1 UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ GLADISSON SILVA DA COSTA Nos quarteirões de São José: um estudo sobre poder e sociedade em São José dos Pinhais na segunda metade do século XIX (1852-1878) Curitiba 2008 2 GLADISSON SILVA DA COSTA Nos quarteirões de São José: um estudo sobre poder e sociedade em São José dos Pinhais na segunda metade do século XIX (1853-1882) Monografia apresentada como requisito parcial para conclusão do Curso de Bacharelado e Licenciatura em História, do Departamento de História, Setor de Ciências Humanas, Letras e Artes da Universidade Federal do Paraná. Orientador: Prof. Dr. Carlos Alberto Medeiros Lima Curitiba 2008 3 Aos meus pais, Marcos e Maria. À minha irmã Glaucia e meu sobrinho. À Tabata, minha companheira, amiga e confidente. Aos meus incentivadores. amigos, apoiadores e 4 AGRADECIMENTOS Agradeço especialmente a Marcos e Maria, meus pais, por todo o apoio e incentivo, pela ajuda financeira tão necessária nesta fase da vida, pelo amor e pela compreensão em tantos momentos. Muito Obrigado. À Tabata, pelo companheirismo, pela amizade e por todos os momentos felizes que desfrutei graças a você. Pela paz proporcionada nos momentos mais tensos da graduação, pelo apoio e carinho dedicados. Obrigado por tudo, meu amor. Aos amigos conquistados nestes quatro anos, tão essenciais nesta jornada. Certamente alguns nomes serão esquecidos, o que não significa que foram menos importantes. Agradeço especialmente ao Daniel, Dayane, Fernanda, Fabiano, Líder, Karina, Mari, Pamela, Lex, à minha conterrânea Dani e, claro, para Kerolyn e Orlando (saudosos amigos). Para Carlos Lima, pela atenção despendida, por todos os ensinamentos (que não foram poucos). Muito de minha formação intelectual deve-se às conversas com este excelente professor. Obrigado pela paciência na feitura desta monografia, pelo apoio, pelo otimismo empolgante, pelos livros gentilmente emprestados, enfim, agradeço pelo fato de ter aceitado a orientação deste projeto. Se posso me considerar um historiador, hoje, devo isso aos conhecimentos ofertados por este professor. Muito Obrigado. 5 SUMÁRIO Introdução 6 Capítulo 1 11 As Eleições Imperiais: A lista de qualificação e o teatro das eleições Capítulo 2 16 São José dos Pinhais na segunda metade do século XIX: uma visão panorâmica Capítulo 3 27 O alto da Pirâmide: o perfil dos votantes em uma sociedade notadamente agrária Capítulo 4 33 A Posse de escravos: possibilidades de acumulação e reprodução das riquezas em São José dos Pinhais Considerações finais 40 Referências 43 6 INTRODUÇÃO Durante a primeira metade do século XIX pode-se notar a coexistência de duas atividades econômicas de grande vulto na região do atual Paraná: o tropeirismo, devido às possibilidades oferecidas com o comércio com a região sudeste e a produção do mate para exportação, estimulada pelo comércio com o Prata. A historiografia pertinente concorda, ao menos minimamente, que o tropeirismo foi a principal atividade da Comarca de Curitiba durante todo o século XVIII e primeira metade do XIX. Assim, o crescimento desta atividade acabou por criar as condições objetivas para a emancipação da Comarca em 1853, exatamente na época em que o tropeirismo alcançava seu apogeu1. A principal ligação entre São Paulo e o Rio Grande do Sul e, por isso, bastante utilizada pelas tropas, era o Caminho do Viamão (aberto em 1730) que ligava as regiões de preação e criação do Extremo Sul com as feiras em Sorocaba, através dos Planaltos do território do atual estado do Paraná. O caminho do Viamão, portanto, vinha dos Campos de São Joaquim e alcançava o rio Negro no local conhecido como Mata do Sertão, ou Sertão da Mata (onde hoje ficam as cidades de Mafra e Rio Negro). A leste ficava a região serrana densamente coberta de matas, onde até meados do século XIX a passagem (pelo chamado Caminho dos Ambrósios) era tida como perigosa, devido a 2 ataques de indígenas. Tamanha dificuldade na travessia do Caminho dos Ambrósios acabou por gerar uma situação de marginalização da então freguesia de São José no fluxo principal do tropeirismo, o qual se processava na direção da vila do Príncipe (atual Lapa), cuja travessia era menos perigosa. Todavia, conforme os citados autores, esta situação marginal da freguesia de São José fora atenuada por uma constante movimentação do Caminho do Arraial Grande, sobretudo devido ao comércio de abastecimento, visto que este caminho era uma das principais ligações entre o 1 COLNAGHI, M. C.; MAGALHÃES FILHO, F. B. B.; MAGALHÃES, M. D. B. São José dos Pinhais: a trajetória de uma cidade. Curitiba: Editora Prephacio, 1992. 2 Idem. p. 31 7 primeiro planalto e o Porto de Paranaguá. Neste sentido, como sublinha Myriam Sbravati, era através do Caminho do Arraial que desciam todo gado, produtos agrícolas e erva-mate procedentes de diversas povoações, principalmente Miringuava, Campo Largo da Roseira, 3 Mandirituba e, mesmo, Santo Antônio da Lapa. Desta forma, paralelamente à atividade dos tropeiros, o comércio de ervamate também se fazia presente. Desde meados do século XVII, já se registrava a extração e a venda desse produto na região, visto que os ervais cobriam milhares de quilômetros quadrados deste termo. Todavia, devido ao seu caráter extrativista, “a economia do mate localizou-se onde os ervais nativos eram mais abundantes, densos e produtivos, a saber, nas matas do alto Iguaçu e do rio Negro, das quais parte significativa pertencia à, então, freguesia de São José dos Pinhais”.4 Entretanto, apesar deste quadro, até o início do século XIX pelo menos, a atividade ervateira ficou, quando muito, em segundo plano na economia desta freguesia. Assim, não obstante a já citada importância da congonha de São José para o comércio ervateiro da província, a atividade produtiva por excelência dos poucos cativos que ainda restavam em São José dos Pinhais em meados do oitocentos era a agricultura do milho5 que, ao lado da produção do trigo, feijão e mandioca, segundo nos informa Cacilda Machado, garantiam o abastecimento regional e davam suporte ao setor de exportação6. Desta forma, o comércio ervateiro conferiu a São José alguma expressão nessa nova economia dinâmica, a qual se manteve como principal atividade econômica do Paraná até a década de trinta do século XX, aproximadamente. No 3 SBRAVATI, M. São José dos Pinhais, 1776-1852: uma paróquia paranaense em estudo. Curitiba: Dissertação de Mestrado. Universidade Federal do Paraná, 1980. p.43. 4 Ibid. p. 41. 5 LIMA, C. A. M. Os patrimônios e o declínio da escravidão no Paraná (São José dos Pinhais, 18521886). In: CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA ECONÔMICA, 6., 2005, Rio de Janeiro; CONFERÊNCIA INTERNACIONAL DE HISTÓRIA DE EMPRESAS, 7., 2005, Rio de Janeiro. Anais... Rio de Janeiro: ABPHE, 2005. p. 06 6 MACHADO, C. A Trama das Vontades: Negros, pardos e brancos na produção da hierarquia social (São José dos Pinhais - PR, passagem do XVIII para o XIX). 343 f. Tese (Doutorado em História) – Instituto de Filosofia e Ciências Sociais, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2006. 8 entanto, no tocante aos senhores de escravos, somente os muito ricos se davam ao luxo de dedicar-se com mais afinco a esta atividade, ao menos em São José 7. Foi neste contexto, portanto, que São José adquiriu algum destaque na região e, pela Lei Provincial nº 10, de 16 de julho de 1852, a freguesia de São José dos Pinhais foi elevada à categoria de vila, sendo criado o município, cuja instalação oficial se deu em 8 de janeiro de 1853. Neste Sentido, tomando o aumento populacional como um possível indicativo do crescimento e dinamização da economia da região, faz-se importante citar alguns dados produzidos por estatísticas da época, os quais foram apresentados por Cacilda Machado. Segundo tais informações, entre 1782 e 1830 a população livre da então freguesia de São José dos Pinhais já havia crescido cerca de 278% superando, inclusive, a taxa de crescimento da própria vila de Curitiba, a futura capital da Província do Paraná, que atingira no mesmo período um percentual de cerca de 191,5%.8 Por outro lado, apesar do considerável aumento populacional, conforme a mesma autora, vislumbramos que ao longo de todo o século XVIII e primeiro quarto do XIX ocorrera uma considerável diminuição no seleto grupo dos que “podiam ter escravos” nesta modesta localidade. Para se ter uma idéia, no ano de 1765 não havia escravos em 79% dos domicílios da freguesia de São José, índice que chega a 83,6% em 1827.9 É preciso ressaltar, contudo, que este quadro não deve ser entendido como uma atenuação das divisões sociais no interior da sociedade são-joseense, visto que outras formas, que não apenas a posse de escravos, foram amplamente utilizadas para manter o status quo da elite local, das quais podemos sublinhar as práticas de ampliação das redes de dependência dos potentados locais através da cooptação de agregados, por exemplo10. Em análise sobre a composição das fortunas de senhores de escravos de São José dos Pinhais (1852-1886), Carlos Lima atenta para o fato de que “o 7 Cf. LIMA, C. A. M. Op. cit. 8 Ibid. p. 70-71 9 Ibid. 10 GRAHAM, R. Clientelismo e política no Brasil do século XIX. