INOVAÇÕES TECNOLÓGICAS E ORGANIZACIONAIS: histórias de vida e trabalho Ingrid Bezerra Costa RESUMO As transformações impostas nos últimos anos no sistema produtivo vêm acarretando significativas mudanças no mundo do trabalho. Aceleração do ritmo de trabalho, colossal exigência pela qualidade, ameaça constante de desemprego, complexidade tecnológica no processo de trabalho, prolongamento da jornada de trabalho, ação sindical engessada, trabalhadores com qualificação inadequada para essa nova realidade no mundo do trabalho. No presente trabalho, os trabalhadores em suas histórias revelam o que pensam de si mesmo, seus comportamentos sociais, seus sentimentos e suas representações sociais em inúmeras facetas. Palavras-chave: Inovação Tecnológica, Saúde do Trabalhador, Indústria Metalúrgica. ABSTRACT The changes imposed in recent years in the production system are causing significant changes in the working world. Accelerating the pace of work, huge demand for quality, constant threat of unemployment, technological complexity in the process of work, extension of the work shift, union action plaster, workers with inadequate skills to this new reality in the world of work. In this work, the workers in their stories reveal what they think of themselves, their social behavior, their feelings and their social representations on many facets. Keywords: Technological innovation, Worker's Health, Metalmechanic Industry. 1 INTRODUÇÃO O presente artigo1 faz uma discussão sobre as mudanças impostas ao mundo do trabalho, principalmente pelo advento da indústria pesada que marca tecnologicamente a passagem para o segundo ciclo do desenvolvimento 1 O artigo é parte da monografia de graduação em Serviço Social da UECE intitulada Impacto das inovações tecnológicas e organizacionais na saúde e segurança do trabalhador. Foram realizados estudos de casos com trabalhadores de uma indústria metalúrgica da região metropolitana de Fortaleza, além do uso da observação direta, subsidiada pelas anotações em caderno de campo. São Luís – MA, 25 a 28 de agosto 2009 2 capitalista. As transformações atingiram não só a materialidade, mas também a subjetividade expressas pelo trabalho, assumindo novas configurações e abrindo uma discussão em torno de sua centralidade como categoria explicativa da vida social. O capital passou a ser industrial e as relações entre trabalhador e empregador tornam-se mais distantes e complicadas, assim como a própria relação do homem com o seu trabalho. As inovações tecnológicas introduzidas no mundo do trabalho têm gerado severos impactos na saúde e segurança do trabalhador. Segundo Seligmann-Silva (1994) esses agravos causados aos trabalhadores não ocorreram por culpa da tecnologia em si, mas, sim, pela forma como foi se desenvolvendo estratégias organizacionais onde se tornou cada vez mais evidente a cisão do planejamento do trabalho e sua execução. Além do mais, o modo como o trabalho passou a ser organizado exigiu uma capacidade para o trabalho ainda maior dos indivíduos. O resultado disso podemos observar no significativo aumento das já conhecidas doenças ocupacionais e do surgimento de novas enfermidades pouco conhecidas, relacionadas a atividades laborais. O objetivo desse estudo é analisar o impacto da inovação tecnológica e organizacional na saúde e segurança de trabalhadores da linha de produção de uma indústria metalmecânica, além de interpretar as repercussões biopsicossociais produzidas pelo trabalho metalúrgico, perpassando pelo processo de inovação tecnológica e identificar o comportamento e o pensamento do trabalhador manifestados mediante o risco das doenças ocupacionais e dos acidentes de trabalho. Nossa atenção volta-se para as transformações que vem ocorrendo no universo laboral, no qual os trabalhadores estão expostos a inúmeras organizações e condições de trabalho, muitas vezes precárias e além da capacidade humana, deixando o trabalhador ainda mais vulnerável ao acidente de trabalho e a doença ocupacional. 