i Pró-Reitoria de Graduação Curso de Engenharia Ambiental Trabalho de Conclusão de Curso NÍVEIS DE EXPOSIÇÃO SONORA DEVIDO À UTILIZAÇÃO DE APARELHOS DE MÚSICA INDIVIDUAIS Autor: Mayra Santos de Freitas Orientador: Prof. Dr. Sérgio Luiz Garavelli Artigo apresentado ao Curso de Graduação em Engenharia Ambiental da Universidade Católica de Brasília, como requisito para obtenção ao título de Bacharel em Engenharia Ambiental. O artigo foi aprovado por: Sérgio Luiz Garavelli – Orientador, Edson Benício Carvalho Júnior – Examinador. Brasília, 18 de novembro de 2011. Brasília - DF 2011 i NÍVEIS DE EXPOSIÇÃO SONORA DEVIDO À UTILIZAÇÃO DE APARELHOS DE MÚSICA INDIVIDUAIS Mayra Santos de Freitas [email protected] Sérgio Luiz Garavelli (Professor Orientador) [email protected] Curso de Graduação em Engenharia Ambiental – Universidade Católica de Brasília RESUMO A exposição a níveis elevados de ruídos, por longos períodos, pode provocar perda auditiva permanente, irreversível e zumbido num indivíduo. Os efeitos do ruído ambiental na audição já são reconhecidos como problema de saúde pública entre crianças. A sociedade ainda não está ciente de que as atividades de lazer podem ser fonte de ruído ambiental perigoso entre pessoas de todas as idades. Com a popularização dos aparelhos portáteis de música, o problema se agravou, já que os fones de ouvido potencializam os níveis sonoros, por estarem em contato direto com o aparelho auditivo. Neste trabalho, o principal objetivo foi avaliar os níveis de pressão sonora (NPS) durante o uso dos aparelhos de música portáteis, considerando o ruído do ambiente em que o pesquisado se encontrava. A pesquisa foi realizada com 200 voluntários, preferencialmente jovens, já que estes são os que poderão ter maiores prejuízos futuros, pelo maior tempo de exposição, e pelo fato de não procurarem se proteger. No momento da pesquisa, além da análise dos NPS e do ruído de fundo (RF), também foi aplicado um questionário. Os resultados mostram os hábitos de utilização destes dispositivos pelos jovens e seus comportamentos de risco, indicando que a maioria escuta música em seus aparelhos portáteis com volume elevado por longos períodos. Pela análise dos possíveis danos induzidos pelo uso destes aparelhos, pode-se verificar que a norma europeia é a mais rígida do que as brasileiras, colocando mais da metade dos pesquisados dentre de uma área de risco para perda da audição. Palavras-chave: Níveis de Exposição Sonora. NPS. Ruído de Fundo. MP3. Fones de ouvido. Artigo apresentado ao Curso de Graduação em Engenharia Ambiental da Universidade Católica de Brasília, como requisito para obtenção ao título de Bacharel em Engenharia Ambiental. O artigo foi aprovado por: Sérgio Luiz Garavelli – Orientador, Edson Benício Carvalho Júnior – Examinador. Brasília, 18 de novembro de 2011. ii ABSTRACT Prolonged exposure to high levels of noise can induce permanent hearing loss, irreversible and tinnitus in an individual. The effects of environmental noise on hearing have being recognized as a public health problem among children. The society may not be aware of the many recreational activities can be source of hazardous environmental noise for people of all ages. With the spread of portable music players, the problem has increased dramatically, because the earbuds potentiate the sound levels, being in direct contact with the auditory canal. In this study, the objective was to evaluate the sound pressure levels (SPL) for the use of portable music players, considering the noise environment where the investigated stood. The survey was conducted with 200 volunteers, usually young, since these are the ones who may have greater future losses, for exposure time, and because they do not seek to protect themselves. At the moment of study, we analyzed the SPL and the ambient noise levels (ANL), along with the application of a questionnaire. The results come down listening habits of music playing devices by the young and their risky behaviors, indicating that most listen to music on their portable devices at high volume for long periods. Through the analysis the possible damage induced by the use of these devices, we can see that Europe is more severe than the Brazilian norms, adding more than half of respondents within an area at risk for hearing loss. Keywords: Noise exposure levels. SPL. Ambient noise levels. MP3. Headphones. 1 1. INTRODUÇÃO O efeito do ruído sobre a audição é conhecido desde tempos remotos. A história deste contaminante como um dos fatores que leva a perda auditiva remonta ao ano de 1700 (SALAZAR et al., 2006). Desde então, o conhecimento sobre o assunto vem sendo acumulado e como consequência a legislação e recomendações que visam prevenir a perda auditiva induzida por ruídos (PAIR, 2006), está evoluindo. Nos países mais desenvolvidos, incluindo o Brasil existem legislações (NR 15) que fixam limites para a exposição a ruídos ocupacionais. Porém, ainda não existem normas que limitem a exposição ao ruído associado às atividades não-ocupacionais (SALAZAR et al, 2006; KATBAMNA e FLAMME, 2008), o que não significa que este tipo de exposição não seja prejudicial à saúde. Nos últimos anos ocorreu uma extraordinária popularização dos aparelhos portáteis de músicas, principalmente os celulares. Na onda deste crescimento a exposição de jovens e adolescentes a música em volume elevado aumentou consideravelmente e na mesma proporção os riscos de danos à saúde (KASPER, 2006; VOGEL et al., 2008). Os efeitos do ruído ambiental na audição ainda são mais reconhecidos como um risco ocupacional entre adultos do que como problema de saúde pública entre crianças (NISKAR et al., 2001; VOGEL et al., 2011). Contudo, assim como a perda auditiva induzida pelo ruído ocupacional, a perda auditiva induzida pelo uso de aparelhos de música portáteis está evoluindo para significativos problemas de saúde social e pública atingindo jovens em diversos países, incluindo o Brasil. Porém, a sociedade ainda não está ciente das muitas atividades nãoocupacionais que podem ser fontes de ruído ambiental perigoso para pessoas de todas as idades (VOGEL et al., 2011). Especialistas de vários campos buscaram estratégias para a prevenção da perda auditiva induzida pelo uso de MP3 players entre adolescentes, através do método de estudo Delphi (VOGEL et al., 2009). Este estudo baseia-se num processo estruturado para a coleta e síntese de conhecimentos de um grupo de especialistas por meio de uma série de questionários, acompanhados