Decisões de Investimento Baseadas em Métricas Contábeis: Um Experimento
Considerando Variáveis de Responsabilidade Social.
Autoria: José Francisco Ribeiro Filho, Jeronymo José Libonati, Felipe Dantas Cassimiro da
Silva, Caio Eduardo Silva Mulatinho
RESUMO
A investigação em tela teve por objetivo descrever as percepções de usuários especializados e
não especializados de informações contábeis, quando envolvidos em experimento de processo
decisório que conjuga a aplicação de recursos próprios em empresa que opera com prejuízo,
mas está comprometida com ações de responsabilidade social. Para tanto, se utilizou de
técnicas de pesquisa direta com uma amostra de 200 alunos em uma Instituição de Ensino
Superior Federal (100 de Ciências Contábeis – G1; e 100 de Serviço Social – G2), no qual foi
aplicado um questionário que abordava uma situação de decisão de investimento em empresas
não lucrativas, mas com fortes ações de cunho social. Para captar a percepção dos dois grupos
citados foi utilizado o teste não paramétrico U de Mann-Whitney, usualmente utilizado em
ciências do comportamento. Conclui-se no final que não existem diferenças significativas
entre os dois grupos quanto a decisão de investimentos, se configurando, como maioria, a
decisão de não comprar ações de empresas não lucrativas responsáveis socialmente,
confirmando a importância da métrica contábil resultado no processo de decisão de
investimentos.
1 – Introdução
Recentemente a Revista Exame no. 39 de 30 de março de 2005, destacou matéria de
capa intitulada: Vergonha do lucro. O texto da reportagem discute o resultado de
levantamento focado no “fosso de percepções entre as expectativas que a população, de um
lado, e os empresários e executivos, do outro, alimentam em relação às empresas”.
Surpreendeu, segundo sugestão da matéria, o fato de que a população descreve a missão de
uma companhia privada como sendo a geração de empregos, com 93% das escolhas,
reservando apenas 10% das escolhas para a geração de lucro; já os presidentes de empresas
ouvidos citaram o lucro em primeiro lugar com 82% das indicações.
Tal cenário sugere, do ponto de vista da contabilidade, a necessidade de uma reflexão
em torno de um papel em permanente discussão, que envolve o compromisso com a produção
de informações úteis para auxiliar o processo decisório de usuários da informação contábil.
Esta é a função fundamental da contabilidade e traduz sua gênese e formação histórica
(Wilkinson, 1989; Schmidt, 2000; Iudícibus, 2004).
As demonstrações contábeis, em especial a demonstração do resultado do exercício e o
balanço patrimonial, representam o repositório informacional básico dos sistemas de
informações contábeis e buscam contemplar os usuários em suas várias necessidades
informacionais, quando relacionadas com liquidez, estrutura de capital e rentabilidade das
empresas. Por outro lado, a pesquisa em contabilidade tem agregado contribuições no que diz
respeito à formatação, conteúdo e divulgação do balanço social de empresas, com destaque
para a demonstração do valor adicionado (DVA), como elemento de aperfeiçoamento ao
processo de comunicação contábil, o que sugere uma preocupação efetiva com a função social
da contabilidade. (Matarazzo, 1998; Santos, 2003).
Na medida em que a reportagem inicialmente mencionada coloca uma visão de que o
lucro, assim estigmatizado, não deveria ter na sua obtenção e posterior divulgação uma
prioridade informacional, já que “a missão de uma empresa é criar valor para a sociedade”; e
“não é mais admissível buscar o lucro a qualquer custo” (Revista Exame, no. 39, páginas 22
e 23), pensa-se na possibilidade de que a demonstração do resultado do exercício, que divulga
lucros ou prejuízos das empresas, poderia ter sua influência ou impacto informacional
atenuado ou mesmo alterado, caso fosse acompanhada de informações relacionadas com a
responsabilidade social das empresas, no contexto de um processo decisório voltado para
aplicações de recursos e investimentos.
Este estudo, baseado em experimento concebido para usuários de informações
contábeis em condições de decisão de investimento, discute se o “estigma do lucro”, face à
“responsabilidade social” das empresas, também se afirma quando a decisão a ser tomada
contempla a colocação de recursos próprios em empreendimentos privados ao mesmo tempo
“socialmente responsáveis” e “não lucrativos”.