2 FLEXIBILIDADE, INOVAÇÕES ORGANIZACIONAIS E PRECARIZAÇÃO DO TRABALHO São Luís – MA, 25 a 28 de agosto 2009 3 O termo precarização do trabalho está sendo utilizado, atualmente, em alusão as novas formas e condições de trabalho impostas a partir do modelo de reestruturação produtiva que tende a fragilizar o mundo do trabalho. Com as perdas ou reduções dos direitos trabalhistas conquistados os trabalhadores têm sua vida assinalada pela instabilidade, incerteza e insegurança. Eles vivem em constante ameaça do desemprego, constituindo um novo patamar de exclusão social. Castel (1998) faz uma reflexão sobre as novas formas de expressão da questão social a partir das mudanças mundo proletário. Ele enfatiza que: Foram necessários séculos de sacrifícios, de sofrimento e de exercícios de coerção – a força da legislação e dos regulamentos, a coerção da necessidade e também da fome – para fixar o trabalhador em sua tarefa e nela e conservá-lo através de um leque de vantagens “sociais” que vão qualificar um status constitutivo da identidade social. É no momento em que a ‘civilização de trabalho’ parece impor-se definitivamente sob a hegemonia da condição de assalariado que o edifício racha, repondo na ordem do dia a velha obsessão popular de ter que viver ‘com o que ganha em cada dia’(p. 593). Com a perda da estabilidade no trabalho emergiu uma classe proletária sem direito, voz e ainda mais pobre, o que gerou uma nova forma de exclusão social. Segundo Harvey (2001 p. 144): “a atual tendência dos mercados de trabalho é reduzir o número de trabalhadores “centrais” e empregar cada vez mais força de trabalho que entra facilmente e é demitida sem custos quando as coisas ficam ruins”. No decorrer da nossa pesquisa podemos observar que na empresacampo2 a instabilidade é muito forte, em um curto período de tempo os trabalhadores sujeitos da nossa pesquisa já foram demitidos e readmitidos várias vezes. Isso causa uma grande angústia nesses trabalhadores, pois não sabem até quando estarão empregados, até quando estarão naquela fábrica que para WMFP3 é reconhecida como sua mãe e avó de seus filhos. Além do mais, muitas vezes, eles trabalham em horários irregulares sendo necessário trabalharem aos sábados, no chamado Banco de Horas. Em 2 Empresa-campo é a denominação que utilizaremos para nos referirmos a Industria Metalmecânica cenário de nossa pesquisa. 3 Iniciais do nome de um dos trabalhadores sujeitos da nossa pesquisa. São Luís – MA, 25 a 28 de agosto 2009 4 momentos de crise, a Empresa ou alguns dos seus setores entra em férias coletivas, deixando assim os trabalhadores ainda mais fragilizados. Soma-se a este perfil a prática da terceirização do trabalho e a ampliação do trabalho informal, muitas vezes de alto risco e sem nenhum amparo legal. Esta tendência de flexibilização das relações de trabalho acaba por designar um clima favorável aos retrocessos da legislação trabalhista, além de acender um colossal contingente de excluídos (Rigotto, 1998). As precárias e más condições de trabalho, por sua vez, facilitam o aparecimento de toda sorte de doenças, físicas e psicológicas, as quais facilitam a exclusão do proletário. Mantém-se, assim, um ciclo vicioso: desemprego, medo da permanência do desemprego, aceitação de diversas condições de trabalho, doenças, sofrimento, desemprego. 3 A MODERNIZAÇÃO CONSEQÜÊNCIAS TECNOLÓGICA E ORGANIZACIONAL E SUAS O progresso científico-tecnológico e as inovações organizacionais produziram resultados inquietantes, como a intensificação do ritmo de trabalho, maior instabilidade no emprego, o surgimento de novas doenças ocupacionais. Entretanto, sabemos também que, graças a esses fatores inovadores, ouve uma diminuição do número de acidentes de laborais, além de melhores condições de trabalho e uma melhor estrutura física para exercerem seu ofício. Os dois trabalhadores sujeitos da pesquisa afirmaram que as mudanças que ocorreram na fábrica foram bastante positivas, verbalizando que o trabalho ficou bem mais mecânico com a introdução de modernas máquinas, apesar de que na Fábrica de Botijões, onde eles trabalham, ser a que menos recebeu equipamentos modernos. No entanto, eles relataram que ocorreram significativas mudanças no processo e na organização do trabalho. As maiores contradições dos seus discursos foram exatamente quando falavam das novas formas organizacionais da empresa-campo. Ao mesmo tempo em que a denominavam de muito amparadora, relatavam que o relacionamento com os superiores, principalmente com o chefe imediato, tornou-se mais distante. De acordo com Ramos Filho (1999) podemos analisar que o processo de modernização tecnológica em curso na empresa-campo, revelando que