ESCOLA SUPERIOR DE GUERRA FERNANDO VITALINO DA SILVA JÚNIOR FORÇA AÉREA BRASILEIRA SEGURANÇA E DEFESA DA AMAZÔNIA: uma análise da situação atual Rio de Janeiro 2012 FERNANDO VITALINO DA SILVA JÚNIOR FORÇA AÉREA BRASILEIRA SEGURANÇA E DEFESA DA AMAZÔNIA: uma análise da situação atual Trabalho de Conclusão de Curso – Monografia apresentada ao Departamento de Estudos da Escola Superior de Guerra como requisito à obtenção do diploma do Curso de Altos Estudos de Política e Estratégia. Orientador: Cel Av R/1 Josué Batista de Jesus Neto. Rio de Janeiro 2012 C2012 ESG Este trabalho, nos termos de legislação que resguarda os direitos autorais, é considerado propriedade da ESCOLA SUPERIOR DE GUERRA (ESG). É permitido a transcrição parcial de textos do trabalho, ou mencioná-los, para comentários e citações, desde que sem propósitos comerciais e que seja feita a referência bibliográfica completa. Os conceitos expressos neste trabalho são de responsabilidade do autor e não expressam qualquer orientação institucional da ESG. _________________________________ Fernando Vitalino da Silva Júnior Biblioteca General Cordeiro de Farias Silva Júnior, Fernando Vitalino da Força Aérea Brasileira Segurança e Defesa da Amazônia: uma análise da situação atual / Cel Int Fernando Vitalino da Silva Júnior. Rio de Janeiro: ESG, 2012. 35 f.: il. Orientador: Cel Av R/1 Josué Batista de Jesus Neto Trabalho de Conclusão de Curso – Monografia apresentada ao Departamento de Estudos da Escola Superior de Guerra como requisito à obtenção do diploma do Curso de Altos Estudos de Política e Estratégia (CAEPE), 2012. 1. Grandes projetos implantados. 2. Análise da situação atual. 3. Missões de presença. I.Título. A minha família, que contribuiu com incentivos durante as minhas atividades desenvolvidas na ESG, e, em especial, a minha esposa Iracema, pela compreensão nos momentos de minha ausência, e meus filhos, pelo conforto espiritual que me tem trazido. AGRADECIMENTO Ao Corpo Permanente da ESG e aos demais professores e palestrantes do CAEPE 2012, pela contribuição valiosa no meu aprendizado, permitindo-me compreender a realidade e fazer uma avaliação mais profunda da conjuntura de nosso país. Aos colegas da Turma PROANTAR (CAEPE 2012), pela amizade e pelo convívio harmonioso durante todos os momentos. Ao meu orientador, Coronel-Aviador Josué Batista de Jesus Neto, pelas orientações objetivas na elaboração deste trabalho. Em situações de defesa, cales as vozes e elimine os cheiros, escondidos como fantasmas e espíritos sob terra, invisíveis para todo o mundo. Em situações de ataque, vosso movimento é rápido e vosso grito fulgurante, veloz como o trovão e o relâmpago, para que teus adversários não possam se preparar, mesmo que venham do céu. Sun tzu RESUMO Esta monografia trata da Força Aérea Brasileira na Amazônia, com ênfase na segurança e defesa em uma análise da situação atual. O objetivo deste estudo é fazer uma análise tendo como marco teórico a Estratégia Nacional de Defesa. Identificando as medidas tomadas no transcorrer da história de presença da Força Aérea na área amazônica, seus envolvimentos, vulnerabilidades existentes e as que poderão vir a ser incrementadas com o fito de minimizar óbices quanto à atuação efetiva na Amazônia brasileira. Inicialmente, foi realizada uma revisão histórica apontando a atuação dos pioneiros do ar e a importância que tiveram no sentido de integração e presença. A metodologia comportou uma pesquisa bibliográfica exploratória, por meio da internet e demais bibliografias editadas e de conhecimento público. A pesquisa apontou para a necessidade de uma maior ênfase no processo de conhecimento da região amazônica, um maior incremento de ações no sentido de integrar esta região ao contexto nacional, dotando e aprimorando os meios em infraestrutura adequando ao que estão propostos na própria Estratégia Nacional de Defesa e nos planos estratégicos e de investimentos das forças armadas. Os principais tópicos abordados foram: a infraestrutura existente e as que estão sendo desenvolvidas, as ações de cunho operacional e no campo psicossocial para que esta importante parte do país continue integrada ao contexto nacional. Ao final, identificou-se o muito que já se evoluiu e o quanto se necessita evoluir para que a Força Aérea esteja apta ao contexto de segurança e defesa seja agindo sozinha ou de forma conjunta. Palavras chave: Amazônia Legal. Segurança e Defesa. Integração Nacional. Grandes Projetos. Presença. ABSTRACT This monograph deals with the Brazilian Air Force in the Amazon, with emphasis on security and defense an analysis of the current situation. The objective of this study is, to make an analysis having the National Defense Strategy as the theoretical guide. Identifying measures taken in the course of the history of the Air Force’s presence in the Amazon area, their involvement, existing vulnerabilities and that may be incremented with the aim of minimizing obstacles regarding the activeness in the Brazilian Amazon. Initially, we performed a brief historical review pointing the performance of the pioneers of air and their importance in the sense of integration and presence. The methodology included an exploratory literature search through the internet and other published bibliographies and public knowledge. The research pointed to the need for greater emphasis on the process of knowing the Amazon region, a greater increase of actions to integrate, the region to the national context, equipping and improving the means for adapting the infrastructure that are proposed's own National Defense Strategy and strategic plans and investments of the military. The main topics discussed were: the existing infrastructure and those that are being developed, the actions of operational nature and psychosocial field for this important part of the country continues to be integrated on national context. At the end, was identified how much has already been evolved and how much is needed to evolve for the Air Force to be apt on a security and defense context. Keywords: Legal Amazon. Security and Defense. National Integration. Large Projects. Presence. LISTA DE ILUSTRAÇÕES FIGURA 1 Amazônia legal.................................................................................14 FIGURA 2 Linhas atuais do Correio Aéreo Nacional .........................................20 FIGURA 3 Aeronaves do projeto SIPAM ...........................................................25 FIGURA 4 Área de atuação do PCN .................................................................28 FIGURA 5 Projeto SISFRON .............................................................................33 FIGURA 6 Pista de pouso em Tiriós- Pará .......................................................39 FIGURA 7 Hospital de Campanha da FAB ........................................................43 LISTA DE TABELAS Tabela 1 Atendimentos ACISO do VII COMAR ....................................................... 43 LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS ACISO Ação Cívico Social BABV Base Aérea de Boa Vista CAN Correio Aéreo Nacional CAM Correio Aéreo Militar CINDACTA Centro Integrado de Defesa e Controle do Espaço Aéreo COMAR Comando Aéreo Regional COMAER Comando da Aeronáutica COMARA Comissão de Aeroportos da região Amazônica CCG Centro de Coordenação Geral CTO Centro Técnico Operacional CRV Centro Regional de Vigilância DCA Doutrina do Comando da Aeronáutica DECEA Departamento de Controle do Espaço Aéreo DEPENS Departamento de Ensino DEPV Diretoria de Eletrônica e Proteção ao Voo EB Exército Brasileiro EMAER Estado-Maior da Aeronáutica EMBRAPA Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária EMD Estado-Maior de Defesa END Estratégia Nacional de Defesa EUA Estados Unidos da América FA Força(s) Armada(s) FAB Força Aérea Brasileira GSI-PR Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República INPE Instituto Nacional de Pesquisa Espacial MB Marinha do Brasil MD Ministério da Defesa MPOG Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão OM Organização Militar PCN Programa Calha Norte PEF Pelotão Especial de Fronteira PEMAER Plano Estratégico Militar da Aeronáutica PDN Política de Defesa Nacional RADAM Projeto Radar da Amazônia SAE-PR Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República SEFA Secretaria de Economia e Finanças da Aeronáutica SEORI Secretaria de Organização Institucional SISCEAB Sistema de Controle do Espaço Aéreo Brasileiro SISFRON Sistema de Fronteiras SIPAM Sistema de Proteção da Amazônia SIVAM Sistema de Vigilância da Amazônia SNI Serviço Nacional de Inteligência SPVEA Plano de Valorização Econômica da Amazônia SRPV Serviço Regional de Proteção ao Voo VANT Veiculo Aéreo Não Tripulado SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO ............................................................................................... 13 2 PROBLEMA E OBJETIVO ............................................................................. 