Série
Nº 223
Estudos em Saúde Coletiva
II SEMINÁRIO DE PESQUISA DO
IMS: ENGAJAMENTO DISCENTE E
BUSCA POR FOMENTO
Resumos Ampliados
BIANCA ALFANO, CRISTIANE MARQUES E
MARÍLIA ARREGUY (ORG.)
ISSN 1413-7909
DEZEMBRO
2007
UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO
REITORA
NIVAL NUNES DE ALMEIDA
VICE-REITOR
RONALDO MARTINS LAURIA
INSTITUTO DE MEDICINA SOCIAL
DIRETOR
RUBEN ARAUJO DE MATTOS
VICE-DIRETORA
JANE ARAUJO RUSSO
Série
E STUDOS
É
EM
S A Ú D E C OLETIVA .
ISSN 1413-7909 (VERSÃO IMPRESSA)
UMA PUBLICAÇÃO DE TEXTOS PARA DISCUSSÃO DO
INSTITUTO DE MEDICINA SOCIAL DA
UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO ,
DE EXCLUSIVA RESPONSABILIDADE DOS AUTORES .
EDITOR
GEORGE E. M. KORNIS
PRODUTORA EXECUTIVA
ANA SILVIA GESTEIRA
COPIDESQUE E REVISÃO
ANA SILVIA GESTEIRA
PROJETO GRÁFICO
SILVIA STEINBERG
MARCELLUS SCHNELL
ADAPTAÇÃO DO PROJETO GRÁFICO PARA A WEB E WEBDESIGN
ELIR FERRARI
EDITORAÇÃO ELETRÔNICA
ELIR FERRARI
CONSELHO EDITORIAL
CID MANSO DE MELLO VIANNA D E P TO . D E P LAN EJAM ENTO E A D MINIS T RAÇÃ O E M S AÚD E
LUIZ ANTÔNIO DE CASTRO SANTOS D EPTO . DE P OLÍTICAS E I NSTITUIÇÕES DE S AÚDE
ROSELY SICHIERI D EPTO . DE E PIDEMIOLOGIA
CATALOGAÇÃO NA FONTE
UERJ / REDE SIRIUS / CBC
S471
Seminário de Pesquisa do IMS-UERJ (2.: 2007: Rio de Janeiro, RJ)
2o Seminário de Pesquisa do IMS: engajamento discente e busca por
fomento, 5 a 7 de setembro de 2007: resumos ampliados - Rio de Janeiro:
UERJ/IMS, 2007.
188p. - (Série Estudos em Saúde Coletiva; n. 223)
O evento deu seqüência ao 1o Seminário de Mestrandos e
Doutorandos de Ciências Humanas e Saúde do IMS
ISSN 1413-7909
1. Seminários - Pesquisa. 2. Pós-graduação. 3. Resumos. I. Universidade
do Estado do Rio de Janeiro. Instituto de Medicina Social. II. Título
III. Série.
CDU 378.147.34
INSTITUTO
DE MEDICINA
SOCIAL
Série
UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO
INSTITUTO DE MEDICINA SOCIAL
Estudos em Saúde Coletiva
II SEMINÁRIO DE PESQUISA
DO IMS: ENGAJAMENTO
DISCENTE E BUSCA POR
FOMENTO
Resumos Ampliados
BIANCA ALFANO, CRISTIANE MARQUES
E MARÍLIA ARREGUY (ORG.)
ISSN 1413-7909
DEZEMBRO
2007 Nº 223
II SEMINÁRIO DE PESQUISA DO IMS: ENGAJAMENTO DISCENTE E BUSCA POR
FOMENTO - RESUMOS AMPLIADOS
I
Abstract
06
Apresentação
07
Mesa de abertura - SAÚDE COLETIVA, POLÍTICA E FINANCIAMENTO DE PESQUISA
10
Mesa 1 - RELAÇÕES DE GÊNERO, SEXUALIDADE E MEDICALIZAÇÃO
11
Mesa 2 - REFLEXÕES SOBRE PRÁTICAS EM INSTITUIÇÕES DE SAÚDE
27
Mesa 3 - CONSTRUÇÕES MIDIÁTICAS DA SUBJETIVIDADE
39
Mesa 4 - NOVOS OLHARES SOBRE AS POLÍTICAS DE SAÚDE
56
Mesa 5 - DOR CRÔNICA E CUIDADOS EM SAÚDE
73
Mesa 6 - IDENTIDADE HOMOSSEXUAL, HOMOFOBIA E HOMPARENTALIDADE
90
Mesa 7 - DESAFIOS DA FORMAÇÃO E PRÁTICAS DE PROFISSIONAIS DE SAÚDE 103
publicação eletrônica: http://www.ims.uerj.br/sesc
05
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
Resumo
Mesa 8 - VIOLÊNCIA, FAMÍLIA E TRANSDISCIPLINARIDADE 116
Mesa 9 - REGULAÇÃO, PESQUISA E PROMOÇÃO EM SAÚDE 132
Mesa 10 - CORPO E CONTEMPORANEIDADE 142
Trabalhos Apresentados em Sessão de Pôster 161
Mesa de encerramento - PERSPECTIVAS EDITORIAIS EM SAÚDE COLETIVA 180
índice dos resumos 182
4
II Seminário de Pesquisa do IMS: engajamento
discente e busca por fomento - Resumos Ampliados
Nos dias 5, 6 e 7 de novembro de 2007 realizou-se o II Seminário Pesquisa do IMS -UERJ Engajamento Discente e Busca de Fomento. O evento deu seqüência ao I Seminário de Mestrandos e
Doutorandos de Ciências Humanas e Saúde do IMS, contando, na nova versão, com a participação dos
mestrandos e doutorandos dos Departamentos de Epidemiologia e de Planejamento e Administração de
Saúde. O objetivo do II Seminário foi aprimorar a comunicação e as trocas acadêmicas entre os pesquisadores das três áreas e discutir novas formas para a consolidação da produção científica e das condições de
fomento às pesquisas em curso no IMS-UERJ. A publicação dos resumos expandidos dos trabalhos apresentados no evento constitui um singelo resultado desses esforços.
PALAVRAS-CHAVE: seminário de pesquisa; pós-gradução; fomento; corpo discente.
* MESTRANDOS E DOUTORANDOS DO IMS/UERJ.
publicação eletrônica: http://www.ims.uerj.br/sesc
Resumo
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
CLÁUDIA REGINA RIBEIRO; MARIA MOSTAFA;
ALEXANDRE VASILENSKAS GIL; PEDRO DE OLIVEIRA
SCHPREJER; CRISTIANE OLIVEIRA; SOLANGE D’AVILAMELO SARMENTO; DANIELA MURTA; VERA L. MARQUES
DA SILVA; ANA VALÉRIA PARANHOS MICELI; RAQUEL
ALCIDES DOS SANTOS; RAFAELA TEIXEIRA ZORZANELLI
; SUELY OLIVEIRA MARINHO; GUSTAVO SANTA ROZA
SAGGESE; MARCOS NASCIMENTO; BIANCA ALFANO;
LUCIANA BRANCO DA MOTTA; LUCIANA ALVES
PEREIRA; EDUARDO FREDERICO ALEXANDER AMARAL
DE SOUZA; SABIRA ALENCAR; MARÍLIA ETIENNE
ARREGUY; ALESSANDRA SILVA DIAS; GUSTAVO LOBATO ;
RODRIGO MENDES LEAL; JOÃO BOAVENTURA BRANCO
DE MATOS; MÁRCIA GUIMARÃES DE MELLO ALVES;
YARA HAHR MARQUES HOKERBERG; MARIANA
MIRANDA AUTRAN SAMPAIO; RAFAEL DA SILVA
MATTOS; CRISTIANE MARQUES; LETÍCIA VARGAS DE
MESQUITA; MARÍLIA RODRIGUES DA SILVA; JOÃO
BOAVENTURA BRANCO DE MATOS; KARINE DE LIMA
SÍRIO BOCLIN; ILANA NOGUEIRA BEZERRA; ANDRÉA
SOBRAL DE ALMEIDA; ANNA MARIA SALES; ANDRÉA
SOBRAL DE ALMEIDA; ROGER KELLER CELESTE;
ANDRÉIA RODRIGUES GONÇALVES AYRES; TATIANA DE
SEIXAS TAVARES RIBEIRO*
5
Abstract
2nd Research Seminar on Student Engagement and Search for Financial Support
The 2nd Research Seminar “Student Engagement and Search for Financial Support” took place on
November 5-7th, 2007, at UERJ’s Institute of Social Medicine. It is a follow-up of the 1st Seminar of
Master and Ph.D. students of IMS’s Human Sciences and Health Department, and in its new version also
participate master and Ph.D. students of IMS’s Epidemiology and Planning and Administration
Departments. This second seminar aims to improve communication and academic interchange among
researchers of the three areas, and to discuss new forms to consolidate the scientific production and
sinancial support conditions for research works carried out at IMS-UERJ.To publish the expanded abstracts
of works presented at the seminar is a brief result of the collective effort.
KEYWORDS: research seminar; graduation; financial support; students
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Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
6
APRESENTAÇÃO
COMISSÃO ORGANIZADORA*
publicação eletrônica: http://www.ims.uerj.br/sesc
* BIANCA ALFANO, mestranda (CHS), presidente da comissão organizadora ([email protected]).
C R I S T I A N E M A R Q U E S , mestranda (CHS), vice-presidente da comissão organizadora
([email protected]). MARÍLIA E. ARREGUY, doutoranda (CHS), responsável pela Comissão Editorial ([email protected]). TATIANA COELHO, doutoranda (PPAS), representante do DPAS.
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
A realização do II Seminário de Pesquisa do IMS representou, para nós da Comissão
Organizadora, um grande avanço no engajamento discente e na busca por fomento. O
evento deu continuidade ao I Seminário de Mestrandos e Doutorandos de Ciências
Humanas e Saúde, ocorrido em 2006, demonstrando o interesse dos discentes em
construir um espaço de debate coletivo, de troca de idéias e socialização de atividades
de pesquisa. Reforçou a interdisciplinaridade do Programa de Pós-Graduação em
Saúde Coletiva do IMS, apresentando trabalhos de colegas das áreas de Epidemiologia,
Política, Planejamento e Administração em Saúde e Ciências Humanas e Saúde. Ampliou
as oportunidades de participação e integração, incluindo uma sessão de pôsteres, uma
mesa de abertura e outra de encerramento, dez mesas formadas por alunos de
mestrado, doutorado e pós-doutorado, além do agradável coquetel ao final do evento.
Mais do que um avanço, o evento foi uma grande conquista de alunos e alunas
que tiveram interesse pessoal e compromisso ético com o desenvolvimento e
divulgação do conhecimento, tornando públicas suas reflexões ou mesmo assistindo
aos debates. Buscou-se, assim, legitimar os esforços na luta por fomento, por trabalho
e pelo reconhecimento de nossa ação em tempos de absoluta incerteza profissional.
Com efeito, o apoio de professores, servidores, orientadores e mediadores das
mesas foi primordial. Cada gesto singelo, cada palavra de incentivo serviram de
combustível para essa realização.
Como lição ficou a necessidade fundamental de criar uma rede de comunicação
entre os alunos, trocando as experiências de acertos e dificuldades encontradas na
organização do evento, para que as futuras comissões possam dar, anualmente,
continuidade ao seminário, despertando o interesse do corpo discente na ocupação
dos espaços públicos do IMS.
Também aprendemos que um planejamento antecipado, com participação da
direção do Instituto e de seu corpo docente, é essencial para que o evento tenha datas
estabelecidas oficialmente no calendário do IMS, sem que aulas sejam marcadas
concomitantemente às mesas, interferindo na participação dos alunos. No entanto,
garantir datas não significa tornar o evento obrigatório. A espontaneidade e interesse
na organização do seminário devem ser respeitados, devendo partir dos alunos para
7
que a quantidade de afazeres e as discordâncias encontradas no percurso possam ser
vivenciadas com boa dose de prazer e abertura para o diálogo.
Aprendemos que a simples chance de publicar pode ser algo, às vezes, muito
difícil e desanimador, quase uma “loteria”, mas que, adquirindo “cascas grossas” e
maior tolerância às frustrações, podemos honrar nosso compromisso ético com a
divulgação de nossas produções acadêmicas.
A realização deste segundo seminário trouxe novas perspectivas em tempos de
pressão por qualidade e intensidade na produção acadêmica. Deu-nos o prazer do
encontro, da “circulação de idéias” em reflexões críticas e construtivas e, sobretudo, a
liberdade de exercer a fala num ambiente amigável entre nossos pares.
Nossos sinceros agradecimentos a todas as pessoas que participaram e nos
ajudaram nessa empreitada. Agradecemos também a disponibilidade e interesse da
Série Estudos em Saúde Coletiva em publicar os resumos dos trabalhos apresentados.
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8
ABERTURA
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MESA
DE
ABERTURA
9
SAÚDE COLETIVA, POLÍTICA E FINANCIAMENTO
DE PESQUISA
MEDIADOR:
GUILHERME WERNECK– (IMS/UERJ)
DEBATEDORES:
MARIA ANDRÉA LOYOLA - CHS
RUBEN DE MATOS - DPAS
ROSELY SICHIERI - EPID
publicação eletrônica: http://www.ims.uerj.br/sesc
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
O II Seminário de Pesquisa do IMS teve início com a realização da mesaredonda “Saúde Coletiva, Política e Financiamento em Pesquisa”, composta pelos
professores Maria Andréa Loyola, representando o Departamento de Políticas e
Instituições de Saúde; Ruben Araujo de Mattos, como representante do
Departamento de Planejamento e Administração em Saúde, e Rosely Sichieri do
Departamento de Epidemiologia.
O debate sobre o tema central do seminário foi mediado pelo então coordenador
de Pós-graduação, Guilherme Werneck. Em calorosa discussão, os alunos, professores,
funcionários e visitantes foram informados e atualizados acerca dos rumos do debate
envolvendo políticas de fomento e de publicação dentro da área de Saúde Coletiva.
Maria Andréa trouxe importante contribuição a respeito dos critérios de
avaliação da CAPES, ao analisar diversos periódicos da nossa área. Ruben Mattos
priorizou em sua apresentação a discussão sobre a necessidade de insistirmos em
certa “unificação” das práticas científicas no campo da Saúde Coletiva, com o objetivo
de resgatar o sentido multidisciplinar que deu origem a esse campo de investigação e
intervenção, no que concerne à reafirmação da integração entre os saberes e as práticas
de saúde. Rosely Sichieri apresentou de forma clara e objetiva um panorama das
produções de pesquisa em Epidemiologia, atentando para a importância de um
desenvolvimento metodológico rigoroso como recurso que fornece boas chances na
consolidação de parcerias com as agências de fomento às quais se podem apresentar
projetos de interesse acadêmico comum.
Vários professores e alunos colocaram suas opiniões e perguntas, e ocorreu
intenso debate sobre divergências importantes, no sentido do aprimoramento das
atividades acadêmicas no âmbito do Instituto de Medicina Social da UERJ
10
MESA 1
publicação eletrônica: http://www.ims.uerj.br/sesc
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
RELAÇÕES DE
GÊNERO, SEXUALIDADE
E MEDICALIZAÇÃO
11
A DESCULPABILIZAÇÃO PELA DOENÇA:
O ALCOOLISMO NO DISCURSO DE MULHERES
ALCOÓLICAS
DOUTORANDA: FERNANDA ALZUGUIR*
ORIENTADORA: FABÍOLA ROHDEN
1
FEVECCHI@ GMAIL. COM.
Grupo de ajuda mútua “Alcoólicos Anônimos”.
publicação eletrônica: http://www.ims.uerj.br/sesc
* FERNANDA ALZUGUIR
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
Este estudo analisa o discurso sobre o alcoolismo proferido por mulheres que
freqüentam um serviço público de saúde localizado na cidade do Rio de Janeiro. Investiga
como as percepções sobre as relações de gênero aparecem nesse discurso. Para tanto,
foram realizadas entrevistas semi-estruturadas com dez mulheres em tratamento.
A proposta é condizente com a afirmação de Ettorre (1998) sobre a necessidade
de uma abordagem ao tema do alcoolismo que considere as implicações do lugar
social de “mulher” pelas consumidoras de álcool. Considera que o modo como elas
bebem pode estar relacionado à experiência das relações de poder entre gêneros.
Focalizar a dimensão das “relações de gênero” como categoria analítica pressupõe
o caráter fundamentalmente relacional da construção de gênero. Trata-se de
compreender o feminino a partir da relação comparativa, nos termos da construção
da oposição “masculino/feminino”. Esta perspectiva diminui os riscos de uma
interpretação maniqueísta do tipo mulher-vítima/homem-algoz (Gregori, 1993).
Os discursos das mulheres alcoólicas sobre o alcoolismo estão intimamente
associados ao modo de estruturação das relações de gênero na sociedade moderna. Neste
sentido, as práticas e percepções dessas mulheres a respeito do consumo de álcool são
uma via de compreensão do modo como percebem e reafirmam aquelas relações.
Garcia (2003, 2004) observa, por exemplo, que as poucas mulheres existentes
no grupo AA1 por ela analisado avaliaram negativamente o consumo alcoólico de
mulheres, sendo comuns comentários do tipo: “mulher bêbada é pior do que homem”.
Segundo a autora, a avaliação negativa se vincula à “vergonha” pelo não-cumprimento
ou transgressão dos desígnios femininos, como o papel de dona de casa.
As narrativas do presente estudo ilustram duas concepções que se articulam
intimamente: a biomédica e a moral. A primeira refere-se à idéia do alcoolismo
como uma doença que acarreta a perda do controle da vontade de beber. A segunda
abarca a relação entre alcoolismo e expectativas sociais de gênero. As concepções
biomédica e moral coexistem e se entrelaçam formando um padrão discursivo de
acordo com o qual o discurso biomédico sobre o alcoolismo é ressignificado pelas
12
3
Por “mulher alcoólica” refiro-me àquela que é admitida em um serviço de saúde para tratar do
alcoolismo.
Os nomes citados são fictícios a fim de se preservar o anonimato.
publicação eletrônica: http://www.ims.uerj.br/sesc
2
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
mulheres “alcoólicas”2, no sentido de justificar o consumo alcoólico e neutralizar os
julgamentos morais sobre tal consumo, promovendo uma atitude desculpabilizatória.
A necessidade de as informantes justificarem a todo o momento o alcoolismo
só pode ser devidamente compreendida se for considerada a dimensão moral que
engloba e estrutura os significados atribuídos àquela perturbação. Afinal, eles refletem
o próprio julgamento das mulheres alcoólicas sobre as expectativas de gênero. Um
exemplo do julgamento moral quanto ao gênero foi verificado no depoimento de
Francisca3, de que mulher que bebe “Perde a vergonha. É muito triste”.
Os depoimentos sobre o álcool são orientados pela divisão entre público (espaço
da rua) e privado (espaço da casa). Estes domínios são marcadores importantes de
diferenças no modo como elas descrevem suas relações com a bebida.
A afirmação de um comportamento ético em relação ao consumo alcoólico,
como o de beber somente acompanhada, é nitidamente mais comum para as informantes
que bebem em locais públicos. O reforço de uma ética do beber público indica a
percepção de uma maior “transgressão” deste ato em relação ao consumo dentro de
casa. Quanto a isso, o depoimento de Olga sobre a atitude da mãe de não deixá-la
beber na rua, mas sim em casa, foi muito significativo. Sua frase, de que a mãe, com
essa atitude, “tapava o sol com a peneira”, elucida: a socialização de determinados
códigos morais femininos de conduta, segundo os quais o fato de ser mulher e beber
perante os outros é considerado um problema grave, cuja resolução é encontrada no
consumo alcoólico dentro de casa e longe do olhar alheio.
Ilustrando o estigma em relação às mulheres que bebem no espaço público, a
percepção a respeito da mulher que bebe cotidianamente adquire aspecto paradoxal.
Não obstante a afirmação categórica quanto à diferença existente entre a mulher e
o homem que bebem, atributos deste último são utilizados para classificar a primeira.
Reflexo da intolerância em relação à mulher que bebe no espaço público e da maior
tolerância em relação ao homem na mesma condição, as informantes só conseguem
se definir a partir do masculino. No tocante à mulher que bebe no espaço do lar,
diferentemente, a elaboração de um campo de significação exclusivo para o feminino
torna-se possível.
Nos discursos das informantes que bebem fora de casa, uma “ética da
responsabilidade” é insistentemente lembrada. No tocante ao cuidado com os filhos,
observaram-se diferenças nos discursos de mães (quatro) e não mães (seis). Enquanto
a maioria das mães insistiu em reafirmar que o consumo alcoólico não abalou a relação
com os filhos, as informantes sem filhos relataram que a maternidade demandaria
uma responsabilidade que elas não poderiam cumprir.
A preocupação em sustentarem uma ética da responsabilidade reflete o longo
processo histórico de investimento sociopolítico na instauração de uma norma segundo
a qual a maternidade se torna atributo natural da mulher. Tal ética pesa sobremaneira
na avaliação das informantes quanto a ter ou não filhos, de modo que, para aquelas que
13
não os têm, a decisão de não tê-los é afirmada como uma forma de responsabilidade.
No caso das mães, é possível que a transferência do cuidado com os filhos para uma
pessoa próxima seja também caracterizada como um ato de responsabilidade.
Além da responsabilidade, a vergonha e o autocontrole são outras dimensões
sobre as quais incide uma ética quanto ao consumo de bebida por mulheres. A referência
a um descontrole na ingestão de bebida alude, em última instância, a um beber
vergonhoso, por transgredir as expectativas femininas. A vergonha e o autocontrole
também traduzem uma moral sexual, anunciada no relato sobre o consumo alcoólico
nos bares. Seus discursos apontam para uma associação entre beber desacompanhada
e sem dinheiro para pagar, com uma disponibilidade da mulher para a relação sexual
em troca de bebida.
O controle em relação ao consumo de bebida se destaca como um valor em
torno do qual a concepção de alcoolismo-doença é elaborada. Sendo assim,
responsabiliza-se o beber descontrolado à doença localizada dentro de si e da qual não
se tem comando. Uma análise mais atenta, no entanto, verifica que o descontrole é
estreitamente associado ao beber que transgride os códigos de uma ética do feminino.
Este trabalho pretendeu enriquecer um tema pouco estudado, a partir das
vozes de mulheres que traduzem e ameaçam, em um só ato, expectativas sociais de
gênero. Demonstram, portanto, que o entendimento do alcoolismo como uma doença
é apenas uma face de uma configuração mais ampla, que estrutura seus discursos e
práticas sobre a bebida.
ETTORRE, E. Mujeres y alcohol: placer privada o problema público. Madrid: Narcea,
1998. (Colección Mujeres).
GARCIA, A. M. “E o verbo (re)fez o homem”: estudo do processo de conversão do alcoólico
ativo em alcoólico passivo. 147 p. Dissertação (Mestrado em Antropologia) - Instituto
de Ciências Humanas e Filosofia, Universidade Federal Fluminense, 2003.
GARCIA, A. M. E o verbo (re)fez o homem. Niterói: Intertexto, 2004.
GREGORI, M. F. Cenas e queixas: um estudo sobre mulheres, relações violentas e a
prática feminista. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1993.
publicação eletrônica: http://www.ims.uerj.br/sesc
Referências
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
Palavras-chave: mulheres; alcoolismo; relações de gênero.
14
CONSTRUÇÃO POLÍTICA E HORMONAL DO
CORPO FEMININO: ALGUMAS
CONSIDERAÇÕES
DOUTORANDA: REGINA SENNA*
ORIENTADORA: FABÍOLA ROHDEN
1
REASENNA@YAHOO. COM.BR .
O termo medicalização é tomado aqui como um conjunto de intervenções e controles reguladores
centrados nos corpos de mulheres e homens visando a sua otimização. Estas ações abarcam o
monitoramento de riscos, de nascimentos, do nível de saúde, a duração da vida e longevidade.
Sobre a disciplinarização dos corpos e a regulação das populações, ver Foucault (1985).
publicação eletrônica: http://www.ims.uerj.br/sesc
* REGINA SENNA
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
INTRODUÇÃO
Nas últimas décadas, a indagação acerca da definição de mulher, do que seria
um ser feminino, com base em parâmetros ditados pela biomedicina, tem sido alvo
de análise por diversos autores. Nesta produção analítica destaca-se um eixo de discussão
que problematiza a predisposição para a construção de um modelo de mulher alicerçado
cada vez mais no que é afirmado pelo discurso biomédico. Devem ser citadas as
contribuições de Laqueur (1987, 2001), Hubbard (1997), Harding (1997), Oudshoorn
(1994) e, no Brasil, Rohden (2000, 2001, 2003 e 2004), que partem da construção
social de fenômenos relativos ao corpo.
A análise do processo de medicalização1 do corpo da mulher aponta para a
construção de atenção especial dirigida a este como portador de uma patologia
intrínseca, fato imputado às suas oscilações hormonais, devendo, por esta razão, ser a
mulher alvo de controle e monitoramento constantes.
Os avanços científicos e as mudanças acarretadas pelo Iluminismo propiciaram
a partir de meados do século XVIII que a saúde e a sexualidade da mulher se tornassem
objeto freqüente de atenção por parte da medicina.
As novas concepções acerca da anatomia e da fisiologia humanas trouxeram
como conseqüência modificações na compreensão dos corpos, como por exemplo, a
passagem do modelo de sexo único, para o de dois sexos incomensuráveis, analisada
por Laqueur (1987, 2001).
O corpo da mulher é então descrito não mais como o de um homem
imperfeito, mas a partir de uma diferenciação biológica radical. Como depositário
de intensa instabilidade e fragilidade, passa a demandar atenção e cuidado constantes
por parte dos médicos.
Essa preocupação, que se acentua notadamente ao longo dos séculos XIX e XX,
se faz presente também nos dias de hoje. Observa-se toda uma série de regras e
15
preceitos, sobretudo por parte da biomedicina, no que diz respeito à manutenção da
saúde, beleza, sensualidade e juventude e que norteiam, atualmente, os padrões
estabelecidos como ideais para a mulher em nossa sociedade.
2
Hormônios sexuais femininos: os estrogênios – 17beta estradiol, a estrona e o estriol, e as progestinas – progesterona (Baracat et al., 1996).
publicação eletrônica: http://www.ims.uerj.br/sesc
CORPO FEMININO: RISCO, INTERVENÇÃO E PODER
Com as novas descobertas sobre a importância dos ovários e, conseqüentemente,
dos hormônios produzidos por eles no funcionamento do organismo da mulher, a
menopausa passa a ser compreendida como expressão de uma deficiência nesses órgãos.
Este cenário abre caminho para o que passou a ser um dos recursos considerados mais
eficazes pela biomedicina para a profilaxia e tratamento dos sintomas e transtornos
provocados pelo climatério – a terapia de reposição hormonal.
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
CORPO HORMONAL UNIVERSAL
Ruth Hubbard (1997) e Nelly Oudshoorn (1994) põem em análise a
possibilidade de um corpo natural e universal, e em particular o da mulher, uma vez
que a biologia feminina é fortemente marcada por influências sociopolíticas.
As descrições da biomedicina sobre a mulher, seu corpo e sua fisiologia partem
em sua maioria de definições gerais, baseadas na quantificação das taxas hormonais2 e
em sinais e sintomas visíveis e quantificáveis. Tais descrições precisam ser
problematizadas – não se trata de negar a existência de um substrato biológico, porém
é preciso que se perceba que a este substrato serão somadas as experiências pessoais
e as representações do grupo social ao qual a mulher pertence. O corpo feminino não
se apresenta como um constructo anistórico; sua percepção é elaborada e moldada
pelas diversidades culturais das experiências corporais.
Oudshoorn (1994) realiza uma incursão sobre a história das pesquisas científicas
e mostra como a investigação sobre os hormônios sexuais contribuiu para modelar
nossa compreensão atual sobre os corpos. Desde as primeiras décadas do século XX,
a noção de construção hormonal mostra-se como dominante na definição dos corpos e
na diferenciação de gênero. A “essência” do feminino passa a ser localizada nos ovários
e nas substâncias produzidas por eles – os hormônios.
Gradativamente, a endocrinologia introduz o conceito de feminino e
masculino através dos hormônios sexuais, mensageiros da feminilidade ou da
masculinidade. Diversas formas de comportamento, regras, funções e características
consideradas tipicamente como femininas ou masculinas são atribuídas pela
biomedicina à influência dos hormônios.
Os hormônios estrogênio e progesterona encontram-se dentre as substâncias
mais amplamente utilizadas na história da medicina: no controle da fertilidade,
como reguladores do ciclo menstrual, como abortivos, em testes de gravidez e
ainda como medicação para a menopausa (Oudshoorn, 1994). Atualmente, o modelo
hormonal encontra-se incorporado como modelo elucidativo sobre nossos corpos,
sentimentos e comportamentos.
16
Na menopausa, a mulher passa a ser percebida não apenas por sua perda da
capacidade de procriar, mas pela perda de feminilidade. A biomedicina atribui à
diminuição significativa das taxas hormonais inúmeros transtornos3 – ressecamento
da pele, acúmulo de gordura, perda de libido – marcação que contribui para a construção
de uma imagem da mulher no climatério sem atrativos e em situação de menos valia.
Ela se tornaria, portanto, menos mulher a partir de uma diminuição significativa dos
hormônios que a definem como um ser do sexo feminino.
Jennifer Harding (1997) efetua interessante articulação entre a percepção da
mulher no climatério, a terapia de reposição hormonal (TRH) e o discurso de risco
no qual a biomedicina insere a mulher nesse período.
No discurso da ginecologia, a TRH protegeria a mulher no climatério e na pósmenopausa da perda da beleza e sensualidade, assim como de doenças que poderiam
colocá-la em risco de vida ou em situação de dependência e não-produtividade. A
mulher nesta fase é incluída em uma categoria de risco, que deve ser obrigatoriamente
conhecido e evitado por meio de prevenção e tratamento constantes (Harding, 1997).
Referências
BARACAT, E.; AGUIAR, L. et al. Eficácia e segurança de um novo sistema matricial
para liberação transdérmica de estradiol comparativamente ao sistema clássico de
reservatório. Jornal Brasileiro de Ginecologia, v. 106, n. 8, p. 281-289, 1996.
3
A biomedicina define síndrome climatérica como um amplo conjunto de sintomas que acometem grande parte das mulheres a partir do início do climatério. Segundo Lisbôa (2000), em
pesquisa realizada com 302 mulheres na cidade de Passo Fundo (RS), com idades entre 35 e 55
anos, acerca dos sintomas e queixas com maior prevalência, foi constatada a seguinte ocorrência: fogachos (29,5%), sudorese noturna (18,8%), ressecamento vaginal (20,7%), irritabilidade
(64,1%), diminuição da memória (58,1%), cefaléia (57,0%), depressão (43,6%) e insônia (38,7%).
publicação eletrônica: http://www.ims.uerj.br/sesc
Palavras-chave: mulher; corpo; hormônio; medicalização.
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
CONCLUSÃO
Como conseqüência da inserção da mulher no período do climatério em uma
categoria de risco, observa-se a formação de um novo e lucrativo mercado consumidor
para as indústrias farmacêuticas. Esse mercado se estrutura paulatinamente por meio
da preconização da TRH pelos médicos ginecologistas.
Tal estratégia faz com que, na maior parte das vezes, a mulher no climatério se
transforme em um receptor passivo de conhecimento, sem ter acesso a informações
não tendenciosas que possam habilitá-la a realizar escolhas conscientes quanto a seu
próprio corpo.
A TRH contribui para reforçar a imagem do climatério como uma fase
patológica, que define a mulher como sendo cada vez menos feminina em função das
quedas nos níveis de estrogênio. Constata-se uma ênfase na questão do controle, da
vigilância e da medicalização por meio de um discurso construtor de patologia sobre
um processo fisiológico feminino.
17
FOUCAULT, M. História da Sexualidade I: a vontade de saber. Rio de Janeiro:
Graal, 1985.
HARDING, J. Bodies at risk – sex, surveillance and hormone replacement therapy.
In: PETERSEN, A.; BUTTON, R. (Orgs). Foucault: health and medicine. London:
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publicação eletrônica: http://www.ims.uerj.br/sesc
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Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
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Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2000.
18
UM DEBATE SOBRE A MEDICALIZAÇÃO DA
SEXUALIDADE: AS DISFUNÇÕES SEXUAIS
FEMININAS
MESTRANDA: LIVI FARO*
ORIENTADORA: JANE RUSSO
LIVIFARO@GMAIL. COM
publicação eletrônica: http://www.ims.uerj.br/sesc
* LIVI FARO
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
A medicalização da sexualidade feminina ganhou novos contornos a partir do
final dos anos 1990. Após o sucesso de vendas do Viagra, medicamento dedicado ao
tratamento da “disfunção erétil” lançado em 1998, houve rápida proliferação de artigos,
livros e encontros sobre as “disfunções sexuais femininas” (DSFs). Esse processo,
amplamente patrocinado pelas indústrias farmacêuticas, difundiu visões naturalizadas
da sexualidade, nas quais as DSFs são vistas principalmente como alterações fisiológicas
que podem ser tratadas com uma droga. A busca por um medicamento similar ao
Viagra destinado às mulheres tem envolvido profissionais de diferentes disciplinas e
gerou intenso debate sobre o envolvimento da indústria farmacêutica na produção
biomédica das DSFs. Esta apresentação terá como objetivo articular resultados parciais
de uma investigação em um periódico científico, o Archives of Sexual Behavior, ao processo
de medicalização das DSFs.
Em 1971, quando o Archives of Sexual Behavior foi fundado, o campo da sexologia,
nos EUA, estava vivendo um momento de florescimento das terapias sexuais,
acompanhado pela efervescência da “revolução sexual” e de movimentos sociais, como
o feminista e o gay. Um ano antes, William Masters (ginecologista) e Virginia Johnson
(psicóloga) haviam publicado o livro Human Sexual Inadequacy, que forneceu um modelo
de terapia sexual baseado nas informações sobre as alterações fisiológicas do
funcionamento sexual, publicadas anteriormente no livro dos mesmos autores, Human
Sexual Response (1966). A pesquisa que originou o Human Sexual Response foi realizada
com observação de comportamentos sexuais em laboratório. O resultado foi a
elaboração de um modelo de resposta sexual universal, composto por quatro fases
psicofisiológicas sucessivas, que iria mudar a dinâmica do campo da sexologia nos
EUA e no mundo. O impacto da terapia sexual para casais, proposta por Masters e
Johnson, é visível nos artigos do Archives of Sexual Behavior.
A influência do trabalho de Masters e Johnson teve duas conseqüências
importantes: de um lado, o favorecimento de uma compreensão psicologizada da
“disfunção sexual” e, de outro, a introdução de um modelo fisiológico da sexualidade.
Ou seja, ainda que os autores tenham afirmado que os fatores psicológicos – como a
19
ansiedade – são determinantes na maior parte dos casos das “disfunções sexuais”, e
que o tratamento adequado é uma terapia sexual de base comportamental, seu trabalho
marcou um alinhamento da sexologia com a medicina (Irvine, 2005). A naturalização
da sexualidade, que passa a ser compreendida como uma “função sexual”, a formulação
de um ciclo da resposta sexual universal e de um modelo de tratamento clínico
supostamente baseado em achados “científicos” favoreceram tal alinhamento.
Enquanto na década de 70 a sexologia foi marcada pela hegemonia do lado “psi”
nas explicações e no tratamento das “disfunções sexuais”, nas décadas de 80 e 90 a
ênfase se deslocou para as temáticas relacionadas à base biológica das “disfunções sexuais”
masculinas. As pesquisas organicistas sobre a “função sexual” se multiplicaram e geraram
modificações nas concepções, no vocabulário e nos tratamentos relacionados às
“disfunções sexuais”. O caso das dificuldades eréteis é emblemático. Desde os anos
30, a impotência era vista, hegemonicamente, como um problema psicogênico. No
final da década de 70, e ao longo da década de 80, há uma mudança nesta visão e
fatores biológicos passam a ser vistos como determinantes na maior parte dos casos
(Giami, 2007). O termo “disfunção erétil” passa a ser utilizado e os tratamentos,
antes basicamente psicológicos, cedem lugar às intervenções cirúrgicas, às injeções
indutoras da ereção e, finalmente, ao tratamento farmacológico pela via oral.
A
PESQUISA
Ano em que o periódico foi fundado.
publicação eletrônica: http://www.ims.uerj.br/sesc
1
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
Foi realizado levantamento no periódico Archives of Sexual Behavior (ASB), com
o objetivo de identificar os artigos relacionados às “disfunções sexuais”, tanto femininas
quanto masculinas. A abordagem biomédica do jornal e sua legitimidade no campo de
estudos da sexualidade o tornam local fecundo para a análise dos impactos da
medicalização da sexualidade na produção científica sobre a sexualidade. O período
pesquisado compreende os artigos publicados entre 19711 e 2007. Os 157 artigos
encontrados foram divididos em quatro grupos: “mulher”, “homem”, “casal” e “mulher
e homem”. O artigo foi incluído na categoria mulher se um “problema sexual” da
mulher fosse o foco do artigo, na categoria homem se um “problema sexual” do homem
fosse o foco do artigo. O artigo foi incluído na categoria “casal” toda vez em que o
parceiro sexual fosse objeto de investigações, fornecesse informações à pesquisa ou
participasse de alguma etapa do tratamento, mesmo que a discussão fosse centrada na
“disfunção”, “problema” ou tratamento do homem ou da mulher, especificadamente.
Os artigos da categoria “casal” foram agrupados segundo a ênfase em problemas
femininos, ênfase nos problemas masculinos ou ênfase não especificada (por exemplo,
o caso do artigo focado no tratamento do casal no qual o homem apresenta “impotência”,
classificado na categoria “casal com ênfase no homem”). Os artigos nos quais tanto
homens quanto mulheres (e não casais) eram o foco da análise foram incluídos na
categoria “homem e mulher”.
Verificou-se uma desproporção do interesse pelas “disfunções sexuais” de homens
e mulheres. Ao longo das quatro décadas, observamos um deslocamento do interesse
20
publicação eletrônica: http://www.ims.uerj.br/sesc
OS ENCONTROS
A proliferação de artigos sobre as DSFs nos anos 2000 relaciona-se aos primeiros
encontros científicos sobre o tema que ocorreram justamente no final da década de
90. Um olhar sobre esses encontros evidencia as relações entre a institucionalização
das DSFs e a produção de medicamentos.
Em 1997, foi realizada uma conferência que teve como tema geral “Sexual
Function Assessment in Clinical Trials”. O objetivo do encontro foi “fomentar a colaboração
entre pesquisadores da sexualidade e os laboratórios farmacêuticos” (Moynihan, 2003).
Essa conferência é apontada como um divisor de águas na história da DSF (Tiefer,
2006), por ter promovido a formalização das relações entre profissionais atuantes na
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
na terapia sexual para casais, típico dos anos 1970, para um interesse nos “problemas”
dos homens, nas décadas de 80 e 90. A partir do ano 2000, há novo deslocamento,
desta vez para os “problemas sexuais” femininos.
Na década de 70, a maioria dos dez artigos classificados nas categorias “mulher”
e “casal com ênfase na mulher” está relacionada ao tratamento sobretudo da disfunção
orgástica. O tipo de tratamento oferecido é na maior parte dos artigos baseado na
terapia sexual para casais de Masters e Johnson. Nos anos 80, foram encontrados sete
artigos classificados nas categorias “mulher” e “casal com ênfase na mulher”. Este
número diminuiu com relação aos artigos da década de 70, embora tenham sido
publicados mais artigos sobre “disfunções sexuais” em 80. Esta diminuição ocorre
paralelamente ao aumento de artigos sobre os homens (de 7 na década de 70, para 22
na década seguinte) e a queda dos artigos sobre o casal (de 17 na década de 70, para 12
na década seguinte). Além da questão do tratamento de casais nos quais a mulher
apresenta “disfunção orgástica”, presente em dois dos sete artigos, destaca-se o
aparecimento da categoria “desejo sexual inibido” que é tema de um dos artigos. Na
década de 90, há apenas quatro artigos classificados nas categorias “mulher” e “casal
com ênfase na mulher”. Dois artigos relacionam-se à dificuldades em atingir o orgasmo.
Destaca-se o aparecimento, pela primeira vez, de um artigo dedicado ao estudo da
fisiologia de “mulheres disfuncionais”, com ênfase nos “padrões de excitação”. A virada
do milênio foi acompanhada de uma explosão de artigos sobre as DSFs. Passou-se dos
modestos quatro artigos publicados na década anterior para 39 artigos, havendo ainda
possibilidades de esse número aumentar até 2009. Há intenso debate sobre o
diagnóstico da “dispareunia”, condição que havia recebido pouca atenção no século
XX. Há um número dedicado ao tema, no qual um artigo recebeu 21 comentários,
de diversos autores. Além destes 22 artigos, há outros três sobre “dispareunia” ou
“dor na relação sexual”. Há também um número dedicado à sexualidade feminina,
que inclui cinso artigos sobre “disfunções sexuais”, outros cinco artigos sobre
“sexualidade feminina” ou “função sexual feminina” e ainda, um editorial intitulado
“Guest Editors’ Introduction: Female Sexuality and Sexual Dysfunction”, escrito por Irwin
Goldstein e Raymond C. Rosen. Pela primeira vez aparecem relatos de pesquisas
sobre tratamentos medicamentosos para mulheres (2 artigos) e sobre o papel de
aspectos cerebrais na etiologia das DSFs.
21
2
Em inglês overmedicalization.
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CONSIDERAÇÕES FINAIS
O aumento abrupto de artigos sobre as DSFs a partir dos anos 2000 evidencia
o papel dos periódicos científicos no processo de medicalização de uma condição ou
comportamento. Pesquisadores passam a desempenhar o papel de mediadores entre
os produtores – laboratórios – e os consumidores – médicos e pacientes (Fishman,
2004). Esta equação torna as fronteiras entre a produção de conhecimentos biomédicos
e o marketing de tecnologias farmacológicas pouco claras.
Diversos autores têm denunciado o que chamam de “excesso de medicalização”2
dos comportamentos sexuais femininos vistos como problemáticos. Eles sublinham
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
esfera da sexualidade e a indústria farmacêutica. Raymond Rosen, que presidiu o
encontro, informa que os laboratórios farmacêuticos patrocinaram o evento e que
apenas investigadores com experiência ou com especial interesse em trabalhar em
colaboração com a indústria farmacológica foram convidados (Moynihan, 2003). As
discussões e apresentações do encontro foram publicadas no ano seguinte em número
suplementar do International Journal of Impotence.
Em outubro de 1998, foi realizado o International consensus development conference
on female sexual dysfuntion: definitions and classifications, promovido pela American Foundation
for Urologic Disease, em Boston. O encontro foi realizado a portas fechadas e teve
como objetivo a definição conceitual das DSFs. A publicação dos resultados do consenso
teve apoio de oito companhias farmacêuticas. Dezoito dos 19 autores da nova definição
eram diretamente relacionados com os laboratórios farmacológicos (ibidem). Os
resultados serviram de base para a revisão do manual psiquiátrico publicado pela
Associação Americana de Psiquiatria (APA), o DSM-IV. Em 1998 ainda, foi criado o
Female Sexual Function Forum (FSFF).
Em 1999, foi realizado o encontro Perspectives in the management of female sexual
dysfunction, realizado na Escola de Medicina da Universidade de Boston. Desta vez, 16
laboratórios farmacêuticos financiaram o encontro (ibidem). No mesmo ano, aconteceu
o segundo encontro do Female Sexual Function Forum (Rosen & Goldestein, 2002).
Algumas das apresentações deste encontro foram publicadas no número especial do
periódico Archives of Sexual Behavior, dedicado à sexualidade feminina, em 2002.
Esses encontros continuam sendo realizados anualmente. Além disso, a indústria
farmacêutica também financia programas de educação médica continuada sobre as
“disfunções sexuais” (Fishman, 2004). Ao mesmo tempo, diversos produtos foram (na
verdade estão sendo ainda) desenvolvidos pelos laboratórios farmacêuticos para tratar
as DSFs. Sprays, cremes, estimuladores de clitóris (o EROS-CTD já foi aprovado pela
FDA) e medicamentos estão no cardápio testado pelas companhias farmacêuticas. O
laboratório Procter & Gamble lançou recentemente, na Europa, o Intrinsa, um
medicamento à base de testosterona, indicado para o tratamento do “Transtorno do
Desejo Sexual Hipoativo” de mulheres que retiraram os ovários ou o útero.
22
que esta leitura pode levar a um reducionismo biológico e tornar elementos que
muitas vezes são determinantes na experiência dos problemas sexuais femininos a
serem excluídos das análises, como por exemplo, aspectos das relações interpessoais,
diferenças de gênero ou questões relacionadas ao contexto cultural3.
Neste contexto, aponta-se a conveniência de investigações críticas sobre a
produção de visões organicistas das DSFs e suas conseqüências. Tais trabalhos podem
servir como resistências às tendências de medicalização da sexualidade feminina que
estejam mais comprometidas com os rentáveis produtos dos laboratórios farmacêuticos
do que com o sofrimento das mulheres e as possibilidades de acolhimento deste
sofrimento pelos profissionais de saúde.
Palavras-chave: medicalização; sexualidade; disfunção sexual feminina; gênero.
Referências
FISHMAN, J. Manufacturing desire: the commodification of female sexual
dysfunction. Social Studies of Science,v. 34, n. 2, 2004.
GIAMI, A. Permanência das representações do gênero em sexologia: as inovações
científica e médica comprometidas pelos estereótipos de gênero. Physis-Revista de
Saúde Coletiva, v. 17, n. 2, 2007.
MOYNIHAN, R. The making of a disease: female sexual dysfunction. British Medical
Journal, v. 326, p. 45-47, 2003.
TIEFER, L. The Viagra Phenomenon. Sexualities, v. 9, n. 3, p. 273-294, 2006.
publicação eletrônica: http://www.ims.uerj.br/sesc
ROSEN, R.; GOLDESTEIN, I. Guest Editors’ introduction: female sexuality and
sexual dysfunction. Archives of Sexual Behavior, v. 31, n. 5, 2002.
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
IRVINE, J. Disorders of desire: sexuality and gender in modern sexology. Philadelphia:
Temple University Press, 2005.
23
3
No ano 2000, um grupo de clínicos e cientistas sociais organizou uma campanha denominada “A
New View of Women’s Sexual Problems”: “The goal of the New View Campaign is to expose
biased research and promotional methods that serve corporate profit rather than people’s pleasure and satisfaction. The Campaign challenges all views that reduce sexual experience to genital
biology and thereby ignore that many dimensions of real life.” (http://www.fsd-alert.org, consultado em 20 de outubro de 2007).
PERFORMANCES DE GÊNERO NO LADIES’ CLUB
DOUTORANDA: MARION ARENT*
ORIENTADOR: SÉRGIO LUÍS CARRARA
FOMENTO: CAPES
[email protected]
publicação eletrônica: http://www.ims.uerj.br/sesc
* MARION ARENT
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
No Ladies’ Club, festa que ocorre três vezes por semana num clube noturno
localizado no centro da cidade do Rio de Janeiro, rapazes de corpos hipertrofiados
fazem strip-tease para uma platéia feminina que com eles interage subindo ao palco e
encenando práticas sexuais diversas, calcadas em representações de sexo oral, anal,
grupal, sadomasoquismo etc. O show consiste no strip-tease de três (nas segundas-feiras),
quatro (nas terças e quartas-feiras), ou seis rapazes (nas “Noites do Beijo na Boca”,
sempre na última terça-feira de cada mês), denominados sedutores, que no total perfazem
um grupo flutuante composto por doze sujeitos. Após tocar o “hino” da festa, como é
anunciada a música It´s Raining Men, os sedutores fazem shows individuais, trajando
fantasias tais como bandido, mafioso, malandro, diabo, sadomasoquista, mecânico,
bombeiro, executivo, médico, oficial das forças armadas, policial militar, guardacostas, lutador de vale-tudo, ninja, árabe, cigano, noivo, Don Juan, Zorro e Fantasma
da Ópera. Nesses shows eles dançam no palco, tiram a roupa (sem mostrar os genitais)
e, principalmente, encenam variadas posições sexuais com mulheres do público que
manifestam explicitamente o desejo de serem “escolhidas” a subir ao palco, aspecto
que diferencia este espetáculo de outros de que tenho conhecimento, onde a divisão
palco / platéia é bem delimitada.
O fato de algumas mulheres da platéia subirem ao palco (invariavelmente
mais de uma em cada número) implica que não apenas os sedutores encenem papéis ali,
como também essas mulheres. Segundo a freqüentadora Vanessa, “são elas que fazem
o jeito erótico do show”. O sedutor Pablo afirmou que “a animação do show depende
em parte da mulher que sobe no palco”. A “fome de sexo” é o atributo mais realçado
nelas, como denota a fala do apresentador, ao microfone: “Essa gosta muito...!”, buscando
enfatizar a voracidade sexual feminina, assim reforçando a imagem de virilidade
masculina, pois só um homem muito viril pode saciar tamanha fome.
Atendendo a esta construção imagética do intenso apetite sexual feminino, a
performance dos sedutores nos shows consta de pouca dança, praticamente nenhuma
coreografia e muita encenação de práticas heterossexuais, nas quais a cópula é executada
de modo “acrobático”, evidenciando uma força física já vislumbrada na forma de seus
24
publicação eletrônica: http://www.ims.uerj.br/sesc
Palavras-chave: corpo; gênero; performances; scripts sexuais; strip-tease.