2 – Definições do problema e objetivos
A contabilidade se desenvolve, aperfeiçoa seu processo de identificação, mensuração,
formatação e evidenciação de informações econômicas, permanentemente sob o impacto das
condições sociais, econômicas e políticas vigentes no macro-ambiente onde atua. Na verdade
o processo de geração e comunicação de informação contábil, se define no bojo de um
conjunto de pré-condições, todas aderentes ao estágio em que se encontra o conflito
distributivo na sociedade (Kam, 1989).
A afirmação de que a contabilidade deve buscar a transparência das informações (full
disclosure), além de construir um sistema informacional útil para os usuários tomadores de
decisões, só encontrará repercussão efetiva, de fato, quando os agentes econômicos
partilharem de um ambiente de comunhão de interesses, em torno de um montante de riqueza
posto em marcha, em forma de um negócio, que se propõe a remunerar os fatores alocados: ao
trabalho, os salários; aos bens móveis e imóveis, os aluguéis; ao financiamento, os juros; ao
Estado e sua capacidade de regulação, os tributos; ao conhecimento em forma de patentes, os
royalties; e ao capital, os lucros.
Na perspectiva de que a empresa agregará valor à sua imagem perante os seus
interessados diretos, existirá disposição para um processo de comunicação cada vez mais
sofisticado e intenso. Ao discutir questões relacionadas com a publicação de relatórios
contábeis por companhias gregas, em duas línguas – o grego e o inglês – Leventis e Weetman
(2004), observaram que quando a motivação é o gerenciamento da imagem da companhia
(impression management), diante dos investidores, existe uma disposição maior para publicar
relatórios em duas línguas, apenas quando o desempenho da empresa é considerado bom; caso
contrário se publica apenas em grego.
Pensa-se, portanto, que todo o processo de comunicação através das demonstrações
contábeis será cada vez mais sofisticado, com agregação de elementos organizados e
dispostos na prestação de contas, portfólios, internet, etc, na medida em que um processo
contínuo de confiança, entre os agentes econômicos, venha a cimentar tal ambiente de
comunhão de interesses. A parir daí deve ocorrer uma busca permanente em torno do
impression management, hipótese plausível para o singular destaque dado às informações de
balanço social mencionadas na reportagem da Revista Exame, já comentada.
Por outro lado, na visão de um investidor, a rejeição às informações sobre lucros e
resultados de empresas privadas, sendo preferível definir que a missão dessas empresas é a
geração de empregos e a manutenção de obras sociais, estimula questionar se existe, de fato,
alguma possibilidade de haver substituição da figura do resultado, pura e simplesmente, por
outros elementos de balanço social, quando a decisão envolve colocar seu próprio dinheiro em
um negócio não lucrativo, mas comprometido com ações sociais diretas.
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De fato, a ocorrência de uma rentabilidade consistente, ao longo do tempo, é a causa
primeira para uma preocupação subseqüente com inserção social e impression management,
de forma que uma medida de resultado deve se configurar como sinal insubstituível, quando o
investidor deseja decidir sobre aplicação de recursos.
A questão colocada, portanto, busca saber se investidores não especializados
decidiriam de forma diferente de investidores especializados, quando a decisão implica na
compra de ações de uma empresa não lucrativa, mas que tem preocupação efetiva com
questões sociais.
Assim o interesse primário deste estudo será buscar refutação para a afirmação de que
a medida do resultado, ou a informação sobre o resultado da empresa, é um sinal perceptível e
aceito por todos os usuários, quando desejam decidir sobre a aplicação de seus próprios
recursos na empresa analisada, mesmo considerando a atuação desta em ações de
responsabilidade social.
Para viabilizar a concretização da pesquisa, serão perseguidos os seguintes objetivos:
1) Geral
Descrever as percepções de usuários especializados e não especializados de informações
contábeis, quando envolvidos em experimento de processo decisório que conjuga a aplicação
de recursos próprios em empresa que opera com prejuízo, mas está comprometida com ações
de responsabilidade social.
2) Específicos
2.1 – Identificar, na literatura especializada, informações sugestivas sobre: processo decisório,
risco e incerteza; estrutura de demonstrações contábeis; mensuração do resultado;
informações contábeis; balanço social e tipologia de pesquisa;
2.2 – Definir condições experimentais para dois grupos de investidores simularem decisão de
aquisições de ações de uma empresa privada operando com prejuízo, mas comprometida com
ações sociais;
2.3 – Testar hipóteses sobre a percepção dos dois grupos;
2.4 – Analisar as percepções testadas, no contexto do papel da contabilidade em uma
sociedade capitalista.
