O ENSINO DE GEOGRAFIA: INDO ALÉM DO SENSO COMUM Raquel P. R. de Avila/Universidade Federal de Santa Catarina [email protected] Aloysio Marthins de Araújo Junior/Universidade Federal de Santa Catarina [email protected] INTRODUÇÃO Diante das novas exigências da sociedade brasileira por conta das recentes transformações tecnológicas, econômicas e produtivas – sociais/espaciais, este trabalho busca uma investigação dos conteúdos ligados ao ensino de geografia explorando as condições de mudanças paradigmáticas, a partir da análise e interpretação das concepções e práticas vinculadas à Geografia Crítica. Objetiva-se também, a compreensão da crise no ensino de geografia atual em termos de aplicação teóricometodológica e sua relação com a formação de docentes. A corrente teórica denominada Geografia Crítica tem como pressuposto conceitual a formação sócio-espacial, onde o arranjo (espacial) é percebido como a manifestação da sociedade em que a primeira natureza é transformada em segunda natureza através do trabalho dos homens. Assim, tal corrente enfatiza os processos históricos, políticos, sociais e econômicos, ou seja, busca a integração, dialética, do arranjo espacial com as relações sociais existentes em cada momento histórico. Desse modo, configura-se um desafio aos professores de geografia propor uma mudança teórico-metodológica, de uma geografia tradicional – pautada em memorização de dados, descrições estáticas e descontextualização histórica – para uma geografia crítica, que incentiva os alunos a serem pensantes e críticos analisando os fenômenos da sociedade. O artigo trata de descrever sucintamente os objetivos, a metodologia e a caracterização da pesquisa do projeto intitulado “O ensino de geografia: indo além do senso comum”, que foi aprovado no Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica PIBIC/CNPq - BIP/UFSC - Programa 2008/2009, bem como as conclusões parciais (a investigação iniciou no mês de julho de 2008 e o prazo para o término encerra-se em agosto de 2009). Objetivos da Pesquisa Geral Objetiva-se com essa pesquisa investigar os conteúdos ligados ao ensino de geografia e explorar as condições de mudanças paradigmáticas, a partir da análise e interpretação das concepções e práticas vinculadas à Geografia Crítica. Busca-se, também, compreender a crise no ensino de geografia atual em termos de aplicação teórico-metodológica e sua relação com a formação de docentes. Específicos • Estudar os princípios norteadores da geografia acadêmica atual com as práticas docentes verificadas até o presente. • Investigar e compreender a crise político-ideológica (liberalismo) e epistemológica (inclui a crise do positivismo e seu discurso e a questão metodológica) na questão dos processos educacionais. • Conhecer e avaliar os documentos relativos à concepção de ensino de cada unidade escolar (Projetos Políticos Pedagógicos), das escolas envolvidas com a investigação. • Investigar e analisar as condições objetivas (estruturais, pedagógicas, didáticas etc.) e possíveis dificuldades para que os professores, fundamentalmente do Ensino Médio, possam inserir e implementar novos conteúdos e conceitos ligados à Ciência Geográfica e, especificamente, à Geografia Crítica. • Conhecer e avaliar quais os critérios que os docentes utilizam para selecionar determinados conteúdos e transmiti-los aos educandos. • Analisar, a partir dos dados coletados, a formação e inserção dos egressos ao mercado de trabalho e os problemas de identidade e legitimidade dos docentes de geografia. Metodologia e Caracterização A presente investigação se insere no grupo de preocupações que estuda os problemas de ensino, e, mais especificamente, as concepções e práticas docentes vinculadas com a Geografia Crítica. Assume um enfoque crítico-interpretativo, que no plano metodológico se adotam estratégias qualitativas indutivas que se privilegia não a quantidade dos casos estudados, mas sim o potencial de cada um deles para facilitar a compreensão teórica do problema de investigação. No intuito de responder às questões levantadas pelo projeto e atingir os objetivos propostos, a pesquisa seguirá determinadas etapas de trabalho, a saber: I - (De)formação geográfica para que(m)? (Da crise do mercado de trabalho às