CONTABILIDADE AMBIENTAL: EVIDENCIAÇÃO
DOS GASTOS AMBIENTAIS NA AGROPECUÁRIA
MARCOS PAULO RODRIGUES DE SOUZA-FAFIPA
ISSN 2178-5007
RESUMO
O mercado está mais aberto e competitivo, fazendo com que as empresas tenham que se
preocupar com a responsabilidade socioambiental. A boa governança corporativa vêm se
tornando um grande aliado das organizações que buscam evidenciar suas práticas e processos,
aspectos e impactos ambientais sob sua atividade e seu controle. Na agropecuária, o uso do
solo para plantio, tratos culturais e colheita de alimentos provocam algumas alterações.
Desmatamentos, destruição da fauna nativa, degradação dos solos, poluição por agrotóxicos,
poluição das águas e contaminação do ar por meio de queimadas, são exemplos de impactos
sobre o meio ambiente. Contudo, a Contabilidade Ambiental é a ferramenta que pode
reconhecer, contribuir e auxiliar os gestores no processo de desenvolvimento sustentável, pois
pode ser usada para demonstrar a responsabilidade ambiental da empresa, através de relatórios
contábeis onde deverão ser evidenciados, de forma transparente e fidedigna, os gastos com o
controle e preservação ambiental.
Palavras-chaves: Contabilidade Ambiental, Desenvolvimento Sustentável, Agropecuária.
1. INTRODUÇÃO
A preocupação mundial em torno do meio ambiente caminha para um consenso em
torno da adesão a um novo estilo de desenvolvimento que deve combinar eficiência
econômica com justiça social e prudência ecológica. A combinação desses elementos somente
será possível se houver um esforço conjunto de todos com objetivo de atingir o bem-estar
geral no futuro.
Os assuntos ambientais estão crescendo em importância para a comunidade
empresarial em termos de desenvolvimento sustentável, uma vez que são crescentes as
exigências por parte do consumidor. Neste sentido, é cada vez mais árdua a tarefa do
administrador no tratamento desses assuntos na Contabilidade e sua divulgação. A
complexidade da atividade de certas empresas muitas vezes é fator que dificulta o tratamento
a ser dado no registro e na divulgação de, principalmente, os chamados custos ambientais1.
Na atividade rural, por exemplo, é visível está cobrança por parte dos órgãos
reguladores e da sociedade. Mas as populações dos grandes centros urbanos, cada vez mais
distantes da roça, não respeitam nem reconhecem os valores das áreas rurais, e esquecendo-se
de que ali se produz alimento que as sustentam, desconhecendo a profunda dependência que
as populações urbanas têm das zonas rurais. Este assunto envolve julgamento e conhecimento
específico, daí a necessidade de envolver não somente a alta administração e a classe contábil,
mas também ambientalistas, engenheiros de produção, advogados, economistas, etc.
Entende-se que a Contabilidade tem por objetivo não só a mensuração dos fatos que
evidenciam a situação patrimonial e sua evolução, mas, acima de tudo, também demonstrar,
de forma clara, a todos os usuários e interessados em seus relatórios, de que forma a
organização está interagindo com o ambiente em que se situa, informando os investimentos
realizados, os gastos e as obrigações assumidas em benefício do meio ambiente, seja no
sentido de evitar sua exploração predatória, seja nos gastos efetuados para recuperar agressões
praticadas contra a natureza e o meio ambiente.
Portanto, a participação da Contabilidade é de extrema importância neste processo de
evidenciação, pois vai despertar o interesse para as questões ambientais, ajudando a classe
empresarial a implementar, em sua gestão empresarial, a variável ambiental, não apenas para
constar na legislação, mas por uma verdadeira conscientização ecológica.
1
Custos que são incorridos por causa da existência, ou possível existência, de má qualidade ambiental.
IUDÍCIBUS, MARION e PEREIRA (1999).
253
2. REFERENCIAL TEÓRICO
2.1 Contabilidade Ambiental
A contabilidade ambiental pode ser entendida como a atividade de identificação de
dados e registros de eventos ambientais, processamento e geração de informações que