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
músculos bastante hipertrofiados. A encenação da heterossexualidade normativa advém
da ostentação, por parte dos sedutores, de uma atitude viril, sustentada
majoritariamente pelo controle corporal (evitar “rebolar”), pela postura ativa nas
encenações das performances sexuais e pelos personagens incorporados, alguns deles
com forte apelo pelo poder, como é o caso dos oficiais das forças armadas, do policial,
do médico e do executivo.
Apesar da inversão das performances tradicionais de gênero, dado que corpos
masculinos são oferecidos ao consumo feminino, a masculinidade dos sedutores é
preservada, sustentada pelas técnicas corporais e pelos scripts sexuais representados
no palco. Como no caso estudado por Hanna (1999, p. 321, grifos meus), o “espetáculo
de strip-tease masculino para mulheres parece, em seu aspecto exterior, uma inversão
de papel do roteiro da mulher como objeto sexual passivo e do homem como
consumidor e dominante sexual”. Ao contrário desta aparência, “o espetáculo masculino,
profundamente incrustado na hierarquia dos papéis sexuais, reencena e preserva a
dominação masculina” (idem, p. 322). Vigoram as regras de gênero tradicionais,
sustentadas principalmente pela dicotomia ativo / masculino e passivo / feminino,
sempre preservada. Neste negócio do desejo, “a inversão ou transcendência da função
de papel sexual é um tanto ilusória” (idem, p. 323).
Terminado o show, tem início uma festa na qual casais heterossexuais dançam,
se beijam e se tocam sensualmente, numa sucessiva troca de pares que caracteriza
uma orgia denominada, na linguagem êmica, como “pegação”. Sexualidade e afeto
figuram dissociados nessas interações, cujo forte componente erótico é legitimado no
discurso dos agentes mediante a intensa estimulação prévia a que as mulheres foram
submetidas, tanto pelo show quanto pela ingestão de bebida alcoólica, parcialmente
disponibilizada para consumo gratuito durante o tempo do espetáculo.
Observações participantes e entrevistas em profundidade subsidiaram a
constatação de que, mesmo num contexto no qual ocorrem importantes transgressões
nas relações de gênero, as regras de gênero tradicionais permanecem preservadas,
sustentadas principalmente pela idéia de que as mulheres dependem de múltiplos
estímulos para desejar ou fazer algo a que os homens supostamente estariam sempre
dispostos e disponíveis.
Concordo com Andréa Moraes Alves (2004), para quem o ritual e a festa são
veículos de expressão que sempre dizem algo sobre as relações sociais e as sociedades
em que ocorrem. Semelhante aos bailes direcionados ao público da terceira idade na
cidade do Rio de Janeiro analisados pela pesquisadora, no LC acontece um jogo, aquele
das relações intergêneros, onde “o exercício do jogo da sedução e o empenho na
apresentação do corpo através da performance são elementos que remetem à
competição entre os sexos” (Alves, 2004, p. 55). No caso do LC, esta competição
coloca em circulação múltiplas trocas entre diversos capitais simbólicos e constitui
um campo fértil para a articulação entre gênero, sexualidade, corpo e trabalho,
categorias estas permeadas por complexas relações de poder.
25
Referências
ALVES, A. M. A dama e o cavalheiro: um estudo antropológico sobre envelhecimento,
gênero e sociabilidade. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2004. 151p.
HANNA, J. L. Dança, sexo e gênero: signos de identidade, dominação e desejo. Rio
de Janeiro: Rocco, 1999. 417p.
publicação eletrônica: http://www.ims.uerj.br/sesc
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
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MESA 2
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REFLEXÕES SOBRE
PRÁTICAS EM
INSTITUIÇÕES DE
SAÚDE
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AFETO E INTENSIDADE NA CONSTRUÇÃO DA
EXPERIÊNCIA PSICANALÍTICA:
A CONTRIBUIÇÃO DAS CONSULTAS
TERAPÊUTICAS DE D. WINNICOTT
MESTRANDA: VIVIAN HERINGER PIZZINGA*
ORIENTADORA: MÁRCIA ARÁN
[email protected]
publicação eletrônica: http://www.ims.uerj.br/sesc
* VIVIAN HERINGER PIZZINGA
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
O cotidiano da prática clínica de psicanálise, seja esta realizada no consultório
particular, seja levada a cabo nos variados contextos institucionais, traz impasses que
levam a uma série de questões sobre o processo analítico. Em face de uma miríade de
situações de sofrimento psíquico e dificuldades circunstanciais que se impõem àquele
que trabalha como psicoterapeuta, e diante ainda de uma série de empecilhos que
surgem do próprio fazer analítico inserido em diferentes instituições, é sempre
importante continuar a reflexão a respeito de alguns aspectos que fazem parte do
instrumental teórico e prático do qual nos utilizamos para pensar e conduzir os
atendimentos do dia-a-dia clínico.
Como psicóloga de um município da Baixada Fluminense, pude passar por três
instituições, com dinâmica e funcionamento diferentes entre si, processo este que
intensificou o questionamento sobre a prática clínica. Tais serviços de saúde – um
CAPSad (Centro de Atendimento Psicossocial – álcool e drogas), onde se busca o
trabalho da clínica ampliada e a associação entre os aspectos clínico e social na
intervenção terapêutica (Guerra, 2004); uma unidade básica de saúde, com atendimento
ambulatorial, mas num lugar cuja estrutura física muito deficiente traz transtornos
freqüentes ao atendimento clínico; e um serviço de atendimento especializado (SAE),
em que o trabalho é voltado especificamente para a questão da soropositividade para
o HIV – permitiram uma experiência que poderia ser desdobrada em diversas questões,
que não serão o objetivo do presente trabalho.
O que se busca, aqui, é pensar a experiência psicanalítica a partir de uma
clínica heterodoxa em serviços de saúde. Nestas condições, ao pensar a prática clínica,
cabe perguntar: o que está presente na instituição especializada onde o psicólogo se
insere ou no território desfavorecido econômica e culturalmente onde a prática analítica
é proposta? O que permeia cada uma dessas situações? O que se pode eleger como
sendo fundamental nesta prática, mesmo quando se sabe, como assinala Jurandir Freire
Costa (1989, p. 31-32), que em determinados contextos as distâncias sociais entre o
psicólogo e seu cliente e as diferenças marcantes entre seus respectivos universos de
sentido não podem ser ignoradas? Assim, o que se quer discutir é este encontro entre
28
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Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
aquele que propõe alguma espécie de intervenção psicoterapêutica e aquele que a
busca no lugar de paciente, levando em conta os limites de tal encontro e sua viabilidade
em instituições de saúde diversas. Tal encontro pode não ter a extensão de uma
psicoterapia mais prolongada, mas traz a possibilidade de intervenção que gere
mobilidade psíquica, mesmo que através de um contato mais pontual, como no caso
das consultas terapêuticas propostas por Winnicott.
Assim, a experiência analítica abrange tanto uma intervenção mais pontual do
analista – o que pode se chamar de consulta terapêutica (Winnicott, 1984) – até o
atendimento ambulatorial mais prolongado. O recurso ao que Winnicott denominou
de consulta terapêutica pode ser útil para pensar a intervenção analítica em
determinadas instituições públicas, com regras institucionais que muitas vezes
dificultam o trabalho, podendo ser algo de que se lança mão em situações “difíceis”.
Este pode ser o caso de alguns atendimentos ofertados àquela pessoa que acaba de se
tornar paciente de um tratamento de HIV/Aids, logo após a notícia de que seu exame
é positivo, por exemplo. Em seu caso,Winnicott dirigia a prática da consulta terapêutica
ao seu trabalho clínico em psiquiatria infantil, tendo percebido a não-utilidade ou
viabilidade da prescrição de tratamento psicanalítico nos moldes clássicos para cada
criança encaminhada. A consulta terapêutica permitia explorar integralmente a
primeira entrevista, podendo se estender a duas ou três sessões, porém não mais que
isso. Assim, em suas palavras, “o tipo de trabalho que descrevo (...) [consultas
terapêuticas] tem uma importância que a psicanálise não possui ao atingir a necessidade
e pressão sociais nas clínicas” (1984, p. 10 – grifo do autor).
O recurso à consulta terapêutica não significa dizer que o tratamento
psicanalítico habitual não tenha valor e importância, ou mesmo que esse tipo de
procedimento deve ser aplicado em todos os casos. Dessa forma, Winnicott alerta
que tal procedimento deve ser contra-indicado em algumas ocasiões, como quando a
criança não possui em seu meio familiar um “ambiente desejável médio” para que
possa “encontrar e utilizar as mudanças que ocorrem (...) durante a entrevista (...)”
(op. cit., p. 13). Aqui, a melhor indicação seria, de fato, a psicoterapia.
Embora as consultas terapêuticas não abarquem “todos os problemas de
transferência e resistência” que são encontrados no processo habitual de análise (dado
que se limitam a poucos atendimentos e, às vezes, só ao primeiro), a questão da
relação estabelecida entre o psicoterapeuta e seu paciente tem aqui relevância: os
casos que Winnicott relata se dão em torno da ‘técnica’ do Jogo dos Rabiscos, sendo
ela “simplesmente um meio de entrar em contato com as crianças” (op. cit., p. 11).
Neste sentido, para o autor, a consulta terapêutica pode ser um meio eficaz de oferecer
à criança a confiança de que ela pode ser compreendida. Por outro lado, nada impede
que se torne, posteriormente, um tratamento mais prolongado, tendo a possibilidade,
portanto, de ser também um prelúdio à psicoterapia.
Como é possível ver, na relação que se estabelece no tipo de trabalho que
Winnicott procurou desenvolver com crianças, o elemento de confiança era fundamental
e seu objetivo era também a compreensão mútua. Assim, a retomada de algumas
idéias fundamentais sobre a prática clínica, desenvolvidas por Ferenczi, torna-se
29
publicação eletrônica: http://www.ims.uerj.br/sesc
Palavras-chave: consulta terapêutica; tato; manejo.
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
essencial, dado que a defesa da sinceridade entre os dois personagens da cena analítica
e a importância da confiança no caminho da cura são elementos fundamentais de todo
o processo. Quando se acompanha o relato dos casos atendidos por Winnicott, é possível
perceber claramente que sua intenção, ao desenvolver o jogo dos rabiscos, era muito
mais seguir o processo da criança do que impor a ela um tratamento e conclusões
teóricas traduzidas em interpretações argutas. Dessa maneira, no atendimento da paciente
Ada (8 anos), primeiro caso relatado na seção dedicada às consultas de crianças com
tendências anti-sociais ligadas ao furto, Winnicott aponta um critério importante para
pensar em termos de consulta terapêutica: a paciente morava “muito distante para que
eu pudesse pensar em termos de tratamento” e assim agiu “baseado na necessidade de
fazer todo o possível na primeira consulta psicoterapêutica” (Winnicott, 1984, p. 233).
O critério escolhido por Winnicott é muito comum no caso das instituições
brasileiras, onde a escassez de serviços de saúde em regiões periféricas das cidades
faz com que haja uma demanda crescente nos poucos serviços localizados nas regiões
centrais e mais favorecidas da maioria das cidades brasileiras. Desse modo, pensar a
consulta terapêutica no âmbito da saúde pública é expandir a possibilidade de construção
da experiência psicanalítica, mesmo que se possa adaptar o trabalho do autor aqui
estudado. Nestas circunstâncias, se ele procurava limitar as sessões a um máximo de
três, muitas vezes restringindo-se à primeira entrevista e sua máxima exploração,
não se pode deixar de pensar que talvez ele tivesse mais tempo para se dedicar às
primeiras entrevistas, fato que muitas vezes não ocorre nos serviços de psicoterapia
oferecidos em ambulatórios públicos brasileiros, uma vez que a demanda é grande.
Pensar a priori um número definido de sessões para cada caso torna o atendimento
rígido de antemão e transforma o trabalho em uma técnica. Cabe enfatizar que
Winnicott assinalava que a consulta terapêutica constituía-se em “um intercâmbio
mais livre entre o terapeuta e o paciente” (op. cit., p. 9), não sendo exatamente uma
técnica. A noção de técnica traz embutida a idéia de que há um modelo a ser seguido
e passos a serem cumpridos, o que parece incompatível com a singularidade de cada
pessoa, cada história de sofrimento e cada contexto de atendimento. Além disso, é
possível pensar esse tipo de atendimento expandindo-o para adultos e aumentando o
número de sessões, conforme a necessidade, isto é, levando em consideração, em
primeiro lugar, a singularidade de cada paciente.
O que se deve ressaltar é o fato de que a relação entre paciente e analista e o
trânsito de afetos aí envolvido, com especial ênfase para a questão da confiança, são
elementos fundamentais, presentes nos mais diversos contextos onde se pode pensar
a construção do dispositivo psicanalítico, inclusive a consulta terapêutica. A clínica
heterodoxa de Sándor Ferenczi (1993), principalmente a noção de tato e suas críticas
ao lugar do analista – concebido de modo rígido e presunçoso – e as contribuições
teóricas e clínicas de D. Winnicott, sobretudo no que tange às idéias sobre o manejo
e o contexto clínico, serão a matriz teórica para o exame da viabilidade da contribuição
psicanalítica em instituições públicas de saúde.
30
Referências
COSTA, J. F. Psicanálise e contexto cultural: imaginário psicanalítico, grupos e
psicoterapias. Rio de Janeiro: Campus, 1989.
FÉRENCZI, S. Elasticidade da técnica analítica. In: ______. Escritos psicanalíticos –
1909-1933. Rio de Janeiro: Taurus, 1928.
GUERRA, A. M. C. Oficinas em Saúde Mental: percurso de uma história,
fundamentos de uma prática. In: COSTA, C. M.; FIGUEIREDO, A. C. Oficinas
terapêuticas em saúde mental: sujeito, produção e cidadania. Rio de Janeiro: Contracapa
Livraria, 2004.
MAIA, M. S. Extremos da alma: dor e trauma na atualidade e clínica psicanalítica.
Rio de Janeiro: Garamond, 2003.
WINNICOTT, D. W. Consultas terapêuticas em psiquiatria infantil. Rio de Janeiro:
Imago, 1984.
publicação eletrônica: http://www.ims.uerj.br/sesc
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
31
PSICANÁLISE E PRÁTICAS EM SAÚDE
MATERNO-INFANTIL
MESTRANDA: MARIANA BTESHE*
ORIENTADORA: MÁRCIA ARÁN
FOMENTO: CAPES
1
MARIANABTESHE@YAHOO. COM.BR
ADOTAREMOS A DEFINIÇÃO DE PERINATALIDADE PROPOSTA PELA PSIQUIATRIA PERINATAL, QUE AO RECONHECER A IMPORTÂNCIA
DAS PRIMEIRAS RELAÇÕES, PROPÕE UMA CONTINUIDADE NA ASSISTÊNCIA ENTRE O PRÉ-PARTO E OS PRIMEIROS ANOS DE VIDA DO
BEBÊ. EM MEDICINA, TRADICIONALMENTE, O ATENDIMENTO PERINATAL VAI DA GESTAÇÃO À PRIMEIRA SEMANA DE VIDA DO BEBÊ
(GIRADE CORRÊA ET AL., 2002). CONTUDO, NA PRÁTICA CLÍNICA JÁ PODEMOS OBSERVAR QUE AS CONSULTAS MÉDICAS DO
RECÉM-NASCIDO DE ALTO RISCO JÁ ACOMPANHAM A FAMÍLIA ATÉ OS 36 MESES DE IDADE DO BEBÊ.
publicação eletrônica: http://www.ims.uerj.br/sesc
* MARIANA BTESHE
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
O presente trabalho é uma reflexão teórica sobre uma experiência clínicoinstitucional no Núcleo Perinatal da UERJ. Vivência que suscitou um questionamento
quanto às possíveis articulações da práxis psicanalítica à atenção na perinatalidade,
mais precisamente no período entre a concepção e os 36 meses de vida da criança1.
Com a finalidade de analisar novas formas de cuidado terapêutico direcionadas para
este momento, proponho uma discussão acerca da entrada da psicanálise nas práticas
em saúde materno-infantil.
No cotidiano hospitalar, o psicólogo é chamado para lidar com as mais variadas
situações que escapam aos limites assimiláveis pelo serviço de saúde, aquelas que
incomodam a equipe, por colocar à prova todo seu arsenal terapêutico. São os casos
em que uma puérpera se recusa a se alimentar após um parto prematuro; ou em que
uma mulher se nega a iniciar um tratamento de quimioterapia para poder acompanhar
de perto a internação da filha na unidade intensiva neonatal. Ou ainda, em que um
recém-nascido não ganha peso, apesar de todos os esforços dedicados durante sua
internação. Impasses são colocados entre pais, bebê e equipe. O profissional “psi” é
assim convidado a atuar de forma quase onipresente num momento emergencial em
que a saúde dos pacientes é posta em xeque e interfere diretamente no tratamento.
Pensar na operacionalidade da psicanálise num ambiente em que a demanda
inicial de trabalho quase sempre se resume a agenciar comportamentos é, por si só,
uma questão espinhosa, uma vez que, em oposição aos modelos e saberes normativos,
sua ética trata “muito mais de uma disposição ao convívio acolhedor, nem por isso
tranqüilo, com o inesperado e o irredutível, que caracteriza a alteridade, do que da
formulação de regras prescritivas” (Figueiredo, 2000, p. 7).
A hipótese freudiana do inconsciente, que inaugurou a atuação analítica, versa
justamente sobre a possibilidade de acolher o contingente e o insabido. Entretanto,
diante dos enigmas clínicos com as quais nos deparamos, o ato de conceber a posição
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publicação eletrônica: http://www.ims.uerj.br/sesc
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
do psicanalista nesse campo parece muito mais próximo de uma idéia inquietante do
que de uma impossibilidade. O que se pode oferecer frente à urgência subjetiva e ao
desamparo inevitavelmente evidenciados numa instituição de saúde, senão ajudar as
pessoas a lidar da melhor maneira possível com seu sofrimento?
O que está implicado nessa proposta é o permanente liame que a psicanálise
se vê convidada a realizar com outros saberes. Se reconhecer as fronteiras inevitáveis
entre os diferentes domínios faz parte da condição necessária ao fazer psicanalítico
numa instituição, também é inegável que um espaço de indagação sobre o modelo
clínico tradicional se abre. Assim, me pergunto: como delinear a borda de um
espaço terapêutico de acolhimento e de fala na atenção à perinatalidade sem cair
numa mera ortopedia “psi”?
Além do risco orgânico, outras formas de padecimento desafiam diariamente a
equipe e a dinâmica do serviço. Deparamo-nos com pais desesperançados diante de
uma malformação fetal, mesmo quando todos os profissionais apostam na recuperação
daquela criança; ademais, encontramos uma equipe em polvorosa quando uma mulher
escolhe levar adiante uma gravidez que coloca sua vida em risco.
O que me parece significativo são as inúmeras configurações de sofrimento
subjetivo que se apresentam e fogem não apenas ao âmbito do discurso médico e das
práticas educativas em saúde, como também ao modelo clínico tradicional centrado
na interioridade do sujeito. Cabe lembrar que falamos de um campo de alta
complexidade médica, onde nascimento e ameaça de morte se confundem e a
diversidade dos afetos toma não apenas o corpo a ser cuidado como os seus cuidadores.
Aqui é preciso sublinhar que lidamos com situações clínicas bastante específicas,
delimitadas pelo espaço de uma unidade de saúde terciária de alta complexidade,
referência na rede de saúde materno-infantil. Esta funciona de maneira integrada ao
Hospital Universitário Pedro Ernesto e, portanto, está voltada não apenas para a
assistência como também para o ensino e a produção científica. Outra especificidade
do serviço se deve ao fato de o cuidado ser voltado para os casos ditos de alto risco,
aqueles que “por terem características específicas, ou por sofrerem algum agravo,
apresentam maiores probabilidades de evolução desfavorável, tanto para o feto como
para a mãe” (Brasil, 2000, p. 4). Nesses termos, é recomendado um atendimento mais
detalhado e multiprofissional.
É notório que o campo da perinatalidade, que era reservado às esferas médicas
da ginecologia-obstetrícia e da pediatria, apenas recentemente teve seus limites
ampliados, sobretudo na medida em que a díade cuidador-bebê se tornou foco de
interesse. O exame da lógica da relação acaba por criar um espaço ainda mais novo de
investigação que tem se afirmado como um terreno polifatorial e propício para ações
multidisciplinares. A atenção integrada no período perinatal delineia-se, assim, no
Brasil, como um novo campo de trabalho onde conceitos e práticas ainda se definem
(Corrêa Filho et al., 2002).
Devido às inúmeras inovações tecnológicas e maior domínio sobre uma série
de informações fisiológicas, surgem também cada vez mais oportunidades de antecipar
e diagnosticar vários problemas ainda neste período. Uma série de medidas, algumas
33
bastante simples, podem ser tomadas, diminuindo consideravelmente o risco. Mesmo
em um serviço de saúde pública, a atenção oferecida para essas gestantes se diferencia
daquela de baixo risco em número de consultas pré-natais e formato da equipe que ali
atua. Assim, além dos médicos especialistas e enfermeiros, na equipe de rotina do
Núcleo Perinatal, contamos com nutricionistas, fisioterapeutas, assistentes sociais,
psicólogos e fonoaudiólogos. Todos esses são lotados no serviço, para que idealmente
participem dos cuidados diários e das decisões terapêuticas, em vez de apenas
responderem aos pareceres de terceiros, estando fora do setor. O contato diário com os
pacientes, e também entre a equipe, sem dúvida facilita a interação no caso de decisões
que envolvam mais de um profissional, mas nem por isso esta é menos conflituosa.
Não pretendo aqui fomentar e nem apaziguar os impasses que surgem entre os
diferentes campos que se cruzam na assistência materno-infantil; ao invés, intento
estudar os efeitos da oferta de um cuidado híbrido, isto é, calcado numa rede de
atenção tecida a partir de diferentes olhares. Para tanto, ilustraremos, ao longo do
trabalho, os questionamentos éticos e clínicos trazidos por essa proposta, através da
descrição de recortes clínicos.
Palavras-chave: saúde materno-infantil; integralidade; cuidado; psicanálise.
Referências
COELHO JUNIOR, N. Ética e Técnica em Psicanálise. São Paulo: Escuta, 2000.
FIGUEIREDO, L. C. Presença, implicação e reserva. In: FIGUEIREDO, L. C.;
GIRADE CORRÊA, M. et al. Saúde e educação a partir do nascimento ou antes?
Brasília: LGE, 2002.
MACIEL JUNIOR, A.; KUPERMANN, D. Sobre o plano de composição da clínica.
In: MACIEL JUNIOR, A., KUPERMANN, D.; TEDESCO, S. (Orgs). Polifonias:
clínica, política e criação. Rio de Janeiro: Contracapa, 2005.
publicação eletrônica: http://www.ims.uerj.br/sesc
CORRÊA FILHO, L. Definições e conceitos básicos em neonatologia e perinatologia.
In: CORRÊA FILHO, L.; GIRADE CORRÊA, M.; FRANÇA, P. (Orgs.). Novos
olhares sobre a gestação e a criança até os 3 anos: saúde perinatal, educação e
desenvolvimento do bebê. Brasília: LGE, 2002.
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
BRASIL. Gestação de alto risco: manual técnico. Brasília: Ministério da Saúde, 2000.
34
A INTEGRALIDADE DO CUIDADO E A
PATERNIDADE: A BUSCA DA ALTERIDADE NO
CONTEXTO DA UNIDADE DE TERAPIA
INTENSIVA NEONATAL
DOUTORANDA: TATIANA COELHO LOPES*
ORIENTADORA: ROSENI PINHEIRO
FOMENTO: FAPERJ
[email protected]. BR
publicação eletrônica: http://www.ims.uerj.br/sesc
* TATIANA COELHO LOPES
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
No que concerne ao papel do pai no cuidado do recém-nascido internado,
verifica-se que, se há uma produção significativa sobre a temática da maternidade e
da família, pouco foi produzido sobre paternidade no Brasil. Rodrigues & Trindade
(1999) ressaltam que nos estudos sobre psicologia do desenvolvimento das décadas de
1960 e 1970, o pai é praticamente excluído, sendo a relação mãe-filho privilegiada
como responsável pelo desenvolvimento sadio da criança. Os estudos sobre essa
temática só ganham relevância a partir da década de 1970, quando mudam o foco de
análise e a importância do pai na relação com o filho se torna evidente. Verifica-se
que, na nossa sociedade, a dimensão econômica da paternidade é socialmente
reconhecida e valorizada. Assim, a divisão sexual do trabalho – como decorrente
dessa naturalização – acaba por vincular as atribuições sociais das mulheres em função
da sua capacidade reprodutiva. Em contrapartida, a paternidade não é formulada a
partir da participação do homem no processo reprodutivo e a função definida socialmente
para o pai tem sido de garantir e possibilitar a maternidade (Strathern, 1995).
Contudo, observa-se que mudanças sociais, tais como o ingresso da mulher no
mercado de trabalho e as novas tecnologias reprodutivas, têm impactado na
renegociação do significado da paternidade. Nas relações parentais, a partir da
participação mais efetiva dos homens no cotidiano das famílias, terminologias como
novo pai, a nova paternidade e mesmo um novo homem estão sendo usadas para definir
essas mudanças. Neste contexto, a paternidade é considerada uma oportunidade de
expressar sentimentos, possibilitando ao homem a participação ativa no cuidado com
os filhos que irá se conformar por intermédio do relacionamento que será estabelecido
entre homem/mulher/criança; relacionamento por sua vez mediado por variáveis
como gênero, geração e contexto sociocultural.
As UTINs não têm ficado fora dessas transformações, nas quais a presença da
figura paterna tem sido cada vez mais freqüente. Considerando o gênero como uma
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publicação eletrônica: http://www.ims.uerj.br/sesc
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
categoria relacional que permite compreender ou interpretar uma dinâmica social
que hierarquiza as relações entre o masculino e feminino, as diferenças sobre a
participação da mãe e do pai no cuidado com a criança na UTIN deve ser refletida à
luz de uma discussão que contemple essas questões. Tronchin & Tsunechiro (2006), ao
conduzirem estudo com pais numa UTIN, evidenciaram que os pais apresentaram
manifestações de comportamento que expressam a dificuldade de compartilhar seus
sentimentos, contrariando o que a sociedade deseja do homem, como esperança e
apoio a sua esposa e familiares. Corroborando essas evidências, Lamy (1995), ao estudar
a vivência de mães e pais sobre a internação na UTIN, verificou que, durante as
entrevistas, os homens tinham mais dificuldade de expressar seus sentimentos, apesar
de se mostrarem visivelmente emocionados diante da situação de internação do filho.
Observa-se que ao mesmo tempo em que se criam as possibilidades para um
novo pai, muitas vezes essa nova face da paternidade não é compreendida e nem
estimulada por parte das mulheres e da equipe de profissionais de saúde. Na construção
do cuidado com o recém-nascido, o pai é percebido pela equipe e por suas mulheres
como uma visita para a criança e um apoio para a mulher naquele momento, sem
considerá-lo como um usuário que tem suas demandas e necessidades específicas no
cuidado com o filho. Compondo este cotidiano, verifica-se, também, uma equipe de
assistência composta por diferentes categorias profissionais que, na sua atuação,
sobrepõem ações ou um processo de trabalho que se caracteriza mais como
multidisciplinar do que interdisciplinar, reduzindo a dimensão cuidadora em detrimento
dos núcleos de saberes específicos, acentuando a fragmentação do neonato e a valorização
das tecnologias contidas nos equipamentos e protocolos de condutas clínicas. A discussão
do lugar do pai na perspectiva da integralidade do cuidado neonatal, neste trabalho,
vem afastada da expectativa de que os homens deveriam cuidar dos filhos e permanecer
na instituição, segundo um modelo feminino. Antes, entendendo que este pai soma
um conjunto de valores simbólicos, presente mesmo quando se encontra fisicamente
ausente, mas socialmente considerado fundamental para a organização do cuidado do
recém-nascido e da eqüidade das relações de gênero.
Várias são as possibilidades de atendimento ao recém-nascido e, considerando
sua integralidade, a inclusão do pai se faz necessária. A integralidade como princípio
norteador da assistência possibilita uma leitura ampliada das necessidades de saúde
das pessoas e dos grupos populacionais. Mattos (2001, p. 61) reafirma que a assistência
baseada neste princípio implica “uma recusa aos reducionismos, à objetivação do sujeito
e talvez, uma afirmação da abertura ao diálogo”.
Entender a alteridade como a “natureza ou condição do que é outro, do que é
distinto” e relacionado a situações que “se constituem através de relações de contraste,
distinção e diferença” (Houaiss, 2001, p. 160) implica reconhecer neste contexto
especîfico – a UTIN – que o pai, como usuário, com sua alteridade no cuidado com
seu filho, tensiona o trabalho em equipe. Assim, pensar no reconhecimento da alteridade
do pai pela equipe de saúde configura-se como “um produto de duplo processo de
construção e de exclusão social, que indissoluvelmente ligados como os dois lados
duma mesma folha, mantém sua unidade por meio de um sistema de representações”
36
Referências
HOUAISS, A. Dicionário Houaiss da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.
JODELET, D. A alteridade como processo e produto psicosocial. In: ARRUDA, A.
(Org.). Representando a alteridade. Petrópolis: Vozes, 2002. p. 47-67.
LAMY, Z. C. Estudo das situações vivenciadas por pais de recém-nascidos internados em
Unidade de Terapia Intensiva. Dissertação (Mestrado em Saúde Pública) - Fundação
Oswaldo Cruz, Instituto Fernandes Figueira, Rio de Janeiro, 1995.
publicação eletrônica: http://www.ims.uerj.br/sesc
Palavras-chave: paternidade; unidade de terapia intensiva; trabalho em equipe;
alteridade.
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
(Jodelet, 2002, p. 60). Na verdade, é na face a face da relação do pai, como usuário,
com a equipe de saúde no cotidiano das práticas de cuidado do recém-nascido, que se
torna possível acompanhar os processos de produção da alteridade, considerando-o
interdependente dos sentidos e significados atribuídos pelos atores envolvidos nesta
dinâmica. De acordo com Zanella (2005), a alteridade como uma categoria considera
que a dimensão singular do sujeito é constituída e constituinte do social, e que se
relaciona à dimensão de um outro ou das relações estabelecidas com outros. Dessa
maneira, a alteridade trata de mostrar o outro como diferença, desvendando suas
características e especificidades.
Tronchin & Tsunechiro (2006) verificaram que a percepção do pai em relação à
atuação da equipe demonstrou a importância da atitude clínica dos profissionais, como
um elemento de ajuda na presença paterna nesse contexto. Contudo, observa-se uma
dificuldade/resistência dos profissionais e da instituição de reconhecer a tecnologia
contida neste protagonista e este, como uma extensão do neonato que
conseqüentemente sofre com a alteração da dinâmica familiar.
A busca da integralidade como eixo organizador das práticas de assistência no
Hospital Sofia Feldman, orientada pelo princípio ético-político do direito à vida e do
reconhecimento da cidadania social do usuário, no nosso entendimento, nos permite
pensar de forma crítica e reflexiva as práticas assistenciais e experiência deste serviço,
na perspectiva de reconhecer e incorporar o pai no cuidado do filho. Dessa forma,
torna-se necessário compreender os sentidos e significados atribuídos pelos próprios
pais, pelas mulheres (companheiras e profissionais do serviço) e pela equipe de
saúde, sobre a alteridade do pai como usuário e participante do cuidado do recémnascido na UTIN.
Tendo em vista a escassez de estudos que analisem o processo de trabalho em
equipe e sua relação com os usuários, especificamente em unidades complexas de
cuidado, este trabalho tem como objetivo compreender os sentidos e significados dos
atores envolvidos no cotidiano do cuidado neonatal sobre a alteridade no exercício da
paternidade e suas implicações para o trabalho em equipe.
37
MATTOS, R. A. Os sentidos da integralidade: algumas reflexões acerca de valores que
merecem ser defendidos. In: PINHEIRO, R.; MATTOS, R. (Orgs.). Os sentidos da
integralidade na atenção e no cuidado à saúde. Rio de Janeiro: UERJ-IMS, 2001. p. 39-64.
RODRIGUES, M. M.; TRINDADE, Z. A. Em nome do pai e do filho: relações
afetivas e instrumentais. In: MANEANDRO, Z. A.; TRINDADE, E. B. (Orgs).
Pesquisa em psicologia: recriando métodos. Vitória: Universidade Federal de Vitória,
1999. p. 125-138.
STRATHERN, M. Necessidades de pais, necessidades de mães. Revista de Estudos
Feministas. Rio de Janeiro, v. 3, n. 2, 1995.
TRONCHIN, D.; TSUNECHIRO, M. A. Cuidar e conviver com o filho prematuro: a
experiência do pai. Revista Latino-Americana de Enfermagem, v. 14, n. 1, p. 93-101, 2006.
ZANELLA, A. V. Sujeito e alteridade: reflexões a partir da psicologia históricocultural. Psicologia & Sociedade, v. 17, n. 2, p. 99-104, 2005.
publicação eletrônica: http://www.ims.uerj.br/sesc
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
38
MESA 3
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Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
CONSTRUÇÕES
MIDIÁTICAS
DA
SUBJETIVIDADE
39
REPRESENTAÇÕES SOBRE SEXUALIDADE E
GÊNERO NA MÍDIA: ANÁLISE DE UMA EDIÇÃO
DO PROGRAMA GLOBO REPÓRTER
DOUTORANDA: CLÁUDIA REGINA RIBEIRO*
ORIENTADORA: FABÍOLA ROHDEN
DO JORNALISMO TELEVISIVO: CONSIDERAÇÕES SOBRE A ABORDAGEM
DO TEMA
Parece claro que um programa televisivo só permanece 30 anos no ar se tiver
a credibilidade do público. Para Zanchetta (2004), não é simples equacionar os fatores
que explicam a credibilidade de um telejornal, pois estão atrelados a questões subjetivas,
culturais e conjunturais. Mas pode-se dizer com certeza que, para se manter e ampliar
seu público, exige-se que “o veículo divulgue informações consideradas confiáveis e
corretas por pessoas e comunidades que têm posicionamentos e expectativas diversos”
* CLÁUDIA REGINA RIBEIRO
1
WWW.GLOBO.COM/GLOBOREPORTER
[email protected] .BR
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ESTRATÉGIAS
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
INTRODUÇÃO
Veiculado em horário nobre pela Rede Globo de Televisão, o Programa Globo
Repórter foi criado em 1977 “para suprir uma carência do público de se aprofundar
no conhecimento de assuntos polêmicos ou de interesse geral”, segundo informação
do seu site1. Partindo dessa premissa, a edição do dia 4 de maio de 2007, intitulada
“Um homem e uma mulher: as mais novas descobertas da ciência sobre as diferenças
entre os sexos”, foi ao ar visando a informar ao público sobre a existência ou não
dessas diferenças. Esse não é um assunto inédito na mídia, ao contrário, tem sido
insistentemente abordado na televisão, revistas e jornais nos últimos tempos. E,
assim como quase todas as abordagens feitas até aqui, o programa também localiza
essas diferenças na natureza e confere às ciências biomédicas o poder de descobrir
suas verdadeiras causas.
Parto do pressuposto de que o programa operou como uma pedagogia de
ratificação das idéias essencialistas, ao buscar na natureza explicações para as diferenças
entre homens e mulheres, em detrimento dos aspectos sociais e culturais dessa
construção. As concepções desenvolvidas no programa privilegiam o corpo biológico
– hormônios, cromossomos, genes, órgãos sexuais – na construção do gênero,
reforçando a separação entre sexo e gênero, o modelo binário (Löwy, 2003) e a idéia
de que a abordagem biológica é a mais coerente para tal análise, ratifica a “obviedade”
de que as identidades sexuais não escapam aos corpos.
40
PREPONDERÂNCIA DAS CIÊNCIAS BIOMÉDICAS SOBRE AS CIÊNCIAS SOCIAIS E A PRI-
MAZIA DA NATUREZA DOS CORPOS SOBRE O GÊNERO
Nas falas do repórter não faltaram perguntas e afirmativas que ressaltavam as
diferenças: “Sono demais. Sono de menos. Quem sofre mais: eles ou elas? A ciência tenta descobrir
usando cobaias”. E a todo momento dizia: “afinal, somos mesmo diferentes?” Ressaltando o
poder da ciência sobre o tema, foi enfático:“Será que a época da dominação e da incompreensão
entre os sexos acabou mesmo? A guerra dos sexos já tem vencedor. Não foi o homem.Também não
foi a mulher. A guerra dos sexos foi vencida pela ciência”. Ao que parece, o intuito era
marcar a diferença e para isso qualquer tema seria um bom pretexto. E as diferenças
foram localizadas nos corpos, reforçando a primazia das glândulas, hormônios,
cromossomos, genes, natureza, sobre a cultura e o social na construção de gênero.
A opção epistemológica pelas ciências biomédicas para a discussão desses temas
torna-se legítima na medida em que, a partir do século XIX, a medicina tornou-se o
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A
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
(Zanchetta, 2004, p. 12). Ainda segundo o autor, “longe de existir autonomamente, e
em lugar de ‘retratar’ ou ‘fazer’ a história, a imprensa participa de um intenso jogo
de condicionamentos sociais [...] que a transformam não na realidade ou em uma
armação ardilosa, mas em um cenário histórico marcado por tensões diversas, cujo
resultado é um produto que aparenta representar o mundo sob uma determinada
ordem” (Zanchetta, 2004, p. 14).
Chamo a atenção para o fato de que o programa é atravessado pelo tema “sexo”,
que muitas vezes chega a ser explicitado pelo repórter. Nos últimos anos, essa vem
sendo uma estratégia cada vez mais explícita da mídia, sobretudo da televisão.Tomando
o que coloca Foucault (1997), pode-se dizer que a televisão vem-se tornando instância
de produção de saber, de poder e de discursos sobre sexo, e esse programa é um bom
exemplo disso. Parece claro que o repórter, em alguns momentos, procurou “apimentar”
o programa, tornando-o mais atrativo ao falar de sexo, tema estratégico usado pela
mídia para atrair o público (Fischer, 2001, 2002) sem, no entanto, entrar diretamente
no assunto. Com relação ao tema deste trabalho, Fischer afirma, por exemplo, que há
uma pedagogia no sentido de construir uma “indissociável ligação entre o fato biológico
e a condição de ser mulher, e a idéia de que a feminilidade seria ‘dada’ por um conjunto
de características originadas da condição biológica, como a do ‘mistério feminino’
(relacionado basicamente à possibilidade de ser mãe)” (Fischer, 2001b, p. 95-96).
Ainda segundo essa autora, a televisão tem participação decisiva na formação
das pessoas e na própria constituição do sujeito contemporâneo, tendo “uma intima
relação com a produção de modos de subjetivação na cultura” (Fischer, 2002, p. 154).
Além disso, a “televisão é parte integrante e fundamental de complexos processos de
veiculação e de produção de significados, de sentidos, os quais por sua vez estão
relacionados a modos de ser, modos de pensar, a modos de conhecer o mundo, de se
relacionar com a vida” (idem). A televisão vem desenvolvendo uma estratégia para
afirmar-se como lugar especial de educar e promover a verdade, e a sexualidade tem
sido tema recorrente dessa pedagogia televisiva, articulando de forma lúdica, mas
não menos poderosa, saber e poder no que diz respeito ao tema.
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Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
campo privilegiado para essas discussões, ao configurar-se como a ciência capaz de
fornecer explicações confiáveis, porque comprováveis através do exame dos corpos,
sobre as diferenças entre homens e mulheres (Laqueur, 2001). E, se naquele momento
não se conseguia ir além da superficialidade dos órgãos sexuais, ou dos esqueletos, tecidos
e músculos para se encontrar as diferenças, os cientistas atuais, como os/as convocados/
as pelo programa, vão aos genes, cromossomos e hormônios na busca de sua ratificação.
Assim, entre sete entrevistados/as no programa, apenas duas eram da área das
ciências humanas: uma pedagoga e uma socióloga. Os/as demais eram geneticistas,
neurocientistas, neurologistas, endocrinologistas, biólogas e mesmo um primatologista.
Pode-se dizer que o programa colocou as ciências humanas na periferia dessa discussão,
privilegiando-se as ciências médicas como detentoras do saber e da verdade sobre os
temas referentes às diferenças entre homens e mulheres em diversos aspectos. O
gênero é uma construção da natureza, não da cultura.
A idéia de neutralidade das ciências está implícita em todo o programa, através
dos laboratórios e de estatísticas. Escapa, portanto, à analise feita pelo programa, o
fato de ser a ciência, assim como os cientistas que a produzem, fruto de seu tempo e
condicionada por diversos fatores – sociais, econômicos, institucionais, pessoais etc. –
, o que escapa à idéia de neutralidade (Latour, 2002; Sinding, 2003). Com relação ao
sexo e ao gênero, tomo o que diz Anne Fasto Sterling sobre a arbitrariedade da
ciência. Para a autora, o sexo de um corpo é algo muito complexo e o conhecimento
científico pode ser utilizado para ajudar na definição, “mas só nossas crenças sobre
gênero – e não a ciência – podem definir nosso sexo. Além disso, nossas crenças sobre
o gênero também afetam o tipo de conhecimento que os cientistas produzem sobre o
sexo.” (Fausto-Sterling, 2001, p. 15).
Ao abrir o segundo bloco do programa com a frase “Aprendendo com a natureza”,
o apresentador deixa claro que a força da natureza será tomada para explicar as questões
que vinha tratando. No primeiro bloco essa estratégia se desenvolve explicitamente
a partir da busca de alinhamentos entre o comportamento de homens e mulheres
contemporâneos em suas relações de casal e pais, com os comportamentos de primatas
– machos, fêmeas e filhotes – e dos nossos ancestrais pré-históricos. Mas se mostra
também de forma mais discreta ao longo de todo o programa, quando busca nos
cromossomos, neurônios, hormônios e genes explicações para essas diferenças. A préhistória também é evocada e parte de meras suposições sobre os comportamentos
dos nossos ancestrais para mostrar que temos instinto materno e paterno, ou ratificar
a “vocação” masculina para resolver “tudo no grito”. Esses comportamentos estão
gravados em nossos genes e os carregamos desde as cavernas como resquícios desses
tempos junto à natureza.
O tema dos hormônios é tratado em um dos blocos do programa intitulado:
“Meninos e meninas”, dando o tom da abordagem que seria escolhida para o tema. O
bloco começa mostrando dois bebês num berçário de maternidade e afirma que
aparentemente eles são iguais, mas “Pois é, as aparências enganam. Alguns cientistas acham
que já nascemos com grandes diferenças – e não apenas nos órgãos sexuais.” As diferenças são
estabelecidas pelos hormônios secretados pelo cérebro ainda na barriga da mãe.
42
No começo do século XX, as pesquisas sobre hormônios, ou extratos corporais,
como eram chamados na época, são também atravessadas pela cultura, agora ratificando
o que foi construído no século XIX, a idéia de bipolaridade. Os hormônios começam
a se configurar como elementos fundamentais na construção do gênero a partir dessa
mesma lógica bipolar. O hormônio feminino por excelência, a progesterona, conferiria
à mulher os atributos da calma, docilidade que têm forte ligação com a idéia de
maternidade. E a testosterona, hormônio masculino, conferiria aos homens as
qualidades da força, ímpeto, inclusive sexual, ou seja, da dominação (Sinding, 2003,
Gaudillière, 2003, Löwy, 2003). Porém, mesmo com as descobertas, por exemplo,
da presença de hormônios femininos nos homens e masculinos nas mulheres, que
demonstraria mais a existência de um contínuo entre os dois sexos que colocaria
em questão as “qualidades” masculinas e femininas definidas pelas gônadas, estruturas
anatômicas fixas que amparam a dominação masculina e os lugares sociais, essas
crenças não se desfizeram, preferindo-se duvidar da orientação sexual das pessoas
testadas nas pesquisas do que pôr em questão a idéia de bipolaridade (Sinding, 2003;
Gaudillière, 2003; Löwy, 2003).
Palavras-chave: mídia; gênero; binarismo.
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CONSIDERAÇÕES FINAIS
Se a mídia opera como uma pedagogia, pode-se afirmar que ao se privilegiar as
ciências biológicas para essas discussões, provocou-se uma desvalorização e apagamento
da importância das pesquisas na área social para essas questões junto a seu público, o
que corre paralelamente à supervalorização das ciências biomédicas, além da redução
dessas questões à biologia. Isso também acontece na escola quando as disciplinas de
História e Geografia, por exemplo, mesmo que de forma camuflada, são preteridas
se comparadas a outras da área de exatas ou biomédicas. E quando o tema sexualidade
fica restrito às aulas de ciências, ou biologia, que tende a reduzi-lo às questões biológicas,
como fez o programa nas duas edições apresentadas.
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
FRAGILIDADE MASCULINA: A NOVIDADE TRAZIDA PELO PROGRAMA
A tese central do primeiro bloco foi a fragilidade do sexo masculino, quando se
buscou em vários aspectos reverter a lógica da hierarquia masculina construída
historicamente, mostrar-se assim inovador. Para levar o telespectador a chegar a essa
conclusão, a estratégia do programa foi reforçar a todo o tempo a bipolaridade entre
os sexos. Mas o repórter tenta a todo o tempo levar o espectador a pensar que propõe
algo novo, invertendo a hierarquia do masculino sobre o feminino. Na verdade, a
idéia de rompimento com essa ordem hierárquica tradicional que o repórter procura
levar adiante durante todo o programa, especialmente no primeiro bloco, pode até
ser bem-sucedida para o telespectador. Mas a idéia de relação binária e de uma hierarquia
(agora feminina) baseada na natureza dos corpos continua atravessando todo o tempo
o discurso do repórter, que apenas muda os atores de lugar.
43
Referências
FISCHER, R. M. B. Televisão e Educação: fruir e pensar a TV. Belo Horizonte:
Autêntica, 2001.
__________. O discurso pedagógico da mídia: modos de educar na (e pela) TV.
Educação e Pesquisa. São Paulo, v. 28, n. 1, p. 151-162, jan-jun. 2002.
FAUSTO-STERLING, A. Dualismo em duelo. Cadernos Pagu, n. 17-18, p. 9-79,
2001-2002.
FOUCAULT, M.. História da Sexualidade: a vontade de saber. Rio de Janeiro:
Graal, 1997.
GAUDILLIÈRE, J-P. La fabrique moléculaire du genre: hormones sexuelles,
industrie et médecine avant la pilule. In: La distinction entre sexe et genre: Une
histoire entre biologie et culture. Cahiers du Genre, n. 34, p. 57-81, 2003.
LAQUEUR, T. Inventando o sexo: corpo e gênero dos gregos a Freud. Rio de Janeiro:
Relume Dumará, 2001.
LATOUR, B. A esperança de Pandora. Bauru: EDUSC, 2001.
LOWY, I. Intersexe et transsexualités: les technologies de la medicine et la separation
du sexe biologique du sexe social. Cahiers du Genre, n. 34, p. 81-105, 2003.
ZANCHETTA, J. Imprensa escrita e telejornal. São Paulo: UNESP, 2004.
publicação eletrônica: http://www.ims.uerj.br/sesc
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
SINDING, C. Le sexe des hormones: l’mbivalence fondatrice des hormones
sexuelles. Cahiers du Genre, n. 34, p. 39-81, 2003.
44
AS EXPLICAÇÕES DA SEXOLOGIA CIENTÍFICA
SOBRE A ATRAÇÃO SEXUAL: UMA ANÁLISE DA
REVISTA MENTE E CÉREBRO
MESTRANDA: MARIA MOSTAFA*
ORIENTADORA: FABÍOLA ROHDEN
MARIAMOSTAFA@HOTMAIL. COM
publicação eletrônica: http://www.ims.uerj.br/sesc
* MARIA MOSTAFA
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
A importância da sexualidade na modernidade pode ser confirmada na atenção
que a mídia confere ainda hoje à “problemática” do comportamento sexual. A forma
como essas idéias são divulgadas expressa uma tendência antiga e cada vez mais forte
de explicar o comportamento humano pelo comportamento do corpo, tendência que
determinou os rumos da sexologia científica e sua permanência até a atualidade.
A intervenção médica na sexualidade a partir do século XIX, visando à saúde e
higiene do corpo, e conseqüentemente garantindo as condições ideais de reprodução
da população, acabou por inaugurar uma ciência específica sobre a sexualidade – a
sexologia – que tinha por objetivo maior a regulação médica do campo erótico para
os interesses da reprodução biológica.
Essa vontade de saber sobre o sexo, que caracteriza o Ocidente moderno, o
que Foucault chama de scientia sexualis, adaptou os rituais de confissão, que antes eram
embutidos na penitência cristã, para delimitar os métodos científicos para se extrair
a verdade sobre o sexo.
Dessa forma, as confissões vão se tornando alvo de operações terapêuticas e o
sexo sai da esfera da culpa e do pecado e entra na esfera do normal e do patológico. A
partir do século XIX, organiza-se, portanto, o campo da pesquisa científica do sexo.