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 1997. p. 50. 9 progressivo abandono da escravidão se fez acompanhar por uma intensificação do direcionamento dos recursos para a formação de dívidas ativas” 11 . Segundo ele, tal efeito estaria ligado à tendência da elite local em “amarrar camponeses autônomos por intermédio daquelas dívidas”, visto que ainda havia uma grande oferta de terras disponíveis aos estabelecimentos autônomos dos pobres, sobretudo no Paraná. Corroborando com a visão de que a instituição da escravidão tornava a posse de escravos um importante elemento de diferenciação social, conforme Machado, em áreas e/ou períodos em que os escravos formassem um grupo com pouca representatividade percentual (como acreditamos ser o caso de São José dos Pinhais na segunda metade do século XIX), a hierarquização dos livres se operaria de maneira ainda mais marcante12, seja através da confecção de redes de agregados, como indica a autora, seja pela criação de rendas ativas em relação à população pobre da região. Destarte, recorremos a Richard Graham em sua análise sobre a influência exercida pelo clientelismo sobre a política imperial, especialmente durante o reinado de Pedro II. Conforme o autor, que analisa correspondências de políticos do período, estes “gastavam grande energia no incremento de suas redes de dependência. Fornecendo ou pedindo favores”. Para este autor, a idéia que vigorava no Brasil oitocentista era de que todas as relações sociais consistiam em uma troca de proteção por lealdade. Tal realidade, segundo ele, devia-se à incapacidade do governo central em atender as necessidades da população do Império, “deixando os pobres á própria sorte” 13 . Deste modo, a prática do clientelismo mostrou-se uma eficiente saída para a crescente centralização do poder imperial, visto que o apadrinhamento poderia ajudar a atenuar a intervenção imperial nos interesses das elites locais. Neste viés, segundo nos informa Luiz Adriano Borges, a pobreza era a grande marca da sociedade são-joseense do período, visto que nem a coleta da erva-mate (principal atividade econômica da Província em meados do século XIX), nem a agricultura (amplamente difundida entre os habitantes desta vila) fizeram de São José uma vila economicamente forte. Posto isto, segundo este autor, “a 11 LIMA, C. A. M. op. cit. p. 17. 12 MACHADO, C. op. cit. p. 77. 13 GRAHAM, R. op. cit. p. 41. 10 pretensa elite local só poderia ser considerada enquanto tal, se levados em consideração os parâmetros locais” 14 . Assim, atentos a esta premissa, almejamos efetuar um estudo desta elite que, apesar de singela quando comparada com aquelas existentes nas poderosas vilas do Império, possivelmente exercia um grande poder de mando em sua localidade. Enfim, não obstante o aspecto decadente de São José, a análise de suas estruturas sociais pode contribuir significativamente para uma melhor compreensão da sociedade brasileira do século XIX. A importância de um estudo sobre uma vila como São José dos Pinhais, portanto, reside no fato de que a dinâmica da sociedade são-joseense do oitocentos estava, possivelmente, bastante próxima da realidade vivida por boa parte das vilas e freguesias do Império do Brasil. 14 BORGES, L. A. G. Família e trabalho escravo: Sociedade e Poder em São José dos Pinhais no século XIX. Artigo apresentado no 3º encontro “Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional” 11 1. AS ELEIÇÕES IMPERIAIS: A LISTA DE QUALIFICAÇÃO E O TEATRO DAS ELEIÇÕES O presente trabalho buscou recuperar aspectos da “fisionomia” social de São José dos Pinhais, sublinhando o papel do grupo dirigente desta recém emancipada vila paranaense. Para tanto, em um primeiro momento, se fez necessária a construção de uma espécie de mapa sócio-econômico do município. Nesta tarefa o uso da lista de qualificação de votantes de 1878 como fonte se mostrou bastante produtiva. Com a implementação da chamada Lei do Terço (1875), introduziu-se uma importante inovação no processo eleitoral visto que passou a ser exigida a ampliação das informações contidas nas listas preparadas durante o processo de alistamento. A partir de então, as listas de qualificação de votantes passaram a registrar os nomes dos qualificados inscritos por ordem alfabética e uma série de informações adicionais, tais como a idade, a profissão, se sabiam ler e escrever, a filiação, o domicílio e a renda conhecida ou presumida.15 Destarte, este documento constitui um excelente ponto-de-partida para uma caracterização das estruturas sociais de uma dada região. Estas listas eram elaboradas com o intuito de qualificar os cidadãos ativos, ou seja, aqueles que teriam direito ao voto (simples votante) e os que poderiam ser eleitos (elegível), diferenciando-os, desta maneira, daqueles que não apresentavam os requisitos mínimos para participar do processo eleitoral do Império, tais como a renda anual de 200$000. Todavia, logo que iniciamos a análise da fonte em si, a grande quantidade de pessoas que não possuíam este rendimento mínimo – e que, mesmo assim, foram arroladas na lista – nos chamou a atenção: de um universo de 1338 indivíduos, 499 (cerca de 37%) apresentaram a observação “não tem a renda” 16 . Aqui, nos deparamos com uma importante especificidade da fonte, visto que em 15 NUNES, N. F. M. A experiência eleitoral em Campos dos Goytacazes (1870-1889): freqüência eleitoral e perfil da população votante. Dados, Rio de Janeiro. 2003, vol. 46, nº. 2, p. 311-343. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S001152582003000200005&lng=pt&nrm=iso. Acesso em 25/10/2008. 16 É preciso sublinhar, aqui, que as rendas constantes nestas listas de qualificação de votantes, eram muito subjetivas, dependiam da interpretação da junta eleitoral. 12 listas de qualificação de outras localidades, tais como a lista de Tibagi (1880)17, por exemplo, as pessoas eram qualificadas apenas enquanto votantes e elegíveis, suprimindo, portanto, todos os indivíduos que possuíam uma renda presumida ou comprovada inferior aos 200 mil réis anuais. Segundo a Constituição de 1824, para se ter direito ao voto, além da exigência de uma renda anual superior a 100$000 (ampliada para 200$000 a partir de 1846) era necessário atender outros requisitos, tais como: ser cidadão brasileiro – ou estrangeiro naturalizado -; maior de vinte e cinco anos (ou maiores de vinte e um para os casados e oficiais militares). Deste modo, mulheres, escravos e os muito pobres eram excluídos das eleições, bem como os clérigos de ordens sacras e os “filhos-família” que viviam com seus pais (salvo se trabalhassem em ofícios públicos). Estes indivíduos não eram considerados cidadãos ativos pela constituição Imperial, devido ao fato de que não eram capazes de agir sem a tutela de outrem, o que, segundo o pensamento da época, inviabilizava o exercício da cidadania. Deste modo, entre a elite do Império reinava a idéia de que a população (pobre) não possuía condições de entendimento e independência (financeira) para exercer adequadamente a função de votante, o que resultaria na manipulação e no falseamento das eleições. Assim, a idéia de que o votante, no Brasil, era uma turba ignorante e dependente, se perpetuou e em 1881 a culpa de toda a corrupção do governo foi inferida ao votante pobre e analfabeto, e este fora retirado de cena. 18 Conforme salientamos, além da renda, era preciso ser independente de outros indivíduos para participar das eleições. Desta forma, a grande maioria dos qualificados (simples votantes e elegíveis), atendendo ao disposto na legislação, deveria ser constituída por homens chefes de fogos – salvo as exceções previstas em lei –, ou seja, deveriam ser senhores de si e, se possível, de outros. Assim, almejando compreender melhor a abrangência desta fonte, nos voltamos para o recenseamento imperial de 1872 para lançar luz sobre algumas questões. Este documento apresenta uma quantidade de 1222 fogos (prováveis votantes) para a freguesia de São José dos Pinhais. Mesmo admitindo que nem todos estes fogos eram chefiados por homens, visto que o censo informa a 17 MARCANTE, M. F. Padrões de conquista e de incorporação política de escravos e índios na fronteira agrária: Paraná, 1831-1863. Iniciação Científica (PIBIC/CNPq) 2007/2008. 18 CARVALHO, J. M. O teatro das sombras. 2. ed. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, Relume-Dumará, 1996. p. 359-363. 