subsidiem o usuário servindo de parâmetro em suas tomadas de decisões. No atual estágio
socioeconômico é de vital importância para a boa governança corporativa2 que as empresas
adotem o desenvolvimento sustentável.
Segundo PAIVA (2006), o termo Desenvolvimento Sustentável tem ocupado há algum
tempo as pautas de discussões sobre os rumos do planeta, e igualmente sobre a continuidade
do crescimento, em face da destruição do meio ambiente e dos recursos naturais não
renováveis. Para que se pudesse acompanhar esse convívio do homem com o meio ambiente,
seja na forma de nação ou entidade, designou-se o termo Contabilidade Ambiental para o
registro e geração de relatórios com a finalidade de:
 auxiliar na elaboração do planejamento estratégico;
 servir de parâmetro no gerenciamento das atividades-alvo;
 fornecer informações externas no sentido de prestação de contas dessas atividades.
2.1.1 Contabilidade Ambiental Financeira
Sobre este conceito PAIVA (2006), diz que a contabilidade financeira possibilita à
empresa a formulação de relatórios para usuários externos que demonstrem interesse nas
informações, tais como clientes, fornecedores, investidores e outros.
A contabilidade ambiental financeira tem por finalidade a identificação, avaliação e
evidenciação de eventos econômico-financeiros relacionados à área ambiental e presta-se ao
papel de instrumento de reporte e comunicação entre empresas e sociedade, visando sempre a
sua continuidade.
Neste sentido, PAIVA (2006), define como objetivo da contabilidade ambiental
financeira o apoio à avaliação do desempenho e tomada de decisões dos usuários da
contabilidade em relação à empresa como um todo, considerando questão ambiental e
compreendendo:
 auxílio na condução de medidas que possam culminar na preservação ambiental;
 contribuição para o processo de compatibilização com o desenvolvimento econômico sustentável.
2
Sistema pelo qual as empresas são dirigidas e controladas, que assegura aos proprietários o governo estratégico
da empresa e a efetiva monitoração da diretoria executiva. A relação entre propriedade e controle ocorre por
meio do conselho de administração, a auditoria independente e o conselho fiscal que, devem assegurar aos
proprietários a equidade (fairness), a transparência (disclosure), a responsabilidade pelos resultados
(accountability) e o cumprimento das leis e normas (compliance). IUDÍCIBUS, MARION e PEREIRA (1999).
254
A contabilidade ambiental deve primar, portanto, pela elaboração e fornecimento de
subsídio para avaliação do desempenho das empresas e prover informações sobre seu
relacionamento econômico com o meio ambiente.
O IBRACON, por meio da NPA 11, sugere que as empresas devam ajustar-se a uma
nova realidade mundial, na qual as metas ambientais e econômicas terão que ser alcançadas
de forma rigorosa. As demonstrações contábeis e os relatórios das administrações das
empresas devem refletir o grau de conscientização atingido nos últimos exercícios.
2.2 Disclosure Ambiental no Brasil
No Brasil, o assunto é apresentado à classe contábil pelo Conselho Federal de
Contabilidade – CFC, pelo Instituto Brasileiro de Auditores Independentes – IBRACON e
pelo Comitê de Pronunciamentos Contábeis – CPC, e estabelecem normas de evidenciação
ambiental, como segue:
a.
CFC – Resolução 1.003/04: está resolução aprovou a NBC T 15, instituindo a Demonstração
de Informação de Natureza Social e Ambiental, que entrou em vigor a partir de 1º de janeiro de
2006. Essa norma “estabelece procedimentos para evidenciação de natureza social e ambiental,
com o objetivo de demonstrar à sociedade a participação e a responsabilidade social da
entidade”, definindo que a Demonstração de Informação de Natureza Social e Ambiental deve
ser apresentada com informações do exercício atual e anterior, para que seja possível realizar
uma comparação entre os exercícios (CFC, 2004).
As informações de natureza e ambiental, segundo a NBC T 15 (CFC, 2004), são:

a interação com o meio ambiente;

investimentos e gastos com manutenção nos processos operacionais para a melhoria do
meio ambiente;

investimentos e gastos com a preservação e/ou recuperação de ambientes degradados;

investimentos e gastos com a educação ambiental para empregados, terceirizados,
autônomos e administradores da entidade;

investimentos e gastos com educação ambiental para a comunidade;

investimentos e gastos com outros projetos ambientais;

quantidade de processos ambientais, administrativos e judiciais movidos contra a entidade;

valor das multas e das indenizações relativas à matéria ambiental, determinadas
administrativas e/ou judicialmente;

b.
passivos e contingências ambientais.
IBRACON – NPA 11 – Balanço e Ecologia
A Norma de Procedimento de Auditoria Ambiental nº 11 (NPA 11), de agosto de 1996
(IBRACON, 1996), estabelece “liames entre a contabilidade e o meio ambiente”, visando
255
“participar dos esforços em favor da defesa e proteção contra a poluição e as agressões à vida
humana e à natureza”
Na NPA 11, o IBRACON ressalta a crescente evolução da conscientização da sociedade, os
debates, as análises e as diretrizes relacionadas ao meio ambiente, salientando que tais
evoluções devem estar refletidas nas demonstrações contábeis e relatórios de administração das
empresas.
Destaca, ainda, que o crescente conhecimento da abrangência e da extensão das agressões ao
meio ambiente e à vida humana, impõem às empresas a necessidade de avaliar seu
comportamento ambiental com vistas a se “resguardarem dos efeitos potenciais de pedidos de
indenização judiciais relacionados aos efeitos danosos de suas atividades operacionais com
relação ao ar, água e ao solo”
c.
Pronunciamento Técnico CPC 29 – (Correlação às Normas Internacionais de Contabilidade
IAS 41) – Ativo Biológico e Produto Agrícola
As definições relacionadas com a área agrícola, conforme CPC 29, são:

Os seguintes termos são usados neste Pronunciamento com significados específicos:
Atividade agrícola é o gerenciamento da transformação biológica e da colheita de ativos
biológicos para venda ou para conversão em produtos agrícolas ou em ativos biológicos
adicionais, pela entidade. Produção agrícola é o produto colhido de ativo biológico da
entidade. Ativo biológico é um animal e/ou uma planta, vivos. Transformação biológica
compreende o processo de crescimento, degeneração, produção e procriação que causam
mudanças qualitativa e quantitativa no ativo biológico. Despesa de venda são despesas
incrementais diretamente atribuíveis à venda de ativo, exceto despesas financeiras e
tributos sobre o lucro.

Grupo de ativos biológicos é um conjunto de animais ou plantas vivos semelhantes.
Colheita é a extração do produto de ativo biológico ou a cessação da vida desse ativo
biológico.

Atividade agrícola compreende uma série de atividades, por exemplo, aumento de
rebanhos, silvicultura, colheita anual ou constante, cultivo de pomares e de plantações,
floricultura e cultura aquática (incluindo criação de peixes). Certas características comuns
existem dentro dessa diversidade:
(a) capacidade de mudança. Animais e plantas vivos são capazes de transformações
biológicas;
(b) gerenciamento de mudança. O gerenciamento facilita a transformação biológica,
promovendo, ou pelo menos estabilizando, as condições necessárias para que o processo
ocorra (por exemplo, nível de nutrientes, umidade, temperatura, fertilidade, luz). Tal
gerenciamento é que distingue as atividades agrícolas de outras atividades. Por exemplo,
colher de fontes não gerenciadas, tais como pesca no oceano ou desflorestamento, não é
atividade agrícola; e
(c) mensuração da mudança. A mudança na qualidade (por exemplo, mérito genético,
densidade, amadurecimento, nível de gordura, conteúdo proteico e resistência da fibra) ou
256
quantidade (por exemplo, descendência, peso, metros cúbicos, comprimento e/ou diâmetro
da fibra e a quantidade de brotos) causada pela transformação biológica ou colheita é
mensurada e monitorada como uma função rotineira de gerenciamento.
As formas de reconhecimento e mensuração do ativo biológico, de acordo com o CPC 29, são:

A entidade deve reconhecer um ativo biológico ou produto agrícola quando, e somente
quando:
(a) controla o ativo como resultado de eventos passados;
(b) for provável que benefícios econômicos futuros associados com o ativo fluirão
para a entidade; e
(c) o valor justo3 ou o custo do ativo puder ser mensurado confiavelmente.

Em atividade agrícola, o controle pode ser evidenciado, por exemplo, pela propriedade
legal do gado e a sua marcação no momento da aquisição, nascimento ou época de
desmama. Os benefícios econômicos futuros são, normalmente, determinados pela
mensuração dos atributos físicos significativos.

