Revista Brasileira de Produtos Agroindustriais, Campina Grande, v.7, n.2, p.173-180, 2005
ISSN 1517-8595
173
ARTIGO TÉCNICO
INOVAÇÃO TECNOLÓGICA – O DESEMPENHO DA FIBRA DO ALGODÃO
COLORIDO NO PROCESSO DE FIAÇÃO A ROTOR DE UMA INDÚSTRIA
TÊXTIL
Givanildo Freire1, Sibele Thaise Viana Guimarães Duarte2; Lívia Wanderley Pimental
3
RESUMO
O presente trabalho tem por objetivo realizar uma abordagem sobre inovações tecnológicas e
fazer um estudo comparativo entre as características físicas da fibra do algodão colorido e as
fibras do algodão branco. Para isto foi realizada uma avaliação de desempenho no processo de
fiação a rotor do algodão colorido, face aos promissores investimentos advindos da demanda
por produtos ecologicamente corretos, e a decorrente inovação tecnológica requerida à
industrialização deste produto. Este estudo foi realizado numa grande indústria têxtil, instalada
em Campina Grande-PB, tomando-se como base o processo de fiação utilizado por esta
indústria. Para a fundamentação dos estudos e avaliação dos parâmetros encontrados, utilizou-se
como referencial analítico às teorias trabalhadas e a realidade encontrada na empresa estudada.
Palavras-chave: Inovação tecnológica, indústria têxtil, algodão colorido.
TECHNOLOGICAL INNOVATIONS – THE PERFORMANCE OF THE COTTON
COLORED FIBER IN THE WIRING PROCESS USING ROTOR IN A TEXTILE
INDUSTRY
ABSTRACT
This work has the objective of approaching about technological innovations and to do a
comparative study between the physicals characteristics of the colored cotton fiber and the
white cotton fibers; to accomplish a evaluation of acting at the thread process in colored cotton
rotor, because there are promising investments coming from the demand for correct ecological
products, and there is a current technological innovation required to the industrialization of this
product. This study was done at a big textile industry in Campina Grande-PB. The thread
process used by this industry was taken as a base. The worked theories and the reality found in
the studied company were used as analytical referential for the foundation of the studies and
evaluation of the found parameters. It was concluded that the utilization of the colored cotton, as
a new technology used in the textile company, is viable, there is a good performance of the raw
material and of the thread, but it’s necessary that the raw material has a low percentile of waste,
a medium fiber length and a satisfactory resistance to it becomes real.
Keywords: Technological innovations, textile industry, colored cotton.
INTRODUÇÃO
A inovação tecnológica tem-se tornado
fator
decisivo
para
sobrevivência
e
crescimento de todas as formas de indústrias.
As inovações ocorridas no setor têxtil,
em sua maioria, são advindas diretamente de
seguimentos industriais como a indústria de
bens de capital e a indústria química (Pavitt
citado por Pio et al., 2000).
_______________________
Protocolo 15 de 09/10/2004
1
Professor Dr. da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) [email protected]
2
Administradora de Empresa – Mestrado em Engenharia de Produção da UFPB [email protected]
3
Bióloga- Estudante do Mestrado em Engenharia Agrícola da UFCG
174
Inovação tecnológica – o desempenho da fibra do algodão colorido no processo de fiação a rotor..... Freire et al.
Segundo Coutinho et al. (1993), as
inovações do setor produtivo têxtil nas últimas
décadas foram intensas, possibilitadas pelo
progresso técnico incorporado aos bens de
capital e pelo desenvolvimento de novas fibras.
O aumento da velocidade de operações
só foi possível pela maior utilização das fibras
químicas e pela melhoria das fibras naturais.
As inovações ocorridas no processo
produtivo atingiram todos os segmentos do
setor têxtil e compreenderam tanto a melhoria
incremental de equipamentos já existentes
quanto à introdução de inovações radicais.
