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MARIA ALICE DA LUZ
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MARIA ALICE DA LUZ
QUARENTENA POÉTICA
Quando o coração partido não mata,
ele se transforma em verso.
1ª EDIÇÃO
Curitiba
2015
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MARIA ALICE DA LUZ
ÍNDICE
Cicatrizes do engano................................................... ............. 6
No mes mo l uga r ................................. .................................. 9
Seja por você .................. ............. ........... ..... ....................10
A Lagarta....................................................................11
Enquanto o soneto perfeito não
vem....................................................................12
Café-com-leite no jogo da vida....................................................................13
O que pode ser pior?....................................................................15
Um (quase) apelo....................................................................16
Nunca mais....................................................................18
As últimas lágrimas....................................................................19
O álibi de um falso amor....................................................................21
A última página do livro..................................................................24
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Dedicado a todos que sobreviveram a um coraç ão partido.
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CICATRIZES DO ENGANO
Eu não tinha muitas coisas de que me orgulhar, mas o buraco no meu peito era infinitamente menor. Não era tão pequenininho porque eu já somava algumas feridinhas de intensidades alternadas. Ia sobrevivendo como todos os meus companheiros desse
mundo. Eu podia não ter uma vida social badalada, trazia paz e
tranquilidade, o conforto de colocar a cabeça no travesseiro e abraçar os meus sonhos inviolados, aquela utopia de um belo amor, a
pureza de que tantos debochavam e agora eu sei o quanto me faz
falta.
O presente conjuga-se no passado. A dor, porém, segue recente. Não há resposta. Nem mesmo um feixe para não desistir
porque a fraqueza me levou a acreditar que a sua bondade era a
minha necessidade. Mal sabia eu que se despiria um monstro, que
aquele para quem confiei a minha dor seria o que iria se divertir
com a minha inocência para depois sumir, como somem os covardes incapazes de serem humildes e reconhecerem que erraram por
trilharem em território inóspito.
O papel mais inglório é o meu, alvo dos julgamentos mundanos, sem nenhuma perspectiva de ressarcimento, porque com o
coração partido não funciona assim. Ele se quebrou e eu continuo
vivendo. Quem o quebrou dorme nos braços de outra fingindo a
honra imaginária. Descansa em paz. O ciclo continua. No meu lugar deve ser outra, alguma outra moça que vai se deslumbrar com o
cavalheirismo de mentirinha e abrir as portas do mundo para depois
se encontrar louca de tanta tristeza, aprendendo que gente como ele
não vale a tentativa, não vale nada, vive da aparência que analisando friamente também não é tão bela assim. É tipo capa de revista,
engana um monte. O jogo de palavras, meus caros leitores, as pala-
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vras. Eu que vivo delas levei uma rasteira. Eu mesma que sempre
me considerei tão esperta e tão precavida. Eu fui à rainha das trouxas.
Não durmo direito porque mereço, porque acreditei num
falso amor. Ora essa! Amor não fica em segredo. É cachorro que
apronta longe da vista dos donos, criança que fica quieta demais e
não está doente. Se for verdadeiro e puro, que mal há assumir? Mas
gente covarde não pensa assim. Ele nunca ouviu não. É debochar
de sua autonomia a contrariedade. Os desejos do homem em primeiro lugar, que se foda se eu não estiver pronta, que se foda também o que vai ser de mim.
Apesar dos pesares, mancando um pouco, estou sobrevivendo. Não tenho ódio, não estou fantasiando planos de vingança,
nada. Estou o matando dentro de mim do mesmo jeito que ele me
matou quando sumiu e a verdade apareceu. Tudo não passou de
uma brincadeira que teve graça para quem gozou, não para quem
sentiu toda a dor do mundo por nada. As luzes de velas, os aromas
afrodisíacos do incenso, as carícias cúmplices, esqueça tudo isso!
