RELATÓRIO FINAL Histórias em quadrinhos a partir da experiência: desdobramentos das narrativas visuais como dispositivo artístico na Revolução dos Baldinhos. José Luiz Kinceler1, Paulo Andrés de Matos Villalva2 Palavras-chave: histórias em quadrinhos, experiência e produção de sentido, dispositivo artístico. A atividade de pesquisa com a Revolução dos Baldinhos, projeto da comunidade do Chico Mendes em Florianópolis, possibilitou muitas experiências criativas. Na direção de contribuir para representações artísticas que gerassem seu sentido a partir do contexto desta comunidade, foram iniciados diversas proposições que se encontram em processo. Dentre estas, as histórias em quadrinhos de autoria compartilhada a partir das vivências permitiram a articulação entre leituras da área de artes com situações vivenciadas com a comunidade. Foi a partir do paradigma da “experiência/sentido”3, de Jorge Larrosa Bondía, que estas atividades se desenvolveram, dando fruto a duas diferentes publicações. Das atividades contínuas de elaboração e compartilhamento pedagógico dos resultados, novas situações foram criadas, onde pudemos experienciar as atividades de criação de histórias em quadrinhos como um tipo de “dispositivo artístico”4. Como desdobramento, os elementos formais das histórias em quadrinhos também ganharam vida de forma complexa: 1) balões de fala e pensamento em tamanho natural para a manipulação em fotografias; 2) As máscaras dos “ratos”, personagens lúdicos feitos para dar representatividade à Revolução dos Baldinhos com a comunidade, e 3) quadrinhos e balões em formato de figurinhas para serem colados em revistinhas-álbuns de narrativa aberta. Prólogo O presente artigo faz um esforço para criar uma imagem, ou panorama, destas ações, introduzindo o diálogo com autores na medida em que as reflexões são construídas a partir da experiência vívida. Trabalhar com histórias em quadrinhos (HQ) de autoria compartilhada5 tem se revelado, além de um grande prazer, uma fonte inesgotável de desdobramentos e situações em arte relacional em sua forma complexa. Se hoje o artista pode articular todos os signos da cultura, então as revistas em quadrinhos são um meio tão viável quanto qualquer outro. A análise deste artigo parte de atividades relacionadas à criação de histórias em quadrinhos (HQ), que dentre outras realizadas pelo projeto “Horta vertical saber: uma plataforma de saberes e desejos compartilhados em arte pública com a comunidade Monte Cristo”, contribuíram para que atingissemos a meta de criação compartilhada e disseminação dos resultados com a comunidade. Em uma ilha de um lugar chamado Brasil O cenário o qual faremos grande parte do percurso desta reflexão é a sede da Revolução dos Baldinhos, projeto mantido em parceria com a CEPAGRO6, na comunidade do Chico Mendes, bairro Monte Cristo, Florianópolis. O projeto surgiu em função de uma grande infestação de ratos e doenças, devido ao lixo espalhado pelas ruas. Lá, a mulheres da Revolução dos Baldinhos recolhem o resíduo orgânico da comunidade, para depois transformar-lo em adubo através do processo da compostagem termofílica. Os “Baldinhos”, galões azuis com tampas pretas, ficam em locais específicos nas calçadas, em frente ás casas, e são recolhidos com carrinhos puxados a mão. Em síntese, a compostagem termofílica trata de acomodar os resíduos em valas, tampar com uma camada de serragem e palha para aquecer o material, evitar mau cheiro e não atrair os ratos. Em média oito meses depois o composto está pronto para ser peneirado e misturado a terra, ser vendido e distribuído na comunidade. Esse RELATÓRIO FINAL processo praticamente eliminou a infestação de ratos que geravam Leptospirose entre outras doenças. Lá na “Revolução”, Roselena Rodriguez (Lena), Cintia