TECNOLOGIAS DE INFORMAÇÃO NO ENSINO DA GEOGRAFIA Maria Francineila Pinheiro dos Santos/UFRGS [email protected] Helena Copetti Callai/UFRGS [email protected] INTRODUÇÃO Na atualidade, a prática de ensino tem desencadeado debates que assumem cada vez mais importância na literatura educacional. Os estudos e pesquisas sobre o ensino de Geografia fazem parte desse contexto, sobretudo pelas dificuldades enfrentadas pelos professores de Geografia no cotidiano escolar. Essas dificuldades giram em torno de dois eixos: - O primeiro refere-se aos modelos tradicionais de ensino, os quais não são mais aceitos na Sociedade da Informação e da Tecnologia. - O segundo relaciona-se às diversas exigências postas ao professor, tanto na teoria quanto na prática. Levando em conta essas considerações, deve-se repensar a prática pedagógica do professor de Geografia na atualidade no intuito de atender os anseios do processo de ensino-aprendizagem da educação atual. Com essa perspectiva, discutiremos a utilização das tecnologias de comunicação e informação nas aulas de Geografia, a exemplo do uso de jornais, da rádio e da internet na Escola Manoel Felipe dos Santos. As Tecnologias de Informação e Comunicação na Educação As tecnologias de informação e comunicação são vistas por alguns autores, enquanto instrumentos a serem utilizados na renovação das escolas e das práticas pedagógicas, como argumentos de transformação para a reflexão crítica do processo educacional. Conforme Preto e Serpa (2001) as tecnologias de informação e comunicação correspondem elementos estruturantes no novo modo de pensar a educação como um todo e a escola em particular. Nesse âmbito, salientamos o relatório “Educação, um tesouro a descobrir”, no qual a UNESCO chama atenção para as tecnologias de informação e comunicação no Sistema Educativo, e recomenda “que os sistemas educativos devem dar respostas aos múltiplos desafios das sociedades da informação, na perspectiva dum enriquecimento contínuo dos saberes e do exercício duma cidadania adaptada às exigências do nosso tempo” (UNESCO, 1996, p. 59). Sem dúvida, a escola deve associar as tecnologias de informação e comunicação no cotidiano escolar, mas é preciso compreender o porquê dessa integração e como esta deve ser feita, para que não ocorra o “simplismo” de colocar a tecnologia como a solução para a os problemas educacionais. Assim, compactuamos com o pensamento de Silva (2002, p. 74), o qual relata que “não concordemos com os discursos que valorizam muito o componente instrumental, falando enfaticamente na necessidade de uma alfabetização digital ou domínio tecnológico, dando a entender que a tecnologia é um fim em si mesmo, um ato isolado, externo ao processo educacional”. Entretanto, vale salientar que as tecnologias de informação e comunicação contribuem na busca de dados e ajudam na complementação e atualização dos conhecimentos presentes nos conteúdos escolares. Estes meios tecnológicos segundo Silva (2002, p. 78), “disponibilizam aos alunos todo tipo de conhecimento relacionado com o programa, do acesso a fontes de informação diversificadas, a atualização permanente dos conteúdos através do acesso a base de dados e ao estabelecimento de uma relação direta com os criadores do conhecimento”. Contundo, Pierre Lévy (2000) chama a atenção para a seleção das informações presentes na internet, pois não existe sistema de informação sem erros, perdas e defasamentos, de modo que a internet dispõe de informações que carecem de uma seleção apropriada e educativa. Nesse contexto, Silva (2002, p.78) coloca que, “os navegadores da Net devem saber domar o caos informativo, arranjar zonas de familiaridade e construir um sentido para o seu universo comunicacional, aspecto que nos remete para as repercussões metodológicas”. Desse modo, o professor torna-se um mediador que irá verificar sites pertinentes e confiáveis, construindo caminhos virtuais seguros para pesquisa educacional. As repercussões positivas em