crises de identidade e legitimidade). II - A reprodução da (de)formação simbólica (questões didático-pedagógicas). III - Ensino de geografia para que(m)? (A crise do paradigma político-ideológico). IV - A questão do método. V - O discurso do ensino e o ensino do discurso (As crises da educação geográfica e as possibilidades de superação). Caracterização da Pesquisa Esta pesquisa tem um caráter bibliográfico, explicativo-descritivo e indutivo, com uma abordagem interpretativa dialética da realidade. Para a coleta de dados, foram utilizados questionários contendo perguntas semi-estruturadas que foram aplicados em uma população de pesquisa caracterizada por seis profissionais docentes atuantes no Ensino Médio de três diferentes escolas em termos de proposta e inserção na comunidade: Colégio de Aplicação da Universidade Federal de Santa Catarina, uma escola da rede Estadual de Santa Catarina e uma escola de Ensino médio profissionalizante, todas estabelecidas na Região Metropolitana de Florianópolis. Fundamentos Teóricos e Aspectos Metodológicos Até a década de 80 os Estados e municípios brasileiros elaboravam as suas próprias propostas curriculares. A Lei 5.692 de 1971 dava autonomia aos Estados e aos municípios para definirem as suas próprias diretrizes curriculares de forma a “atender, conforme as necessidades e possibilidades concretas, às peculiaridades locais, aos planos dos estabelecimentos e as diferenças individuais dos alunos” (Art. 4 - LDB, 1971). Desta maneira, Pontuschka et al (2007, p. 69) afirma que “os autores de livros didáticos pautavam-se pela organização dos conteúdos apresentados pelas Secretarias de Educação dos Estados e dos municípios para elaborar os seus textos”. Na década de 80, em São Paulo, a Coordenadoria de Estudos e Normas Pedagógicas (CENP) organizou uma equipe de autores, liderada por pesquisadores de universidades públicas para a elaboração de propostas curriculares para todo o Estado. Para a realização da proposta de Geografia, segundo Pontuschka (2007), foram convidados professores do Departamento de Geografia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciência Humanas da Universidade de São Paulo (USP) (...) os quais se propunham não apenas elaborar um ral de conteúdos, mas, sobretudo efetuar uma revisão metodológica com amadurecimento dos princípios fundadores da disciplina, iniciativa conhecida, na época, como Geografia Crítica (PONTUSCHKA et al, 2007, p. 69). A iniciativa da CENP tornou-se um referencial de avaliação e discussão nos cursos de licenciatura e nas disciplinas de Prática de Ensino nas universidades em todo o Brasil. A proposta curricular elaborada em São Paulo, teve grande influência na construção das propostas curriculares em outros estados do país, principalmente, em seus pressupostos teórico-metodológicos e nos conteúdos propostos. A Geografia Crítica, que surpreendeu os professores do Estado de São Paulo, causou um impacto maior nos professores de outros Estados. No ano de 1987 foi realizado em Brasília o Iº Encontro Nacional de Ensino de Geografia, o Fala Professor, onde alguns dos professores idealizadores da proposta crítica explicitaram suas posições teóricas mostrando a necessidade de novas metodologias para a compreensão do espaço geográfico, buscando a integração, de forma dialética, do arranjo espacial com as relações sociais existentes em cada momento histórico. Tal corrente, surge na década de 80 como uma proposta de renovação e ampliação do olhar geográfico, indo ao encontro dos anseios do professorado que sentiam a necessidade de discutir conceitos, métodos e novas abordagens teóricas para temas da geografia como: os conceitos de trabalho e de modo de produção, questões relativas à abordagem da natureza e do processo de industrialização, como exemplos. No decorrer da década de 90, mudanças significativas ocorreram na educação brasileira. O Ministério da Educação (MEC) adotou uma política educacional centralizadora com a aplicação da Lei 9.394 de 1996 onde as propostas curriculares dos Estados foram debatidas a fim de gerar uma nova proposta única, desta vez chamada de Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN). O objetivo do MEC era de “assegurar às crianças e jovens brasileiros, mesmo