16 3 3.1 3.2 SINOPSE HISTÓRICA ................................................................................... 19 PRESENÇA DA FAB NA AMAZÔNIA............................................................. 19 SITUAÇÃO ATUAL DA FAB – ORGANIZAÇÕES EXISTENTES .................... 21 4 4.1 4.2 4.3 GRANDES PROJETOS IMPLANTADOS NA AMAZÔNIA ............................ 24 SIPAM/ SIVAM ................................................................................................ 24 PROJETO CALHA NORTE ............................................................................. 27 SISFRON ........................................................................................................ 29 5 5.1 5.2 5.3 5.3.1 5.4 5.4.1 5.4.2 ANÁLISE DA ATUAÇÃO DA FORÇA AÉREA BRASILEIRA ........................ 34 A ESTRATÉGIA NACIONAL DE DEFESA (END) ........................................... 34 A ESTRATÉGIA DA FAB NA AMAZÔNIA - PEMAER .................................... 36 A FAB E A DEFESA DA AMAZÔNIA ............................................................... 38 COMARA........................................................................................................ 38 OPERAÇÕES DE PRESENÇA E ACISOS ..................................................... 40 Operações de presença ............................................................................... 40 Ações Subsidiárias da FAB na Amazônia - ACISOS .................................. 42 6 CONCLUSÃO ................................................................................................. 45 REFERÊNCIAS .............................................................................................. 47 13 1 INTRODUÇÃO “A logística é tudo, ou quase tudo, no campo das atividades militares, exceto o combate” Antoine-Henry Jomini Entender a Amazônia, área de dimensão continental, com uma fascinante flora e fauna, com suas dificuldades quanto ao apoio logístico, por conta de grandes distancias suas vulnerabilidades quanto à segurança e defesa, perpassam a atuação das forças armadas e em especial a Força Aérea Brasileira que desde meados do século XX vem agindo como fator de defesa, de integração, de dissuasão e, acima de tudo, presença, cumprindo o papel constitucional que lhe cabe. A Amazônia brasileira abrange uma área de aproximadamente 3.500.000Km², porém, para fins essencialmente políticos, foi criada, através da Lei nº 1.806, de 1956, a “Amazônia Legal”, cujos limites foram definidos, posteriormente, pelo Decreto-lei nº 5.173, de 27 de outubro de 1966, e pelo artigo 45 da Lei Complementar nº 31, de 11 de outubro de 1977. Dessa maneira, tem-se que, hoje, a “Amazônia Legal” é composta pela superfície total dos Estados do Amazonas, Pará Acre, Rondônia, Amapá, Roraima e Tocantins, e ainda, pela porção compreendida a oeste do meridiano 44 W, situado no Estado do Maranhão, e pela porção ao norte do paralelo 13 S, que corta o Estado do Mato Grosso, perfazendo, assim, uma superfície total de 5.117.420 Km². 14 Figura 1: Amazônia Legal Fonte: http://tenanbio.blogspot.com.br/2012/04/amazonia-legal-tem-188-de-seu.htm. Desde a descoberta do Novo Continente, grupos de exploradores se aventuraram em descortinar os mistérios, dessa que é a maior floresta tropical do mundo. As dificuldades foram grandes e inúmeras, porém pouco valorizadas por quem é responsável pela história. O trabalho anônimo desses desbravadores teve continuidade no passado recente e atualmente, em grande parte, por intermédio das asas da Força Aérea Brasileira. Atualmente, sensibiliza e toca o íntimo ao se presenciar a bandeira tremulando ao vento em locais só acessíveis após um longo vôo de horas e horas sobre esse fascinante mar verde. Essa importante presença nacional, por meio das 15 Forças Armadas, sobretudo, da FAB, deve-se à capacidade e à criatividade dos homens que, a despeito de todos os desafios existentes, em função das limitações tecnológicas à época, mas imbuídos de um grande ideal, sedimentaram, com suas vidas, as fronteiras da Nação e permaneceram fazendo com que os limites territoriais fossem consolidados e, por conseguinte a presença do Estado se mantivesse. Além da imensidão dos espaços, acompanhada das dificuldades de comunicação e transporte, o desafio em promover a defesa e o desenvolvimento da Amazônia ocorre por diversas razões. O desmatamento e as queimadas, a poluição dos rios por mercúrio dos garimpos, a disseminação da malária, a mortalidade e a prostituição infantil, o uso inadequado da terra e os conflitos entre posseiros, garimpeiros e índios são alguns dos problemas críticos desta região. O grande desafio da sociedade e do governo brasileiro na Amazônia é a de conseguir conciliar o desenvolvimento socioeconômico com as necessidades ambientais e humanas. Devido à alta sensibilidade do equilíbrio ecossistêmico da Amazônia, certas atividades produtivas ali desenvolvidas acabam gerando grande impacto ambiental e perniciosos tipos de degradação. Perceber a pujança e a dimensão da Amazônia é antes de qualquer coisa passar a conhecer e entender esta imensa hiléia brasileira com seus encantos, desencantos, dificuldades e potencialidades diante de um futuro que se avizinha perante o contexto mundial. 16 2 PROBLEMA E OBJETIVO Entender a Amazônia, uma área praticamente continental, suas dificuldades no campo da logística, suas vulnerabilidades quanto à segurança e defesa, perpassa a atuação da Forca Aérea Brasileira desde meados do século XX, agindo como fator de desenvolvimento, de integração, de dissuasão e acima de tudo de presença. A Amazônia pode ser considerada o maior patrimônio do povo brasileiro, por sua diversificada flora, imensa fauna e ricos solos e subsolo. Continua a despertar o interesse de estrangeiros que, no passado, acabaram por extinguir suas florestas para atingirem níveis elevados de desenvolvimento e fizeram com que seus habitantes nativos passassem por um processo de diminuição até praticamente sua extinção, mas permanecem estranhamente preocupados com as florestas brasileiras bem como com os índios existentes. Por vários séculos, mudas de seringueiras foram levadas do território nacional e, além disso, exportavam, em estado bruto, diversos outros tipos de madeiras e minerais. Nos dias atuais ainda são levadas, sem a permissão do governo brasileiro, plantas medicinais e animais provenientes da região amazônica e, permanece o indígena como pretexto para que não se possa desenvolver a região. Hoje, a Amazônia enfrenta crescentes desafios que ameaçam a soberania e a integridade territorial do Brasil. As pressões de toda ordem são fortes e sérias, mas há de se perseverar no sentido de se manter incólume o território nacional. O primeiro grande desafio da região amazônica refere-se à questão ambiental. A enorme potencialidade da Amazônia reside nas inúmeras reservas de recursos naturais renováveis e não renováveis, incluindo desde os minérios convencionais e estratégicos até a admirável dimensão de recursos bióticos e a não menos significativa, diversidade biológica. Essa imensa riqueza da floresta amazônica é, ao mesmo tempo, e paradoxalmente, sua vantagem e sua maior fragilidade, visto que se constitui em um ecossistema alvo de grandes interesses econômicos nacionais e internacionais, encontrando-se constantemente ameaçado pela ação predatória e imediatista de grupos descompromissados com o futuro. Diante deste cenário, uma questão vem à baila: em que medida a atuação da FAB contribui para a segurança e defesa da Amazônia? 17 Com o fito de responder a questão suscitada faz necessário analisar a atuação da Força Aérea Brasileira na Amazônia desde sua chegada à região, bem como o seu comprometimento com a segurança e defesa da região amazônica a luz da Estratégia Nacional de Defesa, bem como apresentar algumas ações subsidiárias previstas na legislação abordada como fator de integração e presença. Inicialmente há de se considerar os dois conceitos envolvidos, quais sejam: segurança e defesa nacional, haja vista o grande uso dos mesmos nos dias atuais. A Escola Superior de Guerra, em seu manual básico, volume I, elementos fundamentais, considera que a segurança é a sensação de garantia necessária e indispensável a uma sociedade e a cada um de seus integrantes, contra ameaças de qualquer natureza. De uma concepção de segurança restrita aos aspectos políticos e militares, sua ampliação abrange hoje um leque de outros ramos. Economia, política, ambiente, cultura, sociedade e indivíduo são elementos constituintes que justificam a nova acepção. As novas ameaças; narcotráfico, crimes transnacionais e outros, revelariam situações nas quais a cidadania, de alguma forma, não pode ser exercida plenamente, conjuntura que afetaria o exercício dos direitos individuais e coletivos. Desse modo, a segurança não é limitada exclusivamente ao poder estatal, inclui os aspectos social, ambiental, econômico, além da esfera militar e política. Quanto ao conceito de defesa, a ESG considera a Defesa Nacional como sendo o conjunto de atitudes, medidas e ações do Estado, com ênfase na Expressão Militar, para a defesa do território, da soberania e dos interesses nacionais contra ameaças preponderantemente externas, potenciais e manifestas. Defendendo o caráter mais restrito ao setor militar, ainda que se interpenetre com o de segurança, sustenta que defesa está relacionada ao preparo e emprego dos meios humanos e materiais para a dissuasão ou derrota de ameaça que venha a se tornar concreta. Diz-se, portanto, que defesa refere-se às ações de cunho militar patrocinadas pelo Estado para fins de garantia da integridade territorial, da soberania do país e da defesa das instituições. Os conceitos acima descritos guardam total coerência com a Política de Defesa Nacional quando define o âmbito e a abrangência dos mesmos. 