13 existência de 195 viúvas residentes nesta freguesia, por exemplo, o número de fogos contabilizados em 1872 é bastante próximo aos 1338 indivíduos relacionados na lista de qualificação que analisamos. Contudo, ao excluirmos deste montante os nomes que apresentam as observações “falecido” ou “mudado a anos”, por exemplo, chegamos a um número ainda mais parecido com aquele obtido no censo imperial: algo em torno de 1194 indivíduos. Com base nestas comparações, apesar das dificuldades oriundas da distância temporal entre as fontes utilizadas (1872 e 1878), podemos presumir que praticamente todos os fogos (chefiados por homens livres) de São José dos Pinhais, mesmo os mais pobres, foram incluídos na lista de qualificação de 1878, indicando que a cobertura da lista em questão é, realmente, bastante ampla, ao menos quando comparada com outras listas eleitorais do período. TABELA 1 – POPULAÇÃO LIVRE NO MUNICÍPIO DE SÃO JOSÉ DOS PINHAIS CONFORME O CENSO DE 1872 Freguesias São José dos Nossa Senhora dos Pinhais Remédios do Iguassu Homens 3370 1545 Mulheres 3518 1746 Solteiros 2366 935 Casados 910 592 Viúvos 64 18 Solteiras 2385 1002 Casadas 938 706 Viúvas 195 38 Quantidade de fogos 1222 674 FONTE: Recenseamento Geral do Brasil 1872 - Império do Brasil. IBGE. TOTAL 4915 5264 3301 1502 82 3387 1644 233 1896 É claro que tais apontamentos são tanto quanto imprecisos, em parte pela própria imprecisão inerente a qualquer documento que dependa das informações prestadas pela população, como era o caso das listas de qualificação.19 As informações presentes nesta lista eram passíveis de sonegação – tanto pelos interesses dos votantes, quanto pela preferência política da junta de qualificação. Além disso, a análise deste documento apresenta ao pesquisador, ainda outras dificuldades, decorrentes da exclusão de boa parte da população local, já que a legislação vigente negava categoricamente a cidadania a escravos, mulheres e 19 FERNANDES, E. Os votantes numa população de fronteira: Lençóes, segunda metade do século XIX. In: Revista de História Econômica & Economia Regional Aplicada, v.1, nº3, 2007, p.8. 14 filhos-família. Posto isto, a lista de qualificação de votantes fora, em todo o nosso trabalho, contrastada com outras fontes e com a historiografia pertinente, buscando, com isso, minimizar suas exclusões, fornecendo maior consistência para a pesquisa. Sobre tais exclusões nas eleições imperiais, José Murilo de Carvalho sublinha que a manutenção do envolvimento popular em níveis baixos foi um traço constante da lógica do sistema político brasileiro. Segundo ele, a legislação eleitoral no Império demonstrava, na melhor das hipóteses, uma preocupação em evitar a expansão do eleitorado, garantindo, com isso, uma pretensa qualidade do voto e a lisura nas eleições.20 Entretanto, apesar do processo eleitoral do período imperial, por ser censitário, ter resultado em eleições carentes de ampla participação popular, destacamos a contribuição do artigo de Neila Ferraz Moreira Nunes21, onde a autora lembra que as análises baseadas em Listas de Qualificação de Votantes têm revelado surpreendentes resultados no que diz respeito aos índices de participação eleitoral em diversas regiões do país, como Curitiba (Cardoso, 1974), Campinas (Magalhães, 1992), São Paulo (Klein, 1995) e Município da Corte (Linhares, 1979), e permitido, simultaneamente, desenhar um perfil mais realista do eleitorado brasileiro no terceiro quarto do século XIX. Neste sentido, Graham fornece uma importante contribuição para a questão. Conforme o autor, em todo o Império, “50,6% de todos os homens adultos livres, de 21 anos ou mais, independente de raça ou instrução, constavam dos róis de votantes qualificados”. No que se refere ao Paraná, Graham calcula, sob os mesmos critérios, uma percentagem de cerca de 40,0%.22 Portanto, acreditando que a lista de qualificação de São José, como já foi dito, abarcava todos os homens livres, com 22 anos ou mais23; e que eram independentes de outrem, vislumbramos que os eleitores perfaziam notáveis 57,7% dos arrolados; isto em uma região marcadamente depauperada como São José. Sendo assim, tais dados sugerem que as eleições à época do Império, não obstante 20 Idem. 21 NUNES, N. F. M. Op. cit. 22 GRAHAM, R. Op. cit. p. 147. 23 A menor idade encontrada na lista de qualificação de São José dos Pinhais foi de 22 anos. 15 seu caráter bastante excludente, não limitava o acesso político a um grupo específico, uma vez que qualquer indivíduo, independente de sua ocupação tinha condições reais de alcançar os 200 mil réis exigidos na legislação eleitoral. Deste modo, a proibição do voto aos analfabetos, por exemplo, efetuou uma exclusão muito mais drástica que a prática do voto censitário. Portanto, esta relativa acessibilidade, como sublinhou Graham, não significava, de maneira alguma, uma política democrática, antes, atendia a uma das finalidades do teatro das eleições, a saber, demarcar as posições dos atores sociais envolvidos. Neste sentido, as eleições imperiais não poderiam excluir totalmente a “turba ignorante e dependente” do jogo eleitoral, como aquela “ilha de letrados” 24 desejava, visto que a turba desempenhava, também, seu papel neste teatro. Destarte, conforme salientou Ivana Stolze Lima ao analisar a já citada obra de Richard Graham, as eleições eram uma forma de diferenciação social, onde os clientes demonstravam lealdade, obediência, reconhecimento; os patrões reafirmavam seu dom de proteção. Por tudo isso o espetáculo devia e podia ser amplo, bem como essencialmente público, quase uma festa, embora 25 uma festa sempre tensa e que podia ser também violenta. Posto isto, as eleições reproduziam a estratificação daquela sociedade, onde todos desejavam insistentemente estar acima de outrem e, quando conseguiam, se esforçavam para enfatizar (publicamente) o lugar conquistado. As eleições, portanto, forneciam uma grande oportunidade lembrar a todos que cada um tem o seu lugar; desde Deus, passando pelo Imperador, até o escravo. 24 Cf. CARVALHO, J. M. Op. cit. 25 LIMA, I. S. Clientelismo e política no Brasil do século XIX. Mana , Rio de Janeiro, v. 5, n. 2, Out. 1999. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S010493131999000200010&lng=en&nrm=iso>. Acesso em: 20/10/2008. 16 2. SÃO JOSÉ DOS PINHAIS NA SEGUNDA METADE DO SÉCULO XIX: UMA VISÃO PANORAMICA Visando construir uma melhor representação da dinâmica desta região, efetuamos uma apreciação de alguns aspectos sócio-econômicos e sua correlação com a divisão administrativa de São José dos Pinhais. Em outras palavras, com base nos dados extraídos da lista de qualificação de votantes de 1878, construiu-se uma espécie de “topografia social” desta vila paranaense na segunda metade do século XIX. O município de São José dos Pinhais dividia-se em outras duas unidades administrativas; uma freguesia homônima (mais populosa) e a freguesia de Nossa Senhora dos Remédios de Iguassú. Cônscios desta divisão, centramos nossa pesquisa nos dados referentes à freguesia de São José e não do município como um todo, devido a escassez de dados acerca da freguesia de Nossa Senhora dos Remédios de Iguassú. É claro que não pretendemos generalizar os dados encontrados para a freguesia, aplicando-os invariavelmente sobre a realidade do município de São José dos Pinhais. Nosso esforço consiste, antes, em utilizar as informações que dispomos para esta freguesia para ilustrar a análise acerca da situação da citada vila logo após sua emancipação da comarca de Curitiba, em 8 de janeiro de 1853. No período analisado nesta monografia, São José contava com um grande espaço territorial que compreendia as terras hoje pertencentes aos municípios de Araucária, Fazenda Rio Grande, Tijucas do Sul, Agudos do Sul, Piraquara, Mandirituba e Pinhais.26 Além do vasto território e, talvez por causa dele, esta vila caracterizava-se por um notável predomínio do meio rural sobre o urbano. Na freguesia de São José, por exemplo, quase todos os indivíduos foram qualificados como “lavradores” na lista de qualificação de votantes de 1878. De um universo de 1205 indivíduos presentes na lista, cuja ocupação fora informada, encontramos 1159 lavradores, o que demonstra a grande ruralidade de São José, bem como aponta para a existência de uma economia fortemente apoiada na agricultura de subsistência. Todos os 28 quarteirões da freguesia de São José dos Pinhais 26 MAROCHI, M. A. Câmara Municipal de São José dos Pinhais: 150 anos (1803-2003). São José dos Pinhais – PR: Câmara Municipal, 2003. 17 apresentaram uma enorme quantidade de lavradores (ver TABELA 2). Alguns deles chegavam a apresentar todos os indivíduos arrolados como lavradores. Desta forma, São José se mostra como uma vila notadamente rural, onde a agricultura surgia como a principal forma de obter alguma renda, sobretudo aos mais pobres, refletindo talvez a grande disponibilidade de terras cultiváveis existentes na região. Mesmo no primeiro quarteirão da vila, que abrigava um modesto núcleo urbano, onde existia uma razoável diversidade ocupacional – ao menos para os parâmetros são-joseenses –, a atividade agrícola se fazia presente, uma vez que cerca de 30% dos indivíduos ali residentes foram recenseados como lavradores. Os dados encontrados por Maicon Marcante para Tibagi, neste mesmo período, indicam o tamanho da ruralidade de São José. Segundo ele, a porcentagem de lavradores no núcleo mais urbano de Tibagi, era inferior a 10%. 