Aldaci da Cruz, e Ana Karolina Conceição tiveram um papel mais ativo, sendo as pessoas com quem tivemos mais contato. A pergunta que moveu grande parte das propostas desenvolvidas durante essa pesquisa foi: Como a Arte Relacional em sua forma Complexa pode gerar representações artísticas que produzissem sentido à esta comunidade. Uma das primeiras propostas que desenvolvemos em parceria com a Revolução dos Baldinhos foi a de um roteiro fílmico experimental de autoria compartilhada. De sua construção participou todo o grupo de pesquisa “Arte e Vida nos Limites da Representação”, assim como vários membros da Revolução. Nesse roteiro surgiram os protagonistas “ratinhos”: os ratos, origem do problema que movimentou a comunidade na direção de uma solução possível, foram transformados em personagens bem humorados, que morriam como transmissores de doenças para renascer como bonecos de espuma animados, com vida própria, nossos “Ratungos”. O roteiro foi finalizado, mas o filme, até o momento, não pode ser concretizado devido as suas dificuldades técnicas, de tempo, e de contexto para tanto. Foi a partir desta necessidade, e numa primeira tentativa de elaboração de um storyboard7 para o roteiro, que quadrinizamos o primeiro capítulo da história. Essa experiência serviria, mais a frente, como ponto de partida para a elaboração de atividades compartilhadas, desenvolvidas com a Revolução dos Baldinhos. Imagem 1 - Capa e duas páginas da HQ experimental realizada a partir do roteiro compartilhado. Como consequência direta desta primeira experimentação com quadrinhos, em novembro de 2012 elaboramos uma atividade de criação compartilhada de história em quadrinho (HQ) na Escola Básica Municipal Acácio Garibaldi, na Barra da Lagoa, Florianópolis. Em uma turma intermitente de 6 alunos, com idade média de doze anos, foi desenvolvido um trabalho complexo. Durante quase dois meses passamos por: modelagem em argila, criação de personagens, construção de fornos para queima em cerâmica, criação musical durante as queimas, fotografia e desenho. A elaboração da HQ partiu da criação de narrativas em dimultâneo a seções de fotografia com as peças cerâmicas produzidas. A atividade se encerrou com a formalização de uma revista em quadrinhos com colagens das fotografias, de recortes de revistas, e outras intervenções gráficas sobre as imagens. Tudo de maneira coletiva, com todos colaborando em cada etapa, assim surgiu a “HQ Geodésica Nº1”. RELATÓRIO FINAL Imagem 2 - Registro da oficina e algumas páginas da HQ ali produzida. Em paralelo a este trabalho, várias atividades foram realizadas na sala de escultura do Centro de Artes da UDESC, com a presença das mulheres dos Baldinhos. Na ocasião aconteceram oficinas de cerâmica, formas de gesso, esculturas com sucata e papietagem, sempre de forma simultânea e participativa, onde cada um que se apoderava de um saber devia passa-lo para os demais, sem a figura de um “mestre” fixo. Todos eram professores e alunos de todos, compartilhando seus saberes. Nestas oficinas foram modeladas em argila cabeças de ratos, suas formas de gesso, e a possibilidade para nosso grupo heterogêneo de materializar máscaras e alegorias dos “Ratungos”, personagens do roteiro compartilhado. Nesse ponto vale a reflexão a cerca do pensamento do educador Paulo Freire, por vezes tão propagado na teoria e ao mesmo tempo tão pouco posto em prática. Nos diz sabiamente este educador: “Ninguém educa ninguém, ninguém educa a si mesmo, os homens se educam entre si, mediatizados pelo mundo”8. Guardadas as proporções do tempo da sua fala, esse era o clima na situação que vivemos mais acima, onde o saber ia passando de um ao outro a partir da interação mútua, das simultaniedades afetivas, e da necessidade que o contexto da