Ele é um galo metódico e mimado, incapaz de sentir emoções, de
doar o que quer que seja. De fala mansa e mãos pesadas, um monstro na pele de um santo. O falso amor tem mil máscaras, acredite!
Um falso amor dói feito tapa. Dói, sabe por quê? Porque a mentira
é uma picada reincidente, a dose de veneno aumenta e vai anestesiando a confiança até expirar o prazo.
Eis que aperta o cerco pela quarentena. A dignidade pede
um pouco de calma nessa hora. Eu também não quero me pronunciar e ser a atriz dramática de uma novela fracassada, ser um urubu
mais sofisticado porque a carniça desse falso amor fede tanto quanto o hálito quente de um beijo sem química. Na carne e na navalha
venha a dor como vier, é agora a hora de doer, de incendiar o pedestal, colocar as coisas no devido lugar, ele onde devia estar, fora
da minha vida. Ele vai tropeçar nos próprios fios soltos cedo ou
tarde, a soberba que te afaga as costas crava o foice também. Passional e calculista espera só! Semeia desgraças jogando espinhos no
asfalto, voltando descalço não poderá esperar por pétalas de flores,
não concordam?
Eu ainda terei muitas crises de choro em meados de tardes
até me perdoar. Afinal, eu não nasci sabendo de tudo, tampouco
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sabendo amar. Mais do que aprender, eu vou saber o que fazer.
Posso estar contando uma mentira para mim mesma, mas nesse
momento é pertinente, eu gosto da sonoridade dessa ilusão de que
tudo vai ficar bem. Sim, eu gosto. Gosto muito, a propósito. Preciso
respirar dessa essência cítrica e me cercar de positividade, elevando
a minha alma de modo que as provocações não me desarmem.
Quem some não merece encontrar as portas abertas.
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NO MESMO LUGAR
Posso nunca mais voltar a ser a mesma de antes, mas com
certeza eu levarei comigo todas as experiências que impulsionaram
o meu crescimento pessoal e as circunstâncias que me obrigaram a
ser forte.
A dor tirou o meu sorriso, porém nunca me venceu. Por
um tempo talvez, no entanto eu sempre me refaço. Eu vou caminhar um pouco para frente a cada dia. O importante nesse momento
é não ficar no mesmo lugar.
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SEJA POR VOCÊ
Seja por você, garota!
Acorde e se ame. Você pode. Você é forte. Ele não é o
único do mundo, sempre haverá um amanhã, um degrau para procurar outro caminho, desmontar esse pedestal.
Pode crer que o melhor está guardado. Um sonho puro
sempre haverá de ser realizado. Cada coisa no seu tempo e em seu
lugar.
Por hoje cuide de você.
Por hoje não chore.
Suas lágrimas são preciosas, inocência no estado bruto.
Não foi culpa sua. Tudo que ele merece de você é o desprezo. O
seu amor é um diamante, ele foi apenas uma bebida de má qualidade, afinal de contas. A paixão embriaga as certezas, mas depois de
uma noite de sono, tudo se ajeita.
Se ele fosse digno de você, não destruiria suas esperanças,
não te magoaria nem enganaria.
Deixe ir, por gentileza!
Não segure nas mãos a ilusão que necessita ir embora.
Deixe ir para que você possa se encontrar, das cinzas se refazer. Migalhas alimentam a piedade dos pombos, somente.
Seja por você. Por hoje. Para valer. A primeira opção deve
ser você. Hoje, amanhã, renove o contrato com a esperança. A vitória persegue os insistentes.
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A LAGARTA
Tudo ao redor dela é sempre escuro,
Cabeça baixa e passos contados.
Ela nem imagina como é o mundo fora dali,
O quanto é grande de possibilidades,
O quanto ela é linda e amável.
O coração bate tão apertado.
Tem pressa, mas não sabe para onde vai.
Esse dia já durou mil anos.
E mil anos para Deus valem um minuto.
Quem sabe o minuto de distração,
Aquele em que as teias vão se desfazer,
E apenas uma alternativa restará.