relação ao uso das tecnologias de informação e comunicação na Escola são nítidas, mas não podemos deixar de enfatizar o pensamento de Silva (2002, p. 79) de que “a tecnologia torna possível o acesso direto à informação, mas não é possível o acesso direto ao conhecimento”. Para tanto, faz-se necessário a figura do professor, enquanto intermediário das informações, para a seleção e promoção da construção do conhecimento dos alunos. Na mesma direção, encontra-se o ponto de vista de Wolton (2000, p.124), que nos propõe: Passar de um conhecimento intuitivo e sumário do senso comum para um conhecimento reflexivo em que o individuo seja capaz de organizar, associar e estabelecer relações com as informações não se alcança com a imediaticidade do direto: requer tempo, muito tempo, calma e paciência para aprender a pensar. (...) A navegação pelos oceanos informáticos requer a intermediação humana, nomeadamente a dos professores. Complementando essa colocação, Silva (2002, p.83) comenta uma experiência realizada pelo mesmo, ao utilizar-se de modalidades educativas on-line como suporte e complemento de atividades de ensino-aprendizagem, observando que: Os alunos valorizam as vantagens proporcionadas pela Web na flexibilidade das dimensões espácio-temporais, pelo facto de poderem comunicar com os colegas, com o docente e com outras individualidades/entidades há ‘qualquer hora’ e ‘de qualquer lugar’, ‘em qualquer fase do trabalho’ e ‘com várias pessoas ao mesmo tempo’. No entanto, também valorizam o modelo presencial pela riqueza emotiva e personalizante. Essa constatação levou-nos a concluir que os dois regimes (o da co-presença e o à distância) devem ser convergentes, extraindo-se deles as mais valias que proporcionam uma melhor prática pedagógica. Sendo assim, fica claro que a Sociedade da Informação valoriza o papel de intermediação do professor, no entanto isso impõe alguns desafios, indicados por Silva (2002, p.83), o qual destaca que “a formação no domínio das tecnologias deve constituir um objetivo subjacente a qualquer currículo ou plano de formação inicial, contínua e permanente de professores”. Ainda sobre a formação dos professores para a Sociedade da Informação, Silva e Gomes (2000) colocam que esta deve ocorrer em três domínios, a saber: a) saberes de caráter instrumental e utilitário, domínio que designam por alfabetização digital; b) saberes e competências no nível da pesquisa, seleção e integração da informação, com vista à transformação da informação em conhecimento; c) saberes no desenvolvimento de formas de expressão e comunicação em ambientes virtuais. Desse modo, esta alfabetização digital deve estar associada à escola e às aprendizagens concretas das áreas interdisciplinares e transdisciplinares. Diferentemente do modelo tradicional e atual, pois segundo Arroyo (apud Xavier 2008, p.30) “a organização atual de tais cursos forma os professores para dar conta de uma área de conhecimento, daí a dificuldade dos mesmos de trabalhar em projetos interdisciplinares e de se ocupar de áreas que não sejam as referidas especificamente ao seu curso de formação”. Nestes termos, as tecnologias de informação e comunicação no cotidiano da escola propiciam mudanças nas práticas pedagógicas possibilitando, segundo Silva (2002, p. 84), “em termos educacionais a tecnologia dos bits permite-nos pensar e renovar a escola em Comunidades de Aprendizagem, desafiando os agentes educativos, os professores de forma particular, para mudarem o paradigma de funcionamento da escola e de suas práticas pedagógicas”. No que se refere às mudanças de práticas pedagógicas, Silva (2002) aponta a pedagogia diferenciada de Landshere (1994), a qual compreende outro paradigma metodológico e mais adequado a Sociedade da Informação. Assim tal paradigma enfocaria a combinação de ambientes diferenciados - presenciais e à distância, abertos e fechados, e a ligação de escolas em rede – todos subsidiados pela tecnologia assegurando a difusão da