II Simposio sobre Comunicación de la Ciencia y la Tecnología en Latinoamérica Que aprendizagem é essa que ocorre em museus de ciências? Reflexões a partir da produção acadêmica Daniel Fernando Bovolenta Ovigli Departamento de Educação em Ciências, Matemática e Tecnologias (DECMT), Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM), Brasil. [email protected] RESUMO: Ainda que a literatura sobre educação em museus de ciências no Brasil tenha se ampliado significativamente na última década, muitas questões ainda estão colocadas sobre a aprendizagem nesses espaços, entre elas a relação sujeito-exposição. A partir dessas considerações buscou-se compreender que aprendizagem é retratada nas pesquisas desenvolvidas no contexto brasileiro. Trata-se de uma investigação de natureza bibliográfica que compreendeu, fundamentalmente, duas etapas: (i) levantamento e caracterização, principalmente quantitativa, de dissertações e teses defendidas por pesquisadores brasileiros; (ii) desenvolvimento da análise dos documentos. Ao todo, 34 textos integraram o corpus de análise, sendo 28 dissertações e 06 teses, que encontram suporte teórico nas Inteligências Múltiplas, Behaviorismo, Cognitivismo, Construtivismo (incluindo a abordagem sociocultural de Vigotski) e Aprendizagem por Descoberta. Tal variedade se reflete na diversidade de estratégias utilizadas para coleta de dados nas pesquisas, havendo a utilização de questionários, entrevistas (antes e após a visita), lembrança estimulada e observações realizadas pelo pesquisador. O referencial sociocultural, no entanto, figura em maior número nas investigações, considerando-se o foco conferido pela área de educação aos aspectos sociais do processo de aprendizagem. Destaque-se que apenas um trabalho analisa o impacto das emoções e sensações na aprendizagem desenvolvida em museus de ciências. PALAVRAS-CHAVE: aprendizagem, museu de ciências, educação em ciências. ____________________________________________________________________________________________ II Simposio sobre Comunicación de la Ciencia y la Tecnología en Latinoamérica 1. Introdução e (breve) Contexto Nas décadas iniciais do século XX ocorreu grande crescimento da pesquisa científica, havendo especialização de suas diferentes disciplinas, o que ocasionou sua estruturação em universidades e institutos de pesquisa. Consolidou-se, então, a proposta de utilização das coleções dos museus de ciências como recurso didático. Ao aproximar-se da escola organizando visitas monitoradas e diferentes materiais e programas educativos, o museu de ciências torna-se palco para o desenvolvimento de pesquisas e práticas. Ainda que a literatura sobre essa temática no Brasil tenha se ampliado significativamente na última década, muitas questões ainda estão colocadas sobre a aprendizagem nesses espaços. A esse respeito e, tendo em vista compreender a gênese do conceito de educação não formal no contexto brasileiro, é importante compreender sua construção, que toma corpo no discurso internacional em políticas educacionais no final da década de 1960. Tais políticas focalizavam as necessidades de grupos sociais em desvantagem, tendo propósitos definidos, mas flexibilidade na organização e métodos. Já o sistema de educação formal, principalmente dos países em desenvolvimento, apresentava lenta adaptação às mudanças socioeconômicas em curso, exigindo que diferentes setores da sociedade se articulassem para enfrentar as novas demandas sociais. Marco desse movimento é o documento da UNESCO, produzido em 1972 e intitulado “Learning to be – The Faure Report”, que firmou metas quanto à “educação ao longo da vida” (lifelong education) e à “sociedade de aprendizagem” (learning society). Nesse sentido, Eler (2008) considera que os museus de ciências desempenham um papel de destaque como fóruns de educação não formal em ciência e sensibilização da população para as questões científicas. Segundo a autora, estes espaços caracterizam-se por propiciar um ambiente no qual a aprendizagem pode ocorrer de forma lúdica e interativa, formando e ampliando conceitos científicos. Bizerra (2009), em sua tese, afirma que a pesquisa em educação em museus de ciências tem crescido de forma intensa nos últimos anos, apresentando diversidade de abordagens teóricas e metodológicas, bem como de objetos de estudo e de resultados. Ao mapear