27 TABELA 2 – DISTRIBUIÇÃO DOS INDIVÍDUOS SEGUNDO A PROFISSÃO E QUARTEIRÃO (SÃO JOSÉ DOS PINHAIS, 1878). Quarteirões Lavradores Negociantes Outros Total 1º Quarteirão da Fachina 24 24 2º Quarteirão da Fachina 31 33 1º Quarteirão da Vila 12 14 13 39 2º Quarteirão da Vila 31 31 3º Quarteirão da Vila 29 29 1º Quarteirão de Cuppy 46 2 48 2º Quarteirão de Cuppy 54 1 55 1º Quarteirão de Mandirituba 50 1 51 2º Quarteirão de Mandirituba 78 78 3º Quarteirão de Mandirituba 53 53 1º Quarteirão de Piraquara 66 2 1 69 2º Quarteirão de Piraquara 39 39 3º Quarteirão de Piraquara 29 1 30 1º Quarteirão da Fulla 41 41 2º Quarteirão da Fulla 38 1 39 1º Quarteirão do Marcelino 36 36 2º Quarteirão do Marcelino 46 46 1º Quarteirão do Campestre 59 59 1º Quarteirão de Campo Largo 43 4 47 2º Quarteirão de Campo Largo 54 1 55 1º Quarteirão da Caxoeira 57 57 1º Quarteirão dos Ambrósios 63 1 64 2º Quarteirão dos Ambrósios 63 2 65 3º Quarteirão dos Ambrósios 46 2 48 4º Quarteirão dos Ambrósios 37 37 5º Quarteirão dos Ambrósios 28 28 27 MARCANTE, M. F. Op. Cit. p.14. 18 6º Quarteirão dos Ambrósios 3 3 7º Quarteirão dos Ambrósios 3 3 FONTE: Lista de qualificação de votantes de São José dos Pinhais, 1878. DEAP. Todavia, apesar do grande número de lavradores na população de São José dos Pinhais, o domínio político da região não parecia estar concentrado nas mãos deste grupo. Embora os indivíduos listados como lavradores representassem cerca de 96% de todos aqueles cuja ocupação foi possível identificar, bem como 94,3% de todos os votantes deste termo, sua representação na Câmara Municipal era de apenas 55,8% dentre os 34 vereadores e suplentes que pudemos identificar nas Atas desta instituição entre os anos de 1875 e 188228. Posto isto, visando enriquecer a análise, efetuamos um corte transversal na hierarquia sócio-econômica de São José, que foi dividida em três faixas de rendimentos, seguindo a mesma divisão presente na lista de qualificação e votantes: “sem a renda mínima”, “simples votantes” e “elegíveis” – até 199$000, 200$000 a 399$000 e acima de 400$000, respectivamente. TABELA 3 – DISTRIBUIÇÃO OCUPACIONAL POR FAIXAS DE RENDA EM MILHARES DE RÉIS (SÃO JOSÉ DOS PINHAIS, 1878) Ocupações < 199 200 a 399 400 a 1000 % % % Lavradores 490 98,8 575 98,4 79 72,4 Negociantes 2 0,4 7 1,2 22 20,2 Empregados Públicos 3 0,6 1 0,2 3 2,8 Artesãos 1 0,2 1 0,2 1 0,9 Religiosos 3 2,8 Proprietários 1 0,9 Total 496 100 584 100 109 100 FONTE: Lista de qualificação de votantes de São José dos Pinhais, 1878. DEAP. 28 O recorte cronológico das Atas da Câmara Municipal de São José dos Pinhais do século XIX nos foi imposto devido a inexistência destes documentos para outros anos do citado século no Museu Municipal Atílio Rocco, onde encontramos as Atas utilizadas neste trabalho. 19 1200000 1000000 800000 600000 400000 200000 0 lavradores negociantes GRÁFICO 1 – RENDIMENTOS DE LAVRADORES E NEGOCIANTES EM SÃO JOSÉ DOS PINHAIS (1878) FONTE: Lista de qualificação de votantes de São José dos Pinhais, 1878. DEAP Notamos nestes dados que a proporção de negociantes aumenta na medida em que nos aproximamos dos mais altos rendimentos da vila em questão. Mesmo quando isolamos apenas os indivíduos cuja renda anual era superior a 400$000, os negociantes respondem por cerca de 20% deste grupo, cifra que sobe para 45,5% quando consideramos apenas os indivíduos que possuíam rendas de 1:000$000, as mais altas de toda a freguesia. Todavia, nos dados obtidos acerca do grupo de lavradores de São José dos Pinhais ocorre exatamente o inverso. Segundo constatamos, os lavradores são mais representativos na menor faixa de riqueza, a saber, as rendas de no máximo 199 mil réis/ano. Os lavradores eram a maioria absoluta dos indivíduos qualificados com esse nível de rendimento, contudo, na faixa que compreendia os maiores rendimentos anuais da freguesia, os lavradores perfaziam razoáveis 72% dos indivíduos. TABELA 4 – DISTRIBUIÇÃO DOS INDIVÍDUOS POR OCUPAÇÃO (SÃO JOSÉ DOS PINHAIS, 1878) Ocupação Nº. absoluto % Lavradores 1159 96,2 Negociantes 32 2,6 20 Outros 7 0,6 Empregados Públicos 7 0,6 Total 1205 100 FONTE: Lista de qualificação de votantes de São José dos Pinhais, 1878. DEAP. Apesar do grande predomínio rural, São José possuía um núcleo urbano. Neste sentido, ao nos debruçarmos sobre a distribuição espacial das profissões mais urbanas, os artesãos e sua ínfima representatividade, bem como sua concentração no primeiro quarteirão da vila, saltam aos olhos do pesquisador. Tais características parecem corroborar com a idéia de que São José era uma região extremamente pobre e já bastante polarizada por Curitiba, nesta segunda metade do século XIX.29 Este pequeno reduto urbano concentrava a maior heterogeneidade desta freguesia uma vez que estavam ali todos os elementos que destoavam do binômio lavrador/negociante. Exceto um proprietário residente no primeiro quarteirão de Piraquara, todos os outros indivíduos recenseados com profissões diversas daquelas, concentravam-se neste local. Localizamos ali treze indivíduos cujas profissões eram: um alfaiate, um carpinteiro, sete empregados públicos, um pedreiro, um pároco e dois sacerdotes. Em uma pesquisa encomendada pela câmara de São José dos Pinhais, pela comemoração do 150 anos da instituição (1853-2003), a autora Maria Angélica Marochi, não obstante a escassez de documentos sobre o século XIX, destacou a existência de algumas folhas de pagamentos avulsas, em que estavam registrados os nomes e cargos de alguns destes empregados da câmara municipal. Segundo ela, estes seriam “o procurador, o porteiro, o zelador do cemitério, o aferidor e o fiscal”. 30 Todavia, a autora não cita os nomes destes indivíduos - a não ser o do fiscal da câmara em 1856 -, dificultando, assim, a apreciação de tais dados, que poderiam ser cruzados com aqueles obtidos de nosso corpi documental. Além disso, a busca pelos documentos citados pela autora no Museu Municipal de São José dos Pinhais (Museu Atílio Rocco) se mostrou infrutífera, visto que muitos dos documentos do oitocentos não resistiram ao tempo. Dito isto, com rendas anuais variando entre 100$000 e 500$000, inclusive, os funcionários públicos destacavam-se pelo fato de que todos sabiam ler e 29 COLNAGHI, M. C.; MAGALHÃES FILHO, F. B. B.; MAGALHÃES, M. D. B. Op. cit. 30 MAROCHI, M. A. Op. cit. p. 59. 21 escrever, o que é significativo se levarmos em conta que 47% dos indivíduos arrolados em São José dos Pinhais eram analfabetos. Além disso, esta taxa de analfabetismo fora sub-representada, visto que não estavam presentes na lista, escravos e mulheres que, notadamente, possuíam grau de instrução bastante inferiores aos dos homens livres. Deste modo, possivelmente o numero de analfabetos em São José dos Pinhais deveria ser muito maior que o informado pela lista de votantes. Destrate, mesmo admitindo que soubessem apenas assinar o próprio nome, em uma sociedade em que a noção de hierarquia estava arraigada em todos os níveis sociais, todos os indivíduos se esforçavam para estar acima de outrem, por mais baixa que fosse sua condição sócio-econômica; da mesma forma estes empregados públicos, por mais ínfimo que fosse seu poder econômico, eles possuíam algum status naquela sociedade, devido ao cargo que ocupavam e, portanto, fariam uso de quaisquer elementos que pudessem destacá-los diante do restante da população. Assim, o fato deste grupo saber ler e escrever em uma região notadamente rural, pobre e analfabeta era um elemento de diferenciação social que não deveria ser desprezada. O núcleo dinâmico de São José dos Pinhais, assim como o de diversas vilas – e mesmo cidades – oitocentistas, não era o mais populoso da paróquia. Ora, conforme os dados da TABELA 2 vislumbramos que foram arrolados neste quarteirão, apenas 39 indivíduos, número bastante inferior aos 78 indivíduos residentes no segundo quarteirão de Mandirituba, por exemplo, a sub-região mais populosa da vila. A exigüidade do espaço urbano de São José além de corroborar com a assertiva de que estamos falando de uma região notadamente agrária, pode estar indicando, ainda, outros dois aspectos, não excludentes entre si: 1) Apenas aqueles que dependiam majoritariamente de atividades reconhecidamente urbanas para sobreviver e/ou para manterem seu status quo permaneciam no primeiro quarteirão da vila, tais como os empregados públicos dependentes da câmara municipal localizada neste quarteirão, os sacerdotes (e o pároco) dedicados à paróquia, também localizada ali, e os artesãos interessados na riqueza daquele quarteirão (Ver TABELA 5) e, talvez, na proximidade com Curitiba, a capital da Província. 