informação possibilitando outro modo de ensinar, ou seja, ensinar a construir o saber e ensinar a pensar. O ato de ensinar consiste na construção do conhecimento, onde devemos segundo Silva (2002) substituir a impressão pela expressão, a assimilação pela produção, a imobilidade pelo movimento, o estudo livresco pelo trabalho criativo, onde ensinar não consiste em transmitir o conhecimento, e sim em construí-lo de forma partilhada e colaborativa contextualizando a realidade social com o processo educativo. Ainda de acordo com Silva (2002), as Comunidades de Aprendizagem devem ter “base na partilha de motivações comuns, afinidades de interesses, conhecimento, atividades, projetos em processo de cooperação e interações sociais entre escolas e instituições comunitárias, independente das proximidades geográficas e de domínios institucionais” (Silva, 2002, p.80), as quais estariam subsidiadas pelas tecnologias de comunicação e informação viabilizando a expansão da capacidade de diálogo interpessoal. As Comunidades de Aprendizagem intermediada pela tecnologia possibilitam “aprendizagens personalizadas e colaborativas”, porém existem alguns desafios emergentes às escolas e notadamente ao professor. O ato de ensinar, segundo Silva (2002, p. 81) deve “passar de um modelo que privilegia a lógica da instrução, da transmissão e assimilação da informação para um modelo pedagógico cujo funcionamento se baseia na construção colaborativa de saberes, na abertura aos contextos sociais e culturais, à diversidade dos alunos, aos seus conhecimentos, experimentações e interesses”. E devemos ir além, como ressalta Arroyo (apud Xavier 2008, p.29): Os profissionais têm de dominar saberes não apenas sobre práticas de ensino, mas sobre o desenvolvimento integral do ser humano, sobre os processos de socialização total dos indivíduos nas sociedades modernas. Têm de dominar conteúdos e processos para estimular o conjunto das capacidades humanas não só cognitivas e intelectuais, mas também sociais, afetivas, expressivas, comunicativas e entender como todas elas interferem nos processos de apreensão do conhecimento. Nestes termos, faz-se necessário compreender a heterogeneidade presente em sala de aula, pois como nos fala Preto e Serpa (2001) a formação dos professores esteve baseada em um sistema no qual contemplou a todos de forma igualitária, desconsiderando as diferenças culturais, sociais e pessoais de aprendizagem. No intuito de igualar a todos, homogeneizando a aprendizagem, o resultado foi negativo, pois apenas confundimos igualdade com igualitarismo, e não conseguimos atingir nosso objetivo – o processo de ensino-aprendizagem de nossos alunos. Preto e Serpa (2001) sugerem que devemos nos apropriar de uma pedagogia aberta aos contextos sociais e culturais, a qual busque em cada aluno a singularidade da diferença como fundamento. E Silva (2002, p.82) compactuando com este pensamento, acrescenta, “não se pode tratar de forma igual o que é desigual à partida, entendemos que uma pedagogia diferenciada é a garantia da igualdade de oportunidades do sucesso educativo”. Entretanto, temos consciência de que não será fácil para o professor trabalhar com as diferenças, pois, conhecer cada aluno demanda tempo. E no caso da maioria das escolas brasileiras o grande número de alunos em sala de aula, além de outros fatores que poderão dificultar e até mesmo inviabilizar este processo. As Diferentes Linguagens no Ensino de Geografia O processo de globalização que atinge pessoas e lugares foi intensificado pelo desenvolvimento do sistema de comunicações. Na maioria das localidades tem-se acesso à imagem da televisão que transmite notícias de todo o mundo, muitas vezes, no momento em que elas acontecem. A rede de telefonia estende-se até mesmo a pequenas e pobres cidades, a povoados e a fazendas distantes das aglomerações urbanas. Esse fato facilita aos alunos, a compreensão de que existe um mundo exterior ao que eles conhecem de maneira