3 – Procedimentos metodológicos
Este estudo está inserido em uma tipologia de pesquisa empírica, em bases
experimentais, com a utilização de grupos de estudantes representando categorias sociológicas
mais amplas.
Kaplan (1986), discutindo o papel da pesquisa empírica na contabilidade gerencial,
destaca que, em razão da complexidade organizacional onde está inserida a contabilidade,
métodos de pesquisa empírica são necessários para se capturar pontos observáveis dessa
complexidade. Dessa forma sugere uma tipologia de pesquisa que contempla tanto os estudos
de caso quanto estudos em campo e também os experimentos.
A perspectiva do estudo está voltada em direção ao que Trotman (1986), apud Libby,
Bloomfield e Nelson (2002, p.796), indica como sendo a base dos desenhos experimentais:
“uma ou mais variáveis independentes são manipuladas e os efeitos sobre as variáveis
dependentes são observados.”
Os procedimentos experimentais em contabilidade, considerando a análise de
percepções de estudantes em suas capacidades de substituírem profissionais em processos
decisórios envolvendo investimentos, já ocupam espaço relevante como tipologia de pesquisa.
O estudo de Ashton e Kramer (1980) intitulado Students as surrogates in behavioral
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accounting research: some evidence, publicado no Journal of Accounting Research, 18, é
citado com freqüência como paradigma nessa tipologia, juntamente com o trabalho mais
recente de Houghton & Hronsky (1993) intitulado The sharing of meaning between
accounting students and members of the accounting profession, publicado em Accounting and
Finance. (Liyanarachchi & Milne (2005))
Um outro exemplo de tratamento experimental para avaliar métricas contábeis
definidas no ambiente conceitual de um modelo gerencial normativo, o Balanced Scorecard
(BSC), a partir da utilização de grupos de estudantes de um curso de MBA em Contabilidade,
onde lhes foi pedido que assumissem o papel de executivo sênior, é o estudo de Banker,
Chang & Pizzini (2004), cujos achados confirmaram que os avaliadores preferem utilizar
medidas que sejam de uso comum entre as unidades de negócios avaliadas, do que medidas
específicas, quando tais medidas estão associadas à estratégia da empresa.
Os achados de Liyanarachchi & Milne (2005), confirmaram que as decisões dos
estudantes e profissionais de contabilidade são semelhantes, quando o processo decisório
envolve investimento de curto e longo prazo, estando presentes variáveis relacionadas com o
meio ambiente. O estudo encoraja novas investigações em direção à adequação de estudantes
como substitutos experimentais de profissionais que atuam no “mundo real”.
Este experimento utilizará dois grupos de estudantes para atuarem como
representantes da sociedade, no contexto da Reportagem da Revista Exame já mencionada. O
primeiro grupo (G1), será composto por 100 estudantes do curso de graduação em ciências
contábeis; e o segundo grupo (G2) será composto por 100 estudantes de graduação de serviço
social; sendo todos, estudantes de uma universidade pública federal. Os respondentes
comporão, assim, uma amostra não probabilística, porque serão identificados, nos corredores
e salas de aula da faculdade, a partir da disposição voluntária de responder ao questionário.
Tendo em vista o recorte de formação acadêmica proposto para os estudantes de
contabilidade, voltado desde o seu início para questões relacionadas com a mensuração
patrimonial, investimentos, mercado financeiro, custos e resultados, pensa-se que refletirão o
comportamento típico dos agentes econômicos envolvidos com aplicação de recursos e
retorno do investimento. No caso dos estudantes de serviço social, pensa-se que deverão
considerar em suas decisões mais variáveis de responsabilidade social, em razão de vivenciam
um recorte de formação acadêmica voltado para questões do desafio social, das questões do
trabalho e emprego, das questões relacionadas com desigualdades sociais, das questões de
gênero, além de questões voltadas para as conseqüências sociais agravadas pelo sistema
capitalista de produção.