nos locais de infra-estrutura restrita e condições sócio-econômicas desfavoráveis, o acesso aos conhecimentos socialmente elaborados e reconhecidos como necessários ao exercício da cidadania” (PONTUSCHKA et al, 2007, p. 74). Tais objetivos, são questionáveis uma vez que grande parte do professorado, segundo o autor, não se sentiu contemplado com a proposta imposta pelo MEC, pois não participaram da elaboração do mesmo. Os Parâmetros Curriculares Nacionais de geografia para o ensino médio propõem como objeto de estudo o espaço geográfico definido por Milton Santos, onde o objetivo principal, inspirado na realidade contemporânea, é contribuir para o (...) entendimento do mundo atual, da apropriação dos lugares realizada pelos homens, pois é através da organização do espaço que eles dão sentido aos arranjos econômicos e aos valores sociais culturais construídos historicamente (PCN, 1999, p. 60). É visível na proposta do PCN que os autores movimentaram um grande esforço para que a geografia articule a interdisciplinaridade, uma vez que o espaço e seus sujeitos são constituídos de interações e seu estudo deve ser, por isso, interdisciplinar. É importante ressaltar o contexto histórico em que ocorreu a elaboração e promulgação da Lei 9.394/96. Esta Lei foi engendrada em um período de políticas educacionais neoliberais1 onde o foco era “escolarizar” a maior quantidade de brasileiros possível, sem preocupar-se com a qualidade desta educação, objetivando cumprir os acordos econômicos internacionais realizados no governo de Fernando Henrique Cardoso (1994-2002). Os Parâmetros Curriculares Nacionais e a Proposta Curricular de Santa Catarina foram publicados no ano de 1998, ambas, com o intuito de regulamentar o ensino no país e no Estado respectivamente. Posteriormente, no ano de 2007, foram lançadas as Orientações Curriculares para o Ensino Médio onde o objetivo deste 1 O neoliberalismo surgiu no final século XIX como uma saída política, econômica, jurídica e cultural específica para resolver a crise hegemônica que começa a atravessar a economia do mundo capitalista por conta do esgotamento do modelo fordista de produção – iniciado nos fins dos anos 60 início dos 70 – juntamente com a crise na organização taylorista do trabalho. O Estado neste momento era bastante intervencionista – keynesiano – e uma das soluções apontadas pelos neoliberais era a redução gradativa do poder do Estado, com a diminuição generalizada de tributos, a privatização das empresas estatais e redução do poder do Estado de fixar ou "autorizar" preços. Assim, tão logo os governos deixassem de interferir na economia mundial, ela voltaria se equilibrar e os capitalistas voltariam a investir no mercado gerando uma oferta e conseqüentemente uma demanda por trabalho. material era auxiliar o “diálogo entre professor e escola sobre a prática docente” (ORIENTAÇÕES, 2008, p. 5), sem que estas, servissem de manual a ser seguido, mas, que principalmente fosse um “estímulo e apoio à reflexão da prática diário do professor”. (ORIENTAÇÕES, 2008, p. 44). São estas três publicações que irão nortear o ensino de geografia no Ensino Médio em Santa Catarina. Os PCNs buscam apresentar um embasamento teórico-metodológico pluralista demonstrando em diferentes momentos dos textos “variadas correntes de pensamento geográfico” (PONTUSCHKA et al, 2007, p. 75). Esse pluralismo é muito contestado por vários geógrafos, principalmente, por aqueles preocupados com o ensino da disciplina (PONTUSCHKA et al, 2007). Straforini (2004, p. 72) afirma que “o referencial teórico metodológico do professor é extremamente importante, pois é ele que vai conduzir toda a sua prática pedagógica”. Assim, a pluralidade teórico-metodológica dos PCNs sinaliza um ecletismo que pode ser entendido como a ausência de uma concepção filosófica. Desse modo, como o professor poderá construir uma geografia atrativa aos alunos se ele não incorpora o seu referencial? Os autores dos PCNs sugerem como objeto de estudo da geografia o espaço geográfico2 definido por Milton Santos em sua extensa obra. Os autores apresentam a geografia como sendo a “ciência do presente” (PCN, 1999, p. 60) onde o principal objetivo desta disciplina no ensino médio é: (...) contribuir para o entendimento