaba, no Município de Angra dos Reis, no Estado do Rio de Janeiro. É a única no território nacional, tendo sido concebida para abrigar três usinas com capacidade para produzir 3.000 Megawatts. Atualmente, encontra-se em funcionamento apenas a Usina de Angra 1 sendo que a Usina Angra 2 está em fase de testes para a operação, enquanto que a Usina Angra 3 já foi prevista. O Programa Nuclear Brasileiro teve início no ano de 1967, no Ministério das Minas e Energia, com a participação da Comissão Nacional de Energia Nuclear – CNEN e de Furnas(ELETROBRAS). Atualmente, o Programa está no âmbito do Ministério da Ciência e Tecnologia. A ATUAÇÃO DA DEFESA CIVIL A Secretaria Nacional de Defesa Civil, em articulação com os órgãos de defesa civil estadual e municipal, respondem por todas as ações de proteção da população, nas proximidades da Usina de Angra. Para isso, a cada 2 anos, todos os órgãos governamentais do SIPRON realizam um exercício simulado com a participação da população para aperfeiçoar as ações planejadas. Como em todos os países, a população e os órgãos locais são os primeiros a responderem às necessidades. Daí a importância de um órgão de defesa civil local estar comprometido com a segurança da população, participando efetivamente do planejamento, dos exercícios simulados e das campanhas de esclarecimento junto à população. Portanto, cabe à Comissão Municipal de Defesa Civil de Angra dos Reis conscientizar e preparar a população para o caso de acidente nuclear. 65 a) Ações A Secretaria Nacional de Defesa Civil – Órgão de Coordenação Setorial do SIPRON – tem a atribuição de assessorar o Órgão Central e atuar nas ações relacionadas com a proteção da população. Na Normalidade – quando se elaboram os planos e testando-os com exercícios simulados para aperfeiçoá-los. estabelecer Diretrizes para Defesa Civil e supervisionar sua execução; harmonizar e integrar, no âmbito da Defesa Civil, os Planos de Ação dos Órgãos de Apoio; planejar, promover e coordenar o cadastro da população; planejar, promover e coordenar as Campanhas de Esclarecimento Público; solicitar a colaboração dos órgãos de apoio para a execução das medidas de Defesa Civil; formular Normas Gerais e Diretrizes, elaborar pareceres e sugestões e projetos para atualização da legislação. Manter entendimentos com a Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) sobre: a amplitude das áreas circunvizinhas às instalações nucleares, passíveis de serem afetadas no caso de acidente nuclear; e as normas de radioproteção vigentes, de interesse para o treinamento de recursos humanos em defesa civil. Em Situação de Emergência Nesse caso, desenvolvem-se ações e atividades para reduzir os danos. Em Situação de Emergência, a Secretaria Nacional de Defesa Civil coordenará as ações de defesa civil e adotará, obrigatoriamente, os seguintes procedimentos: notificar e manter permanentemente informados os Órgãos de Apoio necessários à condução das ações de defesa civil; e assistir permanentemente a população e supervisionar a execução das medidas de Defesa Civil. b) Planejamento À Secretaria Nacional de Defesa Civil, do Ministério da Integração Nacional, que integra a Comissão de Coordenação da Proteção ao Programa Nuclear Brasileiro - COPRON, compete estabelecer Diretrizes de Planejamento e Planos para as ações de defesa civil, visando a proteção da população, em Situação de Emergência. Há vários planos setoriais de procedimentos, diretrizes para todos os órgãos do SIPRON. Para as ações dos órgãos de defesa civil que visam à proteção da população relacionada com os programas, projetos e atividades de energia nuclear, os documentos de referência para a atuação de Defesa Civil são: 66 Diretriz de Planejamento das Ações de Defesa Civil Documento que estabelece as competências e as ações a serem realizadas pelos órgãos envolvidos no planejamento e na execução das medidas de proteção à população, aos trabalhadores da CNAAA e ao meio ambiente; Diretriz para o Planejamento e Execução das Campanhas de Esclarecimento Prévio e de Informação para a População: Documento que estabelece a orientação para o planejamento, a coordenação e a realização das Campanhas; Há um conjunto de planos que compõem o planejamento