algumas das temáticas tratadas em tais estudos, a autora lista “a função educativa do museu, a relação sujeitoobjeto, a mediação, a profissionalização do setor de interpretação, a construção do discurso pedagógico a partir do acervo, as relações museu-escola” (p. 33). Por vezes imbricada nessas múltiplas possibilidades de abordagem temática, a aprendizagem emerge como um dos principais ____________________________________________________________________________________________ II Simposio sobre Comunicación de la Ciencia y la Tecnología en Latinoamérica focos da pesquisa educacional desenvolvida nesses espaços, configurando-se relevante componente de sua ação educacional. Frente à estruturação dessa subárea de pesquisa e à produção acadêmica voltada à educação em ciências no Brasil, que se estende por mais de quatro décadas, é possível delinear algumas questões gerais: • Quais os principais modelos teóricos (importados ou construídos na área) que dão suporte a essas pesquisas? • Quais os principais elementos abordados nas investigações sobre aprendizagem em museus? • Quais as novas possibilidades de pesquisa sugeridas? A partir desses estudos sobre aprendizagem em museus emergiu a necessidade de pesquisas que enfocassem também os aspectos sociais desse processo. Dessa forma “(...) o referencial sociocultural passou a ser bastante utilizado em uma série de estudos desenvolvidos por e nos museus, alargando o número de ferramentas de coleta de dados” (BIZERRA, 2009, p. 47). A respeito do referencial sociocultural, afirma Nascimento (2010, p. 2013): Considerar uma exposição na perspectiva de uma prática educativa supõe uma reflexão a respeito dos processos de aquisição de conhecimento. Representa ter, por hipótese, que uma aprendizagem é possível através da contemplação, da manipulação e do prazer. Para o sociointeracionismo a construção e a aquisição do conhecimento – e da própria subjetividade – acontece a partir de matrizes sociais, mediadas pela cultura e pela linguagem. Ou seja, a construção do conhecimento não é algo que se processa diretamente entre o sujeito e o objeto a ser conhecido. Entre o sujeito e o objeto existe a ação mediada da linguagem que exerce o papel de ferramentas psicológicas de apropriação da ação humana e permite o acesso ao mundo físico e social. Na medida em que o homem torna-se capaz de fazer uso de ferramentas psicológicas, ele muda radicalmente sua condição de existência humana pela maior capacidade de inovação cultural. No entanto, para que essa mudança ocorra, a ação-mediada do sujeito sobre os objetos necessita ser interiorizada. Esse pressuposto parte da premissa sociocultural de que internalização é um processo constitutivo da transformação dos fenômenos sociais em fenômenos psicológicos, ou seja, antes de uma função psicológica ser interna, esta já foi externa. A partir dessas considerações buscou-se compreender que aprendizagem em museus de ciências é retratada em pesquisas desenvolvidas por pesquisadores brasileiros. ____________________________________________________________________________________________ II Simposio sobre Comunicación de la Ciencia y la Tecnología en Latinoamérica 2. Caminho metodológico Nesta etapa, quando da identificação de que a maior parte dos artigos tratavam de investigações as quais viriam a se constituir em dissertações ou teses, após concluídas algumas de suas fases, passou-se a se restringir tão somente a estudos desse tipo. Ademais, o fato de as dissertações e teses serem frutos de pesquisas sistemáticas e elaboradas que contam com a aprovação de outros pesquisadores durante a defesa pode demonstrar um elevado grau de consistência e relevância para as mesmas (MEGID NETO, 1990; SLONGO, 2004). Assume-se que as dissertações e teses defendidas no Brasil, ou ainda desenvolvidas por pesquisadores brasileiros em instituições estrangeiras, podem fornecer um panorama relativamente fidedigno do conjunto das pesquisas desenvolvidas na área de educação em museus de ciências no período de 1970 a 2010. A presente pesquisa caracteriza-se, portanto, como documental, do tipo históricobibliográfica (FIORENTINI e LORENZATO, 2006). Segundo tais autores essa modalidade “(...) se faz preferencialmente sobre documentação escrita” (p. 102), sendo a coleta de informações realizada a partir do fichamento de leituras. Romanowski (2002) afirma que a realização de um estudo do tipo estado da arte inclui duas fases principais, que contemplam as seguintes etapas: (i) 1ª Fase – levantamento e caracterização, principalmente quantitativa e (ii) 2ª Fase desenvolvimento da análise dos documentos rumo ao aprofundamento sobre o conhecimento levantado. 