Revista Brasileira de Produtos Agroindustriais, Campina Grande, Especial, v.7, n.2, p.173-180, 2005 ISSN 1517-8595 173 ARTIGO TÉCNICO INOVAÇÃO TECNOLÓGICA – O DESEMPENHO DA FIBRA DO ALGODÃO COLORIDO NO PROCESSO DE FIAÇÃO A ROTOR DE UMA INDÚSTRIA TÊXTIL 3 Givanildo Freire1, Sibele Thaise Viana Guimarães Duarte2; Lívia Wanderley Pimental RESUMO O presente trabalho tem por objetivo realizar uma abordagem sobre inovações tecnológicas e fazer um estudo comparativo entre as características físicas da fibra do algodão colorido e as fibras do algodão branco. Para isto foi realizada uma avaliação de desempenho no processo de fiação a rotor do algodão colorido, face aos promissores investimentos advindos da demanda por produtos ecologicamente corretos, e a decorrente inovação tecnológica requerida à industrialização deste produto. Este estudo foi realizado numa grande indústria têxtil, instalada em Campina Grande-PB, tomando-se como base o processo de fiação utilizado por esta indústria. Para a fundamentação dos estudos e avaliação dos parâmetros encontrados, utilizouse como referencial analítico às teorias trabalhadas e a realidade encontrada na empresa estudada. Concluiu-se a utilização do algodão colorido como inovação tecnológica utilizada na indústria têxtil, é viável, tendo-se um bom desempenho da matéria-prima e do fio, todavia, para que isso se concretize é necessário que a matéria-prima tenha um baixo percentual de desperdício, um comprimento de fibra médio e uma resistência satisfatória. Palavras-chave: Inovação tecnológica, indústria têxtil, algodão colorido. TECHNOLOGICAL INNOVATION – THE PERFORMANCE OF THE COTTON COLORED FIBER IN THE WIRING PROCESS USING ROTOR OF A TEXTILE INDUSTRY ABSTRACT This work has the objective of to do an approach about technological innovations and to do a comparative study between the physicals characteristics of the colored cotton fiber and the white cotton fibers. Then, it was realized an evaluation of acting at the thread process in the colored cotton rotor, because there are promising investments coming from the demand for correct ecological products, and there is a current technological innovation required to the industrialization of this product. This study was done at a big textile industry in Campina Grande-PB. The thread process used by this industry was taken as a base. The worked theories and the reality found in the studied company were used as analytical referential for the foundation of the studies and evaluation of the found parameters. It was concluded that the utilization of the colored cotton, as a new technology used in the textile company, is viable, there is a good performance of the raw material and of the thread one, but it’s necessary that the raw material has a low percentile of waste, a medium fiber length and a satisfactory resistance to it becomes real. Keywords: Technological innovation, textile industry, colored cotton. _______________________ Protocolo 15 de 09/10/2004 Professor Dr. da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) [email protected] 2 Administradora de Empresa – Mestrado em Engenharia de Produção da UFPB [email protected] 3 Bióloga- Estudante do Mestrado em Engenharia Agrícola da UFCG 1 Revista Brasileira de Produtos Agroindustriais, Campina Grande, Especial, v.7, n.2, p.173-180, 2005 174 Inovação tecnológica – o desempenho da fibra do algodão colorido no processo de fiação a rotor..... Freire et al. INTRODUÇÃO A inovação tecnológica tem-se tornado fator decisivo para sobrevivência e crescimento de todas as formas de indústrias. As inovações ocorridas no setor têxtil, em sua maioria, são advindas diretamente de seguimentos industriais, como a indústria de bens de capital e a indústria química (Pavitt citado por Pio et al., 2000). Segundo Coutinho et al. (1993), as inovações do