atividade pedia. A próxima etapa desse processo, e que viraria o roteiro da primeira HQ compartilhada, foi o Cortejo dos Ratos, atividade relacional realizada na comunidade do Chico Mendes. O que lá aconteceu foi um momento lúdico e compartilhado, onde em conjunto com a Revolução dos Baldinhos, vestindo alegorias e máscaras de ratos, e portando ferramentas e instrumentos musicais, instalamos hortas verticais em calçadas da comunidade. Todo o processo, de recolher o adubo nos terrenos de compostagem, transportar, preparar as mudas, construir e instalar as estruturas das hortas, plantar as mudas e conversar com os moradores que deveriam cuidar e usufruir da horta foi acompanhado de forma ativa pela comunidade, em especial pelas crianças. Tudo foi registrado em fotografias e vídeos, material que foi editado posteriormente para uso na composição da HQ e de mostras de vídeos na comunidade9. As propostas relatadas até aqui, todas de autoria e execução compartilhadas, funcionaram em sintonia com reflexões sobre Arte Relacional na sua forma Complexa. São de teor relacional e artístico por que as representações que elas criam não reafirmam um espaço simbólico e privado, mas são fruto das relações humanas em seu contexto social10. Colocado de outra forma, tais propostas só geram representações quando: “(...) possibilita a participação e a colaboração por parte do público desestabilizando-o, deslocando-o, fazendo com que seu modo de sentir e perceber este mundo possa ser revisto, por isso se realiza em uma relação dinâmica e aberta”11. RELATÓRIO FINAL O Cortejo dos Ratos movimentou a comunidade, não só criando uma descontinuidade para quem dela participava, como as crianças do bairro, mas construindo novos sentidos para a relação entre a Revolução dos Baldinhos, a comunidade do Chico Mendes, e o grupo de pesquisa. Como veremos no capítulo seguinte, não só as representações da atividade do cortejo, mas aquelas criadas a partir dos seus desdobramentos, foram fruto da reinvenção das relações humanas naquele contexto. Enquanto isso... No espírito das atividades artísticas complexas, sentindo a necessidade de desdobrar as imagens do Cortejo dos Ratos, surge a proposta da quadrinização da atividade realizada na comunidade do Chico Mendes. Descobriríamos que os quadrinhos, como linguagem, se adaptam bem á complexidade da vida, bem adaptáveis as propostas de Arte Relacional em sua forma Complexa. As histórias em quadrinhos podem articular fotografia, desenho, modelagem, colagem, produção textual, composição musical, funcionando assim como um bom mecanismo para a tão propalada interdisciplinaridade12. Segundo Gazy Andraus, os recentes estudos no campo da neurociência demonstram que as HQs ativam ambos os lados do cérebro, a parte mais racional na leitura dos fonemas, e a mais intuitiva para as imagens, assim: Eis uma das razões de por que os japoneses gostarem de mangá e não terem quase preconceito: eles aprendem ideogramas na infância, além dos fonemas pertinentes à sua língua (...) a leitura dos ideogramas se dá em áreas hemisféricas distintas do cérebro, mais atinentes ao hemisfério direito (...) para os japoneses que leem ambos, a leitura dos quadrinhos é algo natural, enquanto que a mente ocidental racional criou um estigma desvalorizando o desenho (a arte em si) devido à exacerbação do hemisfério esquerdo cerebral, causada principalmente por um exagero na valorização da leitura cartesiana dos fonemas13. Além da visão da neurociência, a atividade de elaboração das narrativas pelas histórias em quadrinhos, em especial de forma compartilhada, permitem que ela não se limite aos paradigmas da “ciência/técnica” (positivista e do método de como fazer e reproduzir), ou da “teoria/prática” (de perspectiva política e de crítica