ENTRE O BAIRRO E O LUGAR:
EXPERIÊNCIA URBANA NOS DICS, CAMPINAS
Between neighborhood and place: urban experience in the DICs, Campinas
Fernanda Cristina DE PAULA
Graduanda em Geografia, Instituto de Geociências (IG), bolsista FAPESP Núcleo de
Estudos de População (NEPO), ambos da Universidade Estadual de Campinas
(UNICAMP). [email protected]
Eduardo MARANDOLA JR.
Geógrafo, Doutorando em Geografia pelo Instituto de Geociências/ Universidade
Estadual de Campinas. [email protected]
Resumo
O bairro, sobretudo por conter o espaço da casa, figura na vida dos citadinos como pontozero a partir do qual o citadino estrutura sua experiência da cidade. Por ser o local da pausa,
principal espaço de vivência e de encontro com o outro na cidade, é o bairro que media as
representações do envolvimento do indivíduo com o conjunto da cidade, mediante a criação
de território e lugar. Com intento de compreender a geografia que se realiza “ao rés do
chão”, realizamos esta pesquisa no sentido de entender que é viver o bairro e que elementos
e processos geográficos desta vivência repercutem na compreensão e significado do urbano.
A pesquisa é baseada numa seqüência de trabalhos de campo (sob orientação geográficohumanista) no bairro DICs município de Campinas, São Paulo. Partindo da abordagem do
lugar, procuramos discorrer sobre os DICs, no esforço de apreender o significado do bairro
dentro da cidade através da própria experiência urbana.
Palavras-chave: bairro, identidade territorial, território vivido, DICs.
Abstract
Neighborhood is start point of urban life, structuring experience of the city. Is local of the
pause, central space in the life and meeting with the other in the city, mediating the creation
of territory and place. To understand the everyday-life geography, we did this research
towards comprehensive ´that is live in the neighborhood?´ and which geographical
elements and which processes influence knowledge about urban dwelling and significance.
The research was based in a field-work sequence (under the humanist-geographic
approach) in the DICs neighborhood at Campinas, São Paulo. From the place approach, we
sought to apprehend the neighborhood meaning into the city through the urban expedience.
Key-words: neighborhood, territorial identity, lived territory, DICs.
Introdução
I have a summer place on the Maine coast. You geographers know
nothing of it except what you could reasonably infer from your general
familiarity with the region in which it lies.[...] If, therefore, terra incognita
be conceived as an area within which no observed facts are record in
scientific literature or on maps, the interior of my place in Maine, no less
than the interior of Antarctica, is a terra incognita, even though a tiny one.
[...] Even if an area were to be minutely mapped and studied by an army
of microgeographers, much about its geography would always remain
unknown, if there is no terra incognita today in an absolute sense, so also
no terra is absolutely cognita.
Wright, 1947.
Existe um conhecimento que se realiza cotidianamente, inerente à vivência de todos os
indivíduos. A cada movimento do ser humano é movimentado um conhecimento (anterior à
própria consciência de um ato cognitivo) do mundo que o volteia: um conhecimento
intuitivo e intersubjetivo, originado no mundo vivido. (SCHUTZ e LUCKMANN, 1973;
BUTTIMER, 1985; PICKLES, 1988)
Há, intrínseco a este conhecimento, uma geografia, tal qual o conhecimento geográfico que
Wright (1947) possui acerca de sua casa na Costa do Maine. Talvez, nem um pequeno
exército de geógrafos poderia revelar esta geografia e torna-la cognita se não atentar para
um conhecimento experiencial, como defendido por Wright.
Aliados a este conhecimento, temos como eixo norteador a compreensão da experiência
urbana. A cidade é retratada como espaço do movimento constante de coisas e pessoas, do
encontro com o diferente, de local com ritmo de vida acelerado. Georg Simmel discorreu
sobre este ritmo frenético e suas conseqüências, como a atitude blasé característica do
citadino, a dificuldade de criação de laços entre as pessoas. Para ele, a vida nas grandes
cidades conforma um tipo de homem moderno. (SIMMEL, 1973) Levando as
considerações de Simmel ao extremo, a grande lacuna do viver urbano é a ausência de
tempo para sentir, o instante da pausa, na qual o indivíduo pode criar um vínculo mais
estreito com o espaço. (TUAN, 1983) Estariam os moradores urbanos fadados ao
movimento ininterrupto dentro da cidade?
