ENTRE O SENSO COMUM E A CIÊNCIA Morena Dolores Patriota da Silva Discente da especialização em Docência na Educação Superior - UEL [email protected] RESUMO No presente artigo buscou-se discutir algumas concepções de ciência e senso comum, destrinchando novos significados no intuito de superar alguns preconceitos. Para tanto, partimos dosséculos XVI e XVII, época considerada de transição e caracterizada pela indefinição epistemológica de ciência, analisando as alterações de concepções passando da busca por uma harmonia com a natureza para uma visão mecanicista no intuito de dominar e transformar. Foram feitas breves reflexões a respeito do progresso da ciência, de suas consequências, para então chegar à ciência e ao senso comum, suas definições, relações, preconceitos e consequências. Palavras-chave: Senso comum; ciência, concepções. “Não será verdade que cada ciência, no fim, se reduz a um certo tipo de mitologia?” (De uma carta de Freud a 1 Einstein, 1932) INTRODUÇÃO O período entre o século XVI e XVII é considerado uma época de transição caracterizada pela indefinição epistemológica (em relação à concepção de ciência a se seguir), na qual tornou-se mais visível a crise do pensamentoescolástico. Como afirma Soares (2001), essa indefinição propiciou o surgimento de muitas alternativas de ciências. Para substituí-la, dentre elas, destacou-se uma concepção de ciência mecânica e racionalista com o objetivo de alcançar os conhecimentos da natureza. Buscando descobrir o melhor método e contrapor-se à visão mística/ocultista medieval, surge de um novo pensamento intimamente marcado por concepções humanistas, refletido em atitudes e entendimentos dos chamados cientistas pioneiros. As grandes descobertas da modernidade levaram a mudanças de concepções e de visão de mundo; ao mesmo tempo em que, mudou a concepção existente em relação à natureza, aderindo-se a uma visão determinista mecanicista a partir da qual via-se o mundo como uma máquina, que deveria servir aos homens. Como afirma Santos (2008), 1 Apud ALVES, 2007, p. 115. 1271 [...] o determinismo mecanicista é o horizonte certo de uma forma de conhecimento que se pretende utilitário e funcional, reconhecido menos pela capacidade de compreender o real do que pela capacidade de o dominar e transformar (p. 6). Capra (1982) reconhece que a ciência teve um papel imprescindível para a consolidação das mudanças de concepção ocorridas na Idade da Revolução Científica (séculos XVI-XVII), alterando assim os objetivos da ciência, que anteriormente visavam à harmonia com a natureza. As diversas concepções de mundo existentes na Idade Média não causaram efeitos mais devastadores a esta, de acordo com Soares (2001), em especial por conceberem o homem como parte inerente da natureza. Mas, com o surgimento desta nova concepção de homem, houve uma inversão desta atitude, que resultou em uma busca constante por compreender, dominar e controlar a natureza, através de atitudes com fins classificados por Capra (1982) como antiecológicos. A concepção dos estudiosos da época foi de grande influência para os cientistas posteriores, que tomaram estes pensamentos como base para suas novas pesquisas e justificativas para seus métodos, muitas vezes, cruéis e destrutivos. Estamos de novo regressados à necessidade de perguntar pelas relações entre a ciência e a virtude, pelo valor do conhecimento dito ordinário ou vulgar que nós, sujeitos individuais ou coletivos, criamos e usamos para dar sentido às nossas práticas e que a ciência teima em considerar irrelevante, ilusório e falso; e temos finalmente de perguntar pelo papel de todo conhecimento científico acumulado no enriquecimento ou no empobrecimento prático das nossas vidas, ou seja, pelo contributo positivo ou negativo da ciência para nossa felicidade (SANTOS, 2008, p. 2). De acordo com Ehrenfeld (1992), é possível observar que desde a Antiguidade o ser humano é colocado como