de um feedback organizado de opiniões. Concluiu-se que as partes mais relevantes para esta prevenção são os próprios adolescentes, os pais, os fabricantes de MP3 players e fones de ouvido, e as autoridades. Identificou-se duas medidas de proteção ambiental de saúde como sendo as mais relevantes e viáveis de serem implementadas: as autoridades incentivarem os fabricantes a produzir produtos mais seguros, e a realização de campanhas de saúde pública para melhorar o conhecimento sobre os riscos 2 de alto volume da música, possíveis medidas de proteção, e as consequências (perda de audição) (VOGEL et al., 2009). O Comitê SCENIHR (Scientific Committee on Emerging and Newly Identified Health Risks), que trata sobre questões relativas aos riscos emergentes ou recém-identificados para a saúde da população, situado em Bruxelas, aplicou uma metodologia de avaliação de risco à saúde da exposição ao ruído de dispositivos de música portáteis, que avalia se existe relação casual entre a exposição e efeitos adversos à saúde. Considerando comportamento de risco a utilização por mais de 1 hora diária destes aparelhos com um NPS igual ou superior a 89 dB(A). Na literatura especializada, há vários trabalhos relacionando a exposição de jovens a níveis elevados de pressão sonora provocados por música e perdas auditivas. Vogel e colaboradores publicaram recentemente uma revisão e artigos sobre o assunto (VOGEL et al., 2008, 2009 e 2011). Outros trabalhos que relacionam perdas auditivas e a exposição a ruídos causados por música, podem ser destacados como os realizados pelos pesquisadores: Peng et al. (2007); Williams (2005) e Comitê SCENIHR (2011). No Brasil, apesar de nossos jovens estarem expostos ao mesmo tipo de agente, estudos neste sentido ainda são raros. Para avaliar os possíveis danos à saúde física, mental e a audição que a utilização de tais equipamentos pode causar, se faz necessário medir os níveis de pressão sonora a que os usuários estão expostos. Porém, esta medida não é uma tarefa simples e deve ser feita onde o pesquisado se encontra, já que pode depender do ruído ambiente. 2. REFERENCIAL TEÓRICO 2.1. SOM E RUÍDO O som é uma variação da pressão ambiente detectável pelo sistema auditivo, possui natureza mecânica e se propaga longitudinalmente pelo ar (BISTAFA, 2006; FERNANDES, 2005). O ruído é geralmente considerado o som indesejável, sendo uma definição muito subjetiva, pois o que pode ser indesejável para uns pode não ser para outros (BISTAFA, 2006). Um ruído é um tipo de som, porém um som não é necessariamente um ruído. O ruído de fundo (RF) é uma terminologia utilizada para designar o nível sonoro medido quando a fonte específica não é audível e, algumas vezes, tem o valor de um parâmetro de ruído, tal como o L90. 3 2.2. NÍVEIS DE PRESSÃO SONORA O nível de intensidade sonora (NIS) é a escala logarítmica usada para medir as variações de intensidade sonora detectadas pelo ouvido humano (GERGES, 2000). A grandeza relativa que avalia a razão entre duas intensidades sonoras é medida em decibels (dB) e sua intensidade acústica é proporcional ao quadrado da pressão sonora. O nível de pressão sonora (NPS) é um padrão de referência equivalente à menor pressão audível, e é dado pela Equação (1): 𝑝2 𝑝 𝑁𝑃𝑆 = 10 × log � 2 � = 20 × log � � 𝑝0 𝑝0 (1) Onde: p é a pressão sonora em N/m2 e p0 é a pressão de referência = 0,00002 N/m2 e corresponde ao limiar da audição para a frequência de 1000 Hz (GERGES, 2000). 2.3. EXPOSIÇÃO OCUPACIONAL AO RUÍDO A exposição prolongada a níveis de ruído elevado no trabalho é ainda é oficialmente a uma das causas mais frequentes de perda de audição (BISTAFA, 2000). O Ministério da Saúde (2006) considera a perda auditiva induzida por ruído (PAIR, 2006) como sendo a perda provocada pela exposição por tempo prolongado ao ruído, sendo esta perda neurossensorial, bilateral na maioria das vezes, irreversível e progressiva com o tempo de exposição ao ruído. A PAIR se deve a união de dois fatores: pressão sonora e tempo de exposição (BISTAFA, 2006). 2.4. EXPOSIÇÃO NÃO-OCUPACIONAL AO RUÍDO Uma das principais causas de problemas auditivos em todo mundo é a exposição ao ruído excessivo. A Diretiva Europeia 2003/10/CE para ruído, estabeleceu o limite equivalente de exposição ao ruído de 80 dB(A) como sendo o mínimo de nível de segurança. Cada vez mais está surgindo um alto risco de deficiência auditiva fora do local de trabalho, com: o uso leitores de música pessoais (MP3’s), ida frequente a shows, bares, assistindo esportes barulhentos, enfim, se expondo há ambientes barulhentos. Estas fontes de ruído de lazer geram sons dentro de uma ampla frequência e faixas de nível de pressão. Os sons que veem da música podem ser considerados tão perigosos para a audição quanto o ruído industrial (Comitê SCENIHR, 2011). 4 Enquanto o ruído ocupacional vem diminuindo, estima-se que o número de jovens com exposição ao ruído não-ocupacional só vem crescendo. Fatores como: um aumento da qualidade dos aparelhos de música portáteis; diminuição de preços; um aumento na venda destes aparelhos; aparelhos celulares com a função de reprodução de música; tudo isto vem gerando uma tendência para um risco crescente devido ao uso de fones de ouvido, quando o uso é inadequado (Comitê SCENIHR, 2011). Atualmente, é possível alcançar altos níveis de saída de som, sem distorção, com os formatos digitais de som disponíveis (MP3, por exemplo). Os leitores de música pessoais e celulares produzem uma gama de níveis máximos em torno de 80-115 dB(A), dependendo do dispositivo. O real nível sonoro no tímpano vai ser influenciado pela profundidade de inserção do fone no canal auditivo, podendo chegar a níveis de 120 dB(A), no pior dos casos (Comitê SCENIHR, 2011). Outro fator que está envolvido na avaliação do risco potencial, além do nível de intensidade, é o tempo de exposição. Nível de exposição ao som superior a 80 dB(A) é considerado risco potencial se a exposição a esse nível continua durante 8 horas por dia, cinco dias por semana por dezenas de anos. A cada duplicação do nível de exposição (+3 dB), devese reduzir pela metade o tempo de exposição. Segundo o Comitê SCENIHR (2011), o tipo de música e o ambiente pouco influenciam os níveis de exposição. A população de risco devido ao uso de aparelhos de música portáteis está crescendo e os aparelhos possibilitam o uso em níveis de som cada vez mais altos. Especialistas (Comitê SCENIHR, 2011) apontam suas preocupações em relação à falta de dados relacionados ao tema, como: as características dos aparelhos, os atuais padrões de uso, duração, nível de saída, exposição de usuários a várias fontes de som ao mesmo tempo em que escutam música em altos níveis; a contribuição de sons em volumes elevados para a perda auditiva e zumbido, assim cognitivos (atenção, percepção, memória, raciocínio, imaginação) e déficits de atenção em crianças e jovens; estudos de longo prazo através de medidas mais sensíveis de deficiência auditiva para avaliar os impactos do uso dos dispositivos de música portáteis, e identificar os subgrupos com maior potencial de risco (como crianças, usuários que trabalham ou estudam em locais ruidosos, subgrupos genéticos ou ambientais); uma base biológica da susceptibilidade individual ao ruído e aos benefícios dos tratamentos farmacológicos; e se o uso excessivo leva a perda cognitiva e déficits de atenção permanentes e irreversíveis após a interrupção do ruído (Comitê SCENIHR, 2011). 