local. Entretanto, na escola, pode-se dar inicio ao processo de compreensão da importância do mundo na vida do lugar, e deste lugar no mundo. Nestes termos, práticas pedagógicas associadas à tecnologia de informação e comunicação ajudam estabelecer as relações entre o local e o global, inclusive despertando um interesse nos alunos, os quais fazem parte da Sociedade da Informação. Estes habitualmente utilizam-se na internet de diversos jogos eletrônicos, dos quais os movimentos, as cores e ação constante estimulam a capacidade de raciocínio e a interatividade rápida dos alunos. Neste âmbito, a geografia pode e deve se utilizar de práticas pedagógicas vinculadas às tecnologias de comunicação e informação no intuito de tornar suas aulas mais dinâmicas e interessantes. É comum alguns alunos declararem que “não gostam de Geografia”. Porém, será que não gostam da Geografia em si, ou do modo como essas aulas são ministradas? Cavalcanti nos fornece dados de uma pesquisa realizada , onde verificou-se a seguinte situação: Os alunos da pesquisa, no geral, afirmam não gostar da Geografia estudada na escola. Pelos dados, 32% dos alunos declararam não gostar de Geografia e 10% declararam gostar “mais ou menos”. Além disso, um outro dado relevante é o índice de rejeição pela matéria: 23% apontaram a Geografia como uma das três matérias que menos gostam (1998, p.129). Ainda em relação ao contexto exposto anteriormente, Cavalcanti acrescenta que “existem duas razões principais para não se gostar de Geografia na escola. Em primeiro lugar, há um descontentamento quanto ao modo de trabalhar a Geografia na escola. Em segundo, percebem-se as dificuldades de compreender a utilidade dos conteúdos trabalhados” (1998, p.130). Sendo assim, encontra-se na maioria das aulas de Geografia um formalismo didático marcante, o qual esta autora nos mostra na supracitada pesquisa, que “depois da introdução, ela passou um exercício no quadro-negro e ficou a aula inteira (...). Mas, o que é pior é a formalidade das aulas, das atividades (...). Os alunos (...) agem formal e mecanicamente” (1998, p.131). Tal processo deve ser repensado, como constata Castrogiovanni: O Ensino Fundamental e Médio devem ser acima de tudo, desafiadores, capazes de despertar o interesse dos alunos para a resolução dos problemas que a vida apresenta. Hoje, na chamada pós-modernidade, a escola deve proporcionar os caminhos necessários para que os sujeitos/alunos possam compreender o cotidiano, desenvolvendo e aplicando competências (2007, p.44). Desse modo, o uso de práticas pedagógicas associadas à tecnologia de comunicação e informações pode auxiliar a prática do professor possibilitando uma nova didática para o processo ensino-aprendizagem. Pois é inegável o caráter atrativo que os recursos tecnológicos despertam pedagogicamente em função de suas imagens, sons e outros elementos contidos na sua confecção. As novas gerações, deslumbrados com o que os recursos tecnológicos lhes oferecem, exigem cada vez mais uma escola que disponha de aulas mais dinâmicas e interessantes. O professor precisa ir além do livro didático, do quadro ou da explanação oral, quando há, pois jornais, revistas, computadores, música, filmes e outros, os quais podem gerar palestras, dramatizações e seminários que o façam refletir sobre os conhecimentos geográficos relacionando a teoria com a prática cotidiana dos alunos. Vale ressaltar que os recursos tecnológicos, por si só, não são os instrumentos de informação mais importante para a sala de aula e nem as pesquisas via Internet, mas é fundamental que todos os professores e alunos se habilitem a manusear e entender a linguagem tecnológica juntamente com a leitura das imagens e dos sons. Nesta perspectiva, a utilização dos recursos de comunicação e informação, a exemplo do Jornal, da rádio, da internet, possibilitará o uso de práticas pedagógicas facilitando o processo de ensino-aprendizagem, construindo seu próprio conhecimento através dessas