O desenvolvimento e os avanços
tecnológicos da indústria têxtil, incorporam
segmentos de outros complexos industriais
como o agro-industrial (produção de fibras
naturais e artificiais), químico (síntese e
produção de máquinas e equipamentos). O setor
têxtil é considerado de tecnologia tradicional,
tendo em vista sua natureza tecnológica, (Pavitt
citado por pio et al., 2000). Isto pode ser
interpretado como uma área onde o
desenvolvimento tecnológico é incremental,
ocorrendo pouca ou nenhuma inovação radical,
em relação às mudanças de processo de
produção ou produto. Os principais avanços
tecnológicos
estão
concentrados
no
desenvolvimento de novas fibras e máquinas
mais velozes.
Como as empresas do setor têxtil são
receptoras de tecnologia, não possuindo grandes
investimentos de Pesquisa e Desenvolvimento,
elas são classificadas por Pavitt citado por Pio
et al. (2000) como “dominadas por
fornecedores”. Nestas empresas o principal foco
estratégico é o uso da tecnologia para reforçar
outras vantagens competitivas.
Para Coutinho et al (1993), as inovações
técnicas que são incorporadas aos bens de
capital e o desenvolvimento de novas fibras,
fizeram com que os processos têxteis fossem
otimizados intensamente.
As fibras de algodão representam, nos
dias atuais 80% das fibras utilizadas nas fiações
brasileiras. Sessenta e cinco por cento dos fios
utilizados nas tecelagens brasileiras são
compostos de fibras de algodão. Do consumo
total de fibras têxteis no Brasil, 70% é de
algodão.
Por ser plantada a “céu aberto” o algodão
depende de fatores ecológicos e da interferência
de agentes físicos e fisiológicos para que se
desenvolva nas melhores condições, o que na
verdade traz incertezas aos produtores quanto à
confiabilidade da sua qualidade.
Por essa razão, o estudo científico das
características físicas se faz necessário para que
se busque a melhor condição de sua utilização
no processamento industrial têxtil.
Desenvolvimento
Inovação Tecnológica
Segundo Freeman (1997), no mundo da
microeletrônica e da engenharia genética é
desnecessário se trabalhar a importância da
ciência e tecnologia para economia. Porém,
ainda não se pode escapar de seu impacto em
nossas vidas diárias. Pode-se sim, considerá-las
positiva ou negativa, contudo, não se pode
ignorá-las.
Para Freeman (1997), inovação não é
somente importante por aumentar a riqueza de
sensação de nações de prosperidade aumentada,
mas também a sensação mais fundamental de
permitir as pessoas a fazer coisas antes das
quais nunca foram feitas. Não pode significar
mais do mesmo bem somente, mas um padrão
de bens e serviços que não existiam
previamente.
Contudo, inovação não é só crítica para
esses que desejam acelerar ou sustentar a taxa
de crescimento econômico nos próprios e
outros países deles, mas também para esses que
são intimidados por preocupação estreita com a
quantidade de bem e desejam mudar a direção
de avanço econômico, ou se concentrar em
melhorar a qualidade de vida.
Os economistas de sensação mais gerais
sempre reconhecem a importância central de
inovação tecnológica para o progresso
econômico. O modelo de Marx da economia
capitalista designa um papel central à inovação
técnica em bem importantes - "a burguesia não
pode existir sem constantemente revolucionar
os meios de produção".
Ainda
embora,
a
maioria
economistas faça um aceno diferente
relação
à
mudança
tecnológica,
recentemente foram levantados 3 fatores
explicar este paradoxo:
dos
em
até
para
 ignorância da ciência natural e
tecnologia por parte de economistas;
 a preocupação deles com o ciclo de
comércio e emprego;
Revista Brasileira de Produtos Agroindustriais, Campina Grande, v.7, n.2, p.173-180, 2005
Inovação tecnológica – o desempenho da fibra do algodão colorido no processo de fiação a rotor..... Freire et al.
 e a falta de estatísticas utilizáveis.