Resistir é questão de honra.
Ela não sabe que já desabrochou.
Tem medo de seus ruídos interiores.
A estrela do espetáculo se atrasou,
Espero que ela não demore a perceber
O quanto é especial aos olhos de Deus.
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ENQUANTO O SONETO PERFEITO NÃO
VEM
A solidão pode se manifestar alternativa.
Indefinida, ousada, lúcida e inflexível.
Necessária, por assim dizer.
Uma produtiva reclusão.
Cansaço do mundo, outra filosofia vazia.
O copo está pela metade de todo modo.
Ébria ou não, a realidade é sempre a mesma.
A cefaleia, entretanto, complica a reputação.
Fulgente é a rejeição, a sinceridade dos hipócritas.
Uma falsa saudação, um testemunho de adoração.
Por cima dos ombros vocifera uns impropérios.
Faz parte do espetáculo,
O preço com juros por ser de carne e osso,
Também de lágrimas sorridas.
Devo-lhes um soneto asseado.
Hoje, porém, ao silêncio resguardo-me.
Eu não tenho mais nada para dizer.
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CAFÉ-COM-LEITE NO JOGO DA VIDA
A infância e a morte são rotas equidistantes. Da primeira
eu já perdi de vista o hábito. A segunda divide-se entre tormento e
alento. Faz-se traiçoeira por arrancar de mim aqueles que amo, consola-me por ser uma saída digna para fugir da vergonha de ser medíocre.
Na infância eu tinha sonhos. Tinha, sim. Agora um a um
eles foram estraçalhados. A sobrevivência é um deboche. Eu não
passo de uma peça inútil no tabuleiro fitness cheio de figuras exuberantes e altivas. Sempre perco, entre a obediência e a deserção.
Chama-me a solidão para o seu casulo quente. Dói menos
do que a rejeição. Mas dói. E meu corpo parece demasiado cansado
para protestar.
Não restou a beleza das deusas para fazer-me musa. A genialidade dos homens me rememora a insignificância. O sucesso é
para os idiotas, no entanto eu sou idiota, meus manuscritos impopulares, eu não me deleito dos louros da fama, padeço da ordinária
moléstia de ser mortal, um rosto esfumaçado numa alameda apressada, não o amor de um poeta, uma princesa prometida, nada disso.
A prepotência cospe fora o veneno. Serei breve, eu prometo. Não é verdade que o mundo me odeia, ele simplesmente prossegue a órbita sem mim e sem você também. Nem a tristeza cabe dentro desse buraco no meu peito. Ele está entulhado de desacertos
irredimíveis.
Ora, infância! Sua magia foi ilusão? O que foi, senão, inconformismo?
Não se mudou, efetivamente. Apenas os queixumes, deixeme dizer. Eu almejava tanto ser moça, hoje sei o fardo que me é o
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arrependimento. Não sou digna do véu de noiva, nem cegonhas
pousarão no peitoril da minha janela. Se existe um deus, ele me
esqueceu, assim como nas brincadeiras eu fui café-com-leite também no jogo da vida.
A graça da infância foi ilusão. Um carma inalcançável. Essas palavras, mera distração entre um clássico e outro, entre uma
baixaria sutil e algumas mentiras adocicadas. Obrigada pela atenção, embora não passe de outro formalismo, uma despedida menos
hostil.
A segunda opção é sempre mais sedutora.
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O QUE PODE SER PIOR?
O que pode ser pior?
Nunca ter encontrado?
Nunca ter sentido?
A dor que vem da conformidade?
Saber que não é correspondida
O que se entende por saudade?
É pior nunca ter tido?
Ou sem forças abrir um sorriso?
É pior te reconhecer um estranho?
Ou ignorar as cicatrizes do engano?
O que pode ser pior?