3. Resultados e Discussão: as pesquisas sobre aprendizagem em museus de ciências A seguir são apresentadas informações sobre os trabalhos inseridos nesta categoria, composta por 34 documentos, sendo 28 dissertações (Tabela 1) e 06 teses (Tabela 2). Além do nome do autor, inclui o ano de defesa do trabalho, o programa de pós-graduação (PPG) no qual foi desenvolvido e a respectiva instituição, além do título. Tabela 1. Mestrados N 1 2 Autor(a) FASOLO, Plínio SARTORI, Ademilde Silveira Ano PPG/Instituição 1987 Educação/PUCRS 1993 Educação/UFSC Título do trabalho Educação científica: metodologias alternativas para o ensino de Ciências O desejo de saber fazer a arte de aprender ensinar fazendo ____________________________________________________________________________________________ II Simposio sobre Comunicación de la Ciencia y la Tecnología en Latinoamérica QUINHÕES, 3 Maura Esândola 1996 Tavares 4 5 6 7 8 MERGULHÃO, Maria Cornélia GUIMARÃES, Eliana Maria Alves SILVA, Douglas Falcão CARDOSO, Julio César SENICIATO, Tatiana. Memória Social e Documento/Unirio Zoológico: uma sala de aula viva 1999 Geociências/Unicamp 2001 2002 GRUZMAN, Carla 2003 Trabalhos de campo em bacias hidrográficas: os caminhos de uma experiência em educação ambiental Química Padrões de Interação e Aprendizagem em Museus de Biológica/UFRJ Ciências Ciência da Informação/UFRJ Educação para as atividades de ensino de Ciências Educacional da divulgação científica em museus de ciência e a Ecossistemas terrestres naturais como ambientes para Ciência/Unesp Ciências Informação, ciência e cotidiano: um estudo sobre a tecnologia Tecnologia 9 infanto-juvenil ecológica no Jardim Botânico do Rio de Janeiro 1998 Educação/USP 1999 Reinventando o verde: proposta de uma biblioteca nas Saúde/ UFRJ Educação e comunicação no museu de ciências: uma proposta de avaliação qualitativa do jogo do labirinto no contexto da exposição Chagas do Brasil ACHUTTI, Márcia 10 Regina do Nascimento 2003 Educação/Univali O zoológico como um ambiente educativo para vivenciar o ensino de Ciências Gonçalves SILVA, Carla 11 Mahomed Gomes Explorando a visão do Parque da Ciência/MV: o 2004 Educação/UFF Falcão 12 MEZZOMO, Juliana. público escolar a respeito da noção de lente O 2004 Psicologia/UFSC RODRIGUEZ, Giselle Fabbro REBOUÇAS, 15 Surama Beatriz Bandeira 16 GARCIA, Viviane de uma exposição cientifica nas representações sociais sobre meio ambiente dos Educação ambiental e fenomenologia: a contribuição 2005 Educação/Uniso Quaranta 14 impacto alunos do ensino médio GONÇALVES, 13 Marcio Luiz impacto de uma atividade sobre o que pensa o da excursão para as percepções de meio ambiente em estudantes de ensino médio 2005 Educação/Umesp Ecologia e 2005 Biomonitoramento/ UFBA 2006 Educação/USP Alfabetização Científica através da experimentação Zoológico como referencial para práticas de Educação Ambiental: um estudo de caso no Parque Zoobotânico Getúlio Vargas O processo de aprendizagem no Zoológico de ____________________________________________________________________________________________ II Simposio sobre Comunicación de la Ciencia y la Tecnología en Latinoamérica Aparecida Rachid Sorocaba: análise da atividade educativa visita orientada a partir dos objetos biológicos MARTINS, 17 Luciana Conrado 18 SOARES, Andreia Alves 19 SÁPIRAS, Agnes 2006 2007 Rodrigues 21 22 SILVA, Carlos Eduardo Lira PORTO, Franco de Salles 23 FRESCHI, Márcio nas visitas escolares ao Museu de Zoologia da USP Ensino em Biociências e Saúde/Fiocruz 2008 2008 2008 formal e a prevenção da esquistossomose: a exposição de malacologia do escolares ao Museu Biológico do Instituto Butantan e Saúde/Fiocruz Do lúdico ao científico: construção e avaliação de módulos experimentais de óptica em museus de ciências e em ambientes escolares Educação em Ciências e Matemáticas/UFPA de não Aprendizagem em museus: uma análise das visitas Ensino de Biociências Ensino Educação Museu Arqueológico de Central, Bahia 2007 Educação/USP PEREIRA, 20 Grazielle A relação museu/escola: teoria e