O descuido mais recente de invenção e
inovação não só estava presente como eles
também eram vítimas das suas próprias
suposições e compromissos a sistemas
aceitados de pensamento. Estes tenderam a
tratar o fluxo de conhecimento novo, de
invenções e inovações como fora da armação de
modelos econômicos, ou mais estritamente,
umas "variáveis exógenas".
Gestão da tecnologia
Conforme Narayanan (2001), o panorama
geral da dinâmica da mudança tecnológica
possui três fatores principais para a gestão da
tecnologia: Inovação, imitação e adoção; o
papel da tecnologia e fatores de mercado; e a
centralidade da aprendizagem.
A inovação e a imitação referem-se às
organizações que vendem produtos ou serviços.
Para imitar, a organização tenta resolver um
problema sem investir demasiadamente em seus
próprios recursos, ao contrário da difusão, onde
se refere aos consumidores que compram
produtos e serviços.
A mudança tecnológica bem sucedida
envolve não somente descobrir novas soluções
ou adotar inovações aparentemente eficazes,
mas também encontrar um fim para a solução
descoberta no mercado. Desta forma, para ser
bem sucedida, uma organização tem que
controlar dois processos relacionados:
1. Encontrar soluções eficazes para um
problema;
2. Ganhar aceitação
mercado.
da
solução
no
A mudança tecnológica envolve dois
processos relacionados: um ao longo da
dimensão técnica e o outro ao longo da
dimensão de mercado. Os processos pelos quais
as organizações chegaram em soluções
praticáveis de oportunidades técnicas e os
processos pelos quais o mercado aceita a
difusão das soluções como desejos dos clientes.
Desta forma, a difusão e a inovação se
influenciam mutuamente.
Inovação X Invenção
A palavra inovação vem do latim
innovare, que significa "renovar, fazer novo ou
alterar-se".
175
Parafraseando Narayanan (2001), a
invenção é uma combinação nova dos
conhecimentos pré-existentes, visto que a
inovação é um conceito mais sutil. Se uma
empresa produz um bem ou um serviço ou usa
um sistema ou um procedimento que seja novo
a ela, isso será uma inovação. Invenção em
contrapartida, é à parte do processo da
inovação.
A inovação se refere tanto a saída como
ao processo de chegar a uma solução
tecnologicamente praticável a um problema
provocado por uma oportunidade tecnológica
ou por uma necessidade do cliente. Ou seja, o
termo inovação pode ser referido de duas
maneiras: processo e saída.
Invenção se refere ao processo onde os
indivíduos ou as organizações chegam a uma
solução técnica, enquanto a inovação se refere à
saída, quando se tratar de um produto ou
serviço.
Como saídas, todas as
tecnológicas têm três componentes:
inovações

Hardware;

Software;

Um
componente
da
informação
avaliadora consistindo na informação
que é útil para as decisões relacionadas à
adoção da inovação.
Quatro pontos importantes precisam ser
identificados sobre os componentes de uma
inovação:
1. Os componentes formam um sistema;
2. Os componentes de hardware e de
software são intrínsecos à inovação
tecnológica;
3. Embora quase todas as inovações
contenham componentes de hardware e
de software, podem diferenciar nos
termos de qual componente é dominante;
4. O componente de informação avaliadora.
As organizações inovam em resposta às
demandas ambientais ou para oportunamente
moldar o ambiente. Dois fatores ambientais
estimulam freqüentemente a inovação:

Fatores de mercado;

Fatores de input.
Revista Brasileira de Produtos Agroindustriais, Campina Grande, v.7, n.2, p.173-180, 2005
176
Inovação tecnológica – o desempenho da fibra do algodão colorido no processo de fiação a rotor..... Freire et al.
Além disso, uma organização pode
também se engajar na inovação autônoma
quando tenta moldar o ambiente de acordo com
sua vontade. Assim, uma organização pode
reconhecer uma possibilidade tecnológica,
embora a necessidade do mercado ainda não
reconheça.