Simultaneamente para os dois grupos aplica-se o questionário definido no Apêndice,
que simula uma empresa com histórico de três anos consecutivos de prejuízos, mas com
participação crescente em quatro ações consideradas de responsabilidade social: Número de
entidades sociais patrocinadas pela empresa; Volume de recursos aplicados na capacitação
dos empregados da empresa; Volume de recursos doados a entidades protetoras do meioambiente; e Volume de recursos doados a asilos e orfanatos. Antes da apresentação das
métricas contábeis da demonstração do resultado dos exercícios e das métricas sobre
responsabilidade social, contidas no questionário, faz-se a seguinte declaração: “Observe os
quadros abaixo. Você deseja comprar ações dessa empresa utilizando seu dinheiro, que foi
economizado após um ano de trabalho; e sabe que a remuneração para seu investimento
depende da existência de lucro em cada ano de atividades da empresa.”
Após observar as tabelas os respondentes são estimulados a tomar uma decisão de
comprar ou não, utilizando recursos próprios, ações da empresa a partir de uma escala com
quatro opções: Comprar as ações com 100% de certeza de ter tomado a decisão correta;
Comprar as ações com 50% de certeza de ter tomado a decisão correta; Comprar as ações
com 25% de certeza de ter tomado a decisão correta; e Não comprar as ações.
4
A apresentação das métricas contábeis de resultado e métricas contábeis de
responsabilidade social no formato de tabelas está aderente às conclusões do estudo de So &
Smith (2004), que analisaram a precisão no uso de informações contábeis em condições de
decisão complexa multivariada, concluindo que o formato tabela individual (tabular-alone), é
preferível aos formatos gráficos (graphical) ou gráficos faciais (pictorial formats), quando o
processo decisório é complexo.
Os dados obtidos serão analisados com o auxílio do SPSS (Statistical Package for the
Social Sciences), a partir da utilização da prova não paramétrica U de Mann-Whitney, que é
uma alternativa útil à prova paramétrica t e permite saber se duas amostras independentes
provêm da mesma população (Siegel, 1979; Martins, 2002; Pereira (2003)).
As análises serão conduzidas considerando-se o seguinte sistema de hipóteses:
H0 – As percepções dos grupos não diferem, com relação à decisão de investir em uma
empresa com histórico de prejuízo, mas comprometida com ações de responsabilidade social.
H1 – As percepções dos grupos diferem, com relação à decisão de investir em uma empresa
com histórico de prejuízo, mas comprometida com ações de responsabilidade social.
Foram observadas, através da análise gráfica, a direção e concentração das respostas,
em torno de duas macro divisões: concentração entre Comprar as ações com 100% de certeza
de ter tomado a decisão correta; e Comprar as ações com 50% de certeza de ter tomado a
decisão correta, apontando para a prevalência de variáveis de responsabilidade social sobre
variáveis de resultado (lucro ou prejuízo); e concentração entre Comprar as ações com 25%
de certeza de ter tomado a decisão correta; e Não comprar as ações, apontando para a
prevalência de variáveis de resultado (lucro ou prejuízo) sobre variáveis de responsabilidade
social.
Com o objetivo de aperfeiçoar o instrumento de coleta de dados, foi realizado um préteste com cinco estudantes de ciência contábeis e cinco estudantes de serviço social que,
voluntariamente, por ocasião da renovação da matrícula acadêmica do semestre, concordaram
em responder as perguntas, bem como comentar questões sobre a clareza das formulações. Os
dois grupos de respondentes comentaram sobre a dificuldade na ordem das perguntas, o que
foi solucionado com a indicação de uma numeração para cada pergunta. Os estudantes de
serviço social mencionaram duas dificuldades: a primeira com relação a expressão ações, o
que foi solucionado com a inclusão de uma frase entre parênteses indicando se tratar de títulos
negociáveis em bolsa de valores; a segunda com relação ao significado dos números entre
parênteses, o que foi solucionado com a indicação de uma nota de rodapé informando que os
valores entre parênteses são negativos.
4 – Principais marcos teóricos
O foco deste estudo está centrado nas questões que envolvem o processo decisório, em
situações onde o tomador de decisão é um investidor. Construir cenários, onde variáveis
intervenientes são dispostas em categorias seqüenciais, com vistas ao reconhecimento prévio
de seus resultados, se traduz em tarefa permanente tanto de usuários, quanto das chamadas
ciências gerenciais.
