editorial. A psicanálise nasceu dando valor ao que ninguém levava a sério como forma de aceder à verdade. Em obras fundamentais, Freud desbravou o território dos sonhos, dos atos falhos e do humor. Com estas formações aprendemos instrumentos vitais para a nossa clínica, mas dentre elas, o humor parece deslocado, ainda que saibamos que desvela o inconsciente, sua teorização não traz uma aplicação óbvia, direta, para a clínica. De qualquer forma, ele está presente no nosso trabalho como analistas. Embora não investiguemos uma piada ou um gracejo dito em análise com a mesma tenacidade com que perseguimos um ato falho, de alguma maneira o levamos em conta. Mas o que mesmo fazemos, ou podemos fazer, com o humor quando ele invade a cena analítica? A impressão que temos é que não ainda desenvolvemos a contento a direção aberta por Freud, afinal, existe pouca literatura a esse respeito. Com base nessa constatação, o Correio volta a tratar do humor. Certamente sem a ilusão de responder a algo que parece ser um problema para a sisuda comunidade analítica, ao menos fazemos a nossa parte, estimulando o pensar sobre o humor em geral, e, especialmente, sobre o humor na clínica. Mário Corso 1 1 A seção Temática desse Correio contou com a colaboração de Mário Corso. novembro 2012 l correio APPOA .1 notícias. Jornadas Clínicas da APPOA Ainda mais sobre o gozo 24 e 25 de novembro de 2012 – Hotel Continental Porto Alegre No Seminário Mais, ainda, Lacan procura formalizar as posições masculina e feminina em sua relação com o gozo, não necessariamente sexual. As diferentes constituições do sujeito masculino e do feminino definem os modos diversos de laço com o gozo. Se o masculino se orienta por balizas culturalmente definidas e seu gozo é circunscrito a elas, o feminino se relaciona com as ausências de garantias e sua modalidade de gozo aponta a um mais além do determinado, conferindo caráter de enigma sobre o que ela deseja. O que, então, pode reunir a divergência das buscas? O que impossibilita o encontro entre masculino e o feminino? Destas proposições é possível, e necessário, investigar alguns de seus desdobramentos, como as diversas modalidades de articulação entre identidades de gênero, sexo biológico e escolha de objeto, o que implica em deslocar a referência da distinção anatômica, para a dimensão da fantasia. Por este caminho, abre-se também a possibilidade de superação dos bina- novembro 2012 l correio APPOA .3 notícias. rismos (homem/mulher, feminino/masculino, ativo/passivo, etc.), e do reconhecimento de uma diversidade de formas de gozo. Por outro lado, as fórmulas da sexuação fornecem um fundamento lógico às leis da linguagem que estruturam o laço social, que podem organizar a vida coletiva de diferentes maneiras, delimitando lugares que possibilitam ou impossibilitam ao sujeito e o desejo, prescrevendo diferentes formas de gozo e modos de funcionamento institucional. PROGRAMA: SÁBADO 9h 9h30 Abertura Algumas boas razões para esquartejar o marido – Alfredo Nestor Jerusalinsky 10h30 11h Intervalo As práticas de furar o corpo e a mácula pubertária – Ana Maria Medeiros da Costa 14h As fórmulas da sexuação e a psicanálise em extensão – Cartel da Linha de Trabalho do Instituto APPOA: O Desejo do Analista nas Práticas Institucionais 15h30 16h Intervalo O nó da sexuação – Ligia Gomes Victora DOMINGO 9h30h 10h30h 11h A doença do amor(te) – Maria Rosane Pereira Intervalo As modalidades de gozo, entre o corpo e a fantasia – Eduardo M. Ribeiro, Lúcia A. Mees e Marta Pedó – Cartel da coordenação do estudo do Seminário Mais, Ainda 12h30 4. Encerramento correio APPOA l novembro 2012 O humor nosso de cada dia. Antecipadas, até 14/11 Após ou no local Associados R$ 120,00 R$ 140,00 Estudantes/recém formados* R$ 130,00 R$ 150,00 Profissionais R$ 140,00 R$ 160,00 * Estudantes de GRADUAÇÃO e recém formados até 2 anos devem enviar comprovante por e-mail ou fax. • Na sede da APPOA • Horário de funcionamento da Secretaria da APPOA: De segunda a quinta-feira, das 8h30m às 21h30m e as sextas-feiras das 8h30 às 20h. • Inscrições mediante depósito bancário, para Banco Itaú, agência 0604, conta-corrente: 32910-2 ou Banco Banrisul, agência 0032, conta-corrente 06.039893.0-4. Neste caso, enviar, por fax, o comprovante de pagamento devidamente preenchido, para a inscrição ser efetivada. • Inscrições pelo site www.appoa.com.br, após efetuar a inscrição pelo site, enviar por fax ou por e-mail o comprovante de pagamento devidamente preenchido. • Inscrições para grupos, informe-se na Secretaria da APPOA. • As vagas são limitadas. APPOA na 58ª Feira do Livro de Porto Alegre Lançamento com sessão de autógrafos Revista da APPOA nº 40 – O Infantil na psicanálise. Vários autores – org. APPOA 28 de outubro (domingo) às 18h Local: Praça Central de Autógrafos Debate: Uma, Duas! Afinal, como nos contamos? 02 de novembro (sexta-feira) às 18h Participação: Eliane Brum, jornalista e escritora e Eda Estevanell Tavares, psicanalista. Local: Sala Oeste do Santander Cultural novembro 2012 l correio APPOA .5 notícias. Encontra-se no prelo mais um livro sobre o humor, de Abrão Slavutsky 1 O humor consegue refletir com graça sobre a tragédia humana. Logo, é uma vacina com doses moderadas de ceticismo que imunizam nossa seriedade. O problema do humor é o preconceito quanto a sua importância. Só nos últimos anos vêm crescendo os estudos sobre esse dom, em todas as áreas do conhecimento. Logo, hoje já é certo afirmar que o humor é sério como dizer que ele não é. Na verdade ele ultrapassa a seriedade e assim chega a quintessência da realidade. Para isso ele alça voo e muda o ponto de observação, muda a ótica com que vê o mundo. É assim que o humor abre portas e corações, gerando um gozo ilusório que erotiza a existência. Quem pensa ser um exagero o poder do humor, convido a lerem o capítulo O humor no Holocausto. Uma sobrevivente dos campos de concentração, afirmou que a invenção de piadas foi indispensável para permanecerem humanos. O psiquiatra Victor Frankl, prisioneiro em Auschwitz, escreveu: “o humor foi uma arma na luta pela autopreservação”. Graças ao humor é possível enfrentar a vida, nesse mundo meio louco, e ainda sorrir. E, principalmente, ele alivia as dores das perdas como escreveu Carlos Drummond de Andrade: “O primeiro amor passou. O segundo amor passou. O terceiro amor passou. Mas o coração continua... Algumas palavras duras, em voz mansa, te golpearam. Nunca, nunca cicatrizam. Mas e o humour?”. Está certo o poeta, por que o sentido de humor distende os nervos do mundo. Aliás, a poesia e o humor são bons amantes como logo se verá. Nunca se sabe quando começa um livro, e às vezes essa questão não é importante. Mas nesse caso talvez sim. Creio que tudo começou quando eu tinha uns quatro anos e meio metro de altura. Minhas irmãs me punham em cima de uma cadeira para assistir ao Vagabundo, de Chaplin. Ficava com os olhos arregalados e vibrava com suas piruetas e astúcias. Ali come- 1 Texto que é o prólogo do livro a ser lançado em breve. 6. correio APPOA l novembro 2012 O humor nosso de cada dia. çou essa história que seguiu pelo humor brasileiro, judaico, argentino (los hermanos são formais, mas têm bons humoristas) e tantos mais. Atualmente sigo Woody Allen, que numa de tantas entrevistas disse: “As pessoas me gozam e dizem: Tu, com tanta psicanálise, és tão neurótico”. Ele então disse que diria: “Tive uma vida produtiva, trabalhei duro, nunca caí numa depressão e não sei se poderia fazer tudo isso sem análise”. O humorismo e a psicanálise se juntam aqui nesse livro que sonha em ser uma ponte: entre o peso da psicanálise à leveza do humor. Freud, felizmente, escreveu um livro sobre a piada e sua relação com o inconsciente e no fim da vida afirmou que o humor é um dom precioso e raro. Um elogio e tanto desse sóbrio pensador que revolucionou a forma de se ver o ser humano. A psicanálise revelou que o humor diz mais da condição humana do que se imagina: apesar de risonho, ele é sério. Se for mesmo assim, os humoristas poderiam ser considerados os sábios da atualidade. Mas aí o humor ficaria prosa, deixando de ser um andarilho sem reino. O tema do humor se mostrou maior que imaginei. Precisei, por exemplo, buscar suas raízes nos primeiros anos de vida, onde encontrei o engraçado inconsciente. E fui atrás dos opositores do humor, das possibilidades de se melhorar o sentido do humor. Foi indispensável buscar nas artes o substrato da leveza, que é, como se verá, nosso norte, que alivia o peso da morte. Finalmente: apesar de haver um sumário, cada leitor siga sua ordem ou desordem. Aliás, em se tratando de humor, é indispensável ser rebelde. Ele também é indispensável na arte de erotizar a existência, por que nos mantém ativos e excitados. Ao princípio escrevi que o humor abre portas e corações, mas sendo um afrodisíaco, também abre almas e corpos. E agora se abrem as portas do livro, sejam bem vindos, com votos de bom humor a todos. novembro 2012 l correio APPOA .7 notícias. Festa de fim de ano A vida boemia das grandes metrópoles sempre se desenvolveu em torno de um tipo de ponto de encontro específico. Em Paris são os bistrôs; em Londres, os pubs; em Nova York, os bares; no Rio, os botequins. Na APPOA, teremos o Boteco 258. Venha comemorar nossa festa de final de ano degustando comidinhas e bebidas de boteco e, MAIS AINDA, embaladas por muito chorinho, mas tudo