18 Para que se atinja o objetivo proposto será feito primeiramente uma sinopse histórica da presença da FAB na Amazônia, mostrando as dificuldades iniciais por conta do apoio logístico, para que se entenda melhor e se possa contextualizar o presente trabalho, posteriormente será abordado a situação atual das organizações presentes na região. Em um momento seguinte será evidenciado os projetos implantados e os que estão em curso na área amazônica para que se possa entender e analisar a medida de atuação da FAB, suas estratégias desenvolvidas e as ações empreendidas. 19 3 SINOPSE HISTÓRICA 3.1 PRESENÇA DA FAB NA AMAZÔNIA A presença da Força Aérea Brasileira em solos amazônicos confunde-se um tanto quanto com a história do Correio Aéreo Nacional nos idos de 1935, participando ativamente da integração e do desenvolvimento da região. Com a idéia de aproximar distâncias e pessoas, levar conhecimento, auxílio e integrar as comunidades das mais diversas regiões do País. Constitui-se num ideal que desde épocas mais remotas, no norte ou em outras regiões, personagens públicas ou não, encontram sustentação nas asas do Correio Aéreo Nacional (CAN). As origens do CAN remetem à década de 1930. Naquela época, as aviações militares das duas Forças existentes – Exército e Marinha – possuíam correios aéreos. O então Major Eduardo Gomes foi um dos mentores do Serviço Postal Aéreo Militar, denominação inicial do Correio Aéreo Militar (CAM), depois, Correio Aéreo Nacional. Ele foi o primeiro Comandante do Grupo Misto de Aviação, criado no Campo dos Afonsos, no Rio de Janeiro-RJ, em maio de 1931. É desse grupo o avião que realizou a primeira linha do CAM. Algumas modificações na percepção de ameaças propiciaram à FAB o deslocamento de esforços para a região amazônica; região que desde a década de 1930 já despertava a atenção dos militares e estudiosos de geopolítica no contexto da Segurança Nacional. Com muita vontade e arrojo e com os objetivos claros em mente, o propósito da integração nacional, tendo a solidariedade como instrumento e fator de equilíbrio nas relações sociais, logo a Amazônia foi beneficiada: em 1935, o CAM finalmente chegou a essa região. Graças à visão de futuro, competência e sensibilidade do então Diretor de Rotas Aéreas, o já Brigadeiro, Eduardo Gomes, por meio da Portaria Ministerial de número 47, criava em 12 de junho de 1941, o Correio Aéreo Nacional (CAN), que pôde adquirir o dinamismo necessário à superação das dificuldades geográficas, econômicas e estruturais. E, como reconhecimento, o Congresso, em 12 de dezembro de 1972, proclamou Eduardo Gomes como “Patrono do Correio Aéreo Nacional”. 20 O número de rotas não parou de crescer: em 1943, a linha do Tocantins, uma das mais importantes, foi ampliada até a Guiana Francesa. Depois, foi criada a linha Rio Bolívia. Em 1958, o Correio Aéreo Nacional passou a operar os aviões-anfíbios Catalina nas linhas para a Amazônia, o que aumentou a capacidade de atendimento. As aeronaves foram modificadas para missões de transporte e receberam a designação de C-10 na FAB. O CAN permanece em atividade, até os dias atuais, com a missão de assegurar a presença do Governo Federal nos mais diversos rincões do Brasil, seja transportando remédios, livros, insumos para construção, alimentos, atendimentos médicos e informações. Isso sensibilizou o Congresso a incluir na Constituição Federal de 1988 a operação do Correio Aéreo Nacional como uma das missões da Força Aérea Brasileira, missão esta que é realizada até os dias atuais servindo para efetivamente colaborar com a presença na Amazônia. LTN – 01 MADEIRA - JURUÁ LTN - 02 ALTO SOLIMÕES LTN - 03 RONDÔNIA LTN - 04 JURUÁ - PURUS LTN – 05 RORAIMA Figura 2: Linhas atuais do Correio Aéreo Nacional Fonte: Sétimo Comando Aéreo Regional-VII COMAR (2012) 21 É importante manter o atendimento prestado pela Força Aérea às comunidades da região, através das linhas do Correio Aéreo Nacional (CAN) e Ações Cívico-Sociais (ACISO). Essas missões têm proporcionado um alcance social de altíssima relevância, culminando no reconhecimento a nível nacional e internacional, e na gratidão ímpar por parte das comunidades assistidas. 3.2 SITUAÇÃO ATUAL DA FAB – ORGANIZAÇÕES EXISTENTES Atualmente a Força Aérea Brasileira se faz presente na Amazônia por meio de organizações militares, grandes comandos, no estado do Pará e Amazonas, quais sejam os Comandos Aéreos Regionais, primeiro e sétimo respectivamente. Responsáveis por Coordenar, controlar e executar atividades administrativas e logísticas, em apoio às organizações militares subordinadas e, eventualmente, desdobradas e a outras organizações militares sediadas na Amazônia Ocidental; realizar ações de segurança e defesa; e exercer a representação do Comando da Aeronáutica. Os dois Comandos Aéreos Regionais, que são o Primeiro e o Sétimo, além de suas atribuições também participam da coordenação e fiscalização de atos ilícitos, estão encarregados de prestar apoio logístico a Marinha e ao Exército, principalmente aos Pelotões de Fronteiras, às populações carentes e aos indígenas. O Primeiro Comando Aéreo Regional, localizado na cidade de Belém (PA), tem sob sua subordinação a Base Aérea de Belém, que possui três Esquadrões: o 1º/8º GAV (Grupo de Aviação), equipado com helicópteros Esquilo (CH-55); o 3º/7º GAV, com aeronaves P-95; e o 1º ETA (Esquadrão de Transporte Aéreo), composto por aeronaves C-95 “Bandeirante” e C-98 “Caravan”. O Sétimo Comando Aéreo Regional, localizado na cidade de Manaus (AM), tem sob sua subordinação as Bases Aéreas: Manaus, Boa Vista e Porto Velho. A Base Aérea de Manaus possui quatro Esquadrões de vôo: o 1º/9º, com aeronaves CASA 295(C-105); o 7º/8º, com aeronaves Black hawk (CH-60); 7º ETA, com aeronaves Brasília(C-95), Caravan (C-110) e Bandeirante(C-95) e o 1º/4º GAv, com aeronaves F-5M. A Base Aérea de Boa Vista possui um esquadrão de vôo: 1º/3º GAv, com aeronaves AT-29 Super Tucano. A Base Aérea de Porto Velho possui dois esquadrões de vôo: o 2º/3º GAv, com aeronaves AT-29 Super Tucano e o 2º/8º GAv, com aeronaves MI-35. 22 Continuando o seu investimento na área, o Comando da Aeronáutica criou ainda três Destacamentos de Aeronáutica, em São Gabriel da Cachoeira-AM, na região conhecida como “Cabeça do Cachorro”; em Eirunepé-AM e em Vilhena-RO, fechando dessa forma, todo o arco fronteiriço oeste. Estes destacamentos funcionarão como pontos de apoio a possíveis desdobramentos para o emprego da Força Aérea na Amazônia. Além das organizações elencadas anteriormente existe atuando por meio de suas instalações físicas o CINDACTA IV, órgão subordinado ao Departamento do Controle do Espaço Aéreo – DECEA, com sede na cidade de Manaus e contando com 27 destacamentos, de controle de tráfego aéreo, nos mais variados locais da Amazônia. O CINDACTA é responsável por duas tarefas: a vigilância e o controle da circulação aérea geral (Controle de Tráfego Aéreo) e a manutenção da integridade e soberania do espaço aéreo brasileiro (a Defesa Aeroespacial). O Quarto Centro Integrado de Defesa Aérea e Controle de Tráfego Aéreo é conhecido como o CINDACTA da Amazônia. Organização subordinada ao DECEA, prevista pelo Decreto nº 5.196, de 26 de agosto de 2004, é a unidade responsável pelo controle e gerenciamento do espaço aéreo do Norte do País. Mais de trezentos mil movimentos aéreos recebem, anualmente, o apoio de serviços dessa unidade, tais como: gerenciamento de tráfego aéreo, defesa aérea, meteorologia aeronáutica, busca e salvamento, informações aeronáuticas e telecomunicações aeronáuticas. Responsável pela a cobertura de cerca de 60 % do território nacional, o CINDACTA IV atua em uma área de 5,2 milhões de quilômetros quadrados, abrangendo os estados do Amazonas, Pará, Roraima, Rondônia, Amapá, Acre, Mato Grosso, Tocantins e parte do Maranhão. O aumento do contingente das Forças Armadas na Amazônia Ocidental, hoje com mais de 30.000 homens, em sua maioria do efetivo do Exército Brasileiro, tem exigido da FAB uma crescente demanda por apoio logístico