Processo da inovação
Segundo Narayanan (2001), pode-se
distinguir dois tipos diferentes de processo da
inovação:
-
Inovações puxadas pelo mercado e
-
Empurradas pela tecnologia
Puxadas pelo mercado são aqueles aonde
os avanços da tecnologia são orientados
primeiramente por uma necessidade específica
do mercado, e secundariamente pelo
desempenho técnico aumentado.
Empurradas pela tecnologia são aquelas
aonde o avanço da tecnologia é orientado
primariamente pelo desempenho técnico
aumentado,
e
secundariamente
pelas
necessidades específicas de mercado.
Pode-se então, fazer três generalizações
sobre as inovações puxadas pelo mercado e
empurradas pela tecnologia:
1. Inovações puxadas pelo mercado
tendem a ocorrer quando os clientes são
tecnologicamente sofisticados e são
também excelentes fontes de idéias
para a inovação;
2. Inovações puxadas pelo mercado
tendem a ocorrer mais freqüentemente
no caso de tecnologias mais velhas,
visto que inovações empurradas pela
tecnologia tendem a ocorrer em
tecnologias novas e emergentes;
3. Inovações puxadas pelo mercado mais
freqüentemente
são
inovações
incrementais porque o mercado
estabelecido
que
informa
as
necessidades baseia suas percepções de
oportunidades
em
tecnologias
conhecidas (NARAYANAN, 2001).
Tipos de saídas da inovação
Para
classificar
uma
empregamos duas dimensões:
inovação
1. O grau em que as tecnologias
específicas de uma inovação partem de
outras mais antigas, ou o que se
denomina
de
componente
de
conhecimento;
2. O grau em que as configurações entre
as tecnologias de uma inovação partem
de outras mais antigas, ou o que se
denomina
de
componente
de
configuração.
Esta classificação conduz a quatro tipos
principais
de
inovação:
incrementais,
modulares, arquiteturais e radicais.
Processo da inovação
Segundo Narayanan (2001), os processos
pelos quais as inovações emergem são
diferentes e variam de acordo com os vários
tipos de inovações. O sucesso tende a girar
sobre as habilidades dos gerentes em escolher
boas alternativas em vez de outras em uma
grande faixa de opções.
O impacto econômico de uma inovação
Os benefícios econômicos da tecnologia
fluem não meramente das inovações radicais e
modulares, mas também das melhorias
incrementais que ocorrem ao longo do
desenvolvimento de uma inovação. Certamente,
uma estimativa sugere que as inovações
incrementais contribuem com quase quatro
quintos das melhorias na produtividade em
nossa economia (Narayanan, 2001).
O papel do gestor no processo da inovação
O papel do gestor muda dependendo do
tipo de inovação que está sendo considerada.
Organizações industriais incentivam as
inovações incrementais que rendem ganhos de
mercado imediatos ou ganhos de produtividade.
As inovações modulares vêm dos laboratórios
centrais de pesquisa nas universidades, nas
agências de governo, etc.
Inovação Tecnológica no Setor Têxtil
O desenvolvimento e avanço tecnológico
da indústria têxtil abrangem outros segmentos
como o agro-industrial, químico e metal. O
setor têxtil é de tecnologia tradicional, onde o
desenvolvimento tecnológico é incremental,
com pouquíssima inovação radical, em relação
a processos de produção ou produto. Os
avanços
concentram-se
mais
no
desenvolvimento de novas fibras e máquinas
velozes.
Revista Brasileira de Produtos Agroindustriais, Campina Grande, v.7, n.2, p.173-180, 2005
Inovação tecnológica – o desempenho da fibra do algodão colorido no processo de fiação a rotor..... Freire et al.
As tecnologias utilizadas nos setores de
fiação são incorporadas em máquinas e
equipamentos. Observa-se a dependência entre
o setor têxtil e desenvolvimentos dos bens de
capital quando se faz a verificação do
desenvolvimento tecnológico de indústrias ao
longo do tempo. As inovações buscaram
melhoria na produtividade e qualidade, sem
mudanças consideráveis no processo. Observase também que o desenvolvimento tecnológico
deve-se a modificações químicas nas fibras
existentes, criando fibras novas, que podem
substituir o algodão.
