PARTE 2 RECURSOS Unidade 2 – textos de apoio Liberdade e responsabilidade [...] Estou condenado a ser livre. Isto significa que não se podem encontrar para a minha liberdade outros limites que não ela mesma, ou, se preferirmos, que não somos livres de cessar de ser livres. [...] Já vimos que, para a realidade humana, ser é escolher-se: nada lhe vem de fora, nem tão-pouco de dentro, que ela possa receber ou aceitar. Está inteiramente abandonada, sem qualquer ajuda de espécie alguma, à insustentável 5 necessidade de se fazer ser inclusivamente no mais pequeno pormenor. Assim, a liberdade não é um ser: ela é o ser do homem, quer dizer, o seu nada de ser. [...] 10 15 20 25 30 35 [...] Ser livre é ser-livre-para-fazer e é ser-livre-no-mundo. Mas se assim é, a liberdade, reconhecendo-se como liberdade de mudar, reconhece e prevê implicitamente no seu projecto originário a existência independente do dado sobre o qual ela se exerce. E a negação interna que revela o em-si como independente e é esta independência que constitui ao em-si o seu carácter de coisa. Mas, desde o momento em que assento a liberdade pelo simples surgimento do seu ser, é porque ela é como tendo de se haver com outra coisa que não ela. Fazer é precisamente mudar o que não precisa de outra coisa senão de si mesmo para existir; é agir sobre o que, por princípio, é indiferente à acção, pode prosseguir a sua existência ou o seu devir sem ela. Sem esta indiferença de exterioridade do em-si, a própria noção de fazer perderia o seu sentido [...] e, por conseguinte, até mesmo a liberdade soçobraria. Assim, o próprio projecto de uma liberdade em geral é uma escolha que implica a previsão e a aceitação de resistências, sejam elas, aliás, quais forem. Não só a liberdade é que constitui o quadro no qual uns em-si, de resto indiferentes, se revelarão como resistências, mas também o seu próprio projecto, em geral, é projecto de fazer num mundo resistente, por vitória sobre as suas resistências. Todo o projecto livre prevê, ao projectar-se, a margem de imprevisibilidade devida à independência das coisas, precisamente porque esta independência é aquilo a partir de que uma liberdade se constitui. Logo que projecto ir à povoação vizinha para me encontrar com Pedro, os furos, o «vento de proa», mil acidentes previsíveis e imprevisíveis são dados no meu próprio projecto e constituem-lhe o sentido. É por isso que o furo inopinado que transtorna os meus projectos vem tomar o seu lugar num mundo pré-esboçado pela minha escolha, pois nunca cessei, se assim posso dizer, de o esperar como inopinado. E mesmo que o meu caminho seja interrompido por algo que estava longe de pensar, como uma inundação ou um desabamento de terra, num certo sentido este imprevisível era previsto: no meu projecto estava reservada uma certa margem de indeterminação «ao imprevisível», do mesmo modo que os Romanos destinavam nos seus templos um lugar aos deuses desconhecidos, e isto não por experiência dos «contratempos» ou prudência empírica, mas pela própria natureza do meu projecto. Assim, de uma certa maneira, pode-se dizer que a realidade humana não é surpreendida por coisa nenhuma. Estas observações permitem-nos trazer à luz uma nova característica de uma livre escolha: todo o projecto da liberdade é projecto aberto, e não projecto fechado. Se bem que inteiramente individualizado, ele contém em si a possibilidade das suas modificações ulteriores. [...] É esta perpétua previsão do imprevisível, como margem de indeterminação do projecto que sou, que permite compreender que o acidente ou a catástrofe, em vez de me surpreender pelo seu inédito e o seu extraordinário, me aflige sempre por um certo aspecto de «já visto-já previsto», pela sua própria evidência e por uma espécie de necessidade fatalista que exprimimos por um «isto tinha de acontecer». [...] [...] Assim, o projecto da minha liberdade não acrescenta nada (rien) às coisas: ele faz com que haja coisas, ou seja, precisamente, realidades providas de um coeficiente de adversidade e de utilizabilidade; faz 40 com que estas coisas se descubram na experiência, quer dizer, se elevem sucessivamente sobre fundo de mundo no decurso de um processo de temporalização; faz, finalmente, com que estas coisas se manifestem como fora de alcance, independentes, separadas de mim pelo próprio nada que eu segrego e que sou. É porque a liberdade está condenada a ser livre, ou, por outras palavras, não pode escolher-se como liberdade, que há coisas, ou seja, uma plenitude de contingência no seio da qual ela mesma é contingência; 45 é pela assunção desta contingência e pela sua superação que pode haver simultaneamente uma escolha e uma organização de coisas em situação; e são a contingência da liberdade e a contingência do em-si que se exprimem em situação pela imprevisibilidade e a adversidade dos redores. Sou assim absolutamente livre e responsável pela minha situação. Mas por isso mesmo nunca sou livre senão em situação. JEAN-PAUL SARTRE, O Ser e o Nada PARTE 2 RECURSOS