Implicações das idéias de Paulo Freire Para a Orientação Educacional em Escolas Públicas Brasileiras Lucíola Inês Pessoa Cavalcante Diversidade de abordagens e contradições teórico-metodológicas têm marcado a história da Orientação Educacional. Muito se tem discutido sobre o propósito, possibilidades e limitações deste campo de atuação. Variadas em não raro, conflitantes e a-históricas, têm sido as percepções sobre o papel do(a) Orientador(a) Educacional. Destacando-se pela importação de teorias e influência de outras culturas, e Orientação Educacional, em nosso país, precisa, com urgência, inverter a direção de suas práticas. Longe de atitude xenófoba, trata-se, apenas, de reconhecer a necessidade de elaborar proposta de acordo com a realidade brasileira, levandose em conta, ainda, as peculiaridades de cada região. Assim, teorias arroladas como teorias críticas podem servir como estrutura e referência para explorar o dialético relacionamento entre escola e sociedade, numa tentativa de ir além do mero domínio de técnicas e análise de tarefas pedagógicas. Nessa perspectiva e reconhecendo a fecundidade das idéias e Paulo Freire, decidimos, como trabalho final de nosso curso de doutorado (realizado na Vanderbilt University – Peabody College, em Nashville, Tennessee, USA), empreender uma investigação, abordando as implicações e relevância do pensamento deste autor para o trabalho de Orientação Educacional em escolas públicas brasileiras. Nosso estudo envolveu duas fases básicas e interconectadas, identificando a Orientação Educacional como prática educacional historicamente situada e o(a) Orientador(a) Educacional como, fundamentalmente, um educador. A primeira fase, de cunho teórico, constitui um estudo do pensamento de Paulo Freire e suas implicações para a teoria e a prática da Orientação Educacional. A segunda envolveu um estudo de caso das práticas, inspiradas em freire, de uma Orientadora Educacional que atuava em uma escola pública, noturna, de 1º Grau (5ª a 8ª série), em Manaus. Usando abordagens qualitativas de pesquisa, que valorizam o complexo, intrincado e dinâmico caráter dos fenômenos educacionais, nosso trabalho procurou respostas às seguintes questões: 1. Numa perspectiva teórica, quais são as implicações das idéias de Paulo Freire para Orientação Educacional? 2. Como podem as idéias de Freire ser aplicadas num programa de Orientação Educacional, em escola pública, no Brasil? 3. Como a Orientadora Educacional que desenvolve um trabalho à luz das idéias de Freire percebe as implicações de suas práticas? 4. Como o diretor, professor, estudantes e outros envolvidos no processo de Orientação Educacional percebeu as práticas de Orientação inspiradas em Freire? 5. Quais são as implicações que se apresentam para iniciar um programa de Orientação Educacional inspirado em Freire numa escola brasileira, pública e noturna? Na revisão de literatura relevante para o nosso estudo enfocamos: (a) as práticas conservadoras de Orientação Educacional; (b) o movimento da Orientação Educacional em direção a práticas libertadoras; (c) a relevância das idéias de Freire para a Orientação Educacional. O estudo teórico dos trabalhos de Freire e de estudos baseados em suas idéias envolveu coleta de dados através de uma extensa revisão de livros e artigos publicados por e sobre Freire, bem como dissertações de Mestrado e doutorado. Além disso, outras fontes foram utilizadas: (a) conversas com Freire; (b) vídeoteipes mostrando depoimentos de Freire e testemunhos de outras pessoas sobre Freire; (c) visita ao Highlander Research Education Center (um Centro de treinamento para líder de comunidades, em New Market, Tennessee, fundado pou Myles Horton, que compatilhava com muitas das idéias educacionais de Freire e que, ele, escreveu um livro, intitulado – “We make the road by walking”). No estudo teórico do pensamento de Freire, os seguintes itens básicos foram enfocados: (a) quem é Freire; (b) as idéias de Freire relevantes para a orientação Educacional, incluindo sua ontologia, epistemologia, pedagógica e metodologia. O estudo de caso, por seu turno, foi desenvolvido em uma escola pública noturna, localizada em Manaus, durante o período de um semestre letivo (setembro de 1991 a janeiro de 1992), mais visitas ocasionais necessárias, no semestre seguinte. A seleção de uma específica escola deu-se