5 2.5. LEGISLAÇÕES As normas e legislações que tratam do problema do ruído ambiental de trabalho estabelecem limites que tentam enquadrar o risco de perda de audição dentro de limites admissíveis, reconhecendo, no entanto que alguns indivíduos terão perda auditiva mesma em ambientes suavemente ruidosos, já que algumas pessoas são mais suscetíveis do que outras à perda de audição provocada por ruído (BISTAFA, 2006). Como não existem normas especificas para o ruído em situações de lazer, os regulamentos e limites que se aplicam aos locais de trabalho poderão ser utilizados, pois eles tratam sobre os níveis de exposição e duração em que o som tem um efeito negativo, como o de leitores de música pessoais (Comitê SCENIHR, 2011). A norma que regulamenta o ruído em ambientes de trabalho no Brasil é a NR-15 (Norma Regulamentadora do Ministério do Trabalho), que regulamenta as atividades e operações insalubres. Adotando 85 dB(A) como nível-critério para a jornada de trabalho de 8 horas, e 5 dB como o fator de conversão ou de troca (q) (BISTAFA, 2006; NR-15, 2008). O fator de conversão corresponde a relação entre o nível de ruído e a duração da exposição a este ruído, expressando o aumento em dB(A) que leva a duplicidade do risco de lesão auditiva par um determinado tempo de exposição (SANTOS, 1999). Outra norma que também se aplica à exposição ocupacional é a NHO 01 (Norma de Higiene Ocupacional), que adota o mesmo limite de exposição diária que a NR-15, porém é mais rígida em relação ao fator de troca (q), adotando 3 dB como incremento de duplicidade de dose (NHO 01, 2001). Os padrões internacionais (ISO 1999:1990) recomendam o nível de pressão sonora equivalente de 85 dB(A) como o limite de exposição ao ruído ocupacional. Porém, este limite não garante a segurança para o sistema auditivo dos trabalhadores (Comitê SCENIHR, 2011). Na União Europeia, existem duas Diretivas do Parlamento Europeu e do Conselho que regulamentam o ruído: a Diretiva 2002/49/CE relativa à avaliação e gestão do ruído ambiente; e a Diretiva 2003/10/CE relativa às prescrições mínimas de segurança e de saúde em matéria de exposição dos trabalhadores aos riscos devidos aos agentes físicos (ruído). A Diretiva 2003/10/CE apresenta um valor de exposição de 80 dB(A) para Leq,8hs, recomendando três níveis de ação para ambientes profissionais, dependendo do nível de ruído equivalente a 8 horas de trabalho por dia. Com fator de troca (q) de 3 dB; reduzindo o tempo de exposição 6 para metade do tempo para cada aumento de 3 dB(A) no nível de exposição (Comitê SCENIHR, 2011). A Figura 1 expressa a máxima exposição diária permissível sem protetor auditivo em função dos níveis de pressão, fazendo uma adaptação das normas NR-15, NHO 01 e Diretiva 2003/10/CE. Observa-se pelo gráfico, que a NR-15, apesar de ser a mais atual, é a menos restritiva em relação à permissividade do tempo de exposição em função dos níveis de pressão sonora. Segundo Bistafa (2006) e de acordo com a legislação, quando o tempo de exposição e o nível de ruído assumem valores até aqueles tolerados, a maioria da população não adquirirá perda auditiva induzida por ruído (PAIR). 115 Níveis de Pressão Sonora (dB) 110 NR-15 (q=5 dB) 105 100 NHO 01 (q=3 dB) 95 90 Diretiva 2003/10/CE (q=3 dB) 85 80 0 30 60 90 120 150 180 210 240 270 300 330 360 390 420 450 480 Máxima Exposição Permissível (min) Figura 1: Máxima Exposição Diária Permissível em Função dos Níveis de Pressão Sonora (adaptação das normas NR-15, NHO 01 e Directiva 2003/10/CE) 2.6. EFEITOS DO RUÍDO NA SAÚDE O excesso de ruído pode provocar diversas reações às pessoas, como mudanças fisiológicas reversíveis, mudanças bioquímicas ou até mesmo problemas cardiovasculares. Cada pessoa reage de uma maneira ao ruído exposto, umas sendo mais afetadas e outras menos. O ruído pode afetar o bem-estar de algumas pessoas, gerando irritabilidade, estresse e distúrbios do sono. Outros problemas são a fadiga, alergias, distúrbios digestivos, úlceras, falta de concentração, depressão, dificuldade de comunicação, perda de produtividade, além 7 de perda de audição, que é o mais perceptível. Enfim, o ruído prejudica a saúde geral e o bom desempenho nas atividades profissionais e escolares dos que se submetem a este problema. (CARVALHO JÚNIOR, 2006; DANI, A. e GARAVELLI, S. L., 2000; FERNANDES, 2002). 2.7. DISPOSITIVOS DE MÚSICA PESSOAIS Os aparelhos de música portáteis têm um campo de aplicação muito amplo, que vão desde ferramentas profissionais no trabalho, lazer para o consumidor e brinquedo para as crianças. Tocam música como arquivos de áudio digitais, como MP3, e em alguns casos permitem armazenar vídeos, fotos, rádio, e atualmente estão presentes em muitos aparelhos celulares. A saída típica destes dispositivos para transmitir o som aos ouvintes é através de fones de ouvido ou alto-falantes externos. Existem basicamente quatro estilos diferentes de fones de ouvido, os mais importantes para o estudo em questão estão descritos a seguir. • Earbud: modelo mais tradicional e universal, costumam acompanhar os dispositivos de mídia portáteis e celulares. Com dimensões reduzidas, ficam presos dentro da orelha, porém fora do canal auditivo. São os modelos mais baratos e fáceis de encontrar, mas também os que apresentam menor qualidade sonora, com raras exceções. Como não liberam toda sua frequência em volumes baixos, é normal aumentar a intensidade do som ao usar esse modelo, o que em longo prazo tende a prejudicar a audição. • Intra-auricular: modelo que possui uma ponteira de silicone