ferramentas, sendo mediadas pelo professor. Como nos fala Freire (2003) o educador que, ensinando, “castra” a curiosidade do educando em nome da eficácia da memorização mecânica do ensino dos conteúdos, tolhe a liberdade do educando, a sua capacidade de aventurar-se. Essa proposta de utilizar práticas pedagógicas associadas às tecnologias de comunicação e informação nas aulas de Geografia é perfeitamente viável, tendo em vista que as escolas de ensino fundamental da cidade de Horizonte/CE já dispõem destes recursos, no caso os Jornais, a rádio e internet em sua realidade escolar. Além do mais, o uso de novas tecnologias no ensino constitui-se em importante demanda dos programas oficiais de educação, conforme podemos perceber nos Parâmetros Curriculares Nacionais – PCNs, o qual nos aponta como uma das tarefas do ensino fundamental, a utilização pelos alunos de diferentes fontes de informação e recursos tecnológicos para adquirir e construir conhecimentos. Os PCNs (1999) sugerem que, “A Geografia trabalha com imagens, recorre a diferentes linguagens na busca de informações e como forma de expressar suas interpretações, hipóteses e conceitos”. Nesta perspectiva, a prática pedagógica no ensino de Geografia pode inserir os recursos tecnológicos no seu cotidiano, tendo em vista a atração que os mesmos exercem sobre os alunos. Conforme nos aponta Tonini: É indiscutível o lugar ocupado pela imagem no mundo atual. Sua centralidade na constituição dos significados sobre as coisas do mundo faz com que seja um insight atual na fabricação das nossas subjetividades. Ela está presente em todas as atividades que desenvolvemos, quer fora ou dentro da sala de aula (2003, p.35). Em relação ao uso destes recursos Callai acrescenta que “Filmes, vídeos, clips musicais, músicas, artigos de revistas, jornais, podem nos levar aos conteúdos da disciplina, exigindo-se do professor apenas que tenha os referenciais teóricos e metodológicos da sua ciência” (2003, p.88). Portanto, é fundamental que os professores se habilitem a manusear corretamente estas tecnologias e as vejam enquanto instrumentos de enriquecimento da atividade pedagógica, tornado as aulas mais dinâmicas e interessantes. Entretanto, muitos educadores fazem parte da geração alfabética, ou seja, da aprendizagem por meio do texto escrito, da leitura do livro ou do artigo de uma maneira tradicional e ultrapassada. Segundo Veiga-Neto, “Somos analfabetos para a leitura das imagens, dos sons, queremos e valorizamos apenas um segmento do conhecimento: aquele que vem da palavra oral ou, mais ainda, escrita” (1999, p.125). Em acréscimo, Almeida (1994) constata que “Nossa alfabetização é parcial e não total. Sabemos ler apenas textos e não imagens, sons e movimentos”. Até mesmo, as imagens dispostas nos livros didáticos às vezes se consolidam em um desafio para alguns professores, pois estes muitas vezes não sabem utilizá-las corretamente. Tonini compreende que “ler imagens criticamente, pois isso implica aprender como apreciar, decodificar e interpretar imagens, analisando ao mesmo tempo a forma como são elas construídas e o modo como operam na construção do conhecimento geográfico” (2003, p.35). No que se refere à Geografia, essa leitura das imagens, gráficos e da realidade que nos cerca é fundamental enquanto prática pedagógica de ensino, pois a leitura do espaço modificado pela ação antrópica através da imagem permite uma maior compreensão da realidade e conseqüentemente uma maior aproximação dos conceitos geográficos. A utilização de práticas pedagógicas associadas à tecnologia de comunicação e informação pode contribuir para amenizar a situação da maioria das aulas de Geografia no Ensino Fundamental II onde ocorre o diálogo do silêncio: o professor “passa” o conteúdo e os alunos escutam sem nenhum interesse ou diálogo. Deste modo, não ocorre o processo de ensino-aprendizagem, pois este denota um ato interativo entre professor e aluno, e não um monólogo. Sendo assim, o uso de