superior e a Natureza como uma criação de Deus, para servir à humanidade. Já, aos homens, caberia agradecer a Deus por mais essa dádiva concedida e aceitar sua função de controlar o planeta. “Assim a ideia de superioridade humana fica desde cedo associada em nossa história” (EHRENFELD, 1992, p. 5), mas é importante destacar que a natureza, até a Modernidade, era vista como uma dádiva de Deus, um presente, algo que foi criado para servir ao homem,e que deveria ser respeitado e valorizado por este. Mas, com 1272 o advento da modernidade2, essa concepção foi se afastando da ideia de servir a Deus. Passando a colocar o homem como o centro de sua própria vida e a ciência no lugar de Deus, passando a alcançar, por volta dos séculos XVI-XVII, o Humanismo, que deu início a uma visão de dicotomia na relação homemnatureza.De acordo comEhrenfeld (1992). Logo, [...] é total a separação entre a natureza e o ser humano. A natureza é tãosó extensão e movimento; é passiva, eterna e reversível, mecanismos cujos elementos se podem desmontar e depois relacionar sob a forma de leis; não tem qualquer outra utilidade ou dignidade que nos impeça de desvendar seus mistérios, desvendamento que não é contemplativo, mas antes activo, já que visa conhecer a natureza para dominar e controlar (SANTOS, 2008, p. 4). Soares (2001) demonstra-nos que a partir da nova ciência, o homem, ao buscar conhecer as Leis Naturais e ao conceber a Natureza como uma máquina, alterou a relação homem-natureza, aderindo a uma concepção de domínio, a partir da qual coisifica-se a natureza, tornando necessária sua sujeição ao homem como seu dono e senhor. Quando não podemos controlar, prevemos, e essa é realmente uma forma de controle. [...] É por isso que acreditamos no total controle ambiental, em nosso novo e ilimitado poder; vemos provas disso a nossa volta o tempo todo, e somente os mais obtusos poderiam deixar de notá-las (EHRENFELD, 1991, p.. 38). A euforia causada por essas mudanças de concepções, a partir das quais a ciência passou a ser extremamente valorizada, suscitando alguns questionamentos: até que ponto essa ciência é benéfica? Será que realmente a supervalorização da ciência é positiva? É interessante observar uma situação passada por Rousseau, na qual são feitas a ele alguns questionamentos semelhantes, dando destaque à sua resposta: O progresso das ciências e das artes contribuirá para purificar ou corromper nossos costumes? Trata-se de uma pergunta elementar, ao mesmo tempo profunda e fácil de entender. Para lhe dar resposta – do modo eloqüente que lhe mereceu o primeiro prêmio e algumas inimizades – Rousseau fez as seguintes perguntas não menos elementares: há alguma relação entre a ciência e a virtude? Há alguma razão de peso para 2 Advento da ciência moderna, movimento da revolução científica que surge nos séculos XV-XVI (OZMON; CRAVER, 2004, p. 32) e se configurou aproximadamente no século XVII (JAPIASSÚ, 2001, p. 67). 1273 substituirmos o conhecimento vulgar que temos da natureza e da vida e que partilhamos com os homens e mulheres da nossa sociedade pelo conhecimento científico produzido por poucos e inacessíveis à maioria? Contribuirá a ciência para diminuir o fosso crescente na nossa sociedade entre o que se é e o que se aparenta ser, o saber dizer e o saber fazer, entre a teoria e a prática? Perguntas simples a que Rousseau responde de modo simples, com um redondo não (SANTOS, 2008, p. 1-2). Nossa sociedade é fruto dessas concepções que surgiram na Idade Moderna e que estão intrínsecas em nossa maneira de pensar e agir, que alguns chamam de progresso. Entretanto, será que realmente podemos chamar de progresso as mudanças ocorridas, principalmente agora que são mais visíveis as consequências destas para com o mundo? Os avanços alcançados pelo desenvolvimento científico e tecnológico nos campos da biologia, da saúde e da vida, de um modo geral, principalmente nos últimos