haja vista a precariedade da malha rodoviária e a dependência do regime das águas na região. Assim, a ação da FAB, por meio dos COMAR I e VII, é essencial para o suporte das operações militares na área. A despeito das chamadas “novas ameaças” não estarem bem esclarecidas, exatamente por conta das diferentes formas como elas são percebidas pelos Estados, o Governo brasileiro, por meio de sua Política de Defesa Nacional (PDN), 23 demonstrou estar atento às mudanças que a agenda da Segurança Internacional vem sofrendo. Nesse sentido, a PDN reconheceu a existência das “novas ameaças”, considerando-as como tendo influência nas relações internacionais e nos arranjos de segurança dos Estados. O documento chega a citar, pelo menos, os delitos transnacionais e o terrorismo internacional como parte destas ameaças, realçando o emprego da atividade de Inteligência como forma de combatê-las. Para tanto, a FAB tem mantido suas equipagens em constante aprestamento tornando possível coibir o aumento destas ditas novas ameaças no contexto amazônico. O governo federal tem priorizado a manutenção e ampliação do dispositivo militar ao longo de sua fronteira, não apenas como um imperativo baseado necessariamente na defesa clássica da soberania de seu território, mas, também, para incrementar a vigilância contra a ação da criminalidade organizada transnacional (drogas, armas, terrorismo). É neste ambiente de grandes proporções territoriais e de baixa densidade demográfica, onde a ausência do Estado chega a ser uma regra e não exceção, que se identifica a ação de grupos criminosos que se aproveitam da densa floresta para acobertar suas atividades ilícitas, utilizando-se de rotas áreas, terrestres e fluviais para o transporte de drogas, armas e munições. Além destes delitos, ainda existem os crimes ambientais, a biopirataria, a extração ilegal de madeiras, entre outras ameaças à região. O caráter transnacional desses delitos representa uma ameaça real às soberanias dos Estados que compartilham as mesmas fronteiras do espaço amazônico e neste contexto a atuação da Força Aérea Brasileira vem cumprindo sua missão atribuída constitucionalmente, com a finalidade de coibir os diversos ilícitos que são praticados. Para dar suporte a este apoio nas áreas de fronteiras grandes projetos foram e estão por ser implantados. 24 4 GRANDES PROJETOS IMPLANTADOS “Não existe nada mais difícil de se alcançar, mais perigoso de conduzir ou êxito mais incerto, que liderar a introdução de uma nova ordem das coisas”. (Maquiavel) 4.1 SIPAM/SIVAM Um grande investimento na vigilância das fronteiras, principalmente no arco amazônico, foi a implantação do Sistema de Vigilância da Amazônia (SIVAM) e da infraestrutura técnica e operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (SIPAM), que exigiu investimentos da ordem de US$ 1,4 bilhões nos anos de 1990. A implementação deste ambicioso e criativo Projeto que veio a se constituir em um importante e destacado marco nos campos científico e tecnológico, além de contribuir, significativamente, para a segurança da navegação aérea na Região Amazônica, na proteção do meio-ambiente e no incremento do Poder Aeroespacial Brasileiro. Além disso, faz-se mister destacar a importância do SIVAM como pólo catalisador e contributivo para a integração dos países integrantes do arco amazônico, no que concerne aos fatores segurança da navegação aérea e policiamento do espaço aéreo contíguo às fronteiras. O SIPAM/SIVAM é um grande sistema, concebido pela Comissão de Assuntos Estratégicos (não mais existente), abrangendo áreas que vão desde o monitoramento de queimadas à qualidade das águas da Região Amazônica, tendo utilização nos âmbitos civil e militar. O controle do Tráfego Aéreo e a Defesa Aérea da região amazônica é apenas uma parte do SIPAM/SIVAM. Existiam duas grandes “áreas” do SIVAM. Elas eram conhecidas, extraoficialmente, como a parte “azul” e “verde” do Sistema. A parte azul estava subordinada ao Ministério da Defesa, e tinha responsabilidades tais como a vigilância das fronteiras, o Controle e Defesa do Espaço Aéreo e Fluvial da região e apoio a unidades militares. Na parte azul do Sistema, tem-se como um dos órgãos mais importantes o Centro de Vigilância Aérea (CVA), sediado em Manaus-AM. O CVA é o próprio CINDACTA IV. É ele que coordena o tráfego aéreo e a defesa aérea em sua área de jurisdição. 25 No CINDACTA IV, a parte voltada para o tráfego aéreo e outra para a defesa aérea estão no mesmo prédio, mas em salas diferentes. A sala da Defesa Aérea já opera de maneira completa desde 2006. Ao fim disso, toda a movimentação aérea na Região Norte é comandada a partir de Manaus, no CINDACTA IV, assim como ocorre em outras regiões do país com os outros CINDACTA. Figura 3: Aeronaves do projeto SIPAM Fonte: EMBRAER (2010) Todos os materiais destinados ao SIPAM/SIVAM estão organizados em cinco diferentes subsistemas (de Aquisição de Dados, Tratamento e Visualização de Dados, Telecomunicações, Suporte de Transmissão, e, por fim, de Auxílio à Navegação Aérea). A parte verde, antes subordinada à Casa Civil da Presidência da República e com aplicações focadas em um contexto civil, hoje está sob a égide do Ministério da Defesa, conforme Decreto no 7.424, de 05 de janeiro de 2011, transferiu o CENSIPAM da Casa Civil da Presidência da República para o Ministério da Defesa. Informações meteorológicas, comunicações com pequenas unidades do IBAMA, 26 FUNAI e apoio à Polícia Federal. Ajuda em caso de calamidades, como queimadas e apoio a prefeituras em situações de emergência. Faz-se necessário ainda mencionar o elevado esforço conjunto das organizações militares do Comando da Aeronáutica na Amazônia Ocidental a fim de concentrar esforços com o objetivo único de contribuir para a manutenção da operacionalidade do Sistema de Controle do Espaço Aéreo Brasileiro (SISCEAB), cuja eficácia é diretamente proporcional a sua capacidade de prover o controle do tráfego aéreo e a defesa aeroespacial do território brasileiro. 27 4.2 PROJETO CALHA NORTE De importância fundamental com a finalidade de desenvolvimento e defesa da região norte do Brasil, previa a ocupação militar ao norte da calha do rio Solimões/Amazonas. Apesar de idealizado durante os governos militares de Ernesto Geisel (19741978) e João Baptista de Figueiredo (1979-1984), o PCN só entrou na agenda governamental na administração de José Sarney (1985-1990), em pleno processo de transição política do Brasil. Em 1985, finalmente, após conclusão dos trabalhos do grupo de trabalho interministerial designado para produzir um diagnóstico socioeconômico da fronteira ao norte, e posterior aprovação, foi iniciado seu processo de execução. O hoje, Programa Calha Norte (PCN), tem como objetivo principal contribuir com a manutenção da soberania na Amazônia com a promoção do seu desenvolvimento ordenado. O Programa abrange uma área de fronteira ao norte do país e coloca a Amazônia brasileira no centro do debate sobre a defesa de suas fronteiras, razão pela qual a região tem sido pensada como espaço prioritário de controle geopolítico. Ele foi planejado, originalmente, para cobrir uma faixa de 150 km de largura definida constitucionalmente, ao longo de 7.413 km, que correspondia a 17% do território nacional e 47,1% da fronteira terrestre. O PCN ambiciona garantir a presença do Estado e contribuir para a defesa nacional e a assistência às populações locais, implementando uma proposta de desenvolvimento regional sustentável. Este objetivo foi alterado no Plano Plurianual (PPA) de 2000-2003, após a inserção da frase “e fixando o homem na região”, isto é, garantindo o desenvolvimento regional com base nas peculiaridades socioeconômicas locais. Ao mesmo tempo, na sua contraparte militar, o Programa objetiva a defesa da soberania brasileira sobre a Faixa de Fronteira, entendida como espaço limitado, definido constitucionalmente e administrado pelo Estado. No governo Lula o PCN ampliou sua área de atuação. A área do Programa foi estendida para 10.938 km de fronteira, o que representa 25% do território nacional. Abrangia 151 municípios de seis Estados da federação: Amapá, Pará, Roraima, Amazonas, Rondônia e Acre. Esses municípios estão situados nas calhas dos rios Amazonas, Negro e Solimões e seus afluentes: Içá, Japurá, Branco, 28 Uatumã, Jatapu, Nhamundá, Trombetas, Maicuru, Paru e Jari. Essa área geográfica é limitada internacionalmente com as fronteiras políticas, no sentido de limite territorial, da Guiana Francesa, do Suriname, da Guiana, da Venezuela, do Peru, da Bolívia e da Colômbia. Foram implementadas diversas medidas e ações para enfrentar as carências mais sérias da área, em particular as de caráter socioeconômico que afligem as populações. Para intensificar a presença do Estado nessa região, foram criadas novas unidades militares para controle e proteção das nossas fronteiras, além de ter sido instalado, na Amazônia, um centro dedicado ao adestramento em operações militares combinadas. Com essas ações do Programa Calha Norte pretendeu-se ampliar a presença militar na região e, ao mesmo tempo, proporcionar melhor qualidade de vida aos moradores locais. Figura 4: Área de atuação do PCN Fonte : Google (2012) Atualmente, o Programa abrange 194 municípios em seis Estados da Federação (Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Rondônia e Roraima), dos quais 95 são ao longo dos 10.938 Km da Faixa de Fronteira. O PCN tem uma área de atuação que corresponde a 32% do território nacional, onde habitam cerca de oito milhões de pessoas, dentre as quais se inclui 30% da população indígena do Brasil. 