A ciência sexual moderna emerge nos Estados Unidos a partir da década de
1930 e é marcada pela desmistificação da sexualidade e pela investigação científica
para determinar uma “normalidade” sexual. Os pesquisadores, que a partir de então
se dedicaram à sexologia científica, enfocaram principalmente a compreensão e o
melhoramento das relações heterossexuais. Para isso, seguiram dois caminhos:
compreender as origens e o desenvolvimento do masculino e feminino, e explicar as
“anomalias” de gênero, como a homossexualidade e a transexualidade, uma vez que
achavam que a normalidade poderia ser entendida pelo estudo do desvio. A análise de
um artigo da edição especial da revista Mente e Cérebro, de 2007, cujo tema é a
homossexualidade e suas determinações biológicas, revela que apesar da aparente
neutralidade científica, o paradigma da normalidade heterossexual de uma sexologia
tida como ultrapassada ainda está muito presente nas explicações científicas sobre as
formas de comportamento sexual.
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Palavras-chave: sexualidade; sexologia; determinismo biológico.
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
O artigo “Entre iguais: mecanismos que atuam na vida intra-uterina e na
puberdade podem determinar a base das preferências sexuais” de autoria de Suzana
Herculano-Houzel, neurocientista e professora da Universidade Federal do Rio de
Janeiro, se apóia numa explicação baseada nos ferormônios, no modo como cada sexo
ativa a via vomeronasal, que capta essas substâncias, para equiparar o sistema de
reação aos ferormônios femininos pelos homens heterossexuais com os de mulheres
homossexuais, e o sistema que ocorre nas mulheres para a ativação do hipotálamo
graças aos ferormônios masculinos, com o de homens homossexuais. Essas definições,
segundo a autora, se formam ainda no útero, mas só são desenvolvidas na adolescência.
Dessa forma, a autora recoloca o velho argumento de que, como se nasce
homossexual, como a definição da atração sexual é inata, natural e não-opcional, não
existe um meio de convencer uma pessoa a mudar de preferência sexual. Por outro
lado, no entanto, essa crença desenfreada na determinação biológica pode devolver à
homossexualidade o estatuto de doença, de falha genética. Afinal, se, como a autora
do artigo afirma, a homossexualidade é causada em grande parte pela exposição
hormonal sofrida pelo feto, para evitá-la não seria uma questão de apenas regular a
quantidade de testosterona que a mulher produz na gravidez? E assim não estaríamos
produzindo uma cura? E para que se produzir uma cura de algo que não é uma doença?
No artigo, a neurocientista gasta alguns parágrafos explicando que os homossexuais
são a minoria, mas não por isso devem ser considerados anormais ou doentes. Ora, se
essa realmente fosse a visão da autora, por que tanto interesse em investigar as causas
genéticas da normalidade? Certamente não é essa concepção de homossexualidade
que está por trás de uma pesquisa como essa.
Num determinismo biológico radical, o artigo de Suzana Herculano-Houzel
afirma que a ciência é freqüentemente criticada por reduzir a questão da
homossexualidade aos domínios da biologia, e que isso deixaria transparecer a incrível
dificuldade que o ser humano tem de aceitar-se como animal. De acordo com FaustoSterling, não se trata de ignorar o corpo material, mas de compreender que o próprio
corpo já está dotado de noções de gênero e sexualidade e que, portanto, “a matéria
dos corpos não pode constituir um campo neutro e preexistente a partir do qual
compreendemos as origens da diferença sexual” (Fausto-Sterling, 2002, p. 63).
46
Referências
FAUSTO-STERLING, A. Dualismos em duelo. Cadernos Pagu, Campinas, n. 17/18,
p. 9-79, 2001.
FOUCAULT, Ml. História da Sexualidade I: a vontade de saber. Rio de Janeiro:
Graal, 1988.
______. Em defesa da sociedade. São Paulo: Martins Fontes, 2002.
HERCULANO-HOUZEL, S. Entre iguais. Viver Mente e Cérebro, São Paulo, Edição
especial n. 10, 2007.
IRVINE, J. Disorders of Desire: Sex and Gender in Modern American Sexology.
Philadelphia: Temple University Press, 2005.
publicação eletrônica: http://www.ims.uerj.br/sesc
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
47
A ESTÉTICA GROTESCA COMO ARMA
EMANCIPATÓRIA: SOBRE A TRILOGIA DA VIDA
DE PIER PAOLO PASOLINI
DOUTORANDO: ALEXANDRE VASILENSKAS GIL*
ORIENTADOR: FRANCISCO J. G. ORTEGA
ALEXANDREGIL78@HOTMAIL. COM
publicação eletrônica: http://www.ims.uerj.br/sesc
* ALEXANDRE VASILENSKAS GIL
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
Nascido em 1922 no território italiano do Friuli, filho de uma camponesa e de
um militar simpatizante do fascismo, Pier Paolo Pasolini notabilizou-se como um dos
maiores cineastas da Itália, embora sua vasta obra inclua também ensaios, pinturas e
poemas. Radicalmente polêmico, entrando em choque tanto com a Igreja Católica quanto
com o Partido Comunista Italiano, seu trabalho como artista e intelectual chocava-se
tanto com o tradicionalismo da direita religiosa quanto com o modernismo de esquerda,
já que criticava abertamente os resultados alienantes e embrutecedores da industrialização
retardatária realizada tanto na Itália quanto no chamado Terceiro Mundo.
O presente trabalho, fruto de uma dissertação de mestrado recentemente
defendida no IMS, abrangerá um período específico da obra de Pasolini que vai do ano
de 1970 até o ano de sua morte, em 1975, marcado pela temática da possibilidade de
uma outra vivência corporal não marcada pelos ditames do industrialismo consumista
do pós-guerra. Para realizar tal intuito, Pasolini realizou três filmes – Decameron,
Contos de Canterbury e As Mil e Uma Noites. Em tais obras, todas elas filmagens de
clássicos da literatura universal anteriores à Revolução Industrial, procurava-se
expressar um período anterior à expansão da mercantilização capitalista, onde uma
outra forma de vivência corporal menos marcada pela docilização, realizada tanto
pela disciplina fabril quanto pelo consumismo, ainda imperava. Em tal processo de
alienação da corporeidade e do desejo, Pasolini via um perigo maior que o próprio
fascismo, pela internalização da opressão capaz de produzir.
Em 1975, Pasolini publica no Corriere de la Sera, um polêmico artigo onde abjura
de seus três filmes anteriores, por não acreditar mais na hipótese da corporeidade
como um instrumento de resistência e emancipação. Nesse mesmo ano realiza seu
último filme, antes de seu brutal assassinato: Saló ou os 120 dias de Sodoma, baseado
no romance de Sade, onde um grupo de poderosos inicia um sofisticado ritual perverso
de desconstrução de toda e qualquer significação que impeça o gozo destrutivo dos
corpos das vítimas. Pasolini ambienta o filme na Itália durante o período da República
de Saló, curta experiência republicana do regime de Musssolini, propiciada pela ajuda
militar alemã. Com tal ambientação, Pasolini pretendia tanto mostrar o nexo potencial
entre a modernidade capitalista e o fascismo quanto expressar suas preocupações pelo
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Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
domínio da corporeidade e do desejo pela ótica perversa do consumo, que retirava da
sexualidade o potencial contestador que ela sempre gozou como instância perturbadora
da organização social existente.
Para analisar a Trilogia da Vida e sua posterior abjuração com Saló, usaremos a
conceituação estética do grotesco como forma de teorização da corporeidade prémoderna que se mantém em manifestações populares bem diferentes da organização
clássica da corporeidade.
O conceito de grotesco, tal como elaborado por autores contemporâneos, como
Kayser e Bakhtin, origina-se da palavra italiana grotta, que significa gruta ou porão. Tal
termo provém do século XV, quando foram encontradas, em escavações feitas no
antigo palácio romano de Nero (a Domus Aurea), formas e ornamentos atípicos, onde
caminhos labirínticos com figuras de vegetais, animais e humanas se misturavam,
influenciando vários artistas do Renascimento e se tornando, na época uma espécie de
moda, embora contrastasse com o naturalismo figurativo então em voga. Durante o
século XX, a tentativa de elaboração de uma História da Arte e de uma estética
realmente sistemática e que, portanto não poderia se dar ao luxo de renegar o que
parecia de difícil classificação, a categorização do fenômeno grotesco daria um salto
qualitativo com os trabalhos, hoje clássicos, de Bakthin e Kayser.
No presente caso, usar-se-á a conceituação específica que o termo assume em
Bakhtin para se analisar o tipo de contraposição realizado por Pasolini em sua Trilogia
da Vida. Com efeito, o clima que se observa nesses filmes é exatamente o que Bakhtin
procura conceituar na obra de Rabelais (o principal autor renascentista que usa como
referência): uma corporeidade “não-domesticada”, onde a sensualidade e o erotismo
se misturam com referências escatológicas e onde os corpos ficam longe de estarem
pautados por modelos inalcançáveis de corpo, a rigor, abundam velhos, gordos e
desdentados, num clima geral de dessacralização e rebaixamento, que Bakhtin situava
em sua conceituação do carnaval. Tal conceito, tão importante na obra de Bakhtin
quanto o de corpo-grotesco, diz respeito aos momentos de des-repressão da vida produtiva
e cotidiana, onde os valores morais são conscientemente burlados numa valorização da
vida e do somático, que freqüentemente divergem das ideologias das classes dominantes.
Um elemento-chave da corporeidade grotesca tal como foi pensada por Bakhtin é a
subversão das relações modernas e contemporâneas entre a vida e a morte.
De forma extremamente contrastante com o atual recalque de tudo o que
lembre a idéia da morte, nos textos rabelaisianos abundam referências imagéticas à
dialetização entre vida e morte, como por exemplo, a figura da velha grávida, tema
constante nos textos. Contrariamente ao cânon moderno de corpo, onde a imagem
corporal é valorizada como uma imagem unificada e estática, numa clara tentativa de
vinculação da imagem corporal com o discurso do indivíduo enquanto mônada que
emerge com a burguesia mercantil, o corpo grotesco é aberto às influências cósmicas
e valorizado exatamente nos seus pontos de intersecção e contato com o outro numa
relativização de suas fronteiras que caracterizam para Bakhtin a essência de tal cânon.
No grotesco, são valorizadas as partes do corpo que representam as fronteiras de
contato com o mundo: baixo ventre, barriga, nariz e boca – sendo estes os principais
49
Referências
AMOROSO, M. B. Pier Paolo Pasolini. São Paulo: Cosac & Naify, 2002.
BAKHTIN, M. A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de
François Rabelais. São Paulo: Hucitec, 1996.
KAYSER, W. O grotesco.. São Paulo: Perspectiva, 2003.
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Palavras-chave: Pasolini; grotesco; Bakhtin; corpo.
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
“atores” dessa forma de representação do corpo. E ao contrário da representação
moderna, quase sempre são representados em funções fisiologicamente dinâmicas que
normalmente produziriam asco nas sensibilidades atuais. O corpo grotesco come, defeca,
urina, procria e morre, sendo que essas funções são mostradas se sobrepondo umas às
outras, normalmente em dimensões pouco reais, de forma quase sempre hiperbólica.
Nos filmes que compõem a Trilogia da Vida, todos os elementos que compõem
a estética baktiniana do grotesco estão presentes, tanto nos seus aspectos visuais quanto
explicitamente políticos. A utilização de não-atores, comum no cinema italiano desde
os tempos de neo-realismo, agora é meio para exibição de tipos populares
marcadamente gauches (velhos, desdentados, deficientes mentais). Se em Decameron,
a maior das bilheterias de Pasolini, era focada a Itália renascentista, Contos de Canterbury
mostrava um mundo anglo-saxônico bastante diferente do cinema americano e da
moralidade vitoriana. As Mil e Uma Noites servem para exibir a tese sobre a crença do
cineasta na possibilidade de o Terceiro Mundo ser um reservatório de vivências
subjetivas ainda não totalmente dominadas pela mercantilização moderna.
Em 1975, após a publicação do texto onde renegava a Trilogia, Pasolini lança
Saló ou os 120 dias de Sodoma, baseado na obra de Sade e ambientado no período
republicano do fascismo. Nesse filme, até hoje um dos mais brutais já realizados
(inclusive se comparado com os filme de horror atuais), a sexualidade é mostrada
como uma forma de reificação extrema, já a serviço da lógica capitalista e sem nenhuma
possibilidade de transcendência frente ao existente social. A homossexualidade em
Saló não é, como na Trilogia, um instrumento de contestação da instrumentalização
social da libido, mas a prova da indiferença do gozo perverso por qualquer forma de
alteridade. Logo após a realização de Saló, Pasolini é brutalmente assassinado. Embora
o crime tenha sido assumido por um jovem prostituto da periferia de Roma, até
hoje há elementos ainda não inteiramente esclarecidos. Como um exemplo trágico
do que procurava afirmar, a forma de sua morte foi usada como forma de denegrilo através de seu desejo.
A possibilidade de ter a sexualidade como cúmplice de um projeto radical de
transformação social ou como um instrumento a serviço de uma corporeidade limpa
dos impasses da finitude orgânica e, portanto, apta a ser posta a serviço da valorização
mercantil, foi a forma de Pasolini expressar os perigos e impasses contemporâneos
numa perspectiva crítica.
50
NAZÁRIO, L. Pier Paolo Pasolini. São Paulo: Brasiliense., 1986.
PASOLINI, P. P. As últimas palavras do herege. São Paulo: Brasiliense, 1983.
______. Os jovens Infelizes: antologia de ensaios corsários. São Paulo:
Brasiliense, 1990.
SODRÉ, M.; PAIVA, R. O império do grotesco. Rio de Janeiro: Mauad, 2004.
STAM, R. Bakhtin: da teoria literária à cultura de massa. São Paulo: Ática, 2000.
publicação eletrônica: http://www.ims.uerj.br/sesc
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
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RECEITAS PRAGMATISTAS CONTRA O
REDUCIONISMO
MESTRANDO: PEDRO DE OLIVEIRA SCHPREJER*
ORIENTADORA: JANE RUSSO
PEDROPOS @GMAIL.COM
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* PEDRO DE OLIVEIRA SCHPREJER
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
Galileu acreditava que o livro da natureza estava inscrito em caracteres
matemáticos e que conhecer uma coisa significava quantificá-la (De Souza Santos,
2006, p. 21). O paradigma racionalista, que se contrapôs ao saber aristotélico e medieval,
teve sua origem em importante mudança nas concepções sobre o mundo e a vida.
Contrário a qualquer forma de dogmatismo e obscurantismo, o modelo de racionalidade
que deu forma ao pensamento científico positivista surgiu a partir da revolução científica
do século XVI – com Copérnico, Galileu e Newton – e foi incorporado e desenvolvido
pelas ciências naturais nos século seguintes.
Reduzir a complexidade dos fenômenos encontrados no mundo para, deste
modo, estabelecer leis que expliquem seu funcionamento é o princípio básico do
método cientifico. Baseado nas regularidades observadas, a ciência estabelece leis
capazes de prever eventos futuros. Desvendar inteiramente o “mundo máquina”,
concebido pela mecânica newtoniana torna-se, a partir de então, o grande projeto
racionalista. Nos últimos anos, temos acompanhado a ascensão de vertentes teóricas
ancoradas nas ciências biológicas que pretendem solucionar objetivamente questões
que, até pouco tempo, estavam sob a guarda das ciências humanas. A descoberta de
novas tecnologias científicas que permitem explorar, de forma antes inimaginável, o
interior de nossos cérebros, revelando detalhes microscópicos, vem provocando grandes
mudanças de paradigma nas ciências que estudam a mente e o comportamento.
O fisicalismo adota a racionalidade científica na crença de que todo evento
pode ser descrito em termos microestruturais (Rorty, 1997). O fisicalismo reducionista
nas neurociências acredita que a verdade sobre nosso comportamento encontra-se
acessível nas entranhas do cérebro e que, dentro de alguns anos, a ciência poderá
explicar tudo o que precisamos saber, com base em observações e constatações
microestruturais. Seremos decodificados em nosso nível, supostamente, essencial: a
dimensão molecular.
Incorporando o discurso produzido pela neurociência redutivista, uma boa parte
dos psiquiatras, hoje, dá cada vez menos importância, em sua prática cotidiana, ao
pensamento da subjetividade. O biológico é tomado como o verdadeiro e o
conhecimento produzido pelas ciências humanas é renegado a uma espécie de verdade
de segunda categoria, não legitimada pelo rigor lógico e empírico.
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Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
Se, por um lado, o entusiasmo acrítico dos neurocientistas e psiquiatras adeptos
de tais idéias os levam, com freqüência, a superestimar a capacidade da ciência de
explicar fenômenos humanos, é inegável que os avanços conquistados por novas
descobertas têm melhorado a vida de pessoas que sofrem de vários tipos de distúrbios.
Portanto, negar o potencial de tais descobertas como uma reação ao reducionismo de
parte dos cientistas seria adotar uma postura reativa, igualmente reducionista e
irresponsável. Por ser uma ciência que mistura conhecimentos concretos sobre a
biologia do corpo e teorias abstratas sobre a mente e o comportamento, a psiquiatria
encontra-se na linha de frente do debate ciência/humanismo. Dentro da psiquiatria
encontram-se em campos opostos aqueles que acreditam que os aspectos psicossociais
dos distúrbios são mais bem descritos nos termos de sua manifestação no cérebro e os
que crêem na complexidade do comportamento humano, cuja natureza
inevitavelmente escapa à objetivação da ciência.
Os reducionismos são uma ameaça a qualquer ampliação do conhecimento,
pois colocam uma determinada teoria na posição de verdade absoluta. A devoção a
uma dada teoria ou escola teórica leva os pensadores a não aceitarem idéias que estão
fora do seu restrito campo teórico de referência. O mundo passa a ser visto através
de um filtro capaz de explicar tudo. Rorty (1997, p. 170) mostra como, desde Platão,
acreditou-se na existência de um vocabulário específico capaz de espelhar a realidade.
A partir do século XVIII, a ciência reivindicou para si esse espaço, gerando grandes
inovações, mas também muitos perigos, como a eugenia e outras teorias que foram
usadas para legitimar atos de injustiça. Foucault (2002) aponta como o racismo de
Estado, a efetivação do direito estatal de matar – cujo mais grave exemplo é o nazismo
– sempre foi embasado em teorias científicas que atestavam uma verdade essencial e
absoluta sobre os seres humanos.
Não são só os fisicalistas que podem adotar posições reducionistas. Há, de fato,
um forte reducionismo em linhas teóricas que pregam uma psicologia “pura”, livre de
qualquer influência das ciências naturais na psiquiatria. Assim, modelos explicativos
que poderiam ser extremamente úteis para o tratamento de problemas que fazem
com que muitos sofram são descartados de antemão por não convergirem com certas
escolas de pensamento. Qualquer exigência de observação e validação empírica passa
a ser vista como uma subjugação ao cientificismo e, deste modo, é negada.
Brendel enxerga na filosofia pragmática de Dewey, James e Peirce uma
possibilidade para superar impasses teóricos que colocam em risco a eficácia da prática
da clínica psiquiátrica. O pragmatismo descarta de antemão a busca por uma verdade
exterior – tanto na ciência como na filosofia –, preocupando-se em encontrar soluções
práticas para os problemas que enfrentamos cotidianamente. Para os pragmatistas,
não há um modo como as coisas realmente são, o que há são diferentes descrições
mais ou menos úteis de acordo com determinadas situações. Úteis, em última instância,
para criar um futuro melhor – como explica Rorty – um futuro que nos surpreenda
e estimule (Rorty, 2000, p. 27).
Assumindo uma postura de reação ao cientificismo iluminista, os idealistas
germânicos associaram materialismo e fisicalismo com reducionismo e cientificismo
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Palavras-chave: Psiquiatria; neurociências; reducionismo; humanismo; fisicalismo;
pragmatismo.
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(ibid., p. 157). Entretanto, os pragmatistas americanos, sobretudo Davidson, viram
certas vantagens na adoção do naturalismo e do fisicalismo, desde que estas não fossem
perspectivas reducionistas. Sobre Davidson, Rorty comenta “A obra de Davidson
parece-me a culminação de uma linha de pensamento na filosofia americana que anseia
por ser naturalista sem ser reducionista” (ibid.).
Atribuindo às idéias um caráter de ferramentas para a ação, a filosofia pragmática
permite a aceitação, dentro de um mesmo campo, de diferentes teorias e formas de
conhecimento, desde que estas somem esforços para solucionar o problema em questão.
No intuito de instituir uma nova ética para orientar a prática da psiquiatria, Brendel
propõe a utilização de uma perspectiva pragmatista sobre a ciência, tendo em vista o
caráter prático, pluralístico, participativo e provisório da investigação científica. Esses
quatro “Ps” podem ajudar a resolver uma série de questões éticas na psiquiatria. A
começar pelo caráter prático que a atividade deve ter, ou seja, o foco nos problemas
enfrentados pelos pacientes e na necessidade de solucioná-los, na medida do possível.
Tanto as teorias psicanalíticas, como os conhecimentos biológicos, devem ser vistos
apenas como ferramentas cuja utilidade deve ser avaliada pela capacidade de servirem
no dia-a-dia, não como reflexões objetivas e absolutas sobre o funcionamento da
subjetividade ou do corpo humano. Sendo assim, não há nada de errado em admitir a
correspondência física de estados mentais, utilizando o vocabulário da neurociência,
quando tal descrição for mais útil. A maioria dos distúrbios psiquiátricos não tem
apenas uma causa, mas, sim, uma confluência de fatores, que podem ser neurológicos
ou psicossociais. Nesses casos, nenhuma explicação e nenhum vocabulário descritivo
pode ser descartado de antemão.
Davidson afirma que devemos ver eventos “físicos” e “mentais” como os “mesmos
eventos sob duas descrições” (Rorty, 1997, p. 158). A descrição de uma mesa em seu
nível molecular não seria superior e mais verdadeira do que sua descrição como algo
em que se pode tropeçar, ou servir comida. Nossos sentimentos, emoções, conflitos,
decerto, possuem um correspondente cerebral, mas este, por usa vez, não expressa a
verdade sobre aquele estado – é apenas uma de suas possíveis descrições.
Outro antídoto contra o cientificismo é a adoção da idéia da falibilidade da
ciência, seu caráter sempre provisório. Para Peirce, as investigações da ciência
poderiam gerar um conhecimento extremamente importante e útil. Ele alertava,
entretanto, que tal conhecimento deveria estar sempre aberto para a revisão e o
aperfeiçoamento. Os conceitos científicos atuais, freqüentemente tidos como certezas,
não possuem um caráter definitivo mas, sim, provisório.
De posse dessas garantias teóricas, a psiquiatria humanista poderá somar esforços
com o que de melhor a ciência tem produzido nos últimos anos. Sem reduzir o livro
da mente a caracteres matemáticos – como desejaria Galileu –, nem desprezar a
ciência objetiva, a clínica psiquiátrica cria seu próprio paradigma, plural e mais apto
para ajudar as pessoas que dela fazem uso.
54
Referências
BRENDEL, D.H. Healing psychiatry: bridging the science/humanism divide. Londres.
The Mit Press.
SOUSA SANTOS, B. Um discurso sobre as ciências. São Paulo: Cortez, 2006.
FOUCAULT, M. Em defesa da sociedade: curso no Collège de France (1975-1976).
São Paulo: Martins Fontes. 2002.
RORTY, R. Objetivismo, relativismo e verdade: escritos filosóficos I. Rio de Janeiro:
Relume Dumará, 1997.
________. Pragmatismo: a filosofia da criação e da mudança. Belo Horizonte:
UFMG, 2000.
publicação eletrônica: http://www.ims.uerj.br/sesc
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
55
MESA 4
publicação eletrônica: http://www.ims.uerj.br/sesc
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
NOVOS OLHARES
SOBRE AS POLÍTICAS
DE SAÚDE
56
A POLITIZAÇÃO DA VIDA NA MODERNIDADE:
NOTAS SOBRE AS IDÉIAS DE FOUCAULT E
AGAMBEN
DOUTORANDA: CRISTIANE OLIVEIRA*
ORIENTADOR: JOEL BIRMAN
FOMENTO: CAPES
CRISTIANEOLIVEIRA @IMS. UERJ.BR
publicação eletrônica: http://www.ims.uerj.br/sesc
* CRISTIANE OLIVEIRA
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
A modernidade, enquanto projeto civilizatório, ético e político, descortina
uma intricada teia de relações que marca descontinuidades importantes em relação
aos outros projetos históricos que lhe antecederam. Com um projeto de superação do
passado pela via do progresso, a modernidade é dominada pela racionalidade científica,
interpretada como o ápice da inteligência humana. Desta forma, a razão instrumental
está no seio da produção de verdade desta sociedade, através da legitimação de um
metadiscurso filosófico que pudesse fazer naufragar a metafísica (Lyotard, 2003).
É neste sentido que a noção de ordem, que parece obedecer ao desejo moderno
de obliterar a ambivalência, isto é, a indiscernibilidade, diante do caos do mundo,
marca a racionalidade moderna (Bauman, 1991). Sua utilidade é visível: mundo
ordenado é um mundo que permitiu a instalação do capitalismo. Através da ordem, a
modernidade conseguiu gestar aquilo que seria a expropriação do próprio tempo e do
movimento não-disciplinado que lhe antecedeu.
Seu lastro na filosofia política é o liberalismo, que submete a regulação das
relações sociais à propriedade privada, fazendo do Estado um mediador nos conflitos
de interesses entre público e privado que daí advirão. Não por acaso, o ethos
individualista é a marca das ditas sociedades modernas. Promovendo a emergência do
indivíduo como valor, o projeto moderno se volta para exaltar a horizontalidade das
relações, embotando o valor da hierarquia (Dumont, 1991), a fim de fortalecer o
discurso liberal que nos atravessa.
É neste cenário – marcado pela disciplina, pelo liberalismo e pelo individualismo
– que emerge como acontecimento um novo enodamento entre vida e política, se
admitirmos como eloqüente a cartografia biopolítica da modernidade que Foucault
(1975a, 1976) nos apresenta. Nesta, ele reconhece uma forte descontinuidade entre a
era clássica e a modernidade, no que diz respeito à relação entre política e vida, na
qual o direito de morte, suporte do poder soberano, converte-se, na modernidade,
em incitação à vida e à saúde, individual e populacional. Como passamos, então, da
57
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Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
noção aristotélica, recuperada por Foucault, segundo a qual o homem é um animal
que tem existência política, para aquela em que a condição de vivente é o que
define a política?
A anátomo-política se constitui numa nova modalidade de exercício de poder
na qual os corpos foram submetidos a um meticuloso processo de “docilização”
(Foucault, 1975a, 1975b) que visava a extrair-lhe máxima utilidade, impondo-lhe
máxima obediência. Estava centrada no “corpo-máquina”, cujo funcionamento é
controlado, vigiado, distribuído num determinado espaço e adestrado para um
repertório de gestos e atos submetidos ao tempo, num duplo movimento de
individuação e massificação. Mais ainda, o que se observa aí é a mudança no modo de
exercício de poder, que passa do “confisco” à “incitação”, de modo a fabricar um poder
que passa a existir amalgamado ao prazer.
A biopolítica foi definida por Foucault (1975a, 1976a) como a gestão do “corpoespécie”, ou seja, do corpo vivo, cujo funcionamento se tornou, na modernidade, um
imperativo a ser descrito. Aliando saber e poder sobre a vida, a biopolítica pôde ser
exercida através de uma interpolação de uma série de regimes de saber-poder –
demografia, estatística, economia, ciência política, medicina clínica, medicina social
e, mais recentemente, epidemiologia clínica – para a produção do conceito de população
e suas intervenções correlatas. O nascimento de uma medicina social (Foucault, 1974a,
1976b), assim como o do hospital (Foucault, 1974b), atestariam esta premência
histórica: antes mesmo de preservar as forças produtivas, ela se encarregou de
difundir a normalização como forma de regulação social que invadiria,
paulatinamente, o terreno do direito.
O complexo mecanismo de incitação ao poder e à vida constitutivo do biopoder
teria, segundo Foucault, sucedido, historicamente, o modelo jurídico da soberania.
Mas esta transição se fez, inicialmente, a partir do entrelaçamento da soberania com
a disciplina, produzindo aí um jogo de heterogeneidades marcadas por uma solução de
compromisso. A persistência da importância da lógica da soberania nos códigos
jurídicos, mesmo depois de ter sido desgastada pelo modelo absolutista, serviu de
crítica ao regime monárquico durante os séculos XVIII e XIX, ao mesmo tempo em
que possibilitava o exercício silencioso da disciplina enquanto tecnologia de poder.
Como toda solução de compromisso produz resíduos, a incompatibilidade entre
soberania e regime disciplinar precisaria ser mediada. Aqui parecemos encontrar em
Foucault (1976c) um novo terreno para a investigação da relação entre vida e política.
Ele afirma que a medicina é o “saber-poder” que promove a mediação entre estes dois
planos, uma vez que, como ele pôde demonstrar em vários de seus estudos, é ela
quem funda a “sociedade de normalização”, na qual a norma povoa o terreno do direito.
Enquanto Foucault tenta demonstrar uma descontinuidade entre poder soberano
e biopolítica, advertindo-nos inclusive das nuanças discursivas que envolvem a
permanência da soberania como teoria jurídico-política de referência, Agamben (1995,
2002) apostará na coexistência destes dois planos para pensar os fenômenos complexos
que se sucederam ao pós-guerra. Segundo seu argumento, a vida não teria entrado
nos cálculos de sua gestão pelo poder estatal apenas com a emergência da biopolítica,
58
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Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
como argumenta Foucault, mas, há muito, estaria implicada na esfera política. O que
seria, então, especificamente moderno é a coincidência do espaço da vida com o espaço
político, marcado pela normalização do estado de exceção. Ele se vale dos totalitarismos
do século XX para afirmar que não é a gestão da vida enquanto força a ser controlada
dentro dos cálculos estatais, mas a redefinição do limiar a partir do qual uma vida deixa
de ser politicamente relevante. Com este gesto, Agamben parece retomar uma
perspectiva abandonada por Foucault, que é a de preterir o investimento analítico no
devir em detrimento de uma análise ontológica da relação entre vida e política.
Retomando Carl Schmitt, através de um olhar benjaminiano, Agamben (1995)
afirma que o poder soberano é constituído por um paradoxo: encontra-se fora do
ordenamento jurídico normal sem lhe ser, no entanto, exterior. Ora, o soberano é
aquele que, em princípio, decide sobre o estado de exceção, ou seja, quem define a
partir de que momento uma determinada situação-limite impõe a necessidade de
suspensão dos direitos individuais em nome da segurança do Estado. Esta situação de
exclusão-inclusiva, já que é impossível de ser localizada no ordenamento jurídico,
mas também não indiferente a ele, característica da exceção, cria um espaço de
“indiscernibilidade” entre norma e exceção. Tal estado de coisas, por sua vez, acaba
por reafirmar o exercício do poder soberano, já que lhe fornece as condições de
possibilidade para agir nesse espaço paradoxal.
Para investigar o estatuto de vida que entra em cena na estrutura de exceção
da soberania, Agamben (1995) recupera a figura do homo sacer, presente no direito
romano arcaico, pelo interesse no paradoxo que lhe é constitutivo: trata-se de um
homem cuja vida pode ser exterminada, sem que se cometa homicídio nem sacrilégio.
Ele habita um território que não é nem exterior, nem interior ao campo jurídico,
pois, embora sua morte não possa ser considerada homicídio, também não está
destituída de implicação jurídica. Ainda, encontra-se numa zona de indistinção na
ordem religiosa, pois ao contrário do que seria de esperar, pela sua vinculação com a
sacralidade, a morte não pode ser submetida aos ritos que a tornassem passível de
valor simbólico ou de sacrifício. O homo sacer é o portador de uma “vida insacrificável
e, todavia, matável” (p. 90), constituindo-se numa dupla exceção.
A estrutura de exceção, que é a mesma que constitui a exceção soberana,
reaparece na constituição do homo sacer. O que pareceria uma mera analogia topológica
entre o sacro e o soberano revela, no raciocínio agambeniano, uma íntima ligação
entre eles: trata-se de figuras simétricas, isto é, só é possível definir e dar existência
a um através do outro. Desta díade, Agamben extrai o que denomina ser uma “relação
política originária”: a vida sacra, ou seja, “vida nua”, é o fundamento da decisão soberana,
cuja existência se define pela possibilidade de matar sem cometer nem homicídio
nem sacrifício. Privada de valor político, mas não de utilidade política, a vida nua é
vida exposta ao poder de morte do soberano. Sua inserção no âmbito jurídico-político
se dá por sua exclusão-inclusiva apenas no que serve ao exercício do poder soberano.
Uma das tarefas da modernidade é estabelecer o limite a partir do qual a vida é
transformada em vida nua, ou os indivíduos são transformados em viventes, a fim de
redefinir os contornos do poder soberano.
59
Para Agamben, a proximidade entre democracia e estados totalitários pode ser
fundamentada na existência da vida nua. Na sua leitura acerca da biopolítica moderna,
o autor escancara a pulverização da vida sacra, matável e insacrificável, nos indivíduos.
Habita-nos em segredo uma temível e insondável vida nua, um desamparo muito
radical ao poder de morte do soberano, cujo descentramento também podemos
obser var nos diferentes lugares que ocupa na tessitura social. Redefinir
permanentemente o limiar das “vidas que merecem ser vividas” parece constituir o
imperativo biopolítico de nosso tempo, fraturando os alicerces do espaço democrático
que ostentamos.
Palavras-chave: biopoder; vida nua; soberania; modernidade.
Referências
AGAMBEN, G. Hommo Sacer: o poder soberano e a vida nua. Belo Horizonte:
UFMG, 1995.
______. Estado de Exceção. São Paulo: Boitempo editorial, 2002.
BAUMAN, Z. Modernidade e ambivalência. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1991.
FOUCAULT, M. O nascimento da medicina social. In: ______. Microfísica do poder.
Tradução e organização de Roberto Machado. Rio de Janeiro: Graal, 1974a, p. 79-98.
______. Em defesa da sociedade. São Paulo: Martins Fontes, 1975a.
______ Vigiar e punir: história da violência nas prisões. Petrópolis: Vozes, 1975b.
______ História da sexualidade I: a vontade de saber. Tradução e organização de
Roberto Machado. Rio de Janeiro: Graal, 1976a.
______. A política de saúde no século XVIII. In: MACHADO, R (Org.). Microfísica
do Poder. Tradução e organização de Roberto Machado. RJ: Graal, 1976b. p. 193-208.
______. Soberania e disciplina. In: MACHADO, R. (Org.). Microfísica do poder.
Rio de Janeiro: Graal, 1976c, p. 179-192.
publicação eletrônica: http://www.ims.uerj.br/sesc
______. O nascimento do hospital. In: ______. Microfísica do poder. Tradução e
organização de Roberto Machado. Rio de Janeiro: Graal, 1974b. p. 99-112.
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
DUMONT, L. O individualismo: uma perspectiva antropológica da ideologia moderna.
Rio de Janeiro: Rocco, 2000, p. 35-71.
60
EM DEFESA DE UMA CERTA
ANOMALIA
MESTRANDA: SOLANGE D’AVILA-MELO SARMENTO*
ORIENTADOR: CARLOS ALBERTO PLASTINO
* SOLANGE D’AVILA-MELO SARMENTO
SSARMENTO@ OI. COM.BR
publicação eletrônica: http://www.ims.uerj.br/sesc
COM CANGUILHEM
Deste capítulo destaco dois temas principais: o conceito de normal, suas
ambigüidades e utilizações dentro da prática médica, e as diferenças entre a anomalia
e a doença. Canguilhem inicia apresentando duas definições de normal e fazendo um
alerta para uma certa ambigüidade semântica possível na utilização do termo. Haveria
um equívoco em se utilizar o termo normal indiscriminadamente em seu sentido
avaliativo (valor) e em seu sentido descritivo (fato); ou seja, há um fato a ser descrito
e “um valor atribuído a esse fato por aquele que fala...” (p. 95). Seria somente a partir
da vivência do ser humano e de sua apreciação sobre suas condições de vida que uma
situação se tornaria patológica. Para Canguilhem, a normatividade é inerente à vida,
e o fato de existir uma luta constante contra as ameaças da vida explicaria que a
normatividade é uma necessidade vital, permanente e essencial. A vida em si mesma
possui um valor que independe da avaliação médica e o ser vivo empreenderia
permanentemente um esforço espontâneo de luta contra os “valores negativos” que
colocam em risco sua manutenção e sobrevivência. Assim, a medicina e outras
terapêuticas criadas pelos homens seriam o prolongamento dessa normatividade vital.
Para o autor, o valor da vida é considerado um fato: “É a vida em si mesma, e não a
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
O objetivo deste trabalho é apresentar algumas idéias de Canguilhem e Joyce
McDougall sobre questões relativas às definições de “anomalia”, “normal” e
“normalidade” e refletir sobre sua possível articulação com a síndrome de Down.
Começarei fazendo um resumo comentado do texto Exame crítico de alguns conceitos: do
normal, da anomalia e da doença, do normal e do experimental, de Canguilhem, que faz parte
do livro O Normal e o Patológico. Deste capítulo, destacarei as questões sobre anomalia
e normatividade. Do texto de McDougall, Em defesa de uma certa anormalidade, do mesmo
livro, além da óbvia referência feita com o título deste trabalho, enfatizarei sua
atualidade na aceitação de novas formas de constituição subjetiva. Por fim, tentarei
fazer algumas reflexões sobre os conceitos de anomalia e normatividade, tentando
articulá-los com as características das pessoas portadoras de síndrome de Down (SD)
e com a psicanálise.
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publicação eletrônica: http://www.ims.uerj.br/sesc
COM JOYCE MCDOUGALL
Se Canguilhem nos convida a uma reflexão sobre o normal e o patológico,
Joyce McDougall coloca os psicanalistas no “olho do furacão” deste questionamento
em seu artigo “Em defesa de uma certa anormalidade”. Seu primeiro parágrafo é
constituído de perguntas sucessivas: o que é normal? Existe uma única forma de normal?
O que é normal para um psicanalista? O que é um psicanalista normal? Acha que a
normalidade é para os analistas como a face escura da Lua: nunca poderemos vê-la.
Afirma que a normalidade talvez nem seja um conceito psicanalítico. Para ela, a
primeira norma que servirá de solo para as normas posteriores é formada pela família.
Para a criança, o normal é o conhecido, o de casa, o familiar. O anormal, a “inquietante
estranheza” descrita por Freud, na verdade é algo que surge no sujeito, que se destaca
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
apreciação médica, que faz do normal biológico um conceito de valor e não um conceito
de realidade estatística” (p. 100). Na segunda parte do texto, Canguilhem vai discutir
os conceitos de anomalia e de doença. Diz que a anomalia precisa, para se tornar
foco de interesse médico, ser vivida e descrita como um desconforto, como
patologia, pelos indivíduos portadores da mesma. Caso contrário, seria apenas
uma variedade, uma diferença.
A anomalia pode constituir o objeto de um capítulo especial da história natural,
mas não da patologia... É porque existem anomalias experimentadas ou manifestadas
como um mal orgânico, que existe um interesse – afetivo em primeiro lugar, e
teórico, em seguida – pelas anomalias (p. 105).
A anomalia só pode ser estudada a partir do momento em que houve uma
quebra na normatividade vital; é preciso que haja uma experiência subjetiva negativa
do próprio sujeito para que possamos nos debruçar sobre a anomalia. “Diversidade
não é doença. O anormal não é patológico” (p. 106), afirma. Canguilhem acha que a
anomalia provoca tensões e movimentos diferentes dos provocados pela doença: a
doença interrompe um fluxo vital e faz com que haja um anterior para comparação; a
anomalia já está lá desde sempre e não necessariamente interromperá ou impedirá a
continuidade do ser na vida.A anomalia torna-se uma doença se passar a ser interpretada
pelo indivíduo como algo que restringe sua mobilidade no mundo e o valor que dá a si
mesmo. A anomalia pode se transformar em uma doença, mas não é ela mesma uma
doença. Canguilhem vai defender a posição de que uma variação, como uma mutação,
não necessariamente é patológica:
Na medida em que seres vivos se afastam do tipo específico, serão eles
anormais que estão colocando em perigo a forma específica, ou serão inventores a
caminho de novas formas? (p. 110).
É preciso levemos em consideração a normatividade do ser humano e não a
presença de uma anomalia para considerá-los como doentes. E termina reafirmando
que não existe fato normal ou patológico em si mesmo:
Não existe fato que seja normal ou patológico em si. A anomalia e a mutação
não são em si mesmas patológicas. Elas exprimem outras normas de vida possíveis...
Sua normalidade advirá de sua normatividade. (p. 113).
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COMENTÁRIOS FINAIS
Os textos nos convidam a refletir sobre o normal, a normalidade, a anomalia.
Ambos apontam para as questões do valor que é atribuído aos fatos. Atribuídos pelos
próprios sujeitos e por quem lhes observa. Este valor é função de fatores culturais,
sociais, das formas de saber que perpassam uma sociedade a cada momento histórico.
Em 1886, Lord Langdon Down, médico inglês, descreveu as características da síndrome
de Down, que acabou recebendo seu nome. Um breve passeio pela Internet nos
fornece inúmeras outras definições desta síndrome, além da de Lord Langdon. Sabemos
que a própria descrição dos fenômenos varia de acordo com as idéias circulantes em
cada época e também em função da subjetividade do próprio autor.
Neste trabalho não poderei me deter nas várias metáforas utilizadas nas
descrições, mas gostaria de enfatizar que elas também foram variando ao longo do
tempo: por exemplo, falar de aberração não é o mesmo que dizer alteração,
modificação. Devemos ressaltar que o termo anomalia, foco de nosso interesse, também
pode ser substituído por disfunção, alteração, excesso genéticos, palavras que parecem
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
do familiar, do normal. Assim, normas e regras dizem respeito às questões familiares:
uma vontade de escapar às normas seria o desejo de transgredir estas regras familiares
iniciais; por outro lado, a conformidade estaria ligada ao desejo de obter o amor dos
pais. Para a criança, a norma seria a identificação com o desejo dos pais. Além disso, a
autora ressalta que a norma sexual, ou de qualquer outra natureza, possui uma dimensão
sócio-temporal – ou seja, é contingente, variável, historicamente determinada.
A partir daí, apresenta suas idéias a respeito de pessoas que se sentem normais
e “bem demais na própria pele”; pessoas que não se questionam, não duvidam de si
mesmas nem de sua maneira de ser, mas procuram análise. Que fazer com elas? Diz
que o nosso ponto de partida deve ser o questionamento que o próprio paciente nos
traz; é preciso que a própria pessoa se sinta sofrendo, estranhando, para que possamos
empreender a viagem psicanalítica. Para ela, uma normalidade não-criativa seria
uma defesa, uma carapaça: ao se adaptar demasiado às regras, o sujeito teria limitado
também sua vida fantasmática, afastando-se de si mesmo. Em algum momento da
vida, o olhar imaginativo e criativo infantil passa por uma normalização que pode vir
a ser empobrecedora do ser. Questionamentos, inquietações, estranhezas, sonhos,
fazem parte de nosso estar no mundo; tudo isto pode nos levar a novas articulações
simbólicas, a novas formas criativas de viver e de ser; por outro lado, uma adaptação
excessiva pode nos levar à pobreza repetitiva das regras sempre conhecidas, e nunca
transgredidas ou modificadas. Porém, estamos sempre diante de um desafio, de um
contínuo questionamento das relações e de modos de ser no mundo, e se soubermos
escutar criativamente os pedidos dos pacientes, talvez possamos prosseguir para
além de suas (nossas?) normalidades.
O trabalho psicanalítico é um processo criador, e esses sujeitos, como qualquer
outros, trazem consigo todos os elementos para criarem seu analista e sua aventura
psicanalítica. Se ao se engajarem numa análise nada é criado, talvez seja porque não
soubemos escutar o seu pedido (p. 182).
63
ter uma conotação um pouco menos negativa. Existe um fato genético, mas qual o
valor que poderemos dar a ele?
Em seu texto, Canguilhem aponta que a anomalia é uma diferença, mas não
necessariamente uma doença. Seria possível pensar a SD a partir deste ponto de
vista? Ficam então as perguntas: poderíamos, com Canguilhem, definir a síndrome de
Down como uma anomalia não necessariamente patológica? Caso positivo, portadoras
de uma normatividade, estas pessoas poderiam seguir seu curso normal de vida caso
encontrassem um ambiente familiar e social favorável, com o qual pudessem interagir?
Será que é possível determinar seus limites? Não seriam estes limites também variáveis
de acordo com o entorno?
Partimos da idéia de que os portadores de SD apresentam formas diversas de
subjetivação. A sociedade tem feito um certo esforço na tentativa de inclusão social
dessas pessoas, propiciando oportunidades de convivência e desenvolvimento de
recursos humanos e tecnológicos mais adequados às pessoas portadoras da síndrome e
outros “especiais”. Mas, e se ao longo de suas vidas houver um trauma, uma perda,
uma ruptura qualquer que os faça sofrer e se angustiar? E se, por causa deste sofrimento
e angústia, forem bater às portas dos psicanalistas? Ficaríamos presos às recomendações
iniciais freudianas que definem o tipo ideal de cliente para uma análise? Ou será que,
com Joyce McDougall, poderemos tentar escutá-los? Poderíamos assim, criativamente,
empreender uma inusitada e surpreendente viagem terapêutica?
CANGUILHEM, G. O normal e o patológico. Rio de Janeiro: Forense, 1995.
MCDOUGALL, J. Em defesa de uma certa anormalidade. Porto Alegre: Artes
Médicas, 1987.
publicação eletrônica: http://www.ims.uerj.br/sesc
Referências
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
Palavras-chave: normal; normatividade; anomalia; síndrome de Down;
psicanálise.
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GÊNERO E SAÚDE: A INCLUSÃO
DA ASSISTÊNCIA A TRANSEXUAIS NO SUS
DOUTORANDA: DANIELA MURTA*
ORIENTADORA: MÁRCIA RAMOS ARÁN
FOMENTO: CNPQ
[email protected] .BR
publicação eletrônica: http://www.ims.uerj.br/sesc
* DANIELA MURTA
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
Em 1997, o Conselho Federal de Medicina, através da Resolução nº. 1.482,
autorizou a realização de cirurgias de transgenitalização em pacientes transexuais no
Brasil, alegando seu caráter terapêutico e partindo do princípio de que “o paciente
transexual é portador de desvio psicológico permanente de identidade sexual, com
rejeição do fenótipo e tendência à automutilação ou auto-extermínio”. A partir disso,
essa intervenção cirúrgica se tornou legítima no país, desde que o paciente apresente
os critérios necessários para a realização da mesma e o tratamento siga um programa
rígido, que inclui a avaliação de equipe multidisciplinar e acompanhamento psiquiátrico
por no mínimo dois anos, para a confirmação do diagnóstico de transexualismo.
Desde então, houve o aumento da demanda de auxílio médico por parte de
transexuais, impulsionando a organização de programas assistenciais que têm, na maior
parte, uma prática clínica orientada pela psiquiatrização da transexualidade, ainda
que apresentem formatos diferenciados de atendimento, conforme observado na I
Jornada Nacional sobre Transexualidade e Saúde: a Assistência Pública no Brasil. Deste
modo, é possível notar que, seguindo uma tendência internacional, a institucionalização
da prática assistencial dirigida a transexuais no Brasil está organizada a partir do
diagnóstico psiquiátrico de Transtorno de Identidade de Gênero, que ao mesmo tempo em
que permite o acesso ao tratamento e muitas vezes significa o próprio exercício de
cidadania, é também vetor de patologização e de estigma, atribuindo uma patologia
ao paciente sem questionar as questões históricas, políticas e subjetivas da
psiquiatrização da transexualidade (Arán, Murta, Zaidhaft, no prelo).
Diante disso, o presente trabalho tem como objetivo discutir a transexualidade
no contexto das políticas de saúde pública no Brasil, problematizando a necessidade do
diagnóstico de Transtorno de Identidade de Gênero como condição de acesso ao
tratamento na rede pública, analisando o debate sobre as políticas de saúde para
transexuais no país e discutindo a questão da autonomia dos transexuais.
Busca-se compreender de que forma se deu historicamente a psiquiatrização
da transexualidade, visto que o que define a mesma como uma patologia seria a nãoconformidade entre sexo biológico e gênero descrita pelo indivíduo. Destaca-se que
essa definição seria resultado de uma concepção normativa dos sistemas de sexo-gênero,
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publicação eletrônica: http://www.ims.uerj.br/sesc
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
fundamentados numa matriz binária heterossexual que se converte em sistema
regulador da sexualidade e da subjetividade (Arán, 2006). Nesse panorama, por
contrariar a coerência essencial entre sexo biológico e gênero, não se encaixando em
nenhum dos modelos propostos de identidade sexual em conformidade com as práticas
discursivas do século XIX, nota-se que restou exclusivamente à transexualidade ocupar
o espaço que foi aberto pela psiquiatrização da homossexualidade: o de uma patologia
da identidade sexual (Murta, 2007).
Em seguida, considerando o processo de legalização da cirurgia de
transgenitalização no país, as resoluções do Conselho Federal de Medicina, os fóruns
que se constituíram para debater o tema e a recente decisão de incluir os procedimentos
cirúrgicos de mudança de sexo na tabela o Sistema Único de Saúde (SUS) a partir da
decisão do tribunal Regional Federal da 4ª Região, que determinou a realização da
cirurgia de transgenitalização pelo sistema público de saúde, verifica-se que a legalização
da cirurgia de transgenitalização e de procedimentos afins foi um processo longo,
cercado de diversas discussões que permanecem até hoje. Nesses debates, nota-se
uma preocupação que vai desde a licitude ética e penal da “cirurgia de conversão
sexual” até a definição da cirurgia como a etapa mais importante no tratamento de
transexualismo, pela possibilidade de adaptar a morfologia genital ao sexo com o qual
o indivíduo se identifica. Essa compreensão da cirurgia de redesignação sexual, justificada
pelos princípios de beneficência, autonomia e justiça tornou legal, desde 1997, a
realização da cirurgia de transgenitalização e procedimentos afins no Brasil.