trinta anos, têm colocado a humanidade diante de situações até há pouco tempo inimagináveis [...] Se, por um lado, todas essas conquistas trazem na sua esteira, renovadas esperanças de melhoria da qualidade de vida para as sociedades humanas, por outro, criam uma série de contradições que necessitam ser analisadas responsavelmente, visando não só ao equilíbrio e ao bem-estar futuro da espécie como à própria sobrevivência do planeta (GARRAFA, 2003, p. 213). É neste sentido que devemos ter a criticidade necessária quando pensamos nos cientistas, em suas decisões e ações para perceber a ideologia que tem sido passada em relação à visão que se tem deles. Os cientistastêm sido idealizados como as pessoas mais capazes para pensar e tomar decisões, esta visão passa uma ideia de autoridade deles sobre os demais (meros mortais). A mídia, em especial, os tem colocado como sendo os portadores de uma verdade absoluta, inquestionável, de tal maneira que menosprezam a capacidade de raciocínio e decisão das demais pessoas, aquelas as quais não é designado pensar, denominadas como pertencentes ao senso comum. Entretanto, torna-se importante destacar que “a aprendizagem da ciência é um processo de desenvolvimento progressivo do senso comum. Só podemos ensinar e aprender partindo do senso comum de que o aprendiz dispõe” (ALVES, 2007, p. 12). Mas o que seria senso comum? Alves (2007) expõe-nos duas definições, a primeira descreve o senso comum como tudo o que não é ciência, enquanto a segunda afirma que: “[...] a expressão ‘senso comum’ foi criada por pessoas que se julgam acima do senso comum, como forma de se diferenciarem de 1274 outras que, segundo seu critério, são intelectualmente inferiores” (ALVES, 2007, p. 13). Percebemos, portanto, a arrogância que está presente nos cientistas e a pretensão que estes têm de saber mais que as demais pessoas. Paulo Freire (2010) conclui seu livro Pedagogia da autonomia com uma citação que aqui transcrevemos mostrando muito bem como a arrogância e a ciência não devem caminhar juntas: Estou convencido, porém, de que a rigorosidade, a séria disciplina intelectual, o exercício da curiosidade epistemológica não me fazem necessariamente um ser mal-amado, arrogante, cheio de mim mesmo. Ou, em outras palavras, não é a minha arrogância intelectual a que fala de minha rigorosidade científica. Nem a arrogância é sinal de competência nem a competência é causa de arrogância. Não nego a competência, por outro lado, de certos arrogantes, mas lamento neles a ausência da simplicidade, os faria gente melhor. Gente mais gente (p. 146). A respeito da ciência, Alves (2007) utiliza-se de uma analogia,o pianista. Ele deve ter o domínio de diversas técnicas. Imaginemos, então, um pianista que decide especializar-se, apenas, na técnica dos trinados. Ele será muito bom para fazer trinados, mas não conseguirá tocar nenhuma música. Neste sentido Alves (2007) afirma que “[...] cientistas são como pianistas que resolvem especializar-se em uma técnica só” (ALVES, 2007, p. 11). Segundo ele, as diversas divisões da ciência (física, biologia, matemática, história, dentre outras) seriam como técnicas especializadas só em conhecer a sua parte. Físicos não entendem história, historiadores não conhecem matemática, matemáticos não conhecem filosofia e assim por diante. A fragmentação da ciência compromete-a, pois tornou a ciência [...] a hipertrofia de capacidades que todos têm. Isso pode ser bom, mas pode ser muito perigoso. Quanto maior a visão em profundidade, menor a visão em extensão. A tendência da especialização é conhecer cada vez mais de cada vez menos (ALVES, 2007, p. 12). E continua ainda, [...] pense no senso comum como as pessoas comuns. E a ciência? Tome essa pessoa comum e hipertrofie um de seus órgãos, atrofiando os outros. Olhos enormes, nariz e ouvidos diminutos. A ciência é uma metamorfose do senso comum. Sem ele, ela não pode existir. E essa