na maior alegria. Data: 15/12/2012 Horário: 21h Local: APPOA Valor do convite: Até o dia 07/12: R$ 80,00 Após: R$ 90,00 8. correio APPOA l novembro 2012 temática. A escuta livre da máscara da seriedade Entrevista com Abrão Slavutzky sobre o humor na psicanálise Correio: Caro Abrão, a psicanálise tem uma teoria própria sobre o humor, mas acreditamos que não tirou muitas consequências dela para pensar o humor na clínica. Você tem se dedicado a pesquisar sobre o tema, o que tens pensado sobre essa questão? Slavutzky: Antes de mais nada, asseguro que essa conversa pensada por vocês é uma ousadia, logo recebam já os parabéns. Uso aqui a palavra ousadia na linha que propõe Kant quanto à ousadia de pensar. Ser psicanalista implica uma ousadia: de escutar o outro, de dizer algo, de ter o desejo junto ao paciente, de ver um mais além da consciência. A questão é se somos ousados para pensar o novo, o diferente, o que foi pouco pensado, ou o que não foi pensado. Seguir Freud, seguir Lacan, seguir Winnicott significa repetir e confirmar uma e outra vez o que pensaram, ou ser de forma humilde um ousado também? Às vezes fico com a impressão que fui sempre pouco ousado para pensar e agora engatinho com o tema do humor, do desamparo e da busca da leveza. novembro 2012 l correio APPOA .9 temática. Nos últimos quinze anos, pouco menos, venho pensando a leveza, a sua relação com o peso. Descobri que já Parmênides com seus pares de opostos tinha nessa questão um tema importante. Optou pela leveza como Chaplin, que diante da guerra, da pobreza, da dor, fez humor e com isso aliviou o mundo de seu peso. Não sei, mas tenho no pai do Vagabundo um herói, uma referência de ética, de estética. Meu desejo não seria hoje ser freudiano, lacaniano, mas ser chapliniano. Não sou, eu sei, mas se puder a partir de escutar os pacientes, a partir de escrever, de conversar, gerar alguma leveza nesse mundo pesado, ficarei feliz, mais leve. A clínica psicanalítica é espirituosa, está imersa no humor, logo não diria um humor na clínica, mas a clínica mesmo tem no Witzig – espirituoso – o modelo da interpretação. Aliás, é de Lacan a expressão: “A interpretação analítica é uma resposta que iria mais do lado do mot d’esprit”. Começo pelo Witz, A piada e sua relação com o inconsciente, livro conhecido e desconhecido, marginal como o humor. Recordo que a piada é a mais social de todas as atividades psíquicas que tem por alvo o gozo. Ela revela ao final um desejo inconsciente que gera o riso. O Witz ou a piada pode ser o modelo da escuta psicanalítica, pois a livre associação e a piada adotam um mesmo modelo de formação de compromisso entre o recalcado e o consciente. Uma representação que busque ao mesmo tempo satisfazer o desejo inconsciente e as exigências defensivas. Por sua vez, a escuta analítica depende da habilidade do analista encontrar semelhanças escondidas nas livres associações dos analisandos. Logo, uma das características do ato analítico, como se sabe, é a concisão, outra semelhança com a piada. Recordo o que escreveu J.P. Richter: “a concisão é o corpo e a alma do Witz é o próprio Witz”. Um exemplo, para que a resposta e a conversa não fiquem chatas. Uma senhora judia riquíssima e feia chamada Rivke encontra no Bom Fim uma conhecida bem mais pobre, a Surale, e essa vai logo lhe dizendo: – “Rivke como estás bonita hoje!” e essa meio envergonhada responde: – “Bondade sua”. E a Surale olha bem a Rivke e diz: – “Bondade mesmo”. Então aí está 10. correio APPOA l novembro 2012 O humor nosso de cada dia. na palavra bondade um duplo sentido que arrasou a riquíssima Rivke. Há na palavra bondade uma condensação. Na clínica ocorrem situações espirituosas e engraçadas, pois o inconsciente é engraçado aos olhos do consciente. Afinal os mecanismos de condensação e deslocamento da formação do sintoma, do sonho, do ato falho, também é o da piada. Todas são formações do inconsciente. Correio: Por que será que o humor e suas possibilidades ocupam tão escasso espaço em nossas reflexões? A psicanálise sempre foi contestada, sempre teve que se provar, será que a nossa máscara de seriedade para sermos aceitos na comunidade científica nos contaminou? Teríamos nos agarrado à corrente do senso comum de que o relato sério é mais verdadeiro? Slavutzky: A Psicanálise é séria, nós psicanalistas somos sérios, mas o humor é coisa séria! Entretanto, gozemos da seriedade, a nossa e a dos outros. Além do que, a seriedade é limitada para dar conta da condição humana. A piada como se viu é séria, mas é piada, foi isso que percebeu Freud e depois esqueceu em quase toda sua obra. É um enigma: porque ele escreveu um longo e importante livro em 1905 e o relegou, retornado vinte e dois anos depois, em 1927, no seu trabalho Humor? Dois anos antes, em seu Estudo Autobiográfico, escreveu que o tema do livro das piadas é um tema secundário! Creio que o Witz, o humor, deveria estar no centro da clínica psicanalítica. O humor e a psicanálise têm em comum ver o outro lado de tudo e para isso precisam ver (escutar) a uma certa distância, e perceber a graça até nas desgraças, quando for o caso. A máscara da seriedade mascara a escuta inconsciente, ensurdece um pouco a capacidade de escutar. Correio: As pessoas capazes de humor, aquelas que entendem uma piada, um trocadilho, uma ironia lúdica, são a priori mais sensíveis aos efeitos do discurso, seria indício de permeabilidade a escutar-se, a beneficiar-se da experiência da psicanálise? No sentido inverso, a ausência de capacidade para suportar, compreender e fazer humor é indicativa de um tipo de estruturação psíquica? novembro 2012 l correio APPOA .11 temática. Slavutzky: As pessoas capazes de humor incluem a nós psicanalistas? Espero que sim e penso que, às vezes, nos falta sentido de humor. Ou seja: muitos psicanalistas podem ser bem humorados fora do consultório, mas dentro é como se perdessem um pouco a espontaneidade. Já percebi isso em supervisões, em mim nos primeiros vinte anos de clínica quando seguia um modelo aprendido em Buenos Aires. As pessoas bem humoradas levam vantagem, como uma vez disse Millôr Fernandes: “o bom humor compreende o mau humor, esse é que não entende nada”. O mau humorado vive quase de forma invariável uma vida sem graça. Um dos maiores opositores do humor é a queixa, típico do mau humorado, ressentido, perseguido. E, às vezes, nós somos muito queixosos, não? E como escreveu Isaac Babel: “Motivos para queixas qualquer idiota tem, difícil é rasgar o véu da existência com alegria”. Correio: Aliás, a psicanálise não tem uma boa teoria sobre a transmissão da vontade de viver, do gosto de viver, e da alegria de viver. Slavutzky: Uma teoria da alegria de viver é engraçado... não sei se essa teoria seria alegre ou pesada. Para esse desafio, deveríamos contratar um holandês bom de bola que é Spinoza. Freud em uma carta de 28/6/1931 à Lothar Bickel, um spinozista, afirmou sua dependência em relação a sua doutrina. Spinoza escreveu sobre a importância da alegria como paixão positiva. Ele enfatizou os perigos da impotência da alma. Exemplo atual: O empolgante filme francês, Intocáveis. Há uma questão contrastante entre o peso das teorias, o peso das palavras psicanálise, psicanalista, instituições e a leveza necessária para se viver bem, para se viver com alegria. Há anos atrás li de Ítalo Calvino seu livro Seis propostas para o novo milênio. A primeira proposta é sobre a leveza e ela foi um orientador para a clínica. Quando a análise vai bem deve melhorar a leveza de viver do paciente e da gente. Indispensável portanto diminuir as queixas, que são choros tristonhos, e assim libertar energia para criar. Quando os psicanalistas e pacientes conseguem isso, podem dizer, como Quintana: “Nós passarinho, eles passarão”. Também Pablo Neruda em suas Odes Elementales escreveu: 12. correio APPOA l novembro 2012 O humor nosso de cada dia. Porque aprendi luchando que és mi dever terrestre propagar la alegria. Vejam que o poeta aprendeu lutando, logo não foi fácil. Enfim o humor e a poesia, eis uma grande dupla para a clínica, a vida e o sexo. Correio: Será que um dia vamos entender o humor além de uma modalidade de defesa? Slavutzky: Entender o humor além da modalidade de defesa é chave. O humor pode ser visto como uma defesa, mas é antes de mais nada um mais além, é uma forma de ver o mundo, é uma visão de mundo, na formulação de Wittgenstein. Ver o mundo sob a ótica do humor é ver o mundo à distância, numa visão mais leve da loucura humana, que é pesada. Se estamos mais neuróticos sofremos mais, se estamos menos sofredores podemos desfrutar, temos mais tesão para criar, amar e nos divertir. Em algum lugar disse Lacan que a vida não é trágica, é cômica! Correio: Não é raro encontrar pacientes que contam suas desgraças rindo, tomando a si mesmos como um terceiro de quem gozam. Eles vêm nos divertir com o palhaço que são para os outros e para si mesmos. Aqui o humor pode ser uma resistência ou não? Ou partimos da posição de que isso foi uma conquista do paciente e vamos além, aceitando o jogo, deixando ele seguir? Slavutzky: Paciente que se toma como terceiro para gozar e fazer gozar me faz lembrar de humoristas que fazem graça a partir de si mesmos. Nos Estados Unidos, alguns humoristas que faziam um humor de humilhação a si, terminaram se matando com drogas. Nesses casos o humor está a serviço da mortificação, e estamos no