A utilização da tecnologia para aumento
da produtividade das máquinas pode ser
observada em alguns indicadores de produção
do setor fiação. Houve aumento na velocidade
das cardas, o que gerou aumento na produção
de filatório. A criação do sistema Open-End,
eliminando etapas no processo de produção, foi
uma das grandes inovações. O setor esta sendo
mais intensivo em capital que em mão de obra.
O aumento da concorrência no setor, fez
com que as empresas buscassem formas para
aumentar sua competitividade, como por
exemplo , adoção de sistemas e máquinas
automatizadas. A automação no setor têxtil
busca a racionalização dos processos através da
economia de insumos (vapor d’água, água
industrial, energia elétrica e etc), a
padronização dos processos – devido à
diminuição dos erros operacionais causados por
sistemas de controle manuais, aumento da
possibilidade de se diversificar a produção,
diminuição do prazo de entrega, melhora da
qualidade do produto e preço justo.
A automação do setor está baseada em
microprocessadores locais e computadores
gerenciais centrais. Dependendo do tipo de
microprocessador e nível de automação, os
processos
podem
ser
completamente
controlados e gerenciados.
No caso particular da empresa estudada,
verifica-se um grande grau de automação,
possuindo toda uma infra-estrutura condizente
com a realidade. As matérias-primas são de boa
qualidade, assim como as utilidades (vapor
d’água e água industrial) passam por todo um
processo de osmose garantindo a qualidade;
todas as tubulações estão em ótimo estado e o
pessoal para operar ou gerenciar os sistemas
têxteis automatizados são bem treinados sendo
qualificados para isso.
A BRS 200 como Inovação Tecnológica
As pesquisas com os algodões de fibra
177
colorida
vêm
sendo
realizadas
pioneiramente no Brasil desde 1984, pelo
CNPA – Centro Nacional de Pesquisa de
Algodão de Campina Grande na Paraíba,
através
do
melhoramento
genético
convencional, por meio do método de seleção
genealógica das plantas.
No ano de 1997 foram avaliadas 87
progênies, 14 novas linhagens e 13 linhagens
avançadas de algodão colorido em duas regiões
da Paraíba (Seridó e Cariri). As linhagens
estudadas apresentam produtividade que
superam a cultivar comercial de algodão
arbóreo (Freire, 1998:06).
As
variáveis
climatológicas
proporcionam a formação e a obtenção de fibra
de excelente qualidade, de valores excepcionais
iguais aos dos melhores algodões do mundo,
como no Peru, Egito e Sudão (Banco Do
Nordeste do Brasil, 1962; Beltrão, 1995;
Santana, 1997).
É nesta região, especialmente na região
fisiográfica do Seridó, que envolve parte dos
Estados da Paraíba e do Rio Grande do Norte,
onde praticamente não se usam agrotóxicos e a
pressão por insetos-praga é pequena, que se
pode cultivar o algodoeiro arbóreo em sistemas
agroecológicos de cultivo totalmente orgânico
(Beltrão, 1995; Freire, 1995).
Apesar das pesquisas terem sido iniciadas
na década de oitenta, só em dezembro de 2000,
ocorreu o lançamento oficial de a primeira
cultivar de algodão de fibra colorida, a cultivar
BRS
200
Marrom,
lançada
pela
EMBRAPA/CNPA, despontando como uma
nova opção de matéria-prima para a manufatura
têxtil.
A fibra do algodão colorido natural
dispensa o uso de corantes artificiais no
acabamento do fio e da malha, constituindo-se
em um produto destinado a consumidores de
consciência ecológica, aproveitando desta
maneira, nichos de mercado que valorizam os
produtos naturais e sem química.
Características da fibra
Segundo Beltrão (2002), a BRS 200
Marrom, trata-se de uma variedade que atende
ás necessidades do produtor, do beneficiador,
das indústrias têxteis e de confecções e satisfaz
o consumidor.