recursos como o Jornal, a Internet e a rádio, poderão servir enquanto canal de comunicação e meio de conhecimento, produzindo trocas, leituras e debates colaborando para fazer surgir à sala de aula interativa. Nenhum procedimento pedagógico sozinho poderá produzir toda a novidade, mas a diversidade de experiências poderá propiciar movimentos interativos, os quais são fundamentais em sala de aula. A respeito do conceito de interatividade, Silva expõe: A interatividade é um conceito oriundo do fenômeno da sociedade de informação e manifesta nas esferas tecnológica, mercadológica e social. Bastaria aqui avaliar a publicidade e verificar como ela se fundamenta nessa nova lógica que implica entrar em contato com o leitor, o usuário e o consumidor (2001, p. 10). Entende-se que o uso das tecnologias de comunicação e informação favorece o processo de ensino-aprendizagem, conforme a idéia de Brasford de que “o uso das tecnologias educativas traz consigo novas oportunidades curriculares de ensino, ao trazer para a sala de aula problemas de mundo real para que os alunos analisem e resolvam” (2007, p.265). Em contrapartida, evidencia-se a opinião de Kaercher, pois, “é importante que o educador saiba ouvir, induza a discussões, faça provocações, e proponha novos temas, para que a fala dos alunos não fique restrita só a assuntos imediatistas ou apresentados pela mídia” (2000, p.140). Acredita-se então, que o grande desafio consiste em trabalhar com outras práticas pedagógicas de ensino que despertem o interesse dos alunos pela Ciência Geográfica. Segundo Tonini, “Trabalhar com imagem, seu impacto e sua influência na subjetividade é um desafio legítimo e sedutor: a imagem cruza fronteiras, especificidades e barrismo; possibilita novas formas de buscar o saber num dos mais antigos recursos pedagógicos, e tão disponíveis na escola” (2003, p.43). No que diz respeito ao uso do Jornal nas aulas de Geografia, esta prática visa, sobretudo ampliar os conhecimentos dos alunos acerca de determinados temas geográficos, bastante presente nos jornais, além de associar a teoria e a prática. Kaercher (2003) em seu artigo “Geografizando o Jornal e outros cotidianos: práticas em Geografia para além do livro didático”, coloca a importância de trabalharmos o jornal em sala de aula, no intuito de mostrar a cotidianeidade do espaço geográfico em nossa vida. Nesse contexto, Castellar [2010] salienta que ao dispormos de artigos de jornais nas aulas, o impacto que essa atividade causa para a aprendizagem é muito estimulante, pois pode provocar uma série de perguntas por parte dos alunos. No entanto a autora coloca a necessidade do professor organizar um conjunto de atividades, como o uso do jornal, por exemplo, onde convêm conhecer as notícias e articulá-las, pois nem sempre um artigo possui vínculo direto com o conteúdo estudado. Com esta perspectiva, antes de se iniciar o uso do jornal em sala de aula, procura-se selecionar assuntos vinculados ao conteúdo ou a temas geográficos presentes no cotidiano do aluno. Tendo como exemplo a industrialização, na qual tanto faz parte do conteúdo geográfico quanto da vida dos alunos, tendo em vista que a maioria dos pais dos alunos da Escola Manoel Felipe dos Santos trabalham na indústria, atividade econômica bastante presente no espaço geográfico do Município de Horizonte. Vale ressaltar que existe um projeto denominado O Povo na Educação, através da parceria entre o Jornal O Povo e a Secretaria de Educação do Município de Horizonte, o qual desde 2001 distribuem o referido jornal nas escolas municipais, incentivando a leitura e contribuindo para que os alunos da rede pública municipal busquem através do uso da leitura do jornal ampliar a visão crítica e consciente da realidade, estabelecendo relações entre os conteúdos escolares e a realidade retratada neste meio de comunicação. Outro instrumento de informação e comunicação disponibilizada na Escola Manoel Felipe dos Santos é a rádio escolar, a qual