setor produtivo têxtil nas últimas décadas foram intensas, possibilitadas pelo progresso técnico incorporado aos bens de capital e pelo desenvolvimento de novas fibras. O aumento da velocidade de operações só foi possível pela maior utilização das fibras químicas e pela melhoria das fibras naturais. As inovações ocorridas no processo produtivo atingiram todos os segmentos do setor têxtil e compreenderam, tanto a melhoria incremental de equipamentos já existentes, quanto à introdução de inovações radicais. O desenvolvimento e os avanços tecnológicos da indústria têxtil, incorporam segmentos de outros complexos industriais, como o agro-industrial (produção de fibras naturais e artificiais), químico (síntese e produção de máquinas e equipamentos). O setor têxtil é considerado de tecnologia tradicional, haja vista sua natureza tecnológica, (Pavitt citado por pio et al., 2000). Isto pode ser interpretado, como uma área onde o desenvolvimento tecnológico é incremental, ocorrendo pouca ou nenhuma inovação radical, em relação às mudanças de processo de produção ou produto. Os principais avanços tecnológicos estão concentrados no desenvolvimento de novas fibras e máquinas mais velozes. Como as empresas do setor têxtil são receptoras de tecnologia, não possuindo grandes investimentos de Pesquisa e Desenvolvimento, elas são classificadas por Pavitt citado por Pio et al. (2000) como “dominadas por fornecedores”. Nestas empresas, o principal foco estratégico é o uso da tecnologia para reforçar outras vantagens competitivas. Para Coutinho et al (1993), as inovações técnicas que são incorporadas aos bens de capital e o desenvolvimento de novas fibras, fizeram com que os processos têxteis fossem otimizados, intensamente. As fibras de algodão representam, nos dias atuais 80% das fibras utilizadas nas fiações brasileiras. Sessenta e cinco por cento dos fios utilizados nas tecelagens brasileiras são compostos de fibras de algodão. Do consumo total de fibras têxteis no Brasil, 70% são de algodão. Por ser plantada a “céu aberto” o algodão depende de fatores ecológicos e da interferência de agentes físicos e fisiológicos para que se desenvolva nas melhores condições, o que na verdade traz incertezas aos produtores, quanto à confiabilidade da sua qualidade. Por essa razão, o estudo científico das características físicas se faz necessário para que se busque a melhor condição de sua utilização no processamento industrial têxtil. Desenvolvimento Inovação Tecnológica Segundo Freeman (1997), no mundo da microeletrônica e da engenharia genética é desnecessário se trabalhar a importância da ciência e tecnologia para economia. Porém, ainda não se pode escapar de seu impacto em nossas vidas diárias. Pode-se sim, considerá-las positiva ou negativa, contudo, não se pode ignorá-las. Para Freeman (1997), inovação não é somente importante por aumentar a riqueza de sensação de nações de prosperidade aumentada, mas também a sensação mais fundamental de permitir as pessoas a fazer coisas antes das quais nunca foram feitas. Não pode significar mais do mesmo bem somente, mas um padrão de bens e serviços que não existiam previamente. Contudo, inovação não é só crítica para esses que desejam acelerar ou sustentar a taxa de crescimento econômico nos próprios e outros países deles, mas também para esses que são intimidados por preocupação estreita com a quantidade de bem e desejam mudar a direção de avanço econômico, ou se concentrar em melhorar a qualidade de vida. Os economistas de sensação mais gerais sempre reconhecem a importância central de inovação tecnológica para o progresso econômico. O modelo de Marx da economia capitalista designa um papel central à inovação técnica em bem importantes - "a burguesia não pode existir sem constantemente revolucionar os meios de produção". Ainda embora, a maioria dos