prática educacionais 2006 Educação/USP Idéias sobre a natureza da ciência e suas repercussões na estruturação de uma prática de iniciação científica infantil Ciências O (Física)/UnB Impacto de Exposições Museológicas na Motivação para Aprender Ciências Educação em Ciências e Matemática/PUCRS Estudo da reconstrução do conhecimento dos alunos sobre o ciclo da água por meio de unidade de aprendizagem A contribuição da visita ao Museu da Vida para a 24 ROCHA, Vânia 2008 Ensino em Biociências formação de concepções sobre saúde e ambiente: e Saúde/Fiocruz uma experiência com jovens do projeto ciência e sociedade 25 26 LARA, José Ivan Marques LEITÃO, Ângela Bezerra de Souza 2008 e Matemática/PUCRS Interunidades 2010 Ensino Donizete Ciências/USP BATISTA, 28 Alessandro 2010 Educação/UFF Machado Franco de soluções no Ensino Médio Museus de Ciência: espaços não formais da 2009 Educação/UFPE COLOMBO 27 JÚNIOR, Pedro Educação em Ciências Ambientes interativos e a aprendizagem do conteúdo construção de aprendizagens em de A percepção da gravidade em um espaço fisicamente modificado: uma análise à luz de Gaston Bachelard Credulidade na ciência: a revolta da vacina na visita ao Museu da Vida Fonte: produzido pelo autor ____________________________________________________________________________________________ II Simposio sobre Comunicación de la Ciencia y la Tecnología en Latinoamérica Tabela 2. Doutorados N Autor(a) Ano PPG Título do trabalho Museus 1 GASPAR, Alberto 1993 Educação/USP e conceituação Centros e de proposta Ciências: de um referencial teórico 2 3 AGUIAR, Luiz Edmundo Vargas 1998 Biologia Celular e Molecular/FIOCRUZ VIEIRA, Valéria da Silva 2005 Química Biológica/UFRJ Education and Community 4 SILVA, Douglas Falcão 2006 Studies/University of Reading 5 AROCA, Silvia Calbo 2008 Física/IFSC-USP 6 BIZERRA, Alessandra 2009 Educação/USP A pesquisa e a experimentação como instrumentos de motivação no ensino e aprendizagem de ciências Análise de espaços não-formais e sua contribuição para o ensino de ciências The study of visitors understanding in Science Museums by means of Stimulated Recall Method Ensino de Física Solar em um espaço não formal de educação Atividade de aprendizagem em museus de ciências Fonte: produzido pelo autor Quando se considera a produção global da área de educação em museus de ciências, destaca-se a produção alcançada pela área a partir dos anos 2000, quando aproximadamente 80% dos estudos foram realizados. Esses dados podem ser resultado do aumento da oferta de cursos específicos da área de educação em ciências no país, após a criação da área 46, atual “Ensino”, pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). Ademais, segundo o catálogo da Associação Brasileira de Centros e Museus de Ciências (ABCMC) o Brasil expandiu significativamente o número de espaços de educação científica extra-escolar. Assim, é possível inferir que a produção acadêmica brasileira sobre a aprendizagem em museus de ciências desenvolveu-se também à medida que foram surgindo novos cursos e novas áreas de concentração, e os programas já existentes foram sendo consolidados, ampliando o número de vagas, bem como em razão do aumento do número de museus e centros de ciências no país. Verifica-se, adicionalmente, a própria diversidade de espaços nos quais são desenvolvidos os estudos acima listados. De acordo com a ABCMC, seguindo as diretrizes do Conselho Internacional de Museus (ICOM), trata de forma equivalente os termos “centros de ciências” e “museus de ciências”, utilizando-os indistintamente para qualquer instituição que desenvolva ____________________________________________________________________________________________ II Simposio sobre Comunicación de la Ciencia y la Tecnología en Latinoamérica trabalhos com divulgação científica, pois as fronteiras entre os dois espaços são cada vez menos nítidas. Essa definição, bastante ampla, também inclui zoológicos, jardins botânicos, aquários, planetários e qualquer outro espaço que tenha por objetivo divulgar as ciências da natureza a um público heterogêneo. Sobre a dispersão das produções pelos programas de pós-graduação brasileiros considerase a predominância na região sudeste, particularmente do eixo Rio de Janeiro-São Paulo, com 18 trabalhos do total de 28 mestrados. As regiões Sul, Nordeste, Norte e Centro-Oeste