que deve ser introduzida no canal auditivo. Como consequência deste modo de uso, conseguem isolar o som externo de maneira mais eficiente que os earbuds, o que permite ouvir música em volume menos intensos. Devido à proximidade com o canal auditivo, os fones do tipo garantem uma maior fidelidade sonora comparada aos earbuds. Porém, o fato de ficarem dentro do ouvido é motivo de incômodo para muitas pessoas, tomando esta alternativa pouco atrativa para alguns. • Supra-auricular: modelo que possui dimensões bem maiores que os demais, e geralmente contam com uma haste que passa por cima da cabeça do usuário. Vários modelos contam com almofadas que garantem um maior conforto, além de permitir um isolamento acústico sem comparação. As maiores dimensões garantem uma maior 8 fidelidade de som, o que faz com que seja o tipo mais usado por DJs e outros profissionais do mundo da música. A desvantagem fica pela falta de praticidade em ambientes abertos, especialmente durante caminhadas ou quanto se pratica esportes. O volume do som emitido por estes aparelhos varia de fabricante para fabricante, e é difícil de estimar. Os formatos digitais de gravação de som e reprodução disponíveis atualmente alcançam altos níveis de saída de som, sem distorções. Considerando o mesmo fabricante, os fones de ouvido do tipo inserção aumentam os níveis de saída por volta de 7 a 9 dB em relação aos que normalmente vêm juntos com o dispositivo, recomendando-se a diminuição do tempo de exposição se estiver fazendo uso destes fones (Comitê SCENIHR, 2011). Para identificar os níveis de risco de dispositivos de música portáteis deve-se perceber que a cadeia de reprodução de música é organizada em etapas que são mais ou menos independentes umas das outras, mas juntas afetam o nível do sinal de saída (Comitê SCENIHR, 2011). Os níveis máximos de ruído produzido pelos dispositivos de música portáteis de última geração são muito mais elevados e causam um aumento no risco de deficiência auditiva. Os fatores envolvidos no potencial risco de perda auditiva são a intensidade de ruído e a duração da exposição a um determinado nível. O ambiente de audição, o tipo de fone de ouvido, e o tipo de música podem desempenhar papéis adicionais (Comitê SCENIHR, 2011). Atualmente, a Apple e alguns fabricantes já apresentam um limitador ou indicador de volume em seus aparelhos. A proposta da Comissão Europeia é para que todos os tocadores de música tenham uma configuração-padrão de 80 dB(A), aplicada também a celulares que tocam música. Essa proposta não se aplica à configuração máxima do aparelho, apenas para a configuração-padrão. Porém, o consumidor pode ignorar ou exceder o padrão, mas vai receber um aviso para que saiba o risco que está correndo. 3. MATERIAL E MÉTODOS O presente estudo teve como objetivo a analisar os níveis de pressão sonora (NPS) devido à utilização de aparelhos de música individuais (MP3 players). Os objetivos específicos são a verificação da existência de correlação entre os NPS e o ruído de fundo (RF) no momento da exposição; a correlação entre os NPS e a idade dos usuários; a correlação 9 entre os NPS e tempo de exposição, analisando o risco de perda auditiva devido à utilização destes dispositivos. 3.1. ELABORAÇÃO DO QUESTIONÁRIO DE PESQUISA A elaboração do questionário (Apêndice A) foi realizada pelo Grupo de Pesquisa da UCB, que iniciou o processo com estudos de conceitos básicos e bibliografias específicas sobre o tema da pesquisa. O questionário apresentado foi uma mistura das adaptações dos apresentados por Williams (2005) e Vogel (2009) e seguindo as dicas fornecidas por Günther (2003), em Como Elaborar um Questionário, tentando se aproximar de uma linguagem que todos pudessem compreender. O processo de elaboração e adaptação do questionário teve várias versões e levou cerca de cinco meses. Antes de finalizado, aplicou-se um teste de verificação e validação com a participação de 20 voluntários. Este teste serviu para mostrar os pontos mais fracos do questionário e eliminou algumas questões que não obtiveram resultados satisfatórios. O questionário apresentou questões sobre idade, sexo, média de anos de utilização destes aparelhos, tempo médio de utilização diária, locais que mais costuma ouvir música, questões de percepção auditiva e análise dos NPS e RF. 3.2. COLETA DOS DADOS A pesquisa foi realizada com 200 jovens, com idades que foram de 11 a 38 anos, fugindo da faixa de idade sugerida inicialmente, que seria de jovens entre 12 e 25 anos. O número foi estimado em função do tempo disponível, para dois avaliadores. A preferência pelos jovens foi pelo fato destes estarem na faixa de maior risco, que poderão ter maiores prejuízos futuros, principalmente pelo maior tempo de exposição diária e cumulativa. O Grupo de Pesquisa da UCB, com a colaboração da área de prótese do Hospital Sarah Kubitschek de Brasília, desenvolveu um adaptador que busca simular o canal auditivo, já que não se pode desprezar a complexidade deste artefato acústico no processo de medição. O adaptador, Figura 2, foi utilizado para as medições dos NPS dos dispositivos de música. 10 Figura 2: Protótipo do adaptador A coleta dos dados foi realizada nos locais em que os pesquisados se encontravam, como escolas (dentro e fora), bibliotecas, paradas de ônibus e na rua. Nos locais de medição foram feitas análises dos NPS emitidos pelos aparelhos portáteis e também o RF, todas as medidas foram realizadas em bandas de oitava frequência. Para a medição, utilizou-se o medidor de nível de pressão sonora Solo da marca 01dB, devidamente calibrado, com tripé e protetor de vento. Os parâmetros avaliados foram coletados em resposta rápida (fast) a cada 1 segundo, no modo de compensação A. As medidas tiveram duração de 1 minuto para a música emitida pelos aparelhos portáteis e de 3 minutos para o ruído de fundo. Juntamente com as medidas acústicas foi aplicado o questionário de pesquisa. 3.3. ANÁLISE ESTATÍSTICA DOS DADOS Os dados do questionário foram tabulados no software Microsoft Excel e analisados com o software estatístico SPSS. Para avaliar a possibilidade de perda auditiva foi considerado o tempo médio diário e o nível de exposição diária, foram adotados como referência os dados presentes no Figura 1, referentes aos limites das normas NR 15, NHO 01 e Diretiva 2003/10/CE. Para avaliar a possível relação entre as variáveis quantitativas, foi realizada a correlação de Pearson (r) resultando em uma matriz de correlações. A matriz de correlação calcula a correlação entre todas as variáveis, sendo uma matriz simétrica e na diagonal sempre terá o valor 1, uma vez que se trata da correlação da variável com ela mesma. O coeficiente de correlação varia entre -1 e 1, sendo que 1 indica uma relação perfeita e -1 indica que quando uma das variáveis aumenta a outra diminui. Quanto mais próximo estiver de 1 ou -1, mais forte é a associação linear entre as duas variáveis. 