Ao ponderar sobre um espaço na urbe onde se realize um ritmo contrário a este frenesi, é
possível pensar nos bairros residenciais, espaços nos quais se baseia a experiência
1
fragmentada da cidade. Ele tem a escala do corpo (é passível de ser conhecido através dos
sentidos), e provê desde a sobrevivência (a moradia, a padaria, a loja) até o lazer (a praça, o
restaurante). O bairro detém a potencialidade de ser território (enquanto porção do espaço
dominado pelo homem através do conhecimento) e lugar (relação íntima e emocional com
uma porção do espaço).
Assim, este trabalho busca apreender este espaço da cidade onde os indivíduos
permanecem: compreender que é viver o bairro, em direção ao entendimento da
experiência urbana. Atentando para os elementos e processos geográficos presentes na
experiência de viver o bairro, é importante questionar: qual é o papel do bairro na vivência
da cidade? Como são estabelecidos (significados) os limites, pelos seus moradores? Que
significa viver em determinado bairro? Qual é a relação entre o bairro e a cidade?
Para investigar estas questões, utilizamos a abordagem do lugar tal como trabalhada pelos
geógrafos humanistas. A categoria lugar refere-se ao espaço significado pelo indivíduo, ao
destacar relações diretas entre as pessoas e o espaço. (TUAN, 1983) Depõe o espaço
enquanto chão onde o ser humano funda sua existência, espaço gerador de significados,
remetendo à dimensão existencial do conhecimento geográfico. (WRIGHT, 1947;
ENTRIKIN, 1991; HOLZER, 1999)
A abordagem do lugar demanda a necessidade de realização de trabalhos de campo, pois
deriva um conhecimento geográfico da própria relação entre indivíduo e espaço. Em vista
disso, nossa investigação parte de um bairro particular, os DICs (Distritos Industriais de
Campinas) em Campinas, São Paulo, onde realizamos extensos trabalhos de campo. Estes
são fundamentais a uma abordagem fenomenológica pois “[...] os significados originais do
mundo-vivido estão constantemente sendo obscurecidos por conceitos científicos e pela
adoção de convenções sociais”. (RELPH, 1979, p. 4)
A fenomenologia husserliana coloca que os significados originais dos fenômenos estão
neles mesmos. (HUSSERL, 1913; AMORIM FILHO, 1999) A proposta da arqueologia
fenomenológica, dentro deste sistema filosófico, vai nortear os trabalhos de campo sob
orientação geográfico-humanista. (MARANDOLA JR., 2005) Os campos têm, portanto,
sua metodologia voltada para escavar (aludindo à atividade do arqueólogo) os elementos
(as camadas de cultura e entendimentos) que “obscurecem” os significados primeiros,
visando compreender o fenômeno sem estas mediações, a partir dele mesmo. Deste modo,
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os campos surgiram como esforço de compreender os significados do bairro a partir da
própria vivência dele. (DE PAULA, MARANDOLA JR e HOGAN, 2005)
Assim, a partir da abordagem do lugar nos DICs procuramos compreender que significa
viver o bairro e quais geografias estão imbricadas a esta experiência urbana. Para isso,
investigamos os DICs partindo da mobilidade e permanência e a importância de seus
espaços de vivência, que revelam a formação de uma identidade territorial no seu processo
de consolidação urbana. A formação de território vividos e a significação do espaço que se
torna lugar qualificam o bairro enquanto ponto de pausa no corre-corre da grande cidade.
DICs: entre a mobilidade, a permanência e o urbano
Antes de ser um bairro que se auto-formou (GEORGE, 1983; SEABRA, 2001), os DICs
(Figura 1) são uma zona residencial construída para atender uma classe econômica
específica (classes baixa e média-baixa). Enquanto um projeto de habitação popular,
realizado pela Cohab em acordo com a Prefeitura Municipal, já surgiu com a insígnia de
bairro popular.