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UM (QUASE) APELO
O valor inestimável da retribuição é senão o tropeço derradeiro. Eu costumava ser uma menina cheia de sonhos, mas deime conta de que a realidade cospe chamas de dor em quem sonha
mais do que deve. Alguém nessa história sairá em frangalhos. Serei
eu, as probabilidades apontam o óbvio. Nesse jogo de cara ou coroa
o resultado já está escrito, não adianta teimar com o juiz, as regras
são essas. O que restar de mim é herança dessa ilusão.
Eu me entreguei por inteiro, você nem um terço, apenas
contou as horas de folga para voltar a ser a farsa de sempre. Eu fiz
concessões por nós dois para que você nunca perdesse a diversão,
mas, afinal, o que você fez por mim?
Olhe para mim, você é capaz de saber o que eu digo?
Você é capaz de me escutar?
Eu posso lhe sorrir, mas isso não quer dizer que eu estou
feliz. Ninguém em meu posto conseguiria estar. Eu estou farta de
migalhas, a dignidade está definhando. O riso também é fruto do
desespero.
Quando você some e eu sei que você suporta a eternidade
sem mim enquanto eu teimo com as lágrimas que você tem um álibi. Para com isso, garota. A verdade escancarada é um soco na
cara: eu sonhei mais do que devia, a consequência não podia ser
outra.
Nessa história em que dois pontos se juntam em harmonia,
um caminho paralelo é heresia. Eu poderia chamar o seu nome no
meio da noite, no entanto o silêncio me diria que é impossível atender ao meu pedido. Eu gostaria de me lembrar como era viver sem
indícios de você, eu bem que gostaria de ser o ponto que se junta a
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uma reta sem obstáculos, ser o sussurro mais alto de um sonho realizado, não apenas o segredo que torna todos os meus desejos inalcançáveis.
Pensar num futuro com você é me armar de expectativas
sem chão, é lógico que o risco de cair é grande e indispensável, não
posso ignorá-lo. A incerteza que cabe ao presente me faz escrever
para você, muito mais para mim do que para você.
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NUNCA MAIS
Nunca mais eu vou tentar ser o que não sou.
Nunca mais eu vou me envaidecer por tão pouco.
Nunca mais eu vou acreditar que gestos de bondade não
escondem segundas intenções.
Espero ter aprendido que a cotação do meu dom é estimada pelo prazer de tentar. Eu não quero ser a melhor do mundo, mas
tornar alegre o meu próprio mundo.
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AS ÚLTIMAS LÁGRIMAS
Acreditar nas suas palavras não é a minha estratégia. O
cristal já se rompeu. As esperanças se dissiparam nos ventos da
tristeza. Agora eu preciso ficar só. Fingir que nada aconteceu é estupidez, me fará regredir, porque parte-se do princípio que superestimei uma ilusão, não posso me odiar por essa causa, mas não posso persistir nesse erro como se gostasse de sofrer. Tudo o que vivemos foi um desatino que eu não pretendo repetir.
Meu coração já está partido o bastante e eu posso muito
bem descomplicar, viver com mais leveza, longe de problemas em
potencial, de loucuras presumidas, utopias corrosivas. Eu te agradeceria pelo amor que me deu se ele existisse, no entanto sou-lhe
grata por matar as minhas esperanças e me devolver à realidade.
Agora eu posso encontrar o meu refúgio no meu dom, esse sim que
é o meu verdadeiro amor, amor esse que me faz mulher sem a sujeira de um desejo descompromissado.
Eu te agradeceria pela honestidade, mas sinto muito não
poder. Eu descobri por conta própria que você era um idiota. Eu
agradeço à minha mãe por ter enxergado o que eu não conseguia. A
ela sim. Porque ela teve sutileza de me despertar. Ficou claro que a
minha sanidade estava num plano paralelo. É hora de voltar. Não
sei para onde. O que era não mais há.
Eu falo de voltar a sonhar por mim sem incluir você. Sonhar com o que realmente acalenta o peito toda noite ao adormecer.