terreno de um masoquismo perigoso. Tudo depende da intensidade e de como essa atitude pode conter um traço maníaco pelo qual convém não se deixar seduzir. Aliás, o humor é muito sedutor, para o bem e para o mal. Sobre aceitar o jogo do paciente, no princípio é quase inevitável, mas aí aos poucos é necessário perceber o quanto esse jogo é criativo e o quanto é um jogo de cartas marcadas, em que o paciente repete um disfarce de palhaço, em que se humilha para ser amado. novembro 2012 l correio APPOA .13 temática. Correio: Há pacientes para quem o mundo é uma festa para a qual só eles não foram convidados. Eles reagem mal ao humor. Para estes, se nós rimos, fazemos parte dos que gozam, um coletivo do qual eles se sentem excluídos, e é como se estivéssemos rindo deles. Lembramos desses, entre outros, em que o humor na clínica não é bem vindo. Nesse sentido, acreditamos que uma análise bem humorada depende do convite do paciente, ele nos indica que esse recurso é possível. Você pensa que nós podemos convidar também esses pacientes para rir dos sintomas, das desgraças? Slavutzky: O que é analisar? O que é ser analista? Quando se pode dizer que uma análise caminha para que o paciente se torne mais sujeito que sujeitado? Bom, aqui estou mudando as regras da conversa e pergunto a vocês. Querem responder? Servem as perguntas para pensar e sou partidário que se pergunte o que é mesmo ser analista, o que é analisar. Em uma conferência, Charles Melman disse que é fácil ser psicanalista. Fez-se silêncio e ele respondeu: “É só saber o que é ser judeu?” Dizem que se criou um clima de espanto e desagrado. Ele então disse que assim como faz parte da identidade do judeu perguntar sobre si mesmo, o psicanalista deve também se perguntar. Nunca imaginei convidar um paciente para que se ria, mas eu às vezes rio e dependendo da situação até gargalhei. Análises sérias e tensas, ou muita sofridas, são inquietantes. Sem dúvida que a clínica tem dimensões de risco quanto a drogas, riscos de dores psíquicas crônicas, riscos de vida, que exigem cuidados e aí não há quase espaço para se rir inicialmente. Situações graves exigem sempre cuidados, mas abrir uma janela de graça é um ar novo, é quase uma benção profana que suaviza as dores. Correio: A gargalhada do analista é uma arma que raramente usamos na clínica, mas é demolidora. Deve ser usada com parcimônia. Mas acreditamos que todo analista já usou. O que você pensa disso? Slavutzky: Nunca pensei nisso, mas já dei gargalhada como recém disse, mas é interessante refletir sobre os efeitos terapêuticos. Estou de 14. correio APPOA l novembro 2012 O humor nosso de cada dia. acordo que numa análise pode haver momentos mais graciosos. Só fiz isso quando já havia uma boa transferência, um tempo razoável de análise, de confiança. É preciso cuidar, pois um riso, algo engraçado, pode ser levado para o lado da ironia, de uma atitude mais agressiva. Além do que, usá-las de forma planejada seria impossível, é um pouco como planejar uma pontuação ou interpretação. São situações que ocorrem quando há um clima mais descontraído na análise. Daniel Sibony em um livro recente, Le sens Du rire et de l’humour, escreve sobre a importância do riso, dos sons alegres que irrompem. De qualquer forma, quando um paciente ri pelo que disse ou pelo que escutou, exprime uma descontração, uma alegria, algo do inconsciente que chegou ao consciente. Os efeitos desses momentos são agradáveis, como um momento festivo que alivia as tensões da existência. Percebo que tanto o paciente como o analista nesse riso descontraído se aproximam, celebram uma vitória. Talvez sejam momentos de conquista. Correio: O estilo de uma clínica é, infelizmente, algo pouco comentado e ou estudado. Uma clínica bem humorada vai nessa direção? Slavutzky: Nunca me ocorreu a idéia de uma clínica bem humorada, e sim de que tanto o analista como o paciente possam desenvolver seu sentido de humor, sofrer menos com seus sintomas, até rir um pouco deles. Um paciente para se sentir bem, curado até, teria que apresentar uma melhora no seu sentido de humor, para achar um pouco graça dos sintomas que insistem, algo como afrouxar os nós sintomáticos. Correio: É uma característica da cultura judaica a capacidade de rir de si mesmo, fazer piada sobre sua condição de exclusão, de auto-comiseração, do vínculo acirrado com a mãe e da competição entre os homens. Acreditas que Freud deixou algo disso fazer parte da teoria e da clínica psicanalíticas? Slavutzky: Freud tinha o desafio de criar a Psicanálise, de analisar, escrever, enfim foi um criador de raro talento. Irrompem na sua obra aqui novembro 2012 l correio APPOA .15 temática. e ali fios que devem ser retomados. Em especial seu breve ensaio de 1927 sobre humor, quando ele define esse dom como precioso e raro. Não encontrei nas suas correspondências, artigos, livros um elogio tão enfático como esse para outra qualidade humana, logo ele um homem sério, de ciências, que elogiava pouco. E já tinha então 71 anos quando fez essa afirmação. Tinha perdido sua filha, seu neto querido e estava com câncer na mandíbula! E tem aquela frase da Gestapo, quando solicitado a assinar que havia sido bem tratado, acrescentou que sim e recomendava a Gestapo! O sentido de humor de Freud foi evidente, escreveu um livro inteiro sobre as piadas e sua relação com o inconsciente. Pacientes lembram dele como bem humorado quando foi ficando mais descontraído como analista. Tinha um humor judaico, sem dúvida. O judaísmo de Freud foi significativo e marcante na sua obra. Às vezes se estudam “Os Escritores e Freud”, a “Filosofia e Freud”, e outras interfaces, mas e o “Judaísmo e Freud”? Lacan deu uma conferência incrível sobre o Talmud (mesmo sabendo pouco) e sua influência em Freud e na psicanálise. Outra questão: Não deixa de ser engraçado que um homem como Freud, conhecido por sua seriedade, em suas fotos raramente ri, goste tanto das piadas. Os relatos de quem o conheceu mais de perto revelam um homem que desfrutava do prazer de contar piadas e fazia observações espirituosas. Joan Riviere, psicanalista inglesa, paciente de Freud e tradutora de sua obra, relata que no consultório ele era de uma alegria encantadora. Tinha capacidade para achar diversão na maioria das situações. O mesmo relata Franz Alexander, psicanalista húngaro, ao lembrar como Freud ilustrava os temas com anedotas e piadas. Também adorava contar contos, e os temas sérios perdiam sua austeridade artificial com a qual se investem. Martin, seu filho, o descreve como um homem de coração alegre. Hans Sachs, psicanalista dos primeiros tempos, relata que as conferências de Freud na Universidade tinham um tom de conversa, atravessadas por observações engenhosas. 16. correio APPOA l novembro 2012 O humor nosso de cada dia. Correio: O humor tem futuro no mundo psicanalítico? Slavutzky: Não sei, depende de quem? De nós. Essa conversa é uma conversa de vanguarda, ousada, é a primeira que uma instituição psicanalítica propõe, que eu saiba, por aqui. Sinal dos tempos, estamos perdendo a virgindade de conversar sobre humor, mas estamos meio sérios não? Correio: Que tema pensas importante estudar e investigar no humor? Existe algo especialmente negligenciado? Slavutzky: Sim, o humor infantil, pois praticamente não há nada em Psicanálise, a não ser trabalhos interessantes dos comportamentalistas. Não há dúvidas hoje que esse humor faz parte da vida de uma criança a partir de um ano e meio mais ou menos e como a linguagem evolui o humor também, pois ambos são expressões do simbólico. Correio: É possível melhorar o senso de humor? Slavutzky: Sim, não sempre, mas muitas vezes. Depende inicialmente do analista. Minha primeira analista era boa, querida, bonita, mas era uma argentina mais para séria quando sentava na sua poltrona. Era assim Buenos Aires de quarenta anos atrás, uma cidade mais kleiniana que hoje. Meu segundo analista já foi diferente e eu também estava diferente e foi um clima mais bem humorado e ele se permitia mais liberdade na relação. Era mais velho, mais solto e descontraído. Aliás, o humor, o sentido de humor implica em ser irreverente, poder brincar, e se mortificar menos. Há uma frase do início da história da psicanálise que convém pensar: “Transformar o sofrimento neurótico num infortúnio comum”. Se uma análise consegue ao seu final diminuir o sofrimento do paciente fico satisfeito. Se consegue diminuir o sofrimento e ainda auxiliar na sua criatividade, melhorar seu humor, ajudá-lo a ser sujeito de si, logo mais livre, então considero um êxito da dupla analista/analisante. Uma análise em que não se melhora o sentido de humor do paciente e do analista é, talvez, uma análise limitada em seus efeitos. Mas é preciso paciência; lembro um paciente que há muitos anos vinha na sessão e sem- novembro 2012 l correio APPOA .17 temática. pre dizia que sua vida estava mais ou menos. Toda a semana durante um ano tudo era para ele mais ou menos, seja o trabalho burocrático, seja seu casamento e até a música onde ele era baterista. Um dia me disse, inquieto, que havia gasto dois mil reais numa caixa, a melhor que tinha. Não havia dito para a esposa, pois eles juntavam dinheiro para comprar um apartamento. Eu o escutei, fiquei surpreso e feliz e disse: – “Parabéns, agora compraste não uma caixa mais ou menos como a que tinhas, mas tens a melhor”. Pensei que, finalmente, ele tinha optado