apresentam, respectivamente, 6, 2, 1 e 1 trabalhos nesse nível. Em nível de doutorado, os 5 trabalhos desenvolvidos em instituições brasileiras o foram na região Sudeste. Com a implantação da área 46 pela Capes, relativa ao ensino de ciências e matemática, ainda no ano 2000, também houve um maior reconhecimento da área e a instituição de novos programas de pós-graduação. Quanto ao suporte teórico empregado para compreender os possíveis processos de aprendizagem em museus de ciências inclui, ainda que de forma difusa e muitas vezes não aprofundadas nos trabalhos, as Inteligências Múltiplas, Behaviorismo, Cognitivismo, Aprendizagem por Descoberta e Construtivismo (incluindo a abordagem sociocultural de Vigotski). Esta última, em especial, considera três construtos decorrentes da abordagem sociocultural: (i) definição de situação, (ii) intersubjetividade e (iii) mediação semiótica: a intersubjetividade existe até onde os participantes da interação têm a mesma definição de situação e têm consciência disso. Dependendo da orientação que o monitor/professor fornece durante a visita, e da forma como o visitante entende ou interpreta essa orientação, é que se criam novos níveis de definição de situação. Os trabalhos que adotam tal perspectiva indicam que, para que o visitante atinja a definição de situação do monitor/professor, ou seja, para que a intersubjetividade seja completa há, em geral, uma espécie de negociação. O mecanismo que permite essa negociação é a mediação semiótica. O uso de formas adequadas de mediação semiótica na comunicação entre diferentes sujeitos é que possibilita o estabelecimento da intersubjetividade. Essas diferentes estratégias de mediação semiótica são estudadas a partir do emprego de questionários, entrevistas, método da lembrança estimulada (MLE), desenvolvimento e posterior avaliação de minicursos voltados à educação básica e relacionados ao tema trabalhado no museu, interações discursivas desenvolvidas durante determinada atividade no museu e análise de padrões de interação e aprendizagem entre estudantes e exposição. ____________________________________________________________________________________________ II Simposio sobre Comunicación de la Ciencia y la Tecnología en Latinoamérica Os trabalhos centram-se na conceituação e proposta de referencial teórico para a aprendizagem em museus, a teoria da atividade e aprendizagem situada em museus, a relação museu-escola, trabalhos de campo como atividades descentralizadas e a produção de materiais didáticos para esses espaços. Também estão incluídas pesquisas que analisam a divulgação científica enquanto espaço informacional, além das articulações possíveis entre currículo e educação em ciências, estratégias de educação não formal para a educação em saúde, construtos bachelardianos e a formação de conceitos, clubes de ciências em museu e indícios de aprendizagem na interação monitor, experimento e participantes, além do MLE e as categorias de conversa em museus. Também analisam exposição levada para a escola e a evolução conceitual de estudantes após visita a um museu de ciências, o impacto de exposição científica nas representações sociais de estudantes, mapeamento de emoções e sensações envolvidas em aulas de ciências desenvolvidas em ecossistemas terrestres naturais e, por fim, proposta de biblioteca infanto-juvenil no museu. Quanto às lacunas verificadas, destaque-se não haver teses ou dissertações que aprofundem teorias de aprendizagem e seus enlaces com a aprendizagem em museus ou, ainda, um referencial específico que trate da temática, o que denota elevado grau de empiria no desenvolvimento das investigações. Discussões que considerem a neurociência e seus enlaces com a forma pela qual o sujeito pode aprender em museus de ciências são, igualmente, inexistentes. Verifica-se, para o conjunto da produção, que não há homogeneidade quando se consideram os referenciais teóricos utilizados no desenvolvimento das pesquisas. A teoria sóciointeracionista de Vigotski é utilizada em uma parcela dos trabalhos que tratam da aprendizagem na perspectiva do visitante. Em geral as preocupações desses estudos centram-se na identificação e análise das concepções, representações, modelos mentais, ideias e noções de estudantes sobre conceitos, fenômenos e processos ocorrentes nos aparatos museológicos. Trabalhos que tratam