social) mas também atinjam o nível qualitativo da “experiência/produção de sentido”, definidos por Jorge Larrosa Bondía14. Os dois primeiros se fazem presentes, respectivamente, no “como fazer” e no “sobre o que fazer”, mas é na experiência complexa e compartilhada da interação entre as pessoas que esse fazer ganha sentido para o grupo e para cada um dos envolvidos. O sentido gerado a partir da experiência não é apenas simbólico, ou da ordem do que é compartilhado por todos, mas é também singular e remete a situações do “real”15. Lembrando aqui que para Lacan, o “real” difere da realidade. De modo geral, a realidade é particular e individual, um recorte contaminado pelo imaginário subjetivo de cada um. O real está naquelas situações para as quais não temos um simbólico totalmente formado. Em outras palavras, são situações e/ou objetos os quais não podemos enquadrar em nossas caixinhas pré-estabelecidas. A articulação entre o que desconhecemos, as experiências que somamos no cotidiano, e o que acreditamos conhecer, gera o processo criativo, uma “falta”. A partir destas faltas que temos de criar novas formas de atuação nesta realidade, para depois incorporá-las ao simbólico, tornando a nova “descoberta” comunicável ou exprimível16. Ainda sobre validade do processo criativo compartilhado, José Luiz Brea nos fala de como a narração pode ser um recurso para que o artista crie o jogo representacional das novas práticas artísticas. Para ele o artista atual é um produtor: “a) um gerador de narrativas de reconhecimento mútuo; b) um indutor de situações intensificadas de encontro e sociabilização de experiência; e c) um produtor de mediações para seu intercâmbio na esfera pública”17. RELATÓRIO FINAL Retomando o script deste artigo, e de modo semelhante, criando uma experiência a partir de nossa falta, compartilhamos a elaboração da “HQ Geodésica Nº2”. A atividade ocorreu na sede da Revolução dos Baldinhos, onde entre recortes de fotografias, tesoura, cola, e papel, o cortejo gerava novos significâncias a partir de uma nova experiência. Além de Leni e Cíntia, outras pessoas da comunidade, presentes em diferentes ocasiões, contribuíram para os textos e montagem dos quadrinhos. Uma música de RAP feita por MCs da comunidade foi adaptada à narrativa da historinha, que de forma lúdica conta como os ratos mudaram de lado, de vilões para colaboradores da revolução, instalando hortas verticais na comunidade. Imagem 3 - HQ Geodésica Nº2 Mais peças para o quebra cabeças A “brincadeira” de se criar HQs exige um mínimo de conhecimento a respeito dos elementos básicos de sua linguagem. Palavra e imagem tem que se complementar, sem trazer redundância. Diferentes estratégias da linguagem das HQs foram surgindo no decorrer do tempo. Dentre estas, uma das mais essenciais são os balões ou caixas de texto18. Os balões podem ter infinitas formas, representar recursos de timbre de voz, oscilação, distorção do som, e apesar de totalmente abertos a criação estilística possuem algumas formas básicas, como na imagem abaixo: Imagem 4 - Tipos de balões mais comuns em HQs. RELATÓRIO FINAL Esta séria “brincadeira” de montar uma história em quadrinhos foi o que possibilitou novas oportunidades de jogos criativos. Por que não segurar um pequeno balão de fala recortado, desenhado e escrito sobre papel branco, em frente à face de seu colega ou professor e tirar uma fotografia? Por que não, depois disso, construir os balões presentes nas histórias em quadrinhos, como o de fala, pensamento e grito, em formatos grandes, muito grandes, como em tamanho natural? Seguindo estas faltas que procedemos, com materiais encontrados ao acaso, como folhas de “eucatex” que tem uma face laminada em branco, alguma tinta plástica preta, serra tico-tico, e nossos