Ao analisar característica de modelos de apoio ao processo decisório, Ragsdale (1998,
p. 7) propõe a seguinte classificação:
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Quadro 01 – Modelos de Apoio ao Processo de Decisão
Características dos Modelos
Categorias
Forma da Função (f)
Valores das Variáveis
Técnicas das Ciências
Independentes
Gerenciais
Programação Linear; CPM;
Conhecida ou sob o
Programação Inteira;
Conhecida, bem
controle dos tomadores
Modelos Prescritivos
Programação não Linear; e
definida
de decisão
outras.
Conhecida ou sob o
Análise de regressão; Análise
Desconhecida, mal
controle dos tomadores
de séries temporais; Análise
Modelos Preditivos
definida
de decisão
discriminante.
Conhecida, bem
Simulação; PERT; Teoria da
Modelos Descritivos
Desconhecida ou incerta
definida
Fila; Modelos de Inventário.
Fonte: Ragsdale (1998, p.7)
O tomador de decisões necessita estabelecer, previamente, as características das
variáveis envolvidas no processo decisório, de forma a que venha identificar a ferramenta de
apoio que poderá utilizar. Na verdade tal perspectiva sugere, que o usuário de informações,
nesse processo, já é capaz de antecipar o elenco de alternativas que contém o caminho ótimo
ou a solução do problema. A seqüência seria: Identificar o Problema Æ Formular e
Implementar o Modelo de Apoio à Decisão Æ Analisar as Alternativas propostas no
Modelo Æ Testar os Resultados Æ Implementar a Solução (Ragsdale, 1998 p.8). Pensa-se,
dessa forma, superar um provável ambiente decisório típico de incerteza, em troca de um
outro desenhado para uma perspectiva de risco, mediante a determinação de probabilidades
associadas aos eventos.
A contabilidade, enquanto sistema de informações, existe, também, para auxiliar
processos decisórios relacionados com alocação de recursos em investimentos, quando a
expectativa é a obtenção de retornos financeiros ou remuneração pelo capital investido.
Parte-se do pressuposto que os recursos escassos colocados à disposição dos
tomadores de decisão, necessitam de remuneração, que atenda expectativas descritas em um
quadro de opções alternativas de retornos e remuneração.
O modelo contábil propõe a mensuração de uma função objetivo definida como
resultado. O resultado, enquanto métrica contábil, é fruto da confrontação das métricas
contábeis identificadas como receitas e despesas. Tem-se:
RESULTADO = RECEITAS – DESPESAS
Também:
RESULTADO = f(RECEITAS, DESPESAS)
Tais recortes sugerem um esforço de objetivação, de clarificação mesmo, na medida
em que o ambiente econômico, que as três métricas pretendem refletir, é naturalmente
complexo. Na verdade o modelo contábil opta pela simplicidade de evidenciação, mesmo
tendo que arcar com desafios de mensuração bem mais intensos e muitas vezes não
resolvidos.
Na decisão de investir ou não numa determinada empresa, o lucro representa um
elemento indispensável neste processo decisório. Entretanto, a medida “lucro”, também
assume um papel relevante na determinação do alcance da eficácia organizacional; sendo
6
assim o lucro “espelha” as conseqüências das dimensões da qualidade, da satisfação do
cliente, do gerenciamento eficiente dos custos e da produtividade.
A este respeito, Pereira (1999), ao analisar algumas definições dadas por diversos
autores a respeito da relação entre o resultado e a eficácia empresarial, menciona que todas as
definições enfatizam a questão do atingimento dos resultados desejados como requisito de um
desempenho eficaz. Gibson et al., citados por Pereira (1999), incluem o lucro de curto prazo
como uma medida da eficácia organizacional “integrante dos critérios de produção, ao lado
dos critérios de eficiência e de satisfação”.
A proposta da contabilidade, assim, se traduz pelo estabelecimento de uma
modelagem conceitual para o lucro, enquanto medida positiva do resultado. Na verdade a
medida do lucro, concebido como o valor que a empresa pode consumir durante certo período
sem que com isso sua estrutura patrimonial inicial seja afetada, necessita ser estabelecida na
perspectiva da manutenção do capital físico e do capital monetário da entidade, de forma que
sua continuidade seja garantida (Szuster, 1985).
Os estudos de Lipe (1998), que fez uma investigação sobre o julgamento que
investidores individuais fazem do risco em suas decisões de investimento, a partir do
confronto e disponibilização de métricas contábeis e métricas de mercado, apontam que
quando métricas contábeis e métricas de mercado estão em conflito, o julgamento de risco
corresponde com as métricas contábeis, mais do que com métricas de mercado.