especificamente da inclusão de públicos são praticamente inexistentes no conjunto da produção, o que denota a importância de se pensar a acessibilidade e as necessidades educacionais no contexto do museu de ciências, de modo a permitir a todo cidadão a aproximação com a cultura científica. Os resultados apresentados por Cazelli (2005) apontam que grande número de jovens tem acesso ao museu por meio da escola. Assim, cabe refletir se, de fato, “aprendizagem” caracteriza-se como denominação mais ____________________________________________________________________________________________ II Simposio sobre Comunicación de la Ciencia y la Tecnología en Latinoamérica apropriada para essa categoria de investigações, visto que raramente os trabalhos conseguem identificar o nível de aprendizagem ocorrente nesses espaços. Necessário, também, pensar se cabe ao museu o papel de estimular a aprendizagem, uma vez que esta é associada quase que exclusivamente aos conteúdos em situação de ensino. No espaço do museu de ciências é possível pensar em outras possibilidades, a exemplo da fruição e da contemplação, tendo em vista a ampliação dos horizontes de cultura científica do visitante. Reitera-se o papel do museu nesse contexto de fruição, de tornar o momento único, para assim enriquecer culturalmente o indivíduo. 4. Considerações Verifica-se, pois, que a subárea de pesquisa em tela, expressa em dissertações e teses, encontra-se em expansão, o que reflete a ampliação e consolidação da Pós-Graduação em Educação e Educação em Ciências no Brasil. O reduzido crescimento experimentado pela área de educação em ciências nas décadas de 1970 e 1980 pode estar relacionado com o próprio processo de estruturação desse campo de pesquisa: a pós-graduação em Educação, com linhas de pesquisa em Ensino de Ciências, estava em processo de estruturação, surgindo os primeiros programas nesse período. Faz-se necessário considerar que o fomento que a escola concede às visitas a instituições museológicas reforça a importância de uma política mais ativa e também efetiva no que diz respeito ao aprimoramento e manutenção dos acervos, bem como dos programas e ações educacionais realizados pelos museus de ciências. Tais ações poderiam potencializar a equidade cultural, haja visto que as instituições escolares facilitam a aproximação dos jovens com os museus, os quais são referenciados pela sociedade como uma das mais importantes instituições da cultura cultivada (CAZELLI, 2005). Informações relativas às orientações apontam algum nível de dispersão ou isolamento, considerando elevado número de orientadores de apenas um ou dois trabalhos. Há, no entanto, nomes que se projetam em função de sua atuação na orientação de novos pesquisadores e também na instituição de linhas de pesquisa e disciplinas junto aos PPG nos quais atuam. Destaca-se que, nos programas que não apresentam linhas de pesquisa específicas sobre educação em museus de ciências, os orientadores vinculam-se a linhas de investigação mais amplas na educação em ciências, entre elas formação docente; fundamentos e modelos psico-pedagógicos na educação em ciências; filosofia, história e sociologia da ciência no ensino de ciências e investigações ____________________________________________________________________________________________ II Simposio sobre Comunicación de la Ciencia y la Tecnología en Latinoamérica envolvendo as interações ciência-tecnologia-sociedade-ambiente. Tais linhas de investigação agregam pesquisas acerca da educação em física, em química e em biologia, por exemplo, apontando diversas interfaces de trabalho por não estarem restritas a um único campo disciplinar. Dessa forma, a característica pontuada reitera a ideia de que a educação em museus de ciências é uma subárea dentro de um campo mais amplo representado pela área de educação em ciências. Salienta-se que a diversidade temática e/ou metodológica de um determinado PPG ou de uma área de concentração particular do programa, não denota baixa qualidade do curso. A variedade de aspectos que permeiam a pesquisa em Educação, antes de implicar limitações e deficiências do programa, pode incentivar a produção de conhecimentos em uma perspectiva mais interdisciplinar, permitindo a compreensão global dos processos educacionais. Entre as lacunas observadas a partir da análise da produção acadêmica