balões de HQ em tamanho natural nasceram para interagir com as pessoas a nossa volta. O material laminado em branco possibilitou que nele escrevêssemos com canetas de quadro branco, para logo em seguida apagar com papel toalha ou coisa do gênero. Em oportunidades seguintes o grupo de pesquisa se reuniu na comunidade do Chico Mendes para a instalação de novas hortas verticais. Mais uma vez a ação aconteceu juntamente com as alegorias dos ratos, que passearam pela comunidade interagindo com as pessoas, carregando hortas sobre o carrinho de mão que comumente carrega os baldinhos de resíduos pela comunidade. Também eram distribuídas cópias da “HQ Geodésica Nº 2”, que contava a história do Cortejo dos Ratos. Mais uma vez nos vimos cercados de crianças da comunidade, como numa brincadeira que deslocava os elementos da famosa história do “Flautista de Hamelin”, só que aqui os “ratos” e crianças seguiam pelo caminho sem que um terceiro, o flautista, as conduzissem. O grande fator de interação nos momentos seguintes de instalação de hortas verticais na comunidade do Chico Mendes foram, sem dúvidas, os balões em tamanho natural. Alguns detalhes técnicos foram resolvidos da maneira muito simples, com resultados surpreendentes, a exemplo do problema de como manter os balões suspensos no ar para as fotografias. De fato, o que ocorria era que a própria pessoa a ser fotografada, ou outro que ficasse de lado ou atrás do primeiro plano, seguravam o balão sobre suas cabeças. As crianças se aproximavam para interagir com os balões, escrever frases para que fossem fotografadas os segurando, ou mesmo interagindo com os balões em branco. Naquele momento rico de elementos criativos, percebemos que mesmo esse vazio dos balões em branco nos diziam algo, traziam uma interação que deslocava as pessoas de uma posição de passividade diante da máquina fotográfica. Não era um “posar” individual para a fotografia, ele exigia uma outra interação entre as pessoas para que a imagem fosse composta. Imagem 5 - Dia de instalação de hortas verticais nas calçadas da comunidade do Chico Mendes. A partir destas experiências surgiram as perguntas: no fundo o que são estes elementos balões de HQ? Seriam eles dispositivos artísticos? Quando os deslocamos da representação bidimensional para o ambiente tridimensional, os balões se tornaram objetos que funcionavam como os “Bichos” de Lygia Clark, não no seu sentido formal, mas em função do deslocamento que causavam, e na especificidade de um contexto de arte pública na comunidade. Não pode ser por coincidência que Lygia designa RELATÓRIO FINAL como “Objeto Relacional” a todos os elementos que ela utilizava nas sessões de Estruturação do Self, a partir de 197619. Ainda sobre esta categoria de objetos: (...) Alguns Objetos Relacionais recebem uma denominação específica: é o caso do Grande colchão, almofadão de plástico transparente, preenchido com bolinhas de isopor e coberto por um lençol solto (...) Outros objetos não tem nome e outros, ainda, mudavam de nome em função de seu uso e, portanto, do tipo de experiência que proporcionavam (...) o que indica mais uma vez que a obra não se finaliza no objeto sendo este relacional em sua própria essência20. Os balões eram, desde uma perspectiva complexa, um “Objeto Relacional”. Eram então parte de um “algo maior”, um dos elementos que compõem um dispositivo artístico de ordem relacional. O confronto final: e o dispositivo? Surpreendentemente, a atividade de criação compartilhada de histórias em quadrinhos não para de gerar desdobramentos. Se por um lado o trabalho coletivo de criação contém uma parcela dos desejos e afetos de diferentes momentos e pessoas que contribuíram em cada uma das etapas de elaboração, umas afetando as outras e imprimindo esta relação