O ativo biológico deve ser mensurado ao valor justo menos a despesa de venda no
momento do reconhecimento inicial e no final de cada período de competência.

Os custos podem, algumas vezes, se aproximar do valor justo, particularmente, quando:
(a) uma pequena transformação biológica ocorre desde o momento inicial (por
exemplo, as árvores frutíferas brotadas a partir de sementes ou mudas plantadas no período
imediatamente anterior ao de encerramento das demonstrações contábeis); ou
(b) não se espera que o impacto da transformação do ativo biológico sobre o preço
seja material (por exemplo, para o crescimento inicial da plantação de pinos cujo ciclo de
produção é de 30 anos).

Ativos biológicos são, muitas vezes, implantados na terra (por exemplo, árvores de floresta
plantada). Pode não existir um mercado separado para os referidos ativos, mas pode existir
um mercado ativo para a combinação deles, isto é, para os ativos biológicos, terra nua e
terras com melhorias, como um conjunto. A entidade pode usar informações sobre ativos
combinados para determinar o valor justo dos ativos biológicos. Por exemplo, o valor justo
da terra nua e da terra com melhorias pode ser deduzido do valor justo dos ativos
combinados, visando obter o valor justo do ativo biológico.
2.2.1 Ativos Ambientais
No que tange o ativo ambiental, é o gasto capitalizado, na forma de imobilizado,
apropriados aos períodos em que gere benefícios econômicos futuros, TINOCO e KRAEMER
(2006), define como:
3
FAIR VALUE (VALOR JUSTO). Importância pela qual um ativo poderia ser transacionado entre um
comprador disposto e conhecedor do assunto e um vendedor também disposto e conhecedor do assunto em uma
transação sem favorecimento. IUDÍCIBUS, MARION e PEREIRA (1999).
257



Os estoques de insumos, peças, acessórios, etc. utilizados no processo de eliminação ou
redução dos níveis de poluição e de geração de resíduos;
Os investimentos em máquinas, equipamentos, instalações, etc. adquiridos ou produzidos
com intenção de amenizar os impactos causados ao meio ambiente; e
Os gastos com pesquisas, visando ao desenvolvimento de tecnologias modernas, de médio
e longo prazo, desde que constituam benefícios ou ações que irão refletir nos exercícios
seguintes.
2.2.2 Passivos Ambientais
Os passivos ambientais, conforme TINOCO e KRAEMER (2006) apud RIBEIRO e
GRATÃO (2000), ficaram amplamente conhecidos pela sua conotação mais negativa, ou seja,
as empresas que os possuem agrediram significativamente o meio ambiente e, dessa forma,
têm que pagar vultosas quantias a título de indenização a terceiros, de multas e para a
recuperação de áreas danificadas.
Segundo TINOCO e KRAEMER (2006), os passivos ambientais normalmente são
contingências formadas em longo período, sendo despercebidos às vezes pela administração
da própria empresa.
“deve-se ressaltar que os passivos ambientais, não têm origem apenas em fatos de conotação
tão negativa. Podem originar-se de atitudes ambientalmente responsáveis, como os decorrentes da manutenção
de sistema de gerenciamento ambiental, os quais requerem pessoas para sua operacionalização. Tais sistemas
exigem ainda a aquisição de insumos, máquinas, equipamentos, instalações para seu funcionamento. Tais
investimentos podem ser financiados por fornecedores ou por meio de instituições de crédito, como o BNDES e
o Banco do Brasil” TINOCO e KRAEMER (2006).
O trabalho de especialistas ambientais que identificam os aspectos econômicos,
financeiros e físicos, dentre os quais fazem parte das variáveis ambientais que estejam
afetando, ou poderão afetar, a situação patrimonial de uma companhia é conhecido por Due
Diligencie. Segundo RIBEIRO e LISBOA (2000), agora, diante da repercussão de alguns
desastres ambientais de grandes proporções ocorridos no Brasil, os organismos financeiros
nacionais também passaram a requerer o salvo-conduto de um relatório de due diligencie
sobre riscos ambientais relacionadas às atividades das companhias. Com isso, destinam linhas
de crédito às empresas que se preocupam em preservar os recursos naturais.
2.2.3 Gastos, custos e Ambientais
TINOCO e KRAEMER (2006), ressalta que ultimamente os gastos e os
custos/despesas das empresas em proteção ambiental, incluindo redução de poluição e de
resíduos, monitorização da avaliação ambiental, impostos e seguros, têm aumentado
rapidamente com a crescente e mais exigente regulamentação ambiental, decorrente da vigília
crescente da sociedade.
258
De acordo com TINOCO e KRAEMER (2006), os gastos e custos ambientais um
valor adicionado negativo para as empresas, que se refere ao montante gasto para recuperar o
meio ambiente que elas degradam. Em face disso, criam provisões ambientais através de
lançamentos contábeis em que se lança a débito uma conta de despesa ambiental e a crédito
uma conta de provisão para restauração ambiental.
Os custos ambientais não reconhecidos no momento de seu fato gerador com a
classificação pertinente, segundo PAIVA (2006), se apresentarão no futuro como passivos não
reconhecidos, repercutindo negativamente. No entanto, alguns custos, se reconhecidos no
presente, poderão evitar transtornos às empresas, dado que não são responsáveis pelos
produtos até o final do ciclo de vida dos mesmos.
TINOCO e KRAEMER (2006), complementa o conceito de gastos, custos e despesas:
“Inicialmente, devemos deixar registrado que, quando uma empresa realiza a aquisição de um
insumo ambiental, há a realização de um gasto. Assim, temos gastos com a compra de matéria-prima, gasto com
mão-de-obra, gastos com pagamentos de multas por infração ao código florestal, etc., ou seja, um gasto refere-se
a um compromisso financeiro presente ou futuro, representado pela compra de um serviço ou aquisição de
insumos ou outros bens ambientais que demandam pagamentos no presente ou no futuro”
De acordo com TINOCO e KRAEMER (2006), as despesas de natureza ambiental
são:








ocasionadas pela prevenção de contaminação relacionada com as atividades operacionais
atuais;
tratamento de resíduos e vertidos; e tratamento de emissões;
descontaminação; e restauração;
materiais auxiliares e de manutenção de serviços;
depreciação de equipamentos; e exaustões ambientais;
pessoal envolvido na produção; e gestão do meio ambiente;
investigação e desenvolvimento de tecnologias mais limpas;
auditoria ambiental;
2.2.4 Receitas Ambientais
TINOCO e KRAEMER (2006), define receita ambiental como:






prestação de serviços especializados em gestão ambiental;
venda de produtos elaborados de sobras de insumos do processo produtivo;
venda de produtos reciclados; e receita de aproveitamento de gases e calor;
redução do consumo de matérias-primas; redução do consumo de energia elétrica;
redução do consumo de água;
participação no faturamento total da empresa que se reconhece como sendo devida a sua
atuação responsável com o meio ambiente;
TINOCO e KRAEMER (2006) apud MURALHA apud EUGENIO (2002), explica
que as receitas ambientais podem ser de vários tipos, tais como:



diminuição de despesas: em prêmios de seguros, em manutenção, em segurança e assistência
médica e medicamentos a trabalhadores por diminuição de riscos;
melhor gestão de resíduos: economias no uso de materiais por reutilização e reciclagem de
resíduos, diminuição de custos de estocagem, redução de custos de transporte;
redução de indenizações: por diminuição de riscos de contaminação, destruição, etc;
259