2) Além destes indivíduos, provavelmente, apenas os muito ricos – que habitavam de fato no interior do município –, também possuíam residências de caráter temporário naquele quarteirão, para onde se dirigiam com suas famílias por 22 ocasião dos períodos das festas religiosas, ou para resolver alguns problemas de ordem política e/ou econômica31. TABELA 5 – RENDIMENTOS32 MÉDIOS EM MILHARES DE RÉIS DIVIDIDOS POR QUARTEIRÃO (SÃO JOSÉ DOS PINHAIS, 1878). Quarteirões 1º Quarteirão da Fachina 2º Quarteirão da Fachina 1º Quarteirão da Vila 2º Quarteirão da Vila 3º Quarteirão da Vila 1º Quarteirão de Cuppy 2º Quarteirão de Cuppy 1º Quarteirão de Mandirituba 2º Quarteirão de Mandirituba 3º Quarteirão de Mandirituba 1º Quarteirão de Piraquara 2º Quarteirão de Piraquara 3º Quarteirão de Piraquara 1º Quarteirão da Fulla 2º Quarteirão da Fulla 1º Quarteirão do Marcelino 2º Quarteirão do Marcelino 1º Quarteirão do Campestre 9 100 a 150 5 9 - 1 - - 3150 Renda média 131 10 5 16 - - - - 4200 135,5 4 8 6 1 5 6 6 12550 358,5 6 12 11 - 1 - - 4100 136,5 10 11 8 - - - - 3200 110 10 13 20 1 3 - - 7420 158 10 18 15 3 5 3 - 9700 180 2 1 42 1 5 - - 10900 214 1 - 73 - 3 1 - 16350 210 - 1 50 - 2 - - 10900 205,5 4 16 38 4 4 2 1 14250 206,5 - 20 11 2 2 2 - 6600 178,5 - 10 11 3 3 1 - 5800 207 23 4 13 1 - - - 4420 108 26 1 11 - - 1 - 4100 105 2 5 28 - - - - 6200 177 3 16 25 - 1 - - 7150 159 24 4 26 1 3 - - 8300 143 <50 200 300 400 500 1000 Total 31 Ibid. p.37. 32 Alguns dados apresentados na tabela foram agrupados para fornecer uma melhor leitura dos dados. 23 1º Quarteirão de 9 23 6 7 2 12100 257,5 Campo Largo 2º Quarteirão de 2 17 18 4 10 2 1 12560 232,5 Campo Largo 199 1º Quarteirão da 7 16 20 2 8 1 10750 Caxoeira 1º Quarteirão dos 23 14 23 2 1 8150 129 Ambrósios 2º Quarteirão dos 34 7 16 1 6 8300 130 Ambrósios 3º Quarteirão dos 29 1 11 7 6510 135,5 Ambrósios 4º Quarteirão dos 17 6 13 1 4450 120 Ambrósios 5º Quarteirão dos 14 3 11 3200 114 Ambrósios 6º Quarteirão dos 1 2 500 166,5 Ambrósios 7º Quarteirão dos 1 1 1 350 116,5 Ambrósios FONTE: Lista de qualificação de votantes de São José dos Pinhais, 1878. DEAP. Conforme os dados apresentados, vislumbramos que o primeiro quarteirão da Vila, além dos já destacados aspectos que o diferenciam das outras sub-regiões do município, apresentava também os maiores rendimentos de toda a paróquia. Tal característica pode confirmar a idéia de que alguns dos potentados locais – e suas elevadas rendas – foram recenseados como moradores deste núcleo, apesar de apenas raramente permanecerem ali. Neste viés, o naturalista Auguste Saint-Hilaire descreveu Curitiba, a principal cidade da região mo período: mostra-se tão deserta, no meio da semana, quanto a maioria das cidades do interior do Brasil. Ali, como em inúmeros outros lugares, quase todos os habitantes são agricultores que só vêm à cidade nos domingos e dias 33 santos, trazidos pelo dever do ofício divino. Esta característica, segundo Cacilda Machado, estaria bastante próxima da realidade de muitas outras vilas coloniais, tais como São José dos Pinhais na segunda metade do século XIX, conforme descrevemos.34 33 SAINT-HILAIRE, A. Apud MACHADO, C. Op. cit. p. 259. 34 Idem. 24 Aqui nos deparamos com uma separação geográfica e profissional da riqueza. Enquanto o primeiro quarteirão da vila apresentou uma renda média de 358$500 – a maior encontrada naquela freguesia -, os dois quarteirões da Fulla possuíam as menores rendas médias de São José, 108$000 e 105$000. Mesmo possuindo praticamente a mesma quantidade de indivíduos arrolados, os quarteirões da Fulla apresentavam apenas um terço da renda daquele quarteirão; mais urbano e visivelmente dominado por negociantes. 1200000 1000000 800000 600000 400000 200000 0 lavradores negociantes GRÁFICO 2 – RELAÇÃO DOS RENDIMENTOS DE NEGOCIANTES E LAVRADORES NO 1º QUARTEIRÃO DA VILA (SÃO JOSÉ DOS PINHAIS, 1878). FONTE: Lista de qualificação de votantes de São José dos Pinhais, 1878. DEAP. Os negociantes representavam quase 36% da população daquele quarteirão, o que reforça a idéia de que o peso político-econômico que este grupo representava naquela sociedade não era desprezível. Conforme o Gráfico 2, este grupo ocupava uma posição econômica dominante neste termo. Enquanto todos os lavradores listados possuíam rendas inferiores a 400$000, a grande maioria dos negociantes apresentou rendas superiores a esta cifra. Aliás, em um local onde a maior renda anual encontrada era de 1:000$000, o fato de que boa parte dos detentores deste rendimento no quarteirão mais dinâmico da Vila eram negociantes, sugere qual era o poderio econômico (e social) destes indivíduos. Tal questão não se reduzia ao núcleo urbano da freguesia, visto que mesmo em regiões notadamente rurais de São José, tais como o primeiro quarteirão de 25 Piraquara, onde os lavradores perfaziam 95,6% dos indivíduos qualificados, os negociantes que ali residiam ocupavam uma posição de destaque. 600000 500000 400000 300000 200000 100000 0 lavradores negociantes GRÁFICO 3 – RENDIMENTOS DE LAVRADORES DE E COMERCIANTES NO 1º QUARTEIRÃO DE PIRAQUARA (SÃO JOSÉ DOS PINHAIS, 1878). FONTE: Lista de qualificação de votantes de São José dos Pinhais, 1878. DEAP Apesar da diminuta quantidade de negociantes (2) diante do número de lavradores (66), os primeiros ocupam o topo da linha de rendimentos da região. Tal fato demonstra o grande domínio que estes poucos negociantes desfrutavam em São José dos Pinhais, sobretudo, através do fornecimento de créditos para os pequenos lavradores ali residentes. Devido a sua grande pobreza, estes lavradores seriam obrigados a recorrer á empréstimos para ter acesso à escassa quantidade de moeda em circulação, bem como para financiar a prática agrícola, tão vulnerável a efeitos exteriores, como variações climáticas, por exemplo. Em análise sobre a composição das fortunas de senhores de escravos de São José dos Pinhais (1852-1886), Carlos Lima aponta para o fato de que “o progressivo abandono da escravidão se fez acompanhar por uma intensificação do direcionamento dos recursos para a formação de dívidas ativas” 35 . Segundo ele, tal efeito estaria ligado à tendência da elite local em “amarrar camponeses autônomos por intermédio daquelas dívidas”, e não agregados, peões ou camaradas, visto que ainda havia uma enorme oferta de terras disponíveis aos estabelecimentos 35 LIMA, C. A. M. Op. cit. p. 06 26 autônomos dos pobres. Desta forma, os dados que apresentamos parecem corroborar com a visão deste autor, bem como fornecem outros indícios das relações perpetradas entre negociantes e lavradores, sobretudo. 27 3. O ALTO DA PIRÂMIDE: O PERFIL DOS VOTANTES EM UMA SOCIEDADE NOTADAMENTE AGRÁRIA. São José dos Pinhais apresentava em meados do oitocentos um grupo bem definido, cujos rendimentos se distanciavam notavelmente de todos os outros indivíduos. Sobre este aspecto, recorremos à afirmação de João Fragoso, segundo a qual, a história do Brasil sempre fora marcada pela “manutenção de um fosso entre ricos e pobres”.36 Deste modo, como indicamos, este abismo também estava presente na hierarquia sócio-econômica de São José dos Pinhais. Menos de 1% dos votantes desta freguesia apresentaram rendas de 1:000$000, o maior rendimento encontrado na lista de qualificação. Em contrapartida, a grande maioria da população – mais de 90% – possuía rendas inferiores a 400$000 por ano. Deste modo, tais informações, corroborando com outros dados apresentados, indicam que apesar da grande pobreza que pairava sobre este termo, conforme a obra de Cacilda Machado, a hierarquização entre os indivíduos livres se operava de uma maneira ainda mais marcante, contribuindo para a ampliação da desigualdade social já existente.37 Além disso, a inexistência de rendimentos compreendidos entre 600 e 999 mil réis na lista de 1878, parece indicar o tamanho da distancia entre os potentados locais, sobretudo comerciantes, e a base desta estrutura social, composta de muitos lavradores. TABELA 6 – DISTRIBUIÇÃO DOS INDIVÍDUOS POR FAIXA DE RENDIMENTO EM MILHARES DE RÉIS (SÃO JOSÉ DOS PINHAIS, 1878). Rendimentos No. Absoluto % da população < 200* 496 41,8 200 a 399 584 49,1 400 a 599 98 8,2 600 a 799 800 a 999 > 1:000 11 0,9 Total 1.189 100 FONTE: Lista de qualificação de votantes de São José dos Pinhais, 1878. DEAP. 36 FRAGOSO, J. Para que serve a história econômica? notas sobre a história da exclusão social no Brasil. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, n. 29, 2002. Disponível em: http://www.cpdoc.fgv.br/revista/arq/319.pdf. Acessado em:15/10/2008. 37 MACHADO, C. op. cit. p. 77. 