Nesse panorama, é possível observar que desde 2003 existem discussões sobre
a formulação de políticas inclusivas para toda a população de gays, lésbicas, transgêneros
e bissexuais no Brasil, que culminaram nos debates atuais sobre atenção integral a
transexuais no Ministério da Saúde. A partir da definição desse grupo como vulnerável
à exclusão social, pelo Conselho Nacional de Combate à Discriminação (CNCD), o
mesmo passou a fazer parte da pauta dos gestores de políticas públicas e foi incluído
em programas que tivessem como objetivo garantir os direitos de gays, lésbicas,
transgêneros e bissexuais (Graner, Stefanie, Lionço, 2005).
Além disso, espaços formais de debate sobre políticas inclusivas para esses
grupos foram constituídos através da criação do Comitê Técnico para a formulação da
proposta de Política Nacional de Saúde da População de Gays, Lésbicas, Transgêneros
e Bissexuais (GLTB). Este vem consolidando avanços significativos nas discussões sobre
saúde de transexuais através de sólida pactuação de interesses entre o movimento
social de transexuais e o Ministério da Saúde, como a regulamentação do processo de
redesignação sexual no SUS, a inclusão de previsões de distribuição de medicações
específicas, a inclusão da cirurgia de transgenitalização na tabela do SUS, a promoção
da inclusão desses indivíduos como cidadãos de direitos e a inclusão de transexuais no
SUS de forma mais ampla que a questão da cirurgia de redesignação sexual (Arán,
Murta, Lionço, 2006). Paralelamente, ainda em 2004, foi instituído, sob a
responsabilidade da Coordenação Geral de Alta Complexidade da Secretaria de Atenção
à Saúde do Ministério da Saúde, um grupo de trabalho para discutir a inclusão da
cirurgia de transgenitalização e procedimentos complementares sobre gônadas e
66
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Palavras-chave: transexualidade; saúde pública; SUS.
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
caracteres sexuais secundários na tabela de procedimentos do SUS (Arán, Murta,
Lionço, no prelo).
De qualquer modo, como efeito das recomendações oriundas da reunião sobre
o Processo Transexualizador no SUS, as subseqüentes discussões internas do referido
grupo de trabalho consideraram a pertinência de reformular e atualizar a minuta de
portaria proposta em 2004, atendendo às demandas do segmento de transexuais pela
integralidade da atenção no processo transexualizador, bem como atendendo à premente
exigência de humanização e qualificação da atenção, para além da questão cirúrgica,
embora sem dela prescindir.
Neste sentido, e visando a garantir a universalidade e a integralidade na atenção
à saúde desse segmento populacional, optou-se pelo esboço de Diretrizes do Ministério
da Saúde para o Processo Transexualizador no SUS, processo este em discussão quando
da recente ação do Ministério Público Federal para a pronta inclusão da cirurgia de
redesignação sexual na tabela do SUS. As diretrizes esboçadas acompanham a proposta
estratégica de implementação e qualificação dos serviços de atenção a transexuais no
SUS, de modo que haja uma normatização do processo transexualizador em sua
perspectiva integral, bem como a preocupação em não tornar a patologização da
transexualidade a porta de acesso dessas pessoas ao sistema de saúde.
Por fim, ao destacar a importância de compreendermos a diversidade de formas
de subjetivação e de construção de gênero na transexualidade, discute-se a questão da
autonomia dos transexuais, a fim de repensar as políticas públicas dirigidas aos mesmos
de modo que sigam um protocolo assistencial mas não tenham como única referência
a realização do diagnóstico e a cirurgia de transgenitalização. Embora a associação do
diagnóstico de transexualismo à redesignação sexual tenha viabilizado a
institucionalização do debate sobre a assistência dessa clientela na rede pública de
saúde, devemos considerar a complexidade que envolve compreender essa condição
como uma anormalidade, destacando o paradoxo de que, se por um lado o diagnóstico
legitima a demanda por redesignação sexual e possibilita o acesso aos serviços de
saúde, por outro é raiz de restrições sociais e estigma que afetam diversos níveis da
vida desses indivíduos, reforçando sua condição de exclusão social.
Portanto, torna-se fundamental manter um campo de reflexão sobre o tema, a
fim de promover um deslocamento que permita aos serviços de assistência a transexuais
acolher integralmente esses indivíduos, valorizando sua diversidade e sem estar fixados
apenas na exigência institucional de confirmação do diagnóstico. Afinal, a definição de
saúde como um direito de todos, apontada pela Organização Mundial da Saúde, na
qual estão fundamentadas as diretrizes do SUS brasileiro, se baseia na noção de que
saúde não é ausência de doença, mas sim um estado de bem-estar físico, mental e
social.
67
Referências
ARÁN, M. A. Transexualidade e a gramática normativa do sistema sexo-gênero.
Ágora - Estudos em Teoria psicanalítica. Rio de Janeiro, v. 9, n. 1, p. 49-63, 2006.
ARÁN, M.; MURTA, D.; ZAIDHAFT, S. Transexualidade: corpo, subjetividade e
saúde coletiva. Psicologia e Sociedade. Porto Alegre, 2008.
ARÁN, M., MURTA, D., LIONÇO, T. Transexualidade e saúde pública no Brasil.
No prelo, 2007.
GRANER, B.; STEFANIE, A.; LIONÇO, T. Movimento GLBT e transexualidade
nas políticas públicas de saúde no Brasil: idiossincrasias e sincronismos. In:
SEMINÁRIO INTERNACIONAL FAZENDO GÊNERO, 7., 2005, Florianópolis.
Anais eletrônicos. Florianópolis: UFSC, 2005. Simpósio temático 16 - Sexualidades,
corporalidades e transgêneros: narrativas fora da ordem. Disponível
em: < http://www.fazendogenero7.ufsc.br/artigos/G/Graner-StefanieLionco_16.pdf>. Acessado em: 23/10/2006.
MURTA, D. A psiquiatrização da transexualidade: análise dos efeitos do diagnóstico de
Transtorno de Identidade de Gênero sobre as práticas de saúde. Dissertação (Mestrado em
Saúde Coletiva), Instituto de Medicina Social, UERJ, Rio de Janeiro, 2007.
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Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
68
DO HUMANO AO NÚMERO: UMA BREVE
ANÁLISE DESSA PASSAGEM QUE OCORRE NA
CIÊNCIA MODERNA E DAS CONSEQÜÊNCIAS
DOS SEUS USOS NA AÇÃO MÉDICA
DOUTORANDA: VERA L. MARQUES DA SILVA*
ORIENTADOR: KENNETH ROCHEL DE CAMARGO JR
1
AVERAMARQUES@ BOL.COM .BR
A expressão caixa-preta é usada em cibernética sempre que uma máquina ou um conjunto de
comandos se revela complexo demais. Em seu lugar, é desenhada uma caixinha preta, a respeito
da qual não é preciso saber nada, senão o que nela entra e o que dela sai. Tais caixas guardam um
conjunto de dispositivos teórico-experimentais que conferem um sentido unívoco a certos dados;
elas são forças ou interesses que confinam alguns conhecimentos, que se tornam estáveis. E temse uma caixa preta quando os elementos existentes são levados a atuar como um só. Para Latour,
entender o que são fatos é o mesmo que entender quem são as pessoas (Latour, 2000).
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* VERA L. MARQUES DA SILVA
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
Este estudo é uma reflexão crítica sobre a valoração da genética e dos números
matemáticos que, ao serem tecidos conjuntamente e se auto-sustentarem, têm
composto o estilo de pensamento da ciência moderna ocidental. Este, por sua vez,
tem influenciado, ou mesmo determinado, a ação médica atual. Tem, como ilustração,
as pesquisas realizadas no campo das ciências laboratoriais, particularmente em relação
à infecção/doença toxoplasmose. A parte do estudo que será apresentada corresponde
à observação etnográfica da técnica de extração do DNA realizada no Laboratório
Reconhecer, da Universidade Estadual do Norte Fluminense/Darcy Ribeiro. O
objetivo principal do estudo é compreender a produção de “marcas” no Laboratório,
as quais serão, posteriormente, utilizadas na ação médica. Ou seja, compreender a
produção e a relação, considerando o grau de existência e o grau de correspondência
(referência circulante), entre o que se produz no Laboratório com o que existe no
mundo fora do Laboratório, a partir, principalmente, das análises de Latour (1997,
2000, 2001) e Hacking (1983, 1992, 1999).
O interesse em investigar a prática que ocorre no campo esotérico, em
particular a realizada pela ciência laboratorial, um dos campos da ciência biológica,
surgiu pelo fato de a ação médica, na contemporaneidade, estar se apoiando sobretudo
no conhecimento e nas redefinições propiciadas por essa ciência. O médico, além de
considerar, muitas vezes, esse conhecimento como o mais central e o mais essencial
para sua ação, o utiliza, segundo Camargo Jr. (2003a), de forma acrítica, como se o
mesmo fosse uma “caixa-preta” 1 (Latour, 2000). Assim, um outro objetivo deste
estudo é contribuir para uma visão menos acrítica da ação médica em relação à
construção do conhecimento científico e das redefinições das categorias diagnósticas
propiciadas pelas ciências laboratoriais.
69
O aprofundamento na intervenção única já tem acontecido em algumas categorias diagnósticas,
como, por exemplo, na úlcera péptica. A causalidade detectada, como a principal, pelo Helicobacter pylori tem levado a um descarte de todas as outras orientações terapêuticas que, num
passado bem recente, levavam a melhoras do quadro clínico, como a mudança dos hábitos
alimentares e outros. Atualmente, concentra-se na terapêutica medicamentosa, deixando à margem as outras orientações.
3
A visão de estabilidade e acúmulo de conhecimentos na ciência, uma visão renascentista, foi
erodida por Kuhn e Popper, através de suas respectivas teorias de Revolução Científica e de
Refutabilidade. Conseqüentemente, as ciências passaram a ser vistas como sujeitas às mudanças,
por conta de revoluções ou por conta de refutações. Segundo Hacking, Popper e Kuhn foram
influenciados pelas revoluções sucessivas das teorias de Einstein sobre o espaço e o tempo,
levando-os a formular suas teorias de Refutabilidade e Revolução Científica (1992). Hacking
chama a atenção para esse momento histórico, em que a relação entre teoria e experimento foi
perdida, ou seja, a ciência experimental foi pouco considerada. Era um momento completamente Kantiano da filosofia da ciência (Hacking, 1992).
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2
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
Ao utilizar o conhecimento das ciências laboratoriais e as redefinições
subseqüentes do mesmo, a ação médica deixa à margem, muitas vezes, o conhecimento
de outros saberes e de outras ciências, como, por exemplo, os das ciências humanas e
da epidemiologia social, que estariam envolvidos, também, nessa ação. Esse
reducionismo organicista da medicina vigente tem trazido conseqüências, sendo fruto
de análises de diversos autores (Foucault, 1980; clavreul, 1983; Birman, 1991; Bonet,
1999 e Camargo Jr., 2003). Pode ser considerado um “estilo de pensamento” (Fleck,
1979) na ação médica atual. Como estilo de pensamento, esse reducionismo organicista
funcionaria como um obstáculo epistemológico em relação à incorporação de outras
lógicas, que não as biológicas, nessa ação. Por outro lado, segundo os historiadores (e
médicos), o desenvolvimento da bacteriologia, apesar do reducionismo organicista
conseqüente, propiciou uma transformação radical do conhecimento médico e da
medicina nos séculos XIX e XX, principalmente, pela aliança entre as ciências de
laboratório (química, histologia, bacteriologia) e a “medicina de beira de leito” (Löwy
apud Portocarrero, 1994). Esse reducionismo organicista tem se aprofundado na busca
da causalidade nas pesquisas genéticas, com outras conseqüências na ação médica, como,
por exemplo, e entre outros, a busca de uma causalidade única, o que poderá gerar, por
conseguinte, o aprofundamento do reducionismo de uma ação de intervenção única 2.
Em relação a esse processo de construção do conhecimento científico e das
subseqüentes redefinições de uma categoria diagnóstica propiciado pelas ciências
laboratoriais, três questões merecem ser consideradas.
A primeira questão diz respeito tanto à definição de ciência laboratorial quanto
ao conhecimento científico decorrente dessa ciência como um processo de construção.
Segundo Hacking (1992), as ciências laboratoriais são aquelas que estudam fenômenos
criados em um espaço não-natural, através de aparatos e em condições de isolamento e
de interferência, com a finalidade de aumento do conhecimento, compreensão e controle
desses mesmos fenômenos criados. As ciências laboratoriais possuem, como uma de
suas especificidades, uma tendência à estabilidade e, portanto, a um extraordinário
acúmulo de conhecimento, de dispositivos e de práticas, antes que de mudanças de
conhecimento, como no sentido kuhniano (revoluções) ou popperiano (refutações)3.
Mesmo tendendo mais à acumulação do que mudança, a ótica do estudo que
gerou este artigo é a de que o conhecimento resultante das práticas das ciências
laboratoriais é decorrente de uma construção. Uma construção na ótica de Hacking e
70
Assume-se a concepção de Medicina Científica, pelo fato de a mesma estar consagrada academicamente, após o surgimento da medicina anátomo-patológica. A opção do marco histórico da
Medicina Científica, a partir do século XIX, não desconsidera as outras medicinas e nem as ocorridas em outras épocas e civilizações. Particularmente, acreditamos na idéia de um tipo de “ciência” em outras medicinas e em outras épocas e civilizações. Assim, na medicina egípcia já havia
conhecimentos sobre a inoculação humana contra a varíola e a associação entre a peste bubônica
e rato, entre outros. A medicina grega, com a Escola de Hipócrates, levava em consideração, na
determinação das doenças, o clima, a alimentação e as águas, privilegiando a visão holística do
ser humano, enquanto a escola médica de Cnidos se concentrava sobre o órgão afetado pela
doença (Arouca, 2003).
5
A física de alta energia era a rainha das ciências. Com o fim da Guerra Fria, esse lugar foi ocupado
pela nova rainha, a biologia molecular (Hacking, 1999).
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4
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
Latour e, portanto, não relacionada ao acúmulo ou inovação do conhecimento científico.
Porém, a partir da própria definição das ciências laboratoriais e por estar se referindo
a um conhecimento científico construído especificamente pelas mesmas, depreendese que, mais do que construir conhecimentos científicos, as ciências laboratoriais
constroem, ou estudam, “fenômenos” ou “fatos” científicos. Para Hacking (1999), o
conceito “construção” corresponde a uma ótica de que os fatos e os fenômenos são
construídos e não observados, o critério de verdade é produzido e não predeterminado,
e os fatos científicos são reais, uma vez construídos, embora a realidade científica não
seja retroativa. Latour (2001), em convergência com Hacking (1999), afirma que os
fatos são construídos, mas que possuem, ao mesmo tempo, uma existência. Uma
“existência relativa”, diz o autor, pois delimitada pelo invólucro espácio-temporal e
dependente da prática e da disciplina a qual os fatos pertencem. E, como construção,
acrescentar-se-ia, os fatos e os fenômenos poderiam ser construídos de forma diferente,
pois não são inevitáveis (Hacking, 1999).
A segunda questão diz respeito à que, na “medicina científica”4 atual, as pesquisas
nas ciências laboratoriais estão cada vez mais envolvendo os pacientes e os médicos
que os acompanham. Para Rabinow (1999), a legitimidade das biociências, atualmente,
tem se apoiado na pretensão de produção da “saúde”, já que a mera produção da
“verdade” tem sido insuficiente para sensibilizar os capitalistas detentores de capitais
de risco, os escritórios de patentes e mesmo os próprios centros de pesquisas, pois
esses últimos dependem, muitas vezes, e em grande proporção, de investimentos dos
dois primeiros para sua operacionalização. Ou seja, as pesquisas das biociências são,
inicial e principalmente, justificadas para os diversos aspectos de produção da “saúde”,
mesmo que, posteriormente, possa haver afastamento de seus objetivos e justificativas
iniciais, como o decorrente, por exemplo, e entre outros, da lógica oportunista dos
pesquisadores (Knorr-Cetina, 1981). Os cientistas sabem disso e se empenham nas
pesquisas que tenham a pretensão da produção de “saúde”, levando a uma circularidade
da legitimidade entre a ciência e a medicina. Assim, enquanto os médicos têm baseado
seus atos ancorados no conhecimento científico, que funciona como uma autoridade
epistêmica, os cientistas biomédicos têm, por outro lado, justificado suas pesquisas
em termos de suas contribuições potenciais para a solução dos problemas de saúde.
A terceira diz respeito à posição ocupada pela biologia molecular na atualidade.
A biologia molecular é a rainha atual das ciências 5, ou seja, ela é o “estilo de
pensamento” reinante e predominante nas pesquisas científicas das ciências laboratoriais
71
Palavras-chave: estilo de pensamento; marcas; referência circulante.
CANGUILHEM, G. O normal e o patológico. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2002.
HACKING, Ian. Representing and Interwining. Cambridge: Cambridge University
Press, 1983.
________. The Self-Vindication of the Laboratory Scienses. In: PICHERING,
A. (Ed.). Sciense as practice and culture. Chicago: The University of Chicago Press,
1992. p. 29-64.
________. The Social Construction ofWhat? Cambridge: Harvard University Press, 1999.
LATOUR, B.; WOOLGAR, S. A vida em laboratório: a produção dos fatos científicos.
Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1997.
________. Ciência em ação: como seguir cientistas e engenheiros sociedade afora.
São Paulo: Unesp, 2000.
________. A esperança de Pandora: ensaios sobre a realidade dos estudos científicos.
Bauru: EDUSC, 2001.
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Referências
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
atuais. Conseqüentemente, as pesquisas estão sendo redirecionadas para a busca de
causalidade genética nas diversas categorias diagnósticas, como a do objeto deste estudo,
a infecção/doença toxoplasmose.
Como uma das considerações gerais, as pesquisas nas ciências laboratoriais têm
propiciado melhorias em algumas questões de saúde, mesmo porque elas realizam
uma referência circulante entre os fenômenos criados, via os fragmentos humanos,
com o humano do qual foi extraído esse mesmo fragmento. Mas, além de graus
diferentes e de ser dependente do contexto, essa referência não pode prescindir de
incluir outros fenômenos e outros fatos construídos em outros espaços. Ou seja, haveria
referência entre o espaço do corpo e o espaço do Laboratório, mas haveria também
referências entre o espaço do corpo com os outros espaços. Outros espaços, que não
os do Laboratório, como os fatos e os fenômenos do espaço social e os do espaço
mental. Considerando, especificamente, a infecção/doença toxoplasmose, a pesquisa
genética já tem encontrado referências entre determinados fatores imunológicos de
proteção e as lesões oculares. Uma referência que se manifesta através de marcas, de
dispositivos de inscrição e de valores numéricos.Valores numéricos que, quando vistos
acriticamente, estimulariam uma tendência de busca da instauração ou restauração
dos valores considerados normais, independentemente das manifestações clínicas
(Canguilhem, 2002). Em suma, às expensas do grau de existência e do grau de
correspondência, a valoração da genética e da matemática tem propiciado um
aprofundamento do reducionismo organicista, dessa vez, devido à subseqüente ação
médica guiada por uma ótica de intervenção única.
72
MESA 5
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Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
DOR CRÔNICA
E CUIDADOS
EM SAÚDE
73
PERFIL DO PACIENTE ONCOLÓGICO
COM DOR CRÔNICA
MESTRANDA: ANA VALÉRIA PARANHOS MICELI*
ORIENTADOR: BENILTON BEZERRA JR.
I - JUSTIFICATIVAS
Segundo o Instituto Nacional de Câncer (www.inca.gov.br) , no Brasil, as
estimativas para o ano de 2006 apontam que ocorrerão 472.050 casos novos de câncer.
O câncer é uma doença que se associa em algum momento à dor, justificando a
necessidade de maior investimento nos estudos sobre a dor.
INSTRUMENTOS, TÉCNICAS E MATERIAIS UTILIZADOS
Utilizamos questionário por nós confeccionado constando de um total de 32
perguntas, formuladas em linguagem acessível, sendo 23 fechadas (múltipla escolha),
6 abertas e 3 mistas (múltipla escolha, mas com a possibilidade de acrescentar algum
dado). As perguntas pesquisavam os pacientes quanto a: gênero; idade; escolaridade;
estado civil; situação de trabalho; distribuição por clínicas; tempo de INCA; ciência
* ANA VALÉRIA PARANHOS MICELI
ANAVALERIAPM@GMAIL. COM
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III - METODOLOGIA DE DESENVOLVIMENTO
POPULAÇÃO PARTICIPANTE
A amostra da pesquisa constou de 120 pacientes em curso de tratamento no
ambulatório da Clínica de Dor do Instituto Nacional de Câncer (INCA), maiores de
18 anos, que compareceram para consultas de rotina durante o período de aplicação
do questionário (maio a agosto de 2003). Foram excluídos aqueles que tivessem vindo
em caráter de emergência e os pacientes de 1ª vez na Clínica.
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
II – OBJETIVOS
Geral: Conhecer o perfil dos pacientes com dor crônica oncológica.
Específicos: Conhecer a amplitude do sofrimento decorrente da dor em
câncer; avaliar o nível de conhecimento dos pacientes sobre sua doença e sua dor;
identificar as percepções e expectativas quanto ao atendimento recebido na
Instituição, em especial no tocante à relação terapêutica, caracterizando o grau de
satisfação com o cuidado recebido e de que modo a postura do profissional poderia
modular a experiência de dor do paciente; avaliar de que modo ocorrera o
encaminhamento do paciente à Clínica de Dor.
74
da doença e como a designa; auto-avaliação do nível de informação sobre a doença;
postura durante as consultas médicas; tempo apresentado de dor; tratamento prévio
recebido (eficaz ou não e de qual profissional) para a dor; diagnóstico médico recebido
sobre a dor; tempo de queixa anterior ao encaminhamento e profissional que
encaminhou á clínica de dor; tempo de tratamento na clínica de dor; auto-avaliação
sobre o nível de informação sobre a dor; opinião sobre causas (doença/tratamento) da
dor; explicação recebida sobre a clínica de dor no encaminhamento; conhecimento
prévio da clínica de dor; sentimento ao ser encaminhado e sentimento atual; expectativa
de eficácia de tratamento; expectativa de conduta do profissional para satisfação com
o tratamento de dor; expectativa de tempo de tratamento de dor; prejuízos trazidos
pela dor; fatores associados à piora e à melhora da dor; influência na melhora ou na
piora da dor frente à postura do profissional ao atender o paciente; expectativas de
cura da doença e da dor.
V – RESULTADOS
FREQÜÊNCIAS SIMPLES
Na distribuição de freqüências simples, o paciente do INCA com dor
crônica é predominantemente do sexo feminino (66,66%) e na faixa etária entre 41 e
65 anos (70,83%), porém variando de 32 a 80 anos de idade; com nível de escolaridade
até o primário (50,83%); casado ou “amigado” (53,33%); inativo (90,83%), sendo
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IV - TRATAMENTO DOS DADOS
Tratamento estatístico utilizado:
a) Valores de freqüências simples e percentuais.
b) Teste não-paramétrico de X² para a verificação de associações entre perguntas,
adotando-se para tal o nível de significância de 5% de probabilidade (p = 0,05).
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
MÉTODO DE COLETA DOS DADOS
Os pacientes que satisfizeram os pré-requisitos foram convidados, quando na
sala de espera do ambulatório da Clínica de Dor, por um profissional psicólogo
desconhecido do mesmo, a fim de não constrangê-lo e deixá-lo à vontade para uma
possível recusa, caso não desejasse participar. Após um breve informe sobre a pesquisa
e sua finalidade, e tendo concordado em colaborar, cada paciente foi encaminhado,
individualmente ou em pequenos grupos de dois ou três, a uma sala do ambulatório,
a fim de ler e assinar o Consentimento Livre e Esclarecido. Após estes trâmites, o
examinador, previamente treinado, seguiu aplicando o questionário com o cuidado de
não permitir que as respostas ao mesmo fossem influenciadas ou induzidas por terceiros
e esclarecendo eventual e objetivamente alguma dúvida referente à formulação de
alguma pergunta. Os acompanhantes foram orientados a, na medida do possível,
permanecer ausentes da sala ou em silêncio. Os questionários não foram assinados
pelos pacientes. A equipe da Clínica de Dor foi orientada a não comentar sobre a
pesquisa com seus pacientes e não teve acesso aos questionários e/ou aos dados antes
do término da mesma.
75
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CRUZAMENTOS DE DADOS: ALGUMAS ASSOCIAÇÕES SIGNIFICATIVAS
Dentre muitos outros resultados, ficamos sabendo que os pacientes cientes
da doença têm maior desejo de participação ativa no tratamento e valorizam mais a
postura atenciosa do médico. Homens recebem menos explicação sobre as causas da
dor, mas quando recebem, elas são mais corretamente explicadas do que para as
mulheres. Pacientes cientes da doença recebem mais explicações sobre a dor e os que
se julgam mais bem informados são os que receberam diagnósticos corretos. 47,5%
dos homens foram encaminhados à Clínica de Dor sem explicação, contra 25% das
mulheres. Porém, estas foram, duas vezes mais do que os homens, encaminhadas com
explicações inadequadas. Pacientes que não receberam explicação sobre sua dor e
pacientes do sexo masculino são mais exigentes quanto à eficácia do tratamento.
Pacientes cientes da doença valorizam mais a atenção do profissional. Pacientes mais
exigentes quanto ao tratamento são os que mais exigem que o profissional seja
competente e atencioso. Os pacientes com tempo médio de Inca (1 a 5 anos) são os
que mais apontam para a influência da postura do profissional na dor.Todos os pacientes
que estimaram tempo curto (até 6 meses) de tratamento de dor são descrentes na
influência do profissional na piora da dor. Quanto mais tempo de Inca, mais o paciente
valoriza o tratamento multidisciplinar. Pacientes que foram encaminhados mais
rapidamente são mais confiantes na cura da dor.
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
30,83% aposentado por invalidez; em tratamento no INCA de 1 a 5 anos (42,5%) e há
mais de 5 anos (41,66%) e ciente da doença oncológica (85%). Considera-se bem
informado quanto à doença (55,83%), mas menos quanto à sua dor (40%), preferindo
ser participante ativo nas consultas médicas (87,5%). Início de dor datando de mais
de seis meses (90%), sendo superior a três meses o tempo esperado entre a queixa e
o encaminhamento à Clínica de Dor (76,66%). No encaminhamento, 21,66%
receberam explicações médicas quanto à associação entre sua dor e seu tratamento e
16,66% quanto à associação entre sua dor e sua doença. Atualmente, 95% relacionam
a dor à doença e/ou ao tratamento oncológico e imaginam que seu tratamento para
dor durará vários anos ou a vida toda (72,5%). A dor trouxe prejuízos à qualidade de
vida de 83,33%, sobretudo nas esferas pessoal (67,5%), profissional (58,33%), familiar
(51,66%), social (48,33%), sexual (37,5%), amorosa/conjugal (35,83%), e em todas
as esferas juntas (29,16%). O estado de ânimo apareceu como o principal fator
(69,16%) na piora da dor, seguido de problemas familiares (48,33%), preocupações
financeiras (40,83%), efeitos colaterais da medicação (21,66%), uso inadequado da
medicação (14,16%) e esforço físico (9,16%) e 84,16% acreditam que o modo como
é atendido pelo profissional pode influir na melhora da dor, demonstrando ainda preferir
que o profissional seja prioritariamente atencioso (32,5%) do que prioritariamente
um bom técnico (0,83%). Identifica, ainda, que mais do que mudar de medicação
(20,83%), outros fatores como melhorar sua saúde (79,16%) e receber ajuda financeira
(61,66%), apoio de outros profissionais além do médico (57,5%), apoio familiar/
amoroso (47,5%) e de amigos/colegas (29,16%) ajudariam na melhora de sua dor,
mas, no geral, 90,83% estão satisfeitos com o tratamento recebido para a dor.
76
VI - CONCLUSÕES
Os resultados ratificam o caráter subjetivo da dor e a importância da abordagem
multidisciplinar no tratamento desta, o mais rápido possível, levando, também, ao
levantamento de muitas perguntas e hipóteses que serão estudadas em um próximo
momento.
Palavras-chave: Dor crônica; câncer; oncologia; cuidado; cuidados paliativos.
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Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
77
A EXPERIÊNCIA DA DOR CRÔNICA:
SUBJETIVIDADE E PRÁTICAS MÉDICAS
MESTRANDA: RAQUEL ALCIDES DOS SANTOS*
ORIENTADORA: MARILENA CORRÊA
CO-ORIENTADORA: MÁRCIA RAMOS ARÁN
RAQUELALCIDES @UOL. COM.BR
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* RAQUEL ALCIDES DOS SANTOS
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
O estudo da dor crônica é um campo relativamente recente e vem ganhando
visibilidade mundialmente em função da dimensão do problema em termos de Saúde
Pública. No Brasil, em 2002, foi instituindo no âmbito do SUS, o Programa Nacional
de Assistência à Dor e Cuidados Paliativos. Esse programa inclui o tratamento da dor
crônica no quadro dos serviços especializados oferecidos à população na esfera da
saúde pública, instituindo os Centros Especializados no Tratamento da Dor Cronica,
seguindo a orientações teóricas e metodológicas das Clínicas de Dor, termo genérico
que designa uma especialidade na área de saúde que se dedica ao tratamento de dores
agudas e crônicas, malignas ou benignas.
As Clínicas de Dor surgem a partir de um enigma que desafiava a lógica da
racionalidade médica: síndromes dolorosas que não podiam ser explicadas simplesmente
pela anatomia da lesão de origem. Os recursos terapêuticos disponíveis até então,
baseados em teorias que se fundamentavam na equivalência entre nocicepção e dor,
mostraram-se insuficientes para compreender e solucionar o problema, refletindo-se
na prática como insuficiência de recursos para proporcionar alivio da dor,
principalmente nos casos crônicos.
Os estudos desenvolvidos, a partir dessa nova demanda, passam a considerar os
múltiplos fatores envolvidos no fenômeno doloroso e a agregar diferentes especialidades
para compor as equipes envolvidas na sua investigação e tratamento. Esse
redimensionamento se apoiou, em grande parte, nos avanços da neuroanatomia que
levaram ao reconhecimento da complexidade do sistema nervoso, possibilitando a
constatação da influência de fatores emocionais, cognitivos e motivacionais na modulação
da dor e na explicação das dores desproporcionais à lesão. A necessidade de considerar
a multiplicidade de aspectos envolvidos na expressão final do fenômeno doloroso,
conferindo-lhe caráter absolutamente singular em cada indivíduo, é o fio condutor do
que orienta a produção teórica e a prática dessa especialidade.
Isso pode ser muito bem ilustrado pela definição de dor aceita pela IASP
(International Association for the Study of Pain): “Experiência sensorial e emocional
desagradável, associada a dano tecidual potencial ou de fato ou, ainda, descrita em
termos que sugerem tal dano”. Essa abordagem holística reúne profissionais de
78
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diferentes especialidades da medicina, além de psicólogos, fisioterapeutas, enfermeiros,
e outros, embora o predomínio seja das especialidades médicas. A terapêutica é voltada
para a reabilitação e não para a cura, uma vez que a dor é entendida como uma doença
crônica. Nesse sentido, é orientação comum auxiliar o paciente a compreender e aceitar
sua dor para poder reorientar sua vida a partir disso. Objetiva-se que o paciente melhore
sua qualidade de vida, retomando atividades ocupacionais, sociais e de lazer interrompidas
com o início do quadro doloroso. De um modo geral o foco é a adaptação à dor.
Os esforços no desenvolvimento dessa especialidade têm-se concentrado no
reconhecimento da dor como uma entidade clínica independente e não apenas como
um sintoma diluído em um quadro nosológico. Uma das preocupações principais dos
defensores dessa abordagem é a necessidade de sensibilização dos profissionais de
saúde em relação à valorização da dor. Segundo esse argumento, o entendimento da
dor como sintoma a associa irremediavelmente à idéia de lesão, enquanto seu
entendimento como doença crônica amplia a possibilidade de compreensão dos diversos
elementos envolvidos na sua origem e manutenção.
A concepção da dor como doença implica alterações permanentes que são
esperadas como parte do processo da doença tanto no nível físico quanto psíquico.
Essa tese é baseada na neurofisiologia: em função da neuroplasticidade, um estímulo
doloroso prolongado pode provocar alterações estruturais no sistema nervoso,
provocando alterações nos padrões de resposta à dor, disparando resposta de dor na
presença de estímulos inócuos ou de baixa intensidade. Assim perde a função orgânica
natural, qual seja, sinalizar alguma lesão ou disfunção.
As Clínicas de Dor têm gerado importantes avanços em relação ao
entendimento e tratamento dos quadros dolorosos, contribuindo para a melhoria da
assistência prestada aos pacientes que sofrem de dores agudas e crônicas. A principal
inovação em relação à proposta é o resgate da importância da escuta clínica. Por sua
natureza própria, dor só pode ser comunicada a partir da fala; não existem exames
que possam detectá-la ou mensurá-la. Logo é impossível, para aqueles que se propõem
a trabalhar com esses pacientes, proteger-se desse encontro com a narrativa do
sofrimento do outro e, conseqüentemente, do encontro com seu próprio sofrimento.
Para o profissional de saúde, implica suportar o encontro com esse paciente que põe
em xeque a todo o momento seu conhecimento, surgindo com ele uma demanda que
exige algo que está muito além de uma consulta técnica, e que mobiliza questões que
o profissional freqüentemente não está preparado para lidar: a dimensão da experiência
e do sofrimento, aspectos negligenciados na formação médica corrente.
A construção da dor como objeto médico no cotidiano da assistência está sujeita
à constante tensão entre a necessidade, oriunda da racionalidade médica, de objetivação
e mensuração para orientar as intervenções e o entendimento da dor como uma
experiência subjetiva. É freqüente a ambivalência entre o reconhecimento da
multicausalidade e subjetividade, e a tentativa de capturar esses fenômenos com
modelos objetiváveis, cognitivos ou neurológicos, que desconsideram ou minimizam
a experiência e sofrimento e seus determinantes sociais, culturais e políticos. Um
bom exemplo disso aparece em muitos dos textos a respeito do paciente com dor
79
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crônica, onde se parte da neuroplasticidade para justificar características subjetivas
identificadas como comuns aos pacientes com dor crônica, como: “Consulta muitos
médicos”, “Nega conflitos emocionais e familiares”, “Usa a dor como meio simbólico
de comunicação”, etc. Com esse tipo de argumentação corre-se o risco de mascarar
outros elementos que podem motivar esses comportamentos e que se relacionam à
oferta dos serviços de saúde. O fato de algumas pessoas consultarem muitos médicos
não pode estar relacionado ao fato de elas não conseguirem ter suas queixas acolhidas
e adequadamente encaminhadas.
Todo sofrimento emocional se acompanha de sintomas físicos e muitos dos
pacientes que buscam os serviços de saúde, independentemente de portarem algum
problema orgânico, são motivados por sofrimentos relacionados a questões sociais e
políticas, como: precárias condições materiais de vida, violência, problemas trabalhistas.
Como o sofrimento subjetivo carece de legitimidade social, o mal-estar físico passa a
ser a forma possível de comunicação do padecimento, levando esses pacientes a
apresentarem queixas físicas difusas ou a amplificar queixas já existentes.
Muitas dessas queixas, depois de muitos encaminhamentos, acabam por serem
acolhidas nas Clínicas de Dor, que, em função da natureza da sua proposta de indistinção
entre dor física e psíquica, acaba por absorvê-los, diagnosticando-os como portadores
de dor crônica. Portanto, o diagnóstico de “Dor Crônica” acaba por abarcar uma
multiplicidade de experiências e diferentes demandas, sendo utilizado pelos usuários
das mais diversas formas para justificar o acesso ao sistema público de saúde, ao cuidado
e procedimentos médico-hospitalares, a benefícios previdenciários, a medicações,
além do acolhimento e legitimação do sofrimento.
O paradoxo, nesse caso, é que a realização do diagnóstico, ao mesmo tempo
em que possibilita o acesso ao cuidado, impõe condições e prescrições para que o
sofrimento seja reconhecido e tratado: estar doente. Uma vez considerado curado, o
paciente tem alta e fica privado de receber assistência. Esse impasse fica mais claro
ainda no caso de pacientes que estão licenciados do trabalho e precisam de laudos para
continuar recebendo os benefícios sociais. Nesse sentido, o discurso médico pode
contribuir para a cronificação do paciente com dor, uma vez que nomeia e injeta
sentido a vivências antes desconexas, mas um sentido identificado à doença, moldando
o corpo e ressignificando a experiência. A palavra “dor” passa a agregar uma gama
muito mais ampla de sofrimentos e passa a ser a explicação causal para uma série de
infortúnios, materializando todo o seu mal-estar diante da vida. Deixar de ser doente,
nesse caso, é abrir mão de uma identidade recém-conquistada e que lhe confere um
lugar social (cuidados, direitos, desobrigações), muitas vezes, nunca antes obtido.
Portanto, alguns dos fatores que determinam a cronificação da dor vão muito além
dos elementos apontados pelo diagnóstico de “dor crônica”,
Assim, o diagnóstico pode configurar-se como um dispositivo que faz com que
os usuários passem a ressignificar sua experiência e cristalizar os significados para seu
mal-estar em torno da idéia de doença, apartando o fenômeno da “dor/sofrimento”
do contexto em que ela surge e se cronifica – qual seja, a experiência de vida do
sujeito no momento em que a dor surge e a trajetória que ele percorre a partir daí,
80
na tentativa de ter acesso a uma forma de cuidado, como também de dar sentido ao
seu sofrimento. A “dor/doença” passa a ser vista como algo inevitável e que precisa
ser endereçada ao especialista, impossibilitando ou limitando as possibilidades de
entender e conduzir seu padecimento de forma mais singular.
Palavras-chave: Clínicas de dor; sofrimento; cuidado em saúde.
Referências
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Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
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DA NEURASTENIA À SÍNDROME DA FADIGA
CRÔNICA: EM BUSCA DE OBJETIVIDADE PARA
OS TRANSTORNOS LIGADOS À FADIGA
DOUTORANDA: RAFAELA TEIXEIRA ZORZANELLI*
ORIENTADOR: BENILTON BEZERRA JR.
FOMENTO: CAPES
[email protected]. BR
publicação eletrônica: http://www.ims.uerj.br/sesc
* RAFAELA TEIXEIRA ZORZANELLI
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A trivialidade do sintoma da fadiga – o fato de que seja uma queixa cotidiana,
a respeito da qual cada um de nós poderia discorrer a respeito, e de que seja um
sintoma freqüente nos ambientes de cuidado à saúde, públicos e privados – não nos
permite desconsiderar o nível de complexidade que essa experiência traz consigo.
Sua recorrência torna-se visível pela presença, desde a segunda metade do século
XIX, de quadros nosológicos na história médica, cuja queixa central é a exaustão
por mínimo esforço, sem causa orgânica detectável. No ambiente novecentista,
esse quadro foi a neurastenia. Nos tempos atuais, seu exemplo emblemático é a
síndrome da fadiga crônica (SFC).
A fadiga muscular pode ser medida com métodos objetivos, por meio de
instrumentos e testes. No entanto, os correlatos subjetivos da fadiga, ou o que se
denomina sensações de fadiga (fellings of fatigue) têm relações mal compreendidas
com seus correspondentes objetivos, e não se observa uma ligação absoluta entre
esses dois aspectos. A experiência da fadiga é bastante controversa, portanto, já que
sua definição oscila entre uma concepção puramente objetiva, fisiológica, ligada à
expressão de um declínio da atividade de um tecido, órgão ou função, e uma definição
subjetiva ou mental, não ligada a um órgão do corpo, mas ao organismo integralmente.
Além disso, na experiência vivida, a fadiga apresenta muito mais nuanças e
sutilezas do que as distinções acima mencionadas. Podemos permanecer muito mais
dispostos, eficazes e resistentes se estamos diante de uma tarefa que nos desperta
interesse, por exemplo. Não é sem motivo, portanto, que a fadiga tenha gerado e
ainda gere entidades clínicas que sejam, na história da medicina, um lugar privilegiado
para a emergência de hipóteses etiológicas controversas, articuladas a reducionismos
– biológicos e psicológicos – que mais convinham em cada período sociomédico.
O foco deste trabalho são as hipóteses médicas de que se lançou mão, no caso
da neurastenia e da síndrome da fadiga crônica, para conferir a objetividade de que,
por definição, o sintoma da fadiga carece. Para isso, a tese percorre os dois quadros
nosológicos acima mencionados, explicitando suas características, pontos em comum
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e dessemelhanças, e os diferentes modos de outorgar objetividade médica a essas
condições que, na experiência vivida dos pacientes são pouco objetivas.
A esse respeito, um ponto que se destaca é a constatação de que tanto a
neurastenia quanto a síndrome da fadiga crônica são abordadas a partir da pressuposição
de uma lesão funcional. Uma lesão funcional se diferencia de uma lesão estrutural
porque esta última é detectável no exame clínico, demonstrável na avaliação
laboratorial ou por meio de outras tecnologias médicas. As lesões funcionais, mais
incertas, têm seu processo patológico implícito, e sua existência especulativa, porque
não apresentam alterações na estrutura dos tecidos e órgãos.
No caso da neurastenia, considerá-la uma lesão funcional significava supor que
houvesse um substrato orgânico que, no limite, justificaria a série de sintomas dispersos
do quadro. A fraqueza nervosa era, então, supostamente, advinda da perda de nutrientes
pelo sistema nervoso central. O ambiente e seus estímulos desgastantes sugavam a
força nervosa já escassa, atuando sobre o solo do sistema nervoso delicado e suscetível.
Ainda que se tratasse, sobretudo, de um quadro compreendido como resultado do
desenvolvimento da civilização (telégrafo, barulho, máquina a vapor), sua base estava
assentada na depleção da força nervosa. A síndrome da fadiga crônica, por sua vez, é
considerada uma síndrome funcional caracterizada mais por sintomas de sofrimento e
incapacidade do que por anormalidades demonstráveis nos tecidos e na estrutura física.
Supõe-se que, dentre os possíveis agentes ainda não conhecidos, possam estar sobretudo
os vírus, os déficits imunológicos ou as desregulações neuroquímicas, e a postura
investigativa é a de procurá-los por meio dos métodos disponíveis, nos quais se deposita
a esperança de encontrar o substrato físico dessa condição.
O rótulo de funcional é, portanto, um dos elementos que permitiu que tais
transtornos recebessem abordagem da biomedicina. A idéia subjacente, em ambos os
casos, é de que existe um déficit de natureza orgânica que será encontrado por métodos
adequados. O problema da nebulosidade dos sintomas gira, então, em torno da
insuficiência provisória dos métodos, e não da precariedade dos modos de abordagem
de que dispomos para compreendê-los.
Nos dois casos, a objetividade dessas condições tem sido garantida, sobretudo,
por um apelo às explicações reduzidas ao orgânico. As hipóteses preponderantes no
caso da SFC (vírus, imunidade e cérebro) e a explicação da neurastenia (depleção
nervosa devida aos excessos requisitados pela modernidade) são modos de construir a
objetividade dessas condições por meio das narrativas e métodos médico-científicos
disponíveis e culturalmente legítimos.
Esse processo é ilustrado, no caso da síndrome da fadiga crônica, pelo uso
relativamente recente de tecnologias de neuroimageamento. Por meio das imagens
cerebrais, sustenta-se a expectativa de que a natureza da doença retrate visualmente
a si mesma, sem mediação humana. No entanto, essas representações visuais servem
para criar aquilo que pretende ser mostrado, e não apenas para mostrar o que já está
naturalmente ali. Para isso, está em jogo uma série de estratégias, desde a seleção de
certos artigos para publicação à coloração extremada de certas imagens, passando
pela ênfase em achados de significância incerta.
83
Referências
ALAC, M. Negotiating pictures of numbers. Social epistemology. Nov. 18, n 2-3,
April- September 2004, 199-214.
BEARD, G. A practical treatise on nervous exhaustion (neurasthenia); New York: William
Wood, 1880.
publicação eletrônica: http://www.ims.uerj.br/sesc
Palavras-chave: neurastenia; síndrome da fadiga crônica; objetividade científica.
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
Não se pode deixar de aludir também à existência de hipóteses psiquiátricas no
caso da SFC, centradas na investigação da comorbidade entre certos transtornos
(depressivos, somatoformes, e ansiosos) e a referida condição. O que se constata a
respeito das pesquisas com essa orientação é o rechaço que têm obtido entre os
pacientes – processo demonstrado nos movimentos antipsicogênese promovidos
nos sítios virtuais de apoio aos portadores e nas associações de pacientes. Fatores
psicossociais, quando cogitados, dão origem a dúvidas sobre a realidade da doença e
o caráter do sofredor, já que o necessário para a melhora do paciente seria uma
atitude mental apropriada, que dependeria de sua força de vontade, autocontrole e
disposição para mudar.
A postura organicista e antipsicogênese nos parece uma solução compreensível
diante das possibilidades de abordagem que se apresentam. Principalmente no caso da
SFC, há duas posturas possíveis: assumi-la como um transtorno psicossocial e pôr-se
ao lado da psicogênese como possibilidade – o que é um fator desencadeador do
julgamento moral do sofredor; ou assumir explicações reduzidas à biologia, eximindo
o paciente desses julgamentos. Não deve nos surpreender, portanto, que o apelo ao
reducionismo biológico e a postura antipsicogênese caracterizem as narrativas sobre
a SFC, diante das opções restritivas e simplistas que se apresentam.
Para percorrer os caminhos aqui mencionados, apresentamos no primeiro
capítulo um panorama da neurastenia, abordando suas características e definições a
partir de algumas de suas fontes primárias. Ocuparemo-nos também em compreender
a inserção cultural desse diagnóstico, as forças que atuaram para seu uso e legitimidade,
e as hipóteses etiológicas que sobressaíram na justificação do quadro e na tentativa de
torná-lo objetivo. O segundo capítulo diz respeito à síndrome da fadiga crônica, seus
sintomas, definições e abordagem médica, apresentando três hipóteses etiológicas
preponderantes: os vírus, a imunidade e o cérebro e outras em voga, embora com
menos destaque e adesão. O terceiro capítulo, por sua vez, traz uma ilustração da já
referida busca de objetividade, analisando especificamente a hipótese cerebral no
caso da síndrome da fadiga crônica, e o uso de neuroimageamento, a partir da década
de 1990. Debateremos, por fim, a inserção cultural desse diagnóstico na virada do
século XX para o XXI, contrastando suas semelhanças e diferenças com a neurastenia
novecentista e analisando as hipóteses etiológicas construídas para dar sentido e
legitimidade a essas condições.
84
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illness experience in chronic fatigue syndrome. Medical Anthropology Quaterly. New
Series, v. 6, n. 4, p. 347-361, dez. 1992.
85
GESTÃO DA MORTE E PRÁTICAS DE SAÚDE:
UMA DISCUSSÃO A PARTIR DOS
CUIDADOS PALIATIVOS
DOUTORANDA: SUELY OLIVEIRA MARINHO*
ORIENTADORA: MÁRCIA RAMOS ARÁN
CO-ORIENTADORA: MARILENA CORRÊA
SUMARINHO @YAHOO. COM.BR
publicação eletrônica: http://www.ims.uerj.br/sesc
* SUELY OLIVEIRA MARINHO
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
O presente trabalho refere-se a uma pesquisa qualitativa exploratória que tem
por objetivo geral investigar os efeitos da gestão normativa da morte presente nos
cuidados paliativos para as práticas de saúde, em especial no que tange às tecnologias
de assistência à saúde presentes no encontro terapêutico propriamente dito, e para a
produção de subjetividade. Para tal, toma-se por referência o conceito de cuidado
integral voltado para essa parcela de usuários do sistema público de saúde no contexto
da biopolítica contemporânea. Neste sentido, pretende-se analisar esta tecnologia de
cuidado como uma política pública, enquanto estratégia biopolítica da medicina na
contemporaneidade, produtora de um conjunto de leis de verdade que pretende definir
e circunscrever, através do cuidado e do controle, o que seria um sujeito em final de
vida (“identidade FPT – fora de possibilidades terapêuticas”) e como deveria se dar o
seu morrer (“boa morte”). Por outro lado busca, a partir da discussão teórica e análise
da pesquisa de campo, identificar e resgatar os processos singulares de subjetivação
que produzam estratégias de resistência e de liberdade no interior das relações de
poder que aí se localizam.
Este recorte de trabalho se deve ao fato de a área dos cuidados paliativos ser
entendida como uma tecnologia de cuidado e gestão da morte nesse início de século,
porém, como pretendem os profissionais que aí atuam e seus divulgadores, assente
numa ética de responsabilidade e voltada para o respeito aos direitos humanos.