As habitações foram entregues entre final da década de 1970 e meados da década de 1990.
Inicialmente padronizadas (casas e condomínios de edifícios de apartamentos), surgem
como traço forte da paisagem dos DICs, testemunhando sua extensão, seus limites.
Construído para ser bairro popular e, ainda, radicado onde a infra-estrutura urbana era ainda
deficitária, os DICs surgem no imaginário de Campinas como a segunda periferia da
cidade, fazendo alusão à considerável distância entre este conjunto de bairros e o centro da
cidade. Estes estão além da Rodovia Bandeirantes (SP-348), que era um limite imaginário
dos confins da expansão da cidade.
Um antigo morador do DIC I atenta que, ao redor dos primeiros condomínios e das
primeiras casas, havia somente mato e sítios. Assim, o início dos DICs foi caracterizado por
moradias urbanas onde a própria paisagem urbana ainda era débil. Este dado tem relevância
se concordarmos, junto com Lemenhe (1997), que a configuração da paisagem da cidade
tem importância na realização das atividades mais características da vida na urbe. Esta
debilidade da paisagem urbana contribuiu para a imagem de bairro periférico dos DICs.
Mas como a vida urbana fica estruturada ao se viver em um bairro como os DICs?
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Ao realizar os trabalhos de campo, dois elementos que se destacaram encontram eco nas
considerações de Ledrut. Este, ao discutir o espaço social da cidade, coloca:
[...] fixação e movimento, instalação e circulação são duas categorias
essenciais à vida dos aglomerados importantes. O drama da organização e
do funcionamento das coletividades urbanas se desenvolvem em torno
destes dois protagonistas. Os homens ocupam uma casa sobre uma parcela
de certo território para aí morar ou, algumas vezes, para produzir; porém
se deslocam para encontrar confrades e amigos, para comprar e vender,
etc. (LEDRUT, 1971, p.101)
Uma das formas clássicas de definição do urbano é através da oposição à vida rural. Ainda
que esta definição não consiga abarcar diversos caracteres concernentes à vida urbana
(CASTELLS, 1983) ela evidencia o fato de que na vida rural há sobreposição do espaço da
casa ao espaço necessário à sobrevivência (agricultura e pecuária tanto para o próprio
consumo quanto para a venda); enquanto no urbano há a dissociação destes espaços; a cada
atividade um deslocamento. A casa ocupada, a parcela de território em que há a
permanência e a fixação, tem um papel fundamental. A configuração espacial desta área e
os movimentos que a animam congregam a promoção ou o truncamento da mobilidade na
vida urbana.
Cotidianamente, o espaço de referência é o bairro. A partir dele é que a vivência do restante
da cidade, os movimentos cotidianos necessários e/ou desejados são estruturados. E a crise
associada a esta debilidade dos caracteres urbanos atesta a importância destes na vivência
do bairro.
Deste modo, a mobilidade (movimento) e a permanência (fixação) ganham relevo para
discutir a experiência urbana a partir da memória daqueles que vivem nos DICs, revelando
os movimentos geográficos presentes na idéia de bairro.
O início dos DICs: mobilidade e permanência
Se o urbano é tributário da mobilidade, como afirmou Ledrut (1971), são as qualidades
desta que definem uma vivência urbana razoável. Um morador relatou que, na década de
1980, em dias de chuvas muito forte, as ruas (de terra) se tornavam intransitáveis e as
pessoas eram obrigadas a desembarcarem dos ônibus nas imediações do que é hoje o
Terminal Ouro Verde e seguir até o DIC I a pé (Figura 02).
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Não é sem fundamento a pilhéria, entre os campineiros, com a sigla DICs: “Distância
Incalculável de Campinas”. Na fala dos moradores fica patente que é complicado ser
citadino, ter o espaço da residência dissociado dos outros espaços, quando é mais difícil
alcançar o restante da cidade. Esteja esta dificuldade na forma das ruas intransitáveis ou nas
próprias características do serviço de transporte coletivo (nos itinerários realizados ou no
intervalo de passagem dos ônibus), quando as pessoas são dele dependentes, como no caso
dos DICs. A distância em relação ao centro de Campinas, no início dos DICs, não era um
problema só de extensão, mas também da eficácia, da qualidade e potencialidade dos meios
de se locomover. Quando estas épocas são narradas, fica expresso um sentimento de
isolamento em relação ao restante da cidade.