não só por uma caixa melhor, mas de por mais entusiasmo, coragem, alegria na sua vida. Quando o parabenizei, é claro, não tinha certeza do que viria, mas acreditei mais nele e no futuro da análise. Ufa, algumas vezes a gente acerta, o que alivia, outras somos mais ou menos. Sua decisão de comprar a caixa possibilitou, mais adiante, crescer seu compromisso com a música. Aos poucos foi desejando uma mulher que gostasse também de música e sua vida se transformou. Nosso humor melhorou com o tempo. Correio: Mas é difícil melhorar o senso de humor? Slavutzky: Sim, diria que é preciso ser menos narcisista, suportar suas falhas, às vezes poder sorrir diante delas. Somos meio pomposos quando sentamos na poltrona, o paciente no divã e somos idealizados, às vezes venerados. Como abrir mão de certa vaidade, diminuir em si mesmo certa arrogância de poder? O humor aí ajuda a sermos mais humildes, aliás, o humor goza tudo, e gozando critica, coloca a ética como seu norte. O humor é rebelde na sua essência. Rebelde foi a identidade que mantive quando perdi a fantasia de ser revolucionário, uma fantasia totalitária e mal humorada. Mas cuidado, que se ficamos muito presos a teorias, a cruzadas na defesa da psicanálise, por exemplo, já deixamos a ousadia do humor de lado. O humor é marginal e talvez marginal até no mundo psicanalítico. Correio: Tu melhoraste teu senso de humor...? Slavutzky: Minha neta me chama de um leão idoso palhaço. Demorei três análises para ser palhaço, e foi só a terceira, a auto-análise que fiz, escrevendo anos sobre humor, que me deu esse título. 18. correio APPOA l novembro 2012 O humor nosso de cada dia. Correio: Você é conhecido não só por ser bem humorado, mas também por teorizar sobre isso. Por que e por onde essa questão do humor te pegou? Slavutzky: Não sabia que era conhecido por ser bem humorado, obrigado. Já fui mau humorado, às vezes me inquieta quando penso em décadas atrás quando fiz e disse bobagens, me achava com razões que se revelaram vazias. Felizmente o humor foi um capítulo do meu primeiro livro Psicanálise e Cultura, o único tema que não me deixou daqueles tempos. De qualquer forma, essa última pergunta é muito psicanalítica sobre por onde me pegou o humor. Mas não deixa de ser engraçado ser entrevistado por psicanalistas que não desejassem me analisar! Nós estamos sempre nos analisando. Mas vale a pergunta, diria um catalão, vale pois o humor me pegou aos quatro anos vendo O Vagabundo de Chaplin. Fui autista até essa idade, dizem os adultos que não falava, era mudo e distante, não olhava nada quando me levavam a passear. Foi tanta emoção que, passados sessenta anos, ainda gosto de ver o menino de meio metro em cima de uma cadeira. Vibrava com as piruetas daquele pobre que sempre ganhava. Era solitário, não tinha nada, a não ser uma bengala, um chapéu e roupas engraçadas. Há pouco mais de dez anos, com o tema do humor fui recuperando mais e melhor aquelas vivências. Elas se somaram depois ao humor judaico e ao humor brasileiro com o Amigo da Onça e o Pasquim. Mais recentemente, o humor me pegou desde que escrevi o primeiro ensaio sobre o tema: A piada e sua relação com o inconsciente ou a psicanálise é muito séria. Entrou em livro, em sites que levou a leituras de colegas desconhecidos, como o Daniel Kupermann, que fazia um doutorado no Rio de Janeiro sobre o tema. Então fizemos o livro Seria trágico... se não fosse cômico, em 2005. Quem sabe um dia o humor comece a pegar mais no mundo psicanalítico? Se não for assim ele seguirá em certa posição marginal, o que é bom também. novembro 2012 l correio APPOA .19 temática. Para concluir: O humor é mais que um estado de espírito é uma visão de mundo que tem na ética seu norte. O humor, se sabe, mas convém repetir, é rebelde, crítico, irreverente e incomoda pois goza com tudo: teorias, líderes, heróis, religiões, instituições. Na ética do humor há o primado da liberdade e essa liberdade é, creio eu, um princípio ético. Bom, falei bastante e imagino que foi toda uma consulta essa última pergunta e paguei com muitas palavras, virei um paciente. E assim matei as saudades de análise. 20. correio APPOA l novembro 2012 temática. Altruísmo e humor 1 Lúcia Alves Mees No último fim de semana2, Porto Alegre foi brindada com a encenação de “Os altruístas”, de Nicky Silver. As excelentes performances dos atores e o texto contundente poderiam se incluir no presente à nossa cidade aniversariante. Presente à reflexão. Mariana Ximenes abre a peça no papel de Sydney, atriz de novela, rica e vaidosa, a qual se relaciona com Tony (Miguel Thiré), ativista político e mulherengo. A atriz, em altíssimos saltos, cambaleia pelo palco, assim como acontecerá ao longo da montagem com os ideais de nosso tempo: a política é reduzida a uma reunião de contras, seja lá a quê; o amor e o sexo são 1 Texto escrito para o jornal eletrônico Sul 21, em março de 2012, após o dia 26 deste mês, data do aniversário de Porto Alegre. Após a apresentação da peça, alguns colegas da APPOA, os atores e a equipe técnica realizaram debate sobre a mesma. 2 Dias 31 de março e 1º de abril (Nota do Revisor). novembro 2012 l correio APPOA .21 temática. rebaixados às relações de uso e interesse; e as escolhas sexuais também são postas em falso nos saltos usados pelos atores de corpos másculos e na indagação sobre a consistência da homo e da heterossexualidade. O humor do texto faz rir dessas periclitâncias da atualidade e produz emudecimento no seu final pelo impacto que acarreta. No debate posterior à peça, o excelente ator Kiko Mascarenhas propõe a questão: “a encenação se dirige a quem?” Talvez a pergunta pudesse ser “o que se faz com a queda dos ideais?”, ou ainda, “quando se levanta a censura e se revela o ilusório dos ideais culturais, qual resposta é convocada?” A peça apresenta o que poderia ser a saída cínica, aquela que constata para afirmar. Pois o cinismo implica a falência da crítica social e da leitura crítica. A racionalidade cínica não permite pensar a crítica como indicação de discrepâncias entre as situações sociais concretas e os ideais que as fundamentam. Entretanto, esta não parece ser a intenção do autor do texto Nicky Silver. Em entrevista a jornal do Rio de Janeiro afirmou que quer chocar, embora ache que isso não seja mais possível por que “a cultura se tornou tão nebulosa, não há mais limites sociais e isso me leva a crer que é virtualmente impossível chocar”. No texto de Os altruístas, de 1996, ele inclui a ironia para tentar aturdir através daqueles “que acreditam que são altruístas e que estão se sacrificando como seres humanos, mas em prol de uma causa abstrata que nem eles conseguem identificar”. Acrescenta por fim que o humor é a única ferramenta que temos para sobreviver. Freud já afirmara algo próximo disso: o humor permite que alguém se livre dos efeitos desagradáveis de algo, e que rir da própria sorte é uma forma de estar “acima de seu destino”. Sobre a indagação se o humor é cínico, Freud responde que ele não é resignado e sim rebelde, visto ser um recurso desenvolvido para reagir ao sofrimento e à opressão. Porém, o humor reverenciado por Freud é aquele em que o sujeito está incluído. Ele ri de si próprio e liberta-se de ter de sustentar uma imagem 22. correio APPOA l novembro 2012 O humor nosso de cada dia. narcísica de si mesmo. Ri de suas fraquezas, de suas imperfeições. Logo, o humor transformador é aquele que se dirige a cada um de nós, implicandonos. Diferente disso é o humor que acha graça da humilhação do outro, de suas limitações ou estranhezas. Em tempos de queda dos ideais sociais, tempos de humorista que faz piada sobre comer o bebê da grávida ou das “brincadeirinhas” agressivas nas escolas, importa pensar sobre o que é sério e o que é risível em nossa cultura atual. novembro 2012 l correio APPOA .23 temática. O humor irreverente de Marcel Duchamp1 Edson Luiz André de Sousa “La plus belle poubelle du monde dans un courant d’art” M. D. Marcel Duchamp (1887-1968) produziu com sua obra um corte radical na história da arte. De sua atitude irreverente sublinho este fragmento de sonho ali alojado (rêver),2 indicação de um olhar reversível já que podemos ler este sonho de ambos os lados: fluxo e contrafluxo em continuidade.3 Seus trabalhos, seus escritos e mesmo seu silêncio foram fonte de novas imagens. Com elas, podemos entender melhor alguns impasses de nossa 1 Texto publicado originalmente no livro Seria trágico se não fosse cômico: humor e psicanálise organizado por Abrão Slavutzky e Daniel Kupermann, Civilização Brasileira, RJ, 2005. 2 Em francês rêver significa sonhar. 