Entre outras vantagens, esta variedade
reduz o consumo de água das grandes indústrias
e o impacto ambiental gerado pelo tingimento
artificial, operação que representa 30% dos
custos finais de fabricação dos tecidos. A fibra
Revista Brasileira de Produtos Agroindustriais, Campina Grande, v.7, n.2, p.173-180, 2005
Inovação tecnológica – o desempenho da fibra do algodão colorido no processo de fiação a rotor..... Freire et al.
178
colorida apresenta características físicas ideais
para as fiações modernas do tipo open-end,
obtendo-se malha de toque agradável. Entre as
variedades coloridas existe atualmente no
mundo (concentradas em países como Peru,
EUA e Israel), o BRS 200 Marrons tem
características únicas e vantajosas, como o ciclo
de quatro anos e melhor qualidade da fibra.
devidamente ajustada e calibrada, obtendo-se
250kg de pluma tipo comercial 4, considerado
algodão de ótima qualidade, cuja fibra,
analisada nos equipamentos HVI e Afis,
mostrou-se
de
comprimento
comercial
uniforme, fina e de boa resistência. O processo
industrial para a obtenção do fio foi realizado
pela empresa Wentex, pertencente ao grupo
Coteminas - CG. Os equipamentos (máquinas)
utilizados no processo produtivo foram:
Testes com fiação a rotor demonstraram que a
fibra resiste até 120 mil r.p.m.

Conforme Beltrão (2002), ainda falta ordenar a
cadeia produtiva e verticalizar a cultura para
alcançar garantia de produção e diferencial de
preço. Além disso, é preciso transferir
tecnologia,
qualificando
o
cotonicultor
nordestino.


Linha de Abertura e Cardas de alta
produção (100 kg/h);
Passadores de fita de alta velocidade
(800m/m) de tecnologia alemã e
fabricação italiana;
Filatórios Open-end de alta velocidade
(150.000 rpm) de fabricação alemã.
Importância industrial da fibra
A seguir são apresentados quadros
comparativos das características das fibras de
algodão de cor branca e marrom, plantados na
região Centro-oeste e Nordeste respectivamente.
Conforme Santana et al (2000), algodão
de fibra colorida (marrom) foi produzido no ano
de 1998. Após a colheita, o algodão em rama
foi beneficiado em máquina de rolo
Tabela 1 - Comparativo de Características das Fibras de Algodão no Afis
Origem
A
F Goiás
I Mato
S Grosso
Paraíba
COR
L(N)
SFC
(w)
UQL
(W)
Dust/g Trash/g %VFM Neps L5%
Fine
Mex
IFC Mt.
Branco
22,3
5,0
31,5
504
107
2,31
237
35,5
158
5,8
0,92
Branco
25,0
4,3
30,9
677
219
6,01
311
41,3
154
4,8
0,95
Marrom 22,1
5,6
31,7
418
60
1,71
176
36,2
155
6,1
0,91
Fonte: SATANA et al 2000
onde: L(n) = Comprimento das fibras em mm
Dust/g = partículas de poeira por gramas de fibras
Neps = Emaranhados de fibras
SFC (w) = Conteúdo de fibras curtas/ peso
Trash/g = Partículas de cascas por grama de fibra
L5% = Comprimento de 5% de fibras longas
UQL (w) = Comprimento de 25% das fibras longas
VFM = Tudo que não é fibra presente na amostra de algodão (casca, pó)
IFC% = Conteúdo de fibras imaturas
Mt. = Maturidade das fibras
Revista Brasileira de Produtos Agroindustriais, Campina Grande, v.7, n.2, p.173-180, 2005
Inovação tecnológica – o desempenho da fibra do algodão colorido no processo de fiação a rotor..... Freire et al.