O conceito de integralidade é utilizado como eixo norteador de análise porque,
em seus diversos sentidos – quais sejam, como princípio orientador das práticas dos
profissionais de saúde, como princípio orientador da organização do trabalho ou das
organizações das políticas –, a integralidade implica uma recusa ao reducionismo, que
toma os sujeitos da ação e serviços de saúde como meros objetos. Implica também a
afirmação da abertura ao diálogo, que tem significado humanização em saúde e,
principalmente, a ampliação das percepções das necessidades dos grupos, interrogandose sobre as melhores formas de dar respostas a tais necessidades, as quais passam a ser
consideradas em seu sentido mais amplo possível (Mattos, 2006, p. 63-64).
86
publicação eletrônica: http://www.ims.uerj.br/sesc
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
Deste modo, se a partir da noção de integralidade os serviços devem estar
organizados para realizar uma apreensão ampliada das necessidades da população à
qual atendem, e não apenas centrar-se exclusivamente na resposta a suas doenças, em
cuidados paliativos, verifica-se que esse entendimento ampliado se torna uma questão
de importância capital. Estamos diante de um paciente cujas doenças já não respondem
a tratamentos curativos e suas necessidades ultrapassam tais expectativas, devendo
estas ser devidamente conhecidas para que se possa, de fato, garantir aos mesmos o
direito universal ao atendimento das suas necessidades no âmbito da saúde. O trabalho
é atravessado pela discussão de dois grandes paradigmas em saúde, o paradigma da
cura e, mais recentemente, o paradigma do cuidar, dando destaque a este último por
constituir-se no específico dos cuidados paliativos e por entender que, a partir de seus
postulados, poder-se-á prover uma assistência dentro dos moldes da integralidade em
saúde para o paciente no final da vida. O paradigma do cuidar significa um deslocamento
do foco de intervenção das práticas de saúde, que passa da cura das patologias para o
cuidado dos sujeitos doentes (Valla e Lacerda, 2003, p. 95), fatos, entretanto, que não
se excluem. Cuidar, além de implicar respeito, preocupação e responsabilidade para
com o próximo, significa uma atitude interativa que inclui o envolvimento e o
relacionamento entre as partes, compreendendo acolhimento, escuta do sujeito,
respeito pelo seu sofrimento e pelas suas histórias de vida (Valla e Lacerda, 2003, p.
95). Valla e Lacerda defendem o cuidado, portanto, não mais restrito à dimensão
técnica e aos cuidados tradicionais de higiene, mas como uma dimensão da integralidade
das ações em saúde. Por sua centralidade neste campo de práticas, o trabalho pretende
problematizar até que ponto a noção de cuidado pode ser considerada como um
norteador da assistência aos indivíduos na etapa final de suas vidas, com base em
autores como Ayres (2004), bem como sua discussão sobre os diversos sentidos do
cuidado em Hannah Arendt (2004), com base em sua categoria de Juízo.
Para refletir sobre a noção de cuidado que oriente as práticas de saúde e alcançar
o objetivo deste trabalho, irei deter-me na reflexão de uma modalidade de assistência
em medicina denominada “cuidados paliativos”, que tem por objeto de sua prática e
discurso o paciente no final da vida, denominado como “fora de possibilidades
terapêuticas - FPT”. Buscarei problematizar a constituição deste novo saber enquanto
uma técnica de cuidado, mas também através do questionamento do controle médico
de importantes setores da vida biológica, com ênfase nos seus impasses, limites e
também benefícios.
Os cuidados paliativos, deste modo, constituem um campo de práticas que lida
com a ambivalência entre privilegiar a busca da vida e conjurar o medo da morte,
ambivalência que marca o próprio campo da saúde, especialmente expressa no conceito
central de sua normatividade – o conceito da “boa morte”. Os pacientes, neste caso
abstratos, podem ser divididos entre bons e maus, o que ilustra a normatização presente
no cuidado à etapa final da vida, de modo que, sob o ideário dos cuidados paliativos,
espera-se que doentes e familiares devam ser capazes de construir um percurso ideal,
desempenhando seus devidos papéis (Menezes, 2004, p. 120).
87
Referências
ARENDT, H. Responsabilidade e julgamento. São Paulo: Companhia das Letras. 2004.
ARIÈS, P. História da Morte no Ocidente: da Idade Média aos nossos dias. Rio de
Janeiro: Francisco Alves, 1977.
publicação eletrônica: http://www.ims.uerj.br/sesc
Palavras-chave: cuidados paliativos; morte; biopolítica; práticas de saúde.
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
Outro conceito ou construção crítica no campo dos cuidados paliativos é a da
“Identidade FPT”. Ao ser qualificado como “fora de possibilidades terapêuticas”, o
paciente é encaminhado para o serviço de cuidados paliativos, como conseqüência
prática importante de considerá-lo como um moribundo, o que significa que se institui
a partir deste momento uma ruptura na trajetória do doente e de sua doença. O
paciente inicia um novo percurso, depois de diagnosticado como FPT: ele começa a
viver uma etapa crítica em sua carreira hospitalar, o que implica mudanças cruciais
em sua vida e em sua relação com a doença e com a morte (Menezes, 2004, p. 118).
Neste trabalho, em síntese, parte-se de uma perspectiva representada entre
nós na figura de Foucault, para afirmar que toda produção que emana de seres históricos
é sempre contingente às condições concretas particulares que as engendraram e
tornaram possível sua disseminação em determinado grupo social. Assim como outros
fenômenos da vida social, o processo do morrer pode ser vivido de distintas formas,
de acordo com os significados compartilhados por essa experiência. Os significados
atribuídos ao processo do morrer sofrem variações segundo o momento histórico e
seus contextos socioculturais (Ariès, 1977). Em nossa sociedade, a morte encontra
lugar no campo do discurso especializado e da constituição de saberes (Foucault, 2004).
É então como material da prática médica, objeto de saber, legitimadora de um poder,
que a morte encontra seu lugar na instituição médica, a qual recebe a delegação social
dos encargos da morte. Com a inscrição da morte no contexto do trabalho hospitalar,
ela se retira definitivamente do interior da vida normal, mediante o recalcamento
social da consciência da morte. Por essa razão, afirma Herzlich, é principalmente ao
nível das atitudes cotidianas face ao agonizante que se pode marcar as formas específicas
que o ocultamento da morte assumiu no hospital (Herzlich, 1993, p. 8). Daí Sudnow
afirmar que a “morte” e o “morrer” deixam de ser fatos a priori, para se tornarem
passíveis de definições operacionais dos membros da comunidade hospitalar e da
organização social de seu trabalho (Sudnow, 1971, p. 198).
Com o advento dos cuidados paliativos, então, funcionando em um contexto
biopolítico, são construídas novas formas de defesa contra a idéia da morte. A morte
não é mais ocultada como era no século XX, podendo ser tornada visível socialmente,
desde que devidamente administrada e controlada.Trata-se de naturalizar e “humanizar”
o morrer, lançando mão de recursos artificiais (Menezes, 2004a, p. 214). Nesse sentido,
o conhecimento psicológico é importante “recurso artificial” na construção do discurso
humanizante dos cuidados paliativos que busca sua aceitação social principalmente
através dos valores da “boa morte”.
88
AYRES, J. R. C. M.. Cuidado e reconstrução das práticas de saúde. Interface:
Comunicação, Saúde, Educação. v. 8, n. 14, set. 2003-fev. 2004.
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Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
89
MESA 6
publicação eletrônica: http://www.ims.uerj.br/sesc
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
IDENTIDADE
HOMOSSEXUAL,
HOMOFOBIA E
HOMPARENTALIDADE
90
ESTIGMA, DESVIO E VISIBILIDADE: UM ENSAIO
SOBRE HOMOSSEXUALIDADE MASCULINA E
IDENTIDADE SOCIAL
MESTRANDO: GUSTAVO SANTA ROZA SAGGESE*
ORIENTADOR: SÉRGIO CARRARA
* GUSTAVO SANTA ROZA SAGGESE
1
GSAGG @GLOBO.COM
Utilizo esse espaço de tempo baseando-me no aparecimento da Aids, no início da década de 1980
que, se num primeiro momento reforçou o estigma contra os homossexuais, por outro contribuiu
para que esse grupo ganhasse maior visibilidade identitária e política. Segundo Pollak (1990, p.
13), “a Aids criou uma situação quase experimental de colocar em prova valores de tolerância e
de liberdade individual e a capacidade de uma sociedade moderna para responder rapidamente
a uma ameaça imprevista”.
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IDENTIDADE SOCIAL E IDENTIDADE SEXUAL
Ainda que tenhamos visto, sobretudo ao longo das últimas duas décadas1, uma
transformação bastante significativa no que tange à estigmatização dos homossexuais,
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
INTRODUÇÃO
A idéia de estigma em geral nos remete à imagem de alguém que porta
determinadas características – sejam elas físicas ou relativas ao comportamento –
pouco convencionais, inapropriadas e que são, por vezes, alvo de humilhações. Em
Goffman (1988), aprendemos que essa idéia vem da palavra grega stigma, termo criado
originalmente para designar sinais corporais feitos com cortes ou fogo no corpo a fim
de que aqueles que os apresentassem fossem reconhecidos como socialmente
marginalizados (na maioria dos casos, escravos, criminosos ou traidores). Ainda segundo
Goffman, a noção de estigma foi ampliada durante a Era Cristã, recebendo duas
categorizações metafóricas importantes: uma referente a sinais corporais de graça
divina, e a outra, a sinais de distúrbio físico.
Considero pertinente buscar conhecer a etimologia do termo para que seu uso
esteja devidamente contextualizado e deixo claro que no presente trabalho ele estará
diretamente vinculado à noção de identidade social.
Estreitamente ligado ao estigma, podemos apontar para o problema do desvio,
questão trabalhada por Becker (1977). Da mesma forma que Goffman, Becker
desenvolve seu conceito com base numa postura relativizante e a partir de uma teoria
que leva em conta as interações sociais como fator predominante na definição do que
é desvio e de quem pode ser considerado desviante. Em outras palavras, parte da
premissa de que grupos diferentes possuem diferentes critérios para avaliar o desviante
e que “a pessoa que faz o julgamento de desvio, o processo pelo qual se chega a esse
julgamento e a situação na qual ele é feito podem estar, todos, intimamente envolvidos
no fenômeno do desvio” (p. 55).
91
Ressalto que as escolhas não refletem nenhum “tipo ideal” de homossexualidade masculina, para
usar o clássico termo de Weber. São escolhas que fiz com base na literatura com a qual tive
contato até hoje e que representam, do meu ponto de vista, boas maneiras de trabalhar o problema do estigma e a construção de identidades no contexto deste ensaio.
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Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
não há como ignorar o fato de que ela ainda existe e aparece de diversas formas. Acredito
que o que se observa, acima de tudo, é um questionamento crescente de um modelo
normativo calcado na heterossexualidade, tendo em vista as conquistas obtidas em várias
partes do mundo, como a união civil e casamento entre pessoas do mesmo sexo.
Retomando a questão do estigma e do desvio, reaproveito a idéia de identidade
social elaborada por Goffman e previamente apresentada aqui em uma tentativa de
associá-la à noção de identidade sexual, embora Weeks (1987) acredite que essa noção
seja ambígua: ao mesmo tempo em que é possível dizer que as identidades sexuais são
construídas histórica e socialmente, representando circunstâncias temporais específicas
e selecionadas a partir de uma enorme gama de possibilidades, estamos sempre à procura
de uma autodefinição que promova uma sensação de pertencimento. No entanto, uma
categorização identitária pode ser crucial para a aquisição de uma possibilidade de inserção
em redes de sociabilidade, grupos organizados ou movimentos políticos.
É importante ressaltar que seria um equívoco considerar a emergência da
identidade homossexual masculina como uma categoria única e exclusiva; isto é, em
lugar de falar em identidade, deveríamos falar em identidades, se levarmos em conta
que, mesmo dentre aqueles que se auto-identificam como homossexuais, há uma
variedade substancial nas formas como se enxergam, como se apresentam para a
sociedade e também em suas práticas homoafetivas e homoeróticas. Este é o ponto
que pretendo discutir aqui: de que maneiras o homossexual ainda é alvo de
estigmatização e quais estratégias ele pode adotar para driblar o problema?
Fry (1982) mostra que na periferia de Belém da década de 1970 havia uma
clara dicotomia entre homens (sujeitos com comportamento ativo no ato sexual) e
bichas (sujeitos com comportamento passivo). No Rio de Janeiro atual, Nunan (2003)
fala de uma subcultura homossexual marcada por uma enorme diversidade de
identidades, embora isso não signifique que uma ideologia baseada no que ela chama
de two-sex model tenha desaparecido. Em todo caso, é importante que estejamos atentos
às repercussões sociais que a apropriação de determinadas identidades podem acarretar,
bem como às circunstâncias das interações sociais que levam os indivíduos a adotarem
essas identidades. A título de esclarecer os questionamentos apresentados, tratarei de
duas formas pelas quais o homossexual masculino pode vir a moldar sua identidade
social e tentar lidar com o estigma: a primeira, a partir de uma excessiva valorização
da masculinidade através do corpo (e, conseqüentemente, de um certo
“enquadramento” no binarismo de gênero) e a segunda, através da militância, meio
pelo qual o homossexual reafirma sua condição de desviante utilizando-se de recursos
que promovam uma visibilidade positiva.2
92
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MILITÂNCIA E VISIBILIDADE
Movimentos políticos surgidos durante a década de 1990 exerceram papel
importante na modelagem dos contornos da vida gay urbana e tiveram por base um
pequeno movimento que começou a tomar forma no final de década de 1970. Com o
surgimento da Aids no início da década de 1980, diversos grupos gays e organizações
políticas assim identificadas adquiriram visibilidade no Brasil e, mais tarde, grupos
gays e ONGs/Aids ganharam grande relevância na construção social desse mundo, abrindo
um leque de possibilidades para definir a vida gay não só como um tipo de comportamento
sexual mas também como uma forma de expressão social (Parker, 2002).
Diferentemente do corpo, o recurso utilizado pelos militantes desses
movimentos políticos se baseia muito mais na afirmação de identidades tendo por
base suas falas e ações. Desse modo, a construção de uma identidade neste segundo
caso ocorre numa direção oposta àquela das barbies. Se pensarmos em termos de
“carreira moral”, como Goffman (1988) propõe, o militante faz uso de seu sofrimento
pessoal enquanto parte de uma minoria estigmatizada, a fim de construir uma
visibilidade positiva, e não como uma maneira de enquadrar-se em estereótipos de
gênero amplamente disseminados em nossa sociedade.
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
CORPO E MASCULINIDADE
Na sociedade moderna, o corpo adquire um valor simbólico de suma importância
para a construção da identidade do eu, retratado através da (boa) forma física. Faz-se
necessário, portanto, que estejamos permanentemente atentos às exigências corporais
impostas pelos padrões de beleza que, por sua vez, estão intimamente ligados aos
padrões de gênero e suas expectativas de comportamento. Dessa forma, um corpo
forte e bem torneado torna-se fundamental para a construção de uma identidade
masculina positiva, pois forneceria a seu admirador uma imagem socialmente coerente,
na medida em que transformaria categorias simbólicas associadas à masculinidade em
uma representação corporal que as corroboram, além de oferecer maior status social
na medida em que se liga a vários outros ideais de masculinidade. Em acréscimo a
isso, podemos ver na busca pela forma masculina perfeita uma oposição ao ideal
feminino, com seu imaginário social calcado na fraqueza e na passividade.
Seria a preocupação com essa “essência masculina” e a conseqüente abominação
de qualquer tipo de feminilidade, historicamente associada ao homossexual masculino
(Fry, 1982) responsável pela busca de um ideal de masculinidade representado através
do corpo? Nunan (2003) aponta que o subgrupo das barbies (homossexuais musculosos
que vivem para modelar o corpo) buscaria aceitação social enquadrando-se em um
modelo de conformidade que obedece à regra (Becker, 1977) – neste caso, uma regra
calcada no binarismo de gênero que associa a masculinidade a um corpo forte e
musculoso. Ao mesmo tempo, a imagem de um corpo aparentemente saudável
contradiria o estereótipo do homossexual debilitado pela Aids. Voltando a Becker,
creio ser possível dizer que um homossexual excessivamente masculinizado seria um
exemplo típico de um “desviante obediente”, atento às regras de seu meio social e
preocupado em segui-las à risca.
93
Essa revelação pode fazer com que ele saia da categoria de desacreditável para a
de desacreditado, mas isso não implicaria uma perda; ao contrário, estando sua condição
mais explícita para os “normais” com os quais se relaciona, o militante teria um ganho
secundário extremamente significativo, expondo-se de forma que seu estigma
propiciasse maior aceitação social através da luta política, embora haja risco de que a
alternativa a um modelo hegemônico de gênero e papéis sexuais ganhe ares de
“guetificação”, fazendo com que o homossexual militante viva num “mundo
incompleto” (Goffman, 1988). Apesar disso, é um risco que pode ser minimizado na
medida em que o militante procure estabelecer um diálogo entre seu grupo e os
demais setores da sociedade.
Palavras-chave: homossexualidade masculina; estigma; desvio; identidade.
Referências
BECKER, H. Uma teoria da ação coletiva. Rio de Janeiro: Zahar, 1977.
FRY, P. Da hierarquia à igualdade: a construção histórica da homossexualidade no
Brasil. In: ______. Para inglês ver: identidade e política na cultura brasileira. Rio de
Janeiro: Zahar, 1982.
NUNAN, A. Homossexualidade: do preconceito aos padrões de consumo. Rio de
Janeiro: Caravansarai, 2003.
POLLAK, M. Os homossexuais e a Aids: sociologia de uma epidemia. São Paulo: Estação
Liberdade, 1990.
WEEKS, J. Questions of identity. In: CAPLAN, P. (Ed.). The Cultural Construction of
Sexuality. New York: Routledge, 1987.
publicação eletrônica: http://www.ims.uerj.br/sesc
PARKER, R. Abaixo do Equador: culturas do desejo, homossexualidade masculina e
comunidade gay no Brasil. Rio de Janeiro: Record, 2002.
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
GOFFMAN, E. Estigma: notas sobre a manipulação da identidade deteriorada. Rio
de Janeiro: LTC, 1988.
94
MASCULINIDADE E HOMOFOBIA:
PRODUÇÕES DE SENTIDO ACERCA DO
MASCULINO
DOUTORANDO: MARCOS NASCIMENTO*
ORIENTADOR: SÉRGIO CARRARA
1
2
3
M 2NASCIMENTO @HOTMAIL. COM
Para efeitos desse estudo, usaremos a definição de juventude da OMS que abarca a faixa etária
entre 15 e 24 anos.
O Governo Federal lançou em 2004 o Programa de Combate à Violência e à Discriminação
contra GLBT e de Promoção da Cidadania Homossexual (Brasil sem Homofobia).
Por movimento GLBT entendemos o movimento social organizado composto por grupos de gays,
lésbicas, bissexuais transgêneros, travestis e transexuais.
publicação eletrônica: http://www.ims.uerj.br/sesc
* MARCOS NASCIMENTO
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
O percurso profissional e acadêmico do autor desta proposta de pesquisa articula
o campo de investigação sobre homens a partir dos estudos de gênero, e mais
precisamente dos estudos sobre masculinidades (conhecido como men’s studies e que
abarca a sociologia e a antropologia) e o tema da juventude.
Sob essa perspectiva, o autor sempre observou com atenção as relações entre
o significado do que é ser homem e a desigualdade social entre homens e mulheres (e
também entre homens) e suas conseqüências para a saúde e para o exercício da
sexualidade. Nos últimos anos, o trabalho de intervenção comunitária e de pesquisa
voltou-se para a população masculina jovem 1. O questionamento acerca da
“masculinidade do outro” e a dificuldade de lidar como o tema da homossexualidade
estava sempre presente, fosse pelas “brincadeiras” entre os rapazes, fosse pelas histórias
relatadas de suas percepções sobre “como um homossexual é” ou o temor de manter
relações de convivência mais próxima com alguém que “fosse abertamente
homossexual”. E é nesse contexto que esta proposta de pesquisa se insere.
O tema da homofobia aparece cada vez mais em pesquisas sobre sexualidade,
em ações do governo federal2 e em campanhas do movimento GLBT3. É necessário
problematizar o termo homofobia, como sugere Plummer (1999). A homofobia não
se refere a um “temor irracional da homossexualidade”, como o nome poderia sugerir,
mas se trata de uma construção social ancorada no estigma e discriminação que envolve
a homossexualidade, conforme sugere Rios (2007). E é nessa perspectiva que
empregamos o termo homofobia.
O tema da juventude aparece não somente por conta das atividades profissionais
do autor dessa proposta mas também por conta de recorrentes pesquisas sobre o que
os jovens pensam sobre a homossexualidade no cenário brasileiro. Dados recentes
mostram como essa homofobia está enraizada em nossa sociedade, e notadamente
entre os jovens. Pesquisa realizada pelo Instituto Promundo, no Rio de Janeiro, com
95
publicação eletrônica: http://www.ims.uerj.br/sesc
Palavras-chave: masculinidade; gênero; sexualidade; homofobia.
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
780 homens (15-24 anos), em 2004, mostrou que 38% dos entrevistados não teriam
um amigo gay e cerca de 47% se sentiam envergonhados quando viam um homem se
comportar de maneira feminina (Pulerwitz et al., 2006). Pesquisa realizada pela
UNESCO (Abramovay et al., 2004) com alunos, pais e professores em todo o país
mostrou que 25% dos adolescentes não gostariam de ter um colega gay na sala de
aula. Esse índice é maior entre os homens que entre as mulheres. Pesquisa publicada
em 2007 sobre o que os brasileiros pensam sobre diversos temas relacionados à
sexualidade mostrou que 89% dos homens entrevistados em todo o país, entre 18 e
29 anos de idade, são contra a homossexualidade masculina (Almeida, 2007).
Se, por um lado, os estudos sobre homossexualidade masculina apontam para a
violência simbólica, física e psicológica a que homens gays estão expostos (Parker,
1991), acreditamos que se faz necessário compreender o fenômeno da homofobia à
luz dos estudos sobre “homens e masculinidades”, procurando entender quais
mecanismos estão envolvidos na produção e reprodução de discursos e práticas
(Bourdieu, 1999).
Ser homem não trata somente da experiência subjetiva e pessoal de um
representante do sexo masculino. Trata-se de uma experiência que se constrói social e
culturalmente, datada historicamente, permeada de códigos, práticas e representações
que são produzidos em cada sociedade, e que conformam um modelo hegemônico de
homem, com um leque de referenciais de conduta a serem seguidos e que acaba se
traduzindo num modelo de “homem de verdade” (Connell, 1995). Portanto, partimos
da premissa que a masculinidade que não é outorgada, mas que, ao contrário, é construída,
afirmada, negociada e desconstruída ao longo da vida como experiência social e subjetiva
que é, inserida numa cultura e datada historicamente (Connell, 1995).
Um dos temas recorrentes no campo de estudos sobre “homens e masculinidades”
é a violência (Nascimento, 2001). Machado (1998), em seu estudo sobre violência,
mostra, através de dados estatísticos do Movimento Nacional de Direitos Humanos
(MNDH), que os homens cometem mais episódios de violência do que as mulheres,
freqüentemente chegando ao homicídio. Igualmente, morrem mais também. A
violência presente entre homens está ancorada na construção simbólica da
masculinidade, e se apresenta sob a forma de rivalidade, de desafio e de manutenção
da honra masculina. Dessa maneira, a dominação das mulheres e a homofobia constituem
pilares da construção do masculino (Welzer-Lang, 2001).
Dessa maneira perguntamos:
z Como a homofobia aparece no repertório de masculinidades dos homens,
notadamente os homens jovens?
z Em que medida os estudos sobre “homens e masculinidades” e os estudos
sobre a homossexualidade masculina podem dialogar problematizando o tema
da homofobia?
z Em que medida a construção de masculinidade favorece o aparecimento de
comportamentos e atitudes homofóbicas?
96
Referências
ABRAMOVAY, M. et al. Juventudes e sexualidade. Brasília: Unesco, 2004.
ALMEIDA, A. C. A cabeça do brasileiro. Rio de Janeiro: Record, 2007.
BOURDIEU, P. A dominação masculina. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1999.
CONNELL, R. Masculinities. Berkeley: University of California Press, 1995.
MACHADO, L. Z. Matar e morrer no feminino e no masculino. In: OLIVEIRA,
D.; GERALDES, E.; LIMA, R. B. (Orgs.). Primavera já partiu. Retratos dos
homicídios femininos no Brasil. Petrópolis: Vozes, 1998. p. 96-121.
NASCIMENTO, M. Desaprendendo o silêncio: uma experiência de trabalho com grupos
de homens autores de violência contra a mulher. Dissertação (Mestrado em Saúde
Coletiva) - Instituto de Medicina Social, Universidade do Estado do Rio de Janeiro,
Rio de Janeiro, 2001.
PARKER, R. Corpos, prazeres e paixões: a cultura sexual no Brasil contemporâneo.
Rio de Janeiro: Best Seller, 1991.
PLUMMER, D. One of the boys: masculinity, homophobia, and modern manhood.
New York: Haworth Press, 1999.
RIOS, R. R. O conceito da homofobia na perspectiva dos direitos humanos e no
contexto dos estudos sobre preconceito e discriminação. In: RIOS, R. R. (Org.) Em
defesa dos direitos sexuais. Porto Alegre: Casa do Advogado, 2007.
publicação eletrônica: http://www.ims.uerj.br/sesc
WELZER-LANG, D. A construção do masculino: dominação das mulheres e
homofobia. Revista Estudos Feministas, v. 9, n. 2, p. 460-482, 2001.
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
PULERWITZ, J. et al. Promoting more gender equitable norms and behaviors among young
men as na HIV/Aids prevention strategy. Washington, DC: Population Council, 2006.
97
FAMÍLIAS HOMOPARENTAIS:
UMA PERSPECTIVA CRÍTICO-CULTURAL
MESTRANDA: BIANCA ALFANO*
ORIENTADORA: MÁRCIA RAMOS ARÁN
* BIANCA ALFANO
ALFANOB @HOTMAIL. COM
publicação eletrônica: http://www.ims.uerj.br/sesc
FAMÍLIA: “O ÚLTIMO BASTIÃO DO PENSAMENTO ESSENCIALISTA”
Conceber a diversidade em termos de comportamento familiar permanece
um desafio no percurso histórico do campo das ciências sociais, justamente por “tropeçar
na barreira que, desde Malinowski aos nossos dias, destaca-se como o último bastião
do pensamento essencialista” (Fonseca, 2000, p. 54).
No contexto francês, o olhar de antropólogos e sociólogos recaiu sobre uma
existência plural de “famílias” apenas a partir da década de 1970, em conseqüência das
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
Falar de “famílias homoparentais” implica falar de muitas categorias de
pensamento historicamente enraizadas e naturalizadas na nossa sociedade ocidental.
Não se trata apenas de um debate sobre homossexuais serem pais e mães, nem ser a
favor ou contra o “casamento” e a filiação de pessoas do mesmo sexo. Implica questionar
verdadeiras “vacas sagradas da nossa época” (Fonseca, 1995), os próprios conceitos de
“família”, de “casamento”, de “parentesco”, e principalmente a tríade
heterossexualidade-casamento-filiação, adotada desde o século XIX como parâmetro
de normalidade de relacionamentos íntimos baseados na procriação (Strathern, 1995).
Desde os anos 1960, com as numerosas mudanças sociais provocadas pelos
movimentos feminista e homossexual, com a popularização da pílula anticoncepcional
e a desvinculação entre sexo e procriação, e mais recentemente com o avanço das
tecnologias reprodutivas, o ideal de “família nuclear heteronormativo” tem vivenciado
profundas transformações. Existe uma multiplicidade de famílias que não são,
necessariamente, novas, nem seguem uma lógica evolucionista: são famílias extensas
ou de unidades domésticas pequenas, chefiadas por homens e”ou por mulheres, famílias
conjugais, monoparentais, de recasamentos, com filhos, sem filhos, divorciadas, de
uniões livres, individualistas ou holistas, adotivas – enfim, uma verdadeira diversidade.
No entanto, quando o assunto é homoparentalidade, os debates sobre “filiação”
e “parentesco” tendem a esbarrar em argumentos que persistem na defesa de uma
existência e preservação de um certo ideal de família, baseado em conceitos
psicanalíticos e estruturalistas de parentesco (Butler, 2003), apesar de vários
antropólogos e historiadores já terem demonstrado que estas supostas “naturalidade”
e “universalidade” familiares não existem (Zambrano, 2006).
98
2
“Segundo Irène Théry, o casamento e a família supõem por princípio a diferença dos sexos”
(tradução minha).
Pacto Civil de Solidariedade, instituído em 1º de novembro de 1999, que reconhece legalmente
as uniões homossexuais, concedendo-lhes direitos e benefícios, menos qualquer forma de parentesco.
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1
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
críticas feministas ao papel das mulheres na família, além da possibilidade do divórcio
na vida familiar (Peixoto, 2007). Difundiu-se uma Sociologia da Família, interessada
em entender a família, seja como espaço de individualização, seja como espaço de
relações geracionais que se constroem ao longo do tempo, demonstrando que as idéias
sobre família(s) foram se transformando no tempo, paralelamente às transformações
políticas, sociais e culturais, também no contexto europeu.
Mas, sem deixar de correr riscos, poderia dizer que mesmo diante dessas
discussões sobre pluralidades e análises individualizadas sobre famílias, persiste a
elaboração de um “tipo-ideal das trocas conjugais nas sociedades contemporâneas”
(Peixoto, 2007, p. 19), um ideal heteronormativo de conjugalidade. Para muitos autores
desse mesmo contexto francês, não é qualquer família que tem lugar central na
construção da identidade individualizada de seus membros. Mesmo propondo que o
indivíduo constrói sua singularidade e identidade pessoal no diálogo com os próximos,
com o outro significativo, defendendo que a família é mais um espaço de socialização e das
relações afetivas do que uma instituição, encontramos autores argumentando contra os
arranjos homossexuais serem definidos como famílias, já que “selon Irène Théry, le mariage
et la famille supposent par principe la différence des sexes1” (Fassin, 2005, p. 122). A igualdade
entre os direitos de casais casados e concubinos é defendida pela socióloga Irène Théry,
por exemplo, seguindo a tese da desinstitucionalização familiar, mas um paradoxo é
encontrado justamente quando ela se posiciona contra a adoção e filiação homossexual.
Este paradoxo ficou evidente no debate francês sobre o PACS2, em 1999. Apesar
da aprovação do reconhecimento jurídico de casais homossexuais, a importância da
permanência de uma “ordem simbólica” nas configurações familiares foi um dos
argumentos usados por especialistas e acadêmicos, principalmente lacanianos e outros
psicanalistas, contra a filiação homoparental. A heterossexualidade seria um
imperativo para se pensar filiação e constituição da identidade sexual da criança, já
que as relações homossexuais negariam a “diferença dos sexos”. Para esses opositores,
a própria cultura exigiria que uma criança fosse gerada por um homem e uma
mulher, garantindo uma referência dual para sua própria iniciação na “ordem
simbólica”, a partir da qual ela poderia criar sua identidade e inteligibilidade cultural
(Butler, 2003, p. 244). O argumento contra o parentesco homossexual foi de que
ele não era “natural” e poria em risco a “cultura”, na medida em que criaria crianças
artificialmente, não pelo intercurso sexual.
É justamente este intercurso sexual que garantiria a permanência do “modelo
conjugal heterossexual” como dominante no campo da família. Strathern (1995) destaca
esta questão ao discutir a polêmica da “Síndrome do Nascimento Virgem”, gerada na
Grã-Bretanha, em 1991, quando mulheres solteiras, que nunca tinham tido relações
sexuais, buscaram tratamentos de fertilidade justamente para dispensar,
intencionalmente, o ato sexual. Negar este intercurso significaria negar o modelo de
99
E por que não pensarmos, nessa linha de raciocínio, no próprio uso dos termos
“alternativo” e “diferenças” para nos referenciarmos aos variáveis arranjos familiares
estudados? Para a autora, continuar a classificar de “problemático”, de “disfuncional”,
de “crise”, de “antinorma” ou de “patológica” toda família que não se enquadra a um
modelo dominante de família, adotado pelas sociedades ocidentais, seria o mesmo
que ignorar toda uma tradição histórica reveladora de uma multiplicidade de
conjugalidades, parentalidades e de parentescos. Segundo ela, multiplicamos as possíveis
“variantes” familiares se não voltarmos o olhar apenas para um único modelo (em
outras épocas, ora o patriarcal, ora o nuclear), ampliando nosso entendimento da
complexa sociedade em que vivemos. E para problematizar ainda mais a questão, por
que não introduzirmos aqui a crítica levantada por Butler (2003) sobre o
reconhecimento legal desses variáveis arranjos como “família”? Será que essas
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Quantas diferenças devemos contabilizar entre o comportamento padrão de certo grupo e o ‘“modelo ideal” antes de outorgarmo-nos o direito de falar em “modelo alternativo”? [...]. Será que
não devemos procurar a coerência interna dessas práticas (ergo,
persá-las como um “modelo alternativo”) em vez de contentarmo-nos com “o modelo dominante e suas variantes”? (Fonseca,
2000, p. 57).
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parentalidade adotado pelos euro-americanos: a exigência de um parentesco para a
parentalidade, ou seja, que a criança seja gerada por dois pais identificáveis, pelo ato
sexual. Diferenças de gênero definem os papéis que estes pais terão junto a esta
criança, mas de forma alguma tais diferenças anulariam a “necessidade de pais” e a
“necessidade de mães”.
Não haver nenhum “pai” pretendido ou questionar a “lei” da necessidade de pai
seria o mesmo que: 1) questionar a “função simbólica” da relação sexual entre os pais,
fundamento do amor conjugal, do amor familiar, por unir os cônjuges amorosamente
e resultar no nascimento dos filhos, frutos desse amor; 2) ameaçar o sistema social
baseado nas diferenças de gênero, o ideal de casais se unirem pelo amor conjugal e
procriarem através das relações sexuais, mas com compromissos diferentes de gênero
(o compromisso do homem é convencionalmente menor do que o da mulher).
E os paradoxos não param por aí nas discussões sobre família”famílias. Segundo
Fonseca (2000), não é raro encontrarmos pesquisadores analisando seus dados sob seus
próprios valores de classe e culturais, reforçando a existência de uma certa dificuldade
em aceitar, dentro e fora do meio acadêmico, formas de alteridade dignas de análise
entre os grupos ditos “não hegemônicos”. Em estudos sobre camadas populares, ou
sobre casais homossexuais, ou heterossexuais que vivem em concubinato, por exemplo,
ainda encontramos tentativas de comprovação de uma “hegemonia” dos valores
dominantes, como se todo pobre tivesse o sonho de virar burguês, ou toda reivindicação
por legitimação da união homossexual fosse uma submissão aos padrões heteronormativos
de relacionamento, ou que todo casal concubino acabasse se casando no final.
É bastante pertinente a pergunta lançada pela autora:
100
“variantes” só seríam possíveis, inteligíveis e até reais se reconhecidas e legitimadas
pelo Estado enquanto “família”?
Palavras-chave: família; homossexualidade; conjugalidade; parentalidade; filiação.
3
Para ampliar esta discussão, ver Grossi (2003).
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Será essa a única forma de “institucionalização”? Basta, por exemplo, esquivar-se ao casamento legal para considerar a união conjugal “desinstitucionalizada”? A “instituição” seria uma mera construção jurídico-legal? E será que o casal heterossexual é o único
alvo possível de institucionalização?
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
CONCLUSÃO
Sem a intenção de defender uma “política de sujeitos”, este trabalho discutiu a
homoparentalidade sob uma perspectiva crítico-cultural. Por mais que os próprios
termos “homoparentalidade” e “família homoparental” possam não ser suficientes para
abarcar a diversidade de parentalidades exercidas por gays, lésbicas, travestis,
transexuais e bissexuais na contemporaneidade, além de reforçarem uma associação
que se deseja desconstruir – a “orientação sexual” (homoerótica) dos pais/mães e o
cuidado dos filhos (parentalidade) –, usá-los no texto talvez tenha contribuído para
problematizar o conceito de família a partir desses arranjos. É essencial que analisemos
as razões pelas quais ainda encontramos, com certa freqüência, o destaque da orientação
sexual dos pais quando o assunto é família, e mais especificamente, homoparentalidade,
ao invés de se buscar a maturidade emocional, a flexibilidade, a experiência de quem
deseja ter filhos, a habilidade em se distinguir as necessidades das crianças das dos pais
e as formas de sustento oferecidas (Uziel, 2004).
Temos um longo caminho até desnaturalizarmos conceitos e idéias vinculados à
questão da parentalidade nas sociedades ocidentais, e não há como percorrê-lo sem
que um diálogo entre diferentes pesquisadores do campo de parentesco3 seja mantido.
E faz parte deste caminho questionarmos, sobretudo, o próprio “processo” de
naturalização, de institucionalização, de construção desses conceitos. Mais uma vez,
concordando com Butler (2003), não podemos discutir essas questões sem uma visão
crítica, pois fazemos parte desse discurso de inteligibilidade e normatividade ao
defendermos direitos sexuais, direitos reprodutivos, direitos humanos. A autora atenta
para a dupla fronteira da legitimidade das relações homossexuais, da própria
homoparentalidade; questiona se sua inteligibilidade seria possível apenas pela
legalização do Estado e o perigo das “famílias homoparentais” serem mais uma “arma”
do Estado. Mas uma outra pergunta, muito bem apontada por Fonseca (1995, p. 83),
merece destaque neste debate:
101
Referências
ARÁN, M. Sexualidade e política na cultura contemporânea: as uniões homossexuais.
In: LOYOLA, M. A. (Org.). Bioética: reprodução e gênero na sociedade
contemporânea. Rio de Janeiro: ABEP, 2005.
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STRATHERN, M. Necessidade de pais, necessidade de mães. Revista Estudos
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102
MESA 7
publicação eletrônica: http://www.ims.uerj.br/sesc
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
DESAFIOS DA
FORMAÇÃO E
PRÁTICAS DE
PROFISSIONAIS DE
SAÚDE
103
ATENÇÃO INTEGRAL AO IDOSO NO
CONTEXTO DO PROGRAMA SAÚDE DA
FAMÍLIA: UM OLHAR SOBRE A FORMAÇÃO
E PRÁTICA MÉDICA
DOUTORANDA: LUCIANA BRANCO DA MOTTA*
ORIENTADORA: ADRIANA CAVALCANTI DE AGUIAR
LUMOTTA@UERJ .BR
publicação eletrônica: http://www.ims.uerj.br/sesc
* LUCIANA BRANCO DA MOTTA
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
O processo de envelhecimento é complexo e multifatorial, sendo a interação
entre nossa herança genética e a interação de inúmeros aspectos do meio durante o
curso de vida o que cria uma experiência individualizada para cada indivíduo. O
aumento da população idosa no Brasil traz a necessidade de mudanças no modelo
assistencial, voltando-se para a reabilitação e prevenção, objetivando qualidade de
vida, aumento da expectativa de vida sem incapacidade. Estes objetivos são apontados
no Pacto pela Vida do Ministério da Saúde, de 2006, quando coloca a saúde do idoso
como uma de suas prioridades.
Em relação à atenção aos idosos, estudos mostram que o maior uso de serviços
e maior gasto não refletem melhor qualidade no atendimento, que há inadequação na
abordagem do usuário idoso nos serviços de saúde, caracterizado pela não-identificação
de síndromes geriátricas e não-avaliação correta destas, maior perda de capacidade
funcional após um período de internação hospitalar, maior reinternação e tempo de
internação, inadequação dos indicadores de saúde. A geriatria e a gerontologia trabalham
com o conceito de capacidade funcional, em que o envelhecimento saudável é entendido
como a interação entre saúde física, menta, independência, integração social, suporte
familiar e econômico, e não pelo número de patologias crônicas associadas.
A formação de recursos humanos na área do envelhecimento está vinculado à
compreensão do processo de envelhecimento e suas repercussões biopsicossociais, ao
trabalho interdisciplinar, a novos paradigmas da concepção saúde-doença, ao papel e
objetivo dos profissionais de saúde.
Um aspecto central é a necessidade de se formar profissionais que atuarão na
atenção básica com conteúdos mais estruturados na área de envelhecimento. Se
praticamente todos os profissionais de saúde irão lidar com idosos na sua prática e daí
a importância da graduação, os profissionais da atenção básica terão esta população
como principal usuário.
Para a Atenção Básica, e principalmente para a Estratégia de Saúde da Família,
a observação do processo de trabalho desenvolvido e sua frágil adequação à assistência
104
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Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
ao idoso envolvem os profissionais numa grande angústia por não se sentirem aptos
a trabalhar com as especificidades desta população. Também aponta a inadequação
do programa de treinamento oferecido para eles, onde estes conteúdos têm uma
inserção muito frágil e não é acompanhada de uma discussão do processo de trabalho
na prática cotidiana.
A atenção ao idoso não pode restringir-se aos especialistas, devendo abranger
diferentes os profissionais de saúde, com especial significado para a atenção básica. É
de significativa importância discutir sua capacitação para o enfrentamento destas
questões dentro de suas necessidades, do seu trabalho, de seus usuários.
Mesmo com a introdução destes conteúdos na graduação, o que ainda não ocorre
totalmente, é necessário estabelecer um processo de educação permanente (EPS)
para estes profissionais, devendo esta discussão ser baseada nas suas práticas, na
integração da equipe e da comunidade atendida. O envelhecimento populacional é
uma realidade a ser enfrentada já.
Este projeto foi apresentado ao Edital MCT/CNPq/MS-DAB/SAS nº 49/2005
- Pesquisas Avaliativas em Atenção Básica à Saúde / Apoio a Tese de Doutorado, com
o título “Atenção Integral ao Idoso no Contexto do Programa Saúde da Família”,
sendo aprovado para financiamento sob o nº de processo 401913/2005-8.
Trata-se de um estudo exploratório, qualitativo, tendo como técnicas de coleta
de dados a entrevista individual, o grupo focal e a análise documental, com foco na
atenção ao idoso, no contexto da implementação da Estratégia de Saúde da Família
(ESF) no Estado do Rio de Janeiro. Os profissionais que trabalham na atenção básica
necessitam desenvolver habilidades e conhecimentos tanto teóricos quanto práticos
para atender à população idosa. Esta demanda surge a partir da prática cotidiana no
trabalho desenvolvido, neste caso, pela Estratégia de Saúde da Família, junto à população
acima de 60 anos atendida. O trabalho tem por objetivo identificar a inserção da
atenção ao idoso no processo de trabalho da Estratégia de Saúde da Família, discutir a
percepção dos profissionais de saúde acerca do envelhecimento e as conseqüências
sobre a atenção ao idoso no PSF no Estado do Rio de Janeiro, as dificuldades encontradas
pelos profissionais de saúde na atuação junto aos idosos, procurando identificar sua
gênese, o papel da ESF numa rede de atenção ao idoso, e analisar a organização da
rede e o processo de trabalho. Serão apresentados de forma preliminar os resultados
baseados nas entrevistas realizadas.
Foram escolhidos três municípios do Estado do Rio de Janeiro, de tamanhos
distintos, sendo escolhidas duas equipes em cada município para a pesquisa. Nestas
equipes foram realizadas entrevistas semi-estruturadas com todos os seus
componentes: médicos, enfermeiras, atendentes de enfermagem e de gabinete
dentário, dentista e agentes comunitários de saúde. Foi discutido caso-problema
com cada equipe, acerca de um paciente hipotético, no qual se encontravam presentes
questões características do envelhecimento, e construído fluxograma descritor sobre
o atendimento de um usuário idoso.
As entrevistas com os profissionais das equipes encontradas nas unidades estão
distribuídas da seguinte maneira: 30 agentes comunitários de saúde, 2 auxiliares de
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Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
gabinete dentário, 9 auxiliares e/ou técnicos de enfermagem, 1 odontólogo, 4
enfermeiras e 7 médicos nos três municípios.
As entrevistas foram divididas pelas categorias profissionais: agente comunitário;
auxiliares de enfermagem e gabinete dentário, e os profissionais de nível superior.
Esta divisão foi proposta por não terem sido percebidas diferenças relativas a seu
município de origem. O roteiro da entrevista foi preliminarmente dividido em três
módulos: seu trabalho na atenção básica, atenção ao idoso e seu trabalho na equipe,
sendo identificados os grandes temas que sobressaíam nos discursos
No primeiro módulo foram levantados os dados de caracterização do grupo e
emergindo o tema “a que você atribui a dificuldade no seu trabalho na Saúde da
Família”. Neste tema surgem três categorias: a distância, o pouco entendimento pela
população da estratégia e falta de rede para os agentes; e para os profissionais de nível
superior, a falta de rede. Observando-se o processo de trabalho explicitado nos
fluxogramas, podemos entender que, pelo maior contato dos agentes com os usuários,
a distância, a falta de recursos e a dificuldade de entendimento do seu trabalho sejam
apontadas. O trabalho dos profissionais, médicos e enfermeiros está baseado na solução
dos problemas de saúde, sendo estes a referência, não só dos usuários, como dos
próprios profissionais da equipe, que informam que quando não sabem responder à
demanda apelam ao profissional mais qualificado, desta forma afunilando a
responsabilidade na resolutividade nestas categorias. Assim, a falta de rede no sistema
de saúde é uma preocupação cotidiano destes profissionais.
O segundo módulo, cujas perguntas se referiam à atenção ao idoso na sua prática,
foi iniciado com o tema “o que você pensa sobre o seu envelhecimento”.
Na análise das respostas, sobressaem quatro categorias representativas. É possível
envelhecer bem traz a idéia de que o envelhecimento é um fato inerente a vida, mas que
pode ser positivo quando trabalhado de forma correta. Identifico com perda funcional,
financeira, de autonomia e independência, nas dificuldades encontradas pelos idosos
no seu cotidiano, na morte. A categoria abandono engloba duas idéias que se
complementam. A falta de atenção aos idosos dada pela família e sociedade chegando
aos maus-tratos e a de reciprocidade, isto é, “estou fazendo por eles o que quero que
seja feito por mim mais tarde”.
A maioria dos profissionais, em todas as categorias, acha que existe diferença
entre a atenção a um idoso e a um adulto jovem, mas relatam gostar de lidar com esta
população. Todos consideraram a família importante para a atenção ao idoso, assim
como o trabalho em equipe, apesar de apresentarem conteúdos distintos para esta
resposta. A questão sobre sentir dificuldade para executar seu trabalho com esta
população e sentir-se preparado para isto fica tendendo à não-percepção de dificuldade
e à noção de que tem preparo parcial ou suficiente para fazer frente às demandas.
O tema seguinte trabalha com a idéia “do que o profissional acha necessário
para trabalhar com o usuário idoso”. Cada grupo profissional escolhe categorias que
refletem o senso comum ou está dentro de seu âmbito do trabalho. Para os
profissionais de nível superior, o conhecimento, pois a ele cabe a resolutividade. Os
auxiliares apontam atenção e cuidado, duas ações ligadas diretamente ao trabalho do
106
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Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
profissional de enfermagem. Aos agentes cabe carinho e saber escutar, pois são eles
que convivem mais de perto com estes usuários. Porém, chama a atenção a categoria
paciência, apontada por todos.
Refletindo sobre o processo de trabalho nas UBS, nas agendas e multiplicidade
de ações desenvolvidas, podemos relacionar esta categoria à idéia de necessidade de
um tempo maior de atendimento a fim de se poder escutar; necessidade de um
conhecimento maior sobre como lidar com as especificidades desta população, a fim
de poder sistematizar a abordagem das múltiplas e coexistentes queixas e problemas
trazidos por estes; e envolve também a necessidade de se observar um processo de
trabalho distinto, diferenciado, que permita a integralidade da atenção aos idosos.
Também se nota na fala uma infantilização, fragilização destes usuários. Por outro
lado, surge um discurso positivo, de troca mais significativa com os idosos, de maior
reconhecimento do trabalho por estes. A especificidade do paciente geriátrico, com
múltiplas questões de saúde em um processo de adoecimento biopsicossocial, é
identificado como sendo distinto do idoso basal; ou melhor, existe um usuário que
parece ter menor complexidade para a atenção e um com maior complexidade. Esta
noção aponta para a idéia, mesmo que subjetiva, da necessidade de identificação da
capacidade funcional, síndromes geriátricas e dos idosos frágeis. Esta é a lógica central
do planejamento em atenção ao idoso e da organização do processo de trabalho para
este fim. Detém a necessidade de conhecimentos e habilidades específicos.
A categoria paciência e atenção está fortemente ligada ao trabalho com idosos de
modo geral, reforçando a idéia de que é necessário ter um processo de trabalho que
permita a escuta com paciência e atenção.
Tanto a análise do caso-problema e do fluxograma descritor corroboram a
importância do trabalho do agente comunitário de saúde no processo de trabalho da
ESF, e que é este que identifica na prática os idosos em risco ou frágeis. Também a
fragilidade da rede de suporte e do sistema, como fator de dificuldade para a
implementação da estratégia, assim como a falta de referência em geriatria e
gerontologia para o suporte das UBS.
A falta de capacitação das equipes e de estrutura do sistema dificultam o
desenvolvimento de competência para a atenção ao idoso na atenção básica. Por outro
lado, não será eficaz ou eficiente a capacitação dos profissionais sem a discussão sobre
o processo de trabalho nas ESF que permitam a resolutividade das ações destas equipes.
Outra questão surgida nos discursos é a convivência e a impotência frente à violência
contra os idosos em todos os aspectos, que merece uma reflexão mais profunda sobre
sua influência no cotidiano dessas esquipes.