em virtude da presença de uma Orientação Educacional que estava iniciando um trabalho inspirado em Freire. Esta Orientadora foi selecionada, entre outras indicadas como aplicando as idéias de Freire ao seu trabalho, por ter correspondido aos três critérios estabelecidos: (a) afirmação deliberada, consciente, de aplicar as idéias de Freire em seu trabalho; (b) desejo de colaborar e aceitação de ser observada; e (c) relato de um planejamento sistemático para as idéias de Freire no processo de Orientação. A atividades de campo Compreenderam os seguintes procedimentos: 1. Intensa observação participante (150 horas de observação) do trabalho de Orientadora Educacional bem como de outras situações que apresentavam significado especial para o estudo de caso. 2. Entrevistas abertas e aprofundadas (seguindo, porém, um roteiro básico) 3. Análise dos documentos escolares e materiais relacionados ao trabalho de Orientação. Foram feitas entrevistas com a orientadora, com a Diretora da escola, com o Administrador Escolar, com 11, de um total de 13 professores (2 que não foram entrevistados apareciam na escola apenas ocasionalmente), com 49 estudantes (“purposive sampling”), com a secretária da escola e com um menbro da comunidade onde a escola está localizada e que vive lá desde a sua criação. Além das entrevistas, como dados adicionais foram consultados documentos da Secretaria de Educação e da secretaria da escola, livro de atas e material exposto no quadro localizado na sala dos professores. Durante o processo de pesquisa, dois colegas da Faculdade de Educação da Universidade do amazonas e uma colega da Universidade Federal do Espírito Santo funcionaram como leitores/ouvintes/participantes críticos. Na análise qualitativa dos escritos de Freire e de estudos baseados em suas idéias nunca houve a intenção de se chegar a “prescrições” ou “modelos” a serem seguidos pelos Orientadores. Como o próprio Freire (1982, 1984) salienta, o leitor deve assumir o papel de sujeito do ato de ler. A análise dos dados de campo começou tão logo os primeiros dados foram coletados e seguiu o método de comparação constante (Glaser & Strauss, 1967). Para assegurar a confiabilidade em nosso estudo naturalístico, utilizamos os critérios propostos por Lincoln e Guba (1985): “credibilidade, transferibilidade, consistência e confirmabilidade”. Na presente pesquisa, os seguintes procedimentos foram tomados para assegurar credibilidade: (a) engajamento prolongado no local da pesquisa; (b) observação participante persistente; (c) triangulação de diferentes fontes de dados; (d)”peer debriefing” por dois colegas da Universidade do Amazonas; (e) contínua checagem com os participantes do estudo. Transferibilidade ou, na denominação de LeCompte e Goetz (1982), replicabilidade, foi assegurada na perspectiva de uma investigação naturalística, através de descrições densas do que ocorreu no local. Consistência e confirmabilidade foram construídos através da possibilidade de auditoria, triangulação e cuidadosa descrição da metodologia usada. Começando com o reconhecimento de que o (a) Orientador(a) Educacional é fundamentalmente, um(a) educador(a), a leitura do trabalho de Freire, através das lentes da Orientação Educacional, instiga este(a) profissional a assumir a natureza de educação. Orientadores e Orientadoras, como os demais membros da comunidade escolar, enfrentam o contraditório processo social de conservação/transformação, permanência/mudança, sendo desafiados, com maior ou menor grau de consciência, pela comodidade de perpetuar o status ou lutar por uma ordem social mais humana e eqüitativa. Embora não seja questão simplista de uma coisa ou outra, as ações dos que trabalham na escola, quaisquer que elas sejam, e onde quer que se encontrem nesse processo dialético da conservação à transformação, dão suporte, em maior ou menor grau, a uma ou a outra direção. Assim, educadores(as) e, como tais, Orientadores(as) Educacionais, necessitam ter clareza sobre seus objetivos, sonhos e compromissos. Freire considera crucial aos educadores(as) progressistas a coerência entre o que dizem e o que fazem. É preciso, portanto, que tenham clareza a favor de que e de quem, contra o que e contra quem estão trabalhando; qual o projeto, o sonho político que os anima. É necessário, ainda, haver clareza sobre os limites da educação e sobre o