3 Agradeço à Elida Tessler a indicação preciosa deste sonho alojado na irreverência. novembro 2012 l correio APPOA .25 temática. época, e a partir delas criar, quem sabe, mais alguns. Artista polêmico, provoca até hoje grandes discussões em torno do sentido de suas proposições. Como Rembrandt em sua clássica pintura Lição de Anatomia do Doutor Nicolaes Tulp de 1632, onde vemos o corpo sendo dissecado revelando este obscuro de dentro até então sagrado, Duchamp da mesma forma tenta dissecar o cadáver máquina que nos alimenta e revela de forma enigmática e provocativa os funcionamentos dos circuitos da vida em nossos tempos. Na pintura de Rembrandt, é o braço e mão do cadáver que mostra o artista. Duchamp certamente também se vale desta anatomia, mas acrescenta a ela a dissecação do pensamento. Anatomista, portanto, do tempo máquina que institui lógicas de contatos, imperativos de produção, velocidades de movimentos, sedução por uma assimilação mimética aos circuitos de produção de valor do capital. Insurgindo-se contra a alienação sedutora que os ideais sociais de produtividade formataram nos espíritos humanos, buscou na arte uma forma de retalhar as superfícies absolutas que o saber institui, tanto pela potência hiperdimensionada e idealizada dos discursos científicos e religiosos, motores potentes da maquinária social, quanto pelas imagens inflacionadas dos narcisismos dos indivíduos se outorgando posições excessivas e violentas no contato com seus pares heterogêneos. Neste ponto, considerava a arte como uma das únicas esperanças. “Em geral, quando dizemos eu sei, não sabemos, cremos. Eu creio que a arte é a única forma de atividade pela qual o homem enquanto tal se manifesta como verdadeiro indivíduo. Através dela somente ele pode ultrapassar o estágio animal já que a arte desemboca sobre regiões onde não se domina nem o tempo nem o espaço”.4 A arte vem neste ponto numa posição de contracorrente às lógicas absolutistas da ciência e da religião. No plano dos pequenos circuitos narcísicos, Marcel Duchamp não poupou críticas a um estilo de funcionamento que se alimenta do que po- 4 DUCHAMP, Marcel. Duchamp du Signe. Paris, Flammarion, 1975, p. 185. Este fragmento é um trecho de uma entrevista concedida por Marcel Duchamp a James Johnson Sweeney. 26. correio APPOA l novembro 2012 O humor nosso de cada dia. deríamos chamar uma prepotência do gosto. O gosto tanto é instituído pelos clichês sociais dentro de uma lógica de valores da moda, do poder, das convenções instituídas coletivamente, como pelos clichês individuais baseados na força do hábito. Marcel Duchamp não buscava evidentemente agradar seus espectadores para que gostassem de seu trabalho. Pelo contrário, se preocupava em interrogar o mecanismo sutil que institui o que a sociedade aprova e o que não aprova. O perigo, dizia Duchamp, é de agradar ao público mais imediato, o público do seu entorno que consagra o artista e o recompensa com o sucesso. Ele preferia esperar um século para tocar seu verdadeiro público.5 Portanto, um visionário que materializa o que Ezra Pound pensava ser a função do artista, uma espécie de antena antecipatória dos ares do seu tempo. A crítica ao gosto não deixa de ser um balde de água fria no calor aconchegante do senso comum que nos aquece nos invernos sombrios dos enigmas que temos que enfrentar na vida. Duchamp se insurgia contra o gosto por ver nele uma repetição do instituído. “O gosto é um hábito. Recomece alguma coisa durante um certo tempo ela se torna um gosto... Que o gosto seja bom ou mal, isto não tem nenhuma importância, pois ele sempre é bom para uns e mau para outros. Pouco importa a qualidade, trata-se sempre do gosto.”6 Trabalho, portanto, de resistência. Abre um verdadeiro espaço de pausa gerando muitas reverberações que nos iluminam cada vez mais. A lente de Duchamp tem a qualidade de indicar o avesso de algumas imagens e assim nos mostrar a tensão entre dois funcionamentos, muitas vezes opostos. Justamente o que nos interessa pensar é a passagem de um para o outro pólo, pois é neste trânsito que a estrutura se revela. Poderíamos evocar este estilo de apresentação como o fundamento mesmo de todo ato de criação e que vai ser um dos eixos de toda a argumentação freudiana sobre os mecanismos de prazer que encontramos no humor. Como imagem evocativa desta frente/verso, fluxo/ 5 DUCHAMP, Marcel. Duchamp du Signe, op. cit., p. 180. 6 DUCHAMP, Marcel. Duchamp du Signe, op. cit., p.181. novembro 2012 l correio APPOA .27 temática. refluxo, positivo/negativo, dia/noite lembro o título do filme realizado por Marcel Duchamp na casa de Man Ray em Paris em 1925 e que ele intitulou Anemic Cinema. Circularidade da imagem em forma de anagrama que gira em círculo quase como a cobra que morde seu próprio rabo. Leitura nos dois sentidos revelando com humor o sangue que nos falta para que possamos buscar os vermelhos que nos permitam ver melhor. Anemic Cinema brinca com a reversibilidade da significação mostrando que o sentido depende de uma posição de leitura. Sua obra, portanto, quer se deter em uma reflexão sobre imagem. Cinema em slow motion, lento como o tempo que produziu em sua vida: tempo do detalhe, já que Duchamp opôs à vertigem da aceleração à vertigem do retardamento, como lembra Octávio Paz logo na primeira página de seu clássico ensaio sobre Marcel Duchamp.7 Uma palavra à outra, uma letra à outra, como uma espécie de ponte que nos faz transpor o abismo sempre presente nestes trânsitos e que recolhem o que cai na passagem. O artista busca iluminar estes lixos recusados. Desta ponte, portanto, podemos ver o resto/recalque essencial para que possamos minimamente compreender. Poderíamos desta forma, sustentar a ideia de que Duchamp produziu antimecanismos que nos ajudam a entender a mecânica de nosso tempo. Neste ponto, Octávio Paz foi preciso: “Duchamp foi um dos primeiros a denunciar o caráter ruinoso da atividade mecânica moderna. As máquinas são grandes produtoras de refugos e seus resíduos aumentam em proporção geométrica à sua capacidade produtiva. Para comprová-lo basta passear por nossas cidades e respirar sua atmosfera envenenada.”8 Fundamental é sublinhar que Duchamp nos faz, muitas vezes, rir diante destes restos. Ele mesmo afirmou em determinado momento que, junto com Francis Picabia, procurou “abrir um corredor de humor”. O humor indica, desta forma, de um lado uma espécie de reconhecimento deste lixo que nos pertence, mas ao mesmo tempo, indica uma 7 PAZ, Octávio. Marcel Duchamp ou o Castelo da Pureza, São Paulo, Perspectiva, 1977, p. 7. 8 PAZ, Octávio Marcel Duchamp ou o Castelo da Pureza, op. cit., p. 12. 28. correio APPOA l novembro 2012 O humor nosso de cada dia. posição de resistência a uma assimilação completa a ele. Por isso, podemos reconhecer em toda produção de humor um posicionamento crítico e sentir o prazer que resulta do exercício de liberdade que o humor nos proporciona. Para Octávio Paz, Duchamp é um clown. Ele funciona como uma espécie de espelho diante do qual podemos rir da condição trágica de nossa existência. Talvez sua última “obra” e que revela com muita precisão o que acabo de afirmar é a frase que mandou gravar na lápide de seu túmulo no cemitério de Rouan: “Aliás, são sempre os outros que morrem”. Assim, podemos olhar para a morte com um leve sorriso nos lábios, claro, se ainda estivermos do lado de fora do túmulo. O humor produz uma espécie de avesso, nos abrindo a possibilidade de experienciar algo que continuamente esquecemos: que somos fundamentalmente passagem de um ponto ao outro. É este movimento que nos faz abandonar uma posição de imagem cristalizada e, quase como uma libertação, poder rir do seu estilhaçamento. Por isto, sempre que há humor há verdade em jogo. Este foi um dos grandes ensinamentos de Sigmund Freud já desde seu clássico O chiste e sua relação com o inconsciente publicado em 1905. Queda, vertigem, risco, mas também prazer, na medida em que podemos ampliar o campo de circulação de nossas imagens. O riso vem como o resto desta estratégia de despistar o recalque e assim poder compartilhar com outro de forma diagonal, como um segredo, as extensões de nossa castração. A clareza no humor se dá justamente por apontar muitas vezes o avesso de uma intenção, o sentido outro de uma palavra, a história contada desde outro ponto. Humor como crítica, como constatação de nossa finitude, como uma exposição delicada e inteligente da cicatriz que carregamos em nosso narcisismo. Por isso André Comte-Sponville tem toda razão quando diz que “não ter humor é não ter humildade, é não ter lucidez, é não ter leveza, é ser demasiado cheio de si...”9 Assim o humor 9 COMTE-SPONVILLE, André. Pequeno Tratado das Grandes Virtudes, São Paulo, Martins Fontes, 2000, p. 229 novembro 2012 l correio APPOA .29 temática. como o pequeno estilete (estilo) desenha o corte que nos desinfla fazendo verter com o riso um pouco de nosso desespero. Um paciente de idade avançada, tendo que enfrentar uma doença importante, me falava em uma sessão do espírito de organização de sua mulher: sempre colocando ordem na casa. Numa manhã, ela resolveu fazer uma espécie de limpeza nos aparelhos que compraram e que estavam lá como múmias tecnológicas sem função: a esteira estragada, o rádio quebrado, o toca disco empoeirado. Queria então se desfazer de tudo e limpar o terreno. Meu paciente olhou para ela com um leve sorriso e disse: “não olha muito para mim”! Rimos juntos, é claro, desta nossa condição de aparelho e também, talvez, da tolerância ingênua, mas também sublime do amor. Se a vida pudesse ter este pragmatismo possibilitando jogar fora o que não precisamos, certamente teríamos mais coragem de ocupar de outra forma os espaços que ficariam vazios. O humor, portanto, produz uma pausa, um silêncio quase contemplativo que surge em cena de forma soberana depois que o riso cessa. Recuperamos também o infantil que nos habita nesta irreverência ao sentido experimentando a potência de criação sempre que estamos dispostos a perder o equilíbrio. Marcel Duchamp brinca em determinado momento com esta palavra a decompondo e fazendo dela uma interrogação: et qui libre? (E quem está livre?)10. Pergunta essencial! Novamente, André Comte-Sponville nos esclarece sobre este ponto. “O riso não nasce nem do sentido nem do disparate: ele nasce da passagem de um a outro. Há humor quando o sentido vacila, quando se mostra em via de se abolir, no gesto evanescente de sua apresentaçãodesaparecimento”.11 Funciona, portanto, como uma cortina que nos protege desta luz excessiva do sol pulsional que nos queima e assim podemos encontrar alguns atalhos neste trânsito por entre os campos do intolerável, do impossível, do proibido. 