do mundo atual, da apropriação dos lugares realizada pelos homens, pois é através da organização do espaço que eles dão sentido aos arranjos econômicos e aos valores sociais e culturais construídos historicamente (PCN, 1999, p. 60). O Ensino Médio, segundo os Parâmetros Curriculares Nacionais, deve orientar na transformação de indivíduos tutelados para “indivíduos em pleno exercício da 2 A autora Dirce Suertegaray, define em seu artigo ESPAÇO GEOGRÁFICO UNO E MÚLTIPLO (Revista Electrónica de Geografía y Ciencias Sociales, 2001) o espaço geográfico conforme o conceito expresso por Milton Santos (1997), “o qual o espaço geográfico constitui "um sistema de objetos e um sistema de ações" que: é formado por um conjunto indissociável, solidário e também contraditório, de sistemas de objetos e sistemas de ações, não considerados isoladamente, mas como um quadro único na qual a história se dá. No começo era a natureza selvagem, formada por objetos naturais, que ao longo da história vão sendo substituídos por objetos fabricados, objetos técnicos, mecanizados e, depois cibernéticos fazendo com que a natureza artificial tenda a funcionar como uma máquina.” cidadania” (PCN, 1999, p. 62) onde seus saberes cognitivos, seus valores de sensibilidade e solidariedade serão aprimorados a fim de melhorar a vida no país e no mundo. Diferentemente do PCN, a Proposta Curricular de Santa Catarina aborda uma geografia crítica e de transformação a partir da compreensão das relações sociais. “É a partir do entendimento da realidade global que se vai proporcionando elementos para que os alunos questionem esta realidade” (PROPOSTA CURRICULAR DE SANTA CATARINA, 1998, p. 186). A escola tem um papel muito importante nesta transformação para uma sociedade mais justa, pois, “Cabe à escola clarear as relações de poder, instrumentos, trunfos que estão sob domínio das estruturas que comandam o espetáculo global/local ou vice e versa” (PROPOSTA CURRICULAR SC, 1998, p. 179). A compreensão dos arranjos locais – bem como da paisagem, investigando os motivos e relações que a originaram – se faz importante para entender a realidade concreta do dia-a-dia e ainda “compreender como fatos globais, nacionais, regionais têm a ver com explicações de questões muito próximas de nós” (PROPOSTA CURRICULAR SC, 1998, p. 179). Ou seja, é possível ver como o global se manifesta no local e quais as atribuições que esta dinâmica mundial tem sobre todo o conjunto da sociedade. Assim a Proposta Curricular de Santa Catarina, apresenta uma proposta de geografia crítica para o ensino médio onde deve haver uma superação da dicotomia entre a geografia física e humana, pois, “os conceitos básicos de uma e de outra devem sustentar as análises temáticas, e na medida em que forem significativos devem ser aprofundados para que seja realizada uma análise globalizada” (PROPOSTA CURRICULAR SC, 1998, p. 180). Desta maneira, ao ensinar os educandos a pensar e não apenas transmitir a eles informações e dados, que são temporários e passageiros, cria-se na escola um ambiente de trabalho e reflexão que dará subsídios para que estes se sintam capazes de (...) “transformar as relações sociais pelo seu trabalho, estudo, inovações, técnica e detenção de suas forças coletivas voltadas para os interesses comuns da maioria” (PROPOSTA CURRICULAR SC, 1998, p. 179). As Orientações Curriculares para o Ensino Médio, elaboradas no ano de 2007, apresentam – da mesma forma que os PCS’s – uma proposta teóricometodológica de uma geografia crítica e construtivista onde, o objetivo é fazer com que os alunos compreendam a “dinâmica social e espacial, que produz, reproduz e transforma o espaço geográfico das diferentes escalas (local, regional, nacional e global)” (ORIENTAÇÕES, 2008, p. 5). Fornecendo ou trabalhando junto com os educandos na construção de conceitos e saberes, levando em consideração os conhecimentos prévios sobre o assunto, para que os educandos possam: “reconhecer as dinâmicas existentes no espaço geográfico, pesar e atuar criticamente em sua realidade tendo em vista a sua transformação” (ORIENTAÇÕES, 2008, p. 5). As três propostas que norteiam a educação no ensino médio no Brasil e em Santa Catarina apresenta em comum o espaço geográfico, definido