11 A análise estatística dos dados consistiu basicamente na avaliação de pressupostos de normalidade das variáveis, pois esse pressuposto verifica se a distribuição segue os parâmetros da distribuição normal. Também foi realizada uma análise pelos índices de assimetria (skewness) e curtose (kurtosis). As medidas de assimetria deve ter igual a 0 (zero) e a de curtose deve ter valor igual a 3. Contudo, o SPSS altera a padronização da medida de curtose para que ela possa ser bem avaliada. Qualquer alteração nessas medidas já é um indicativo de possibilidade de problemas na normalidade. As variáveis possuem alguma assimetria e curtose. Torna-se necessário verificar a significância desses valores pro meio da obtenção do escore Z (HAIR et al., 2009). O escore Z é obtido por meio da divisão dos valores (skewness, kurtosis) pelos erros padrões. É necessário verificar se o escore Z possui significância ou não. Se o valor do score Z calculado alcançar um valor que exceda ±1,96, haverá problemas de assimetria para um nível de significância de 0,05. Para uma significância de 0,01, haverá problema se o score Z exceder o valor de ±2,58 (FIELD, 2009). Em seguida foram realizados os testes de normalidade Teste Kolmogorov-Smirnov (K-S) e Teste Shapiro-Wilk (S-W). Esses testes verificam se a distribuição como um todo, se desvia de uma distribuição normal modelo comparando escores de uma amostra a uma distribuição normal modelo de mesma média e variância dos valores encontrados na amostra. Se o teste é não-significativo (p>0,05), ele nos informa que os dados da amostra não diferem significativamente de uma distribuição, podendo ser normal. Por outro lado, se o teste é significativo (p<0,05), a distribuição em questão é significativamente diferente de uma distribuição normal, sendo não-normal (FIELD, 2009). 4. RESULTADOS E DISCUSSÃO Através das análises dos 200 questionários aplicados, encontrou-se uma média dos níveis de pressão sonora (NPS) de 90,4 dB(A) com desvio-padrão de 11,0 dB(A); o menor valor encontrado foi de 62,9 dB(A) e o maior de 116,3 dB(A). Os NPS foram superiores a 85 dB(A) no momento da pesquisa em 74% dos aparelhos, e 37 pesquisados estavam utilizando seus níveis superiores a 100 dB(A). Quanto aos valores de ruído de fundo (RF) encontrados no momento da pesquisa, a média foi de 69,5 dB(A) com desvio-padrão de 9,5 dB(A); valor mínimo de 49,4 dB(A) e valor máximo de 92,3 dB(A). A Tabela 1 apresenta os locais onde a 12 pesquisa foi realizada, com os valores mínimos e máximos de RF, em cada local no momento das análises. Tabela 1: Locais onde foram aplicados os questionários Local no momento da pesquisa Frequência RF (dB(A)) Mínimo 54,5 62,1 61,5 60,5 - RF (dB(A)) Máximo 69,1 70,7 89,1 83,9 72,6 92,3 RF (dB(A)) Média 69,1 66,7 74,6 73,3 67,9 92,3 NBR 10.152(*) (dB(A)) 45 – 60 45 – 55 40 - 50 - Senado Federal 4 Academia de Ginástica 4 CECB – Circulação (escola) 33 JMJ – Sala (escola) 61 N. Bandeirante 13 Pistão Sul/Metrô 1 UCB - Circulação 49 49,4 87,5 66,6 45 - 55 (universidade) UCB – Biblioteca 15 50,3 56,3 54,0 35 - 45 (universidade) UCB – Sala (universidade) 20 55,3 86,8 69,9 40 - 50 (*) Níveis de conforto acústico (valor inferior) e níveis sonoros aceitáveis (valor superior) para a finalidade. Dos pesquisados 51% eram do sexo feminino e 49% do sexo masculino. Em relação à idade dos entrevistados, 8% possuem entre 10 e 15 anos; 61% entre 16 e 20 anos, 25% entre 21 e 25 anos, o restante (5%) possui mais de 25 anos, estando fora da faixa inicial da pesquisa. Conforme a Tabela 2, quase todos os pesquisados estão cursando o ensino médio ou o ensino superior. Tabela 2: Escolaridade dos pesquisados Escolaridade 1. Fundamental Incompleto (4,5%) 2. Fundamental Completo (2,0%) 3. Médio Incompleto (41,5%) 5. Superior Incompleto (41,0%) 4. Médio Completo (3,5%) 6. Superior Completo (5,5%) Quanto à análise dos resultados obtidos na Tabela 3, podem-se verificar alguns hábitos de uso dos aparelhos de música portáteis. Observar-se que atualmente o celular é o dispositivo mais utilizado para ouvir música (51%). Em relação à média de horas de uso por dia, a maioria dos pesquisados (40%) costuma utilizar estes dispositivos entre 1 e 3 horas por dia. Quanto aos anos de utilização, 29% utiliza estes aparelhos entre uma faixa de 3 e 5 anos. Os locais que os pesquisados mais costumam usar aparelhos com fone de ouvido são em suas próprias casas (57%), no trânsito (48%), e nas escolas (43%). E afirmaram que utilizam o volume em nível igual (55%) ou mais alto (35%) ao que foi verificado no momento da pesquisa. 13 Tabela 3: Hábitos de uso dos aparelhos de música individuais QUESTÃO 01 MP3/MP4 Discman iPod Celular Outros Aparelho mais utilizado para ouvir música. 16,5% - 15,5% 51,0% 15,5% QUESTÃO 02 Menos que 1 Entre 1 e 3 Entre 3 e 5 Entre 5 e 8 Mais que 8 Em média, quantas horas de uso por dia? 23,0% 40,0% 21,5% 7,5% 6,0% Menos de 1 Entre 1 e 3 Entre 3 e 5 Entre 5 e 8 Mais que 8 Há quantos anos você usa esses aparelhos? 11,5% 23,5% 29,0% 20,5% 14,5% QUESTÃO 04 Escola Trabalho Casa Trânsito Academia Em qual(is) local(is) você costuma usar o aparelho? 42,5% 10,5% 57% 47,5% 22,0% QUESTÃO 05 Mais baixo Igual Mais alto Você costuma usar o volume mais baixo, igual ou mais alto que o atual? 7,5% 54,5% 35,0% QUESTÃO 03 A Tabela 4 faz uma análise subjetiva da percepção de cada pesquisado quanto aos possíveis problemas relacionados ao ruído. Cerca de 90% dos pesquisados, afirmaram que conseguem se concentrar mesmo com outros sons à sua volta, pelo menos às vezes. Ouvir música também ajuda a manter a atenção e a concentração, de 76% dos pesquisados, algumas vezes ou até todo o tempo. Cerca de 60% dos pesquisados conseguem ignorar barulhos ao seu redor, às vezes ou quase sempre, enquanto que uns 30% não conseguem ignorar nunca ou quase nunca o mesmo tipo de barulho. Dos pesquisados, 75% afirmaram que nunca ou quase nunca costumam ouvir zumbidos ou sentem dificuldade de audição, isso pode se justificar pelo fato da maioria dos pesquisados ainda não terem ultrapassado os 20 anos, e provavelmente ainda não foram afetados por estes sintomas ou não os percebem ainda. Dos pesquisados 82% afirmaram nunca colocar o volume da TV mais alto que o resto da família ou só algumas vezes. Mesmo afirmando que não sentem dificuldades de audição, apenas 12% dos pesquisados nunca pedem que as pessoas repitam o que disseram. Tabela 4: Percepção de possíveis problemas relacionados ao ruído Nunca 1. 