Há ineficácia da mobilidade se a dependência dos indivíduos em relação ao restante da urbe
for forte, na medida em que o bairro (área de permanência) não satisfaz as necessidades do
modo de vida urbano. Os moradores atentam para as dificuldades associadas a esta
mobilidade (tanto em sua causa, quanto em sua qualidade) ao citarem a adversidade frente a
uma emergência médica: o referencial de pronto-socorro era o Hospital Municipal Mário
Gatti, próximo ao centro.
Os DICs, embora propostos como bairro urbano apresentavam, então, uma integração
insatisfatória (de acordo com os moradores) ao restante da urbe. Mas, a questão da
mobilidade do indivíduo urbano não está só relacionada ao ir e vir ao centro.
Enquanto local da morada, a vida urbana se centra, de vários modos, no bairro. Ir e vir
dentro do bairro está ligado ao suprimento de necessidades e desejos mais prementes na
manutenção diária da vida. Certa mobilidade satisfatória dentro do bairro, ligada ao seu
conteúdo socioespacial enquanto provedor destas necessidades ou desejos, qualifica a
permanência no bairro.
Embora a mobilidade seja fundamento da vida urbana, as cidades modernas têm como
paradigma de qualidade de vida que esta mobilidade se realize por pequenas distâncias para
as necessidades mais prementes do cotidiano. Com o urbano ainda não consolidado (ainda
na década de 1990, pequenas manadas de bois atravessavam algumas ruas, lembra um
morador), com o comércio representado pelas pequenas iniciativas de um ou outro
morador, as compras de mantimento para a semana ou do pão francês para o café-damanhã, por exemplo, significavam deslocamentos consideráveis através dos DICs.
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Um morador, que se mudou para os DICs na década de 1990, conta que restringia o hábito
de comer pão francês aos cafés-da-manhã de finais de semana, pois, nos dias úteis, não
tinha tempo de se deslocar do DIC V até o interior do DIC III, onde ficava a pequena
padaria que atendia à área. Este mesmo morador também conta sobre a necessidade de se
deslocar a pé até a Av. Itamaraty para compra de produtos corriqueiros no único mercado
que havia nas imediações (Figura 02).
Notável, ainda, é o caso do Posto de Saúde do DIC III que, até o final da década de 1990,
era o único referencial mais próximo de serviço de saúde pública para os moradores dos
DICs II, III, IV, V. Era necessário vencer, para muitos, grandes distâncias a pé para
consultas médicas ou pequenas emergências.
Notamos a fragilidade dos caracteres urbanos dos DICs, onde pequenas necessidades
podiam implicar em grandes distâncias a serem percorridas ou, mesmo, o deslocamento até
o centro da cidade.
Observado certo quadro de reveses (inseridos no contexto de descompasso entre um bairro
que se propõe urbano, mas onde os caracteres que o definem enquanto tal são débeis) na
vivência dos primeiros anos nos DICs, surge a pergunta aos moradores mais antigos: por
que permanecer neste bairro marcado pelas lidas constantes contra as adversidades? As
respostas, substancialmente parecidas, nos direciona para o significado dos DICs na vida de
seus moradores: ficaram porque foi neste bairro que conseguiram suas casas próprias.
O espaço em que se permanece, ao longo do tempo, pode se tornar espaço apropriado. Os
DICs, enquanto bairro, são uma área da cidade onde se convive intimamente com o espaço,
no qual os indivíduos se movem em função da realização das atividades mais rotineiras. E a
idéia de apropriação do espaço tem importante relevância: é nesta que pode repousar a idéia
de território.