por Milton Santos, como o objeto de estudo da geografia. Os conceitos de lugar, paisagem, região, território, sociedade, espaço e tempo formão a base dos conteúdos que serão trabalhados nos três anos do Ensino Médio. Não obstante, a abordagem teórico-metodológica que cada documento apresenta é o que muda, e a maneira com que tais conceitos serão trabalhados, ou seja, a forma com que serão ensinados, depende de cada professor. Apresentação dos Resultados Como já foi dito anteriormente, a pesquisa foi realizada através de questionários aplicados com professores atuantes em escolas públicas do município de Florianópolis, Santa Catarina. A pesquisa contou com uma população de profissionais docentes de diferentes tipos de escolas. Os questionários, que continham 30 questões semi-estruradas, na hora da tabulação de dados foram dividas no que chamamos de tópicos. Cada tópico vai contemplar um aspecto que se deseja estudar mais especificamente e que após o tratamento dos dados, nos fornecerá informações suficientes para uma conclusão. É importante ressaltar que os profissionais que constituíram a população de pesquisa foram muito participativos, compreendendo os objetivos que nos levaram a pesquisar tal temática e percebendo a importância de pesquisas como essa em suas práticas docentes como Professores de Geografia no Ensino Médio. Como resultado das respostas obtidas através da aplicação dos questionários com os professores, observou-se que: a) Com relação à profissionalidade docente Dos professores entrevistados, a média obtida ao tempo de docência foi de 18 anos, oscilando entre 11 e 22 anos. Nesse período, 50% da população lecionou em escola privada e destes, 100% não mais exerce a atividade docente nessas instituições. Já com relação à docência em escolas públicas, 17 anos foi a média obtida, com uma oscilação entre 7 e 22 anos. Quando perguntados sobre o tempo em que lecionavam na escola em que participava da pesquisa, a maioria dos professores respondeu que estava lecionando há mais de 11 anos na mesma escola. As respostas podem ser melhor compreendidas através do quadro abaixo: Tempo de docência (em anos) Porcentagem de Professores 0 - 5 anos 16,6% 6 – 10 anos 16,6% 11 – 15 anos 33,3% Mais de 16 anos 33,3% Quadro 1: Tempo de docência na escola participante da pesquisa Ainda com relação à profissionalidade docente, 66,6% dos professores respondeu que ao sair da Universidade, não possuía os conhecimentos necessários para lecionar a disciplina. Apenas 33,3% consideram que os ensinamentos obtidos na academia fornecem os subsídios necessários á pratica docente geográfica. Esse dado expressivo, chamou-nos a atenção na hora da tabulação dos dados, e remete a um dos objetivos. Finalmente, embora os professores considerassem que no início de suas atividades docentes não possuíam os conhecimentos necessários para praticá-las, 100% dos entrevistados sentem-se gratificados por ter escolhido esta profissão. b) Em relação às escolas públicas No questionário, há uma categoria que questiona somente atividades relacionadas à prática docente em escolas públicas. Como as escolas participantes eram públicas, embora com enfoques diferenciados, presumia-se que as respostas seriam próximas, o que não ocorreu. Quanto ao tempo disponível para estudo e preparação das aulas, a maioria considera suficiente, mas, 33,3% dos entrevistados, consideram que o tempo destinado na escola para esse fim é insuficiente, não suprindo as necessidades do professor. Sobre a participação em congressos, palestras e outras atividades extraclasse, a maioria dos professores, neste caso, mais de 80%, diz participar deste tipo de ação. Outras atividades, responsáveis pela atualização e capacitação profissional, também fazem parte do cotidiano da maioria dos entrevistados, embora com freqüência variável, e, geralmente são iniciativas patrocinadas pela escola em que desempenham o trabalho, via órgão gestor, como é o caso da Secretaria de Educação ou em outros casos, mais raramente, por iniciativa própria. No quadro 2, podemos observar as respostas de forma mais sintética e simplificada: Em relação às Escolas Públicas Tempo Participação Participação disponível para em atividades em cursos de estudo e extra-classe atualização