179
Tabela 2 - Comparativo de Características das Fibras de Algodão no HVI
H
V
I
9
0
0
A
Origem COR
SL
% Unif Resist. Mic. C.S.P Comerc. Rd
2,5%
+b
% Inp. % Fib. Tipo
Goiás
Branco
28,78 83,1
27,8
3,8
2200
32/34
73,70 8,1
3,50
96,50
6/0
Mato
Grosso
Branco
28,96 83,3
26,3
3,9
2129
32/34
72,10 8,6
5,70
94,30
6/0
Paraíba Marrom 28,00 81,0
27,5
3,5
2127
30/32
49,40 17,8 1,50
98,50
4/5
Fonte: SANTANA et al 2000
Onde: SL2,5% = Comprimento em mm
Comerc. = Algodão comercializado
Unif. = Uniformidade
Rd = Grau de Reflexão
Resist. = Resistência g/tex
+b = Grau de amarelamento
Mic. = Micronaire
% Imp. = Impurezas
CSP = Índice de Fiabilidade
% Fib. = Fibras
Conforme estudo realizado nos
aparelhos de análises físicas da fibra (Afis e
HVI), mostrados na Tabela 1 e 2, pode-se
concluir que as características de qualidade do
algodão de fibra colorida estão no mesmo nível
de qualidade do algodão branco (normal)
plantado na região Centro-Oeste do Brasil
Tabela 3 - Avaliação de Desempenho na Fiação – Fio 23/1 100% Marrom -Comparação de Rotação
do Rotor
Produtividade
RPM
Kg/ Máq/ Dia
% Efic. Máq
Rupturas/ 1.000Rh
Cortes/ 1.000Rh
% Efic. Carro
Alg. Normal Alg. Color Alg. Normal Alg. Color Alg. Normal Alg. Color Alg. Normal Alg. Color Alg. Normal Alg. Color
90.000
970
1.041
93,12
98,00
132
109
66
51
94,23
98,00
93.000
1.010
1.105
91,23
96,30
155
127
71
49
93,12
96,30
96.000
1.112
1.201
90,56
95,12
228
177
78
46
93,00
96,11
99.000
1.169
1.278
89,00
95,01
318
227
98
66
91,28
95,32
102.000
1.200
1.298
88,45
94,00
320
259
124
98
90,00
93,56
105.000
1.258
1.345
88,12
93,86
439
315
165
114
88,12
93,24
Média
1.119,83
1.211,33
90,08
95,38
265
202
100
71
91,63
95,42
Fonte: Santana et al 2000
Algumas considerações:
O objetivo de utilizar diferentes rotações
por minuto (RPM), foi o de comparar o
comportamento do fio no tocante a
produtividade de ruptura por eficiência, como
também o comportamento de tenacidade e
alongamento com rotações mais altas.
No tocante a ruptura, faz-se necessário
dizer que esta se diferencia do corte uma vez
que a ruptura é uma quebra natural causada por
impurezas ou defeitos mecânicos e o corte é um
defeito cortado pelo purgador eletrônico.
As eficiências especificadas na tabela
acima são dados fornecidos pela própria
máquina.
Comentários Finais
A utilização do algodão colorido como
inovação tecnológica utilizada na indústria
têxtil, é viável, tendo-se um bom desempenho
Revista Brasileira de Produtos Agroindustriais, Campina Grande, v.7, n.2, p.173-180, 2005
180
Inovação tecnológica – o desempenho da fibra do algodão colorido no processo de fiação a rotor..... Freire et al.
da matéria-prima e do fio, todavia, para que isso
se concretize faz-se necessário que a matériaprima tenha um baixo percentual de
desperdício, um comprimento de fibra médio e
uma resistência satisfatória.
As imperfeições do fio têm que estar
dentro dos limites preestabelecidos para não
comprometer a aparência do tecido, conforme
aponta Carneiro (2001), estando sua resistência
e alongamento dentro de padrões exigidos para
o bom andamento no processo de tecelagem, ou
seja, o processo posterior ao de fiação.