10 DUCHAMP, Marcel. Duchamp du Signe. op. cit. p.161 11 COMTE-SPONVILLE,André. Op.cit. p. 236 30. correio APPOA l novembro 2012 O humor nosso de cada dia. É justamente neste ponto que Freud reconheceu, no seu texto sobre o chiste que o humor indica algo da ordem do sublime. Podemos, é claro, pensar aqui também em sublimação. 12 Esta perspectiva permite evidenciar que os mecanismos psíquicos presentes nesta operação complexa que o humor produz geram reflexões importantes sobre aquilo que só parcialmente reconhecemos, já que o humor também implica numa certa “negligência”, que eu chamaria lúcida, do que é essencial. Freud, como sabemos, talvez tenha mostrado que a experiência de análise diz muito do que é substancialmente as articulações produzidas pelo humor: confrontar o sujeito com a verdade que recusa e que o faz sofrer para que este encontro o ajude a se reposicionar diante de sua condição trágica indicada por nossa finitude. Ele sempre foi muito espirituoso e talvez seja difícil imaginar toda a produção e vida de Freud sem este traço que o marcou. São muitas as passagens de sua vida que nos fazem rir justamente pela radicalidade de uma posição mostrada muitas vezes de forma delicada, mínima, como um nada, um apêndice ao acontecimento. No que diz respeito à forma como enfrentou sua doença e a morte temos muitos exemplos. Quando um de seus pacientes uma vez voltou a lhe pagar adiantado algumas sessões e diante da insistência de Freud em sempre repetir neste momento a mesma frase: “Se eu morrer você promete que virá aqui pedir a minha esposa que lhe devolva o dinheiro das sessões que não fez!”. O paciente incomodado com a lembrança da morte de seu analista retrucou: “O senhor só pensa nisto, Dr. Freud?”. Freud reagiu: “Penso nisto todos os dias e acho que é um bom hábito!” Aqui encontramos o pequeno giro sublime que nos faz rir e permite olhar a cena em diagonal.13 Freud, no artigo sobre humor publicado em 1928, sublinha o espírito rebelde que encontramos em toda produção de humor. Diz Freud: “O hu- 12 Ver neste ponto o excelente trabalho de Daniel Kupermann Ousar Rir, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2003. Sobretudo o capítulo dois do livro intitulado “Sublimação e Criação”. 13 Ver mais detalhe sobre este ponto em SOUSA, Edson. Freud. São Paulo, Editora Abril – Coleção para Saber Mais, Superinteressante, 2005, p 61 novembro 2012 l correio APPOA .31 temática. mor não é resignado, mas sim rebelde, não só significa o triunfo do Eu, senão também do princípio do prazer, que no humor triunfa sobre a adversidade das circunstâncias reais.”14 Talvez a rebeldia maior seja a condição de criação que se insurge contra os sentidos instituídos podendo assim recriar mundos no detalhe de um gesto, de uma decisão por vezes mínima que vira ao avesso um sentido. Esta caligrafia do detalhe é um dos fundamentos do argumento freudiano em seu clássico texto de 1905. A criação funciona como um corte na estrutura compacta de determinado objeto deixando verter para fora outras possibilidades de significação, dando ao sujeito uma condição de escolha. É neste ponto que podemos pensar o ganho de prazer. Ele é efeito da liberdade que esta oscilação de sentido permite. Ato/dobradiça que faz bascular o sentido como o chiste que diz sem dizer, que mostra sem explicar, que revela algo num certo silêncio e segredo. O prazer do riso compartilhado em relação a um chiste é um dos melhores sinais de uma fraternidade no recalque. Como aponta Freud, no humor encontramos simultaneamente uma atitude de desprendimento e reconhecimento. Esta dobradiça se configura, por exemplo, no que Freud vai apontar na estratégia do duplo sentido (Doppelsinn) bem como no jogo de palavras (Worterspiel). Aqui podemos reconhecer o essencial de muitas das operações que encontramos na estrutura do chiste e que estão presentes em inúmeros trabalhos de Marcel Duchamp. Vejamos um dos exemplos que Freud indica em Chiste e sua relação com o inconsciente. “Viajei com ele tête-à-bête”. A expressão em francês tête-à-tête que fica implícita e significa frente a frente, faz surgir esta outra frente/besta que imaginamos não deve ter sido uma das companhias mais agradáveis nesta viagem. A pequena dobradiça da letra, b/t, revela com humor o incômodo que foi preciso tole- 14 FREUD, Sigmund. O humor [1928] in: Obras Completas, Vol.III, Madrid, Editorial Biblioteca Nueva, 1981, p.2998 15 FREUD, Sigmund. O chiste e sua relação com o inconsciente [1905], Vol. I, Madrid, Editorial Biblioteca Nueva, 1981, p.1040 16 FREUD, Sigmund. O chiste e sua relação com o inconsciente, op. cit. p. 1058 32. correio APPOA l novembro 2012 O humor nosso de cada dia. rar. Freud nos mostra o quanto o prazer está justamente neste desenho mínimo da substituição de um t por um b, pois se disséssemos que “Viajei tête-à-tête com X, e X é um animal” não teríamos este efeito de humor. Mesmo que reduzíssemos a uma só frase: “Viajei tête-à-tête com a besta que é X” não encontraríamos nada que nos levaria ao riso. Freud nos mostra então que o riso surge quando ligeiramente escondemos a palavra animal no B que substitui o T. A esta operação Freud nomeia como condensação com ligeira modificação. Tanto melhor o chiste quanto menor for a modificação substitutiva.15 Marcel Duchamp é um grande especialista nestas produções textuais. Em sua obra plástica e em seus escritos encontramos em todo momento tais construções mencionadas por Freud. Não só as letras, as palavras, as assonâncias produzem este efeito, mas muitas das imagens que produziu. Vê-las nos faz rir, como o bigode e o cavanhaque que Marcel Duchamp desenhou em uma reprodução da Gioconda. Nestes movimentos encontramos um dos eixos da reflexão freudiana sobre o humor que é a ideia de desvio (Ablenrung). Este desvio permite ver o sentido no não-sentido (Sinn des Unsinns). Fluídos que escapam do atrito entre as palavras gerando “vapores de sentido”, bela expressão de Freud.16 Marcel Duchamp é um grande mestre nestas construções que nos desequilibram no movimento passagem, nos fazendo ver a importância da sonoridade das palavras, aliás, detalhe também sublinhado por Freud em seu texto.17 Encontramos em Duchamp, por exemplo, construções como “Ovaire toute la nuit” (Ovário toda a noite). Jogo de palavras entre ovaire/ouvert (ovário/aberto). Esta formulação é uma alusão a um romance de Paul Morand que tem como título justamente “Ouvert la nuit”.18 As reverberações neste exemplo são múltiplas. Podemos pensar na passagem do dia para a noite, 17 Ver FREUD, Sigmund. O chiste e sua relação com o inconsciente, op. cit. p. 1095 18 DUCHAMP, Marcel. Duchamp du Signe, op. cit. p. 156 novembro 2012 l correio APPOA .33 temática. no que se abre, no que se fecha, alusão fina aos comércios da noite e aos comércios do dia, o sexual e seus fluxos de tempo. Podemos também lembrar aqui do maravilhoso título de uma escultura fálica feita por Duchamp: “Objet-dard” (Objeto-dardo que também pode-se ler, em francês, como objeto de arte). Brincadeiras com nomes próprios: Marchand du Sel (Marcel Duchamp como mercador de Sal) ou então “Sa robe est noire, dit Sarah Bernhardt”.19 Outro nome criado por Duchamp foi o de Rrose Sélavy. Ele inventou esta personagem em Nova York em 1920 e se fez fotografar por Man Ray encenando uma personagem feminina. Numa entrevista a Pierre Cabanne diz que queria mudar de identidade e a primeira ideia que lhe veio foi de se dar um nome judeu. “Eu era católico e seria uma mudança passar de uma religião a outra. Não encontrava um nome de origem judaica que me agradasse , e de repente tive uma ideia: porque não trocar de sexo. Foi então que me veio o nome Rrose Sélavy”.20 Brinca com inúmeras confluências de significação: rose/eros, “eros c’est la vie” (eros é a vida), “arroser la vie” (regar a vida). Nestes exemplos encontramos algo que Freud também enfatizou muito como uma das fontes de prazer, a saber, as homofonias que encontramos na rima, nos refrões, nas aliterações. O prazer seria fruto do reencontro com o conhecido.21 Nos trabalhos de Duchamp, nem sempre encontramos imediatamente a chave que nos permite aceder a esta maquinária espirituosa que constrói com tanta delicadeza. No esboço que fez para um projeto de capa em 1965 da revista italiana Metro que seria consagrada a sua obra, Duchamp brincou com a sonoridade das letras: M.E.T.R.O. Soletrando uma a uma numa certa velocidade lemos: “Aimer tes Heros” (Amar teus heróis). Ironia fina tanto a nossa relação de captura com a imagem dos heróis, aos quais nos identifi- 19 Aqui em francês vemos a assonância entre a pergunta “Seu vestido é preto” e o nome da famosa atriz francesa. 