economistas faça um aceno diferente em relação à mudança tecnológica, até recentemente foram levantados 3 fatores para explicar este paradoxo: Revista Brasileira de Produtos Agroindustriais, Campina Grande, Especial, v.7, n.2, p.173-180, 2005 Inovação tecnológica – o desempenho da fibra do algodão colorido no processo de fiação a rotor..... Freire et al. ignorância da ciência natural e tecnologia por parte de economistas; a preocupação deles com o ciclo de comércio e emprego; e a falta de estatísticas utilizáveis. O descuido mais recente de invenção e inovação não só estava presente como eles também eram vítimas das suas próprias suposições e compromissos a sistemas aceitados de pensamento. Estes tenderam a tratar o fluxo de conhecimento novo, de invenções e inovações como fora da armação de modelos econômicos, ou mais estritamente, umas "variáveis exógenas". Gestão da tecnologia Conforme Narayanan (2001), o panorama geral da dinâmica da mudança tecnológica possui três fatores principais para a gestão da tecnologia: Inovação, imitação e adoção; o papel da tecnologia e fatores de mercado; e a centralidade da aprendizagem. A inovação e a imitação referem-se às organizações que vendem produtos ou serviços. Para imitar, a organização tenta resolver um problema sem investir, demasiadamente, em seus próprios recursos, ao contrário da difusão, onde se refere aos consumidores que compram produtos e serviços. A mudança tecnológica bem sucedida envolve não somente descobrir novas soluções ou adotar inovações, aparentemente, eficazes, mas também encontrar um fim para a solução descoberta no mercado. Desta forma, para ser bem sucedida, uma organização tem que controlar dois processos relacionados: 1. Encontrar soluções eficazes para um problema; 2. Ganhar aceitação da solução no mercado. A mudança tecnológica envolve dois processos relacionados: um ao longo da dimensão técnica e o outro ao longo da dimensão de mercado. Os processos pelos quais as organizações chegaram em soluções praticáveis de oportunidades técnicas e os processos pelos quais o mercado aceita a difusão das soluções como desejos dos clientes. Assim, a difusão e a inovação se influenciam mutuamente. Inovação X Invenção 175 A palavra inovação vem do latim innovare, que significa "renovar, fazer novo ou alterar-se". Parafraseando Narayanan (2001), a invenção é uma combinação nova dos conhecimentos pré-existentes, visto que a inovação é um conceito mais sutil. Se uma empresa produz um bem ou um serviço ou usa um sistema ou um procedimento que seja novo a ela, isso será uma inovação. Invenção em contrapartida, é à parte do processo da inovação. A inovação se refere tanto a saída como ao processo de chegar a uma solução tecnologicamente praticável a um problema provocado por uma oportunidade tecnológica ou por uma necessidade do cliente. Ou seja, o termo inovação pode ser referido de duas maneiras: processo e saída. Invenção se refere ao processo onde os indivíduos ou as organizações chegam a uma solução técnica, enquanto a inovação se refere à saída, quando se tratar de um produto ou serviço. Como saídas, todas as inovações tecnológicas têm três componentes: Hardware; Software; Um componente da informação avaliadora consistindo na informação que é útil para as decisões relacionadas à adoção da inovação. Quatro pontos importantes precisam ser identificados sobre os componentes de uma inovação: 1. Os componentes formam um sistema; 2. Os componentes de hardware e de software são intrínsecos à inovação tecnológica; 3. Embora quase todas as inovações contenham componentes de hardware e de software, podem diferenciar nos termos de qual componente é dominante; 4. O componente de informação avaliadora. As organizações inovam em resposta às demandas ambientais ou para oportunamente moldar o ambiente. Dois fatores ambientais