Permanência e identidade territorial nos DICs
Há diferentes perspectivas para a compreensão e uso do território enquanto categoria
analítica. (HAESBAERT, 2004) O que une estas perspectivas e que, consequentemente,
orienta a idéia de território é a apropriação de uma parcela do espaço, resultando em certo
exercício de poder sobre ela. (SACK, 1986)
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Trazendo da vivência dos moradores dos DICs a apreensão da experiência urbana,
encontramos indicativos de movimentos de territorialização que fundam a vivência do
bairro, as quais se uniram, sobretudo, sob a égide da identidade territorial. Esta se revela
como elemento de coesão comunitária entre aqueles que vivem os DICs, sobretudo, desde
seu início.
A partir da fala dos moradores apreende-se que o território (que se realiza na/pela vivência
urbana) desenvolve-se no envolvimento com o espaço. Este é um território-vivido,
remetendo aos fatores que caracterizam o território relacionados ao poder explícito ou
implícito sobre determinada porção de espaço, à delimitação desta porção e às implicações
de a ela pertencer realizados na escala do indivíduo, na experiência vivida.
O território vivido dos primeiros moradores dos DICs se estende por quilômetros. A
mobilidade interna, caracterizada pelas consideráveis distâncias dos serviços e/ou
equipamentos sociais (como posto de saúde ou escola) faz com que o movimento de
territorialização se estenda por grandes áreas. E a divisão entre os diversos DICs não ganha
muita força na vivência destes, pois, com esta mobilidade estendida, o território e o lugar
não se conformam por estas divisões. A confluência aos poucos estabelecimentos
necessários ao cotidiano serviu como promotor de laços entre indivíduos que residem a
considerável distância um do outro, mas submetidos às mesmas condições de vida
engendradas pela configuração territorial dos DICs.
O território se estende então para além dos espaços imediatos das casas. As relações
primárias entre os indivíduos também se estendem para além das estabelecidas com os
vizinhos contíguos, tornando a identidade territorial o elo que liga o território e as relações
entre os indivíduos dos DICs.
A territorialização tem relação intrínseca à formação de identidade territorial, a qual remete
à associação tríplice entre como é determinado território, quem vive nele e como é viver
nele. A identidade territorial pode surgir, assim, como base para formação de laços
comunitários em um bairro. Institucionalizando a singularidade dos indivíduos (em relação
a outros indivíduos que moram em outras áreas da cidade) baseando-a na vivência conjunta
do mesmo território. Le Bossé coloca a importância da territorialidade na interface entre
lugar e identidade. A territorialidade está expressa
No sentido das modalidades práticas e simbólicas pelas quais um grupo
define e controla seu território, a territorialidade revela a identidade do
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lugar; ela é, ao mesmo tempo, o produto e a expressão de um ponto de
vista interno e inclusivo. (LE BOSSÉ, 2004, p.173)
Este ponto de vista interno e inclusivo, quanto mais forte, expressa o sentimento de uma
“comunidade de vida e destino” (BAUMAN, 2005, p.17), baseada, no caso da identidade
territorial, na própria experiência de conviver no mesmo espaço, de historicidade e
geograficidade específicos.
Estas modalidades práticas e simbólicas da apropriação e controle do território perfazem a
paisagem dos DICs. Elas estão explicitadas na medida em que certo ponto de vista interno
perpassa a identidade territorial e se aplica na apreensão e adequação deste espaço às
necessidades ou desejos daqueles que nele vivem.
O lazer reflete este processo de adequação do território. O caso dos campos de futebol
abertos nas várzeas (Figura 2), por exemplo, são representativos. Times e campeonatos de
futebol são organizados (atraindo grande contingente de moradores) e, em alguns campos,
os moradores construíram estruturas (arquibancadas, bancos ou mesmo pequenas praças)
para assistir aos jogos. Também concorrem como práticas de apropriação do espaço
pequenas praças idealizadas por moradores, a plantação maciça de árvores em determinadas
avenidas ou a recorrente tomada de terrenos de várzeas para a construção de pequenas
hortas ou jardins. Foi perguntado a um morador sobre uma grande horta à beira de um
córrego de quem era aquele terreno. O senhor de idade respondeu, sorrindo, que o terreno
era da prefeitura; mas a horta, quem mantinha, era um homem da rua de cima e, ainda,
completou: “ele cuida direitinho pra nós”. A paisagem transformada (construída em direção
ao que se espera ou se deseja dentro do bairro que) expressa a configuração territorial que
norteia o dia-a-dia dos indivíduos.