é a razão por que não existe nela nada de misterioso ou extraordinário (ALVES, 2007, p. 14). Tanto o senso comum, como a ciência,possuem um mesmo objetivo, compreender o mundo para viver e ter conforto. Alves (2007) levanta uma questão 1275 interessante a respeito do senso comum:qual a necessidade que existe de rebaixamento do senso comum, porque considerá-lo e esforçar-se para convencer os demais de que o senso comum é inferior à ciência sendo que existe uma ligação bem forte entre os dois? Diante destes argumentos, buscamos a citação de Alves (2007) que reflete: “[...] por dezenas de milhares de anos, os homens sobreviveram sem coisa alguma que se assemelhasse à nossa ciência. Depois de cerca de quatro séculos, desde que surgiu com seus fundadores, curiosamente a ciência está apresentando sérias ameaças à nossa sobrevivência” (ALVES, 2007, p. 21). Ambos, ciência e senso comum, têm no problema o impulso para o surgimento de suas teorias e buscam alcançar a compreensão existente na natureza, pois é através da ordem que se consegue a explicação dos fatos do seu entorno, visando superar as dificuldades. “A ciência se inicia com problemas. Um problema significa que há algo errado ou não resolvido com os fatos. Seu objetivo é descobrir uma ordem invisível que transforme os fatos de enigma em conhecimento” (ALVES, 2007, p. 44). Por isso destacamos que “[...] a inspiração mais profunda da ciência não é um privilégio dos cientistas, porque a exigência da ordem se encontra presente mesmo nos níveis mais primitivos da vida” (ALVES, 2007, p. 40). Geertz (2009) trata o senso comum “[...] como um corpo organizado de pensamento deliberado em vez de considerá-lo como aquilo que qualquer pessoa que usa roupas e não está louco sabe” (p. 114). Senso comum não é mera ou casualmente aquilo que apreendemos da realidade, é uma “[...] sabedoria coloquial, com pés no chão, que julga e avalia esta realidade” (GEERTZ, 2009, p. 115). O bom senso não consiste naquilo que uma pessoa que não está submetida a artificialismo apreende espontaneamente, refere-se ao que uma pessoa que possui pressuposições conclui. Um indivíduo com bomsenso é aquele que age e pensa com critério, discernimento, inteligência e reflexão, é, portanto, uma pessoa capaz de lidar com os problemas do dia-a-dia de maneira eficaz. Vejamos o que diz Geertz: Se o bom senso é uma interpelação da realidade imediata, uma espécie de polimento desta realidade, como o mito, a epistemologia, ou outras coisas semelhantes, então, como essas outras áreas, será também construído historicamente, e, portanto, sujeito a padrões de juízo historicamente definidos. Pode ser questionado, discutido, afirmado, desenvolvido, 1276 formalizado, observado, até ensinado, e pode também variar dramaticamente de uma pessoa para outra. Em suma, é um sistema cultural. [...] é aquilo que o homem comum pensa quando livre das sofisticações vaidosas dos estudiosos (GEERTZ, 2009, p. 116). Neste sentido, consideramos uma história interessante a de Descartes, o grande estudioso que procurou representar o mundo matematicamente da maneira mais perfeita possível, uma vez que via a matemática de seu tempo como falível. Após anos de estudos científicos, encontrou-se insatisfeito diante dos conhecimentos que entrou em contato, e buscou no senso comum encontrar um conhecimento que não conseguiu alcançar na academia. Eis por que, tão logo a idade me permitiu sair da sujeição de meus preceptores, deixei inteiramente o estudo das letras. E, resolvendo-me a não mais procurar outra ciência além daquela que poderia achar em mim próprio, ou então no grande livro do mundo, empreguei o resto de minha mocidade em viajar, em ver cortes e exércitos, em freqüentar gente de diversos humores e condições, em recolher diversas experiências, em provar a mim mesmo nos reencontros que a fortuna me propunha e, por toda parte, em fazer tal reflexão sobre as coisas que se