que é historicamente viável. Antes de começar qualquer trabalho, Orientadores e Orientadoras necessitam responder algumas questões básicas, tais como: a quem o meu trabalho é destinado? Estou interessado(a) em contribuir para a formação de que tipo de pessoas? Estou engajado(a) na construção de que tipo de sociedade? Até que ponto minhas ações reforçam e perpetuam ou desafiam as desigualdades instaladas na escola? Há coerência entre minhas palavras e minhas ações? Que significa ser um(a) educador(a)? A resposta a essas questões envolve posições ontológicas, epistemológicas, educacionais e metodológicas. Desse modo, através da abordagem teórica, refletindo sobre a ontologia, epistemologia, pedagogia e metodologia de Freire, ficou evidenciada a relevância das idéias deste educador para Orientação Educacional. Tal estudo também forneceu elementos para formular algumas linhas básicas para o trabalho de Orientadores(as) Educacionais, seguindo os estágios de investigação (mapeamento, delimitação e caracterização do campo de atuação), seleção de temas significativos (elaboração de um plano de ação, através de abordagem interdisciplinar onde a realidade é investida em suas múltiplas relações e interconexões) e problematização (implementação do plano de ação previamente discutido e definido, problematizando-o continuamente). As atividades de campo, por sua vez, mostraram que a organização e o funcionamento das escolas públicas brasileiras, especialmente as escolas noturnas, colocam múltiplos obstáculos a ações baseadas no pensamento de Freire. Embora a vivência de algumas práticas progressistas ou libertadoras seja possível, tais práticas demandam uma estrutura teórica que os Orientadores e Orientadoras, de um modo geral, não possuem. Para implementar uma proposta coletiva, interdisciplinar, dialógica e dialética, como a que se inspira no pensamento de Freire, é preciso haver o desejo e a coragem de assumir riscos, bem como a existência ou a construção, na instituição escolar, de algumas condições mínimas. Assim as idéias de Freire constituem um forte suporte teórico para as práticas de Orientação Educacional daqueles que compartilham, que se identificam, com as posições ontológicas, gnosiológicas, epistemológicas, educacionais e metodológicas deste autor. É importante ressaltar, entretanto, que o trabalho de Paulo Freire representa uma entre várias opções teóricas para “iluminar” o campo da Orientação Educacional. Longe de adotar um novo rótulo – Freireanos, por exemplo – o que revela uma leitura distorcida do trabalho de Freire, Orientadores(as) Educacionais, inspirados pelas e nas idéias de Freire, precisam ser críticos e criativos, de modo a desenvolver programa de ação de acordo com as necessidades de cada realidade específica. Como Freire e Faundez (1985) enfatizam, “toda prática educativa que se funda no estandardizado, no preestabelecido, na rotina em que todas as coisas estão pré-ditas, é burocratizante e, por isso mesmo, antidemocrática”. (p.52) Por outro lado, é preciso se ter nítida compreensão de que aplicar as idéias de Freire (como a de qualquer outro teórico crítico) não é tarefa fácil. Reclama que se intensifique a investigação. Requer discernimento e sensibilidade para saber quando avançar e quando recuar. Para serem firmes nessa nova direção, os Orientadores(as) Educacionais precisam ter uma fundamentação teórica sólida, objetivos claros e, como Freire (Freire & Macedo, 1990) enfatiza, clareza política. Referências Bibliográficas FREIRE, P.A importância doa ato de ler em três artigos que se completam. São Paulo: Autores Associados: Cortez, 1982 ------ Ação cultural para a liberdade de outros escritos. (7ªed.). Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1984. FREIRE, P. e FAUDEZ, A. Por uma pedagogia da pergunta. (2ªed.). Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1986. GLASER, B.G. e STRAUSS, A.L. The discovery of grounded theory. Chicago: Aldine, 1967. HORTON, M e FREIRE, P. We make the road by walking: Conversations ou education and social chage (B.Bell, J. Gaventa, J. Peters, Eds.). Philadelphia, PA: Temple University Press, 1990. LeCOMPTE,M.D. e GOETZ, J.P. Problems of reliability and validity in ethnographic research. Reviw of Educacional Research, n.52,p.31-60,1982. LINCOLN, Y,S, e GUBA, E.G. Naturalistic inquiry. Beverly Hills, CA: Sage, 1985.