Augustin Berque, problematizando a questão da paisagem para a Geografia Cultural, expõe
a importância da construção e reconstrução do espaço. Para ele, a paisagem “[...] existe, em
primeiro lugar, na sua relação com um sujeito coletivo: a sociedade que a produziu, que a
reproduz e a transforma em função de uma certa lógica.” (BERQUE, 1998, p. 84) A lógica,
neste caso, está relacionada à própria adequação do espaço do bairro às necessidades e
desejos daqueles que ali vivem.
Cabe atentar, ainda, que a idéia de identidade tem sentido ao fundar a distinção no interior
de uma coletividade (de pessoas, objetos ou lugares). É, deste modo, a resposta à pergunta:
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que é isso? Elementos em comum servem, então, como fatores que fundam a distinção em
relação aos outros. (WOODWARD, 2000; BAUMAN, 2005) No que tange às identidades
territoriais, estes fatores estão fundados no espaço. (TUAN, 1983; HAESBAERT, 1999; LE
BOSSÉ, 2004)
A identidade territorial dos DICs funda a particularidade deste espaço. E, deste ponto,
podemos entender que a identidade territorial conota a singularidade (pautada em certa
coesão geográfica) que dá sentido à idéia de bairro dentro das cidades.
No entanto, atentos à amplitude da experiência urbana (na subjetividade e
intersubjetividade podem estar congregadas diferentes visões sobre a mesma área da
cidade), esta identidade territorial pode ter uma face externa e, neste caso, a identificação
do bairro (os símbolos que o distinguem) pode ser mediado por imagens, discursos, pouco
afeitos à vivência do lugar. (COSTA, 1999) Por exemplo, a identidade territorial gerada
fora dos DICs caracterizam-no como espaço sob a égide de todo tipo de reveses urbanos.
Porém, a visão dos insiders difere desta representação. Esta compreensão, fundada na
(com)vivência pode manifestar não só uma imagem diferente da produzida fora do bairro,
mas, além disso, apresentar como esta identidade territorial congrega e norteia a relação
entre os indivíduos e este espaço.
É neste sentido que é importante, para compreender o bairro, pensar em termos do território
vivido, focando a experiência concreta (em detrimento da mediatizada) para erigir um
conhecimento do espaço a partir da própria presença neste. Esta postura possibilita o
confronto das duas imagens que bairro carrega: a interna, dos insiders, e a externa, dos
outsiders. O confronto destas duas imagens resulta numa visão mais ampla da realidade do
viver naquele bairro e seu significado para seus moradores.
Consolidação urbana: territórios vividos nos DICs
“Quando mato vira bosque é porque melhorou, não é?”, perguntou retoricamente a
moradora do DIC IV. Na fala dos moradores, quando colocam ênfase entre o início do
bairro e suas condições atuais, dizem que o bairro agora é o paraíso. “Agora, aqui tem
tudo”, é uma expressão recorrente.
Os DICs cresceram, as últimas residências já foram entregues, as ruas estão asfaltadas. O
descompasso entre o projeto de uma zona residencial urbana onde o urbano era débil é
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solucionado na sua consolidação urbana. Persiste a imagem de bairro pontuado por variadas
adversidades, mas os moradores depõem o contrário.
Ir até a cidade já não engendra grandes sacrifícios. Novas linhas de ônibus, novos
itinerários e diminuição do intervalo entre um ônibus e outro aproximaram o bairro do
centro. Expressão da importância desta ligação está no papel da linha de ônibus que sai do
DIC I, atravessa os outros DICs e faz um caminho mais rápido, através da Rodovia Santos
Dumont. (Figura 02)
No entanto, ir à cidade já não é tão premente quanto antigamente. O comércio se fortaleceu
ao longo de algumas avenidas, que se tornaram vias principais o comércio, os itinerários
dos ônibus e os acessos a serviços como postos de saúdes, escolas, creches. A permanência
no bairro já não envolve tantas carências como antes.