este tem São Luís – MA, 25 a 28 de agosto 2009 5 ocorrido num ambiente de práticas gerenciais antigas, privilegia o controle sobre os trabalhadores. Tal combinação (novas tecnologias e velhos padrões de gestão) colabora para uma sensação de perda de identidade no trabalho, não pela tecnologia em si, mas pelo estilo gerencial vigente, pouco permeável a colaboração do trabalhador. Essa colaboração, quando acontece, limita-se ao desenvolvimento técnico, posteriormente ao "fato consumado" (Ramos Filho,1999). FMS4 afirma que há uma maior cobrança dentro da empresa-campo, ele sente ainda uma maior cobrança por produção, que provavelmente seja justificada pelos novos paradigmas da instituição moderna. Em seu relato sobre as transformações ocorridas na empresa FMS afirmou: Eu acho que teve mudança de estrutura, cobrança, algumas coisa (...). É... cobrança de, de... de normas, norma de empresa, certo? Lá eu acho que seja mais rígido as normas. Rígido assim, pra você realmente é... uma coisa que você tem que cumprir. Não podemos esquecer que os acidentes de trabalho permanecem sendo a principal causa de óbitos de trabalhadores no exercício de sua atividade laboral, dessa forma torna-se imprescindível discutirmos sobre acidente de trabalho, pois esses infortúnios afetam toda a sociedade, na medida em que afeta os custos da produção e onera o Estado pela assistência que destinam a esses trabalhadores afetados pelos acidentes de trabalho. Em seus relatos WMFP afirma acreditar que os acidentes de trabalho ocorrem devido a atos inseguros dos trabalhadores, pois segundo ele a Empresa destina ao trabalhador todos os recursos necessários para que os acidentes possam ser evitados. Por outro lado, FMS acredita que os acidentes laborais ocorrem devido a condições de trabalho inseguras que os trabalhadores são submetidos. Às vezes tem muitas pessoas que questiona achando que aquela pessoa tem culpa, certo? Qualquer um de vocês que tão aqui você acha que vai meter a sua mão na boca duma cobra? É meio difícil né? Você acha que tem uma máquina ali ou tem uma esteira, fala assim oh: se você botar o dedo aqui vai ficar sem o dedo ou sem mão, você acha que a pessoa vai botar? Eu num acredito não. Quer dizer que, às vezes tem muitas pessoas que diz, não ele é culpado, mas culpado como? (...) Agora ele pode tem facilitado pra ter se acidentado, aí tudo bem. Porque às vezes a pressa, a pressa é quem mais causa acidente (FMS, 41 anos). A cobrança por maior produção possivelmente induz o trabalhador a exercer seu ofício com um ritmo mais intenso, o que provavelmente leve o 4 Iniciais do nome de um dos trabalhadores sujeitos da nossa pesquisa. São Luís – MA, 25 a 28 de agosto 2009 6 trabalhador a sofrer acidentes de trabalho. Para ele outro fator que também causa o acidente de trabalho é o deslocamento para outro setor: Até mesmo a gente fica assim um pouco destrenado naquele que não é o seu setor, como é o seu serviço naquele local, né. Que quando a gente trabalha no seu setor, realmente aquelas áreas de risco você já sabe, mais ou menos é o seu local né. E quando você é emprestado pra outro local você tem que ter muita atenção porque você não conhece as áreas de risco, né. (FMS, 41 anos). Segundo Dejours (1990), a negação do risco é uma necessidade de agüentar o trabalho penoso e insalubre e, principalmente, o medo e a ansiedade de conviver diariamente com os riscos de acidente de trabalho e/ou doenças ocupacionais. Assim, quando WMFP reproduz o discurso da Empresa colocando no trabalhador toda a responsabilidade pelos acidentes laborais, provavelmente seja uma maneira que ele encontrou de conviver com os riscos laborais, no entanto ele está favorecendo a dominação e a exploração sobre o trabalhador. Outra questão que merece ser destacada é o fato dos trabalhadores da empresa-campo conviverem constantemente com o risco do desemprego. Os sujeitos da nossa pesquisa vivem sob o temor de perderem o emprego a qualquer momento, percebemos que eles são apreensivos em relação ao futuro, podendo dessa forma, suscitar o sofrimento mental que se agrava à proporção que aumento a insegurança no emprego. Não podemos negar o impacto da inovação tecnológica na perda de postos de trabalho – geralmente menos qualificados – devemos atentar também para a criação de novos empregos, mais qualificados e melhor remunerados, em conseqüência do progresso técnico. 