2. Você consegue se concentrar mesmo com outros sons à sua volta? Ouvir música te ajuda a manter a atenção e a concentração? Quase nunca Às vezes Quase sempre Sempre 4,0% 5,5% 41,5% 32,5% 16,5% 11,5% 11,5% 35,0% 25,5% 15,0% 3. Para você, é fácil ignorar barulho ao seu redor? 13,5% 15,5% 34,5% 25,0% 10,5% 4. Costuma ouvir zumbidos? 42,0% 33,0% 17,0% 2,5% 4,5% 5. Sente dificuldades de audição? 53,0% 22,0% 19,0% 3,5% 1,5% 14 6. Coloca o volume da TV ou do rádio mais alto que o resto da sua família? 32,0% 27,5% 22,5% 8,0% 10,0% 7. Pede que as pessoas repitam o que disseram? 11,5% 26,0% 35,0% 11,0% 6,5% Uma real percepção para estes possíveis danos causados pelo ruído só seria possível com uma avaliação audiológica de alguns pesquisados para a confirmação da existência ou não de alterações auditivas. Na Tabela 5, pode-se observar que a escola é o local onde metade dos pesquisados passa a maior parte do dia. Quanto à percepção de barulho, na maioria das vezes, estes locais, são pouco barulhentos (32%) ou moderadamente barulhentos (29%). Isso pode ser confirmado na Tabela 1, que apresenta os níveis de conforto acústico e os níveis aceitáveis para a finalidade do local. Em relação às escolas, todas as médias dos níveis de RF, estão bem acima dos níveis sonoros aceitáveis para a atividade exercida no local. Tabela 5: Local onde passa a maior parte do dia QUESTÃO 01 Onde você passa a maior parte do dia? QUESTÃO 02 Escola 50,0% Silencioso Você considera este local: 10,5% Casa 21,0% Pouco barulhento 31,5% Trabalho 17,5% Moderadamente barulhento 29,0% Muito barulhento 14,5% Outros 11,5% Extremamente barulhento 8,0% Na Tabela 6, foi feita uma comparação entre os níveis de ruído de fundo e os níveis de pressão sonora no momento da pesquisa. Com a tabela, pode observar que os níveis de pressão sonora na maioria das vezes serão maiores quanto maiores forem os níveis de ruído de fundo. Realizou-se também, uma comparação da frequência dos pesquisados que apresentavam NPS superiores a 85 dB(A) dependendo da faixa de nível de RF. Nesta comparação, pode-se observar que a porcentagem dos pesquisados que apresentaram NPS superiores a 85 dB(A) foi crescendo de acordo com o aumento da faixa de ruído de fundo. Adotou-se 85 dB(A) por ser o limite de exposição seguro estabelecido pela NR-15. Tabela 6: Comparação entre ruído de fundo e níveis de pressão sonora RF e NPS Máximo (dB(A)) 104,0 27 Média (dB(A)) 80,0 Entre 60 e 69,9 88 91,5 116,3 69,6 28 72 Entre 70 e 79,9 82 93,0 111,3 74,1 10 90 Faixa de RF (dB(A)) Entre 49 e 59,9 Quantidade Mínimo (dB(A)) 62,9 < 85 dB(A) (%) 67 > 85 dB(A) (%) 33 15 A Tabela 7 apresenta uma comparação entre os NPS e a idade dos pesquisados. Através dessa tabela, pode-se observar que a média dos NPS vai diminuindo com o aumento da idade dos pesquisados. A faixa que apresentou os níveis mais alto e mais baixo de NPS foi a dos que possuíam idade entre 16 e 20 anos (116,3 dB(A) e 62,9 dB(A)), sendo a faixa que apresentou maior número de pesquisados. A faixa que apresentou o maior nível mínimo foi a que estava entre 10 e 15 anos. Entre as faixas a partir dos 16 anos até as com mais de 25 anos, os níveis máximos de NPS foram diminuindo, enquanto os níveis mínimos de NPS foram aumento. Tabela 7: Comparação entre NPS e Idade Faixa de Idade 10 a 15 anos 16 a 20 anos 21 a 25 anos Mais de 25 anos Idade não informada Quantidade 31 106 41 8 14 NPS e Idade Média (dB(A)) 94,6 90,2 89,5 85,0 88,0 Máximo (dB(A)) 109,7 116,3 114,8 105,4 111,3 Mínimo (dB(A)) 78,6 62,9 63,2 66,2 64,6 Os coeficientes de Pearson encontrados na matriz de correlação foram considerados baixos. Os resultados, considerando apenas as variáveis quantitativas, foram os seguintes: 0,317 entre as variáveis NPS e RF, para uma amostra de 198 pesquisados, não comprovando a comparação feita na Tabela 6; -0,194 entre as variáveis NPS e Idade, para uma amostra de 186 pesquisados, a negatividade confirmou que quando a idade aumenta as médias de NPS irão diminuir, porém o coeficiente de Pearson não comprova a comparação feita pela Tabela 7; em relação às variáveis de RF e Idade, não faz sentido fazer uma correlação entre elas. As correlações podem ser consideradas significativas para níveis acima de 0,01. Para fazer uma análise dos possíveis danos induzidos pelo uso de aparelhos portáteis de música adaptou-se uma tabela de comportamento de risco sugerido pela Scientific Committee on Emerging and Newly Identified Health Risks (SENIHR, 2011), considerando comportamento de risco utilizando como base os limites fornecidos pelas normas brasileiras NR-15 e NHO 01 e a europeia Diretiva 2003/10/CE, de acordo com o tempo de exposição diário e os NPS utilizados no momento da pesquisa. A Tabela 8 apresenta os resultados da comparação, demonstrando que a norma europeia é bem mais rígida em relação aos limites que as normas brasileiras. De acordo com a Diretiva europeia, 64,5% dos pesquisados estariam dentro da área de risco para uma possível 16 perda auditiva induzida pelo uso de fones de ouvido, enquanto que na NR-15 apenas 39% dos mesmos pesquisados estariam dentro da área de risco. Tabela 8: Comparação entre as normas vigentes Legislação Risco Diretiva 2003/10/CE Frequência Porcentagem NHO 01 Frequência Porcentagem NR-15 Frequência Porcentagem Há risco 129 64,5% 103 51,5% 78 39% Não há risco 68 34,0% 94 47,0% 119 59,5% Estudos semelhantes (NISKAR et al., 2001; VOGEL et al., Maio 2009; VOGEL et al., Junho 2009; e VOGEL et al., 2010) afirmam que a exposição prolongada à música alta pode provocar perda de audição, e que os jovens são cada vez mais expostos a música em alto volume por causa dos aparelhos de música portáteis. Eles comprovam que os jovens estão mais propensos a se envolverem em comportamentos de risco do que comportamentos que busquem a proteção, como ouvir música em volumes elevados e deixar de usar os limitadores de ruído presentes em alguns dispositivos. Especialistas da área afirmam que além dos jovens e de seus pais, os fabricantes dos aparelhos e fones de ouvido e as autoridades também devem se envolver e se responsabilizar pela realização