Isso é sonhar. O contrário disso é tormento e eu dispenso, dispenso
tudo, não quero. Não me faz falta sua falsa preocupação, nem a
droga da sua amizade mentirosa. Tinha segunda intenção no seu
zelo de fachada, era só para me aprisionar, me manipular, da minha
bondade se aproveitar. O diamante da admiração se espatifou, que
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bom que foi assim, que eu não me atolei mais, que eu acordei antes
de me sufocar.
Eu já chorei toda a cota de lágrimas que tinha direito, vou
chorar pela última vez e enterrar essa história na vala do aprendizado. Se o meu erro tinha esse fundamento, suporto a visão horrível
dessa ferida. Não vale a pena nem recordar. Lembrança ruim vira
experiência, não precisa reincidir. Ler seus formalismos idiotas, rir
da sua mania de se autoiludir, rir de mim mesma também, afinal, rir
é melhor do que chorar.
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O ÁLIBI DE UM FALSO AMOR
As mudanças podem me virar do lado avesso, mas não são
capazes de matar o que há de melhor em mim. Existe um longo
caminho de volta para casa e eu estou com medo.
Quem não ficaria?
Eu me perdi acreditando que ele era o meu porto-seguro,
parando na vala da ilusão, sentindo saudades do aconchego puro
das coisas como elas costumavam ser. Sinto falta de quem eu costumava ser. Ansiosa por um amor eu neguei a realidade e fui escrava dos vis caprichos da mente, elaborando fantasias que me fizeram
de brinquedinho particular numa manhã qualquer.
O arrependimento é a erosão da vida de mentirinha.
Meia-volta, volver... Mas em que direção? Eu ao menos
sei onde estou?
Consciente de que não, nem sei se disponho de lucidez para escolher o que deixar para trás. Racionalizando o erro consumado, impossível de rasgar a página e deixar para lá. O tempo fará a
sua parte. Tem vontade própria, tal qual o vento.
Fui outra. Não gostei dela. Não fui quem eu costumava
ver. Agora sou um rascunho de mulher, uma lágrima inibida. Fiz
ruídos por dramas infinitamente menores e agora que sofro de verdade, passo a ideia do contrário.
Eu disse que tinha de haver um aspecto positivo. E eu acho
que é esse, testar os meus limites ― ultrapassar as funestas fronteiras do medo ― é difícil caminhar na escuridão e confiando na falha
intuição, não com a intenção de pedir arrego e ficar quite com o
perdão, mas para valorizar a lição ensinada. Teimo em descobrir,
em tratar os monstros interiores para que eles não devorem a visão.
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Um falso amor é capaz de destruir a inocência de alguém
com a mesma potência de um tornado, sem deixar nada no lugar. A
herança é relembrar que não passou disso, um falso amor. Ele não
se importará com os danos que causou, é mimado e egoísta demais
para exercitar a empatia, frívolo demais para se compadecer, concreto demais para se dar conta de que a sua brincadeira ceifou as
esperanças de alguém, o seu capricho clandestino teve todos os
requintes de uma crueldade sutil, sem consenso. Tudo por ele e
nada por mim. Nunca foi por mim, afinal. A minha figura foi descartável, eu estava frágil demais para entender o que você queria de
mim. Aqui dentro do meu peito eu tinha amor e ele foi tripudiado,
desmerecido. Nem foi amor, porque se fosse não teria acabado,
teria se fortalecido quando você me possuiu, e naquele instante eu
me senti tão vazia e confusa, um peso maior do que um corpo contra o outro matando os minutos entre uma folga e outra. Analisando
a realidade, foi uma paixão inoportuna, um refúgio à crise, um subterfúgio que culminou em mais recriminação.
Quando aquela frase desprendida me matou por dentro e
eu me confessei com os travesseiros para não deixar ninguém saber
do tumulto silencioso que refletiu na piora do meu isolamento, soube que a dignidade era a minha recordação não de um planeta extinto, mas de tudo o que ainda importava. Calada, ainda ali, adormecida, um pouco rabugenta, como aquela amiga que discorda de você,
porém nunca te abandona.