Sugere-se, portanto, que as métricas contábeis estejam como que “imersas” no
cotidiano do ambiente econômico, o que facilitaria uma escolha prévia como instrumento de
apoio a decisões.
Koonce, McAnally & Mercer (2005), publicaram estudo experimental, conduzido com
estudantes de MBA, bastante sugestivo para descrever como os investidores, usuários de
demonstrações contábeis, julgam o risco a partir de itens financeiros, quando associados com
variáveis comportamentais. Os resultados apontaram:
a) Que ambos os conjuntos de variáveis financeiras e comportamentais são importantes
para explanar os julgamentos em torno do risco;
b) Que o julgamento do risco financeiro é influenciado não somente por probabilidades e
resultados [contábeis], mas também por outros fatores tais como ansiedade com
relação ao risco; a extensão em que o risco pode ser controlado; e se o risco é do
conhecimento do gerente;
c) Que resultados negativos (prejuízos) são um sinal para a variável comportamental
medo, que por sua vez é sinal para um grande risco percebido.
Neste estudo consideram-se como métricas contábeis tanto as métricas da
demonstração do resultado do exercício, especificamente o prejuízo; quanto as métricas
típicas de responsabilidade social, na medida em que a contabilidade incorpora em seu
processo de comunicação, o Balanço Social formatado em quatro vertentes: o Balanço
Ambiental; o Balanço de Recursos Humanos; a Demonstração do Valor Adicionado; e os
Benefícios e Contribuições à Sociedade em geral. (Santos, 2003).
Sobre a incorporação do balanço social como instrumento de evidenciação de
empresas no Brasil, Vilhena (2002), que estudou o desempenho de dois grupos de empresas
separadas entre aquelas que publicaram o balanço social e outro grupo formado por aquelas
que não publicaram, demonstrou que as empresas que publicaram balanço social no Brasil
possuem indicadores de desempenho financeiro superiores àquelas que não divulgam essa
informação.
O estudo, portanto, ao conjugar a evidenciação de resultados negativos crescentes
(prejuízos) com informações sobre envolvimento com ações de responsabilidade social, em
uma perspectiva de decisão de investimento, labora em um espaço conceitual definido pelas
7
contribuições de Vilhena (2002), que detectou associação entre bons desempenhos e
publicação do balanço social por empresas brasileiras; Leventis & Weetman (2004), que
estudaram o comportamento de accountability associado à obtenção de bons resultados pela
empresa ou Impression Management; e Koonce, McAnally & Mercer (2005), que, entre
outros elementos, identificaram respostas com associações significativas entre variáveis
contábeis de prejuízos crescentes e a variável comportamental medo e a percepção sobre risco
em processos decisórios.
5 – Análises dos dados
O pressuposto do experimento propõe que o grupo 1 (G1), formado pelos estudantes
de Ciências Contábeis, no total de 100 respondentes, representa o grupo social dos
especialistas em finanças e contabilidade, inclinados, por isso, para decisões de investimento
orientadas por métricas contábeis de resultado (lucro ou prejuízo). O grupo 2 (G2), formado
pelos estudantes de Serviço Social, também no total de 100 respondentes, representa o grupo
social dos não especialistas em finanças e contabilidade, com formação significativamente
impactada por desafios e questões sociais, inclinados, por isso, para decisões de investimento
orientadas por métricas contábeis de responsabilidade social.
Gráfico 02 - Períodos Cursados dos
Alunos Pesquisados
Gráfico 01 - Gênero dos Alunos
Pesquisados
60
100
90
80
70
60
50
40
30
20
10
0
94
48
50
Feminino
52 48
1°/2°
3°/4°
5°/6°
41
38
Masculino
40
30
7°/8°
9°/10°
Indefinido
24 22
20
6
Contábeis
Serviço
Social
9 10
10
0
0
33
Contábeis
11
Serviço Social
O gráfico 1 traduz os gêneros dos respondentes, identificados nos dois grupos,
denotando um certo equilíbrio no grupo 1, ao passo que no grupo 2 a franca maioria dos
respondentes é do sexo feminino.
O gráfico 2 evidencia o período acadêmico dos respondentes. No grupo de
respondentes de Ciências Contábeis a maior freqüência é para estudantes que estão cursando
entre o terceiro e o sexto período. No grupo 2, os estudantes de Serviço Social, a maior
freqüência é para aqueles entre o primeiro e quarto período.