20 Duchamp, Marcel. Duchamp du Signe, op. cit. p. 151 21 FREUD, Sigmund. O Chiste e sua relação com o Inconsciente, op. cit. p.1098 34. correio APPOA l novembro 2012 O humor nosso de cada dia. camos, como também um certo riso diante de sua própria condição de “herói de um tempo” que ele sabia muito bem desmontar. Em 1923, por exemplo, em um momento em que sua reputação como artista crescia, abandonou a pintura para se dedicar ao jogo de xadrez, atividade que podemos agora pensar como uma grande performance. Outro trabalho bastante conhecido, e que parte deste mesmo principio do M.e.t.r.o., é L.H.O.O.Q. Trata-se ali de uma reprodução da Mona Lisa de Leonardo da Vinci onde Duchamp acrescenta um bigode e um cavanhaque, assinando a reprodução com o seu nome e escrevendo abaixo da imagem estas letras: L.H.O.O .Q. Soletrando uma a uma temos a seguinte frase: “Ela tem fogo no rabo” 22. Trabalho de 1919 em que Duchamp desmonta um dos grandes ícones da arte ocidental se insurgindo de certa forma diante de uma imagem que já virou clichê. Introduz, com muita sutileza, um traço masculino fazendo mais uma vez bascular a imagem entre os opostos: feminino/masculino, aliás, um dos grandes temas desenvolvidos por Duchamp. Juan Antonio Ramirez chama atenção para um detalhe que é preciso sublinhar. Podemos também ler nestas letras uma convocatória ao olhar já que em inglês teríamos algo aproximado com Look! (Olhe!) O humor de Duchamp resiste, portanto, ao automatismo do hábito que Freud menciona em determinado momento de seu texto de 1905. O hábito rompido destila espaços de liberdade. O humor de certa forma nos protege deste hábito, pois o interroga. Octávio Paz vai propor que “ é graças ao humor que Duchamp se defende de sua obra e de nós, que a contemplamos, a admiramos e escrevemos sobre ela. Sua atitude nos ensina que o fim da atividade artística não é a obra, mas a liberdade”.23 O humor, portanto, abre o pouco de liberdade que ainda temos. Como todo processo criativo nos interpela sobre os sentidos estáticos fazendo 22 Em francês: “Elle a chaud au cul” 23 PAZ, Octávio. Marcel Duchamp ou o Castelo da Pureza, op. cit. p.59 novembro 2012 l correio APPOA .35 temática. acionar o motor das significações que dependem evidentemente do olhar do espectador, do leitor, do ouvinte. Seguimos aqui uma das máximas de Marcel Duchamp “são os espectadores que fazem o quadro”. Para tocar esta experiência de abertura de sentido precisamos produzir dois movimentos que acionam a lógica do chiste e que Freud tão bem descreveu em seu clássico texto de 1905: Verblüflung (sideração) e Erleuchtung (esclarecimento). Aqui encontramos o chiste como uma das formações do inconsciente nos abrindo a chance de um tropeço que pode nos acordar. 36. correio APPOA l novembro 2012 temática. Chico e Millôr enfim juntos! Robson de Freitas Pereira Um foi mestre da letra impressa, da escrita. Outro foi mestre da voz e da transfiguração no rádio e na televisão. Ambos com saber/sabor e humor. Milton Viola Fernandes – Rio de Janeiro, 16 de agosto de 1923 – 27 de março de 2012. Millôr virou mito ainda vivo. Sua obra em prosa, de enorme repertório temático, com ironia e sarcasmo para tratar dos mais variados temas, suas traduções de Shakespeare e vários autores clássicos e modernos, fizeram novembro 2012 l correio APPOA .37 temática. dele um herói intelectual contemporâneo. Da beira da praia de Ipanema onde caminhava e jogava frescobol – elevada por ele a esporte olímpico, até Copacabana, na ladeira de Saint Roman, onde ajudou a fundar o Pasquim, seus textos e idéias saltaram do impresso para ampliar as fronteiras do Brasil. Passou a escrever para o teatro e em jornais e revistas que tiveram importância na história da imprensa e da cultura brasileira do século XX. Só para lembrar alguns: além do Pasquim, a revista Senhor, O Cruzeiro, Jornal do Brasil, Veja, Pif Paf e outros veículos. Na televisão teve aparições rápidas em programas jornalísticos inventados na década de 60/70. Mito no sentido popular, porque muita gente admirava Millôr sem nunca ter lido uma de suas traduções, ou página de livro de hai-cais, ou mesmo uma coluna inteira daquele que se auto-intitulava estilosamente: “enfim, um escritor sem estilo”. Um acadêmico sem fardão. Políticamente engajado, que não hesitava em ironizar esquerda e direita. Como todo verdadeiro humorista. Antes de ser cidadão de beira de praia (fiscal de praia como ele parodiou certa vez), Millôr foi do Meier, fez formação de vida na “Universidade do Méier”, como ele mesmo denominou. Bairro que Wilson Batista imortalizou em samba gravado por João Nogueira: “Méier sempre foi o maioral /É a capital dos subúrbios da Central...”. Capital porque durante várias décadas abrigava vários cinemas (Cine Imperator, de 1954, tinha 2600 lugares), bares e rodas de samba. O primeiro shopping Center do Brasil foi erguido lá (1963). Bairro demográfico/democrático que abrigou figuras antológicas como Lima Barreto (que terminou no Engenho de Dentro, mas isto é outra história) e outros menos votados como Fátima Bernardes (vá lá). Talvez fosse por isto que o irmão mais velho (do Millôr), Hélio, nascido em 1920 tenha sempre se considerado cidadão do Méier. Helio Fernandes, editor da “Tribuna da Imprensa” (proprietário a partir de 1962), combativo jornal carioca que lançou entre outros, Sebastião Nery e Paulo Francis. Millôr agradece a ele o primeiro emprego jornalístico. 38. correio APPOA l novembro 2012 O humor nosso de cada dia. Desde então sua carreira como jornalista, ilustrador, tradutor, dramaturgo, cronista e poeta faz parte da história cultural do Brasil. Sem contar as já citadas pequenas produções (“tiquititas pero cumplidoras”) para a televisão no começo da década de 60, em Belo Horizonte e no Rio – TV Rio, claro. Algumas frases e textos rápidos “O verdadeiro milagre brasileiro: uma democracia completamente isenta de democratas”. “Poesia Matemática (incompleta) As folhas tantas do livro matemático um Quociente apaixonou-se um dia doidamente por uma Incógnita. Olhou-a com seu olhar inumerável e viu-a, do Ápice à Base, uma figura ímpar: olhos rombóides, boca trapezóide, corpo octogonal, seios esferóides. Fez da sua uma vidaparalela à dela até que se encontraram no infinito. ‘Quem és tu?’, indagou ele em ânsia radical. ‘Sou a soma do quadrado dos catetos. Mas pode me chamar de Hipotenusa...’” “Quem me pede prá contar toda a verdade já está exigindo uma mentira”. novembro 2012 l correio APPOA .39 temática. “O dinheiro não é tudo. Tudo é a falta de dinheiro.” “Bíblia do caos – Novo Evangelho (extratos) XVI – Cristo foi seguido por suas parábolas demagógicas e crucificado por seus planos de reforma social. XV – Ninguém acredita mais em Glória com menos de 30 milhões de audiência. XIII – Não sou um homem muito culto. Mas sempre tive o cuidado de me cercar de completos ignorantes. XII – Agora, que já avançamos pelo século XXI, podemos fazer um pequeno balanço do que o século XX nos legou. 1. O atropelamento. 2. O salto suicida do décimo andar. 3. O envenenamento pela radioatividade. 4. A estupidificação pela televisão. 5. A queda do avião. 6. A democratização da aids. 7. A poluição, tornando verdadeira a frase “O mar não tá pra peixe”. 8. O escorregão na Lua. 9. A morte no CTI. 10. A possibilidade de um final feliz, todo mundo acabando junto. XI – A infância não, a infância dura pouco. A juventude não, a juventude é passageira. A velhice sim. Quando um cara fica velho é pro resto da vida. E cada dia fica mais velho”. 40. correio APPOA l novembro 2012 O humor nosso de cada dia. Chico Anysio Caçula de oito irmãos, Francisco Anysio de Oliveira Paula Filho nasceu no dia 12 de abril de 1931, no município de Maranguape, no Ceará. A cidade constantemente era citada de forma saudosa pelo humorista – seu personagem mais popular, o Professor Raymundo, era de lá. “Maranguape, cidade de que tanto falo, representa uma grande saudade. Foi um pequeno paraíso, o Éden da minha infância durante gloriosos anos. Foi lá que aprendi a ler sozinho”, escreveu o humorista em seu site oficial. A história de Chico Anysio se confunde com a do humor e da TV brasileira. No início da década de 50 passou em segundo lugar nos testes para ator e locutor da rádio Guanabara (o primeiro lugar ficou com Silvio Santos). Alí nasceram seus primeiros personagens, entre eles o Professor Raimundo e os alunos de sua escolinha. De lá, passou para rádio Mayring Veiga e, em 1957, Chico já escrevia e fazia três personagens no programa Noites Cariocas, às sextas-feiras das 20h às 22h, na TV Rio. O primeiro era Urubulino, o chato. Ele se sentava com um amigo em um bar e, de maneira sóbria, afirmava que o sujeito estava pálido. “Mas eu estou bem!”, retrucava o outro. “Era exatamente o que me dizia o falecido Eustáquio, que vivia pálido como você”, afirmava Urubulino. Outro personagem era o Professor Raimundo. O mestre nessa época tinha apenas quatro alunos: Aristides Barlovento (Vagareza), que vivia enrolando o professor, Baltazar da Rocha novembro 2012 l correio APPOA .41 temática. (Walter D’Ávila), o caipira (Antônio Carlos, pai da atriz Glória Pires) e um estreante, o jovem Castrinho. Cujo personagem ganharia vida e quadro próprio na TV Rio, a velha emissora do Posto Seis, em Copacabana. Em 1962, Chico estreou um dos mais inovadores humorísticos da TV brasileira: o Chico Anysio Show (TV Rio). Sozinho, interpretava 35 personagens. Dez anos mais tarde foi contratado pela TV Globo. Nos anos 70, colaborando com produções da casa, acabou ganhando um programa. De Chico City a Zorra Total, passando por Chico Show, Estados