e preparação das (Congressos, capacitação aulas Palestras) docente Iniciativa de participação em eventos Porcentagem ESCOLA/ SIM NÃO SIM NÃO SIM NÃO PRÓPRIA PRÓPRIA/ SECRETARIA ESCOLA DE EDUCAÇÃO 66,6% 33,3% 83,3% 16,6% 66,6% 33,3% 25% 25% 50% Quadro 2: síntese das respostas com relação às escolas públicas c) Em relação ao desempenho docente Essa foi uma categoria que obteve 100% de resultados positivos em cada um dos questionamentos. Os professores entrevistados consideram que suas aulas são bem planejadas e orientadas; que eles, como profissionais, têm/demonstram domínio do conteúdo; que são claros e objetivos na explicação da matéria; que consideram utilizar procedimentos didáticos adequados para a disciplina; que conseguem criar em suas aulas, um clima favorável à participação dos alunos e que após as avaliações, corrigem e discutem com os educandos os resultados, seja em classe ou individualmente, quando necessário. Esse resultado, identifica mais que uma avaliação dos profissionais com relação a seu desempenho, mas de certo modo, um comprometimento desses com a atividade que exercem. De todas as questões apresentadas, essas, que tratavam do desempenho profissional do docente, geraram certo desconforto na hora da entrevista. Os professores entrevistados disseram ser mais fácil avaliar os alunos do que a si mesmos. Por serem questões fechadas e com simples resposta (sim/não) eles relataram (e reforçaram em vários momentos), que em geral, o resultado seria positivo, sendo que na maioria das vezes, nem todos os ítens pudessem ser contemplados em uma mesma aula ou atividade com os alunos. d) Em relação à organização da disciplina A maioria dos entrevistados, neste caso, mais de 66%, considera que a organização dos conteúdos favorece a aprendizagem, mas os demais consideram que a organização, por vezes, não atende às necessidades de se ensinar e aprender. Com relação à bibliografia apresentada, mais de 80% dos entrevistados considera adequadas as referências que são apresentadas aos educandos e 100% dos entrevistados considera que as avaliações são compatíveis com as atividades desenvolvidas em sala de aula, e que os recursos pedagógicos utilizados na disciplina são favoráveis ao processo de ensino-aprendizagem. No que diz respeito ao conhecimento dos documentos que normatizam o ensino, 33,3% desconhecem a Proposta Curricular do Estado de Santa Catarina e 100% dos entrevistados conhecem o documento denominado Parâmetros Curriculares Nacionais. Com relação ao conhecimento das propostas das correntes geográficas, todos os entrevistados responderam que conhecem as correntes denominadas Geografia Crítica e Geografia Tradicional. Quando questionados sobre qual das duas correntes os profissionais mais se identificavam, 83,3% dos professores disseram se identificar com a corrente denominada Geografia Crítica. Nesse momento, observou-se certa preocupação dos profissionais em optar por essa corrente. Todos que responderam identificar-se mais com a corrente que trata de uma geografia crítica, o fizeram de uma forma bem efusiva. Dos professores que responderam se identificar com a corrente denominada Geografia Crítica, a maioria, neste caso, mais de 80%, respondeu identificar-se parcialmente. E, dentre os motivos apresentados pelos quais os professores aplicam os conceitos dessa corrente, mais expressivamente, aparecem os relacionados ao pensamento crítico que o aluno passa a desenvolver; a relação mais clara que os alunos estabelecem entre a teoria e a prática, e consequentemente, o cotidiano; a possibilidade de “sentir” o aluno e suas necessidades e, a maior traquilidade/facilidade para trabalhar o conteúdo. Diante desses motivos, os conteúdos elencados pelos professores que mais apareceram na pesquisa foram os ligados às questões econômicas e industriais; os de localização espacial e o trabalho com mapas e o próprio espaço geográfico. Segundo os entrevistados, os pontos favoráveis para se trabalhar os conceitos da Geografia Crítica estão ligados à interação professor-aluno e as relações interpessoais; a transformação e construção do ser humano em ser social, pensante e crítico; a compreensão global e geral da realidade e o estímulo à autoria que essa corrente possibilita, principalmente