29 Em termos de consenso atual tem-se que a defesa da região amazônica e do país cabe não só aos militares, mas, ao povo brasileiro como um todo. Assim, a Marinha, o Exército e a Aeronáutica procuram fortalecer a presença militar na fronteira da Amazônia brasileira (Projeto Calha Norte) e, ao mesmo tempo, começam a pôr em prática uma estratégia que envolve a participação da sociedade civil. Na sua etapa de implantação era chamado Projeto Calha Norte e tinha uma atuação limitada, prioritariamente, na área de fronteira. Hoje, o Programa foi expandido e ganhou importância em função do agravamento de alguns fatores. Entre eles, o esvaziamento demográfico das áreas mais remotas e a intensificação das práticas ilícitas na região. Nesse contexto, cresce a necessidade de vigilância de fronteira e proteção da população. Ao proporcionar assistência às populações, as ações do Programa pretendem fixar o homem na região amazônica. O PCN busca desenvolver ações de desenvolvimento que sejam socialmente justas e ecologicamente sustentáveis. Para isso, é indispensável respeitar as características regionais e os interesses da Nação. A Estratégia Nacional de Defesa em sua segunda estratégia demonstra inequívoco apoio a permanência deste projeto que muito influencia e dinamiza as ações no âmbito da região amazônica. “Promoção de ações de presença do Estado na região amazônica, em especial pelo fortalecimento do viés de defesa do Programa Calha Norte” (END,2008). 4.3 SISFRON “A defesa da Amazônia deve corresponder aos anseios dessa grande nação para que esse patrimônio seja utilizado como instrumento de desenvolvimento pelas gerações futuras”. Gen Ex Mattos Cmt CMA O projeto SISFRON (Sistema de Monitoramento das Fronteiras) é um sistema de vigilância e monitoramento contínuo que visa a dotar as Forças Armadas (especialmente o Exército) de meios para uma efetiva presença em todo o território nacional, particularmente na faixa de fronteira e na Amazônia, este sistema prevê sua interligação com os sistemas já consolidados, no caso o SIPAM. 30 O SISFRON deve ser implantado em três etapas até estar concluído, em 2019, com custo de manutenção anual estimado em até 10% do total do investimento. A expectativa do governo é obter os recursos com financiamento externo de longo prazo. O projeto original inclui radar de imagem, radares de comunicação de diferentes graus de sofisticação, vants (veículos aéreos não tripulados) e blindados para abranger a fronteira terrestre, com o foco na Amazônia. A base operacional do projeto serão os Pelotões Especiais de Fronteira (PEF), que passarão gradualmente dos atuais 21 para 49. O custo médio de cada pelotão é de R$ 35 milhões, incluindo pista de pouso (que tem orçamento independente do SISFRON). Na avaliação do governo, a porosidade das fronteiras (onde o Exército tem poder de polícia desde 1999) é o problema número um de segurança do país. Com o monitoramento do espaço aéreo na região, iniciado com o SIPAM (Sistema de Proteção da Amazônia), o contrabando e o tráfico de armas migrou para as vias terrestres e fluviais e é por aí que chegam aos grandes centros. Os principais benefícios são o incremento das oportunidades de integração regional e da cooperação militar com as Forças Armadas vizinhas; uma maior presença do Estado e a integração entre órgãos do governo; aumento da capacidade de vigilância e de monitoramento; a efetivação da estratégia de presença militar e a melhoria da capacidade de apoio as suas operações. O SISFRON ampliará a capacidade de controle das fronteiras terrestres, atualizando e integrando todos os subsistemas de monitoramento existentes: sensores (sensoriamento; comunicações; segurança das informações e comunicações; apoio à decisão; capacitação; simulação; logístico e gestão), agregando outros meios modernos de sensoriamento (equipamentos de comando e controle; sistema de apoio à decisão; sensores de HF, VHF, satelitais, meteorológicos, óticos e térmicos; radares de rastreamento aéreo, hidroviários e terrestres; centros de operações; centros de simulação; veículos aéreos não tripulados; satélites de comunicações e satélites de observações) que estarão em contato direto com os atuadores (tropa, Instituições e Órgãos do poder público) mais próximos ao ilícito que, após a tomada de decisão, responderão com o emprego de pessoal e meios adequados à situação. 31 O governo brasileiro, alinhado com a Estratégia Nacional de Defesa, tem avançado no sentido de institucionalizar e operacionalizar políticas de proteção das áreas de fronteiras do País, especialmente na Amazônia. Projetos como o SISFRON visam atender às necessidades de monitoramento e vigilância das fronteiras. Os benefícios decorrentes são diversos e vão desde os aspectos políticos e militares até os aspectos sociais e econômicos. No que se refere ao crescimento e desenvolvimento econômico, os investimentos previstos criam boas expectativas para a indústria nacional de defesa. Sabe-se que, para a operacionalização do SISFRON, o Exército necessitará, por exemplo, de radares sofisticados de curto e longo alcance, equipamentos de visão noturna, torres de observação e transmissão de sinais, câmeras óticas e termais, imageamento por satélites, sistemas de treinamento e simulação, veículos aéreos não tripulados, blindados para proteção de fronteiras, veículos de apoio, embarcações especiais etc. O País vivenciou situação semelhante com a implantação do Sistema de Vigilância da Amazônia (SIVAM), infraestrutura técnica e operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (SIPAM), que exigiu investimentos da ordem de US$ 1,4 bilhões nos anos 90. A concepção e implantação do SIVAM/SIPAM, em operação a partir de 2002, foram cercadas de grande polêmica no meio científico brasileiro. Criticou-se, sobretudo, o fato de o governo não ter recorrido à capacidade científica nacional ao optar pela aquisição de pacotes tecnológicos completos dos EUA (devese destacar que as condições de financiamento do Eximbank tiveram papel decisivo na escolha da empresa americana Raytheon Company). Na ocasião, o País perdeu uma grande oportunidade de consolidar seu próprio desenvolvimento industrial, já que empresas nacionais, associadas a institutos e universidades nacionais, teriam condições de desenvolver, sem prejuízo técnico, um sistema semelhante ao norte-americano. Além disso, quanto a sensoriamento remoto e monitoramento ambiental, a transferência de tecnologia se deu no sentido inverso, uma vez que o Inpe e a Embrapa tinham experiência reconhecida nas áreas. No caso do SISFRON, os US$ 6 bilhões de investimento inicialmente previstos também atraem empresas multinacionais amplamente amparadas por seus respectivos governos. As alemãs Rheimentall e Rohde & Schwarz, as norte- 32 americanas Harris e Rockwell Collins, a francesa Thales, a israelense Elbit Tadiran, a italiana Selex e o consórcio europeu Cassidian já manifestaram interesse. Não se trata, no entanto, de excluir a participação de empresas estrangeiras, mas sim de garantir que esta seja ancorada na transferência de tecnologia e no predomínio dos interesses nacionais. A Embraer Defesa e Segurança foi escolhida pelo Exército Brasileiro, no final do mês de agosto do corrente ano, para executar o projeto piloto do SISFRON (Sistema de Monitoramento de Fronteiras), contemplando uma área de aproximadamente 600 quilômetros de fronteira terrestre, na divisa do Estado do Mato Grosso do Sul com o Paraguai e a Bolívia. Portanto, para que o SISFRON cumpra seus objetivos e possa alinhar Defesa e desenvolvimento socioeconômico, é fundamental valorizar as competências da indústria nacional, a capacidade de desenvolver tecnologias em nossos centros tecnológicos e universidades e contar com o conhecimento adquirido pela indústria de defesa brasileira. Sua implantação e instalação estão previstas para os próximos dez anos. Uma vez identificados os sistemas e equipamentos necessários, é plenamente possível, com o estímulo e compreensão do governo, que a indústria nacional de defesa seja preparada para as demandas futuras. 