no produto final, por outro, o mesmo não pode ser dito de quem recebe o material já finalizado. Pensando em solucionar esse fator, elaboramos para a “HQ Geodésica Nº3” uma história em quadrinhos da Revolução dos Baldinhos em forma de álbum de figurinhas. Para o álbum de figurinhas as páginas foram diagramadas apenas com os quadrinhos em branco, e as imagens fotografadas durante uma palestra ministrada pela Leni no Núcleo Norte de Educação de Jovens e Adultos, localizado no bairro dos Ingleses, Florianópolis. Durante esta palestra foram distribuídos pequenos pedaços de papel para a plateia, solicitando que cada um anotasse uma frase ou palavra significativa sobre a Revolução dos Baldinhos. Estas palavras e frases se tornaram o texto de dentro dos balões, impressos em diferentes formatos, como de fala, grito, pensamento e sussurro, deixando alguns em branco, para servirem de “figurinhas” para nosso álbum. Imagem 6 - HQ Geodésica Nº3 e algumas “figurinhas” para a montagem dos quadrinhos. Até o momento um álbum foi montado em companhia das crianças que participam de uma oficina de cerâmica nas quartas-feiras na sede da Revolução dos Baldinhos. Mais um álbum em branco ficou nas mãos das crianças, juntamente com as figurinhas das imagens e balões, para que elas montassem a RELATÓRIO FINAL narrativa da maneira que desejassem. A criação de HQs tem funcionado como um mecanismo complexo que permite que diferentes deslizamentos ocorram, criando novas formas de sua utilização. É finalmente aqui que entra a ideia de dispositivo artístico. Em primeiro lugar é preciso sintetizar o conceito de “dispositivo” do qual partimos. Para isso nos apoiaremos no pensador Gilles Deleuze. Deleuze vê no pensamento de Foucault a constância de uma categoria que pode ser definida como dispositivo. Mesmo que Foucault não defina em detalhes o conceito, Deleuze nos indica que o dispositivo é um mecanismo com linhas de força complexas que criam regimes de luz21. As linhas de força são os desejos e saberes individuais que entram na equação, e os regimes de luz são as verdades enunciadas, ou aquilo que um determinado contexto assume como factível ou aceitável. Deslocando para o campo das artes, Brian Holmes se apropria do conceito de dispositivo para criar a categoria de dispositivo artístico. Para ele, um dispositivo tem característica artística quando cria espaço para linhas de ruptura que deslocam o regime de luz22. Em outras palavras, o dispositivo artístico permite que se crie uma situação complexa onde nossas verdades enunciadas, ou nosso simbólico, ou ainda nossas fórmulas prontas e caixinhas, não podem dar conta daquele momento, pois a linha de ruptura, ou aquilo que nos move de nossa zona de conforto, nos obriga a deslocar o regime de luz. O movimento que o dispositivo artístico completa não é apenas o da desconstrução e abertura de um simbólico anterior, mas constrói e compartilha novas concepções a respeito das representações que cria. As atividades de criação compartilhada de HQ funcionam como um dispositivo artístico, não só abrindo novos espaços de ruptura, mas subjetivando novas formas de se relacionar com os objetos, consigo mesmo, e com o outro. Em nenhuma das atividades haviam formulas pré-estabelecidas, nem se poderia prever a contribuição que cada um aportou para a narrativa por meio de imagens e palavras. Quase todos os participantes tinham muito pouco ou nenhuma relação com HQs, no entanto se envolveram na elaboração de uma ou mais revistas, mergulhando no que para eles era o desconhecido. Epílogo As atividades relatadas foram articuladas com referenciais do campo das artes na busca de uma compreensão mais complexa dos fenômenos e situações experienciadas. É através do conceito de dispositivos artísticos que temos