107
REPERCUSSÕES DE ESPAÇOS DE
ARTICULAÇÃO MULTIPROFISSIONAL NA
GRADUAÇÃO EM SAÚDE
DOUTORANDA: LUCIANA ALVES PEREIRA*
ORIENTADORA: ADRIANA CAVALCANTI DE AGUIAR
FOMENTO: CNPQ
[email protected]
publicação eletrônica: http://www.ims.uerj.br/sesc
* LUCIANA ALVES PEREIRA
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
O setor saúde nacional passa por avanços em direção à mudança no modelo
tecnoassistencial de trabalho em saúde. A criação do Sistema Único de Saúde (SUS) é
considerada a maior, senão a única, política pública que empreendeu um amplo processo
democrático e de inclusão social das três últimas décadas do século XX (Lima et al.,
2005). Propõe um sistema universal, equânime e que garanta a atenção integral à saúde
para todos num momento em que a política econômica encaminhava-se para outro tipo
de desenvolvimento do país, reduzindo o papel do Estado na oferta de serviços à população.
Entretanto, o otimismo que as conquistas imprimem na luta dos atores
envolvidos com a consolidação do SUS permite também a identificação de desafios e
dificuldades que ainda existem para sua efetiva implementação. Dentre elas, com
destaque, a desarticulação ainda observada entre o processo de formação e a mudança
no modelo de atenção a saúde (Ceccim; Feuerwerker, 2004a). A substituição do
sistema dominante de atenção à saúde, centrado na assistência curativa, hospitalar e
hiperespecializada, por modelos tecnoassistenciais que valorizem a integralidade, o
cuidado humanizado, a promoção da saúde depende, em grande medida, do perfil
de formação e da prática dos profissionais de saúde (Feuerwerker, 1998; Almeida;
Feuerwerker e Llanos, 1999).
Na educação, a discussão e elaboração das diretrizes curriculares nacionais
(DCNs) iniciadas após a aprovação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional
(LDB) n. 9.394/96, foi um importante movimento do setor. As diretrizes curriculares
nacionais para os cursos da área da saúde foram aprovadas entre 2001 e 2004, quando
foi reforçada a necessidade de articulação entre o processo de formação e o SUS. À
exceção das profissões de ciências biológicas, medicina veterinária, educação física
e serviço social, as DCNs para todas as outras dez profissões da área da saúde
reconhecidas pela Resolução n. 287/98 do Conselho Nacional de Saúde (biomedicina,
enfermagem, farmácia, fisioterapia, fonoaudiologia, medicina, nutrição, odontologia,
psicologia e terapia ocupacional) vinculam a formação do profissional ao sistema de
saúde vigente no país (Almeida, 2005).
108
publicação eletrônica: http://www.ims.uerj.br/sesc
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
Além disso, as DCNs ressaltam o compromisso das universidades com a utilização
de metodologias ativas de ensino-aprendizagem, a formação de um profissional crítico,
reflexivo e comprometido com a sociedade em que vive, a relação teoria e prática, a
elaboração de competências gerais comuns a todas as profissões da saúde, além das
específicas de cada profissão, preconizando o trabalho em equipe multiprofissional.
As diretrizes constitucionais do SUS originaram reflexões sobre um novo perfil
de profissional, que deve ser apto a atuar em todos os níveis de atenção à saúde e que
tenha a integralidade como eixo de ação. Por esta razão, amplia-se o debate sobre
uma formação centrada em conteúdos e organizada de maneira compartimentada e
isolada, fragmentando os indivíduos em especialidades da clínica e incentivando a
precoce especialização (Ceccim; Feuerwerker, 2004b).
Vários movimentos de mudança estão em curso no país, enfrentando inclusive
o conservadorismo do mundo acadêmico que, muitas vezes, resiste fortemente às
mudanças. Podem ser observados movimentos de mudança que se baseiam na
construção de uma nova configuração acadêmica. Um dos aspectos importantes dessa
proposta está em considerar a intersecção dos espaços da universidade, dos serviços
de saúde e da comunidade como capaz de criar uma nova proposta de trabalho. Isso se
faz possível porque esses espaços são considerados campos de ação de sujeitos sociais.
Além disso, a diversificação de cenários de ensino-aprendizagem é colocada como
estratégica para a mudança (Feuerwerker, 1998).
O debate sobre a mudança na formação de profissionais de saúde ganhou força
e destaque na última década, desde a criação e o fortalecimento de entidades
diretamente relacionadas com a discussão sobre o tema para as várias profissões da
saúde até a proposição de políticas públicas voltadas especificamente a este fim.Vivemos
um momento de acelerada qualificação desse debate.
Nesta década também foi possível acompanhar a ampliação do debate em torno
dos temas da integralidade e da multiprofissionalidade para a inovação das práticas e
da formação em saúde. A integralidade na atenção à saúde é considerada um conceito
polissêmico que inclui várias dimensões, uma delas relacionada à boa prática
profissional, por meio da superação dos limites anátomo-patológicos, da fragmentação
do conhecimento e da prática existente, entre outras (Mattos, 2001).
A constituição de espaços de atuação multiprofissional é uma estratégia
relevante. Temos o desafio de construir um processo de formação que contemple uma
visão ampliada de saúde, entendida como direito humano, ampliando a capacidade de
diálogo, reconhecendo os diferentes modos de viver e adoecer, as diferentes culturas
e outros elementos indispensáveis para a construção da integralidade.
Para além de garantir a presença de várias profissões nos serviços de saúde, é
preciso produzir espaços de encontros, articulações e construção de uma rede de
cuidados em saúde. Isso não se dá naturalmente, porque a atuação em equipe
multiprofissional é permeada pela discussão sobre o processo de trabalho e suas divisões
técnica e social, as relações de poder e o conflito de interesses presentes. São fatores
que devem ser problematizados para a construção de práticas multiprofissionais nos
serviços e na formação em saúde.
109
publicação eletrônica: http://www.ims.uerj.br/sesc
Palavras-chave: equipe multiprofissional; integralidade; formação; equipe de
saúde; divisão do trabalho.
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
Ao aprofundar sobre essa temática, Peduzzi (2001) considerou “a equipe
multiprofissional como um trabalho coletivo estabelecido pela relação recíproca entre
as intervenções técnicas e a interação dos agentes de diferentes áreas profissionais”.
Para tanto, desenvolveu duas tipologias para definição do trabalho em equipe: a “equipe
integração” e a “equipe agrupamento”. Estas contemplaram aspectos como a
comunicação entre os agentes, um projeto assistencial comum, entendido como um
projeto terapêutico articulado, a identificação de trabalhos diferentes e trabalhos
desiguais, a especificidade dos trabalhos especializados em comparação com a
flexibilidade da divisão do trabalho e a autonomia técnica. Ambas as tipologias
apresentam diferenças técnicas do trabalho de cada profissional e as desigualdades do
valor social atribuído aos distintos trabalhos, além das tensões entre a concepção e o
exercício da autonomia técnica e o grau de independência e complementaridade
objetiva dos trabalhos.
No âmbito da formação, a constituição de atividades multiprofissionais para a
produção do trabalho em equipe deve ser considerada uma estratégia essencial para
os cursos que se propõem a produzir transformações no processo formativo. É possível
identificar várias experiências no Brasil que produzem esses espaços. Muitos delas são
projetos de extensão que, apesar de importantes, não necessariamente contemplam
todos os estudantes dos cursos, já que não é uma atividade de ensino obrigatória.
Outras, no entanto, são atividades de ensino curriculares.
O trabalho em equipe multiprofissional é o foco de debate deste estudo, na
perspectiva de, a partir da tipologia definida por Peduzzi (2001), mirar esta atividade no
contexto do processo formativo, entendendo a atuação multiprofissional em saúde como
uma estratégia para garantir a integralidade da atenção à saúde como princípio do SUS
e a saúde como direito humano.Tem como objetivo analisar as atividades multiprofissionais
de ensino nos cursos de graduação em saúde, a partir da identificação da existência de
encontros e relações multiprofissionais entre os cursos; a análise dos modos de produção,
os sujeitos envolvidos e os arranjos institucionais dessas relações; e a compreensão das
percepções dos sujeitos destas atividades em seu contexto de formação.
Como metodologia, propõe buscar como cenários os cursos de graduação em
saúde que ofereçam atividades multiprofissionais curriculares na formação, envolvendo
como sujeitos as direções e coordenações de ensino e serviços, docentes, estudantes,
profissionais dos serviços e a comunidade.
Além da pesquisa documental para o mapeamento de experiências e cursos de
graduação em saúde que desenvolvam essas atividades, no intuito de selecionar as
experiências para análise em profundidade, a partir de critérios como o número de
cursos envolvidos e outros, serão realizadas oficinas de trabalho para coleta de
informações sobre as atividades, com a participação dos diferentes sujeitos envolvidos.
Com isso, pretendemos desenvolver um estudo cartográfico, tendo a cartografia como
um antimétodo que procurará revelar as forças que contribuem para a formação de
territórios existenciais, ou seja, a constituição da vida dos sujeitos.
110
Referências
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na área da saúde. Londrina: Rede UNIDA, 2005.
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saúde na América Latina: teoria e prática de movimento de mudança. Tomo 1. São
Paulo: Hucitec, 1999.
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área da saúde: ensino, gestão, atenção e controle social. Physis: Rev. Saúde Coletiva.
Rio de Janeiro, v.14, n.1, p. 41-65, 2004a.
CECCIM, R. B., FEUERWERKER, L. C. M. Mudança na graduação das profissões
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Janeiro: Fiocruz, 2005.
PEDUZZI, M. Equipe multiprofissional de saúde: conceito e tipologia. Rev. Saúde
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publicação eletrônica: http://www.ims.uerj.br/sesc
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
MATTOS, R. A. Os sentidos da integralidade: algumas reflexões acerca de valores
que merecem ser defendidos. In: PINHEIRO, R.; MATTOS, R. A. (Orgs.). Os
sentidos da integalidade na atenção e no cuidado à saúde. Rio de Janeiro: Abrasco, 2001.
111
NUTRINDO A VITALIDADE:
A PROMOÇÃO DE SAÚDE NA MEDICINA
CHINESA
DOUTORANDO: EDUARDO FREDERICO ALEXANDER
AMARAL DE SOUZA*
ORIENTADORA: MADEL T. LUZ
FOMENTO: CNPQ
* EDUARDO FREDERICO ALEXANDER AMARAL DE SOUZA
1
EDU. [email protected]
8º Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva e 11º Congresso Mundial de Saúde Pública. A
Declaração do Rio foi extraída da página eletrônica da Associação Brasileira de Saúde Coletiva – ABRASCO. http://www.abrasco.org.br/noticias/noticia_int.php?id_noticia=47. Acesso em:
14 set. 2006.
publicação eletrônica: http://www.ims.uerj.br/sesc
JUSTIFICATIVA E OBJETIVO
O campo da Saúde Coletiva parece caminhar para um consenso quanto à
importância de práticas de prevenção e promoção de saúde na resolução de seus
principais problemas. Observamos isto na “Declaração do Rio”, documento resumo
dos debates do último Congresso Mundial de Saúde Púbilca.
Os resultados das pesquisas [sobre as causas do adoecimento] devem estar
publicamente disponíveis e ser incorporados na formulação de políticas públicas e
intervenções em saúde. Estas, por sua vez, devem ter a promoção em saúde como
parte integral em seu desenho.1 (grifos do autor). No entanto, o paradigma
biomédico, hegemônico no campo da Saúde, foi desenvolvido com base nas noções de
doença e cura, reservando papel secundário para as noções de prevenção e promoção.
Na história da medicina chinesa, ocorreu o oposto. Durante seu período de
construção na dinastia Han (206 a.C. a 220 d.C.), a chamada medicina clássica chinesa
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
INTRODUÇÃO
A partir da década de 70 do século passado, testemunhamos o surgimento de
diversas culturas de saúde e o crescimento do uso de novas práticas terapêuticas.
Denominadas alternativas ou complementares, ganharam progressivo espaço na
sociedade civil e também em instituições e sistemas locais de saúde. Durante este
processo, a medicina chinesa expandiu-se com destaque, tendo estabelecido fortes
raízes no mundo ocidental. Dos conflitos inerentes ao processo de aculturação, vem
surgindo um novo tipo de medicina chinesa, mais próximo do paradigma biomédico,
que enfatiza as noções de cura em detrimento das noções de prevenção e promoção
de saúde.
112
desenvolveu-se com bases na noção de YANG SHENG
, nutrir a vitalidade,
que podemos interpretar como a noção fundamental de um modelo de prevenção/
promoção. Somente na República Popular da China (1950 d.C.), houve uma
reformulação que aproximou a medicina chinesa do modelo curativo.
Dentro deste quadro, nosso objetivo é apreender os sentidos e significados
das noções de YANG SHENG
, nutrir a vitalidade;YANG XING
,
nutrir a natureza; e YANG MING
, nutrir o destino; presentes na medicina
clássica chinesa, analisando-os como fundamentos de um modelo de prevenção e
promoção de saúde.
A reconstrução deste cenário nos confere elementos para posterior reflexão
sobre as noções de prevenção e promoção de saúde presentes no campo da Saúde
Coletiva, constituindo as bases para um estudo comparativo.
publicação eletrônica: http://www.ims.uerj.br/sesc
CONCLUSÕES
As noções citadas da medicina clássica são equivalentes às noções de prevenção
e promoção de saúde, porém, seus sentidos, significados e práticas terapêuticas
associadas compõem um complexo conjunto de saberes que não podem ser reduzidos
às noções de prevenção e promoção e, portanto, são capazes de ampliar nosso
conhecimento sobre o tema. YANG SHENG
, nutrir a vitalidade; YANG
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
MÉTODO
O caminho percorrido no processo de pesquisa foi dividido em duas etapas. A
primeira, chamada de contextualização, teve como objetivo a apresentação da cultura
chinesa na época da formação da medicina clássica, dinastia Han (206 a.C. a 220 d.C.). A
segunda, foi a análise das noções supracitadas. A ferramenta fundamental foi a análise de
textos. Para a primeira etapa a fundamentação foi conferida por referenciais teóricos de
autores do campo das ciências humanas, com produção específica sobre cultura e medicina
chinesa, a saber: Livia Kohn (2001, 2005 e 2006), professora de Religiões Asiáticas,
Universidade de Boston, por seu extenso trabalho em Daoísmo e Cultura Chinesa;
François Jullien (1998, 2000), Filósofo e Sinólogo da Universidade de Paris-7, por sua
análise filosófica de categorias fundamentais da Cultura Chinesa; Paul Unschuld (1985),
Instituto de História da Medicina, Universidade de Munique, por sua obra pioneira em
História da Medicina Chinesa; Catherine Despeux (1979, 1990), professora do Instituto
Nacional de Língua e Civilizações Orientais, Paris; e Fabrizio Pregadio (2003), professor
do Departamento de Estudos Religiosos, Universidade de Stanford.
Na segunda etapa nos fundamentamos na análise de fontes documentais de dois
tipos: as fontes primárias, traduções (com interpretação) de textos dos cânones taoístas
ou médicos; e as fontes secundárias: textos de autores contemporâneos cuja obra
reinterpreta e reatualiza as noções do contexto clássico. Análise de textos divididos
em duas classes: a) traduções comentadas de cânones da medicina clássica chinesa; b)
fontes documentais de autores contemporâneos cuja obra tenha atualizado os saberes
e práticas da medicina clássica chinesa.
113
XING
, nutrir a natureza; e YANG MING
, nutrir o destino,
constituem as bases de um modelo “preventivo”. As aspas se devem à impossibilidade
de transposição, ou incomensurabilidade, dos sentidos e significados no contexto cultural
de sua criação para os sentidos atribuídos aos termos prevenção e promoção na cultura
contemporânea. No entanto, o estudo das noções nos conduz a um conjunto de práticas
de saúde que formam um conjunto integrado, tais como: a) a utilização de ervas; b) a
orientação à seleção e preparo de alimentos; c) acupuntura e moxabustão; d) exercícios
corporais; e) cuidados de gestação e parto; e f) práticas sexuais. Este cenário
provavelmente define práticas de prevenção e promoção de uma forma mais ampla
do que os sentidos comuns encontrados em nossa sociedade. O estudo deste conjunto
de saberes e práticas pode contribuir para a criação de soluções inovadoras para os
atuais problemas de Saúde Coletiva, num momento onde o campo salienta a necessidade
de projetos voltados para prevenção e promoção de saúde.
Palavras-chave: medicina chinesa; prevenção; promoção; saúde.
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Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
115
MESA 8
publicação eletrônica: http://www.ims.uerj.br/sesc
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
VIOLÊNCIA,
FAMÍLIA E
TRANSDISCIPLINARIDADE
116
CONTRIBUIÇÕES DE WINNICOTT,
BOWLBY E RORTY PARA O ESTUDO DA
VIOLÊNCIA URBANA
MESTRANDA: SABIRA ALENCAR*
ORIENTADOR: BENILTON BEZERRA JR.
FOMENTO: CNPQ
SABIRA@ ALTERNEX.COM
publicação eletrônica: http://www.ims.uerj.br/sesc
* SABIRA ALENCAR
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
Problemas como o da relação entre mente e corpo ou entre indivíduo e ambiente
ainda assolam o campo acadêmico e o debate científico. Visões dualistas ou monistas,
materialistas ou idealistas, são divergências seculares que permanecem, atravessando
as descrições que temos de nós mesmos e as relações que estabelecemos com o mundo.
A proposta deste estudo é pensar a violência urbana a partir de algumas
noções concernentes à subjetividade. A orientação aqui adotada recusa os dualismos,
as crenças essencialistas e aposta no caráter provisional de qualquer definição.
Também sugere que nenhuma teoria possa retratar a realidade, optando assim por
uma posição anti-representacionalista do campo subjetivo. Não se trata de posicionarse contra a ontologia, mas sugerir que ela não é capaz de espelhar a verdade e que
jamais será única. Acredita-se que desse modo é possível alcançar descrições mais
interessantes e eficientes para tratar a complexidade da natureza humana. Tal
perspectiva nos obriga a reformular noções fundamentais das ciências humanas como
a de verdade, realidade, objetividade e subjetividade.
A subjetividade será entendida como emergente da ação do sujeito no mundo –
ação por sua vez decorrente de um lugar ocupado por esse sujeito – e não qualquer coisa
cuja origem fundacional é passível de ser desvendada. As separações entre o físico e o
mental ou entre o indivíduo e seu meio desse ponto de vista só se justificam por uma
necessidade metodológica.Vai nesse sentido a escolha de John Bowlby, Donald Winnicott
e Richard Rorty como teóricos que pensam a subjetividade, cada um a seu modo, como
um processo que surge do encontro entre o mundo interno individual e seu meio.
Winnicott como Bowlby, e para além de Freud, marcam a constituição da
subjetividade pela intersubjetividade e assim, propõem uma alternativa à noção
prevalente na modernidade de um sujeito que preexiste à sociedade. Rorty, filósofo
neopragmatista, inspirado em Davidson define o sujeito como uma rede de crenças e
desejos que causam o comportamento lingüístico de um organismo singular. O sujeito
não preexiste à linguagem que o descreve, ele é a própria realidade lingüística. O
sujeito rortyano não precisa de outro plano referencial para ser definido além da
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publicação eletrônica: http://www.ims.uerj.br/sesc
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
própria linguagem que, na tradição pragmatista, consiste no conjunto de enunciados
empregados pelos usuários de uma língua. Quando o sujeito se comporta de uma dada
maneira, está respondendo a uma combinação de diversos fatores causais, de ordem
física ou mental, externa ou interna, lingüística ou extralingüística.Winnicott e Bowlby
vão priorizar um período por eles considerado pré-linguístico por entenderem que
essa fase nos ajuda bastante técnica e teoricamente a compreender casos até então
considerados intratáveis. Já Rorty defende que se descarte a dimensão extralingüística,
por não haver nem como, nem porque chegar a ela. O naturalismo de Bowlby ou o
vitalismo de Winnicott se dirigiam à clínica. Rorty procurava pôr em questão o
pensamento dicotômico tradicional e formular uma nova proposta filosófica antiessencialista e anti-representacionalista.
Numa concepção pragmatista, o que é normal ou patológico, natural ou não,
dependerá de nossas crenças e não de uma realidade anterior às opções realizadas no
interior da cultura a qual pertencemos. As classificações nosológicas, os conceitos
sofisticados que a psicanálise cunhou, as análises dos fatores sociais em questão podem
enriquecer nossa compreensão de um fenômeno de difícil digestão como o da violência,
sem que haja a pretensão de descobrir a natureza última do comportamento violento
ou do fenômeno da violência urbana. Neste raciocínio, a subjetividade se afina com o
historicismo de Freud que, sob a ótica de Rorty, nos ajuda a marcar o sujeito e o eixo
da subjetividade como um processo resultante da interação das contingências da vida
e da singularidade de cada um.
Psicanalistas, Bowlby e Winnicott chegaram a trabalhar juntos e pertenceram
ao chamado Middle Group ou Grupo Independente, como hoje é conhecido.A importância
do ambiente para a constituição subjetiva, com estes autores, ganha um papel central.
O vitalismo winnicottiano está em acreditar que temos uma tendência inata
ao desenvolvimento e à autocriação. Mas tal impulso precisa de um ambiente
favorável para se manifestar, logo seu naturalismo não implica determinismo ou
fisicalismo. É na busca de sobrevivência e satisfação que a vida toma sentido.
Sintonizado com Bowlby, Winnicott afirma que para essa busca ocorrer com saúde,
é necessário que haja nos primórdios um ambiente facilitador que permitirá ao
bebê atingir a integração psique-soma.
O ambiente (inicialmente entendido como cuidado materno) é no pensamento
winnicottiano algo que está na base da constituição do self. Ao formular as fases iniciais
do desenvolvimento emocional, uma das conseqüências de seu pensamento é levar a
compreensão da subjetividade individual para além das fronteiras da interioridade
psicológica, compreender o mundo interno e a realidade objetiva, assim como a própria
idéia de self, como instâncias fusionadas.
Possível graças a uma experiência suficientemente boa no momento inicial da
vida, o gesto espontâneo garante ao sujeito a possibilidade de agir no mundo de um
modo que ele reconheça sua contribuição. Caso contrário, os mecanismos de adaptação
se apropriam do sujeito, que passa a agir em função da defesa às supostas invasões do
meio. É o que Winnicott chamará de um self adaptativo ou “falso self”. Isso nada tem a
ver com uma essência verdadeira do self, mas com a idéia de uma singularidade cujos
118
Referências
BEZERRA JR., B.; ORTEGA, F. (Orgs). Winnicott e seus interlocutores. Rio de Janeiro:
Relume Dumará, 2007.
publicação eletrônica: http://www.ims.uerj.br/sesc
Palavras-chave: subjetividade; psicanálise; neopragmatismo; violência.
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
efeitos de suas ações são de inserção social, são reconhecidamente criativos e favoráveis
à sua normatividade (no sentido canguilhemiano do termo).
Apesar de fazer questão de não se opor a Freud e manifestar suas afinidades em
aspectos cruciais de sua orientação teórica, Bowlby se distancia bastante do mestre.
Dedicado anos a fio a uma pesquisa científica fundamentada na biologia darwiniana e
nos estudos etológicos de Lorenz, sua investigação ganha um caráter prospectivo.
Bowlby parte de observações de bebês (e não da escuta de adultos) e suas primeiras
interações para acompanhar o desenvolvimento do indivíduo. Seu arcabouço teórico
se constrói em torno da Teoria do Apego, resultado de seu trabalho com Mary
Ainsworth, em que a finalidade é investigar a relação da saúde mental com os cuidados
maternos. Para Ainsworth, a segurança familiar nos estágios iniciais forma a base a
partir da qual o indivíduo pode se desenvolver de forma sadia, com criatividade e
interesses diversos. Essa idéia de uma base segura a partir da qual se constitui a formação
subjetiva torna-se um conceito chave da teoria bowlbyana.
O comportamento de apego para Bowlby é um componente básico da natureza
humana e consiste na propensão para estabelecer laços íntimos. Embora alimento e
sexo realizem papéis centrais nas relações de apego, sua função primordial é a de
sobrevivência e proteção. O apego está na base da formação subjetiva e, cabe reforçar,
é uma propriedade de duas partes – o bebê e seu cuidador. O padrão de apego
estabelecido neste início será determinante para o tipo de relações que o indivíduo
construirá ao longo de sua vida e para o desenvolvimento de sua personalidade. A
associação feita, tanto por Bowlby quanto por Winnicott, da privação da figura materna
nos primeiros anos de vida com os distúrbios de caráter e outras psicopatologias
severas, é um ponto chave para os estudos sobre a violência urbana. Inúmeras pesquisas
atuais, que não caberiam nesta breve apresentação do tema, o comprovam.
A orientação apresentada é uma alternativa às diversas teorias reducionistas
que se pode encontrar hoje no âmbito das ciências humanas e biomédicas sobre a o
tema da violência urbana. Tais teorias com freqüência têm efeitos éticos desastrosos e
não contribuem para a diminuição do problema. Conceber que sujeito e sociedade
emergem em concomitância, numa relação de reciprocidade, não significa negar as
causas econômico-sociais graves do fenômeno, nem deixar de olhar para a existência
de psicopatologias limites, mas indica a importância de se perceber o fenômeno como
um arranjo de fatores plurais num contingente historicamente marcado, sob o risco
de descambar em visões preconceituosas e condutas disfuncionais. Significa aceitar a
sugestão de Rorty de se buscar objetividade alcançando tantas concordâncias
intersubjetivas quanto possível.
119
BOWLBY, J. Cuidados maternos e saúde mental. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
COSTA, J. F. (Org.). Redescrições da psicanálise: ensaios pragmáticos. Rio de Janeiro:
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Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
120
O ESTIGMA DE CORNO
E A CULTURA DA VIOLÊNCIA EM CASAIS1
DOUTORANDA: MARÍLIA ETIENNE ARREGUY*
ORIENTADOR: BENILTON BEZERRA JR.
CO-ORIENTADOR: SÉRGIO CARRARA
FOMENTO: CAPES
1
LILARREGUY@UOL. COM.BR
Este trabalho partiu dos estudos na disciplina “Teoria Social” e reproduz parcialmente um dos
itens de minha tese (defesa em abril de 2008).
publicação eletrônica: http://www.ims.uerj.br/sesc
* MARÍLIA ETIENNE ARREGUY
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
A gíria brasileira “corno” é bastante comum e faz parte do imaginário cultural.
O significado de “corno”, como aquele que foi traído por sua mulher, possui correlatos
em algumas línguas de origem latina, como o francês cocu, o italiano cornuto e o
espanhol cornudo. O alvo do “corno” é extremamente ambíguo. Do ponto de vista
linguageiro, às vezes diz-se que o sujeito: “levou um chifre”; “a mulher pôs um par de
cornos no homem” ou, simplesmente, “um sujeito chifrou o outro”, servindo a
designação para diferentes combinações de gênero e sexo, com a prevalência de uma
crítica severa à infidelidade feminina. Culturalmente, há também um aspecto diabólico
por trás da simbologia dos chifres, ou da fantasia sobre a figura de alguém que “mete
chifres” ou “leva uma chifrada”.
No mito cretiano do “Minotauro” – besta com corpo de homem, cabeça e cauda
de touro – descreve-se uma fera que é fruto de múltiplas traições: de Minos em relação
à sua esposa e em relação ao deus Poseidon e de Pasifae, em relação a Minos, seu esposo.
Na versão mais difundida do mito, o rei Minos pediu a ajuda de Poseidon para garantir
a posse do trono de Creta. Poseidon enviou-lhe como proteção um magnífico touro
branco para ser sacrificado, mas Minos ficou tão embevecido com a beleza do touro, que
sacrificou outro animal em seu lugar, tentando enganar o deus. Sabendo do ocorrido,
Poseidon impetrou-lhe o castigo de que Pasífae, sua esposa, se apaixonasse-se pelo touro.
O Minotauro, então, nasce dessa união bastarda e tem como destino a prisão num labirinto.
A cada ano, para satisfazer o apetite do Minotauro e se vingar da morte de seu filho
Androgeu pelos atenienses, Minos exigia que 7 rapazes e 7 donzelas atenienses fossem
oferecidas em sacrifício para o monstro Minotauro.
Na época do terceiro sacrifício, a maldição foi quebrada por Teseu, ao assassinar
a fera ajudado por Ariadne, filha de Minos, que, por sua vez, tinha se apaixonado pelo
herói Teseu, inimigo do rei. Assim, a morte do monstro representa mais uma traição,
da filha Ariadne em relação ao pai, Minos. Este mito representa, a meu ver, alguns
aspectos arcaicos da fantasia ligada ao estigma do corno. O signo dos chifres condensa as
121
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Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
consecutivas traições e a violência que advém de escolhas erráticas, iniciando pela
prepotência de Minos em ludibriar o deus, seguindo pela mulher que trai o rei e até
o próprio touro divino, ao dissimular-se de vaca e encenar um erotismo animalesco.
O castigo maior dado a Minos é o filho bastardo, anômalo e violento, que será usado
para perpetuar a guerra. O conflito na esfera conjugal é potencializado na discórdia
entre reinos, numa interpenetração entre questões eróticas e de poder. A imagem do
touro branco, posto como terceiro entre o casal, fascina a ambos (vide Arreguy &
Garcia, 2002), configurando um triângulo maldito, mote do nascimento de um ser
mortífero – o Minotauro –, cujo destino é o confinamento, matar inocentes, e, ser
morto por um herói. A partir do mito, vem a questão: em que medida a construção
literária de traições conjugais foi condensada pelo signo dos chifres enquanto tabu? O
fantasma dos “cornos” parece uma ameaça que estimula a violência em casais.
No plano cultural, o estigma, conceito estudado pelo antropólogo do
interacionismo simbólico Erving Goffman, se refere à discrepância entre a identidade
social virtual e a identidade social real, deixando claro que virtual é o estereótipo dado
nas expectativas sociais e real é a identidade “de fato” do indivíduo. Goffman (1963/
1989) afirma que a estigmatização tende a “afastar o indivíduo da sociedade e de si
mesmo de tal modo que ele acaba por ser uma pessoa desacreditada frente a um
mundo não receptivo” (op. cit., p. 27).
A fofoca em torno da vida de um casal pode ser o fermento para atitudes
desmedidas. A informação social que envolve o indivíduo e é transmitida pela
comunidade está incessantemente sujeita a inúmeras distorções. Conforme Goffman
(1963/1989), “a aliança que um homem tem em sua mão” (p. 53) é considerada
correntemente como um símbolo de status, no entanto, que pode se transformar em
um peso sobre a própria pessoa, podendo haver uma “degradante discrepância de
identidade quebrando o que poderia ser um retrato global coerente” (ibid.), sobretudo
quando o par portador dessa aliança não limita sua ação ao que é social e religiosamente
esperado das relações amorosas, ou seja, um respeito essencial às utópicas exigências
de fidelidade e de duração eterna do casal.
O estigma de “corno” apresenta sua feição mais pejorativa quando é usada a
alcunha de “corno manso”. O adjetivo “manso” significa uma espécie de cobrança de
que o sujeito vítima de adultério dê uma resposta violenta e vingativa contra a
companheira adúltera ou o rival. Assim, quando se leva em conta a tentativa de liberação
do estigma, ou seja, que o sujeito “corneado” tem de se livrar da vergonha pelo “par
de chifres” recebido, a vingança pode chegar ao nível de agressões ou de crimes
passionais ditos “por honra”. Para não se tornar desacreditado socialmente, o sujeito
responde de modo raivoso e colérico à traição ou suposta traição. Assim, o fantasma
em torno da expressão “corno manso” pode ser em parte responsável por práticas de
agressão no bojo da família nuclear monogâmica ou em casais que se ligam rigidamente
a valores culturalmente idealizados.
A antropóloga Claudia Fonseca (1992) fez uma pesquisa de campo num bairro
popular da cidade de Porto Alegre sobre algumas representações sociais de gênero e
se disse surpresa com a constante referência a “homens cornudos” pelas mulheres de
122
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Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
uma comunidade “popular”. Fonseca afirma que: A condição inferiorizada que os homens
desse grupo ocupam na sociedade global contribui para aguçar o fantasma dos chifres. Um
homem é considerado cornudo até pelos casos amorosos de sua ex-mulher. (ibid., p. 316).
Entretanto, Fonseca (1992) conclui que haveria uma “reciprocidade antagônica” (p.
314) nas relações de gênero que estudou. Tanto quando o homem abandona a família
por causa de outra mulher ou comete uma traição sexual, quanto quando ele é traído,
ele sempre será o alvo primordial de uma humilhação simbólica, por ser considerado
“chifrudo” ou por ser “vagabundo”/ “infiel”, caso sua conduta afete o provimento
econômico do lar (ibid., p. 318). Fonseca (1992) acentua também que são as mulheres
da própria família do sujeito traído quem falam e provocam a estigmatização ao
levantarem a suspeita ou a constatação da infidelidade da esposa. A consolidação do
estigma seria então uma boa forma de trazer para mais perto de si o ente querido
“perdido” pelo casamento ou amasiamento. As familiares seriam rivais indiretas da mulher
suposta adúltera, configurando o ambiente consanguíneo como o mais seguro e confiável
para o retorno do homem corneado. Assim, há vários “usos sociais” do estigma de corno.
A honra é atrelada à fidelidade e extendida à família. Conforme Fonseca (1992) assevera:
Exemplo extremo seria o dos cornos, pra quem o termo “cornudo” é aplicado não somente ao irmão, pai
ou marido de uma mulher desonrada, mas também aos homens que não tiveram a coragem de se
vingar de outras ofensas (assassinato etc.) cometidas contra seu clã (p. 322).
De fato, é muito evidente ainda no Brasil a associação entre certa idéia de
potência, posse da mulher, exigência de fidelidade, vergonha pelo adultério e cobrança
com sangue pelo ultraje, numa espécie de amálgama entre a conduta feminina e a
desonra masculina (cf. Corrêa, M., 1983). Assim, a predominância de valores
patriarcais capitalistas em homens e mulheres condiciona um tipo de violência familiar
cometida por ambos, embora em muito maior escala, três quartos, por homens.
A manutenção de certa noção de “pureza” fundada na fidelidade do laço conjugal
tende a ser garantida para que o indivíduo não corra o risco de cair na berlinda e se
tornar um sujeito “desacreditável” (cf. Goffman, 1963, p. 51), ou, tornar-se
“desacreditado” (ibid.: 51), caso a traição se torne pública. Entretanto, a notoriedade e
a “familiaridade [com o estigma] não reduz necessariamente o menosprezo” (p. 63) do
grupo social. O eterno marido, romance de Dostoiévski, ilustra bem o estigma moral e
abstrato de “corno manso”, que acaba incitando o olhar ainda mais mordaz do público,
fortalecendo o escárnio coletivo caso a vingança ritual não seja perpetrada pelo traído.
O estigma do corno cria certa obrigação de revide pois surge insidiosamente através
dos comentários maliciosos que expõem o indivíduo traído como o “coitadinho(a)”,
“otário(a)”, “impotente”, “inferior”, “corno manso”. O entrelaçamento das fronteiras
individuais e coletivas torna equivocadamente justificável o fato de que a criatura
estigmatizada como traída – o corno – possa usar o próprio estigma a fim de obter
“ganhos secundários” (cf. Goffman, op. cit., p. 20), resguardados no fato histórico da
“inimputabilidade” de uxoricidas, atualmente combatida pela sociedade brasileira. Em
suma, uma análise sócio-antropológica leva a crer que o meio cultural cria as condições
para a ação violenta em casais. O agressor é também visto, por assim dizer, como
uma “vítima corneada”. Portanto, enquanto sustentáculo do mito do amor romântico
123
(cf. Freire Costa, J., 1998), o próprio grupo social impele à violência privada e
simultaneamente pode se tornar complacente com o criminoso, na medida em que a
resposta violenta se baseia nas próprias origens do laço familiar aos moldes da figura
do paterfamilias. Sauvagnat (2005), afirma, em relação à violência passional em casais,
que: “[...] há fatores sociais extremamente fortes nesses casos [de modo que] a paixão é algumas
vezes teleguiada pela própria sociedade (p. 139)”. O tema em geral é mais discutido por
juristas e psiquiatras, mas também por antropólogos e psicanalistas, sendo importante
evitar a patologização rotulante do ato e re-trabalhar o tema sob um prisma
transdisciplinar. A violência passional depende evidentemente das condições psíquicas
do sujeito que vem a cometer o crime, ponto que não discutirei aqui. Operando um
salto do mito para o cotidiano, os assassinatos rituais vingados pelo Minotauro no
combate político entre reis, deuses, heróis e reinos seriam reconduzidos, no âmbito
familiar, pela atuação violenta a fim de livrar o casal do fantasma representado pelos
chifres. Enfatizo, portanto, a responsabilidade cultural na violência em casais, uma
vez que a sociedade, ao reafirmar o “estigma do corno”, se comporta como incitadora
do ato violento, expresso como sintoma de uma normatividade social degradada.
Palavras-chave: corno; Minotauro; estigma; violência; casais.
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e o masoquismo. Psicologia em Revista, v. VIII, n. 11, p.111-122, junho-2002.
124
VIOLÊNCIA FÍSICA CONJUGAL E CONTRA
FILHOS EM SERVIÇOS DE SAÚDE NA CIDADE
DO RIO DE JANEIRO
DOUTORANDOS: ALESSANDRA SILVA DIAS
E GUSTAVO LOBATO*
CO-AUTORES: CLAUDIA LEITE MORAES
E MICHAEL E. REICHENHEIM
ORIENTADORA: CLAUDIA LEITE MORAES
FAPERJ – PROCESSOS
FOMENTO:
CNPQ - PROCESSO N° 300234/94-5 E
N° E-26/171.223/98 E E-26/150.893/99
* GUSTAVO LOBATO
LOBATO@IFF .FIOCRUZ.BR
publicação eletrônica: http://www.ims.uerj.br/sesc
INTRODUÇÃO
A violência familiar tem sido reconhecida como um evento bem mais comum
do que supõe o senso-comum. Atinge principalmente mulheres, crianças/adolescentes
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
Objetivo: Avaliar a prevalência de violência física conjugal e contra filhos em
uma população atendida em serviços de saúde na cidade do Rio de Janeiro, bem como
investigar a existência de um perfil para essa ocorrência. Métodos: Estudo transversal
sobre violência familiar e prematuridade, realizado na cidade do Rio de Janeiro, em
2000. Foram elegíveis para a análise os domicílios contendo mulheres vivendo com
companheiro e nos quais coabitava pelo menos um filho (ou enteado) de até 18 anos
(n=205). Condições socioeconômicas, demográficas e relativas aos hábitos de vida da
mulher e do companheiro foram consideradas como potenciais preditores de violência.
O desfecho foi analisado em quatro níveis: ausência de violência física no domicílio;
ocorrência de violência física no casal; contra pelo menos um filho; e co-ocorrência.
Resultados: Os fatores associados ao maior risco do desfecho foram idade materna
maior ou igual a 25 anos; companheiro com primeiro grau incompleto; presença de 2
ou mais crianças menores de cinco anos no domicílio; e abuso de álcool e drogas
ilícitas pelo companheiro. Em domicílios com todas essas características, a estimativa
conjunta de prevalência projetada de violência no casal ou contra filhos chegou a
90,2%, sendo de 60,6% a de co-ocorrência. Na ausência desses fatores, as estimativas
foram consideravelmente menores (18,9% e 0,2%, respectivamente). Discussão:
Profissionais de saúde não devem somente atentar à presença de um gradiente
situacional, mas também ao fato de que existe mais chance dos agravos violentos
acontecerem como um fenômeno que engloba todo o grupo familiar.
125
publicação eletrônica: http://www.ims.uerj.br/sesc
MATERIAL E MÉTODOS
Essa pesquisa é parte de um estudo “caso-controle” cujo objetivo principal foi
avaliar a VPI (Violência entre Parceiros Íntimos) como um fator de risco para a
prematuridade (Moraes, 2001). Para a presente investigação somente foram utilizados
os controles, considerados representativos da população atendida nos serviços públicos
de saúde. Foram excluídos os domicílios contendo mulheres sem companheiro ou que
não tivessem tido algum relacionamento amoroso durante a gestação, e também
aqueles nos quais não havia coabitação do casal com pelo menos um filho ou enteado
de até 18 anos durante o período de recordatório. Efetivamente, 205 domicílios
remanesceram elegíveis como unidades de análise.
A presença de violência física conjugal e contra a criança/adolescente foi avaliada
através dos instrumentos Revised Conflict Tactics Scales (CTS2) (Straus, 1996; Moraes,
2001) e Conflict Tactics Scales: Parent-ChildVersion (CTSPC) (Straus, 1998; Reichenheim,
2003), respectivamente. Focalizou-se somente a escala da CTS2, que abordava a
violência física no casal, classificando-se como “situação de violência” aquela em que
houvesse o relato de pelo menos um item da escala perpetrado por pelo menos um
membro do casal durante os meses de gravidez. Quanto às situações de violência
contra filhos, também foram focalizadas apenas as escalas de mau-trato físico menor e
grave da CTSPC. O período recordatório foi de nove meses para ambas os
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
e idosos, implicando em graves repercussões físicas, emocionais e sociais. Pesquisas
em todo o mundo apontam ser este um expressivo problema de saúde pública (Krug,
2002), e no Brasil as evidências apontam na mesma direção.
Um crescente corpo de experiências clínico-sanitárias e diversas evidências
oriundas de pesquisas populacionais têm apontado uma concomitância entre violências
conjugais e violências contra suas proles. Segundo Gelles (1997), a violência familiar
é sempre um fenômeno complexo, que tende a envolver todos os integrantes do
núcleo familiar e não se restringe a um indivíduo ou relação específica. No entanto, a
despeito desse alerta contundente, ainda são poucas as respostas práticas de agências
de bem-estar infantil ou dos programas de combate à violência conjugal e contra a
mulher. E as que existem, tendem a percorrer trajetórias paralelas, pouco integradas
e contemplando perspectivas diferentes. Do ponto de vista estratégico, a maioria das
ações de proteção à infância/adolescência e também aquelas voltadas para mulheres
agredidas têm se desenvolvido de forma independente. Como resultado, esta
‘compartimentalização’ inibe ações mais efetivas, reduzindo a capacidade de prover
adequada segurança para todas as vítimas envolvidas. Assim, mostra-se imperativa
uma atuação na família como um todo, com um olhar mais atento também sobre a coocorrência do abuso conjugal e contra filhos.
Nesse contexto, interessa informar os profissionais de saúde sobre os diferentes
perfis de violência que se apresentam no âmbito domiciliar, facilitando a suspeição
dos eventos de forma mais aguçada. O objetivo do presente estudo foi apresentar um
perfil de ocorrência e co-ocorrência da violência física conjugal e contra filhos, segundo
as diferentes características socioeconômicas e demográficas.
126
instrumentos. Assim, a variável desfecho foi categorizada em quatro níveis: ausência
de violência física no domicílio (CTS2-/CTSPC-); ocorrência isolada de,
respectivamente, violência no casal (CTS2+/CTSPC-) e contra um filho(a) (CTS2-/
CTSPC+); e co-ocorrência dos dois tipos (CTS2+/CTSPC+).
As variáveis escrutinadas como possíveis preditoras desses cenários foram: a
idade, cor e inserção em trabalho remunerado materno; o número de filhos nascidos
vivos e filhos menores de cinco anos convivendo no domicílio; a escolaridade e o
perfil de mau uso de álcool e/ou uso drogas ilícitas da mulher e do companheiro; e a
densidade populacional do domicílio (número de pessoas por cômodo).
RESULTADOS
Os fatores associados ao maior risco de ocorrência do desfecho foram idade
materna maior ou igual a 25 anos; companheiro com primeiro grau incompleto;
presença de duas ou mais crianças menores de cinco anos no domicílio; e abuso de
álcool e drogas ilícitas pelo companheiro. Em domicílios com todas essas características,
a estimativa conjunta de prevalência projetada de violência no casal ou contra filhos
chegou a 90,2%, sendo 30,4% apenas entre os cônjuges, 1,2% apenas entre pais e
filhos e 60,6% de co-ocorrência. Na ausência de todos esses fatores, as estimativas
foram consideravelmente menores: 18,9% de violência total no domicilio, sendo
5,9% de violência conjugal, 12,8% de violência somente entre pais e filhos e 0,2% de
co-ocorrência.
Referências
GELLES, R.J. Intimate violence in families. London: Sage; 1997.
MORAES, C.L. Aspectos metodológicos relacionados a um estudo sobre violência familiar
durante a gestação como fator de propensão da prematuridade no recém-nascido. Tese
(Doutorado em Saúde Pública) - Escola Nacional de Saúde Pública, Fiocruz, Rio de
Janeiro, 2001.
publicação eletrônica: http://www.ims.uerj.br/sesc
Palavras-chave: Violência familiar; violência contra a mulher; maus-tratos infantis.
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
DISCUSSÃO
Os resultados mostraram que há um gradiente crescente de ocorrência de um
evento fisicamente violento no domicílio conforme mudam as características e situações
familiares. Ademais, boa parte das situações conflituosas no casal, resolvidas por meios
violentos, passa a vir acompanhada também de violência cometida contra filhos nas
situações tendendo ao limite. Nesse sentido, profissionais de saúde não devem somente
atentar à presença de um gradiente situacional, mas também ao fato de que existe
paulatinamente mais chance dos agravos ocorrerem para além de relações isoladas,
passando a se manifestar como um fenômeno englobando todo o grupo familiar.
127
REICHENHEIM, M. E.; MORAES, C. L. Adaptação transcultural do instrumento
Parent-CHILD CONFLICT TACTICS SCALES (CTSPC) utilizado para identificar
a violência contra a criança. Cad. Saúde Pública, n. 19, p. 1701-12, 2003.
STRAUS, M. A. et al. The revised Conflict Tactics Scales (CTS2): development and
preliminary psychometric data. J. Fam Issues, v. 17, p. 283-316, 1996.
STRAUS, M. A. et al. Identification of child maltreatment with parent-child conflict
tactics scales: development and psychometric data for a national sample of American
parents. Child Abuse Negl., n. 22, p. 249-70, 1998.
publicação eletrônica: http://www.ims.uerj.br/sesc
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
128
PREVALÊNCIA DA VIOLÊNCIA CONJUGAL ENTRE
CASAIS DURANTE A GESTAÇÃO NA CIDADE DO
RIO DE JANEIRO
DOUTORANDOS: GUSTAVO LOBATO
E ALESSANDRA SILVA DIAS*
CO-AUTORES: CLAUDIA LEITE MORAES
E MICHAEL E. REICHENHEIM
ORIENTADOR: MICHAEL E. REICHENHEIM
FOMENTO:
CNPQ - PROCESSO N° 663073/9987 (PRONEX PROJECT) E
FAPERJ – PROCESSOS N° E-26/171.223/98 E E-26/150.893/99
LOBATO@IFF .FIOCRUZ.BR
publicação eletrônica: http://www.ims.uerj.br/sesc
* GUSTAVO LOBATO
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
Objetivo: Estimar a magnitude, características e grupos de risco da violência
familiar na gestação em clientela atendida na rede pública de saúde do Rio de
Janeiro. Métodos: Quinhentos e trinta mulheres que tiveram partos a termo em
maternidades públicas do município do Rio de Janeiro entre março e outubro de
2000 foram selecionadas aleatoriamente e entrevistadas por equipe previamente
treinada, utilizando-se as Revised Conflict Tactics Scales (CTS2). Resultados: Cinqüenta
e dois por cento (47.8-56.5) das entrevistadas relatou ocorrência de agressão
psicológica, violência física, coerção sexual ou injúrias graves ao longo da gestação.
Aproximadamente 33% (28.8-37.0) das mulheres relataram algum modo de violência
física; 16% (13.3-19.8) descreveram formas graves de abuso físico; 10% (7.5-12.7)
e 15 % (12.6-18.9) referiram coerção sexual e injúria, respectivamente. Embora
as mulheres tenham perpetrado mais agressão psicológica e violência física, os atos
perpetrados pelos homens mais freqüentemente causaram injúrias graves. A
violência física ocorreu principalmente entre mulheres com menor escolaridade;
adolescentes; que não trabalharam fora de casa; com baixa freqüência ao pré-natal;
e com pouco suporte social. Famílias com maior número de menores de cinco anos,
que abusam de álcool e drogas e com baixo nível sócio-econômico também foram
mais freqüentemente envolvidas. Discussão: As altas prevalências das diversas
formas de violência doméstica durante a gestação indicam a necessidade de
enfrentamento imediato do problema. Para tal, é necessária a capacitação da equipe
do pré-natal para o reconhecimento precoce, inter venção imediata e
acompanhamento de famílias vitimizadas.
129
INTRODUÇÃO
A violência no âmbito familiar constitui-se um problema de saúde pública em
todo o mundo. Os indivíduos são mais propensos a serem assassinados e agredidos
fisicamente dentro de seus próprios lares, e por familiares, do que em qualquer outro
ambiente ou por outras pessoas com quem se relacionem. Assim, desde
aproximadamente 1970, a Violência Familiar (VF) vem sendo sistematicamente
discutida por pesquisadores e profissionais de diferentes áreas (Krug, 2002). Nesse
contexto, a violência contra a mulher perpetrada por parceiro íntimo vem sendo
referida como uma das principais formas de violência na população. Estima-se que
cerca de um terço de todas as mulheres estarão expostas à Violência entre Parceiros
Íntimos (VPI) em algum momento de suas vidas (Campbell, 2002). Infelizmente, a
VPI não cessa durante a gestação. A ocorrência dos abusos pode até mesmo iniciar-se,
ou aumentar a freqüência, no período gestacional. As publicações que versam sobre o
tema têm apontado para prevalências de VPI durante a gestação que variam entre 1 e
32%. Essas taxas heterogêneas resultam de estudos com metodologias e populações
distintas, e que utilizaram diferentes definições de violência.
