PREFÁCIO Alfredo Marques faz parte de uma geração que teve sorte. Já nos bancos do Colégio Pedro II, no Centro, aprendia, com Aurélio Buarque de Holanda e Celso Cunha, a cultivar o gosto pela palavra escrita que ampliou e guardou por toda sua vida acadêmica. Não tenho dúvidas que remonta a um tipo particular de formação básica, há muito abandonada, o despertar em um jovem, desde cedo, de um espírito humanista que o acompanhará em sua carreira ainda que científica. Sorte também de ter vivenciado um período de certa forma romântico e mais idealista do desenvolvimento científico mundial e, em particular, no Brasil. Sorte de ter colaborado e convivido com César Lattes e de ter acompanhado de perto, como um dos principais atores, o desenvolvimento da Física de Raios Cósmicos no Brasil e seu impacto nos estudos da constituição última da matéria. A Física Nuclear foi sua opção intelectual e toda sua experiência profissional nesta área, aliada às suas preocupações e seus interesses com as relações entre Ciência e Sociedade, reflete-se neste livro que ora vem à luz pela EdUerj. O livro, escrito em uma linguagem agradável e de fácil compreensão, aborda diversos aspectos do tema “energia nuclear”: históricos, científicos, sociais, ambientais, políticos e econômicos, oferecendo ao leitor não muito familiarizado com o tema um Glossário muito útil, no qual se incluem também breves traços biográficos dos principais protagonistas no exterior e no país. Como não poderia deixar de ser em uma abordagem geral, o autor escolhe começar pela fascinante história da Radioatividade, que oferece as primeiras pistas de que pode haver uma enorme quantidade de energia armazenada no interior dos átomos, como percebeu logo, por exemplo, Madame Curie. Inevitavelmente, segue-se uma exposição da famigerada corrida armanentista nuclear, motivada pela II Guerra Mundial, abordando a descoberta da fissão nuclear, na qual os alemães saíram na frente. Em contrapartida, um outro capítulo é dedicado ao Projeto Manhattan, a organização que tornou possível a fabricação de bombas nucleares nos Estados Unidos e seus desdobramentos, sobretudo, o fato de ter dado origem a um novo modo de se fazer Ciência em uma escala nunca antes vista, a uma nova sociologia da Ciência, através de grandes colaborações internacionais. A questão histórica dos primeiros testes nucleares e o esforço mundial de controlá-los é também tratada, culminando no Tratado de Não Proliferação das Armas Nucleares. Em vários pontos da obra, Alfredo Marques oferece aos leitores, de forma honesta, crítica e suficientemente isenta, subsídios para que possam formar uma opinião sólida e consciente a respeito do uso pacífico da energia nuclear ou eventualmente reverem posições que já tenham assumido antes, à luz de uma nova argumentação. Por fim, a questão do projeto nuclear brasileiro é tratada em suas múltiplas dimensões, indo da criação do CNPq às Usinas de Angra e incluindo a discussão do “tema da formação de recursos humanos no Brasil, propósito inicialmente integrado ao projeto nuclear e fortemente influenciado por ele, (...) mesmo depois que se emancipou para constituir uma espécie de vanguarda da reforma universitária brasileira”. Alguns dos avanços mais recentes do Brasil nesta área concluem o livro. Alfredo deixa claro ao leitor, na Apresentação, que o conteúdo relatado no livro está impregnado de visões e avaliações estritamente pessoais. Longe de ser um problema, é essa impregnação que dá originalidade e qualidade ao texto. Francisco Caruso CBPF & UERJ