Eu sei por mim que sou coadjuvante, que me embriaguei
nesse vício invisível por palavras formais, em busca de sinais inexistentes. Mais uma vez elas, as tais expectativas, rumando ao precipício da insanidade decretada. A carência outra vez mostrando
que o passado me ensinou e eu pareci gostar do erro, repetindo-o,
por prazer, para confirmar que naquela trilha o perigo é mais do
que comprovado.
Sinto muito, não é. E eu não sou mais. Repito, sou esboço.
Esse é o meu recomeço. Começo de outro começo. Minha vida é
marcada por eles, pelas feridas acesas que narram a minha história
melhor do que qualquer crônica estúpida. Eu sou uma merda de
escritora fingindo ter algum talento para não me sentir tão medíocre
num mundo que nos julga pelos títulos (ou a falta deles).
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Volto a qualquer dia, esperando reconhecer meu status de
aprendiz, rir da minha arrogância infantil e dominar a arte de falar
de amor sem usar palavras. Isso é, quando eu encontrar e sentir o
que é o amor. Por mim. Apenas amor, sem obrigação. Falar de
amor com a transparência de uma criança, amando então como se
nunca tivesse sido abatida por uma amarga ilusão.
É Agosto ainda. O desgosto percorreu nessas explosivas
lágrimas no meio da tarde. A autoanálise falhou. Escrever o que se
passa é uma espécie de antídoto que neutraliza o veneno da decepção. Aprender por conta própria é sempre mais trabalhoso. Com
dor, o dobro. Com amor, fica por conta dos sábios. Um dia eu chego perto de ser madura o bastante para não me entregar ao primeiro
que me der um pouquinho de atenção. Vamos com calma, por hoje
esse texto. Amanhã. Que venha o amanhã. E que venha junto também um pouco de coragem. Assim vou de encontro à minha cura,
sem negar as recaídas nem os pensamentos desordenados. Essa
ferida no peito vai demorar a cicatrizar.
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A ÚLTIMA PÁGINA DO LIVRO
Em menos de três meses, mil reviravoltas. Nessa roletarussa a decepção era a aposta mais concreta. O leite já foi derramado, os cacos varridos. As migalhas não eram de ouro, eu descobri.
Elas não tinham um gosto bom.
Depois de dormir várias noites com as lágrimas ardendo
nos travesseiros, finalmente amanheceu. E eu sobrevivi. A dor ficou enterrada na interminável madrugada. Ainda vai levar um tempo para eu não chorar quando pensar no quanto eu fui tola e presunçosa, tão alienada acerca da sua verdadeira face.
Eu realmente sou imatura no amor, mas pelo menos não
finjo ser o que não sou. Eu confio e acredito, pessoas de mentira
julgam as outras por si mesmas, você é uma delas, um clichê fabricado. Eu não me envergonho de ver os outros com bons olhos, eu
lamento por quem desperta o desejo em outro alguém quando não
há a mínima intenção de honrar o compromisso. É, além de covardia, a corrupção do caráter, a falta grave que me indica tudo aquilo
que eu não queria enxergar.
Eu não abriria mão da minha vida por causa. Sou a Fênix.
Ressurjo das cinzas. E me refarei com uma couraça mais resistente,
do meu valor mais consciente. Minha beleza não é o seu deleite.
Nunca serei o seu enfeite. Nunca será por você, pode nunca ter sido. Eu sei que ficarei bem e não farão qualquer sentido os versos de
“quase amor” porque afinal de contas eu quero levar para casa mais
do que o coração partido. Eu não perdi o que não tive. A verdade
dói porque liberta. A mentira é um ácido a destruir os pilares da
sanidade. Agora eu sei que serei melhor longe de você. Posso dizer
com toda a franqueza que me cabe que eu serei muito melhor longe
de você.
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Quarentena poética - Recanto das Letras