Essa pesquisa tem como objetivo avaliar a prevalência de violência física, agressão
psicológica, coerção sexual e injúrias durante a gestação entre casais assistidos em
unidades públicas de saúde da cidade do Rio de Janeiro.
publicação eletrônica: http://www.ims.uerj.br/sesc
RESULTADOS
A população do estudo é caracterizada por baixa escolaridade (58,3% com até
8 anos de estudo), mulheres jovens (31,1% de mães adolescentes), assistência prénatal insuficiente (49,8% com menos de 6 consultas pré-natais) e alta prevalência de
mulheres sem uma relação conjugal estável no momento do parto (23,0%).
Cinqüenta e dois por cento (47.8-56.5) das entrevistadas relatou ocorrência de
agressão psicológica, violência física, coerção sexual ou injúrias graves ao longo da
gestação. Aproximadamente 33% (28.8-37.0) das mulheres relataram algum modo
de violência física; 16 % (13.3-19.8) descreveram formas graves de abuso físico; 10%
(7.5-12.7) e 15% (12.6-18.9) referiram coerção sexual e injúria, respectivamente.
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
MATERIAL E MÉTODOS
Essa pesquisa é parte de um estudo “caso-controle” cujo objetivo principal foi
avaliar a VPI como um fator de risco para a prematuridade (Moraes, 2001). Quinhentos
e trinta mulheres que tiveram partos a termo em maternidades públicas do município
do Rio de Janeiro entre março e outubro de 2000 foram selecionadas aleatoriamente e
entrevistadas por equipe previamente treinada utilizando-se as Revised Conflict Tactics
Scales (CTS2) (Straus, 1996; Moraes, 2002). As entrevistas foram realizadas dentro de
48 horas pós-parto, em ambiente reservado, por entrevistadoras previamente treinadas
e utilizando-se um questionário estruturado e previamente codificado desenvolvido
especificamente para o estudo. A avaliação de construtos e domínios conexos procurou
utilizar instrumentos padronizados e adaptados para a utilização no Brasil.
130
A violência física entre parceiros íntimos, tanto leve como severa, mostrou-se
mais freqüente entre mulheres com menor escolaridade (p-value 0,028 e 0,007,
respectivamente), adolescentes (p-value 0,002 e 0,006), assistência pré-natal
inadequada (p-value 0,002 e 0,015), condições sócio-econômicas desfavoráveis (pvalue 0,001 e 0,002), baixo nível de suporte social (p-value 0,009 e 0,001), elevada
paridade (p-value 0,001 e 0,002) e com abuso de álcool (p-value 0,000 e 0,001) e
drogas (p-value 0,000 e 0,000) durante a gestação.
Palavras-chave: violência familiar; violência contra a mulher; gravidez.
CAMPBELL, J. Health consequences of intimate partner violence. Lancet. n. 359,
p. 1331-6, 2002.
KRUG, E.G. et al. (Eds.). World Report on Violence and Health. Geneva: WHO, 2002.
MORAES, C. L. Aspectos metodológicos relacionados a um estudo sobre violência familiar
durante a gestação como fator de propensão da prematuridade no recém-nascido. Tese
(Doutorado em Saúde Pública) - Escola Nacional de Saúde Pública, Fiocruz, Rio de
Janeiro, 2001.
MORAES, C. L.; REICHENHEIM, M. E. Cross-cultural measurement equivalence
of the revised Conflict Tactics Scales (CTS2) Portuguese version used to identify
violence within couples. Cadernos de Saúde Pública, n. 18, p. 783-96, 2002.
STRAUS, M. A. et al. The revised Conflict Tactics SCALES (CTS2): development
and preliminary psychometric data. J Fam Issues, n. 17, p. 283-316, 1996.
publicação eletrônica: http://www.ims.uerj.br/sesc
Referências
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
DISCUSSÃO
As altas prevalências das diversas formas de violência doméstica durante a
gestação indicam a necessidade de enfrentamento imediato do problema. Além de
suas repercussões à saúde materna, a violência entre parceiros íntimos tem sido
apontada como um importante fator de risco para uma série de agravos perinatais, o
que a coloca como uma das prioridades da saúde pública e materno-infantil.
Para tal, é necessária a capacitação da equipe de saúde, notadamente os
profissionais responsáveis pela assistência pré-natal, para o reconhecimento precoce,
intervenção imediata e acompanhamento de famílias vitimizadas. Nesse contexto, a
otimização dos recursos passa pela identificação dos grupos de alto-risco para a
ocorrência de VPI, dentre os quais se destacam mulheres com baixa escolaridade,
adolescentes, baixo nível sócio-econômico, baixo nível de suporte social, elevada
paridade e que façam uso abusivo de álcool e drogas. O pré-natal, ocasião única no que
concerne à adesão da mulher a um serviço de saúde, pode representar a momento
ideal para se quebrar o ciclo da violência.
131
MESA 9
publicação eletrônica: http://www.ims.uerj.br/sesc
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
REGULAÇÃO,
PESQUISA E
PROMOÇÃO
EM SAÚDE
132
CRESCIMENTO DE BENEFICIÁRIOS DE PLANOS
DE SAÚDE DE ASSISTÊNCIA MÉDICA NO BRASIL:
UMA ANÁLISE MULTIDIMENSIONAL1
DOUTORANDOS: RODRIGO MENDES LEAL E
JOÃO BOAVENTURA BRANCO DE MATOS*
ORIENTADOR: GEORGE KORNIS
1
As opiniões expressas neste trabalho são exclusivamente do(s) autor(es) e não refletem, necessariamente, a visão das instituições a que estão vinculados.
publicação eletrônica: http://www.ims.uerj.br/sesc
* RODRIGO MENDES LEAL [email protected] E
JOÃO BOAVENTURA BRANCO DE MATOS [email protected]
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
O número de beneficiários de planos de saúde de assistência médica no Brasil
apresentou crescimento no período recente, tendo sido esse crescimento inclusive
superior ao crescimento da população brasileira. Nessa esteira, o objetivo desse trabalho
é analisar a evolução do perfil de beneficiários segundo os diversos segmentos deste
mercado, com o objetivo de destacar deslocamentos da oferta e demanda de
beneficiários. Para este fim, foi realizada a análise multidimensional dos dados do
TABNET-ANS (de julho/07) do período de dez/00 a dez/06.
Inicialmente, é relevante distinguir os planos de saúde de assistência médica
com ou sem odontologia (planos médicos) dos planos exclusivamente odontológicos
(odontológicos). Os planos médicos são objeto de escopo da presente análise tendo
em vista o fato de apresentarem, em relação ao segmento exclusivamente odontológico,
maior especificidade regulatória, bem como custos mais complexos e sensíveis ao
perfil de beneficiários. Esses, entre outros fatores, são elementos motivadores da
avaliação das diversas dimensões da composição da demanda, segundo tipo de assistência,
época de contratação e características demográficas, como gênero e grupo etário.
Nos cinco anos analisados, o total de beneficiários evoluiu de 34,5 milhões para
44,7 milhões, apresentando crescimento de 30%. O segmento de planos médicos
permaneceu mais representativo (redução de 92% para 83%) do que o exclusivamente
odontológico, mas seu crescimento foi significativamente inferior (17% contra 173%).
Dado o crescimento dos valores agregados, será avaliada simplesmente a evolução da
composição da demanda dentre as diversas dimensões.
Em uma primeira etapa, foi analisada a segmentação segundo época de
contratação, se anterior (antigos) ou posterior (novos) à Lei n° 9656/98. Conforme
esperado, os planos novos ampliaram significativamente sua participação, de 29%
para 65%, tendo ultrapassado em 2003 a importância dos planos antigos (diminuição
de 71% para 35%), que apresentaram redução nominal de 43% no número de
beneficiários, devido à impossibilidade de comercialização. Por esse motivo, a
continuidade da análise tem foco apenas nos planos médicos pós-regulação.
133
Referências
AGÊNCIA NACIONAL DE SAÚDE SUPLEMENTAR (ANS). Reajuste de
mensalidade: conceitos básicos, reajuste por variação de custos, reajuste por mudança
de faixa etária. 2ª. ed. rev. ampl., 2005a.
______. Carência, doenças e lesões preexistentes, urgência e emergência: prazos de carência,
cheque-caução, preenchimento da declaração de saúde. 3ª. ed. rev. ampl., 2005b.
______. ANS TabNet: Nota técnica de informações sobre beneficiários e operadoras de
planos privados de assistência à saúde. Abril. 2007a.
______. Caderno de informação da saúde suplementar: beneficiários, operadoras e planos.
Setembro. 2007c.
MONTONE, J. Evolução e desafio da regulação do setor de saúde suplementar. In:
ANS. Documentos de apoio ao Fórum de Saúde Suplementar de 2003: Regulação e Saúde.
Rio de Janeiro: v. 3, tomo I, 2004, p. 9-31.
publicação eletrônica: http://www.ims.uerj.br/sesc
Palavras-chave: planos de saúde; demanda; população.
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
Na segunda etapa, ao considerar o tipo de contratação, observa-se aumento da
participação do mercado coletivo, que ampliou sua participação no total de planos novos
de 71% para 76%, em detrimento à redução de participação do tipo de contratação
individual ou familiar. O maior crescimento nominal do mercado coletivo, de 182%
(superior ao aumento de 121% do mercado individual), pode ser associado à regulação
menos intensa a que está submetido, especialmente quanto aos reajustes de preços.
Nessa etapa, analisou-se para cada um dos tipos de contratação separadamente,
a evolução do perfil demográfico, considerando gênero e faixa etária. Para os planos
coletivos, as mulheres permaneceram a maioria em todo o período, mantendo a sua
participação em torno de 52%. Em relação à composição de faixa etária, ambos os
gêneros apresentaram comportamento similar, mas um pouco mais intenso para os
homens. Houve crescimento da participação de faixa etária de “19 a 58”, compensado
pela redução da participação das faixas etárias mais jovens e mais idosas.
Para os planos individuais, por sua vez, as mulheres permaneceram como
maioria, mantendo a sua participação em torno de 59%. Em relação à composição por
faixa etária, houve relativa estabilidade, com sutil redução nas mulheres de “59 ou
+”, compensada especificamente pelo aumento de homens de “19 a 58”.
De modo geral, destacam-se algumas conclusões para o segmento de planos
médicos novos, predominantes no período analisado. O tipo de contratação coletiva
apresentou crescimento mais significativo que a individual, o que pode ser relacionado
ao crescimento do emprego e à intensidade da regulação. Em relação ao gênero,
observa-se estabilidade nos dois tipos de contratação, permanecendo as mulheres
como maioria. Por fim, houve inferência de que o crescimento de beneficiários foi
mais intenso nas faixas etárias economicamente ativas dos planos coletivos.
134
REVISÃO DA LITERATURA NACIONAL E
INTERNACIONAL SOBRE O ESTRESSE NO
TRABALHO: ALGUMAS QUESTÕES
METODOLÓGICAS
PÓS-DOUTORANDA: MÁRCIA GUIMARÃES
DE MELLO ALVES
DOUTORANDA: YARA HAHR MARQUES HOKERBERG*
ORIENTADOR: EDUARDO FAERSTEIN
FOMENTO: FAPERJ
E
publicação eletrônica: http://www.ims.uerj.br/sesc
* MÁRCIA GUIMARÃES DE MELLO ALVES [email protected]
YARA HAHR MARQUES HOKERBERG [email protected]
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
INTRODUÇÃO
Estresse no trabalho, como resultado da combinação entre excessivas demandas
psicológicas e escasso controle no processo de trabalho, tem sido objeto de
investigação na associação com diferentes desfechos negativos para a saúde do
trabalhador. Doenças cardiovasculares, hipertensão arterial, distúrbios músculoesqueléticos e transtornos mentais são alguns exemplos.
O modelo teórico proposto por Robert Karasek na década de 1980 (Karasek,
1981) foi desenvolvido para avaliar estressores crônicos presentes nos ambientes de
trabalho e foi testado em diversos países, entre os quais, Estados Unidos, Suécia,
França, Canadá, Alemanha, Japão e Brasil.
O instrumento utilizado para avaliar a percepção do estresse no trabalho é o “Job
Content Questionnaire” (JCQ) (Karasek, 1985). Possui originalmente 49 questões que
englobam cinco dimensões: demandas psicológicas, controle no processo de trabalho,
apoio social de colegas e chefes no trabalho, demandas físicas e insegurança no trabalho.
No Brasil, essa versão completa do JCQ tem sido utilizada, bem como uma
versão reduzida contendo 17 questões propostas por Theorell (1988), contemplando
demandas psicológicas, controle no processo de trabalho e apoio social no trabalho.
Esta última foi adaptada para o Português e tem sido usada no âmbito do Estudo PróSaúde, onde têm sido investigadas associações com hipertensão arterial, transtornos
mentais comuns, acidentes de trabalho e interrupção de atividades habituais.
A definição de estresse no trabalho utilizada na literatura nacional e internacional
diverge segundo o modelo teórico adotado.
135
OBJETIVO
Descrever as formas de coleta e análise das dimensões “demanda psicológica” e
“controle” do constructo “estresse no trabalho”, segundo o modelo de Karasek, vigentes
na literatura nacional e internacional.
publicação eletrônica: http://www.ims.uerj.br/sesc
RESULTADOS
A estratégia de busca utilizada selecionou 606 artigos, dos quais somente 122
(20%) preencheram os critérios de inclusão. Dos resumos analisados, a maioria (96%)
foi publicada em inglês. A partir da década de 1980, período em que foi proposto o
modelo de Karasek, a produção de artigos tem sido crescente: 2% até 1989, 27% na
década de 1990 e 70% a partir do ano de 2000.
Quanto ao desenho do estudo, 70% foram seccionais, 22% estudos de coorte e
8% de caso-controle. A população de estudo incluiu ambos os sexos em 46% dos
estudos, somente homens em 20%, somente mulheres em 9% e em 25% esta
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
MÉTODO
Trata-se de uma revisão dos artigos publicados nas bases eletrônicas de dados
PUBMED no período de 1966 a setembro de 2007. A estratégia de busca utilizada
incluiu os seguintes termos restritos aos campos “título” ou “resumo”, além de
descritores do artigo (“mesh terms”, “decs”, etc): (“job stress” OR “work stress” OR
“work-stress” OR “job strain” OR Karasek) AND (demand OR control OR “social
support”) AND “Case-Control Studies”[Mesh] OR “Cohort Studies”[Mesh] OR “CrossSectional Studies”[Mesh] OR “Health Surveys”[Mesh] OR “Longitudinal Studies”[Mesh]
OR “Epidemiologic Studies”[Mesh] OR “Retrospective Studies”[Mesh] OR
“Prospective Studies”[Mesh] OR Surveys or survey).
Os critérios de inclusão utilizados foram: a) artigo publicado de forma completa
em inglês, francês ou português; b) estudos observacionais descritivos ou analíticos que
avaliaram a associação entre estresse no trabalho (como fator de exposição) e desfechos
em saúde; c) utilizaram para a análise da exposição o modelo demanda-controle de
Karasek; d) o instrumento de coleta para “estresse no trabalho” foi o “Job Content
Questionnaire” (JCQ), com 49 questões ou suas versões resumidas, abrangendo, no mínimo,
as dimensões demanda e controle; e e) foi realizado em populações humanas.
Os critérios de exclusão foram: a) “estresse no trabalho” foi variável de desfecho,
de confusão ou interveniente; b) “estresse no trabalho” foi avaliado segundo outro
modelo teórico que não o proposto por Karasek; c) não estava explícito claramente
no resumo, o modelo e o questionário utilizado para a coleta da variável estresse no
trabalho; d) eram estudos experimentais, de intervenção, de avaliação de impacto
econômico ou de revisão; e) estudos que não tiveram como objetivo principal avaliar
a associação entre a exposição “estresse no trabalho” e desfechos em saúde; f) estudos
que utilizaram para a análise o método qualitativo; g) estudos cujo desfecho principal
foram dados laboratoriais sobre níveis hormonais na corrente sanguínea; h) gestantes
ou adolescentes na população de estudo e l) estudos realizados em animais.
Os resultados apresentados foram extraídos dos resumos disponíveis no
PUBMED e consolidados numa planilha em Excel.
136
informação não estava disponível nos resumos. As classificações etárias utilizadas
variaram muito, abrangendo categorias com idade mínima de 17 e máxima de 77
anos. Metade dos estudos especificou a categoria ocupacional dos indivíduos. Os
tamanhos de amostra variaram de 73 a 45.810 indivíduos.
Em relação ao desfecho analisado, 33% foram doenças cardiovasculares ou seus
fatores de risco, 13% avaliaram hipertensão ou níveis de pressão arterial, 25%
transtornos mentais e 18% analisaram outros desfechos.
O instrumento de coleta para o estresse no trabalho – “Job Content Questionnaire”
- variou, apresentando de 12 a 49 itens. A categoria de exposição foi definida segundo
os quadrantes propostos por Karasek na maior parte dos resumos (66%), sendo a
diagonal de interesse principal a correspondente ao quadrante de “alta exigência” “high strain”, onde coexiste alta demanda e baixo controle, em comparação ao de
“baixa exigência” – “low strain” ou baixa demanda e alto controle. Quarenta e cinco
estudos (37%) avaliaram as dimensões demanda psicológica e controle isoladamente,
dos quais 32 (71%) analisaram simultaneamente os quadrantes propostos por Karasek.
Menos de 1% (7/122) dos estudos definiram “estresse no trabalho” como uma razão
entre o escore obtido na dimensão demanda em relação ao da dimensão controle no
trabalho (suecos e japoneses). A dimensão apoio social no trabalho foi observada em
34% dos resumos avaliados. Apesar da maioria dos resumos não ter apresentado os
pontos de corte para a definição das categorias de exposição, foi possível observar que
estes variaram desde média e mediana a tercis.
Referências
KARASEK, R. et al. Job decision latitude, job demands and cardiovascular disease:
a prospective study of Swedish men. American Journal of Public Health, v. 71, n. 7, p.
694-705, 1981.
KARASEK, R. A. Job Content Instrument: questionnaire and user’s guide. Lowell:
publicação eletrônica: http://www.ims.uerj.br/sesc
Palavras-chave: estresse psicológico; ambiente de trabalho; revisão.
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
DISCUSSÃO
Apesar dos estudos encontrados para esta revisão terem como propósito avaliar
o constructo “estresse no trabalho” de acordo com o modelo proposto por Karasek
(1990), o instrumento de coleta utilizado variou em número de itens incluídos, da mesma
forma que os pontos de corte utilizados para definir as categorias de exposição.A dimensão
apoio social ainda tem sido pouco estudada conforme salientado pelo próprio formulador
do modelo (Theorell & Karasek, 1996). Esta variabilidade pode contribuir para achados
conflitantes na literatura em termos de associações com desfechos em saúde e dificulta
sobremaneira, a comparação dos resultados dos estudos realizados.
Espera-se, com o resultado desse estudo, contribuir para o enfrentamento das
questões metodológicas decorrentes do uso da escala de estresse no trabalho proposta
por Karasek em futuros estudos epidemiológicos.
137
University of Massachusetts, 1985. Disponível em: < http://www.jcqcenter.org/
>. Acesso em: 01 out. 2007.
KARASEK, R. A.; THEORELL, T. Healthy work: productivity and the reconstruction of
working life. New York: Basic Books, 1990.
THEORELL, T. et al. Changes in job strain in relation to changes in physiological
states: a longitudinal study. Scandinavian Journal of Work Environment Health, v. 14, p.
189-196, 1998.
THEORELL; KARASEK. Current issues relating to psychosocial job strain and
cardiovascular disease research. Journal of Occupational Health Psychology, v. 1, p. 926, 1996.
publicação eletrônica: http://www.ims.uerj.br/sesc
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
138
PERFIL DE TABAGISMO NA FASE 1 (1999)
DO ESTUDO PRÓ-SAÚDE
DOUTORANDA: MARIANA MIRANDA AUTRAN
SAMPAIO*
ORIENTADORA: CLAUDIA S. LOPES
OUTROS AUTORES: EDUARDO FAESTEIN,
DORA CHOR E GUILHERME WERNECK
FOMENTO: CAPES
* MARIANA MIRANDA AUTRAN SAMPAIO
M .AUTRAN@GMAIL. COM
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MÉTODOS
DESENHO DO ESTUDO E POPULAÇÃO DE REFERÊNCIA
Estudo seccional, cuja população fonte se origina do Estudo Pró-Saúde, que é
uma coorte de funcionários técnico-administrativos de uma universidade no Rio de
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
INTRODUÇÃO
O tabagismo é uma das principais causas evitáveis de morbi-mortalidade
conhecidas. Já se sabe que ele está associado a 40 a 45% de todas as mortes por câncer,
90 a 95% das mortes por câncer de pulmão, 75% das mortes por Doença Pulmonar
Obstrutiva Crônica e cerca de 20% das mortes por doenças vasculares (WHO, 1999).
No Brasil, essas doenças são responsáveis por 59% dos anos da vida perdidos por
mortes prematuras e 75% dos anos de vida vividos com incapacidades (SCHRAMM,
2004). Em 2002/2003, o Instituto Nacional do Câncer realizou o Inquérito Domiciliar
sobre Comportamentos de Risco e Morbidade Referida de Doenças e Agravos não
Transmissíveis em 15 capitais e no Distrito Federal (BRASIL, 2004), encontrando
que a prevalência de fumantes acima de 15 anos no Rio de Janeiro era de 17,5%,
sendo 19,8% em homens e 15,9% em mulheres. As pessoas entre 15-24 anos
apresentaram prevalência de 7,1%, enquanto as com mais de 24 anos apresentaram
20,0%. As pessoas com ensino fundamental incompleto fumavam mais (Prevalência
[P]=19,3%) do que as que completaram o ensino fundamental (P=16,9%). Entretanto,
esse estudo não incluiu variáveis como renda, estado civil e cor/raça. Não foram
encontrados estudos no Brasil que incluíssem essas variáveis.
O objeto do presente estudo foi descrever a prevalência do tabagismo em
geral e segundo características sócio-econômicas e demográficas de funcionários de
uma universidade pública no Rio de Janeiro.
139
Janeiro. Seu objetivo principal é estudar a associação entre determinantes sociais e
diversos desfechos de saúde (FAERSTEIN et al, 2005). No presente estudo, foram
avaliados os funcionários que responderam à Fase 1 (n=4030), realizada em 1999, e
que obtiveram respostas válidas, considerando as perguntas sobre tabagismo (n=3703).
VARIÁVEIS
A variável faixa etária foi dividida nas categorias até 35 anos; 36-45 anos; 46-55
anos e igual ou maior que 56 anos. Escolaridade foi categorizada em três categorias:
até ensino fundamental completo; até ensino médio completo e ensino superior
completo ou mais. A variável renda foi divida em até 3 salários-mínimos (SM), entre
3-6 SM e > 6 SM. Estado civil foi categorizado em casado, viúvo, separado/divorciado
e solteiro. As categorias de cor/raça foram as mesmas utilizadas no censo do Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística: preta, parda, branca, amarela e indígena.
ANÁLISE DE DADOS
Foi feito o cálculo da prevalência geral de tabagismo e para cada estrato sócioeconômico e demográfico. Posteriormente, foram calculadas as razões de prevalência
brutas e ajustadas pelas demais variáveis em estudo, através de um modelo linear
generalizado, com distribuição de Poisson (Barros e Hirakata, 2003).
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CONCLUSÃO
Os resultados mostram que a prevalência do tabagismo é diferenciada entre
estratos sócio-demográficos. Surpreendentemente, e em contraste com o estudo do
INCA (BRASIL, 2004), sexo não foi uma variável significativa, apesar da diferença
histórica do padrão de tabagismo entre homens e mulheres. Neste caso, essa aparente
igualdade aponta, não para uma vitória das mulheres, mas para uma triste realidade
em que mulheres estão fumando quase tanto quanto os homens. Talvez isto se deva à
especificidade da população, que é em média mais escolarizada que a população em
geral, o que pode acarretar padrões de gênero menos marcados. Após o ajuste, as
únicas variáveis que se mostram significativas são idade e escolaridade. Pessoas entre
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
RESULTADO
Os resultados são apresentados na Tabela 1. A prevalência de tabagismo foi de
21,0%, mais alta nos homens do que nas mulheres. As faixas etárias entre 36-55 anos
apresentaram prevalências mais elevadas do que as faixas etárias mais jovens e mais
velhas. Funcionários com menores níveis de escolaridade e renda apresentaram
prevalências mais altas de tabagismo. Casados apresentaram prevalências mais altas
do que solteiros e mais baixas do que separados/divorciados e viúvos. Pretos, pardos
e indígenas apresentaram prevalências maiores do que brancos e amarelos.
A razão de prevalência bruta foi significativa para quase todas as variáveis, com
exceção de sexo e cor/raça. Após ajuste, somente idade e escolaridade mantiveram
razões de prevalências significativas. A primeira apresentou efeito de risco, embora não
significativo para a última faixa, enquanto a segunda, efeito protetor para o tabagismo.
140
36 e 55 anos apresentam praticamente o dobro de chance de fumar se comparadas às
pessoas mais novas ou mais velhas, talvez devido à diminuição na iniciação ao tabagismo,
que acontece principalmente na adolescência e se reflete nas faixas etárias mais jovens,
e à aquisição de doenças nas faixas etárias mais elevadas. Pessoas com ensinos médio e
superior completos apresentam 40 a 50% menos chance de serem fumantes em relação
às que tem até ensino fundamental completo, provavelmente por terem maior acesso
à informação. Portanto, ações voltadas para a cessação do tabagismo nesses grupos
prioritários podem ajudar a minimizar as desigualdades sócio-demográficas.
Palavras-chave: tabagismo; prevalência; Estudo Pró-Saúde.
Referências
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prevalence ratio. BMC Medical Research Methodology. v. 3 n. 21, 2003.
FAERSTEIN, E. et al. Estudo Pró-Saúde: características gerais e aspectos
metodológicos. Revista Brasileira de Epidemiologia. Rio de Janeiro, v. 8 n. 4, p. 45466, 2005.
WORLD HEALTH ORGANIZATION. Making a Difference. The World Health
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1999/en/whr99_en.pdf. Acesso em: 21 ago. 2007.
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SCHRAMM, J. M. A. et al. Transição epidemiológica e o estudo de carga de doença
no Brasil. Ciência & Saúde Coletiva. Rio de Janeiro, v. 9, n. 4, p. 897-908, 2004.
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Secretaria de
Atenção à Saúde. Instituto Nacional de Câncer. Coordenação de Prevenção e
Vigilância. Inquérito domiciliar sobre comportamentos de risco e morbidade referida de
doenças e agravos não transmissíveis: Brasil, 15 capitais e Distrito Federal, 2002-2003. Rio
de Janeiro: INCA, 2004.
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MESA 10
CORPO E
CONTEMPORANEIDADE
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CULTO AO CORPO NA CONTEMPORANEIDADE:
É POSSÍVEL UMA ESTRATÉGIA DE LIBERTAÇÃO?
MESTRANDO: RAFAEL DA SILVA MATTOS*
ORIENTADORA: MADEL T. LUZ
RAFAELSMATTOS @UOL.COM .BR
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* RAFAEL DA SILVA MATTOS
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
O corpo é o substrato social do ser humano, pois ele forma as primeiras
expressões humanas, como as mímicas, as posturas, os gestos e a dinâmica corporal.
O corpo é a linguagem anterior a fala, na medida em que ele não é somente um
suporte no qual o indivíduo habita, mas é toda uma linhagem sociocultural. Mauss
(1974) já havia nos relatado que o corpo é produto e produtor da cultura.
Para Le Breton (2006), é preciso pensar em uma sociologia do corpo, pois toda
ação cotidiana envolve a corporeidade. Não há, portanto, existência que não seja
corporal. Existir é movimentar-se. E por essa corporeidade, o homem faz do mundo
a extensão de sua experiência, na medida em que o corpo produz sentidos e assim
insere o homem, de forma ativa, no interior de dado espaço social e cultural. Podemos
então perceber que na sociedade contemporânea há um crescimento da demanda por
práticas corporais, principalmente pela influência da mídia e do discurso científico,
em defesa da adoção de hábitos de vida mais saudáveis, como a prática regular de
atividade física, a alimentação saudável, o combate ao tabagismo e ao alcoolismo.
Entretanto, grande parte desses sujeitos busca modificar o próprio corpo, em
virtude da possibilidade de alterar o aparato biológico buscando vantagens sociais e
morais. As tensões e incertezas entre Natureza e Cultura se expressam no uso do
corpo. O chamado culto ao corpo, na sociedade contemporânea, responsabiliza cada
indivíduo por sua aparência, isto é, instaurando uma nova moralidade, a da “boa forma”,
segundo Goldenberg (2006).
Vigarello (2005) nos mostra que ocorreu uma verdadeira metamorfose nos
corpos ao longo do século XX. Os corpos magros, finos, musculosos e bronzeados
conquistaram seu espaço. As marcas deixadas nos corpos pelas atividades físicas
(músculos) e pelo banho de sol (bronzeado) tornaram-se atributos fortemente
valorizados pelas pessoas. Houve, assim, uma transformação do corpo e a beleza tornouse uma das principais receitas da juventude. A silhueta esbelta e esportiva, os membros
musculosos e sem gordura localizada tornaram-se ideais de beleza.
Para Fournier (2002), o crescimento das idéias hedonistas participam dessas
mudanças nas relações com o corpo, pois para ter boa saúde, é preciso limpar, esculpir
e embelezar o corpo. As relações com o corpo se transformam de tal maneira que a
expressão da rainha da história da Branca de Neve “Espelho, espelho meu, existe alguém
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mais bela do que eu?”, se socializa entre inúmeras mulheres e homens antes desconhecidos.
Todos agora querem sair do anonimato e exibir seus corpos nus na publicidade, nas
praias, nas academias, etc.
O corpo virtual torna-se mais valorizado do que o corpo real. Conforme aponta
Sfez (1996), os indivíduos estão sempre em busca do melhor sanduíche, do melhor
café, da melhor comida. Não se poder comer carne vermelha, só se poder comer
peixe. Não se pode mais ingerir gordura “trans”. Estamos vivendo sob o reino do Light
e do Diet. Homens e mulheres, jovens e velhos começam a correr, a pedalar e a
caminhar para conseguir a chamada “boa saúde”. Essa mesma obsessão pela saúde
perfeita tem conduzido muitas pessoas à compulsão por atividade física.
O corpo tornou-se então um referencial privilegiado para a construção das
identidades pessoais. Nesse sentido, Andrieu (2002, 2003) afirma que o corpo é o
novo topos subjetivo na contemporaneidade. A identidade do sujeito se aprisiona
exclusivamente na identidade corporal e cada indivíduo passa a utilizar o corpo
como um modo de ser, um lugar de inscrição e o meio de expressão privilegiado do
Eu. O sujeito se aprisiona numa ilusão de que o corpo pode satisfazer todos os seus
desejos e eliminar suas angústias. Essa ilusão corporal é vivida e afirmada pelo
sujeito contemporâneo como sua invenção, uma maneira nova de se descrever,
uma nova forma de identidade, na medida em que ele produz no seu corpo as
marcas da subjetividade.
Nessa cultura individualista e hedonista, os indivíduos matriculam-se em
academias de musculação e ginástica e passam a cultivar o corpo a fim de adquirir
recompensar sociais, via modificações estéticas. Para Luz (2005), a estética tem se
tornado, mais que a racionalidade médica e seus modelos, o critério sociocultural de
enquadramento dos sujeitos para determinar se realmente são “saudáveis”.
A busca da “forma perfeita” torna-se um meio de adquirir distinções e honras
sociais. Busca-se sempre “crescer” e “secar” através de uma competição diária, muitas
vezes chamada de “busca pela saúde” (Sabino, Luz, 2007). A responsabilidade de cada
um cresce na aquisição dessa suposta saúde e aumenta a intolerância com a aparência.
O corpo “sarado” torna-se uma medalha de ouro, a qual todos buscam conquistar
através de dietas restritivas, exagero na prática de atividade física, utilização indevida
de medicamentos e adoção de procedimentos cirúrgicos. Trata-se, portanto, de uma
nova religião, na qual o músculo torna-se o “sagrado” e a gordura o “profano”.
Há, nesse sentido, uma gestão da aparência nos processos de individualização
do sujeito, na medida em que ele elege seu corpo, isto é, sua aparência como um
valor moral. As construções pessoais e coletivas inserem-se, portanto, nas
representações contemporâneas das normas de beleza que excluem o gordo, tornandoo marginalizado e estigmatizado (Duret, Roussel, 2003).
A saúde torna-se, assim, cada vez mais submetida à estética, o que significa
que estar fora dos padrões de beleza do grupo e de suas práticas, é estar sem saúde
e excluído de sua convivência, principalmente porque a construção identitária dos
indivíduos está, agora, relacionada à construção e manutenção de sua forma física
(Sabino, Luz, 2007).
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Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
Entretanto, diversos grupos na contemporaneidade elaboram estratégias e táticas
a partir de suas lógicas de ação para enfrentar os problemas de saúde. As redes sociais,
conforme aponta Acioli (2000), constituem-se, portanto, em estratégias de
enfrentamento do estigma provocado pela gordura e do adoecimento psicofísico
provocado pela obesidade.
Para Maffesoli (1987), são redes de amizade que se estabelecem em torno de um
objetivo comum: estar-junto. Os agentes se organizam buscando estabelecer a
solidariedade como forma de enfrentamento para os problemas do cotidiano, em especial
os problemas decorrentes do adoecimento ou do próprio estigma da gordura. Há, para
o autor, uma força, uma espécie de “aura” que possibilita a identificação do grupo e que
reforça aquilo que é comum a todos. Constitui-se, portanto, uma nova solidariedade,
reinvestida na forma de um grupo que luta contra a patologização do corpo gordo. A
ligação entre a emoção partilhada e a comunalização constitui uma forma de laço social.
Há, portanto, um campo de ação no qual os sujeitos se movem e atuam buscando formas
de enfrentamento dos problemas e de suas condições como um todo.
Esses indivíduos organizam-se em grupos sociais voltados para o desejo de
estarem juntos e, assim, de partilharem os mesmos sentimentos, valores e sentidos
sobre a vida. Por isso, Maffesoli (1987) afirma que o fundamento mais simples desses
grupos é o simples desejo de estar junto. É porque existe a proximidade entre esses
indivíduos e a partilha de um mesmo território (ainda que simbólico) que vemos
nascer a idéia de grupo. Cada um está inserido num processo de correspondência, de
participação, que privilegia o corpo coletivo.
Reconhecemos assim que o indivíduo estigmatizado (o obeso, em nosso caso)
pode descobrir que há pessoas compassivas, dispostas a adotar o seu ponto de vista no
mundo e a compartilhar o sentimento de que ele é humano como todos os outros.
Um grupo de pessoas estigmatizadas (os colegas obesos) podem fornecer-lhe um
círculo afetuoso no qual ele pode se refugiar em busca de apoio moral e do conforto
de sentir-se “em casa”, em seu ambiente, aceito como alguém que é igual a outra
pessoa qualquer considerada “normal”. E nesse sentido, o estigma, segundo Goffman
(1988), que teria o efeito de afastar o indivíduo da sociedade e de si mesmo, de tal
modo que ele se tornaria uma pessoa desacreditada frente a um mundo não receptivo,
pode ser compartilhado com outros atores sociais, o que permite a produção de novos
sentidos e valores sobre o próprio estigma.
Dessa forma, novos valores e práticas de sociabilidade podem ser criados e,
portanto, estabelecer uma nova estratégia de sobrevivência social e de rompimento
com o estigma da gordura. É o que Maffesoli (2006) chama de novas formas de
sociabilidade capazes de expressarem afinidades coletivas. Essas novas formas de
sociabilidade expressam um sentimento coletivo de força comum que fundamenta a
permanência – coesão do grupo social.
Pensar o corpo é, portanto, pensar o mundo e o lugar social. Se o corpo se
tornou um emblema de si, conforme aponta Fournier (2002), e um instrumento para
o prolongamento da juventude, é preciso investigar novas possibilidades de resistências
a essa cultura de massa que, na maioria das vezes, oprime os sujeitos gordos. Pensar a
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atividade física para além da funcionalidade orgânica é pensar a saúde numa ruptura
com o paradigma da medicina moderna, fundamentando na biomedicina e na
biomecânica. Desafio este que nos propomos a pensar no campo da Saúde Coletiva.
Palavras-chave: corpo; contemporaneidade; beleza; sociabilidade.
Referências
ACIOLI, S. Novas práticas em saúde: estratégias e táticas de grupos populares no
enfrentamento de questões cotidianas. Série Estudos em Saúde Coletiva (VII Seminário
do Projeto Racionalidades Médicas). Rio de Janeiro, n. 202, p. 3-17, maio 2000.
ANDRIEU, B.. Les styles d’incarnation du biosujet. Texte présenté dans l’atelier
scientifique du GRD 2322. Perception et représentation du corps, la notion de
normalité, 2003.
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www.staps.uhp-nancy.fr/bernard/docpdf/article_corps%20v.%2002_2007-1.pdf.
Acesso em: 05 maio 2007.
DURET, P.; ROUSSEL, P. Le corps et ses sociologies. Paris: Nathan, 2003.
GOFFMAN, E. Estigma: Notas sobre a Manipulação da Identidade Deteriorada. Rio de
Janeiro: Livros Técnicos e Científicos, 1988.
LE BRETON, D. A Sociologia do Corpo. Petrópolis: Vozes, 2006.
LUZ, M.. Novos Saberes e Práticas em Saúde Coletiva: Estudo sobre racionalidades
médicas e atividades corporais. São Paulo: Hucitec, 2005.
MAFFESOLI, M. Corpos tribais e memória imemorial. ALEA: Estudos Neolatinos.
Rio de Janeiro, v. 8, n. 2, jul./dez. 2006.
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Rio de Janeiro: Forense-Universitária, 1987.
MAUSS, M. Sociologia e Antropologia: v. II. São Paulo: Pedagógica e Universitária,
1974.
SABINO, C.; LUZ, M. T. Ritos da Forma: A construção da identidade fisiculturista
em academias de musculação na cidade do Rio de Janeiro. Arquivos em Movimento, v.
3, n. 1, p. 51-68, jan./jun. 2007.
SFEZ, L. Saúde Perfeita: crítica de uma nova utopia. São Paulo: Loyola, 1996.
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GOLDENBERG, M. O corpo como capital: para compreender a cultura brasileira.
Arquivos em Movimento, v. 2, n.2, p. 115-123, jul./ dez. 2006.
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
FOURNIER, M. Le corps, emblème de soi. Sciences Humaines, n. 132 (Le Souci du
Corps), nov. 2002.
147
VIGARELLO, G. Années folles: le corps métamorphosé. Sciences Humaines, n. 4
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VINSONNEAU, G. La Construction Sociale du Corps. Ville-Ecole-Intégration Enjeux,
n. 6, dez.
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Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
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NOVAS ARTICULAÇÕES EM PSICANÁLISE: A
ATUALIDADE DO CORPO NA OBESIDADE
MESTRANDA: CRISTIANE MARQUES*
ORIENTADOR: JOEL BIRMAN
CRISTIANE@ LEVEMENTE.COM. BR
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* CRISTIANE MARQUES
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
Num estudo que se propõe articular o corpo na atualidade, não há como negar
as evidentes mudanças sociais que estamos acompanhando, tampouco ignorar que o
corpo ganhou espaço privilegiado nos discursos e mesmo na constituição da
subjetividade. Ao mesmo tempo é esse corpo que atualiza os efeitos da linguagem,
catalisando sintomas que a psicanálise se propõe a tratar. Mas seria o dispositivo analítico
ainda o mais eficiente para acolher as atuais modalidades de sofrimento tão
representativas do nosso momento atual? Vejamos que a psicanálise é uma práxis que
traz em seu cerne um questionamento que advém da prática clínica cotidiana, não
estando livre de testemunhar as mudanças na forma de encaminhar um pedido de
tratamento a um analista. Porém, tratar-se-ia de testemunhar?
Frente aos impasses da clínica cotidiana, novos arranjos teóricos são necessários
frente a construções sintomáticas como a obesidade, a anorexia, a bulimia, as toxicomanias
e as somatizações. Seguindo o rastro de algumas iniciativas mais desenvolvidas na
psicanálise – principalmente no campo das toxicomanias e da anorexia – buscamos
contextualizar esses modos de subjetivação no âmbito de uma sociedade em que valores
e referências são efêmeros e marginais. Vale ressaltar que não se trata de rever as
estruturas freudianas, mas pensar a especificidade da obesidade como um sintoma
transnosográfico em articulação com as exigências culturais de saúde e beleza. Se na
atualidade a presença do corpo na clínica é maciça, isso nos impõe uma leitura radical da
psicanálise para que esta possa abarcar em seu dispositivo o sofrimento contemporâneo.
Nesse sentido, trataremos aqui da obesidade em sua vertente neurótica.
Segundo Joel Birman (2005), a negligência do corpo pela psicanálise pósfreudiana mostrou-se como um retrocesso, uma vez que a segunda tópica e a segunda
teoria das pulsões configuravam o avanço psicanalítico frente aos obstáculos colocados
pelo corpo. Reconhece a positividade do corpo para a psicanálise descolando-o das
proposições pós-freudianas em que se definia em oposição à mente, sendo, por “sua
natureza”, reduzido aos registros somático, anatômico e biológico ou da idéia de que
as fronteiras do campo psicanalítico estariam definidas a partir do que seria analisável
numa tarefa de deciframento das representações, desde Freud fadada ao fracasso.
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Nesses discursos o corpo estaria fora da experiência analítica diferentemente daquilo
que inicialmente a psicanálise partiu. Junto com o corpo ficou de fora toda problemática
do afeto, trabalhada exaustivamente por Freud, que inevitavelmente retornaria na
última parte da teorização lacaniana pelo viés do real, podendo mais uma vez ser
interrogada. Com efeito, aponta que o preço pago por essas exclusões se faz ouvir na
“surdez dos analistas aos movimentos pulsionais dos analisandos, que buscam dessas
maneiras clinicamente drásticas, entregar sua corporeidade sofrente aos analistas,
para que [...] possam finalmente escutá-los devidamente.” (Birman, 2005, p. 57)
Ultrapassando o testemunho clínico da obesidade e a surdez que se impôs aos
analistas, somos convocados a tomar posições e colocar em dúvida nossas certezas,
para, quem sabe, escutarmos o vazio discursivo da atualidade. A diluição das verdades
que sustentavam o sujeito e seu desejo na modernidade da psicanálise nascente vem
passo a passo ficando mais notável. No texto “Notas sobre a cultura somática” (2004),
Jurandir Freire Costa atenta para o fato de que, na atualidade, o corpo foi alçado à
posição de referente primordial para a construção das identidades pessoais.
Diferentemente dos grandes modelos de subjetivação ocidental – um, herança da
burguesia romântica sentimental que se sustentava na idéia do verdadeiro “eu interior”
e outro que sustentava a constituição das identidades num referencial de classes – essa
nova moralidade traz para o primeiro plano o corpo, elemento da cultura negligenciado
por uma permanente antinomia entre mente x corpo, que fundamenta toda
racionalidade desde a antiguidade clássica.
Segundo o autor, a virada somática se deu em função de um remapeamento
cognitivo e, sobretudo, em função da invasão da nossa cultura pela moral do espetáculo.
Segundo Debord (apud Costa), que propôs uma revisão dos aspectos socioculturais a
partir da moral do espetáculo, na pós-modernidade o sujeito seria o espectador passivo
de um mundo do qual está invariavelmente excluído. O corpo, segundo os parâmetros
do espetáculo, figura como signo do que é inacessível para o sujeito, sendo um dos
aspectos negativos da virada somática a busca permanente pelo corpo-espetacular que
possibilitaria o acesso a um estilo de vida que a mídia veicula como ideal e possível.
Destaca, ainda, que uma das dimensões da moral do espetáculo seria a felicidade das
sensações, em que a anestesia corporal à qual o espetáculo submete o sujeito promove
um desprezo pela singularidade física de cada um, situando o dilema da atualidade não
entre o ser e o ter, mas entre o ser e o parecer.
A evidência do corpo e o conseqüente movimento de dessimbolização que
vimos testemunhando de forma radical nos últimos 20 anos são tomados como indícios
da rapidez com que nosso contexto social vem mudando. Podemos identificar no
advento da ciência moderna e sua proposta de conhecer o mundo, mais
especificamente no discurso científico, que se propõe a traduzi-lo em enunciados
verificáveis, o caminho através do qual a afirmação da saúde e do corpo como bens
supremos encontra seu respaldo. Segundo Lebrun (2004), a pertinência da distinção
entre a ciência, como procedimento de conhecimento do mundo, e o discurso
científico, como um modo específico de laço social, está em apreender que este
último elide o sujeito da enunciação em seus enunciados, inaugurando laço social
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A respeito da relação entre narcisismo e o estádio do espelho, ver LACAN, J. – O seminário – livro
10: a angústia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005.
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Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
que se mantém hegemônico desde a modernidade – o discurso vazio amordaçado
na materialidade empírica do corpo. A partir de Descartes, o modelo científico
dotado de um método próprio, ancora a construção de verdades irrefutáveis em
proposições verificáveis, estabelecendo a primazia da visibilidade.
Da mesma maneira na clínica com pacientes obesos é no campo da visibilidade
que algo salta aos olhos. Esse corpo destituído de seu estatuto simbólico retorna como
uma cena onde se pode verificar sem dificuldades a precariedade da simbolização que
compromete a entrada no dispositivo analítico, dispositivo cuja eficácia se sustenta na
operação sob transferência do par associação livre e interpretação. Com Massimo
Recalcati, encontramos no texto “O demasiado cheio do corpo” (2002) algumas
hipóteses a respeito dessa dinâmica em jogo na obesidade, nos fornecendo pistas
para realizar uma cuidadosa leitura do texto freudiano sobre o narcisismo em
articulação com as mudanças na contemporaneidade. Recalcati nos aponta que o
corpo obeso e a própria fome parecem manifestar o real acéfalo da pulsão, no ponto
em que não há a captura pela linguagem, evidenciando a estreita relação entre o
corpo somático e o corpo pulsional.
Partimos deste ponto: se a entrada no campo da linguagem se inaugura pela
constituição do eu numa relação de especularidade com o outro, é, pois, na antecipação
da imagem refletida no espelho que localizamos a matriz dessa alteridade fundamental
que é, no entanto, virtual. Trata-se de uma nova ação psíquica que se faz necessária na
passagem do auto-erotismo, momento em que todo investimento libidinal tem como
fonte e objeto o corpo próprio que não se conforma a uma unidade, para um segundo
momento – não cronológico, mas lógico – em que o movimento pulsional passa a incluir
o outro como imagem, fornecendo no mesmo lance uma primeira unidade corporal. O
Eu-real originário (Real Ich) do auto-erotismo passa a constituir-se como eu-prazer (Lust
Ich), abrindo o caminho para a constituição do eu-realidade definitivo. Acompanhamos,
assim, as primeiras inscrições da pulsão no corpo mediado pela voz do Outro.
É nesse percurso da entrada do infans no campo da linguagem, ao mesmo
tempo em que constitui sua primeira unidade identitária referida eminentemente
ao corpo, que se estabelecem os priemiros circuitos pulsionais e seus destinos.
Partindo da afirmação freudiana segundo a qual a pulsão seria o conceito limite
entre o psíquico e o somático, atribuímos o efeito de enodamento que se dá entre
a pulsão, corpo e imagem à constituição do ideal do eu (Ich-ideal) como instância
simbólica que autentica e regula a estruturação imaginária1. A esse respeito destaco
duas citações que tem orientado minha leitura.
O movimento inicial da força pulsional inequivocadamente conduz para a
descarga. Entretanto, à medida que o Outro puder acolher esse movimento originário,
isto é, nomeá-lo e lhe fornecer um campo possível de objetalidade, a força pulsional
estabelecerá uma ligação que a fará retornar ao organismo (Birman, 2005, p. 62).
É esse movimento originário da pulsão que vai ao Outro e retorna só após ter
encontrado um objeto com o qual retém uma satisfação possível, ainda que parcial,
151
que irá marcar o aparelho psíquico, sem que haja, no entanto, um eu separado do
objeto. É apenas ao registro do auto-erotismo que se restringe essa inscrição, sobre a
qual irão sobrepor-se as futuras percepções e satisfações, até mesmo a construção do
fantasma neurótico. Birman prossegue:
Apenas nesse momento se constituiria um circuito pulsional em
que se articulariam a força e o objeto, pela mediação da regulação
da experiência de satisfação. Além disso, por esse retorno da força
pulsional e pela ligação inicial desta a um campo de objetalidade,
se estabeleceria uma marca originária, um traço, simultaneamente
corporal e psíquico (Birman, 2005, p. 62).