operado nas diferentes atividades do grupo de pesquisa “Horta vertical saber: uma plataforma de saberes e desejos compartilhados em arte pública com a comunidade Monte Cristo”. Realizando oficinas de hortas verticais, iniciação à cerâmica, construção de geodésicas de bambu, tocatas, mostras de vídeo, cortejos, e criação de histórias em quadrinhos de autoria compartilhada, demostramos que é possível relacionar diferentes situações e atividades para a criação de novas narrativas, o que também demonstra o caráter interdisciplinar das ações. Sobre a criação das HQs, nenhum dos propositores poderia prever como as revistas em quadrinhos ficariam ao final. Elas são a soma de desejos de diferentes indivíduos. Se o enunciado comum na sociedade de consumo para a criação de uma HQ é que ela sirva como mercadoria, aqui ele foi desconstruído e em conjunto criamos um sentido compartilhado para aquele fazer. Dentro daquele contexto, a criação de HQ servia não só para formalizar algumas das mensagens que a Revolução dos Baldinhos desejava passar para a comunidade, mas também para relacionar as pessoas. Desde sua concepção até a distribuição na comunidade, as HQs estão possibilitando gerar representatividade aquele contexto. As atividades de criação compartilhada destas narrativas visuais sequenciais serviram para criar situações onde o real permitia que os participantes suprissem as faltas do momento com sua criatividade, relacionando seus afetos com os dos outros e participando de uma experiência plena de sentidos. O Cortejo dos Ratos funcionou como um “dispositivo artístico”, e eram as máscaras de ratos e instrumentos musicais seus “objetos relacionais”. De forma análoga, as atividades de criação de HQs RELATÓRIO FINAL também funcionaram como um “dispositivo artístico”. Os balões de HQ em tamanho natural foram sentidos como “objetos relacionais”, juntamente com as máscaras dos “ratungos” e a “HQ Geodésica Nº2” já finalizada e fotocopiada. As atividades de instalação de Hortas Verticais no Monte Cristo por sua vez também geraram outro “dispositivo artístico”. Esperamos que o híbrido de “HQ/álbum de figurinhas”, possa funcionar de algum modo como “objeto relacional” de uma ação maior. 1 José Luiz Kinceler é professor do Departamento de Artes Visuais, CEART – [email protected] Paulo Andrés de Matos Villalva é acadêmico em última fase do curso de Licenciatura em Artes Visuais, CEART, bolsista de iniciação científica PROBIC/UDESC. 3 BONDÌA, Jorge Larrosa. Notas sobre a experiência e o saber de experiência. (Trad. João Wanderley Geraldi). Disponível em < http://www.anped.org.br/rbe/rbedigital/RBDE19/RBDE19_04_JORGE_LARROSA_BONDIA.pdf> acesso em 05 de junho de 2013. 4 HOLMES, Brian. El dispositivo artístico, o la articulación de enunciaciones colectivas. Disponível em < http://rsalas.webs.ull.es/rsalas/materiales/lr%20Holmes,%20B.%20El%20dispositivo%20art%C3%ADstico.pdf> acesso em 16 de julho de 2013. 5 Todas as histórias em quadrinhos (HQs) produzidas e citadas, e outras mais, estão disponível no endereço <http://www.4shared.com/folder/kjhGSMSE/Minhas_HQs.html> 6 CEPAGRO, mais informações no site <http://cepagroagroecologia.wordpress.com/quem-somos/>, acesso em 14 de agosto de 2013. 7 Storyboard, para quem não estiver familiarizado, são desenhos que traçam um rascunho das imagens de um filme ou animação, o enquadramento da câmera e sequencia de imagens. 8 FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. Rio de janeiro : Paz e Terra. 2005. P.78. 9 Dois vídeos foram editados pelo colega Lucas Sielski Kinceler, bolsista voluntário do grupo de pesquisa, disponíveis em <https://www.youtube.com/watch?v=wBXHhfdhNuc> acesso em 14 de agosto de 2013, e <https://www.youtube.com/watch?v=mcEV2yG5Jwg> acesso em 14 de agosto de 2013. 