me apresentavam, que eu pudesse delas tirar algum proveito. Pois afigurava-se-me poder encontrar muito mais verdade nos raciocínios que cada qual efetua no que respeitante aos negócios que lhe importam, e cujo desfecho, se julgou mal, deve puni-lo logo em seguida, do que naqueles que um homem de letras faz em seu gabinete (DESCARTES, 1973, p. 5). Percebemos, portanto, que o senso comum é importante, o contato com diferentes pessoas, culturas, lugares, são aprendizagens que jamais conseguiremos encontrar em livros. Ao mesmo tempo, é inegável a diferença existente entre a ordem do senso comum e da ciência. Surge então um questionamento, é possível separar a ordem da ciência (objetiva) da ordem pessoal (subjetiva, voltada a emoções)? Alcançar esta separação foi uma das grandes lutas e frustrações da ciência, a busca pela neutralidade, digamos que a ciência consegue passar uma impressão de neutralidade, mas se observarmos mais a fundo logo percebemos suas influências políticas e econômicas. Exemplos de pensadores que buscaram a neutralidade são “Kant, Comte, Freud, Marx, todos eles acreditam no advento de uma ciência livre de emoções” (ALVES, 2007, p. 172). A essência do homem é o desejo, e é em torno dele que se desenvolvem todas as atividades humanas, inclusive a ciência. É a partir dele que 1277 surgiram as artes, a religião e também a ciência. Alves propõe que questionamos essas relações: Já que o desejo não pode ser erradicado e é central na ordem de nossa experiência cotidiana, de que forma se relacionam a ordem dos valores e a ordem da ciência? Vivem em compartimentos estanques? Uma domina a outra? Qual? De que forma? Este é um problema a ser pensado (2007, p. 41). Primeiramente precisamos elencar as diferenças entre estas ordens. Poderíamos classificar o senso comum como absurdo? E, como descreveu Marx, se observarmos os indivíduos da Idade Média, que acreditavam que o mundo era o centro do universo, em torno do qual todos os astros giravam. E chega alguém e afirma que a Terra não está estática, nem tão pouco é o centro do universo, ela gira em torno do sol, ou ainda se afirmassem que as marés ocorrem porque a água é puxada pelo sol e pela lua. O que os indivíduos daquela época pensariam a respeito dessas novas descobertas/declarações? Será que elas foram consideradas absurdas? É um paradoxo que a Terra se mova ao redor do Sol e que a água seja constituída de dois gases altamente inflamáveis. A verdade científica é sempre um paradoxo, se julgada pela experiência cotidiana, que apenas capta a aparência efêmera das coisas (MARX, apud ALVES, 2007, p. 42). Voltemos à questão das marés, uma força invisível (a força da gravidade) puxa a água e forma as marés. Marx questiona se entendemos como isso ocorre. E se não entendemos, então porque acreditamos? Seria o mesmo princípio do senso comum? “’O místico crê num Deus desconhecido. O pensador e o cientista crêem numa ordem desconhecida. É difícil dizer qual deles sobrepuja o outro em sua devoção não-racional’ (L. L. Whyte, apud A. Koestler, The ActofCreation, p. 260)” (ALVES, 2007, p. 43). Pode-se perceber que a ciência tornou-se um instrumento de poder, ou seja, o poder está nas mãos de quem possui o conhecimento, tal fato está presente na contemporaneidade, mas já vem de muito tempo. “Uma ordem social já estabelecida tende a privilegiar as formas passadas de pensar, pois a novidade sempre é imprevisível, incontrolável, subversiva” (ALVES, 2007, p. 117). Para exemplificar, relembraremos a Idade Média na qual, tanto a ciência, como o poder, encontram-se nãos mãos da igreja Católica. Esta, por sua 1278 vez, decidiu-se a privilegiar determinadas maneiras de pensar em detrimento das demais que pudessem surgir, pois a abertura para a novidade, para a imprevisibilidade poderia atrapalhar seu intuito de dominação, afinal “[...] o que está em jogo não é a transmissão daquilo que se inventa, mas antes a transmissão