de ações de proteção de saúde ambiental, procurando criar mais segurança aos usuários e tomar medidas para proteger a juventude contra os perigos de ouvir música com fones de ouvido com volume elevado (VOGEL et al., Maio 2009). Em 1994, um estudo (NISKAR et al., 2001) comprovou, através de testes de audiometria, que as crianças já estavam sendo afetadas com mudanças no limiar de audição devido ao excesso de exposição a ruído. O estudo em questão indicava a necessidade de haver programas de triagem audiométrica em crianças de idade escolar e campanhas adequadas de conservação auditiva. Vogel e colaboradores (2010) realizaram um estudo que teve como objetivo investigar a teoria da motivação de proteção baseada em construções, bem como a força das considerações de consequências futuras e os hábitos como correlatos de risco entre adolescentes que utilizam MP3 players. O estudo encontrou algumas limitações, principalmente pelo fato de ter contado apenas com o auto-relato dos adolescentes. Não sendo realizadas medidas dos níveis de volume real a que os pesquisados foram expostos, utilizando apenas os níveis de som encontrados na literatura relacionada. 17 Cada estudo relacionado ao assunto apresenta uma abordagem diferente da metodologia aplicada e da análise dos resultados. Nenhuma das pesquisas analisadas em relação ao tema apresentou os níveis de pressão sonora a que cada usuário de aparelhos de música portáteis estava exposto no momento da pesquisa, como foi realizado no presente estudo. 5. CONCLUSÕES E RECOMENDAÇÕES A análise dos resultados mostrou os hábitos de utilização de aparelhos de música individuais pelos jovens pesquisados e seus comportamentos de risco. A pesquisa identificou que a maioria dos jovens escuta música em seus aparelhos portáteis com volume elevado por longos períodos. O celular é atualmente o disposto mais utilizado para ouvir música com a utilização de fones de ouvido, sendo utilizados diariamente de 1 a 3 horas. A maioria dos jovens já utiliza estes aparelhos por mais de 3 e menos de 5 anos. Os pesquisados costumam usar estes aparelhos com mais frequência em casas, no trânsito e nas escolas. A maioria deles afirmou que costuma passar a maior parte do dia nas escolas, depois em casa, sendo que consideraram este local de pouco a moderadamente barulhento. As escolas em que a pesquisa foi realizada apresentaram níveis sonoros superiores aos indicados como sendo adequados para a finalidade do local, de acordo com a NBR 10.152. Os jovens afirmam que o ruído de fundo não os atrapalha sempre, sendo fácil ignoralos às vezes. Também asseguram que ouvir música, às vezes, os ajudar a manter a concentração e a atenção. Eles alegaram não ouvirem zumbidos e não sentirem dificuldades de audição, isto pode se justificar pelo fato da maioria ainda ser muito jovem, 69% dos pesquisados possui menos de 20 anos. Inicialmente a pesquisa apontou a existência de duas correlações: entre os NPS e o RF e entre os NPS e a idade dos pesquisados. Em relação à primeira correlação, aparentemente os níveis de pressão sonora são mais elevados em locais em que o ruído de fundo era maior. Considerando a segunda correlação, pode-se observar que existe ligação inversa entre as duas variáveis, pois as médias de NPS foram diminuindo com o aumento da idade dos pesquisados. O teste estatístico de correlação de Pearson apresentou valores baixos para os coeficientes de 18 correlação entre estas variáveis (0,317 entre NPS e RF; e -0,194 para NPS e Idade), porém os valores podem ser considerados significativos para níveis superiores a 0,01. O comportamento de risco foi analisado observando as normas brasileiras e europeias. Pela análise dos possíveis danos induzidos pelo uso de aparelhos de música portáteis, considerando os limites fornecidos nas normas, 65% dos usuários estariam dentro da área de risco considerando a Diretiva Europeia, 52% considerando a NHO 01 e apenas 39% dos mesmos pesquisados pela NR-15. Isto pelo fato da última ser menos rígida em relação aos limites de exposição que as outras duas. Em uma pesquisa futura, recomenda-se que haja um acompanhamento de um grupo com realização de avaliações audiológicas por um período relativamente longo. Isto seria importante para que se possa confirmar a existência ou não de alterações auditivas e que haja uma real percepção dos possíveis danos que o ruído está causando. Pesquisas sobre as estratégias de prevenção sobre a fonte de ruído em questão recomendam que as autoridades incentivem os fabricantes a produzirem produtos mais seguros e que sejam realizadas mais campanhas de saúde pública para melhorar o conhecimento sobre os riscos do alto volume das músicas, as possíveis medidas de proteção e as consequências da perda auditiva. Estas seriam as medidas mais relevantes e viáveis para serem implementadas buscando a proteção da saúde. 6. REFERÊNCIAS ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS – NBR 10.152 (NB 95): Níveis de Ruídos para Conforto Acústico. São Paulo, 1990. BISTAFA, S. R. Acústica Aplicada ao Controle do Ruído. São Paulo: Edgard Blücher, 2006. CARVALHO JÚNIOR, E. B. Ruído ambiental e seus efeitos: o ruído aeronáutico no entorno do Aeroporto Internacional de Brasília. Brasília: UCB, 2008. Comitê SCENIHR - SCIENTIFIC COMMITTEE ON EMERGING AND NEWLY IDENTIFIED HEALTH RISKS. Potential Health Risks of Exposure to Noise from Personal Music Players and Mobile Phones Including a Music Playing Function, 2008. Disponível 19 em: <http://ec.europa.eu/health/ph_risk/committees/04_scenihr/docs/scenihr_o_018.pdf>. Acessado em: 11 Setembro 2011. DANI, A. e GARAVELLI, S. L. Principais Efeitos da Poluição Sonora em Seres Humanos. Revista Universa, v 9, 2001. FERNANDES, J. C. Apostila Acústica e Ruídos. Bauru: UNESP, 2002. FIELD, A. Descobrindo a estatística usando SPSS. Porto Alegre: Artmed, 2009. GERGES, S. N. Y. Ruído: fundamentos e controle. 2.ed. Florianópolis: NR Editora, 2000. GÜNTHER, H. Como elaborar um Questionário. Lab. de Psicologia Ambiental. Brasília: UnB, Planejamento de Pesquisa nas Ciências Sociais, nº 01, 2003. HAIR, et al. Análise multivariada de dados. 6ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2009. ISO 1999:1990 Acoustics. Determination of occupational noise exposure and estimation of noise induced hearing impairment. Geneva: International Committee for Standardisation; 1990. KASPER C A. The simple guide to optimum hearing health for the MP3 generation. New York: Craig A. Kasper, Au D; 2006. KATBAMNA B; FLAMME G. A Acquired Hearing Loss in Adolescents, Pediatr Clin N Am 55 1391–1402, 2008. MARQUIS-FAVRE C. et al. Noise and its Effects – A review on Quantitative Aspect of Sound. Part I: Notions and Acoustic Ratings, Acta Acustica, 91 613-625, 2005. MARQUIS-FAVRE C.; PREMAt E. and AUBRÉE D. Noise and its Effects – A review on Quantitative Aspect of Sound. Part II: Noise and Annoyance, Acta Acustica, 91 626-642, 2005. NISKAR et al. Estimated Prevalence of Noise-Induced Hearing Threshold Shifts Among Children 6 to 19 Years of Age: The Third National Health and Nutrition Examination Survey, 1088-1994, United States. Pediatrics, 2001. 20 NORMA DE HIGIENE OCUPACIONAL – NHO 01: Avaliação da Exposição Ocupacional ao Ruído. FUNDACENTRO, 2001. NORMA REGULAMENTADORA – NR 15. Atividades e Operações Insalubres, Ministério do Trabalho, 2008, Atualização. PARLAMENTO EUROPEU. Directiva 2002/49/CE do Parlamento Europeu e do Conselho de 25 de junho de 2002: Relativa à avaliação e gestão do ruído ambiente. Disponível em: <http://eurlex.europa.eu/LexUriServ/LexUriServ.do?uri=OJ:L:2002:189:0012:0025:PT:PDF>. Acesso em: 12.10.2011. PARLAMENTO EUROPEU. Diretiva 2003/10/CE do Parlamento Europeu e do Conselho de 6 de fevereiro de 2003: Relativa às prescrições mínimas de segurança e de saúde em matérias de exposição dos trabalhadores aos riscos devido aos agentes físicos (ruído). Disponível em: <http://eurlex.europa.eu/LexUriServ/LexUriServ.do?uri=OJ:L:2003:042:0038:0044:PT:PDF>. Acesso em: 18.09.2011. PENG et al., Risk of Damage to Hearing from Personal Listening Devices in Young Adults, The Journat of Otolaryngology, Volume 36, nº 3, 2007. PERDA AUDITIVA INDUZIDA POR RUÍDO (PAIR) / Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde, Departamento de Ações Programáticas Estratégicas. – Brasília: Editora do Ministério da Saúde, 2006. SALAZAR A, VÁSQUEZ L, DÍAZ P, RAMÍREZ N, SOLÍS F. Efectos del Personal estéreo en la Audición para las Altas Frecuencias. Cienc Trab, Abr.-Jun.;8(20): 52-57, 2006. SANTOS, U. P. Ruído: riscos e prevenção. São Paulo: Hucitec, 1999. VOGEL et al. Adolescents and MP3 Players: Too Many Risks, Too Few Precautions. PEDIATRICS, Vol. 123, nº 6, pages e953-e958, June, 2009. VOGEL et al. Adolescents risky MP3-players listening and its psychosocial correlates. Health Education Research, Vol. 26, nº2, pages 254-264, February, 2011. 21 VOGEL et al. MP3 Players and Hearing Loss: Adolescents Perceptions of Loud Music and Hearing Conservation. The Journal of Pediatric. March, 2008. VOGEL et al. Strategies for the Prevention of MP3-Induced Hearing Loss Among Adolescents: Expert Opinions From a Delphi Study. PEDIATRICS, Vol. 123, nº 5, pages 1257-1262, May, 2009. WILLIAMS, W. Noise exposure levels from personal stereo use. International Journal of Audiology, 44, 2005. WHO. Guidelines for Community Noise 1999. London: WHO, 1999. 22 Agradecimentos Primeiramente agradeço a Deus, pela minha vida, e por ter me proporcionado esta conquista. Aos meus pais, que sempre me apoiaram, acreditaram em mim e me ajudaram a chegar até aqui. A minha irmã, primas e demais familiares, que sempre torceram pelo meu sucesso. Ao meu orientador, Prof. Dr. Sérgio Luiz Garavelli pela atenção e apoio, por sempre estar disposto a me atender e tirar minhas dúvidas nestes anos de pesquisa; e que sempre me ofereceu todo o suporte necessário para o desenvolvimento da mesma. Ao Prof. Edson Benício Carvalho Júnior, por ter acreditado em mim e ter me oferecido as primeiras oportunidades de pesquisa, pela ajuda em algumas etapas do projeto, e por todos os conselhos construtivos que me ofereceu. A toda equipe que participou em algum momento da pesquisa, à Jeane Marques, que me ajudou nos primeiros testes, à Nathália Rodrigues de Sousa, que participou da elaboração do questionário e da aplicação de uma boa parte deles, e ao Hugo de Brito Lisboa, que sempre estavam dispostos a oferecer ajuda, eles foram fundamentais para a coleta dos dados. Ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e à Universidade Católica de Brasília pela ajuda financeira oferecida a pesquisa. A todos os professores que contribuíram para minha formação e para o meu aprendizado como Engenheira Ambiental. Obrigada a todos os meus amigos e colegas que de alguma maneira participaram da minha vida durante esses anos, principalmente a Diego Abreu, Hugo de Brito, João Pedro, Vinícius Adriano e Will de Moura, que sempre estiveram ao meu lado desde o inicio do curso, nos bons e maus momentos. Obrigada a todos os que não foram citados, mais que de alguma maneira contribuíram para essa conquista. Obrigada por tudo! 23 7. APÊNDICES 7.1. APÊNDICE A: Questionário Aplicado UNIVERSIDADE CATÓLICA DE BRASÍLIA NÍVEIS DE EXPOSIÇÃO SONORA DEVIDO AO USO DE APARELHOS MP3 SEÇÃO 01 (Não Responda) Código: Local: Nível de Pressão Sonora: Hora: Ruído de Fundo: dB(A) SEÇÃO 02 QUESTÃO 01 Discman iPod Celular Outros 1 2 3 4 5 Menos que 1 Entre 1 e 3 Entre 3 e 5 Entre 5 e 8 Mais que 8 1 2 3 4 5 Menos de 1 Entre 1 e 3 Entre 3 e 5 Entre 5 e 8 Mais que 8 1 2 3 4 5 Escola Trabalho Casa Trânsito Academia 1 2 3 4 5 Mais baixo Igual Mais alto 1 2 3 Em média, quantas horas de uso por dia? QUESTÃO 03 Há quantos anos você usa esses aparelhos? QUESTÃO 04 dB(A) MP3/MP4 Aparelho mais utilizado para ouvir música. QUESTÃO 02 Data: Em qual(is) local(is) você costuma usar o aparelho? QUESTÃO 05 Você costuma usar o volume mais baixo, igual ou mais alto que o atual? SEÇÃO 03 Nunca Quase nunca Às vezes Quase sempre Sempre 1. Você consegue se concentrar mesmo com outros sons à sua volta? 1 2 3 4 5 2. Ouvir música te ajuda a manter a atenção e a concentração? 1 2 3 4 5 3. Para você, é fácil ignorar barulho ao seu redor? 1 2 3 4 5 4. Costuma ouvir zumbidos? 1 2 3 4 5 5. Sente dificuldades de audição? 6. Coloca o volume da TV ou do rádio mais alto que o resto da sua família? 7. Pede que as pessoas repitam o que disseram? 1 2 3 4 5 1 2 3 4 5 1 2 3 4 5 SEÇÃO 04 QUESTÃO 01 Onde você passa a maior parte do dia? QUESTÃO 02 Você considera este local: Escola 1 Silencioso 1 Pouco barulhento 2 Casa 2 Moderadamente barulhento 3 Trabalho 3 Muito barulhento 4 Outros 4 Extremamente barulhento 5 24 SEÇÃO 05 Gênero 1. Feminino 2. Masculino Idade: Cidade onde mora? Escolaridade 1. Fundamental Incompleto 3. Médio Incompleto 5. Superior Incompleto 2. Fundamental Completo 4. Médio Completo 6. Superior Completo Observações: 7.2. APÊNDICE B: Histograma De Idade Dos Pesquisados Gráfico B1: Histograma de idade dos pesquisados