Outro símbolo de melhorias são os serviços oferecidos no que se convenciona chamar, em
Campinas, de centro da região Ouro Verde. A associação do Terminal Ouro Verde, do
Hortoshopping Ouro Verde, das agências bancárias, do Pronto Socorro Ouro Verde
promovem forte fluxo para a área, notadamente nos finais de semana.
Mas, dentro dos DICs, o território vivido não é apenas um, estendido sobre toda a área. Na
fala dos moradores, encontramos a expressão de dois movimentos de territorialização que
têm sua consolidação na forma de duas centralidades dentro dos DICs: nos DICs I e VI, na
Rua Jorge P. Mendonça; e nos DICs II, III, IV, V e 5 de Março, na rua Carmen A. de
Nicoletti e na Av. Suaçuna. No entanto, estes centros não fragmentam a identidade una dos
DICs, em geral (na forma de aqueles que aqui vivem, estão submetidos ao mesmo modo de
vida, esteado na configuração espacial da área). Conta, neste caso, o peso do centro da
Região Ouro Verde: figurando como fator de união destes territórios, na medida em que é
ponto de confluência (área comum a que recorrem) dos moradores dos DICs.
Ledrut (1971, p. 11), discorrendo sobre a importância de centros de recursos dentro dos
bairros, auxilia a compreensão do papel destas centralidades:
A necessidade suscitada pelo afastamento vivido vai levar à criação de
vários serviços, acentuando assim a individualização do bairro, sob o
aspecto da sua organização e forma. O bairro deve, na verdade, sua
unidade aos seus recursos e aos comportamentos sociais a ele ligados. [...]
A freqüência aos estabelecimentos comerciais, às escolas, às salas de
reunião e de espetáculos... que se instalaram dentro de certo perímetro
contribui para a formação de um bairro.
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O bairro, por ser local de permanência, e não raro distante do centro da cidade, precisa ser
um espaço de certa autonomia – no sentido de dar base ao devir cotidiano. Esta autonomia
está ligada, principalmente, às características da mobilidade (não só na qualidade das redes,
mas, nas causas do movimento, na sua necessidade) e nas possibilidades que a configuração
espacial do bairro oferece para aqueles que ali permanecem.
Ao promover a confluência, as centralidades também denotam limites destes territórios.
Estas duas territorialidades dos DICs são facilmente explicitadas pelos moradores. Quando
perguntado a estes se conhecem toda a área dos DICs, atestam que sim; porém, a mesma
ressalva é recorrente. Por exemplo, moradores dos DICs II, III, IV, V que afirmam não
conhecer tão bem os a área dos DICs I e VI. Não têm a necessidade cotidiana de ir até
aquela área e os limites entre estas duas áreas se dão (na compreensão dos moradores), de
certa forma, pelo córrego em interface entre o DIC VI e os DICs II e III. O território que
vive é este.
O entendimento do papel do bairro na vivência da cidade revela-se na fala do morador do
DIC VI que, quando perguntado a que posto de saúde costumava recorrer, dado que parecia
não haver nenhum nas imediações, ele respondeu que ia ao Posto de Saúde do DIC I.
Perguntado se este não era muito longe de sua casa, disse que não, e acrescentou
(gesticulando, apontando limites) que o bairro era aquele ali, da sua casa ao Posto de
Saúde do DIC I, onde estava também o supermercado onde costuma fazer as compras mais
corriqueiras, assim como onde se beneficia de outros serviços situados naquela rua (a Jorge
P. Mendonça). Bairro é, para ele, parcela do espaço por onde costuma se mover, em razão
das necessidades cotidianas. E se assim apreendermos o bairro, este implica, deste modo,
em uma territorialização inalienável a estruturar a experiência urbana.
Entre o bairro e o lugar: territórios vividos
A partir da abordagem do lugar nos DICs, acreditamos que o conceito de território seja
porta de entrada para a compreensão dos bairros urbanos. As considerações de Sack sobre a
territorialidade humana nos auxiliam na compreensão do conceito de território e na sua
aplicação ao bairro:
First, by definition, territoriality must involve a form of classification by
area. When someone says that anything, or even some things, in this room
are his, or are off limits to you, or that you may not touch anything outside
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this room, he is using area to classify or assign thing to category such as
his, or not yours.