estimulam freqüentemente a inovação: Fatores de mercado; Fatores de input. Além disso, uma organização pode também se engajar na inovação autônoma Revista Brasileira de Produtos Agroindustriais, Campina Grande, Especial, v.7, n.2, p.173-180, 2005 176 Inovação tecnológica – o desempenho da fibra do algodão colorido no processo de fiação a rotor..... Freire et al. quando tenta moldar o ambiente de acordo com sua vontade. Assim, uma organização pode reconhecer uma possibilidade tecnológica, embora a necessidade do mercado ainda não reconheça. Esta classificação conduz a quatro tipos principais de inovação: incrementais, modulares, arquiteturais e radicais. Processo da inovação Segundo Narayanan (2001), os processos pelos quais as inovações emergem são diferentes e variam de acordo com os vários tipos de inovações. O sucesso tende a girar sobre as habilidades dos gerentes em escolher boas alternativas em vez de outras em uma grande faixa de opções. Segundo Narayanan (2001), pode-se distinguir dois tipos diferentes de processo da inovação: - Inovações puxadas pelo mercado e - Empurradas pela tecnologia Puxadas pelo mercado são aquelas onde os avanços da tecnologia são orientados, primeiramente, por uma necessidade específica do mercado, e, secundariamente, pelo desempenho técnico aumentado. Empurradas pela tecnologia são aquelas onde o avanço da tecnologia é orientado, primariamente, pelo desempenho técnico aumentado, e, secundariamente, pelas necessidades específicas de mercado. Pode-se então, fazer três generalizações sobre as inovações puxadas pelo mercado e empurradas pela tecnologia: 1. Inovações puxadas pelo mercado tendem a ocorrer quando os clientes são tecnologicamente sofisticados e são, também, excelentes fontes de idéias para a inovação; 2. Inovações puxadas pelo mercado tendem a ocorrer mais, freqüentemente, no caso de tecnologias mais velhas, visto que inovações empurradas pela tecnologia tendem a ocorrer em tecnologias novas e emergentes; 3. Inovações puxadas pelo mercado mais, freqüentemente, são inovações incrementais, porque o mercado estabelecido que informa as necessidades baseia, suas percepções de oportunidades em tecnologias conhecidas (NARAYANAN, 2001). Tipos de saídas da inovação Para classificar uma inovação, empregamos duas dimensões: 1. O grau em que as tecnologias específicas de uma inovação partem de outras mais antigas, ou o que se denomina de componente de conhecimento; 2. O grau em que as configurações entre as tecnologias de uma inovação partem de outras mais antigas, ou o que se denomina de componente de configuração. Processo da inovação O impacto econômico de uma inovação Os benefícios econômicos da tecnologia fluem, não meramente das inovações radicais e modulares, mas também das melhorias incrementais que ocorrem ao longo do desenvolvimento de uma inovação. Certamente, uma estimativa sugere que as inovações incrementais contribuem com quase quatro quintos das melhorias na produtividade em nossa economia (Narayanan, 2001). O papel do gestor no processo da inovação O papel do gestor muda dependendo do tipo de inovação que está sendo considerada. Organizações industriais incentivam as inovações incrementais que rendem ganhos de mercado imediatos ou ganhos de produtividade. As inovações modulares vêm dos laboratórios centrais de pesquisa nas universidades, nas agências de governo, etc. Inovação Tecnológica no Setor Têxtil O desenvolvimento e avanço tecnológico da indústria têxtil abrangem outros segmentos como o agro-industrial, químico e metal. O setor têxtil é de tecnologia tradicional, onde o desenvolvimento tecnológico é incremental, com pouquíssima inovação radical, em relação a processos de produção ou produto. Os avanços concentram-se mais no desenvolvimento de novas fibras e máquinas velozes. As tecnologias utilizadas