Como pode ser observado, as fibras do
algodão colorido reúnem valores as suas
características físicas que são considerados
ideais pela indústria têxtil, tanto para
confecções de fios, quanto para ser processada
em qualquer tipo de tecnologia de fiação,
principalmente aquelas a rotor open-end.
Segundo Carneiro (2001), pode-se
também manufaturar com algodão colorido
qualquer artigo têxtil, desde artesanato até
confecções de malhas e tecidos planos.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Andrade, José Edilson de Oliveira. Tecnologia
de fiação e tecelagem do algodão colorido.
Palestra realizada no auditório da Fiep em
Dezembro de 2002.
Andrade, José Edilson de Oliveira. Influências
das Características Físicas no Processo de
Fiação. Palestra realizada na Indústria
Coteminas em Julho de 2001.
Banco do Nordeste do Brasil (Fortaleza/CE). O
que é o algodão melhorado. Fortaleza: BNB
/ETENE, 1962. 44 p.
Beltrão, N. E. de M. Anuário Brasileiro do
Algodão. Gazeta – Grupo comunicações.
2002. pp 62- 64.
Beltrão, N. E. de M.; Vieira, R. de M. ; Braga
Sobrinho, R. Possibilidades do cultivo de
algodão orgânico no Brasil. Campina
Grande: EMBRAPA-CNPA, 1995. 36 p.
(EMBRAPA – CNPA. Documentos, 42).
Carneiro, Edmilson. Viabilidade industrial do
fio e da malha do algodão de fibra colorida
natural na indústria têxtil moderna.
Monografia do Curso de Especialização em
Engenharia da Produção. Campina Grande.
Dezembro de 2001.
Coutinho, L.G., Ferraz, J.C., Cassiolato, J.E.,
Silva, A.L.G., Capistrano, M.C., Possas,
M.L., et al.. Estudo da competitividade da
Indústria Brasileira. Campinas, 1993.
Freeman, Cris; Soete, Luc. The economics of
industrial innovation. 3. Ed. Cambridge:
Tim Press, 1997.
Freire, E. C. Desenvolvimento de cultivares de
algodão de fibras coloridas. Fibras e Óleos,
n.º 25, p.6, abril de 1998.
Freire, E. C. ; Santana, J. C. F. de ; Gusmão, J.
L. de; Silva, J. A.
Características e
potencialidades do algodão colorido no
Nordeste do Brasil. Trabalho apresentado na
Conferência Internacional Têxtil, Rio de
Janeiro, 1995.
Pio. M. J. ; Júnior, E. B. ; Antunes. A. ;
Hemais. C. A. O impacto das inovações
tecnológicas na cadeia têxtil produtiva.
Anais do XIX Congresso Nacional de
Tecnologia Têxtil - CNTT. Ceará, Setembro
de 2000.
Narayanan, V. K. Managing technology and
innovation for competitive advange. New
Jersey: Prentice Hall, 2001.
Santana, J. C. F.; Andrade, J. E. O. de.;
Carneiro, E. et al. Desempenho do Algodão
Colorido.
Textília
–
Têxteis
Interamericanos, São Paulo, n.º 37, pp. 3640, jul./set. 2000.
Santana, J. C. F.; Andrade, J. E. O de.;
Carneiro, E. Desenvolvimento de linhagens
de algodão de fibra colorida no Nordeste do
Brasil. Anais do 19.º Congresso Nacional de
Técnicos Têxteis e 6.ª FENATÊXTIL –
Feira Nacional Têxtil, pp. 32-35, 2000.
Santana, J. F. De; Freire, E. C. ; Andrade,
F. P. de ; Santana, J. C. da S.;
Wanderley, M. J. R. Tecnologia do fio
das novas linhagens de algodão mocó de
fibras coloridas. Campina Grande;
EMBRAPA – CNPA, 1997. 6p.
(Pesquisa em andamento, 68).
Revista Brasileira de Produtos Agroindustriais, Campina Grande, v.7, n.2, p.173-180, 2005
Download

Inovação tecnológica - RBPA – Revista Brasileira de Produtos