4 CONSIDERAÇÕES FINAIS Gostaríamos de enfatizar os seguintes pontos: o significado do trabalho para o homem foi se modificando à medida que sua relação com o produto final foi se empobrecendo. Com o avanço da era industrial, sob o domínio do capitalista, o trabalho deixa de ser fonte de realização pessoal para se transformar numa relação São Luís – MA, 25 a 28 de agosto 2009 7 comercial, que envolve apenas a força de trabalho e sua valoração dentro deste mercado. O desenvolvimento desse estudo nos possibilitou chegarmos a algumas respostas sobre como a introdução de novas tecnologias e suas repercussões sobre a saúde e segurança dos trabalhadores. Esse é um tema bastante polêmico e abrangente, o qual envolve inúmeras categorias necessárias para a compreensão desse novo mundo trabalho. Daí porque procuramos delimitar a realidade social a ser estudada mais detalhadamente, direcionamos nossos estudos para uma indústria metalmecânica a qual vem passando por grandes inovações tecnológicas. Quando escolhemos trabalhar com história de vida, nossa pretensão era de captar o sentimento desses trabalhadores em relação as grandes mudanças ocorridas na empresa-campo, assim como identificar o comportamento e o pensamento do trabalhador manifestados mediante o risco das doenças ocupacionais e dos acidentes de trabalho. Sennett (1999) faz o seguinte questionamento: Como se pode um ser humano desenvolver uma narrativa de identidade e história de vida numa sociedade composta de episódio e fragmentos? (p. 27). Apesar de estarmos inseridos numa sociedade que nos impede de mantermos relações sociais duráveis e na qual somos podados a buscar objetivos em longo prazo, mesmo assim ainda é possível construirmos uma história de vida, além de formarmos nossa identidade mesmo que alicerçada nos domínios do trabalho. Torna-se evidente a angustia dos trabalhadores sujeitos da nossa pesquisa diante da possibilidade de perderem seus empregos a qualquer momento, assim como diante da possibilidade de sofrerem algum tipo de acidente laboral. É evidente a negação do risco de acidentes por um dos trabalhadores, fazendo assim com ele coloque a culpa desses acidentes de trabalho no próprio trabalhador, que segundo ele realizam atos inseguros. Entretanto, sabemos que as causas desses acidentes podem ser várias: a falta de condições adequadas para a realização do trabalho, equipamentos de segurança e de trabalho em condições impróprias, ‘stress’, fadiga conseqüente do aumento e da intensificação do ritmo e jornada do trabalho. Outro aspecto que nos fez refletir bastante foi a importância que o trabalho ocupa na vida desses trabalhadores. Sendo o responsável não só por São Luís – MA, 25 a 28 de agosto 2009 8 conquista materiais, mas também por significativas realizações pessoais como a construção da casa própria e a conclusão do ensino médio. Os sujeitos da pesquisa reconhecem a empresa-campo como responsável pela realização de seus sonhos e por suas conquistas, mostram-se fortalecidos e eternamente gratos à empresa-campo. Muitos são os pontos relevantes dentro dessas histórias de vida e trabalho, certamente alguns aspectos foram relegados, possivelmente porque o discurso não continha conteúdo suficiente para formalizar uma interpretação crítica. REFERÊNCIAS CASTEL, R. As metamorfoses da questão social: uma crônica do salário. Petrópolis; Vozes, 1998. DEJOURS, C. A banalização da injustiça social. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 1990. HARVEY, David. A condição pós-moderna: uma pesquisa sobre as origens da mudança cultural. Tradução de: Adail Ubirajara Sobral e Maria Stela Gonçalves. 10° ed. São Paulo: Edições Loyola, 2001. RAMOS FILHO, Américo C., 1999. A Evolução tecnológica e a gestão do trabalho na indústria de processo: o caso da Petrobrás. VI Encontro Nacional de Estudos do Trabalho. Salvador, ABET, 6 a 8/10. RIGOTTO, R. M. Saúde do trabalhador e meio ambiente em tempos de globalização e reestruturação produtiva. Revista Brasileira Saúde Ocupacional, v. 25, n. 93/94, p. 9 – 20, 1998. SELLIGMANN-SILVA, E. Desgaste mental no trabalho dominado. Rio de Janeiro: Cortez, 1994. SENNET, R. A corrosão do caráter: as conseqüências pessoais do trabalho no novo capitalismo. Rio de Janeiro: Record, 1999. São Luís – MA, 25 a 28 de agosto 2009