nos setores de fiação são incorporadas em máquinas e equipamentos. Observa-se a dependência entre o setor têxtil e desenvolvimentos dos bens de capital, quando se faz a verificação do Revista Brasileira de Produtos Agroindustriais, Campina Grande, Especial, v.7, n.2, p.173-180, 2005 Inovação tecnológica – o desempenho da fibra do algodão colorido no processo de fiação a rotor..... Freire et al. desenvolvimento tecnológico de indústrias, ao longo do tempo. As inovações buscaram melhoria na produtividade e qualidade, sem mudanças consideráveis no processo. Observase, também, que o desenvolvimento tecnológico se deve a modificações químicas nas fibras existentes, criando fibras novas, que podem substituir o algodão. A utilização da tecnologia para aumento da produtividade das máquinas pode ser observada em alguns indicadores de produção do setor fiação. Houve aumento na velocidade das cardas, o que gerou aumento na produção de filatório. A criação do sistema Open-End, eliminando etapas no processo de produção, foi uma das grandes inovações. O setor està sendo mais intensivo em capital que em mão de obra. O aumento da concorrência no setor, fez com que as empresas buscassem formas para aumentar sua competitividade, como por exemplo , adoção de sistemas e máquinas automatizadas. A automação no setor têxtil busca a racionalização dos processos através da economia de insumos (vapor d’água, água industrial, energia elétrica e etc), a padronização dos processos – devido à diminuição dos erros operacionais causados por sistemas de controle manuais, aumento da possibilidade de se diversificar a produção, diminuição do prazo de entrega, melhora da qualidade do produto e preço justo. A automação do setor está baseada em microprocessadores locais e computadores gerenciais centrais. Dependendo do tipo de microprocessador e nível de automação, os processos podem ser completamente controlados e gerenciados. No caso particular da empresa estudada, verifica-se um grande grau de automação, possuindo toda uma infra-estrutura condizente com a realidade. As matérias-primas são de boa qualidade, assim como as utilidades (vapor d’água e água industrial) passam por todo um processo de osmose, garantindo a qualidade; todas as tubulações estão em ótimo estado e o pessoal para operar ou gerenciar os sistemas têxteis automatizados são bem treinados sendo qualificados para isso. A BRS 200 como Inovação Tecnológica As pesquisas com os algodões de fibra colorida vêm sendo realizadas, pioneiramente, no Brasil desde 1984, pelo CNPA – Centro Nacional de Pesquisa de Algodão de Campina Grande na Paraíba, através do melhoramento 177 genético convencional, por meio do método de seleção genealógica das plantas. No ano de 1997, foram avaliadas 87 progênies, 14 novas linhagens e 13 linhagens avançadas de algodão colorido em duas regiões da Paraíba (Seridó e Cariri). As linhagens estudadas apresentam produtividade que superam a cultivar comercial de algodão arbóreo (Freire, 1998:06). As variáveis climatológicas proporcionam a formação e a obtenção de fibra de excelente qualidade, de valores excepcionais iguais aos dos melhores algodões do mundo, como no Peru, Egito e Sudão (Banco Do Nordeste do Brasil, 1962; Beltrão, 1995; Santana, 1997). É nesta região, especialmente, na região fisiográfica do Seridó, que envolve parte dos Estados da Paraíba e do Rio Grande do Norte, onde, praticamente, não se usam agrotóxicos e a pressão por insetos-praga é pequena, que se pode cultivar o algodoeiro arbóreo em sistemas agroecológicos de cultivo, totalmente, orgânico (Beltrão, 1995; Freire, 1995). Não obstante as pesquisas terem sido iniciadas na década de oitenta, só em dezembro de 2000, ocorreu o lançamento oficial de a primeira cultivar de algodão de fibra colorida, a cultivar BRS 200 Marrom, lançada pela EMBRAPA/CNPA, despontando