28 * os indivíduos com renda abaixo de 200$000 não eram considerados votantes pela legislação eleitoral do Império. Sobre estes onze indivíduos que foram qualificados com as maiores rendas, pudemos localizar algumas informações importantes sobre eles. A maioria (5) eram negociantes, seguidos por religiosos – dois sacerdotes e um pároco –, além de dois lavradores e um proprietário. Sobre os domicílios dos citados, 54% foram listados como moradores do primeiro quarteirão da vila, indicando a, já comentada, concentração de renda nesta região. A instrução era outra marca deste grupo; todos eles foram qualificados como sabendo ler e escrever, fato que ganha destaque diante das altas taxas de analfabetismo, mesmo entre elites, no Brasil Império. Além disso, o papel de credor também parecia ser um elemento comum a este grupo. Como destacamos anteriormente, os dados acerca dos negociantes sãojoseenses indicam que estes indivíduos alcançaram uma posição proeminente na cena local através da “pilhagem” dos pequenos lavradores (Ver Gráficos 1 e 2). Contudo, esta não parecia ser uma exclusividade daqueles que se reconheciam socialmente como voltados ao comércio. Dos possuidores das maiores rendas de São José, destacamos a figura de um dos sacerdotes locais, o padre Joaquim José Ferreira Bello. Apesar de não ser identificado socialmente com o comércio, este padre era um grande credor local. Ao analisarmos os inventários post mortem de São José, localizamos o inventário de Bello datado de 1885. Boa parte dos seus bens inventariados eram constituídos por dívidas ativas. Assim, o caso deste padre nos leva a crer que o fornecimento de crédito como forma de reprodução da riqueza não era uma exclusividade dos negociantes, mas, antes, era uma prática comum aos endinheirados de São José dos Pinhais. Imaginando que a apropriação de algumas posições políticas fosse utilizada por estes potentados para manter e/ou ampliar seu poder de mando, procuramos seus nomes nas Atas da Câmara Municipal de São José dos Pinhais de 1875-1882. Porém ao cruzar as informações obtidas da lista de qualificação de 1878 com as citadas Atas, localizamos apenas os nomes de três indivíduos: João Baptista Ferreira Bello (sacerdote), Pedro Antonio da Rocha (Lavrador) e o Capitão Francisco de Paula Prestes Branco (Negociante). Afora estes nomes, identificamos, ainda, Marcelino José Nogueira, também negociante, que aparece como primeiro Juiz de Paz nos anos de 1885-1886. 29 Destarte, vislumbramos uma certa desvinculação entre as maiores rendas de São José e a elite política local. Assim, através de cruzamento das fontes disponíveis, verificamos que a média da renda presumida dos vereadores circulava em torno de 378 mil réis, uma cifra quase duas vezes superior a média encontrada para todos os rendimentos encontrados na lista de 1878, a saber, 175 mil réis. Contudo, esta superioridade da renda dos vereadores são-joseenses diminui consideravelmente quando levamos em conta apenas a renda média dos indivíduos qualificados como votantes: 248 mil réis Neste ponto, nos deparamos com uma situação inusitada. Sabe-se que apenas os indivíduos, cuja renda anual fosse superior a 400$000, poderiam ser eleitos para a Câmara Municipal38. Todavia, conforme os dados da lista de qualificação utilizada neste trabalho, 41% de todos os vereadores encontrados foram qualificados com rendas inferiores aos 400$000 (7) ou, mesmo, com a observação “não tem a renda” (6). Dos camaristas que não apresentaram a renda mínima prevista em lei, sublinha-se o nome do Capitão João Ernesto Killian, negociante de 48 anos, morador do primeiro quarteirão da Vila, e, segundo a lista de votantes de 1878, mesmo possuindo uma renda anual de 300$000 foi qualificado como “elegível”. Assim, com base nas Atas da Câmara Municipal de 1875 a 1882, pudemos localizar o Capitão como camarista nos anos de 1876 a 1881, chegando, mesmo, a presidir a casa em diversas ocasiões, sobretudo nos anos de 1877 e 1878. A existência de uma quantidade considerável de camaristas cuja renda não lhes qualificava como cidadãos elegíveis e, alguns, nem mesmo como simples votantes, sugere que tais indivíduos, aparentemente não pertencentes à elite econômica daquela região, alcançavam o poder político local através de outros meios. Embora não possamos afirmar com certeza o que estes dados representam, os dados obtidos nos permitem levantar algumas questões sobre o fato. Deste modo, podemos presumir, com alguma segurança, que não existia uma imbricação entre as elites política e econômica em São José dos Pinhais. Dentre o grupo de potentados que apresentaram as maiores rendas locais, ou seja, 1:000$000, apenas três destes indivíduos foram eleitos vereadores. Diante deste ponto, nos voltamos novamente para a lista de qualificação de 1878. Nela 38 NUNES, N. F. M. Op. cit. 30 deveria constar o nome do pai ou da mãe do qualificado, deste modo, isolamos os nomes dos pais dos indivíduos que possuíam rendas de 1:000$000. Paralelamente a isto, fizemos o mesmo com os vereadores que conseguimos localizar na lista de qualificação, visando cruzar os nomes dos pais destes indivíduos, para identificar possíveis redes de poder perpetradas através dos laços familiares. Se, através deste exercício, localizássemos vereadores que tivessem o mesmo pai que os potentados locais, poderíamos estar diante de uma hegemonia familiar sobre esta localidade. Entretanto, não foi isso que encontramos. Conforme QUADRO 1, encontramos apenas três coincidências entre os nomes dos pais, contudo, não tratava-se de irmãos e sim dos mesmos indivíduos. Em suma, os indivíduos mais ricos deste termo não integravam a elite política da região, nem pessoalmente, nem tampouco através de laços familiares. Enfim, a existência de camaristas sem a renda mínima exigida sugere que existia, em São José dos Pinhais, um franco descumprimento da legislação imperial. Todavia, saber se este aparente desinteresse dos mais ricos em relação à Câmara Municipal estava relacionado às querelas entre grupos adversários em disputa pela hegemonia local ou crasso desconhecimento das leis vigentes, ou, mesmo, fruto de uma possível desvalorização da moeda neste período, são questões muito mais complexas que necessitam de uma análise mais aprofundada. TABELA 7 – VEREADORES SEGUNDO A RENDA E PROFISSÃO (SÃO JOSÉ DOS PINHAIS, 1875-1886). Vereadores (1875-1886) Renda* Profissão João Baptista Ferreira Belo 1000 Sacerdote Candido da Silva Pinto 500 Negociante Jose Alves Pires 500 Lavrador Francisco Xavier Matozo 500 Lavrador Francisco Pires Baptista 400 Lavrador Pedro Antonio da Rocha 1000 Lavrador João Cordeiro Netto 500 Negociante Capitão João Ernesto Killian 300 Negociante Norberto Alves de Britto 100 Negociante Manoel Antonio Barbosa 100 Lavrador Pedro Antonio de Carvalho 200 Negociante Francisco Simões de Oliveira 100 Lavrador João de Bastos Coimbra 200 Lavrador Serafim Fernandes Bueno 300 Lavrador Felisberto Vicente dos Santos 100 Lavrador Tenente José Joaquim dos Passos Oliveira 500 Negociante Salvador Raphael de Oliveira Mello - 31 Francisco de Paula Ribas 100 Empregado Publico Thomaz Ayres da Rocha 100 Lavrador João da Rocha Loures 200 Lavrador Capitão Francisco de Paula Prestes Branco 1000 Negociante Manoel Ferreira de Mello 400 Negociante João Alves Pires 200 Lavrador Veríssimo de Souza Marques 400 Lavrador Antonio Ribeiro da Silva 400 Lavrador Sirino[?] Pereira de Souza Thomas Umbelino Teixeira 400 Lavrador Manoel Alves Massaneiro 400 Negociante Pedro Pereira do Vale 200 Lavrador Thobias Pereira da Cruz 500 Negociante Manoel Pereira da Cruz 200 Lavrador Manoel Martins da Cruz 400 Lavrador Manoel de Oliveira Mendes 500 Negociante Manoel Machado Ferreira 400 Lavrador FONTE: Lista de qualificação de votantes de São José dos Pinhais, 1878. DEAP; Atas da Câmara Municipal de São José dos Pinhais, 1875-1886. Museu Municipal Atílio Rocco. * Renda expressa em milhares de réis. Além dos baixos rendimentos, muitos dos vereadores são-joseenses que conseguimos localizar nas fragmentárias Atas da Câmara Municipal foram listados como negociantes na lista de 1878. Apesar de sua representatividade numérica dentre os indivíduos recenseados na citada lista fosse de menos de 3% (ver TABELA 4), os negociantes representavam notáveis 32,6% de todos os camaristas que pudemos identificar a profissão. Este espaço ocupado por negociantes na Câmara de São José dos Pinhais corrobora com as informações que apresentamos sobre a estrutura social existente em São José dos Pinhais em meados do século XIX, onde estes negociantes, por desviarem seus recursos para o fornecimento de crédito aos pequenos camponeses, conseguiram subordinar estes últimos, bem como salvaguardar seu status quo, apesar do empobrecimento geral da vila neste período. TABELA 8 – VEREADORES SEGUNDO A RENDA E PROFISSÃO (SÃO JOSÉ DOS PINHAIS, 1875-1882). Vereadores (1875-1882) Profissão Nº absoluto % Sacerdote 1 3,1 Empregado Público 1 3,1 Negociante 11 34,4 32 Lavrador 19 59,4 QUADRO 1 – NOMES DOS PAIS DOS VOTANTES COM OS MAIORES RENDIMENTOS (1878) E NOME DOS PAIS DOS VEREADORES ELEITOS ENTRE (1875-1882) Pais dos donos dos maiores rendimentos Pais dos vereadores Bernardo Ferreira da Cruz Antonio Alves Pires Francisco da Silva Abreu Antonio Alves Santos Isabel Simões Antonio João de Carvalho Joaquim José Ferreira Bello Antonio Joaquim Barbosa Leal José Joaquim dos Santos Apolynario Fernando Bueno Ludovina Nogueira Bernardo Martins da Cruz Manoel Alves Pereira Fermiana da Luz Manoel José Correa de Bittencourt Fortunato Pereira da Cruz Manoel Mendes Leitão Francisco da Rocha Loures Maria Joaquina de Bastos Francisco das Chagas Brito Modesto Gonçalves Cordeiro Francisco Manoel Teixeira Guilhermina Gaspar João da Silva de Abreu João de Bastos Coimbra João Manoel de Oliveira Joaquim Antonio da Cruz Joaquim Fernandes Machado Joaquim Ferreira de Melo Joaquim José Ferreira Bello José da Silveira Ribas José Joaquim dos Santos José Portes José Ricardo da Silva José Vicente dos Santos Manoel Antonio Pires Manoel João de Souza Maria Joaquina de Bastos Pedro Pereira do Valle Silvestre Cordeiro Mathozo * Os nomes em negrito indicam os pais (e mãe) que foram encontrados tanto na cãmara quanto entre os potentados locais. 