do poder de inventar” (NASIO, s/n apud ALVES, 2007, p. 149). Alves (2007) coloca uma perspectiva importante a respeito desta colocação em relação à Igreja Católica. Quando recorda-se a Idade Média, período em que a Igreja Católica tinha grande domínio na Europa, costuma-se chamá-la de Idade das Trevas por conta da pressão exercida pela igreja sobre os cientistas, entretanto Alves afirma que: Geralmente a Igreja é descrita como a vilã em oposição ao “mocinho”... Que ninguém se engane. Contra Galileu falava a ciência da época, acidentalmente incorporada na Igreja. A sociologia das instituições científicas, hoje, continua a mesma. E que critério invocavam os cientistas ortodoxos para rejeitar Galileu? O mesmo que ainda hoje se invoca: o consenso, o acordo. Quando todos concordam, é porque existe uniformidade quanto à interpretação das evidências” (2007, p. 174). A ciência hoje é dominada, organizada e gerida por um grupo intelectualformado por universidades, sociedades de cientistas e os corpos editoriais de jornais técnicos, que assim como na Idade Média, visam a preservação do status quo, considerando as inovações não-ortodoxas como uma ameaça, [...] mas também pelo medo mais profundo de que o edifício intelectual, tão laboriosamente erigido, possa cair sob seu impacto. A ortodoxia corporativa tem sido a maldição dos gênios, de Aristarco a Galileu, Harvey, Darwin e Freud. Ao longo dos séculos, suas falanges têm defendido tenazmente o hábito, em oposição à originalidade (Arthur Koestler, op. Cit., p. 239 apud ALVES, 2007, p. 217). Neste sentido percebe-se que o inovador acaba por enfrentar este grupo intelectual que opõe-se às suas descobertas, utilizando como armas o peso das suas experiências bem sucedidas, afinal “[...] os cientistas só buscam os fatos que são decisivos para a confirmação ou negação de suas teorias. .(...) Um fato só tem significação na medida em que acrescenta ou diminui a plausibilidade de uma teoria” (ALVES, 2007, p. 46). Torna-se importante buscar a criticidade para analisarmos o mundo ao nosso redor, procurando entender e não abraçar de olhos fechados uma verdade que nos é imposta. É necessário que, seja através do senso comum ou da ciência, 1279 desenvolvamos um conhecimento de mundo que não se restrinja a uma única área, que não se submeta às imposições da mídia, um conhecimento de mundo que, verdadeiramente, rompa com a fragmentação e que mostre que a capacidade de raciocínio e decisão deve estar nas mãos do povo, de tal maneira que senso comum e ciência mesclem-se e superem a arrogância de alguns e a submissão de outros. REFERÊNCIAS ALVES, Rubem. Filosofia da ciência: introdução ao jogo e as suas regras. 12. ed.São Paulo: Leituras Filosóficas, 2007. CAPRA, Fritjot. O ponto de mutação: a ciência, a sociedade e a cultura emergentes. São Paulo: Cultrix, 1982. DECARTES, René. Discurso do método. Trad. Gilles-Gaston Granger. Col. Os Pensadores. Vol. XV. São Paulo: Abril Cultural, 1973. Primeira e segunda partes - p. 37-48. EHRENFELD, David. A arrogância do Humanismo. Trad. Alvaro Cabral. Rio de Janeiro: Campus, 1992. FREIRE, P. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e terra, 2007. GARRAFA, V. Bioética e manipulação da vida. In: NOVAES, A. O homemmáquina:a ciência manipula o corpo. São Paulo: Companhia das Letras, 2003. GEERTZ, Clifford. O saber local: novos ensaios em antropologia interpretativa. 11. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2009. SANTOS, Boaventura de Sousa. Um discurso sobre as ciências. São Paulo: Cortez, 2008. SOARES, Luis Carlos. O nascimento da ciência moderna: os caminhos diversos da revolução científica nos séculos XVI e XVII. In:______(org.) Da revolução Científica à Big (Business) Science: cinco ensaios de história da ciência e da Tecnologia (Lógica e Filosofia da Ciência; História da Ciência e da Tecnologia, v. 7). São Paulo; Hucitec; Niterói: EduFF, 2001. p. 17-67. 1280