global, cabendo à Defesa Civil os seguintes: Plano de Notificação Pública Este Plano consolida as ações planejadas pelos órgãos de Defesa Civil federal, estadual e municipal, CNEN e ELETRONUCLEAR e estabelece a sistemática para notificar a população residente na área de influência da CNAAA e os órgãos do SIPRON; Plano para Execução das Campanhas de Esclarecimento Prévio da População e de Informação para a População Plano que estabelece os critérios para a execução das atividades relacionadas com as campanhas a serem desenvolvidas. c) Cadastramento da População Brasil é país signatário de Acordos e Convenções Internacionais de Energia Nuclear, por conseguinte deve atender a vários requisitos para a segurança da população residente na área próxima às Usinas Nucleares. O cadastramento dos habitantes da área de influência da CNAAA, é de fundamental importância para os planejamentos, para a preparação para emergências e para a segurança da população. Cabe aos órgãos de defesa civil promover esse cadastramento. Essa atividade ocorre quando da realização do Censo nacional, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE, constando de levantamentos de dados relativos à situação socioeconômica, faixa etária e deficientes físicos, e, quando necessário, promovido pela Secretaria Nacional de Defesa Civil/MI, com o apoio da Secretaria de Estado de Defesa Civil/RJ e da Prefeitura Municipal de Angra dos Reis/RJ. 67 Foto 12: Alarme por Sirenes Fonte: SISPRON SISTEMA DE ALARME POR SIRENES O Ministério da Integração Nacional, através da Secretaria Nacional de Defesa Civil, no cumprimento de suas atribuições de proteger a população residente na área próxima à CNAAA, região do Frade e de Mambucaba, no Município de Angra dos Reis/RJ, instalou um Sistema de Alarme por Sirenes, composto de 08 (oito) torres dotadas de sirenes eletrônicas de alta potência, do tipo omnidirecionais, com capacidade para emitir som a 115 dB, com alcance de 1.600 metros, chegando com 60 dB no ponto mais distante. O sistema é de tecnologia americana e permite, através de uma Central de Comando bidirecional, o acionamento das sirenes por controle remoto, podendo também serem acionadas de modo manual, com recursos para emitir sinal sonoro e mensagens pré-gravadas ou em viva voz. Este sistema possibilita o monitoramento automático da torre e dos equipamentos eletrônicos, como alarme contra intrusos, carga das baterias, alimentação de energia elétrica e funcionamento através de teste silencioso das sirenes. As sirenes estão localizadas em pontos estratégicos, com o objetivo de possibilitar uma abrangência sonora em toda a área habitada dentro da Zona de Planejamento de Emergência, no raio de 05 km (ZPE 5), centrado no edifício do reator da Usina Angra 1, para notificação da população, no caso de Situação de Emergência na Central Nuclear Almirante Álvaro Alberto - CNAAA, em Angra dos Reis/RJ. 68 Mapa do Município de Angra dos Reis, demonstrando a divisão em ZONAS DE PLANEJAMENTO DE EMERGÊNCIA, em ZPE-03, ZPE-05, ZPE-10 e ZPE-15, centradas no edifício do reator. Foto 13: Zonas de Planejamento de Emergência Fonte: SISPRON A área de influência da CNAAA é dividida em Área de Propriedade da ELETRONUCLEAR (APE) e 04 Zonas de Planejamento de Emergência (ZPE), compreendida dentro dos limites de um círculo de 03 Km, 05 Km, 10 Km e 15 Km de raio, centrado no edifício do reator das Unidades Operacionais. Este zoneamento é utilizado para a implementação das Campanhas de Esclarecimento Público, o cadastramento da população, a avaliação de necessidades e ativação de abrigos, evacuação da população e a adoção de medidas de radioproteção da população e do meio ambiente. Mais importante que todas as ações governamentais é a participação da comunidade! Não só nos acidentes nucleares, mas em qualquer ocorrência de desastre (seca, inundação, granizo, incêndio, acidente de trabalho, acidente de trânsito) sofre mais quem não está preparado. Por mais remota que seja a possibilidade de ocorrência de um acidente, devemos estar preparados para saber o que fazer, como fazer e quando fazer e ainda treinar estes procedimentos em exercícios simulados. Esse comportamento é a diferença em ser mais ou menos afetado.