redução de custos operacionais: menor consumo de matérias-primas, materiais de consumo e
embalagens, água, combustíveis e energia;
aumento das vendas por melhoria da imagem pública: uso de ecoetiquetas, ecoauditorias,
logotipo, informação geral favorável;
recebimentos efetivos: por venda de estudos, diagnósticos, serviços de tratamento de resíduos,
tecnologias limpas, royalties, arrendamento de ativos ambientais, subsídios, prêmios, etc.
3. METODOLOGIA E COLETA DE DADOS
3.1 Metodologia
O presente estudo, busca demonstrar os principais impactos ambientais na
agropecuária, bem como, a degradação de solos, recursos naturais, incêndios florestais,
destruição da fauna e da flora, contaminação dos cursos d’ água por agrotóxicos, erosão e
assoreamento dos cursos d’ água, destruição de áreas de produtividade natural e reservas
extrativistas.
Para obtenção de dados que serviram de base para a pesquisa, foram aplicados
questionários em 8 empresas agropecuárias localizadas no noroeste do Paraná, que atuam nas
atividades de cultura de mandioca, cana-de-açúcar, milho, sorgo, e nas atividades pecuária
bovina de corte e melhoramento genético e ainda na criação de ovinos de corte e
melhoramento genético.
3.2 Gastos ambientais na agropecuária
As empresas agropecuárias têm obrigação de efetuar gastos preventivos com o meio
ambiente, dada sua tendência à geração de resíduos. Mesmo em tal categoria de empresas
existem grandes diferenças de acordo com a área de atuação. Portanto, mesmo entre as
agropecuárias existe um alto grau de diferenciação quanto à vocação poluidora, assim como
diferentes graus de dificuldade na recuperação de danos causados e aperfeiçoamento no
tratamento de resíduos gerados pelo processo produtivo.
3.3 Demonstrações contábeis adaptadas ao Meio Ambiente
O artigo 176 da Lei nº 6.404/76, Lei das Sociedades por Ações, estabelece que ao final
de cada exercício social deverão ser elaboradas demonstrações financeiras que demonstrem
com clareza a situação e as modificações ocorridas no exercício do patrimônio das entidades,
tais como Balanço Patrimonial, Demonstração do Resultado do Exercício, Demonstração de
Lucros ou Prejuízos Acumulados, Demonstração do Fluxo de Caixa e complementadas por
notas explicativas.
260
A seguir são apresentadas as demonstrações Balanço Patrimonial – Quadro 01 e
Demonstração do Resultado do Exercício – Quadro 02, adaptadas à Contabilidade Ambiental.
Essas demonstrações abrangem a atividade agropecuária, na exploração de pecuária bovina e
ovinocultura, nas culturas temporárias de mandioca, milho e sorgo, e nas culturas
permanentes de cana-de-açúcar, eucalipto e pastagens.
ATIVO
BALANÇO PATRIMONIAL
PASSIVO
CIRCULANTE
CIRCULANTE
Circulante Financeiro
Circulante Financeiro
Caixa e Bancos
Fornecedores
Clientes
Títulos a Pagar
Estoques
Circulante Ambiental
Circulante Ambiental
Fornecedores
Estoques
Financiamentos
NÃO CIRCULANTE
NÃO CIRCULANTE
REALIZÁVEL A LONGO PRAZO
Longo Prazo Financeiro
Longo Prazo Financeiro
Financiamentos
Títulos a Receber
Longo Prazo Ambiental
Longo prazo Ambiental
Financiamentos
Estoques
PATRIMÔNIO LÍQUIDO
INVESTIMENTOS
Patrimônio Líquido Financeiro
Investimentos Financeiros
Capital Social
Ações de outras Cias
Reservas de Capital
Imobilizado Financeiro
Reservas de Lucros
Máquinas e Equipamentos
Lucros (Prejuízos) Acumulados
Veículos e Acessórios
Patrimônio Líquido Ambiental
(-) Depreciação Acumulada
Reservas p/ Preservação do Meio Ambiente
Imobilizado Ambiental
Máquinas e Equipamentos
(-) Depreciação Acumulada
Intangível
Intangível Ambiental
Marcas e Patentes
QUADRO 01 – Elaborado pelo autor (adaptado para contabilidade ambiental).
261
DEMONSTRAÇÃO DO RESULTADO DO EXERCÍCIO
Receita Operacional Bruta*
( - ) Deduções das Vendas
Receita Operacional Líquida
( - ) Custos dos Produtos Vendidos
Lucro Bruto
( - ) Despesas Operacionais
Normais
Ambientais
( - ) Outras Receitas e Outras Despesas
Lucro Operacional
Lucro antes do IR e CSLL
( - ) Provisão para IR
( - ) Provisão para CSLL
Lucro depois do IR e CSLL
( - ) Participações
Lucro (Prejuízo) do Exercício
QUADRO 02 – Elaborado pelo autor (adaptado para contabilidade ambiental).
* as receitas de vendas e os custos dos produtos que englobam itens ambientais podem ser detalhados por
natureza.