33 4. A POSSE DE ESCRAVOS: POSSIBILIDADES DE ACUMULAÇÃO E REPRODUÇÃO DAS RIQUEZAS EM SÃO JOSÉ DOS PINHAIS A lei nº 2.040 de 28 de setembro de 1871 (a Lei Rio Branco ou Lei do Ventre-livre) que declarava “de condição livre os filhos de mulher escrava que nascerem desde a data da lei”, previa em seu Artigo 3 que “serão anualmente libertados em cada Província do Império tantos escravos quantos corresponderem à quota anualmente disponível do fundo destinado para a emancipação”, o qual seria criado por meio de impostos sobre os escravos, loterias nacionais, multas e contribuições.39 Além disso, como nos informa Conrad, no Artigo 8 da citada lei, ordenava-se a elaboração de um registro nacional de todos os escravos e ingênuos do Império, visando classificar e escolher os escravos para libertação, que seria financiada pelo fundo. A indenização que o governo se propunha a pagar pela emancipação das crianças beneficiadas pela Lei Rio Branco parecia injusta na opinião de muitos proprietários, que teriam que manter o ingênuo até os oito anos de idade, pelo menos. Apesar de possuírem a opção de utilizar o trabalho destas crianças até que completassem 21 anos de idade, os proprietários, sobretudo das regiões ligadas à produção do café, mais dependentes da mão-de-obra cativa, achavam pouco sedutoras todas as vantagens oferecidas pelo governo. E seus motivos eram compreensíveis, uma vez que mesmo a indenização de 600 mil réis em títulos de trinta anos a juros de 6% que o governo pagaria pela liberdade dos cativos, segundo dados fornecidos por Conrad, representava uma quantia irrisória que “o escravo poderia ganhar para seu senhor em apenas dois ou três anos de trabalho”40. Deste modo, a lentidão do registro e da classificação foram notáveis, retardando, assim, a utilização do fundo de emancipação para libertar os escravos. Ora, apenas em 1876, cinco anos após a aprovação da lei, que os primeiros escravos puderam ser libertados pelo fundo de emancipação. Além da falta de vontade dos senhores em colaborar com a aplicação da citada lei, um dos principais motivos apresentados para tamanha demora era a “relutância dos funcionários do 39 CONRAD, R. Os últimos anos da escravatura no Brasil: 1850-1888; tradução de Fernando de Castro Ferro. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1978. Apêndice II. 40 Ibid. p.121. 34 governo em aceitarem um acréscimo de trabalho sem um acréscimo de remuneração”.41 Tal imobilidade da burocracia imperial remete-nos para a questão destacada por Graham, de que o governo central era incapaz de alcançar a população, sobretudo nas regiões mais distantes. Desta forma, São José dos Pinhais parece ter enfrentado os mesmos problemas que as mais diversas localidades do Império, visto que a lista de classificação de escravos desta vila fora concluída apenas em 1876. Posto isto, utilizamos em nossa pesquisa as informações obtidas da citada lista de classificação de escravos a serem libertados pelo fundo de emancipação, ambicionando compreender melhor os mecanismos de concentração e reprodução das parcas riquezas deste município. Conforme assinala Fragoso, 1850 surge como uma “data mágica de mudanças para a historiografia – a lei de terras, o código comercial e a abolição do tráfico internacional de escravos”.42 Destarte, nota-se que São José presenciou neste período uma alteração na sua própria estrutura da posse de escravos. Já nos primeiros anos do século XIX, a historiografia assinala um processo de esvaziamento das escravarias de São José dos Pinhais. Segundo Cacilda Machado43, dentre os domicílios são-joseenses que possuíam escravos em 1803, 66% deles possuíam quatro cativos ou menos. Este índice chega a 75% em 1827. Ainda segundo dados da autora, em 1803, dos domicílios que detinham a posse de algum escravo, apenas 6% possuíam mais de 10 cativos. Para o ano de 1827, de um universo de 96 domicílios escravistas, em apenas um foram arrolados mais de 10 cativos. Como sugerem os dados apresentados, as mudanças ocorridas em meados do século XIX teriam favorecido o desvio destes cativos para o tráfico interno, na direção dos grandes cafezais. Segundo dados fornecidos por Robert Conrad, em 1874, mais de metade de todos os escravos do Brasil estavam localizados nas regiões produtoras de café.44 Desta forma, na outra ponta do tráfico interno, segundo dados do mesmo autor, a Província do Paraná – que nunca concentrou grandes 41 Ibid. p. 138. 42 FRAGOSO, J. Para que serve a história econômica? notas sobre a história da exclusão social no Brasil. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, n. 29, 2002. 43 CONRAD, R. Op. Cit. p. 72. 44 Idem. 35 quantidades de escravos –, perdeu, entre os anos de 1864 e 1874, cerca de 50% de seus poucos cativos. > = 60 55 a 59 50 a 54 45 a 49 40 a 44 35 a 39 30 a 34 25 a 29 20 a 24 15 a 19 10 a 14 -60 -40 -20 0 M 20 40 60 F GRÁFICO 4 – DISTRIBUIÇÃO POR SEXO E IDADE DOS ESCRAVOS COM 10 ANOS OU MAIS (SÃO JOSÉ DOS PINHAIS, 1876). FONTE: Lista de classificação de escravos de São José dos Pinhais, 1876. DEAP. Embora os proprietários de São José possivelmente também estivessem agindo como fornecedores de mão-de-obra escrava, esta prática parece ter ocorrido em momento anterior à data da fonte utilizada (1876), visto que não encontramos um grande predomínio de escravos do sexo feminino dentre a população cativa de São José dos Pinhais, como era característico das regiões que forneceram braços para o tráfico interno de escravos, sobretudo após a década de 1870. Neste sentido, ainda segundo Conrad, eram os homens jovens e os mais fortes que tinham uma procura maior no trafico interprovincial, sendo, portanto, “numerosos nos carregamentos”.45 Contudo, como já foi indicado, a quantidade de escravos de ambos os sexos, em São José dos Pinhais, era bastante semelhante. Em algumas faixas etárias encontramos, mesmo, uma razão e 1/1 entre homens e mulheres cativos (ver TABELA 10 e GRÁFICO 4). 45 Idem. 36 TABELA 9 – RAZÃO DA MASCULINIDADE DOS ESCRAVOS COM 10 ANOS OU MAIS (SÃO JOSÉ DOS PINHAIS, 1876) Faixas etárias A) Sexo masculino B) Sexo feminino A X 100 / B <=9 74 61 123, 3 10 a 14 52 47 110,6 15 a 19 37 34 108,8 20 a 24 28 31 90,3 25 a 29 23 22 100,0 30 a 34 20 21 95,2 35 a 39 22 21 104,8 40 a 44 14 18 77,8 45 a 49 19 13 146,2 50 a 54 15 15 100,0 55 a 59 5 8 62,5 > = 60 2 5 40,0 Total 311 296 100,4 FONTE: Lista de Classificação de escravos de São José dos Pinhais, 1876. DEAP. Sobre a participação de crianças na população cativa, São José dos Pinhais apresentou percentuais bastante elevados (38,5%). Esta considerável proporção de cativos com 14 anos de idade ou menos assemelha-se muito com os números encontrados para Castro, por exemplo: 38%.46 Neste sentido, recorremos às idéias de Machado, que enfatiza a importância da reprodução endógena do plantel em um ambiente de recursos tão escassos, como São José dos Pinhais do início do século XIX. Segundo a autora, para os indivíduos que contavam com poucos recursos para adquirir escravos no mercado, “a reprodução endógena do plantel era crucial”.47 Deste modo, os altos percentuais de crianças entre os cativos deste termo parecem corroborar com a afirmação da autora, visto que estes índices apontam para um grande crescimento demográfico dentre a população escrava. Tal aspecto adquire maior relevância para a compreensão da sociedade local, sobretudo pelo fato de que estes números remetem a um período posterior à Lei do Ventre Livre de 1871. Além disso, ao nos debruçarmos sobre a lista de classificação de 1876, vislumbramos que a média de cativos entre os proprietários de São José era de aproximadamente 2,3 indivíduos, valor muito próximo ao de outras áreas ligadas ao 46 MARCONDES, R. L. Desigualdades Regionais brasileiras: comércio marítimo e posse de cativos na década de 1870. Tese de Livre-docência. Ribeirão Preto: Universidade de São Paulo, 2005. 47 MACHADO, C. Op. cit. p.169-170. 37 comércio da erva-mate, tais como Curitiba48 que, segundo dados apresentados por Marcondes neste mesmo período, possuía uma posse média de 2,5 – a menor das médias paranaenses encontradas pelo citado autor. TABELA 10 – DISTRIBUIÇÃO DOS ESCRAVOS DE ACORDO COM A FAIXA DE TAMANHO DA ESCRAVARI (SÃO JOSÉ DOS PINHAIS, 1876). Paraná São José dos Pinhais Nº de Escravos Nº % Nº % 1 1.082 13,6 106 17,6 2a4 2.496 31,4 300 49,4 5a9 2.343 29,5 145 23,8 10 a 19 1.302 16,4 56 9,2 20 a 39 547 6,9 40 ou + 170 2,2 Total 2.514 100% 607 100% FONTES: MARCONDES, R. L. Desigualdades Regionais brasileiras: comércio marítimo e posse de cativos na década de 1870. Tese de Livre-docência. Ribeirão Preto: Universidade de São Paulo: 2005. p.105; Lista de Classificação de escravos de São José dos Pinhais, 1878. DEAP. TABELA 11 – DISTRIBUIÇÃO DOS PROPRIETÁRIOS DE ESCRAVOS DE ACORDO COM A FAIXA DE TAMANHO DA ESCRAVARIA (SÃO JOSÉ DOS PINHAIS, 1876). Paraná São José dos Pinhais Nº de Escravos Nº % Nº % 1 1.082 43,1 107 41,5 2a4 935 37,2 123 47,7 5a9 367 14,6 23 8,9 10 a 19 104 4,1 5 1,9 20 a 39 23 0,9 40 ou + 3 0,1 Total 2.514 100% 258 100% FONTES: MARCONDES, R. L. Op. cit. p.105; Lista de Classificação de escravos de São José dos Pinhais, 1878. DEAP. Acerca das diminutas escravarias são-joseenses, destacamos, ainda, que uma parcela bastante significativa dos proprietários (cerca de 89,2%) possuía 4 cativos ou menos. No entanto, estes proprietários respondiam por 67% de todos os cativos de São José dos Pinhais. Conforme os dados apresentados, a estrutura de posse dos cativos de São José dos Pinhais estava muito próxima da situação das escravarias da Província 48 Os dados apresentados por Marcondes referentes a Curitiba, abarcam a capital, São José dos Pinhais, Campo Largo, Iguaçu, Arraial Queimado e Votuverava. MARCONDES, R. L. Op. cit. p. 101. 