como uma nova opção de matéria-prima para a manufatura têxtil. A fibra do algodão colorido natural dispensa o uso de corantes artificiais no acabamento do fio e da malha, constituindo-se em um produto destinado a consumidores de consciência ecológica, aproveitando, desta maneira, nichos de mercado que valorizam os produtos naturais e sem química. Características da fibra Segundo Beltrão (2002), a BRS 200 Marrom, trata-se de uma variedade que atende ás necessidades do produtor, do beneficiador, das indústrias têxteis e de confecções e satisfaz o consumidor. Entre outras vantagens, esta variedade reduz o consumo de água das grandes indústrias e o impacto ambiental gerado pelo tingimento artificial, operação que representa 30% dos custos finais de fabricação dos tecidos. A fibra colorida apresenta características físicas ideais para as fiações modernas do tipo open-end, obtendo-se malha de toque agradável. Entre as variedades coloridas, existe, atualmente, no Revista Brasileira de Produtos Agroindustriais, Campina Grande, Especial, v.7, n.2, p.173-180, 2005 Inovação tecnológica – o desempenho da fibra do algodão colorido no processo de fiação a rotor..... Freire et al. 178 mundo (concentradas em países como Peru, EUA e Israel), o BRS 200 Marrons tem características únicas e vantajosas, como o ciclo de quatro anos e melhor qualidade da fibra. 250kg de pluma tipo comercial 4, considerado algodão de ótima qualidade, cuja fibra, analisada nos equipamentos HVI e Afis, mostrou-se de comprimento comercial uniforme, fina e de boa resistência. O processo industrial para a obtenção do fio foi realizado pela empresa Wentex, pertencente ao grupo Coteminas - CG. Os equipamentos (máquinas) utilizados no processo produtivo foram: Testes com fiação a rotor demonstraram que a fibra resiste até 120 mil r.p.m. Conforme Beltrão (2002), ainda falta ordenar a cadeia produtiva e verticalizar a cultura para alcançar garantia de produção e diferencial de preço. Além disso, é preciso transferir tecnologia, qualificando o cotonicultor nordestino. Importância industrial da fibra Linha de Abertura e Cardas de alta produção (100 kg/h); Passadores de fita de alta velocidade (800m/m) de tecnologia alemã e fabricação italiana; Filatórios Open-end de alta velocidade (150.000 rpm) de fabricação alemã. Conforme Santana et al (2000), algodão de fibra colorida (marrom) foi produzido no ano de 1998. Após a colheita, o algodão em rama foi beneficiado em máquina de rolo devidamente ajustada e calibrada, obtendo-se A seguir, são apresentados quadros comparativos das características das fibras de algodão de cor branca e marrom, plantados na região Centro-oeste e Nordeste respectivamente. Tabela 1 - Comparativo de Características das Fibras de Algodão no Afis A F I S COR L(N) SFC (w) UQL (W) Dust/ g Trash/ g Goiás Branco 22,3 5,0 31,5 504 107 2,31 237 35,5 158 5,8 0,92 Mato Grosso Branco 25,0 4,3 30,9 677 219 6,01 311 41,3 154 4,8 0,95 Paraíba Marrom 22,1 5,6 31,7 418 60 1,71 176 36,2 155 6,1 0,91 Origem % Neps VFM L5% Fine Mex IFC Mt. Fonte: SATANA et al 2000 onde: L(n) = Comprimento das fibras em mm Dust/g = partículas de poeira por gramas de fibras Neps = Emaranhados de fibras SFC (w) = Conteúdo de fibras curtas/ peso Trash/g = Partículas de cascas por grama de fibra L5% = Comprimento de 5% de fibras longas UQL (w) = Comprimento de 25% das fibras longas VFM = Tudo que não é fibra presente na amostra de algodão (casca, pó) IFC% = Conteúdo de fibras imaturas Mt. = Maturidade das fibras Tabela 2 - Comparativo de Características das Fibras de Algodão no HVI H V I 9 0 0 A COR SL 2,5% % Unif Goiás Branco 28,78 83,1 27,8 3,8 2200 Mato Grosso Branco 28,96 83,3 26,3 3,9 Paraíba Marrom 28,00 81,0 27,5 3,5 Origem Resist. Mic. C.S.P Comerc. Rd +b % Inp. % Fib. Tipo 32/34 73,70 8,1 3,50 96,50 6/0 2129 32/34 