Second, by definition, territoriality must contain a form of
communication. This may involve a marker or sign such as is commonly
found in a boundary. Or a person may create a boundary through a gesture
such as pointing. A territorial boundary may be the only symbolic form
that combines a statement about direction in space and a statement about
possession or exclusion.
Third, each instance of territoriality must involve an attempt at enforcing
control over access to the area and to things within it, or things outside of
it by restraining those within. More generally, each instance must involve
an attempt at influencing interactions: transgressions of territoriality will
be punished an this can involve other non-territorial and territorial action.
(SACK, 1986, p. 21-22)
A reflexão levantada a partir da pesquisa nos DICs nos mostra que a vivência do bairro
contempla estas três inter-relações apontadas por Sack. Enquanto estabelecimento de uma
unidade espacial dentro da cidade, o bairro se institui na delimitação de fronteiras que se
constrói no dia-a-dia para além de delimitações oficiais. Os indivíduos se utilizam de
marcos e símbolos espaciais enquanto forma de comunicação das fronteiras, trazendo a
compreensão da confluência aos centros a expressar quem pertence ao território. Importante
atentar que o estabelecimento de fronteira guarda então uma classificação de área, pois, no
exercício de delimitar aponta as características que correspondem ao bairro e que vai
identificá-lo dentro do conjunto da cidade. Esta delimitação também aponta quem pertence
ao bairro ou a quem o bairro pertence, implicando na institucionalização do fato do que
acontece no bairro diz respeito, diretamente, a quem o ocupa.
Perseguindo o “viver no bairro” trilhamos em direção ao território enquanto valor. Partindo
deste ponto, as considerações de Zilá Mesquita contribuem para esta busca, na medida em
que se aproxima do território e do valor deste ao homem enquanto estado/movimento
natural que caracteriza nossa existência:
O território é o que é próximo [...]. É o que nos liga ao mundo. [...] É o
espaço que tem significação individual, e social. Por isso ele se estende
até onde vai a territorialidade. Esta é aqui entendida como a projeção de
nossa identidade sobre o território. (MESQUITA, 1995, p. 83)
Território implica proximidade, relação direta com o espaço. O bairro, por ser local de
permanência e ponto zero a partir do qual se estrutura nossa mobilidade, é espaço
privilegiado de formação de territorialidade em nossa experiência urbana.
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Quando atentamos ao território vivido, mais do que considerar o território do bairro,
estamos nos aproximando de como este se funda no dia-a-dia, mediante as relações que os
indivíduos travam com o espaço. São diversas as discussões sobre critérios de bairros
verdadeiros, qual seria sua extensão (áreas muito grandes podem truncar a unidade espacial
de um bairro?), se a presença de elementos que não se originaram na própria área serviriam
como quebra de identidade e coesão de um bairro. Há o próprio questionamento se o
“bairro verdadeiro” deixaria de existir nas grandes cidades modernas. (LEDRUT, 1974;
SEABRA, 2001)
O nome de um bairro gera uma identidade deste dentro da cidade, associando ao nome
configurações espaciais singulares que orientam a compreensão desta área. Como no caso
dos DICs, a coesão interna e a identidade a ela relacionada só pode ser apreendida se
atentarmos à vivência deste espaço.
Ao figurar na experiência urbana como imagem de uma área ou enquanto espaço onde se
permanece, o bairro é área delimitada, espaço apropriado onde pode ser observado o
exercício (explícito ou implícito) de poder. O bairro é território e a territorialidade é
inerente ao ser humano. Perde sentido, assim, a discussão se o bairro é verdadeiro ou não.
De certo modo, o bairro (seu nome, sua imagem) institucionaliza territórios vividos dentro
da cidade. Cabe, assim, para compreender as experiências específicas (denotada pelas
singularidades que fundam a idéia de bairro) tentar apreender quais relações entre
indivíduos e espaço se realizam neste território (se há mais de um território vivido, se existe
maior ou menor relação com toda a área do bairro, por exemplo). Restando apreender a
vivência como critério de verdade para compreender como estes territórios norteiam a
experiência urbana daqueles que ali vivem.
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Anexos
Figuras 01 e 02
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16
17
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