10 BOURRIAUD, Nicolas. Estética relacional. 2.ed. Buenos Aires: Adriana Hidalgo, c2006. 143 11 KINCELER, José Luiz. Vinho Saber: arte relacional em sua forma complexa. Disponível em <http://www.ceart.udesc.br/revista_dapesquisa/volume2/numero2/plasticas/Kinceler.pdf> acesso em 16 de maio de 2013. p. 4. 12 ANDRAUS, Gazy. Histórias em Quadrinhos (HQ) para o curso universitário de artes: uma experiência docente. Disponível online em <http://www.vinetasserias.com.ar/pdf/actas2012/Andraus_VS_2012.pdf> acesso em 06 de agosto de 2013. 13 Ibidem, p.6. 14 BONDÌA, Op. Cit. 15 CAZAU, Pablo. Lo real, lo imaginário, lo simbólico. Revista El Observador Nº 17. 16 Ibidem. 17 BREA, José Luiz. Redefinición de las prácticas artísticas. Disponível em <http://www.alfonselmagnanim.com/debats/84/quadern04.htm> acesso em 12 de agosto de 2013. Tradução nossa. 18 SILVA, Éderson Paulino da Silva. DUARTE, Michele Costa. Elementos básicos da linguagem das histórias em quadrinhos. In: NETO, Elydio dos Santos. SILVA, Marta Regina Paulo da (Orgs). Histórias em quadrinhos & educação: formação e prática docente. São Bernardo do Campo : Universidade Metodista de São Paulo, 2011. p. 73 – 94. 19 ROLNIK, Suely. Breve descrição dos Objetos Relacionais. Disponível online em <http://www.pucsp.br/nucleodesubjetividade/Textos/SUELY/descricaorelacionais.pdf> acesso em 14 de agosto de 2013. 20 Idem, p.1. 21 DELEUZE, Gilles. O que é um dispositivo? Disponível em <http://www.ufes.br/ppgpsi/files/textos/Deleuze%20-%20O%20que%20%C3%A9%20um%20dispositivo.pdf> acesso em 02 de agosto de 2013. 22 HOLMES, Op. Cit. 2 Referências bibliográficas ANDRAUS, Gazy. Histórias em Quadrinhos (HQ) para o curso universitário de artes: uma experiência docente. Disponível online em RELATÓRIO FINAL <http://www.vinetasserias.com.ar/pdf/actas2012/Andraus_VS_2012.pdf> acesso em 06 de agosto de 2013. BOURRIAUD, Nicolas. Estética relacional. 2.ed. Buenos Aires: Adriana Hidalgo, c2006. 143 BONDÌA, Jorge Larrosa. Notas sobre a experiência e o saber de experiência. (Trad. João Wanderley Geraldi). Disponível em < http://www.anped.org.br/rbe/rbedigital/RBDE19/RBDE19_04_JORGE_LARROSA_BONDIA.pdf> acesso em 05 de junho de 2013. BREA, José Luiz. Redefinición de las prácticas artísticas. Apud KINCELER, José Luiz. Vinho Saber: arte relacional em sua forma complexa. Disponível em http://www.ceart.udesc.br/revista_dapesquisa/volume2/numero2/plasticas/Kinceler.pdf acesso em 16 de maio de 2013. CAZAU, Pablo. Lo real, lo imaginário, lo simbólico. Revista El Observador Nº 17. DELEUZE, Gilles. O que é um dispositivo? Disponível em <http://www.ufes.br/ppgpsi/files/textos/Deleuze%20%20O%20que%20%C3%A9%20um%20dispositivo.pdf> acesso em 02 de agosto de 2013. FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. Rio de janeiro : Paz e Terra. 2005 HOLMES, Brian. El dispositivo artístico, o la articulación de enunciaciones colectivas. Disponível em < http://rsalas.webs.ull.es/rsalas/materiales/lr%20Holmes,%20B.%20El%20dispositivo%20art%C3%A Dstico.pdf> acesso em 16 de julho de 2013. KINCELER, José Luiz. Vinho Saber: arte relacional em sua forma complexa. Disponível em http://www.ceart.udesc.br/revista_dapesquisa/volume2/numero2/plasticas/Kinceler.pdf acesso em 16 de maio de 2013. p. 4. ROLNIK, Suely. Breve descrição dos Objetos Relacionais. Disponível online em <http://www.pucsp.br/nucleodesubjetividade/Textos/SUELY/descricaorelacionais.pdf> acesso em 14 de agosto de 2013. SILVA, Éderson Paulino da Silva. DUARTE, Michele Costa. Elementos básicos da linguagem das histórias em quadrinhos. In: NETO, Elydio dos Snatos. SILVA, Marta Regina Paulo da (Orgs). Histórias em quadrinhos & educação: formação e prática docente. São Bernardo do Campo : Universidade Metodista de São Paulo, 2011. p. 73 – 94.