72,10 8,6 5,70 94,30 6/0 2127 30/32 49,40 17,8 1,50 98,50 4/5 Fonte: SANTANA et al 2000 Revista Brasileira de Produtos Agroindustriais, Campina Grande, Especial, v.7, n.2, p.173-180, 2005 Inovação tecnológica – o desempenho da fibra do algodão colorido no processo de fiação a rotor..... Freire et al. Onde: SL2,5% = Comprimento em mm Unif. = Uniformidade Resist. = Resistência g/tex Mic. = Micronaire CSP = Índice de Fiabilidade 179 Comerc. = Algodão comercializado Rd = Grau de Reflexão +b = Grau de amarelamento % Imp. = Impurezas % Fib. = Fibras Conforme estudo realizado nos aparelhos de análises físicas da fibra (Afis e HVI), mostrados na Tabela 1 e 2, pode-se concluir que as características de qualidade do algodão de fibra colorida estão no mesmo nível de qualidade do algodão branco (normal) plantado na região Centro-Oeste do Brasil Tabela 3 - Avaliação de Desempenho na Fiação – Fio 23/1 100% Marrom -Comparação de Rotação do Rotor Produtividade RPM Kg/ Máq/ Dia % Efic. Máq Rupturas/ 1.000Rh Cortes/ 1.000Rh % Efic. Carro Alg. Normal Alg. Color Alg. Normal Alg. Color Alg. Normal Alg. Color Alg. Normal Alg. Color Alg. Normal Alg. Color 90.000 970 1.041 93,12 98,00 132 109 66 51 94,23 98,00 93.000 1.010 1.105 91,23 96,30 155 127 71 49 93,12 96,30 96.000 1.112 1.201 90,56 95,12 228 177 78 46 93,00 96,11 99.000 1.169 1.278 89,00 95,01 318 227 98 66 91,28 95,32 102.000 1.200 1.298 88,45 94,00 320 259 124 98 90,00 93,56 105.000 1.258 1.345 88,12 93,86 439 315 165 114 88,12 93,24 Média 1.119,83 1.211,33 90,08 95,38 265 202 100 71 91,63 95,42 Fonte: Santana et al 2000 Algumas considerações: O objetivo de utilizar diferentes rotações por minuto (RPM), foi o de comparar o comportamento do fio no tocante a produtividade de ruptura por eficiência, como também o comportamento de tenacidade e alongamento com rotações mais altas. Em relação a ruptura, é imprescindível dizer que esta se diferencia do corte uma vez que a ruptura é uma quebra natural causada por impurezas ou defeitos mecânicos e o corte é um defeito cortado pelo purgador eletrônico. As eficiências especificadas na tabela acima são dados fornecidos pela própria máquina. Comentários Finais A utilização do algodão colorido como inovação tecnológica, utilizada na indústria têxtil, é viável, tendo-se um bom desempenho da matéria-prima e do fio, todavia, para que isso se concretize é necessário que a matéria-prima tenha um baixo percentual de desperdício, um comprimento de fibra médio e uma resistência satisfatória. As imperfeições do fio têm que estar dentro dos limites preestabelecidos para não comprometer a aparência do tecido, conforme aponta Carneiro (2001), estando sua resistência e alongamento dentro de padrões exigidos para o bom andamento no processo de tecelagem, ou seja, o processo posterior ao de fiação. Como pode ser observado, as fibras do algodão colorido reúnem valores; as suas características físicas que são considerados ideais pela indústria têxtil, tanto para confecções de fios, quanto para ser processada em qualquer tipo de tecnologia de fiação, principalmente aquelas a rotor open-end. Segundo Carneiro (2001), pode-se também manufaturar com algodão colorido qualquer artigo têxtil, desde artesanato até confecções de malhas e tecidos planos. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Andrade, José Edilson de Oliveira. Tecnologia de fiação e tecelagem do algodão colorido. Revista Brasileira de Produtos Agroindustriais, Campina Grande, Especial, v.7, n.2, p.173-180, 2005 180 Inovação tecnológica – o desempenho da fibra do algodão colorido no processo de fiação a rotor..... Freire et al. Palestra realizada no auditório da FIEP em Dezembro de 2002. Andrade, José Edilson de Oliveira. Influências das características físicas no processo de fiação. 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