33 Figura 5: Projeto SISFRON Fonte: Exercito Brasileiro (2012) 34 5 ANÁLISE DA ATUAÇÃO DA FORÇA AÉREA BRASILEIRA “Para ter capacidade dissuasória, o Brasil precisa ter capacidade de mobilização e, para isso, precisa ter insumos de defesa próprios”. (Nelson Jobim, 2007) 5.1 A ESTRATÉGIA NACIONAL DE DEFESA (END) Segundo a END (2008) quatro objetivos estratégicos orientam a missão da Força Aérea Brasileira e fixam o lugar de seu trabalho dentro da Estratégia Nacional de Defesa. Esses objetivos estão encadeados em determinada ordem: cada um condiciona a definição e a execução dos objetivos subsequentes. Todos estes quatro objetivos exercem influencia na questão amazônica: 1) A prioridade da vigilância aérea. Exercer a vigilância do espaço aéreo, sobre o território nacional e as águas jurisdicionais brasileiras, com a assistência dos meios espaciais, terrestres e marítimos, é a primeira das responsabilidades da Força Aérea e a condição essencial para poder inibir o sobrevôo desimpedido do espaço aéreo nacional por aeronaves hostis. A estratégia da Força Aérea será a de cercar o Brasil com sucessivas e complementares camadas de visualização, condicionantes da prontidão para responder. Implicação prática dessa tarefa é que a Força Aérea precisará contar com plataformas e sistemas próprios para monitorar, e não apenas para combater e transportar, particularmente na região amazônica. Para tanto a Força Aérea brasileira vem implementando medidas visando o cumprimento do que está preconizado na legislação vigente, mantendo esquadrões de voo adestrados, capazes de coibir ilícitos, atuar em missões especificas de Força Aérea e outras atividades, além de contar com o CINDACTA IV, órgão ligado ao sistema de monitoramento e controle do SIPAM/SIVAM na área da região amazônica. 2) O poder para assegurar superioridade aérea local. Em hipótese de emprego a Força Aérea terá a responsabilidade de assegurar superioridade aérea local. Do cumprimento dessa responsabilidade, dependerá em grande parte a viabilidade das operações navais e das operações das 35 forças terrestres no interior do País. O requisito do potencial de garantir superioridade aérea local será o primeiro passo para afirmar a superioridade aérea sobre o território e as águas jurisdicionais brasileiras. Para tanto, a Força Aérea vem dotando as organizações da Amazônia com vetores aéreos capazes, pessoal adestrado e qualificado condizentes com o tamanho da área e da missão constitucional prevista para a força. 3) A capacidade para levar o combate a pontos específicos do território nacional, em conjunto com o Exército e a Marinha, constituindo uma única força combatente, sob a disciplina do teatro de operações. A primeira implicação é a necessidade de dispor de aviões de transporte em número suficiente para transportar em poucas horas uma brigada da reserva estratégica, do centro do País para qualquer ponto do território nacional. As unidades de transporte aéreo ficarão baseadas no centro do País, próximo às reservas estratégicas da Força Terrestre. A segunda implicação é a necessidade de contar com sistemas de armas de grande precisão, capazes de permitir a adequada discriminação de alvos em situações nas quais forças nacionais poderão estar entremeadas ao inimigo. A terceira implicação é a necessidade de dispor de suficientes e adequados meios de transporte para apoiar a aplicação da estratégia da presença do Exército na região Amazônica e no Centro-Oeste, sobretudo as atividades operacionais e logísticas realizadas pelas unidades da Força Terrestre situadas na fronteira. A Força Aérea vem dotando ao longo dos anos de meios físicos capazes de promover o desdobramento de forças que necessitem operar no vasto território amazônico. Criou novas organizações militares, construiu e está construindo novas pistas e instalações para o abrigo de pessoal militar nas diversas operações. 4) A índole pacífica do Brasil não elimina a necessidade de assegurar à Força Aérea o domínio de um potencial estratégico que se organize em torno de uma capacidade, não em torno de um inimigo. Sem que a Força Aérea tenha o pleno domínio desse potencial aeroestratégico, não estará ela em condições de defender o Brasil, nem mesmo dentro dos mais estritos limites de uma guerra defensiva. Para tanto, precisa contar com todos os meios relevantes: plataformas, sistemas de armas, subsídios cartográficos e recursos de inteligência. 36 Para que a FAB atue dentro dos ditames preconizados pela END diversas ações são necessárias para adequação da Força ao ambiente amazônico. A própria END entende e afirma que: Na região amazônica, o atendimento a esses objetivos exigirá que a Força Aérea disponha de unidades com recursos técnicos para assegurar a operacionalidade das pistas de pouso e das instalações de proteção ao vôo nas situações de vigilância e de combate. Outro aspecto que guarda relevância e, enfocado pela END, é a questão dos organismos não governamentais agindo com influência na área, para tanto vem otimizando o controle sobre atores não governamentais, especialmente na região amazônica, visando à preservação do patrimônio nacional, mediante ampla coordenação das Forças Armadas com os órgãos governamentais brasileiros responsáveis pela autorização de atuação no País desses atores, sobretudo daqueles com vinculação estrangeira. 5.2 A ESTRATÉGIA DA FAB NA A AMAZÔNIA - PEMAER O Plano Estratégico Militar da Aeronáutica (PEMAER) é um processo de formulação de estratégias organizacionais no qual se busca a inserção da organização e de sua missão no ambiente em que ela está atuando. O Planejamento Estratégico Militar, no nível das Forças Armadas, tem por finalidade construir uma capacidade militar para compor o esforço principal da Defesa Nacional. Esse planejamento estratégico, condicionado pela Política Militar de Defesa (PMD), pela Estratégia Militar de Defesa (EMiD), pela Doutrina Militar de Defesa (DMD), e recentemente, pela Estratégia Nacional de Defesa (END), é realizado separadamente pelas três Forças e formaliza-se em políticas, estratégias e planos estratégicos decorrentes, cujos cumprimentos resultam em configurações de forças militares aptas para o emprego. Para tanto, o Comandante da Aeronáutica, em busca de uma modernização administrativa e um aprimoramento gerencial da Força, incumbiu o Estado-Maior da Aeronáutica (EMAER) de formular e manter atualizado um plano estratégico capaz de proporcionar o estabelecimento de prioridades na execução das atividades inerentes ao cumprimento da missão da Aeronáutica em todos os níveis organizacionais. 37 A Estratégia Nacional de Defesa (END), aprovada por meio do Decreto Nº 6.703, de 18 de dezembro de 2008, foi concebida em torno de três eixos estruturantes: a reorganização das Forças Armadas, a reorganização da indústria nacional de defesa e o fortalecimento e a ampliação do serviço militar. No que diz respeito à articulação, sem deixar de tirar proveito das duas importantes características que mais distinguem o Poder Aéreo – mobilidade e flexibilidade, o planejamento dedicou especial atenção a medidas que possam redundar em ações que reforcem a capacidade de pronta-resposta do poder militar brasileiro, seja como força principal na execução da própria ação, como no caso da aviação de interceptação, seja como força de apoio ao combate utilizada no desdobramento imediato das unidades de emprego estratégico da Marinha ou do Exército. Para tanto, o COMAER planejou remanejamentos, transformações, fechamentos e criação de organizações militares, buscando o aprimoramento da distribuição geográfica de suas organizações e instalações e a compatibilização com as orientações estratégicas estabelecidas pela END. Dentro dos quatro objetivos que orientam a missão da Força Aérea Brasileira e fixam o lugar de seu trabalho dentro da Estratégia Nacional de Defesa destaca-se o de exercer do ar a vigilância do espaço aéreo, sobre o território nacional e as águas jurisdicionais brasileiras, com a assistência dos meios espaciais terrestres e navais, é a primeira das responsabilidades da Força Aérea e a condição essencial para poder inibir o sobrevoo desimpedido do espaço aéreo nacional por aeronaves hostis. A estratégia da Força Aérea será a de cercar o Brasil com sucessivas e complementares camadas de visualização, condicionantes da prontidão para responder. A implicação prática dessa tarefa é que a Força Aérea precisará contar com plataformas e sistemas próprios para monitorar, e não apenas para combater e transportar, particularmente na região amazônica, assegurando que a defesa se faça a pleno e de forma constante e com eficiência. O PEMAER por meio deste embasamento normativo promove a implantação de projetos dos Destacamentos de Aeronáutica de São Gabriel da Cachoeira, de Vilhena e de Eirunepé. Uma vez concluída a presença da Força Aérea na Amazônia será acrescida de pontos estratégicos para o monitoramento do espaço aéreo daquela região, em consonância com os objetivos maiores da Nação. 38 Na região amazônica, o atendimento a esses objetivos exigirá que a Força Aérea disponha de unidades com recursos técnicos para assegurar a operacionalidade das pistas de pouso e das instalações de proteção ao voo nas situações de vigilância e de combate. 