3.4 Benefícios potenciais à agropecuária
 identifica, mensura e evidencia as particularmente dos tipos de gastos ambientais.
 controla o uso e os fluxos de informações.
 dá informação mais exata e detalhada para os custos efetivos para melhorar o
desempenho ambiental.
 informação mais exata e mais detalhada para a medida e o relatório de desempenho
ambiental, assim melhorando a imagem de companhia com os stakeholders4, tais como
clientes, comunidades locais, empregados, governo e fornecedores.
4
Neologismo americano derivado de Stockholders (acionistas) para representar participantes que estejam
envolvidos afetivamente com uma organização, entre os quais inclui-se os clientes, os trabalhadores, os
acionistas, os fornecedores, os clientes e a sociedade. IUDÍCIBUS, MARION e PEREIRA (1999).
262
3.5. Coleta de dados
3.5.1 O Setor Escolhido
Com o intuito de efetuar um levantamento sobre o atual estágio das formas de
evidenciação ambientais praticadas por um setor específico de empresas brasileiras, foram
procuradas fontes oficiais de regulamentação e de práticas de evidenciação, assim como
fontes não oficiais de evidenciação, como levantamentos realizados por questionário aplicado
nas empresas. Outras páginas na Internet de órgãos que possuem ligações direta com as
empresas (associações de produtores), CNA – Confederação da Agricultura e Pecuária do
Brasil, FAEP – Federação da Agricultura do Estado do Paraná, e ainda entidades ligadas ao
meio ambiente também foram visitadas, tais como o IAP – Instituto Ambiental do Paraná e
IBAMA – Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis. Cabe
ressaltar que o objetivo específico da pesquisa é colher uma amostra do grau de elaboração,
organização e divulgação existente entre as empresas do setor agropecuário.
3.5.2 Critérios utilizados para a escolha do setor
Os critérios utilizados para a escolha do setor pesquisado foram, sob a óptica do
relacionamento com o meio ambiente, respectivamente, o potencial de utilização e geração de
insumos, resíduos e produtos com alto teor poluente, assim como a possibilidade de
transtornos causados pelos produtos no final de seu ciclo de vida.
Devido ao fato de exposição de imagem aos clientes e sociedade como um todo,
apresentando maiores exigências no tocante às origens e formas de produção, seria
interessante que os produtores brasileiros procurassem evidenciar suas atividades preventivas
e corretivas relacionadas ao meio ambiente.
3.5.3 A Agropecuária
A agropecuária apresenta grande potencial de danos à natureza em seu processo
produtivo. A tendência de geração de poluição é inerente à suas atividades por envolver, em
seus processos produtivos, produtos químicos e materiais não biodegradáveis.
Desde o cultivo da matéria-prima, tratos culturais e colheita, durante o processo
produtivo e também no final do ciclo de vida de seus produtos, existem riscos ambientais da
formas mais diversificadas.
Esse setor da economia, dada a natureza de suas operações, deve adotar estratégias de
produção que dispense um cuidado especial com o meio ambiente e a área de negócios com a
263
divulgação dos fatos a ele relacionadas, dados o perfil e os padrões de exigência de seus
clientes e sociedade como um todo.
3.5.4 As Empresas
Empresas
Cidade/Estado
Área total Atividades Desenvolvidas
do imóvel
Fazenda Santa Nice
Amaporã/PR
2.835,5 há - Pecuária Bovina
- Ovinocultura
- Milho, Sorgo e Mandioca
- Eucalipto e Cana-de-açúcar
Fazenda Conquista
Amaporã/PR
858,4 há - Pecuária Bovina
- Mandioca
- Cana-de-açúcar
Fazenda Santa Rita de
Guairaçá/PR
242,0 há - Pecuária Bovina
Guairaçá/PR
339,4 há - Pecuária Bovina
Mirador/PR
861,2 há - Pecuária Bovina
Cássia
Fazenda Gonçalves
Fazenda São Benedito
- Cana-de-açúcar
Fazenda Santa Rosa
Santa Monica /PR
1.622,9 há - Pecuária Bovina
- Cana-de-açúcar
Fazenda Vitória
Loanda/PR
379,0 há - Pecuária Bovina
- Cana-de-açúcar
Fazenda Santa Lucia do
Ribeirão Bonito
Loanda/PR
314,7 há - Pecuária Bovina
- Cana-de-açúcar
QUADRO 03 – Empresas pesquisadas.
264
4. DESCRIÇÃO E ANALISE DOS RESULTADOS
4.1 Análise dos resultados
Para a análise dessa parte da pesquisa foram consideradas como primordiais a análise
das fontes de evidenciação.
4.2 Análise das fontes de evidenciação
Este estudo tem por finalidade a evidenciação dos gastos ambientais, para tanto, foi