8
Gráfico 03 - Esperiência Profissional
dos Alunos Pesquisados
100
90
80
70
60
50
40
30
20
10
0
86
72
Com
Experiência
Sem
Experiência
28
14
Contábeis
Serviço
Social
O gráfico 3 expressa a condição de experiência profissional em suas respectivas áreas,
sendo que a maioria dos respondentes dos dois grupos declararam não possuir experiência
profissional, ficando uma concentração maior daqueles com experiência profissional para os
respondentes do grupo 1, os estudantes de Ciências Contábeis.
Gráfico 05 - Decisão Concentrada
Gráfico 04 - Decisão dos Grupos
70
80
59
60
Comprar (100%)
51
50
Comprar (50%)
40
30
20
10
23
17
2220
7
1
Comprar (25%)
Não comprar
76
71
70
60
50
40
30
29
24
Decisão de
Comprar
Decisão de
não Comprar
20
10
0
0
Contábeis
Serviço
Social
Contábeis
Serviço
Social
O gráfico 4, referente ao primeiro teste considerando as quatro opções da escala
prevista no questionário, denota que os respondentes dos dois grupos concentraram suas
decisões em não comprar as ações. Destaca-se, também, um grupo de respostas, mais ou
menos equilibrado, na decisão de comprar as ações com 50% de certeza ou com 25% de
certeza de ter tomado a decisão correta. Chama atenção, também, que o maior grupo de
9
respondentes que tomariam a decisão de comprar ações com 100% de certeza de ter tomado a
decisão correta, se encontra no grupo 1, que representa os usuários especialistas em
contabilidade e finanças. Tal perspectiva sugere que os usuários especialistas consideram que
suas decisões de investimento levam em consideração uma perspectiva de que, mesmo
operando em prejuízo por três anos consecutivos, a política de investir em ações de cunho
social poderia ter um impacto positivo ao longo do tempo, com reflexos na reversão do
prejuízo. Para o grupo 2, de não especialistas, a figura do resultado negativo, o prejuízo, levaos a uma postura mais conservadora, quando está em jogo seus próprios recursos, na medida
em que o grupo de respondentes que decidem não comprar as ações é maior do que no grupo
1.
O gráfico 5 reforça a constatação traduzida no gráfico 4. Quando se dicotomiza as
respostas, concentrando-se em decisão de comprar, que englobam as opções comprar com
100% de certeza e comprar com 50% de certeza; e de outro lado, concentrando-se em decisão
de não comprar, as opções em comprar com 25% de certeza e não comprar, percebe-se que a
maioria dos respondentes concentra-se em decisão de não comprar. No entanto, o grupo de
especialistas que decidem comprar as ações é maior do que o grupo de não especialistas, que
toma a mesma decisão.
A tabela 01, a seguir, demonstra o resultado do teste não paramétrico U de MannWhitney (retirado do software SPSS). O valor obtido para um teste bicaudal (Asymp. Sig.),
confirma que a hipótese de nulidade não pode ser rejeitada, considerando-se um nível de
significância de 5%, significando que os dois grupos não diferem em suas percepções sobre
decisões de investir em uma empresa com histórico de prejuízo, mas comprometida com
ações de responsabilidade social.
Tabela 01 – Testes Estatísitcos para Todas as Decisões
Testes Estatísticosa
Mann-Whitney U
Wilcoxon W
Z
Asymp. Sig. (2-tailed)
a. Grupo de Variáveis: Grupos
Decisão
4524,000
9574,000
-1,288
0,198
Quando ocorre a dicotomização das decisões de investimento entre comprar as ações
e não comprar as ações, o valor obtido no mesmo teste não paramétrico, evidenciado na
tabela 02, conclui, também, que a hipótese de nulidade não poderá ser rejeitada, confirmando
a opção dos dois grupos em torno de métricas de resultado, ao invés de métricas de
responsabilidade social, quando a decisão envolve investir recursos próprios em uma empresa
não lucrativa.
Tabela 02 – Testes Estatísitcos para Decisões Concentradas
Testes Estatísticosa
Mann-Whitney U
Wilcoxon W
Z
Asymp. Sig. (2-tailed)
a. Grupo de Variáveis: Grupos
Decisão
4750,000
9800,000
-0,799
0,424
10
6 – Conclusão
A investigação constatou que os resultados demonstrados na pesquisa realizada pelo
Instituto Vox Populi, encomendada pela Revista Exame, em tela, não se reflete como
realidade quando se trata de decisões individuais de investimentos. Logo, confirma-se a
hipótese levantada pelos pesquisadores de que quando se trata de decisões de investimentos
com recursos próprios, a métrica contábil resultado se sobrepõe a quaisquer outras medidas de
desempenho social.