38 como um todo. A vila de São José destoava um pouco da realidade provincial apenas quando olhamos para os grandes plantéis. A maior escravaria encontrada para esta vila, na lista de classificação, possuía 13 indivíduos e pertencia ao cidadão Francisco da Silva Castro49, morador do primeiro quarteirão de Piraquara, enquanto que no âmbito provincial, segundo informa Marcondes, existiam alguns poucos proprietários (3) de escravarias com mais de 40 seres humanos. Além de possuir esta quantidade de escravos, elevada para os parâmetros locais, o potentado Francisco da Silva Castro se destacava, também, pelo fato de não integrar o grupo de camaristas da vila, ao menos no período analisado neste trabalho. Destarte, tomando a posse de escravos como um indicativo de poder e riqueza, nos deparamos com uma possível desvinculação entre o poder econômico e o poder político neste termo, já mencionada neste trabalho. Dos 34 vereadores encontrados entre os anos de 1875 e 1882 nas Atas da Câmara Municipal, apenas 16 (47%) foram citados como proprietários de escravos na lista de classificação de 1876. Aliás, mesmo entre estes poucos proprietários presentes na Câmara, 4 deles possuíam apenas um cativo. Tais dados sugerem que a Câmara Municipal de São José dos Pinhais não era dominada por senhores de escravos, o que pode ser tomado como indício de que, conforme assinalou Machado, no início do século XIX os escravistas (homens e mulheres de maior poder econômico e político no interior do vilarejo) passavam a se interessar mais por esta mão-de-obra 50 [agregados], devido à dificuldade em adquirir cativos. A elite de São José dos Pinhais, conforme demonstramos, ao se deparar com a inviabilidade de adquirir novos cativos, parece ter despendido grandes energias na busca por novas formas de obtenção de mão-de-obra; de onde a figura do agregado torna-se significativa. Todavia, a formação de redes de dependência através do controle dos mais pobres fornecia outro problema para os potentados locais, a saber, da instabilidade geográfica destes indivíduos depauperados que teriam a sua disposição uma vasta extensão de terras desocupadas para sua fixação. Desta maneira, acreditamos que a grande redução na disponibilidade de cativos – sobretudo após 1850 –, tenha levado a elite econômica desta localidade, 49 Francisco da Silva Castro possuía uma renda de 1:000$000, além disso, ele foi o único indivíduo cuja profissão fora informada como “proprietário” na lista de qualificação de votantes de 1878. 50 MACHADO, C. Op. cit. p. 83. 39 em boa parte, constituída por negociantes, a utilizarem a usura como um método mais eficaz de manter esta população pobre – formada, sobretudo, por pequenos lavradores – sob seu controle. 40 CONSIDERAÇÕES FINAIS Esta monografia, derivada das inquietações pessoais do autor, ambicionou esclarecer alguns pontos acerca da história de São José dos Pinhais. A historiografia regional tem se dedicado pouco sobre esta região, o que explica a escassa produção especializada sobre o tema. Posto isto, esperamos que os dados apresentados, auferidos de diferentes documentos, tenham contribuído para uma melhor compreensão da realidade vivenciada pelas pessoas residentes nesta vila paranaense em meados do oitocentos. São José era uma vila notadamente pobre e agrária, dominada por alguns poucos negociantes. Carlos Lima afirmou que a situação do Paraná ao longo dos séculos XVIII e XIX era “a de gente que conseguia ter acesso autônomo à terra, mas a troco de forte pressão para se ver excluída do acesso a outros fatores, para endividar-se e para obedecer”51. Conforme os dados apresentados, São José dos Pinhais se encaixava nessa descrição. A grande massa de lavradores encontrada nesta vila aponta para uma relativa facilidade para o estabelecimento autônomo de pessoas livres e, mormente, pobres. Contudo, como demonstramos, esta grande quantidade de lavradores obedecia a um diminuto grupo de negociantes residentes nesta região. Deste modo, ao passarmos pelos quarteirões de São José nos anos do Império do Brasil, notamos que apesar de se tratar de uma sociedade notadamente agrária e dependente da produção das lavouras, o poder (ao menos o econômico) estava concentrado nas mãos dos negociantes. Praticamente metade dos indivíduos que possuíam as maiores rendas nesta vila (1:000$000) eram negociantes. Qual o segredo deste grupo? Difícil afirmar, contudo, nossas fontes sugerem que as relações perpetradas entre negociantes e lavradores rendiam bons lucros aos primeiros. Compondo a outra metade do grupo de endinheirados, os que não foram qualificados como negociantes na lista de votantes 1878, estavam o pároco, dois sacerdotes, um proprietário e, mesmo, dois lavradores. Apesar das ocupações diversas, estes indivíduos tinham outras coisas em comum, além da riqueza. 51 CARLOS, A. M. L. A distância na carne: mundo agrário, escravidão e fronteira nos Campos de Curitiba (séculos XVIII e XIX) 41 Conforme os dados apresentados, apesar do contexto de notável decadência de todas as estratificações daquela sociedade, a elite de São José dos Pinhais – inclusive aqueles que não estavam diretamente ligados à atividade comercial –, se sustentava através do direcionamento de sua parca riqueza para a formação de dívidas ativas. O exemplo do padre Joaquim José Ferreira Bello, é emblemático neste sentido. Apesar de não ser identificado socialmente com o comércio, este padre era um grande credor local. (ver capítulo 3). Conforme indicou Mariana de Aguiar Ferreira Muaze, as elites locais se dedicavam com grande afinco em investimentos em bens de prestígio – herança do Antigo Regime –, os quais se justificavam, segundo ela, pelas intenções de consolidar o pertencimento ao grupo dirigente da sociedade e, também, pela própria necessidade de reproduzir a ordem social e econômica vigente no Império.52 Todavia, após o cruzamento entre as Atas da Câmara e a lista de 1878, vislumbramos que não havia, ao menos aparentemente, uma imbricação entre as elites econômica e política neste município. Nesse sentido, a análise sobre a estrutura de posse de cativos corrobora com esta afirmação. Dos 34 vereadores encontrados entre os anos de 1875 e 1882 nas Atas da Câmara Municipal, apenas 16 (47%) foram citados como proprietários de escravos na lista de classificação de 1876. Aliás, mesmo entre estes poucos proprietários presentes na Câmara, 4 deles possuíam apenas um cativo. Além disso, no que tange a posse de escravos, demonstramos que São José dos Pinhais estava muito próxima da realidade paranaense, sobretudo nos números referentes às pequenas escravarias. Enfim, muito do que foi exposto nesta monografia não fornece muitas respostas, contudo, nos indica caminhos para trilhar nos estudos referentes à história dessa região que originou o atual Estado do Paraná, bem como esclarece um pouco sobre a obscura história de São José dos Pinhais. Esta monografia buscou, portanto, efetuar um estudo de caso que auxilie os estudos sobre o período conhecido como Brasil império e, conseqüentemente, lançar alguma luz sobre parca produção histórica dedicada à São José dos Pinhais, sobretudo nos anos compreendidos entre a emancipação política deste termo e a MUAZE, M. de A. F. O Império do Retrato: família, riqueza e representação social no Brasil oitocentista (1840-1889). 402 f. Tese (Doutorado em História) – Instituto de Ciências Humanas e Filosofia, Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2006. 52 42 chegada dos primeiros imigrantes europeus. Destarte, esperamos ter alcançado, mesmo que minimamente, os objetivos propostos. 43 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS COLNAGHI, M. C.; MAGALHÃES FILHO, F. B. B.; MAGALHÃES, M. D. B.. São José dos Pinhais: a trajetória de uma cidade. Curitiba: Editora Prephacio, 1992. BORGES, L. A. G. Família e trabalho escravo: Sociedade e Poder em São José dos Pinhais no século XIX. Artigo apresentado no 3º encontro “Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional”. Florianópolis-SC. BOTELHO, T. R.. Estratégias matrimoniais entre a população livre de Minas Gerais: Catas Altas do Mato Dentro, 1815-1850. Trabalho apresentado no XIV Encontro Nacional de Estudos Populacionais, ABEP, realizado em Caxambu - MG – Brasil, de 20-24 de Setembro de 2004. BURKE, P. Veneza e Amsterdã: um estudo das elites do século XVII. 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