Anysios de Chico City, O Belo e as Feras, A Escolinha do Professor Raimundo, que acabou virando programa, e quadros no Fantástico. Personagens também se tornaram memoráveis, entre eles a gaúcha Salomé de Passo Fundo; o grupo musical Baiano e os Novos Caetanos, uma paródia do Tropicalismo; Bento Carneiro, o Vampiro Brasileiro e Coalhada o jogador perna de pau. Chico não fez tipos só para humorísticos. Sem falar em suas pinturas a óleo, na década de 80 participou de telenovelas, escreveu e encenou peças de teatro e interpretou personagens para o cinema, entre eles o pai de Tieta do Agreste. Em mais de 60 anos de carreira, o humorista Chico Anysio criou cerca de 200 personagens, de acordo com suas contas (os dados apontam 209). Alguns personagens e seus bordões Professor Raimundo: considerado o primeiro personagem. Nasceu no rádio em 1957 e resistiu até o último programa. Foi sua personagem mais longeva que deu frutos como programa de TVs: “escolinha do professor Raimundo” e quadros no Fantástico. Raimundo Nonato Canavieira é um professor que dedicou sua vida ao magistério e, como típico professor brasileiro, mal remunerado. “E o salário, ó...” Alberto Roberto: radialista, ator de novelas de rádio. Usa sempre uma renda na cabeça e tem uma vaidade incomensurável, comparável a sua ignorância. “Não garavo!” “Eu sou um símbalo sescual.” Bento Carneiro: Valdevino Bento Carneiro é um vampiro nascido no Brasil. Com um sotaque caipira, ele se apresenta como “aquele que vem 42. correio APPOA l novembro 2012 O humor nosso de cada dia. do aquém do além, adonde que véve os mortos”. Mora em num castelo junto de seu assistente corcunda Calunga. Nunca consegue assustar alguém: ao contrário, é um vampiro medroso e desnutrido. “Minha vingança será malígrina”. Coalhada: Otávio Arlindo Antunes do Nascimento é um futebolista estrábico e enrolador, cabelos encaracolados, que conta ter exibido seu futebol em diversos clubes. Caracterizado no estilo “Sócrates” (o jogador do Corinthians, não o filósofo). Apesar de se achar um craque, é um perna-de-pau que vive se defendendo das críticas de torcedores e comentaristas esportivos. Virgílio: um dos primeiros personagens da TV, sempre medroso de tudo. Dos cemitérios ao futuro do Brasil e do mundo. Urubulino: Sujeito pessimista e agourento, que sempre acredita que tudo dará errado. Usa cartola e casaca pretas, assemelhando-se a um urubu. “Mas pode piorar...” Salomé: Salomé Maria da Anunciação é uma idosa gaúcha, natural de Passo Fundo, que conversa intimamente com o presidente Figueiredo chamando-o de guri, que tinha como nome João Batista, o mesmo do santo que na Bíblia teve a cabeça cortada para agradar a dançarina Salomé. “Mas que barbaridade, tchê”. “Ou faço a cabeça do João Batista ou não me chamo Salomé”. O mito e o real Falamos em mestres e mitos. Mito porque conseguiram interpretar algo do real em nossa cultura através de sua arte. Seja fazendo cortes ou curativos no mal-estar impossível de apagar. Realizaram esta proeza, articulando na linguagem com maestria a riqueza do humor e a produção cotidiana. No país da piada pronta, muitas vezes o riso transforma-se num esgar e é preciso ter muito “savoir faire” para comprovar que “alegria é a prova dos nove”. Juntos, Chico e Millôr conseguiram servir “biscoitos finos” ao seu público; comprovando que humor e política não estão novembro 2012 l correio APPOA .43 temática. dissociados, estivessem eles caracterizados como personagens de samba enredo, ou como intérpretes nacionais do bardo de Straford-on-Avon. Demonstrando que a interpretação não é privilégio de um só discurso, não tem compromisso com o cinza, não se aprende na escola e se faz em ato. 44. correio APPOA l novembro 2012 temática. O riso é perigoso Fabrício Carpinejar Clarice Lispector beliscava sua amiga Lygia Fagundes Telles quando entravam juntas num encontro literário: – Não ri, vai! Séria, cara de viúva. – Por quê?, perguntava Lygia. – Para que valorizem o nosso trabalho. Não há mesmo imagem de alguma risada da escritora Clarice Lispector. Em livros e revistas, a cena que persiste é seu olhar desafiador, emoldurado por um rosto anguloso, compenetrado e enigmático. Os lábios não se mexem, absolutamente contraídos, envelopes fechados para posteridade. Lispector não mostrava suas obturações, sua arcada para ninguém. Não se permitia gargalhadas para não parecer mulher superficial e leviana. Ela percebeu que existe um imenso preconceito contra a alegria. Os críticos não a levariam a sério, dizendo que ela não era densa, não inspirava profundidade, que acabariam por sobrepor a aparência faceira aos questionamentos metafísicos de sua obra. novembro 2012 l correio APPOA .45 temática. Seu medo não era bobo. O riso permanece perigoso. Todos temem os contentes. Falam mal dos contentes. O riso gera inveja, ciúme, intriga: “Por que está feliz, e eu não?”. A alegria é malvista em casa e no trabalho. Nunca recebe convite, sempre intrusa, sempre suspeita equivocada de uma ironia ou de um sentimento de superioridade. Ainda acreditamos que profissionalismo é feição fechada, casmurra. Ainda deduzimos que competência é baixar a cabeça e não mostrar nossas emoções. Quanto mais triste, mais confiável. Quanto mais calado, mais concentrado. O que é um tremendo engano. A criatividade chama a brincadeira, assim como a risada renova a disposição. Se um funcionário ri no ambiente profissional, o chefe deduz que ele está vadiando, sem nada para fazer. Poderá receber reprimenda pública e o dobro de tarefas. Quem diz que ele não está somente satisfeito com os resultados? Se a companhia ri durante a transa, você conclui que está debochando do seu desempenho. Quem diz que não é o contrário, que ela não festeja o próprio prazer? Se a criança ri no meio da aula, o professor compreende como provocação e pede para que cale a boca. Quem diz que ele não está comemorando algum aprendizado tardio? Se o filho ri quando os pais descrevem dificuldades profissionais, a atitude é reduzida a um grave desrespeito. Quem diz que ele não achou graça do tom repetitivo das histórias? Se a esposa ou marido ri e suspira à toa, já tememos infidelidade. O riso é escravo dos costumes, sinônimo de futilidade e distração quando deveria ser visto como sinal de maturidade e envolvimento afetivo. Não reagimos bem à felicidade do outro simplesmente porque ela ameaça nossa tristeza. 46. correio APPOA l novembro 2011 agenda. eventos do ano 2012 data evento local 24 e 25 de novembro Jornada clínica Hotel Continental – Porto Alegre – RS agenda novembro . 2012 dia hora atividade 09, 23 e 30 14h Reunião da Comissão da Revista 09 e 23 16h Reunião da Comissão de Aperiódicos 05 e 19 20h30min Reunião da Comissão do Correio 08, 22 e 29 19h30min Reunião da Comissão de Eventos 08 21h Reunião da Mesa Diretiva 08 20h Reunião da Comissão da Biblioteca 22 21h Reunião da Mesa Diretiva aberta aos Membros 01. Dezembro 10h Comissão do Serviço de Atendimento Clínico próximo número Fim do mundo novembro 2011 l correio APPOA .47 normas editoriais do Correio da APPOA O Correio da APPOA é uma publicação mensal, o que pressupõe um trabalho de seleção temática – orientado tanto pelos eventos promovidos pela Associação, como pelas questões que constantemente se apresentam na clínica –, bem como de obtenção dos textos a serem publicados, além da tarefa de programação editorial. Tem sido nosso objetivo apresentar a cada mês um Correio mais elaborado, quer seja pela apresentação de textos que proporcionem uma leitura interessante e possibilitem uma interlocução; quer pela preocupação com os aspectos editoriais, como a remessa no início do mês e a composição visual. Frente à necessidade de uma programação editorial, solicitamos que sejam respeitadas as seguintes normas: 1) os textos para publicação na Seção Temática, Seção Debates, Seção Ensaio e Resenha deverão ser enviados por e-mail para a secretaria da APPOA ([email protected]); 2) a formatação dos textos deverá obedecer às seguintes medidas: – Fonte Times New Roman, tamanho 12 – O texto deve conter, em média, 12.000 caracteres com espaço – Notas de rodapé em fonte tamanho 10 3) as notas deverão ser incluídas sempre como notas de rodapé; 4) as referências bibliográficas deverão informar o(s) autor(es), título da obra, autor(es) e título do capítulo (se for o caso), cidade, editora, ano, volume (se for o caso); 5) as aspas serão utilizadas para identificar citações diretas; 6) citações diretas com mais de 3 linhas devem vir separadas do corpo do texto, com recuo de 4 cm em relação à margem, utilizando fonte tamanho 10; 7) o itálico deverá ser utilizado para expressões que se queira grifar, para palavras estrangeiras que não sejam de uso corrente ou títulos de livros; 8) não utilizar negrito (bold) ou sublinhado (underline); 9) a data máxima de entrega de matéria (textos ou notícias) é o dia 05, para publicação no mês seguinte; 10) o autor, não associado a appoa, deverá informar em uma linha como deve ser apresentado. A Comissão do Correio se reserva o direito de sugerir alterações ao(s) autor(es) e de efetuar as correções gramaticais que forem necessárias para a clareza do texto, bem como se responsabilizará pela revisão das provas gráficas; 11) a inclusão de matérias está sujeita à apreciação da Comissão do Correio e à disponibilidade de espaço para publicação. 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