acima listada, destaca-se a abordagem da educação infantil e os anos iniciais do ensino fundamental, considerando a importância dessas etapas de escolarização para a alfabetização científica, central para o trabalho a ser desenvolvido com os estudantes nas fases posteriores da educação formal. Considerando o enriquecimento científico-cultural propiciado por uma visita a um espaço extraescolar de educação em ciências, bem como a motivação e interesse que podem ser catalisados quando da visita a esse ambiente, é que se atribui grande importância na realização de mais investigações voltadas a esses níveis de escolarização. A importância da alfabetização científica para a faixa etária em questão deve, pois, possibilitar a construção, pela criança, de uma noção de ciência como processo determinado histórica e culturalmente e, por essa razão que carrega determinações político-econômicas e ideológicas dos segmentos dominantes da sociedade de cada época, caracterizando-a como atividade humana. Reitera-se que são escassos estudos que se debruçam na compreensão do papel desses espaços no processo de construção de conhecimentos para crianças em idade pré-escolar e anos iniciais do Ensino Fundamental não havendo estudo, levantado para composição do corpus da presente pesquisa, que se detivesse nessa etapa escolar. No entanto faz-se necessário pensar a formação (inicial e continuada) do professor para uso desses espaços, tendo em vista o máximo aproveitamento do potencial pedagógico dos museus de ciências. Os textos em questão pouco discutem a inserção da temática na formação inicial do professor, tendo em vista a inserção dessas atividades visando à formação cultural de seus estudantes. Os documentos encaram a problemática da formação docente assumindo ____________________________________________________________________________________________ II Simposio sobre Comunicación de la Ciencia y la Tecnología en Latinoamérica diferentes óticas, desde os estudos que a consideram na perspectiva do treinamento e da ênfase no preparo técnico, instrumentalizando o professor para o trabalho com método/atividade previamente estabelecido pelo museu, passando pela ideia de atualização em conteúdos científico-culturais, até a incorporação das ideias mais recentes sobre a formação docente: nela, aponta-se para um perfil de formação do professor crítico-reflexivo, em um programa de atualização que no qual o caminho se faz com os professores e não simplesmente para os professores. O educador em ciências apresenta como desafio a formação científica dos estudantes, a qual passa pela inovação de práticas pedagógicas. Faz-se necessário um perfil didático e pedagógico diferenciado do educador dessa área, para que faça uso pedagogicamente adequado dos espaços educativos extraescolares, não tornando a visita um evento pontual e sem continuidade em sala de aula. Nesse movimento também se faz necessário intervir nos cursos de formação (inicial ou continuada), para que haja consonância entre sua prática e os princípios da educação em museus de ciências. Em consonância com a teoria sociointeracionista, o uso de modelos germinais e de situações-problema, a seleção de conceitos e práticas nucleares, ascensão do abstrato ao concreto, ZDP, mediação semiótica e social, são elementos importantes para se pensar a questão da aprendizagem nos museus de ciências, considerados estruturas “mediadoras”, facilitadoras das possibilidades de interação sujeito/cultura. Em suma, o estudo aqui apresentado representa uma contribuição para sistematizar, ainda que parcialmente, as dissertações e teses sobre aprendizagem em museus de ciências (1970 a 2010). A investigação também pode ser utilizada como subsídio à elaboração de um catálogo de dissertações e teses em relativas à educação nesses espaços. Buscou-se, com o presente trabalho e com as iniciativas mencionadas ao longo do texto, ampliar a divulgação das pesquisas realizadas na subárea, bem como suas contribuições para a educação científica e para o sistema educacional do país. Referências ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE CENTROS E MUSEUS DE CIÊNCIAS (ABCMC). Centros e museus de ciência do Brasil 2009. Rio de Janeiro: Associação Brasileira de Centros e Museus de Ciência: UFRJ. FCC. Casa da Ciência: Fiocruz. 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