Por outro lado, verificou-se, no estudo, que o grupo G1 (estudantes de Ciências
Contábeis), considerado como especialistas em Contabilidade e Finanças, são mais sensíveis a
demonstrações contábeis de responsabilidade Social, tendo em vista sua ambientalização
prospectiva de informações de cunho social, que podem, no longo prazo, teoricamente,
trazerem benefícios futuros a organização, mesmo se configurando um quadro negativo nos
resultados. Por isso, pode-se concluir, que apesar de não haver diferenças significativas,
estatisticamente, entre os dois grupos, o grupo de não especialistas (G2) são mais
conservadores no momento de empregar seus próprios recursos em organizações.
Com isso, as palavras de Milton Friedman, Nobel de Economia em 1976, na
reportagem da Revista Exame, denotam toda sua experiência no momento em que se encaixa
perfeitamente com os resultados desta pesquisa quando diz, “Todos gostam de gastar o
dinheiro dos outros”, pois quando se trata de recursos próprios a preocupação com o retorno
se torna prioridade.
Vislumbra-se, dessa forma, a ocorrência de informações sugestivas, que estimulam o
debate em torno do tipo de capitalismo vigente no Brasil, especialmente o viés socialista, e o
papel da evidenciação de informações contábeis no contexto do arbitramento do conflito
distributivo. Neste experimento fica evidente que, mesmo se admitindo algum papel de
responsabilidade social, o principal papel das empresas é gerar lucro, pois o mesmo é o
responsável pela atração de investidores. Poder-se-ia questionar, também, se a
responsabilidade social das empresas não cessaria no momento em que cumprem com suas
obrigações fiscais e tributárias, dando desta forma a quem é de direito, o Estado, cumprir com
o seu papel de bem estar social. Nada impede, no entanto, que a empresa invista em ações
sociais, desde que isso represente significado aos seus clientes e retornem como benefício
positivo aos resultados da empresa, na perspectiva do marketing social ou impression
management.
7 – Referências
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13
Apêndice (Questionário Aplicado aos dois Grupos de Alunos)
1) Gênero:
Feminino
Masculino
2) Já trabalha em sua área de graduação?
Sim
Não
3) Qual o seu Curso? _________________________
4) Qual o seu período? ___________
5) Você deseja comprar ações (títulos negociáveis em bolsa de valores) de uma empresa
utilizando seu dinheiro, que foi economizado após um ano de trabalho; sabendo que
a remuneração para seu investimento depende da existência de lucro em cada ano de
atividades da empresa. Analise atentamente os quadros abaixo:
DEMONSTRAÇÃO DO RESULTADO DO EXERCÍCIO
ITENS
RECEITA DE VENDAS
(-) Custo das vendas
(=) Lucro Bruto
(-) Despesas Operacionais
(=) PREJUÍZO
ANO 1 ($) ANO 2 ($) ANO 3 ($)
123.500
121.800
123.200
(94.840)* (93.900) * (94.450) *
28.750
28.660
27.900
(31.280)* (31.990) * (33.880) *
(3.190) *
(4.090) *
(5.130) *
* Os valores entre parênteses são negativos.
INFORMAÇÕES DIVULGADAS NO BALANÇO SOCIAL
ITENS
Número de entidades sociais
patrocinadas pela empresa
Volume de recursos aplicados na
capacitação dos empregados da empresa
Volume de recursos doados a entidades
protetoras do meio-ambiente
Volume de recursos doados a asilos e
orfanatos
ANO 1
ANO 2
ANO 3
03
04
05
$ 2.800
$ 3.100
$ 3.140
$ 3.000
$ 3.300
$ 4.500
$ 800
$ 850
$ 900
Após análise dos quadros acima você decidiria:
Comprar as ações com 100% de certeza de ter tomado a decisão correta.
Comprar as ações com 50% de certeza de ter tomado a decisão correta.
Comprar as ações com 25% de certeza de ter tomado a decisão correta.
Não comprar as ações.
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Decisões de Investimento Baseadas em Métricas Contábeis