na construção dos próprios conceitos. Os pontos desfavoráveis também foram mencionados, e dentre eles, a ausência de recursos específicos para se trabalhar com os conceitos dessa corrente, como exemplo, a dificuldade de “tirar” o aluno da sala de aula; e o possível enquadramento, através de uma “verdade absoluta” ou generalização dos conceitos foram pontos que apareceram com maior frequência. Da população que respondeu identificar-se mais com a corrente denominada Geografia Tradicional, 100% responderam que aplica tais conceitos parcialmente. Os entrevistados não souberam responder quais os motivos que os levam a se identificar mais com tal corrente, mas elencaram conteúdos como Geossistemas, Geografia do Brasil, Domínios Morfoclimáticos e as preocupações ambientais como fundamentais no processo de ensinar geografia tomando por base os conceitos fundamentais da Geografia Tradicional. Dos pontos favoráveis para se trabalhar com tal corrente, o enfoque de geografia física, que segundo os entrevistados, a Geografia Crítica “deixa de lado”, aparece com mais peso, e ainda, o enfoque “mais humano”, segundo eles, é dado por outras disciplinas. Mas, os professores entrevistados concordam que essa corrente fragmenta o estudo e não dá conta de questões mais humanas da própria geografia. Considerações Finais Diante do que nos propomos a estudar e revisar e de tudo o que foi exposto através dos dados obtidos nas respostas dos entrevistados, concluímos que embora a geografia atual esteja em crise, no que diz respeito à sua aplicação teórico- metodológica, há a possibilidade de mudança, que está muito condicionada à formação docente. Como foi observado, a maioria dos entrevistados não sentia-se preparado, ao sair da Universidade, para conduzir uma turma, ou seja, para exercer a profissão. Esses aspectos de formação, podem e devem ser discutidos para sanar os problemas nas gerações futuras de professores. Nossa preocupação é instigar e motivar o debate sobre essas questões. Quanto à análise da interpretação das concepções e práticas vinculadas á Geografia Crítica, fica evidente que os profissionais atuantes na área do ensino geográfico conhecem a corrente, mas ainda têm muitas dúvidas sobre como aplicá-la. Mais uma vez, um ponto que deve ser mais bem trabalhado na formação, já que de nada adianta conhecer os tipos de abordagem dos conteúdos, mas sem explorar as condições de mudanças no paradigma. Os princípios que norteiam a geografia acadêmica atual ainda estão muito ligados ao da Geografia Tradicional - estática e descritiva. Os critérios utilizados pelos professores no momento de escolher os conteúdos a serem ministrados aos educandos não estão muito claros, dificultando a prática docente e acarretando problemas de identidade. Em síntese, nossa pretensão não é encontrar uma resposta definitiva quanto aos conteúdos ligados ao ensino de Geografia, mas uma alternativa que favoreça a interpretação de novas perspectivas, de um novo olhar sobre o ato de lecionar. Observou-se que muitos dos conteúdos mencionados pelos professores, mesmo por aqueles que se dizem identificar com uma Geografia mais tradicional, podem ser facilmente trabalhados pelo prisma de Geografia Crítica. Compreendemos, também, que muitos dos pontos desfavoráveis para se trabalhar com essa corrente, são facilmente solucionados. Referências Bibliográficas BRASIL. Lei 5.692, de 11 de agosto de 1971. Fixa as diretrizes e bases para o ensino de 1º e 2º grau, e dá outras providências. Disponível em: <http://www.prolei.inep.gov.br> . Acesso em 10 de maio de 2009. BRASIL. Lei 9.394, de 20 de dezembro de 1996 (Lei de Diretrizes e Bases da Educação - LDB).Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. Disponível em: <http://www.prolei.inep.gov.br>. Acesso em 10 de maio de 2009. BRASIL. Ministério da Educação, Secretaria de Educação Básica. Orientações Curriculares para o Ensino Médio.Linguagens, códigos e suas tecnologias. Brasília: MEC/SEB, 2006. Disponível em www.mec.gov.br. Acesso em 21 abril de 2009. BRASIL. SECRETARIA DE EDUCAÇÃO FUNDAMENTAL. Parâmetros Curriculares Nacionais: Geografia. Secretaria de Educação Fundamental. Brasília: MEC/SEF, 1998. 156p. BRASIL. 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