feito um levantamento da área geográfica, isto é, o espaço utilizado em nossa pesquisa de
campo.
O demonstrativo dos gastos por hectare a preços correntes para a formação de Área de
Reserva Legal – ARL e Área de Preservação Permanente – APP:
Custo Ambiental de Formação (hectare)
Analise e Topografia do Solo
Projeto Técnico
Cerca
Adubos e Corretivos
Plantio de mudas nativas
Herbícidas
Insetícidas
Tratos Culturais
Terra (custo de oportunidade / preço de mercado)
Redução da Renda Agropecuária Bruta
Preservação e manejo
R$
R$
R$
R$
R$
R$
R$
R$
R$
R$
R$
R$
14.028,91
61,98
157,02
1.033,06
619,83
185,95
20,66
33,06
57,85
10.743,80
1.074,38
41,32
QUADRO 04 – Elaborado pelo autor a partir das informações coletadas juntos às empresas.
265
5. CONCLUSÕES
Os gastos ambientais estão associados com a preocupação das empresas em atender as
exigências legais e do consumidor. É grande o interesse em evidenciação dos ativos, passivos,
gastos, custos, despesas e receitas ambientais. Este novo modelo, visa dar transparência as
demonstrações contábeis das empresas preocupadas com a responsabilidade social e o
desenvolvimento sustentável.
Quando a evidenciação dos gastos ambientais mostra a relação das empresas com a
natureza, promove o aumento da capacidade informativa dos relatórios contábeis,
proporcionando aos usuários melhores condições de efetuar projeções sobre o desempenho
futuro dessas empresas.
Este trabalho procurou explorar a identificação desses gastos, dissertando sobre suas
formas atuais e potenciais de evidenciação. Buscou, por meio de pesquisa exploratória no
setor agropecuário em termos de potencial de poluição e relacionamento com o mercado, as
formas e a intensidade pelas quais as empresas demonstram sua relação com o meio ambiente.
O que se pode constatar com a pesquisa realizada neste trabalho é que o setor
agropecuário no Brasil não pratica a evidenciação ambiental em sua plenitude, não
proporcionando aos usuários detalhamento suficiente que possibilite o relacionamento entre a
empresa e o meio ambiente. Desse modo, pode se concluir que, nos atuais moldes de
evidenciação dos gastos ambientais, a informação divulgada não apresenta detalhamento
suficiente que possibilite demonstrar os impactos desses gastos no desempenho futuro da
entidade.
Como contribuição, dada a impossibilidade de resolução de todos os problemas
apresentados que dificultam a prática da evidenciação por parte das empresas, este trabalho
apresentou uma proposta de modelo de evidenciação dos gastos ambientais que podem servir
como base para o desenvolvimento do assunto. Com base nas associações desses gastos com
os números divulgados nas demonstrações contábeis, é importante a criação de indicadores
que proporcionem aos usuários a geração de informações importantes sobre a empresa,
influenciando de forma incisiva sua tomada de decisão.
Para tanto, é preciso mais, produtores, governantes, representantes de classe devem
voltar a discutir assuntos ligados ao meio ambiente e a continuidade das atividades no campo.
Uma política de subsídios com o objetivo de fornecer viabilidade econômica e
desenvolvimento sustentável, isto é, o ônus da preservação não deve ficar sobre
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responsabilidade única do produtor rural.
O ideal seria a implantação de subsídios
ambientais, visando melhorar a eficácia da Lei.
Enfim, a sociedade deve procurar o aprimoramento das políticas públicas em relação
ao meio ambiente por meio de duas alternativas: a modificação da lei de Reserva legal que
tem se mostrado ineficaz, ou enfrentar a realidade e subsidiar o proprietário rural para manter
as áreas nativas desejadas sem reduzir a produção, geração de empregos e impostos, e
contribuir para o crescimento e desenvolvimento do Brasil.
REFERÊNCIAS
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Acesso em 20 de Outubro de 2010.
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(Correlação às Normas Internacionais de Contabilidade IAS 41) – Ativo Biológico e Produto
Agrícola.
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Gestão Ambiental. 1ª Ed. Atlas. São Paulo. 2006.
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MARCOS PAULO RODRIGUES DE SOUZA