5.3 A FAB E A DEFESA DA AMAZÔNIA “Transformando a Amazônia, o Brasil se transformará”. (Mangabeira Unger, 2007) 5.3.1 COMARA Para a FAB, a região Amazônica já vinha sendo alvo de preocupação desde a década de 1950 em função, como exposto anteriormente, dos nichos de vazio populacional e que representavam um óbice para a integridade territorial da região amazônica e unidade nacional. Como exemplo desta preocupação, já no ano de 1956, vislumbrando a ocupação deste território, o então Ministro da Aeronáutica, Brigadeiro Henrique Fleiuss, assinou em 12 de dezembro, o decreto n° 40.411, criando a Comissão de Aeroportos da Região Amazônica (COMARA). Este novo órgão ministerial tinha como finalidade montar uma infraestrutura aeroportuária de modo que os meios aéreos de grande porte, tanto civis como militares, pudessem alcançar as distantes fronteiras da selva equatorial brasileira. Nesta época, existiam apenas 17 aeródromos na região, dos quais somente Manaus (AM), Santarém (AP) e Belém (PA) eram asfaltados. Com o desenvolvimento desse projeto inicial, em 1955, o Ministério da Aeronáutica criou a Comissão Mista FAB/SPVEA, que após um ano e sete meses foi transformada em COMARA (Comissão de Aeroportos da Região Amazônia), através do Decreto n° 40.551, de 12 de dezembro de 1956, assinado pelo então presidente da República Juscelino Kubitschek. Neste mesmo ano, a COMARA traçou um plano diretor que previa a construção de 54 aeródromos em toda Amazônia. Até o ano de 2000, este órgão governamental já havia construído mais de 130 pistas de pousos na região, sendo a grande maioria, com capacidade para receber aviões de grande porte. Somente com esta infraestrutura instalada foi possível dar prosseguimento ao atual projeto SIVAM. 39 Em 55 anos, a COMARA realizou 262 obras aeroportuárias, sendo 174 de infraestrutura e 88 de edificações em praticamente todas as regiões do país. Atualmente, estão em execução obras e projetos nas localidades de Santa Rosa dos Purus (AC); Eirunepé, Estirão do Equador, Moura, Palmeira do Javari, Tunuí Cachoeira e Yauaretê (AM); Salvador (BA); Porto Velho (RO); Surucucu (RR). A maioria das obras é realizada em locais isolados, desprovidos de quaisquer recursos. Os insumos utilizados são mobilizados pelo modal aéreo e fluvial, este último respondendo por aproximadamente 95% de toda a movimentação. A pista estratégica em Tiriós, no estado do Pará, teve seus insumos e equipamentos totalmente transportados via aérea em um processo de desmontagem e montagem no local da obra. A Comissão de Aeroportos da Região Amazônica (COMARA) ao longo da sua existência tem participado ativamente das ações em prol da defesa da Amazônia, implementando a infraestrutura adequada para a atuação dos meios aéreos e assim projetando a Força Aérea como instituição. Figura 6: Pista de pouso em Tiriós- Pará Fonte: COMARA ( 2011) 40 5.4 OPERAÇÕES DE PRESENÇA E AÇÕES SUBSIDIÁRIAS 5.4.1 Operações de presença A ideia de cooperação está presente na Política de Defesa Nacional (PDN). Nesse sentido, a PDN identifica a região amazônica como sendo uma das áreas prioritárias para efeito do planejamento da Defesa Nacional. Além disso, destaca a importância de serem estabelecidos mecanismos de cooperação com os países vizinhos para alcançar este objetivo: Em virtude da importância estratégica e das riquezas que abrigam, a Amazônia brasileira e o Atlântico Sul são áreas prioritárias para a Defesa Nacional. Para contrapor-se às ameaças à Amazônia, é imprescindível executar uma série de ações estratégicas voltadas para o fortalecimento da presença militar, efetiva ação do Estado no desenvolvimento sócioeconômico e ampliação da cooperação com os países vizinhos, visando à defesa das riquezas e do meio ambiente. (PDN, 2005) Em cumprimento desta diretriz, o Ministério da Defesa do Brasil tem coordenado diversos exercícios militares com os países amazônicos vizinhos. O grande fator motivador para esta aproximação está na convicção das partes de que existem problemas comuns a serem enfrentados por meio de ações conjuntas, pois o caráter transnacional das ameaças torna imperiosa a existência de uma efetiva cooperação. As operações ou exercícios militares conjuntos com os países amazônicos vizinhos estão acontecendo com certa regularidade. Estas operações visam estabelecer uma maior vigilância e controle dos espaços aéreos adjacentes às faixas de fronteira a fim de coibir a ação de grupos criminosos que se utilizam de aeronaves para transportar drogas, armas e munições. Na realidade, o policiamento do espaço aéreo é uma missão inerente a qualquer uma das forças aéreas envolvidas nessas operações. A Força Aérea participa de diversas atividades, coordenadas pelo MD, que visam projetar sua presença na Amazônia como um todo, principalmente nas áreas de fronteira. Diante deste cenário destacam-se operações como a operação Ágata que tem como objetivo o combate de ilícitos. São dois os eixos principais do plano. O primeiro é o fortalecimento da Operação Sentinela. Realizada com êxito pelo Ministério da Justiça desde 2010, a 41 Sentinela é de caráter permanente e tem foco em ações de inteligência. Essa operação será intensificada e passa a contar com o apoio das Forças Armadas. O segundo eixo é a Operação Ágata. Diferentemente da Sentinela, essa operação é de natureza pontual e temporária. Baseia-se no aumento da presença e do impacto das forças envolvidas em pontos focais da faixa de fronteira. A Ágata envolve sozinha, a participação de aproximadamente cinco mil homens das Forças Armadas e o uso de meios como embarcações, aviões e outros veículos militares. O objetivo da Operação é intensificar o combate ao tráfico de drogas, ao contrabando e descaminho de armas e munições, à extração de minerais e madeiras de forma ilegal, ao tráfico de animais silvestres e à biopirataria. COLBRA - O Brasil e a Colômbia têm um problema em comum, na área da fronteira entre os dois países, relacionado ao tráfego de aeronaves supostamente envolvidas em atividades ilícitas transnacionais. As Normas Binacionais de Defesa Aeroespacial - NBDA 01 BR/CO, em vigor entre a Força Aérea Brasileira e a Força Aérea Colombiana, estabelecem um sistema permanente de coordenação e cooperação para o controle de atividades aéreas irregulares na zona fronteiriça entre os dois países. Trata-se de uma Operação Conjunta/Combinada, com a finalidade de realizar atividades de Vigilância do Espaço Aéreo sobre aeronaves não identificadas, simuladas por aeronaves C-95 da FAC, desdobradas no aeródromo de Letícia (Colômbia), e aeronaves Caravan C-98 da FAB, desdobradas no aeródromo de São Gabriel da Cachoeira (Brasil), simulando aeronaves envolvidas em atividades ilegais, cruzando a fronteira dos dois países. VENBRA - Operação combinada das Forças Aéreas do Brasil e da Venezuela. Já em sua sexta edição, a VENBRA realiza missões de vigilância com foco em transferência de tráfegos aéreos de interesse, ou seja, que combatem o tráfego de aeronaves supostamente envolvidas em atividades ilícitas. O exercício integra o acordo de cooperação bilateral firmado no ano 2000 em Brasília (DF). A área de aproximadamente 700km de fronteira entre os dois países será o cenário, para a realização da sexta edição da manobra que tem que tem por objetivo principal treinar pilotos e controladores de voo para procedimentos de interceptação e maior controle de tráfego aéreo na região. O exercício contribui para estabelecer procedimentos que possibilitam maior eficácia no combate ao tráfico de ilícito transnacional, por meio da cooperação entre 42 os órgãos de Defesa Aérea do Brasil e da Venezuela; consolida procedimentos de cooperação para a interceptação de aeronaves para a execução de Medidas de Policiamento do Espaço Aéreo e também é utilizado para revisar e atualizar as Normas Binacionais de Defesa Aeroespacial para aprimorar os procedimentos de transferência de tráfego aéreo de interesse. As missões da VENBRA são realizadas no espaço aéreo da região de fronteira dos dois países. A sede brasileira do exercício é localizada na Base Aérea de Boa Vista (BABV), em Roraima. A base venezuelana fica em Santa Elena de Uairén, cidade localizada no sudoeste do país vizinho, a 15 km da fronteira com o Brasil. A manobra também possibilita um intercâmbio operacional na área de defesa aérea com controladores brasileiros acompanhando a operação em Caracas e controladores venezuelanos em Manaus. Basicamente, as três operações citadas visam estabelecer procedimentos padronizados empregando a estrutura existente de defesa aérea de cada país. No caso brasileiro, a atual infraestrutura montada do CINDACTA IV tem contribuído sobremaneira para o cumprimento destas operações. Durante os exercícios conjuntos, que são precedidos por diversas reuniões preparatórias, uma aeronavealvo decola a partir de uma localidade situada em um dos países participantes e é interceptada por outra aeronave militar ao atravessar a faixa de fronteira. 