foi implantada nas escolas municipais em 2008. O uso desse instrumento tem possibilitado a integração dos alunos, o senso de responsabilidade na transmissão de informações, a desibinição de alunos mais introspectivos, melhoria na dicção e o estímulo em apreender os conteúdos para associá-los a realidade e depois noticiá-las através da rádio. Vários assuntos geográficos discutidos em sala de aula são no final da aula colocado para os alunos que compõem o grupo da rádio como tema, na qual os mesmos devem relacionar os conteúdos ao seu cotidiano para em seguida transmitir na rádio. Desse modo, os conteúdos geográficos adquirem significado para o aluno, o qual se vê enquanto sujeito do processo, como agente produtor do espaço geográfico, podendo atuar sobre este no intuito de transformá-lo. Estas afirmações se constatam na fala de Callai, quando a autora nos diz que: Um aluno que sabe compreender a realidade em que vive, que consegue perceber que o espaço é construído, e que nesse processo de produção do espaço local e do espaço regional consegue perceber que todos os homens, que a sociedade é responsável por esse espaço, conseguirá estudar questões e espaços mais distantes e compreender, indo além do aprender porque o professor quer. Ao construir seu conhecimento estará aproveitando os conteúdos de geografia para a sua formação, para ser um cidadão no sentido pleno da palavra (CALLAI, 1999, p.58). Em relação ao uso da Internet nas aulas de Geografia, esta é um instrumento de grande utilidade e diversidade (filmes, textos, fotografias, jogos, etc) auxiliando desde pesquisas até mesmo o uso de simulações como o terremoto. O uso de filmes do yotube nas aulas de Geografia nos possibilitou demonstrar para os alunos diferentes processos geográficos, dentre eles o movimento das placas tectônicas, o funcionamento dos vulcões e a simulação de terremotos. As imagens não só chamaram a atenção dos alunos, mas possibilitaram uma maior compreensão destes fenômenos geográficos. Algo que jamais se conseguiria apenas com a voz, o giz, o quadro e o livro didático. Pois o poder das imagens é bastante significativo no processo de ensino-aprendizagem. Considerações Finais Entendemos que as práticas pedagógicas podem utilizar-se das tecnologias de informação e comunicação, pois sua influência em nosso cotidiano é algo incontestável, pois, suas imagens invadem a escola, atravessam currículos, impregnam nossas vidas. As estruturas sociais criaram a sociedade informatizada, na qual os recursos tecnológicos atuam em todas as classes sociais, exigindo que os docentes contextualizem os significados transmitidos pelos meios de comunicação. Além disso, devemos lembrar que estamos diante de uma geração de alunos capturados por imagens, que têm aprendido a escolher suas roupas, suas preferências, seus estilos musicais, seus modos de falar, etc. e desse modo têm sido influenciados. Assim, o uso dos recursos tecnológicos torna-se uma ferramenta útil para as práticas pedagógicas no ensino da Geografia não somente por tratar-se de recurso didático de grande empatia pelos nossos alunos, mas por proporcionar o uso de diferentes linguagens para construir conhecimentos geográficos. A escola tem obrigação de estar atualizada com o mundo contemporâneo e as atuais formas de socialização da educação. Os meios tecnológicos proporcionam diariamente aos alunos, seja via jornais, rádio, e internet informação e comunicação imprescindíveis para a realidade da sala de aula, portanto, devemos utilizar estes recursos no intuito de facilitar o processo ensino-aprendizagem. Nesse contexto o uso do jornal, da rádio e da internet não só despertaram o interesse do aluno, como estimularam os mesmos na construção do conhecimento, associando a teoria e a prática, e possibilitando perceberem-se enquanto sujeitos do espaço geográfico. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALMEIDA, M. Imagens e sons. 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