5.4.2 Ações Subsidiárias Da FAB na Amazônia - ACISOS A lei complementar 136, artigo 16, parágrafo único afirma: “Art. 16. Cabe às Forças Armadas, como atribuição subsidiária geral, cooperar com o desenvolvimento nacional e a defesa civil, na forma determinada pelo Presidente da República”. Parágrafo único. Para os efeitos deste artigo, integra as referidas ações de caráter geral a participação em campanhas institucionais de utilidade pública ou de interesse social. A Doutrina Básica da FAB, DCA 1-1, 2012, estabelece a Ação Cívico-Social (ACISO) que consiste em empregar Meios de Força Aérea para atuar no campo psicossocial da população. Nesse sentido a Força Aérea Brasileira desenvolve ações que contribuem para o resgate da dignidade da população pouco assistida da Amazônia. São programadas saídas com a finalidade de promover atendimento social, 43 principalmente o medico, em áreas distantes e carentes. O quadro abaixo retrata alguns atendimentos realizados durante uma operação ACISO na área do VII COMAR nos estados do Amazonas e Acre. Local\Dia Pediatria Ginecologia Clín. Méd. Odonto Total Canutama 18.01 31 23 30 12 96 Tapauá 19.01 46 28 38 34 146 Lábrea 20.01 63 45 55 49 212 Pauiní 21.01 110 48 76 32 266 Boca do Acre 105 50 85 45 285 Total geral: 1005 atendimentos Tabela 1: Atendimentos ACISOS do VII COMAR Fonte: VII COMAR 2012. Figura 7: Hospital de campanha da FAB. Fonte: VII COMAR (2012) Amazônia exige o avanço de um projeto de desenvolvimento sustentável que passa pelo trinômio monitoramento/controle, mobilidade e presença. O Brasil 44 está sempre vigilante na reafirmação incondicional de sua soberania sobre a Amazônia brasileira. Repudiará, pela prática de atos de desenvolvimento e de defesa, qualquer tentativa de tutela sobre as suas decisões a respeito de preservação, de desenvolvimento e de defesa da Amazônia. Não permitirá que organizações ou indivíduos sirvam de instrumentos para interesses estrangeiros – políticos ou econômicos – que queiram enfraquecer a soberania brasileira. “Quem cuida da Amazônia brasileira, a serviço da humanidade e de si mesmo, é o Brasil” (END, 2008). Portanto faz-se necessário e imprescindível a constante participação da FAB proporcionando a população da Amazônia um atendimento adequado e digno sem prejuízo de sua atividade fim, qual seja, a manutenção da soberania aérea. 45 6 CONCLUSÃO A Força Aérea Brasileira desde o inicio de sua participação na integração da Amazônia ao cenário nacional do Brasil vem crescendo e aumentando sua atuação como se pode constatar com o presente trabalho. Muito se fez e muito ainda há de ser feito com a finalidade de melhor prover de meios aéreos e de controle do espaço aéreo com o fito de se manter a integridade física e soberania, em consonância com a Estratégia Nacional de Defesa, no tocante ao trinômio monitoramento/controle, mobilidade e presença, advindo daí medidas que capacitem a Força Aérea no cumprimento de sua missão constitucional. Ao longo do tempo, sobretudo nas três ultimas décadas, a Amazônia passou a assumir papel maior não apenas no contexto das políticas domésticas, mas igualmente no contexto regional e internacional. Na Política de Defesa Nacional, entre as orientações estratégicas, explicita-se no item 6.12 que “em virtude da importância estratégica e da riqueza que abrigam, a Amazônia brasileira e o Atlântico Sul são áreas prioritárias para a Defesa Nacional” (BRASIL, 2005, p. 17). A Força Aérea Brasileira esteve e está presente, no contexto da defesa, promovendo ações que vão desde implantação de novas organizações militares, Bases Aéreas, na criação de infraestrutura adequada (novas pistas de pouso), deslocando organizações típicas de defesa aérea de outros estados, fazendo com que sua atribuição constitucional seja realizada de forma satisfatória diante do cenário existente. Os grandes projetos implantados, Calha Norte e SIPAM/SIVAM, e os que estão por vir, SISFRON, fazem com que exista uma perspectiva crescente da participação da FAB como força dissuasória, além de proporcionar maior integração entre as forças irmãs e outros órgãos da administração federal alocados na Amazônia. A Amazônia brasileira tende a integrar-se com harmonia, de modo participativo, com a circunvizinhança – composta pelos países lindeiros com as fronteiras Norte, Noroeste e Oeste brasileira e que conformam o arco amazônico. Ademais, a imensidão verde, com dimensões quase continentais, nos últimos tempos está integrada ao restante do País, sem o receio de invasões indesejadas, com plena capacidade de detecção das ameaças e de pronta-resposta militar 46 àqueles que se atreverem a penetrar indevidamente no território amazônico e/ou violar o espaço aéreo sobrejacente àquela região, desafiando a soberania brasileira. As novas organizações militares da FAB, ativadas na Amazônia, tornar-seão fundamentais para auxiliar o esforço em potencializar as estratégias da Presença e da Dissuasão, para coibir os voos ilícitos, operações de guerrilha e narcotráfico, e a cobiça internacional por uma das regiões mais observadas do planeta, estas medidas vêm sendo o incremento que a Força Aérea Brasileira desenvolveu para esta região. Em decorrência da implantação de novas unidades aéreas na região amazônica e com o intuito de propiciar a possibilidade de maior mobilidade às operações, o COMAER identificou algumas pistas de desdobramento e alternativas como os possíveis aeródromos para a operação dessas unidades. Esses aeródromos contribuirão para a permanente prontidão operacional em atender a todas as hipóteses de emprego, integrando forças, conjuntas ou não, além de projetar poder nas áreas de interesse estratégico, bem como resguardar a segurança de voo das unidades aéreas contra as influências meteorológicas peculiares naquela região que, não raras vezes, provoca o fechamento dos aeródromos próximos, para tanto mantém ativa a COMARA com a finalidade de manter e construir novos pontos de apoio. 47 REFERÊNCIAS BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF: Senado Federal, 1988. ______. Decreto n° 6.703, de 18 de dezembro de 2008. Aprova a Estratégia Nacional de Defesa. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 19 dez. 2008. Seção 1, p. 4. ______. Decreto n° 7.364, de 23 de novembro de 2010. Estrutura Regimental do Ministério da Defesa. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 24 nov. 2010. Seção 1, p. 1. ______. Decreto n° 7.424, de 05 de janeiro de 2011. Transferência do CENSIPAM da Casa Civil para o Ministério da Defesa. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 06 jan. 2011. Seção 1, p. 1. ______. Lei Complementar n° 117, de 2 de setembro de 2004. Altera a Lei Complementar n° 97, de 9 de junho de 1999. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 3 set. 2004. Seção 1, p. 2. ______. Lei Complementar n° 136, de 25 de agosto de 2010. Altera a Lei Complementar n° 97, de 9 de junho de 1999. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 26 ago. 2010. Seção 1, p. 11. ______. Lei Complementar n° 97, de 9 de junho de 1999. Dispõe sobre as normas gerais para a organização, o preparo e o emprego das Forças Armadas. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 10 jun. 1999. Seção 3, p. 2. ______.Ministério da Defesa. Política de Defesa Nacional. Brasília, DF, 2005. ESCOLA SUPERIOR DE GUERRA (Brasil). Manual Básico: elementos fundamentais. Rio de Janeiro, 2009. v.1. ESCOLA SUPERIOR DE GUERRA (Brasil). Manual Básico: assuntos específicos. Rio de Janeiro, 2009. v.2. ______. Manual Básico: método para o Planejamento Estratégico. Rio de Janeiro, 2009. v.3. O Poder Aeroespacial na Amazônia Ocidental. Disponível em: <http://www. SAE.gov.br/seminarioamazonia/.../Artigo-VII-COMAR.pdf >. Acesso em: 10 jul. 2012 BRASIL. Ministério da Defesa. SISFRON-Proteção das Fronteiras e a Indústria Nacional de Defesa –Informe COMDEFESA. Brasília,DF.Disponível em: <HTTP://www.defesanet.com.br/terrestre/noticia/1651/SISFRON>. Acesso em: 19 maio 2012. A SEGURANÇA da Amazônia no século XXI. Disponível em: <HTTP://www.revistaautor.com/portal/index. php>. Acesso em: 12 maio 2012. 48 O Programa Calha Norte e suas consequências para a Amazonia.pdf. Disponível em: <http://www.obed.ufpa.br/pdf>. Acesso em: 12 maio 2012. Atuação da Força Aérea no Amazonas. Disponível em: <http://www.amazonsat.com.br/script/video.php>. Acesso em: 23 jun. 2012. Brasil. Ministério da Defesa. Comando da Aeronáutica.Caças supersônicos em defesa da Amazônia – Força Aérea Brasileira. Disponível em: <http://www.fab.mil.br/portal/capa/index>. Acesso em: 19 maio 2012. EMBRAER vence licitação do SISFRON. Disponível em: <http://www.clippingmp.planejamento.gov.br/cadastros/noticias>. Acesso em: 22 set. 2012. Militares na Amazônia. Disponível em: <http://www.cpdoc.fgv.br/sites/txt Adriana Marques>. Acesso em: 20 abr. 2012.