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Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
Mais uma vez somos levados a assinalar que algo fica de fora do circuito
pulsional, pois é a ligação a um campo de objetalidade que torna a satisfação parcial,
ao mesmo tempo em que paradoxalmente faz com que algo do objeto buscado
“caia”, produzindo no percurso o objeto perdido. Segundo Balbi (2000) essa é a
exigência de trabalho feita ao aparelho psíquico pela pulsão: tudo acontece como se
tendo partido de uma fonte corporal, uma borda que chamamos zona erógena, a
pulsão contornasse o objeto ao mesmo tempo que o torna perdido, e retornasse à
borda corporal investida pela perda. Segundo Vidal (apud Balbi), “o circuito da pulsão
só se fecha quando, tendo abraçado o corpo do Outro, faz retorno sobre a zona
erógena, produzindo-se no percurso o objeto perdido.” (Balbi, 2000, p. 190). Na
parcialidade da satisfação pulsional, o objeto ganha a consistência imaginária à qual
o sujeito fica atado, demandando, ao fim e ao cabo, um longo trabalho de análise
para destituí-lo das vestes imaginárias e fazê-lo resto.
O que fica de fora do circuito pulsional é, em última análise, condição de
possibilidade da instauração da alteridade, base fundamental para qualquer inscrição
subseqüente. Porém é esse mesmo real acéfalo da pulsão que, como o inconsciente
a céu aberto nas psicoses, parece ficar evidente ao olhar na obesidade. Seguindo as
indicações de Recalcati a respeito da obesidade neurótica, quando afirma que a
acumulação obesa não é de peso, mas de objeto, bem como a idéia de que o alimento
serve para compensar a ausência do signo (signo da falta no Outro), retomamos a
leitura lacaniana sobre a angústia e seu objeto para pensar que o alimento só acede
ao status de objeto de investimento libidinal na medida em que suplanta
imaginariamente a falta. A angústia na obesidade não se refere, portanto, ao vazio
ou à falta, mas ao constante preenchimento que obstaculiza a fluidez do desejo.
Nesse sentido, Recalcati afirma que o corpo obeso é um “demasiado cheio” que o
sujeito, vive como um “vazio infinito”.
Para Recalcati, a obesidade, bem como a anorexia, aponta para a clínica do
olhar onde o corpo faz um evidente apelo à angústia do Outro. Questionamo-nos: de
que forma essa atual modalidade de interrogação ao desejo do outro se articula na
gramática do narcisismo, já que no contexto da contemporaneidade o Outro não
parece fornecer um campo possível de objetalidade? Oferece, ao contrário, um infinito
campo de objetos descartáveis e substituíveis que não parece poder acolher o impacto
pulsional, produzindo um objeto perdido que sustentará a inscrição fálica no registro
152
simbólico. Talvez resida no enigma do apelo ao consumo alimentar as vicissitudes que
fazem a pulsão virar compulsão oral.
Palavras-chave: obesidade; psicanálise; corpo; contemporaneidade.
Referências
BALBI, L. O traçado significante da pulsão. Revista da Escola Letra Freudiana – O
corpo da psicanálise. Ano XIX, n. 27, p. 187-192, 2000.
BIRMAN, J. Mal-estar na atualidade: a psicanálise e as novas formas de subjetivação.
Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005.
COSTA, J. F. Notas sobre a cultura somática. In: ______. O vestígio e a aura: corpo
e consumismo na moral do espetáculo. Rio de Janeiro: Garamond, 2004.
FREUD, S. À guisa de introdução ao Narcisismo. In: _____. Escritos sobre a psicologia
do inconsciente – v. 1. Rio de Janeiro: Imago, 2004.
LEBRUN, J.-P. Um mundo sem limite: ensaio para uma clínica psicanalítica do social.
Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2004.
RECALCATI, M. O “demasiado cheio” do corpo: por uma clínica psicanalítica da
obesidade. Latusa. Rio de Janeiro, n. 7, 2002.
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Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
153
MAGRA PARA QUEM? A INEFÁVEL
CORPORIFICAÇÃO DO SINTOMA
AUTORA: LETÍCIA VARGAS DE MESQUITA*
ORIENTADOR: JURANDIR FREIRE COSTA
LETICIAVMESQUITA@ YAHOO. COM
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* LETÍCIA VARGAS DE MESQUITA
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
O presente trabalho é um recorte do projeto de mestrado, em fase preliminar,
que tem como tema a anorexia nervosa e suas relações com o mundo contemporâneo.
Almejamos fazer um entrelaçamento de três principais campos – a saber: sociologia,
psicanálise e comunicação – para melhor compreensão do formato no qual esta patologia
se expressa. Serão discutidas formulações teóricas acerca da “pós-modernidade” e suas
influências na configuração subjetiva do indivíduo, priorizando as contribuições de
Zygmunt Bauman e de Jurandir Freire Costa, concernentes às modificações morais,
culturais e institucionais contemporâneas; aliadas à ‘virada somática’ que tem como
conseqüência a hipervalorização da aparência corporal como insígnia de locus social.
No campo psicanalítico, a teoria do amadurecimento humano de Donald Winnicott
servirá como ferramenta de discussão para o papel do ambiente no fornecimento de
possibilidades de existência saudável, o viver criativo, e também como propiciador de
“apoios sintomáticos” como medida de proteção a falhas ambientais. Por fim a teoria da
comunicação sistêmica da Escola do Palo Alto, representada principalmente por Gregory
Bateson e Paul Watzalwick nos fornecerá suporte para pensar a factibilidade da anorexia
ser compreendida através da captura do corpo na incoerência do discurso do duplovínculo. Aqui serão apresentados resumidamente os principais marcos teóricos da revisão
bibliográfica que compõe a metodologia do trabalho a que nos propomos.
Temos evidências para afirmar que urge a necessidade de atenção acadêmica
para a temática dos transtornos alimentares, diante da potencialidade destes se
tornarem um grave problema de saúde pública. A pouca quantidade de material
epidemiológico reunido no Brasil, obrigando-nos a utilizar referências internacionais
é um grande entrave à pesquisa neste campo.
A anorexia nervosa (A.N.) é um transtorno cuja incidência tem aumentado em
níveis brandos, porém constantes (Hsu, 1996), e é tida como a patologia mental que
mais leva ao óbito, devido às conseqüências corporais da mal-nutrição e também ao
suicídio (DSM-IV). De acordo com Rozenfeld et al. (2007), a Organização Mundial de
Saúde aponta para a gravidade do problema do uso de inibidores de apetite (anorexígenos)
no Brasil, onde sua venda aumentou em 254% entre 1994 e 2004 – levando o país a
liderar o ranking de consumo mundial (Rozenfeld et al., 2007). Estes números
isoladamente não falam explicitamente da A.N., mas se atentarmos para as seguintes
observações poderemos perceber o significado simbólico dos mesmos. A primeira é a
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de que os efeitos colaterais dos anorexígenos coincidem com os quadros clínicos dos
anoréticos (taquicardia, hipertensão arterial e outros), indicando que este pode ser um
dos recursos utilizados pelos anoréticos para controlar a fome. Outro ponto a ser notado
é que o aumento supracitado indica maior movimento no país em busca de reduzir o
peso corporal denotando, se não maior preocupação com a imagem corporal, ao menos
o desejo de controle do próprio corpo, seja para fins estéticos quanto para fins orgânicos.
A tentativa de controle da imagem e forma corporal são testemunhas do processo
que arremessou o corpo de pano de fundo para protagonista das formações identitárias.
A este modo de compreender e elucidar os atos psicológico-morais, tendo o corpo
como principal referencial, Jurandir Freire Costa denominou “cultura somática” (2004).
Para o autor, à cultura somática podemos vincular o conjunto de transformações que
se deram na modernidade que de uma forma ou de outra colaboraram para que o
corpo se transpusesse da posição de empecilho do projeto sentimental romântico, à
de instância máxima de formação de identidade. Costa sugere dois principais fatores
contribuintes ao processo: “o remapeamento cognitivo do corpo físico” (2004, p. 204, grifo
do autor) e as influências culturais trazidas pela moral do espetáculo.
O primeiro fator teria cinco fontes básicas. A científica remete-se a novos olhares
trazidos pelas neurociências à questão mente-cérebro a partir de descobertas de
correlatos neurais da vida mental, aumentando a compreensão das relações entre o
físico e o mental. Um outro ramo que tem ligações com o anterior é o do avanço
médico-tecnológico que prolonga e oferece mais opções de qualidade de vida, facilitando
alterações da percepção corporal. O deslocamento do interesse político de temas
tradicionais, como oposição de blocos, classes e outros, para temas de cunho sociais
permitiu a criação e definição de nova linguagem atrelada a variantes biológicas, tais
como raça e sexo, favorecendo o uso de propriedades corporais enquanto insígnia na
disputa por igualdade. As alterações que acometeram a religiosidade ocidental
possibilitaram a entrada das religiões asiáticas no escopo das possibilidades espirituais,
e com isso a difusão do tratamento ao corpo dado pela filosofia oriental, que em muito
contrasta com o pregado pelas religiões judaico-cristãs. O budismo e o hinduismo
pregam o conhecimento do corpo e de suas sensações como medida de elevação
espiritual, enquanto o cristianismo, judaísmo e protestantismo o consideram
“moralmente pernicioso” (p. 210). A última fonte de colaboração ao remapeamento
cognitivo surgiu na esfera intelectual, na medida em que certas teorias filosóficas sobre
as relações mente-corpo foram recusando a cisão cartesiana entre a res cogitas e a res
extensa (alma ou mente, e corpo). As atuais teorias adotam um caráter monista acerca
destas relações, e embora cada teoria tenha sua particularidade na explicação sobre a
natureza causal das mesmas, há a concordância de que as teorias dualistas foram criadas
pela falta de recursos investigativos para tal apuração. Costa grifa as seguintes
contribuições intelectuais: “a fenomenologia, o reducionismo fisicalista, a
heterofenomenologia e o pragmatismo lingüístico” (2004, p. 211).
O segundo fator que contribui para a virada somática é a moral do espetáculo
proposta por Debord, que tem como maiores propagadores os meios de comunicação
em massa. A maior proeza do espetáculo seria de transformar a aparência em inerência
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Referências
AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. DSM-IV Manual Diagnóstico e
Estatístico de transtornos mentais. Porto Alergre: ArtMed, 2001.
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Palavras-chave: anorexia nervosa; duplo-vínculo; psicanálise; contemporaneidade;
comunicação.
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
(Costa 2004, p. 209). Desta forma, a mídia se torna difusora de regras bioidentitárias,
cujos ideais de aparência (beleza, juventude, magreza) tornam-se inerentes, e assim
geradores de grande dificuldade de adequação e de elaborações patoplásticas como a
da A.N. Vimos aqui o substrato simbólico que permeia a cultura, mas a forma como
essa mensagem é captada pelo sujeito é ainda um questionamento que nos fazemos.
Gregory Bateson, em seu estudo das influências da comunicação na subjetividade,
atingiu avanços significativos, desenvolvendo também uma hipótese explicativa da
etiologia da doença mental a partir de falhas prematuras e constantes na comunicação
entre a criança e o par parental (2000). Ele afirma esperar que tenha havido rupturas
na comunicação entre a criança e a mãe para que uma patologia ocorra (1999, p. 202),
e que em níveis extremos pode chegar à esquizofrenia. Em nossa pesquisa, substituímos
o termo mãe pelo conceito de ambiente que é o sugerido por Winnicott, e a nosso ver
mais apropriado, uma vez que não desejamos passar a errônea idéia de que os pais
seriam os culpados pela doença mental dos filhos. O ambiente é composto de todo o
universo que permeia a formação subjetiva do indivíduo, e nele se inclui não só os
cuidadores, mas também as condições que o ambiente oferece para a composição de
possibilidade de existência criativa e não-reativa, onde o indivíduo em formação possa
estruturar uma relação com o mundo e consigo mesmo satisfatória.
Seqüências de experiências comunicativas insolúveis pelo individuo produziriam
um conflito do tipo duplo-vínculo, que como vimos, podem ser patologizantes (Bateson,
2000, p. 209). Para que ocorra o duplo-vinculo, é necessário que o indivíduo esteja
envolvido num relacionamento intenso, onde seja de importância vital a compreensão
do tipo de mensagem transmitida pelo outro. É preciso também que o mesmo seja
capturado numa situação onde este outro esteja expressando duas ordens de mensagem,
e uma delas nega a outra. E por último, este indíviduo se encontraria incapaz de
julgar por qual das mensagens se orientar. Ocorre assim um efeito performativo do
enunciado não dito. Se a situação de duplo-vínculo ocorre com freqüência, existe o
risco de que o individuo não se sinta capaz de confiar nas mensagens provindas do
ambiente nem mesmo nas elaboradas por si próprio, podendo levar a um estado
confusional ou mesmo de cisão desta capacidade. Nossa hipótese é a de que de alguma
forma este processo pode estar vinculado à distorção da auto-imagem no individuo
anorético, visto que a percepção corporal (auto-percepção) é um fenômeno que
depende da congruência e confiança no reflexo que o ambiente oferece. (Winnicott,
1975, p. 153-162). Esta hipótese servirá como estímulo a desenvolvimentos futuros
que este projeto ainda vislumbra, já que se encontra em fase inicial.
156
BATESON, G. Steps to an ecology of mind. Chicago: University of Chicago Press, 2000.
BAUMAN, Z. Moderninade líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.
COSTA, J. F. O vestígio e a aura: corpo e consumismo na moral do espetáculo. Rio
de Janeiro: Garamond, 2004.
HSU, L. K. Epidemiology of the eating disorders. Psychiatry Clinics of North America,
Washington DC, v. 19, n. 681-700, 1996.
ROZENFELD, S.; MATOS, G.; NASCIMENTO, A. Anorexia: questão de saúde
pública. O Globo, Rio de Janeiro, p. 7, 27 jan. 2007.
WINNICOTT, D W. O Ambiente e os Processos de Maturação. Porto Alegre: Artes
Médicas, 1982.
______. O brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago, 1997.
publicação eletrônica: http://www.ims.uerj.br/sesc
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
157
O MANIFESTO CIBORGUE – CIÊNCIA,
TECNOLOGIA E FEMINISMO NA
CONTEMPORANEIDADE
MESTRANDA: MARÍLIA RODRIGUES DA SILVA*
ORIENTADORA: FABÍOLA ROHDEN
MARILIA .R@GMAIL. COM
publicação eletrônica: http://www.ims.uerj.br/sesc
* MARÍLIA RODRIGUES DA SILVA
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
Este trabalho apresenta uma leitura da análise das relações entre gênero,
tecnologia e feminismo proposta por Donna Haraway, bióloga e filósofa feminista
norte-americana, no ensaio chamado Manifesto Ciborgue: ciência, tecnologia e feminismo
socialista do final do século XX. Neste texto, que é ao mesmo tempo um documento
político e um ensaio científico, Haraway analisa as variadas formas como o
desenvolvimento científico de tecnologias, desde a biotecnologia até a teleinformática,
incidem sobre os corpos humanos e, de maneira destacada, sobre os corpos e as vidas
das mulheres. No final do século XX, afirma Haraway, nós, seres humanos, somos
todos ciborgues: híbridos de máquina e organismo. O ciborgue é, para ela, uma ficção
que mapeia nossa realidade social e corporal.
Segundo Hari Kunzru (2000, p. 44), em Genealogia do Ciborgue, a palavra ciborgue
teria um quê de implausibilidade, o que levaria muitas pessoas a descartá-la como
mera fantasia. O termo ciborgue (em inglês cyborg, abreviatura de cibernetic organism)
foi utilizado pela primeira vez em um texto escrito pelo engenheiro Manfred Clynes
e pelo psiquiatra Nathan Kline, em 1960, para descrever o conceito de um “homem
ampliado”, melhorado. Neste caso, os autores falavam de um homem melhor adaptado
para uma viagem espacial, que no futuro, eles imaginavam, teria um coração controlado
por injeções e anfetaminas e cujos pulmões seriam substituídos por uma “célula
energética”, alimentada por energia nuclear.
A afirmação de Haraway, de que seríamos todas/os ciborgues, assume a existência
ou a possibilidade de existência de seres como o astronauta descrito acima, mas se
baseia em conjunto muito mais diverso de situações vividas pela humanidade no mundo
contemporâneo. Diz respeito, sim, a como diversas tecnologias e técnicas médicas
intervém nos corpos humanos e seus processos vitais, sendo citadas por ela as próteses
e os novos processos de reprodução. Mas se refere também, o que nos leva a um outro
nível de análise, a como os corpos são concebidos como dispositivos codificados e
inseridos em sistemas de informação.
Haraway afirma que o que torna possível essa análise “político-ficcional” (políticocientífica) é a quebra de algumas fronteiras cruciais na cultura científica estadunidense
no final do século XX: a fronteira entre humano e animal, entre o organismo (animal
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Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
ou humano) e a máquina, e entre o físico e o não físico (Haraway, 2000, p. 133). O
ciborgue, afirma Haraway, surge como mito precisamente onde a fronteira entre o
humano e o animal é transgredida, o que exige uma nova reconceitualização da
animalidade. Com a miniaturização das tecnologias, os ciborgues, afirma ela, rompem
com a opacidade do material.
É a entrada neste mundo de fronteiras transgredidas que Haraway propõe ao
feminismo-socialista. É a partir de uma argumentação contra permanência, no
pensamento feminista-socialista e em outras correntes dos pensamentos feminista e
socialista, da concepção dualista das relações de gênero, de uma identidade “mulher”
naturalizada e da totalização da experiência feminina que ela desenvolve sua análise
das relações de gênero.
Para Haraway, não existe nada no fato de ser “mulher” que naturalmente una
as mulheres, aliás, não existe nem mesmo a situação “ser” mulher. Mulher, para ela,
é uma categoria altamente complexa, construída por meio de discursos científicos
sexuais e de outras práticas questionáveis. Aqui, a autora se aproxima de várias
teóricas feministas que pensam a identidade como coletiva e não individual, rompendo
com qualquer possibilidade de pensá-la como ligada a algum aspecto dito natural.
Ela utiliza como exemplo o conceito de “mulheres de cor”, desenvolvido no trabalho
de Chela Sandoval. Haraway diz que este conceito pode se compreendido como
uma identidade ciborgue, “uma potente subjetividade, sintetizada a partir de fusões
de identidades forasteiras e nos complexos estratos políticos-históricos de sua
“biomitografia” (idem, 2000, p. 93).
Pensar a categoria mulher e a possibilidade de unidade política, para Haraway,
requer compreender as localizações das mulheres no que ela chama de “circuito
integrado”, a economia das sociedades industriais no capitalismo avançado, e
compreender como essas mulheres são codificadas neste espaço. Aqui, a autora sugere
que nos entendermos como seres codificados, como informação no interior de um
sistema, pode ser mais do que a compreensão de um modelo de controle imposto
sobre a sociedade – em seus temos, a “informática da dominação”. Ela sugere pensar
a si mesma como codificada abre a possibilidade de pensar a si mesma como
recodificável, permite que nos entendamos não apenas como construídos, mas também
como desconstruíveis, como desmontáveis e remontáveis.
A política do ciborgue, portanto, diz a autora, é a luta pela linguagem. Ela diz
que as histórias feministas sobre ciborgues têm a tarefa de recodificar a comunicação
e a inteligência a fim de subverter o comando e o controle (ibid., p. 95). “Os ciborgues
da vida real estão ativamente reescrevendo os textos de seus corpos e sociedades. A
sobrevivência é o que está em questão nesse jogo de leituras” (ibid., p. 93).
Essa é a proposta de Haraway para a superação do modelo dualista das relações
sociais e contra qualquer discurso universalizante: produzir novos discursos, codificar
não para o controle, mas para a liberação. A “escrita-ciborgue”, termo que ela utiliza
para falar da escrita de outros sujeitos, diferentes do homem branco e colonizador,
diz ela, tem a ver com o poder de sobreviver, “não com base em uma inocência
original, mas com base na tomada de posse dos mesmos instrumentos para marcar o
159
mundo que as marcou como outras” (ibid., p. 94). A intenção aqui expressa parece ser
a de des-hierarquizar a relação entre “nós” e “outras”, tanto entre diferentes grupos
de mulheres e quanto entre um grupo de mulheres e qualquer outro.
Palavras-chave: Donna Haraway; ciborgue; gênero; ciência.
Referências
HARAWAY, D. J. Manifesto Ciborgue: ciência, tecnologia e feminismo-socialista
no final do século XX. In. SILVA, T. T. Antropologia do Ciborgue: as vertigens do póshumano. Belo Horizonte: Autêntica, 2000. p. 37-129.
KUNZRU, H. Genealogia do Ciborgue. SILVA, T. T. Antropologia do Ciborgue: as
vertigens do pós-humano. Belo Horizonte: Autêntica, 2000. p. 131-139.
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Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
160
SESSÃO PÔSTER
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TRABALHOS
APRESENTADOS EM
SESSÃO DE PÔSTER
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BENEFICIÁRIOS DE PLANOS DE SAÚDE DE
ASSISTÊNCIA MÉDICA NA POPULAÇÃO
BRASILEIRA: UMA ANÁLISE SEGUNDO GÊNERO1
DOUTORANDO: JOÃO BOAVENTURA BRANCO
DE MATOS*
CO-AUTOR: RODRIGO MENDES LEAL
1
As opiniões expressas neste trabalho são exclusivamente do(s) autor(es) e não refletem, necessariamente, a visão das instituições a que estão vinculados.
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* JOÃO BOAVENTURA BRANCO DE MATOS [email protected]
RODRIGO MENDES LEAL [email protected]
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
O número de beneficiários de planos de saúde de assistência médica com ou
sem odontologia (planos médicos) no Brasil apresentou crescimento no período
recente, de 31 milhões em jun/2001, para cerca de 36 milhões em jun/2006.Todavia,
esta evolução precisa ser contextualizada no âmbito do crescimento da população
brasileira, que passou de 172 milhões em 2001, para 187 milhões em 2006. Desse
modo, um primeiro olhar é, sem dúvida, a avaliação da proporção geral de
beneficiários na população. Essa comparação, por si só, já permite concluir que
houve um aumento da participação relativa de beneficiários na população, entretanto,
se fazem oportunas algumas comparações adicionais que levem em conta o gênero
e o perfil etário da população brasileira.
A análise segundo gênero se faz presente como insumo ao debate da saúde
suplementar, especialmente por meio da discussão de possíveis diferenças de demanda
entre sexos, relacionadas a características de morbidade, de cuidado e de trabalho. Tal
questão se insere também em um contexto regulatório que, do lado da oferta, não
permite que sejam cobrados preços diferenciados segundo gênero, não obstante a
existência dessa diferenciação segundo faixas etárias e à existência de planos com ou
sem obstetrícia. Nesse contexto, o objetivo do presente trabalho é avaliar, no período
pós-regulação, a evolução do perfil de gênero da demanda de planos de saúde no
Brasil, considerando também aspectos do perfil etário.
Para este fim, utiliza-se o indicador da “taxa de cobertura”, razão do número
de beneficiários em relação à população do Brasil, geral e segundo sexo, calculado
para cada ano, de 2001 a 2006. As informações de beneficiários são correspondentes
aos meses de junho, com fonte no TabNet-ANS em 08/abr/2007, enquanto os dados
da população brasileira correspondem à estimativa do IBGE para 1° de julho de cada
ano, sendo que a distribuição por faixa etária e por sexo é estimada pelo Ministério da
Saúde/Datasus a partir da distribuição dos dados do Censo de 2000.
162
Os resultados evidenciam que a taxa de cobertura geral dos planos de saúde
apresentou relativa estabilidade de 2001 a 2003, seguida de aumento a partir de
2004, alcançando um nível superior ao inicial em 2006. Esse indicador apresenta maior
nível para o sexo feminino do que para o masculino, sendo observado que o
comportamento do indicador foi similar para os dois gêneros, com relativa estabilidade
de 2001 até 2003, seguida de crescimento continuado a partir de 2004, alcançando em
2006 um nível superior ao inicial.
Numa segunda etapa da análise, ao avaliar a segmentação por grupos de faixas
etárias de reajuste definidos pela ANS, observa-se que a taxa de cobertura aumenta
na medida em que as faixas etárias ficam mais elevadas. Tal perfil etário é característica
de os sexos, todavia é mais perceptível para as mulheres, já que na faixa etária até 18
anos, o peso da população que tem plano de saúde entre homens e mulheres é
praticamente igual, enquanto a partir dos 49 anos a taxa de cobertura entre as mulheres
se torna superior a dos homens.
Para concluir, destaca-se entre os resultados o fato de que a participação de
beneficiários em relação à população foi maior para o sexo feminino do que para o
masculino, sendo observado que o comportamento do indicador foi similar para os
dois gêneros, com redução de 2001 até 2003, mais que compensada pelo crescimento
em 2005 e 2006.
Palavras-chave: planos de saúde; demanda; população.
______. Carência, doenças e lesões preexistentes, urgência e emergência: prazos
de carência, cheque-caução, preenchimento da declaração de saúde. 3. ed. rev.
ampl., 2005b.
______. ANS TabNet: Nota técnica de informações sobre beneficiários e operadoras
de planos privados de assistência à saúde. Abril. 2007a.
______. Caderno de informação da saúde suplementar: beneficiários, operadoras e
planos. Setembro. 2007c.
MONTONE, J. Evolução e desafio da regulação do setor de saúde suplementar. In:
Agência Nacional de Saúde Suplementar. Documentos de apoio ao Fórum de Saúde
Suplementar de 2003: Regulação e Saúde. Rio de Janeiro, v.3, tomo I, 2004, p.9-31.
publicação eletrônica: http://www.ims.uerj.br/sesc
AGÊNCIA NACIONAL DE SAÚDE SUPLEMENTAR. Reajuste de mensalidade:
Conceitos básicos, reajuste por variação de custos, reajuste por mudança de faixa
etária. 2. ed. rev. ampl., 2005a.
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
Referências
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MORTALIDADE ESPECÍFICA POR DOENÇAS DO
APARELHO CIRCULATÓRIO E FATORES
ASSOCIADOS NAS CAPITAIS BRASILEIRAS E NO
DISTRITO FEDERAL
DOUTORANDA: KARINE DE LIMA SÍRIO BOCLIN*
MESTRANDA: ILANA NOGUEIRA BEZERRA
ORIENTADOR: JOAQUIM GONÇALVES VALENTE
publicação eletrônica: http://www.ims.uerj.br/sesc
* KARINE DE LIMA SÍRIO BOCLIN [email protected]
LANA NOGUEIRA BEZERRA [email protected]
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
INTRODUÇÃO
O Brasil, desde a década de 30 do século passado, vem sofrendo um processo de
transição epidemiológica, alterando seu padrão de morbimortalidade. Houve uma
diminuição das doenças infecciosas e parasitárias e um aumento das doenças e agravos
não-transmissíveis (DANTs), como as doenças do aparelho circulatório, as neoplasias
e as de causas externas (Malta et al., 2006).
Entretanto, no Brasil, observam-se diversidades regionais enquanto, em algumas
Unidades da Federação, principalmente Região Norte e Nordeste, as doenças
transmissíveis ainda persistem como importantes causas de doenças, áreas mais
desenvolvidas do nosso país apresentam maiores prevalências de doenças crônicas não
transmissíveis (Malta et al., 2006).
Com relação à vigilância de doenças crônicas e de seus fatores de risco, a OMS
vem estimulando os países a inserirem, em seus programas de saúde, a vigilância das
doenças crônicas, com atenção aos fatores de risco. Com o objetivo de se criar um
sistema nacional de vigilância das DANTs (SISDANT), o Ministério da Saúde realizou,
entre 2002 e 2003, o Inquérito Domiciliar sobre Comportamentos de Risco e
Morbidade Referida de Doenças e Agravos Não-Transmissíveis. A partir desse
inquérito, foi possível estimar a prevalência dos principais agravos e dos fatores de
risco associados no Brasil (SVS/MS, 2006).
Como ação do SISDANT, foi estruturada a vigilância de fatores de risco e
proteção para doenças crônicas por inquérito telefônico (VIGITEL), objetivando o
monitoramento contínuo da freqüência e distribuição de fatores de risco e proteção
para DANTs. O primeiro inquérito do VIGITEL foi realizado entre agosto e dezembro
de 2006, com adultos acima de 18 anos de ambos os sexos, nas 27 capitais brasileiras
e no Distrito Federal, residentes em domicílios servidos por, pelo menos, uma linha
telefônica fixa durante o ano (SVS/MS, 2006).
164
Devido ao recente acompanhamento desses agravos em inquéritos de
abrangência nacional, ainda há pouca informação disponível nos sistemas de vigilância
em saúde. Com base na análise dos dados do VIGITEL e do DATASUS, pretende-se,
através deste trabalho, expandir o conhecimento sobre a mortalidade por doenças do
aparelho circulatório e seus fatores associados.
OBJETIVO
Dessa forma, o objetivo deste trabalho é conhecer a distribuição das taxas de
mortalidade específica por doenças do aparelho circulatório e fatores associados nas
capitais brasileiras e no Distrito Federal.
publicação eletrônica: http://www.ims.uerj.br/sesc
RESULTADOS
A média da taxa de mortalidade por doença do aparelho circulatório nas capitais
brasileiras foi de 143,2 óbitos por cem mil habitantes. A maior média foi encontrada
na região Sudeste e a menor na região Norte.
Quanto aos fatores proximais, foi encontrada maior média de diabetes na Região
Sudeste e menor na Região Norte, maior proporção de fumantes e de indivíduos com
excesso de peso na região Sul e menor na Região Nordeste e maior prevalência de
inatividade física na região Nordeste e menor na região Norte.
Quanto aos fatores distais, pôde-se observar maiores freqüências de instalações
sanitárias precárias nas regiões Norte e Nordeste e menores na Região Centro-Oeste,
já a média do rendimento mediano foi maior na Região Sul e menor na Nordeste.
Foram encontradas correlações positivas entre a taxa de mortalidade por
doenças do aparelho circulatório e diabetes (r= 0,656, p<0,05), prevalência de
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
METODOLOGIA
Este é um estudo ecológico com dados secundários obtidos no DATASUS,
VIGITEL e no CENSO 2000 para as capitais dos estados brasileiros e Distrito Federal.
A variável-resposta do estudo serão as taxas de mortalidade por doenças do
aparelho circulatório por cem mil habitantes-ano no ano de 2004 (DATASUS).
Fatores proximais serão: prevalência de diagnóstico médico de diabetes,
prevalência de tabagismo (independentemente da freqüência e intensidade do hábito
de fumar), prevalência de excesso de peso (índice de massa corporal igual ou superior
a 25kg/m2) e proporção de indivíduos que não praticam qualquer atividade física
(atividade física no lazer, esforços físicos intensos no trabalho, deslocamento para o
trabalho a pé ou de bicicleta e limpeza pesada da casa). (VIGITEL).
Serão considerados fatores distais: proporção de indivíduos com instalação
sanitária precária (sem instalação sanitária; com escoação para rio, lago ou mar ou
com outro escoadouro não determinado no ano de 2000) (DATASUS), rendimento
mediano (renda mediana (R$) dos chefes de domicílios no ano de 2000) (CENSO
2000).
Foram realizadas análises descritivas (proporções e coeficiente de correlação)
com o auxílio do conjunto de aplicativos R e Excel.
165
Referências
FUNDAÇÃO INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Atlas
de Saúde do Brasil 2004. Brasília: IBGE, 2000. CD-ROM
MALTA, D. C. et al. A construção da vigilância e prevenção das doenças crônicas
não transmissíveis no contexto do Sistema Único de Saúde. Epidemiologia e serviços
de saúde. v. 15, n. 3, p. 47-65, 2006.
MINISTÉRIO DA SAÚDE. Departamento de informática do SUS (DATASUS)
2000. Disponível em: http://www.datasus.gov.br. Acesso em: maio 2007.
SECRETARIA DE VIGILÂNCIA EM SAÚDE. VIGITEL Brasil 2006: vigilância de fatores
de risco e proteção para doenças crônicas por inquérito telefônico. Disponível em: http:/
/www.saude.gov.br. Acesso em: maio 2007.
publicação eletrônica: http://www.ims.uerj.br/sesc
Palavras-chave: taxa de mortalidade, doenças do aparelho circulatório, fatores
proximais, fatores distais.
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
inatividade física (r= 0,401, p<0,05) e rendimento mediano (r= 0,440, p<0,05) e
correlação negativa entre a taxa de mortalidade e prevalência de instalação sanitária
precária (r= - 0,486, p<0,05).
Os dados mostram a diversidade entre as capitais brasileiras tanto no que diz
respeito à taxa de mortalidade por doenças do aparelho circulatório quanto à
distribuição dos fatores associados.
A taxa de mortalidade e os fatores proximais foram mais prevalentes nas regiões
Sudeste e Sul, com exceção de inatividade física que foi maior no Nordeste. Já os
fatores distais foram mais prevalentes nas regiões Norte e Nordeste.
Esses achados podem não estar refletindo a real distribuição do evento estudado
e dos fatores associados devido às desigualdades existentes entre as regiões brasileiras,
como por exemplo, o acesso a serviços de saúde. Sabe-se que, na Região Norte, o
acesso a esses serviços é mais precário quando comparado a outras regiões, fazendo
com que os indivíduos desconheçam sua condição de saúde/doença e conseqüentemente
sejam encontradas menores prevalências. Além disso, as maiores freqüências
encontradas nas regiões Sul e Sudeste podem estar refletindo uma elevada proporção
de idosos devido à maior expectativa de vida nessas regiões.
Quanto ao VIGITEL, suas informações podem, ainda, não ser representativas do
país, por considerar somente as capitais e indivíduos com telefone em suas residências.
Pelo fato de este estudo ser ecológico e baseado em dados secundários,
outras questões podem influenciar os resultados, como a subnotificação de óbitos,
erros de preenchimento das declarações de óbitos (causas mal definidas) e ausência
de dados brutos e de homogeneidade entre os inquéritos, dificultando comparações
entre seus resultados.
Destaca-se, portanto, a importância do planejamento de ações específicas que
considerem as diversidades regionais do Brasil, priorizando as áreas com maiores riscos.
166
DISTRIBUIÇÃO ESPACIAL DA Aids NO ESTADO
DO RIO DE JANEIRO (2001-2005)
DOUTORANDAS: ANDRÉA SOBRAL DE ALMEIDA E
ANNA MARIA SALES*
ORIENTADOR: JOAQUIM VALENTE
* ANDRÉA SOBRAL DE ALMEIDA [email protected]
ANNA MARIA SALES [email protected]
publicação eletrônica: http://www.ims.uerj.br/sesc
OBJETIVO GERAL
Analisar a distribuição espacial da epidemia da Síndrome de Imunodeficiência
Adquirida (Aids).
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
INTRODUÇÃO
A Síndrome de Imunodeficiência Adquirida (Aids) é uma doença emergente,
que representa um dos maiores problemas de saúde da atualidade, em virtude de sua
gravidade e de seu caráter pandêmico.
A epidemia de Aids no Brasil é, de fato, o somatório de subepidemias
microrregionais, em interação permanente, devido aos diferentes momentos de
introdução do HIV no território nacional, às diferentes condições de vida das populações
atingidas, às distintas composições das populações regionais, aos padrões de mobilidade
da população e à diversidade de arranjos e padrões de comportamento sexual.
Segundo o boletim Epidemiológico DST-Aids de dezembro de 2006, foram
notificados e registrados, no Sistema de Agravos de Notificação de Agravos (SINAN),
52.839 casos confirmados de Aids residentes no estado do Rio de Janeiro,
diagnosticados desde o inicio da epidemia, em 1982, até 31 de julho de 2006, a
maior parte (87%) dos casos.
Os resultados encontrados apontam que as taxas de incidência média anual
vêm decrescendo de 30,8/100.000 hab/ano (em 1998) para 22,6/100.000 hab/ano
(em 2003). Contudo, esta redução observada deveu-se principalmente a Região
Metropolitana. Para a Região Norte Fluminense, as taxas de incidência de Aids foram
crescentes (Boletim Epidemiológico DST-Aids, 2006).
Nos últimos anos da década de 80 e início dos anos 90, a transmissão heterossexual
passou a ser a principal via de transmissão do HIV. Esta vem apresentando maior tendência
de crescimento em anos recentes, acompanhada de expressiva participação das mulheres
na dinâmica da epidemia e de importante percentual de Aids/gestante HIV-positiva e
criança exposta a casos por transmissão materno-infantil. No entanto, a partir de 1996,
com a distribuição universal e gratuita de anti-retrovirais, vem-se registrando redução
na velocidade de crescimento da incidência e taxas de mortalidade da doença.
167
OBJETIVOS ESPECÍFICOS
- Estimar a taxa de incidência da Aids nos municípios do RJ.
- Estimar a proporção de casos de Aids por faixa etária, sexo e categoria de
exposição.
- Analisar a distribuição espacial da incidência de Aids nos municípios do RJ.
publicação eletrônica: http://www.ims.uerj.br/sesc
RESULTADOS
As taxas de incidência apresentaram-se maiores para o sexo masculino, com
seu maior valor no ano de 2004 (46 casos por 100.000 hab/ano). Entre as mulheres, as
maiores taxas ocorreram mais tardiamente, no ano de 2005 (21,1 casos por 100.000
hab/ano). Os grupos etários que apresentaram as maiores incidências ao longo do
período, em ambos os sexos, foram os de 30 a 34 anos e 35 a 39 anos.
Em relação à forma de transmissão, os dados existentes mostraram que, entre
as mulheres, a categoria heterossexual representou 95,3% do total de casos.
O uso de drogas injetáveis representou 1,9% dos casos e as transfusões, 0,2%.
Entre os homens, a categoria heterossexual representou 32,4% dos casos, as categorias
homo e a bissexual, 20,6% e 11,5%, respectivamente; em que o número de casos
vem diminuindo, o uso de drogas injetáveis representou 2,8% do total dos casos e as
transfusões (incluindo casos de hemofilia), 0,3% das notificações.
A distribuição espacial da taxa de incidência da Aids nos municípios do Estado
do Rio de Janeiro, correspondendo ao período estudado (2001 a 2005), indicou que,
em 2001, poucos municípios tiveram taxas altas da doença (30 casos por 100.000 hab/
ano), concentrando-se em sua maioria na região metropolitana. Para o ano de 2002,
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
METODOLOGIA
Estudo ecológico, com análise dos casos notificados de Aids, no período de 2001
a 2005, obtidos do Sistema de Agravos de Notificação e do Sistema de Informações
sobre Mortalidade (DATASUS).
Para o Estado, os casos foram estratificados por sexo, grupos de idade e categorias
de exposição hierarquizada (CEH): homossexual, heterossexual, bissexual, usuários
de drogas injetáveis, transfusão, transmissão vertical e hemofílico.
Foi aplicada a estatística Bayesiana Empírica Global nas taxas de incidência de
Aids, que foram mapeadas para os municípios do Rio de Janeiro.A taxa Bayesiana Empírica
Global baseia-se no uso de informação das outras áreas que compõem a região de estudo
para diminuir esta instabilidade não associada ao risco de ocorrência do agravo.
Para avaliar a autocorrelação espacial, foi utilizado o Índice de Moran global,
que testa se as áreas conectadas apresentam maior semelhança quanto ao indicador
estudado do que o esperado num padrão aleatório, variando de -1 a +1, quantificando
o grau de autocorrelação existente, sendo positivo para correlação direta, negativo
quando inversa (Câmara et al., 2004).
A base cartográfica utilizada foi a do IBGE. Foram construídos mapas temáticos
com as incidências nos municípios do Estado do Rio de Janeiro.
Os softwares utilizados foram ArcView GIS3.2, Terra View 3.1.4 e S-plus 2000.
168
observou-se uma difusão da epidemia (10 casos por 100.000 hab/ano), para mais de
80% dos municípios do estado. Ressalta-se ainda para este ano, que mais municípios
da região metropolitana apresentaram taxas mais elevadas da doença (20 casos por
100.000 hab/ano).
No ano de 2003, a situação se mantém próxima a daquela do ano anterior, porém
três municípios (Mangaratiba, Maricá e Três Rios) apresentam taxas elevadas (30 casos
por 100.000 hab/ano). Em 2004, houve uma mudança sutil neste cenário, onde um
maior percentual de municípios localizados nas regiões metropolitana, sul, centro e
noroeste fluminense apresentam taxas de 20 casos por 100.000 hab/ano, e apenas o
município de Niterói apresentou taxas superiores a 30 casos por 100.000 hab/ano
Para o ano de 2005, e em quase toda área do estado, observou-se incremento
nas taxas de incidência para Aids (20 casos por 100.000 hab/ano). Nesse ano a difusão
da epidemia parece apresentar um cenário de interiorização. As regiões que mais se
destacaram foram às regiões centro e norte fluminense. Para o período total, observouse um padrão muito parecido ao ano de 2002.
A autocorrelação espacial global da taxa de incidência Bayesiana de Aids foi
estatisticamente significativa para todos os anos. Para o período total da taxa Bayesiana,
a autocorrelação foi de 0,28 com valor do p= 0,01.
Palavras-chave: Aids, distribuição espacial, estudo ecológico.
BOLETIM EPIDEMIOLÓGICO DST/Aids. Secretaria Estadual de Saúde, Rio de
Janeiro, 2006.
BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Guia de Vigilância
Epidemiológica. Brasília: Ministério da Saúde, 2005.
ORGANIZAÇÃO PAN-AMERICANA DA SAÚDE. Indicadores Básicos de Saúde no
Brasil: conceitos e aplicações. Rede Interagencial de Informações para a Saúde
(Ripsa). Brasília: OPAS, 2002.
_______. Epidemiologia das Desigualdades em Saúde no Brasil: um estudo exploratório.
Brasília: OPAS, 2002.
CÂMARA, G. et al. Análise espacial de áreas. In: DRUCK, S. et al. (Eds.).
Análise espacial de dados geográficos. Planaltina-DF: Embrapa, 2004. Disponível em :
http://www.ibge.gov.br/cidadesat
publicação eletrônica: http://www.ims.uerj.br/sesc
Referências
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
DISCUSSÃO
A análise das notificações de casos no espaço torna-se interessante, do ponto de
vista das populações sob maior risco de exposição à Aids, em relação à população
geral, mais vulnerável hoje do que no início da epidemia.
169
CARACTERIZAÇÃO E PREDIÇÃO DE ÁREAS DE
ALTO RISCO PARA OCORRÊNCIA DE
LEISHMANIOSE VISCERAL COM BASE EM
INFORMAÇÕES AMBIENTAIS E
SOCIOECONÔMICAS
DOUTORANDA: ANDRÉA SOBRAL DE ALMEIDA*
CO-AUTOR: GUILHERME LOUREIRO WERNECK
ORIENTADOR: GUILHERME LOUREIRO WERNECK
MÉTODO
Área de estudo
Teresina, capital do Estado do Piauí, centralizada a 5°5' de Latitude Sul e na
Longitude Oeste de 42°48', ocupa uma área de 176 km, localiza-se na confluência dos
rios Parnaíba e Poti.
* ANDRÉA SOBRAL DE ALMEIDA [email protected]
GUILHERME LOUREIRO WERNECK [email protected]
publicação eletrônica: http://www.ims.uerj.br/sesc
OBJETIVO
Identificar, caracterizar e predizer áreas de alto risco para ocorrência de LV
em Teresina, Piauí, com base em informações ambientais e socioeconômicas.
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
CONTEXTO
Heterogeneidades espaciais na distribuição dos vetores, no padrão de contato
entre vetores, hospedeiro e reservatórios, e em uma série de potenciais fatores de
risco podem levar a um aumento substancial na força de transmissão da leishmaniose
visceral. Nesta situação, subgrupos populacionais contribuem mais para a transmissão
e outros não têm contribuição alguma. Como resultado, focalizar intervenções em
áreas de mais alto risco para ocorrência de casos de leishmaniose visceral pode ser
uma estratégia eficiente para reduzir as taxas de transmissão.
Na cidade de Teresina, uma das capitais mais pobres do Brasil, a leishmaniose
visceral é um problema de saúde pública. A ocupação rápida e desorganizada da periferia
de cidade expôs a população a extensas áreas cobertas por florestas tropicais e vegetação
densa, locais prováveis de reprodução selvagem do parasita responsável pela doença
(Leishmania chagasi). Na medida em que comunidades humanas se expandem para
áreas recentemente desflorestadas, elas entram em contato direto com os locais naturais
de reprodução do vetor, o flebotomíneo Lutzomyia longipalpis, e com os reservatórios
selvagens da infecção (Werneck & Costa, 2002).
170
Trata-se de um estudo ecológico analítico misto, no qual as unidades de análise
são os 430 setores censitários de Teresina. As taxas anuais médias de incidência de
leishmaniose visceral foram calculadas para cada um dos setores censitários da cidade
no período de 1993 a 1996. As variáveis ambientais, obtidas por sensoriamento remoto,
e, sócio-econômicas, obtidas no Censo Demográfico de 1991, foram utilizadas para
identificar, caracterizar e predizer áreas sob maior risco de ocorrência de leishmaniose
visceral. Árvores de classificação e regressão (CART) foram utilizadas para obtenção
dos modelos preditivos (Breiman et al., 1984; Clark & Pregibon, 1993). CART é um
método estatístico-computacional que seleciona dentre um conjunto de variáveis aquelas
com maior poder de discriminação em relação ao desfecho.
publicação eletrônica: http://www.ims.uerj.br/sesc
CONCLUSÃO
A heterogeneidade social e ambiental das cidades cada vez mais requer que
dados sobre vetores, hospedeiros e reservatórios sejam coletados em múltiplas e
pequenas áreas, adicionando maior complexidade ao processo. Assim, pode-se ressaltar
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
RESULTADOS
Dois modelos preditivos foram construídos: um que incluía apenas variáveis
obtidas através do Censo Demográfico de 1991 e outro que incluía também variáveis
derivadas de imagens de satélite. O modelo que incluía apenas as variáveis do Censo
Demográfico foi capaz de discriminar 8 conjuntos de setores censitários, com incidências
variando de 0,18 casos / 1000 até 1,4 casos / 1000 habitantes. Já o modelo que incluía
variáveis derivadas de imagens de satélite foi capaz de produzir 12 conjuntos de setores
censitários, com incidências de leishmaniose visceral variando de 0,18 casos / 1000
até 2,3 casos / 1000 habitantes.
No modelo com variáveis do Censo Demográfico, os conjuntos de setores
censitários com maior incidência média de doença englobou setores com coleta regular
de lixo cobrindo menos de 50% dos domicílios, caracterizados por crescimento
populacional acima de 1% ao ano no período, em que as mulheres eram chefes de
domicílios em menos de 20% das casas, e em que menos de 50% dos moradores eram
alfabetizados e, onde a renda média era menor do que 1 salário mínimo e, onde mais
50% dos domicílios estavam localizados em favelas. Por outro lado, o grupo de setores
censitários com mais baixas taxas de incidência foi caracterizado por ter mais de 50%
dos domicílios atendidos por coleta regular de lixo e mais de 90% dos chefes de
domicílio alfabetizados.
No modelo que incluía também variáveis obtidas por sensoriamento remoto, os
conjuntos de setores censitários com maior incidência média de doença englobou setores
com residenciais com vegetação abundante, e em que menos de 50% dos moradores
eram alfabetizados. Também observou-se um conjunto de setores censitários com alta
incidência caracterizado onde mais 50% dos domicílios estavam localizados em favelas e
coberto por vegetação muito densa. Por outro lado, o grupo de setores censitários com
mais baixas taxas de incidência foi caracterizado por ser eminentemente residencial
com pouca vegetação e por ter mais de 90% dos chefes de domicílio alfabetizados.
171
a importância da utilização de sensoriamento remoto para investigar o papel
desempenhado por fatores ambientais na incidência da leishmaniose visceral. Os
resultados desta aplicação são úteis não apenas para uma melhor compreensão dos
mecanismos relacionados à ocorrência de casos da leishmaniose visceral, mas também
pode servir para direcionar estratégias eficientes de intervenção.
Os achados desse estudo apontaram que setores censitários com maior incidência
média de doença para ambos os modelos, apresentaram baixo padrão sócio-econômico
e alto percentual de domicílios localizado em áreas cobertas por vegetação muito
densa, o que provavelmente propiciou um contexto favorável para infecção por
leishmaniose visceral em Teresina (Werneck et al., 2007).
Concluí-se que com base em variáveis obtidas por sensoriamento remoto e através
do Censo é factível a delimitação de áreas de maior risco para leishmaniose visceral de
forma a orientar a implementação de estratégias de controle em regiões prioritárias.
Palavras-chave: leishmaniose visceral; áreas de risco; modelos preditivos; status
sócio-econômico e ambiental.
Referências
BREIMAN, L. et al. Classification and regression trees. Pacific Grove, CA: Wadsworth
& Brooks/Cole, 1984.
WERNECK, G. L. et al. The urban spread of visceral leishmaniasis: clues from
spatial analysis. Epidemiology, n. 13, p. 364-367, 2002.
publicação eletrônica: http://www.ims.uerj.br/sesc
WERNECK, G. L. et al. Multilevel modelling of the incidence of visceral
leishmaniasis in Teresina, Brazil.. Epidemiology and Infection, v. 135, p. 195-201, 2007.
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
CLARK, L. A., PREGIBON, D.Tree-based models. In: CHAMBERS, J. M.; HASTIE,
T. J. (Eds.). Statistical Models. New York: Chapman & Hall, 1993. p. 377-419.
172
ASSOCIAÇÃO ENTRE PROCEDIMENTOS
PREVENTIVOS NO SERVIÇO PÚBLICO DE
ODONTOLOGIA E A PREVALÊNCIA DE CÁRIE
DENTÁRIA
DOUTORANDO: ROGER KELLER CELESTE
CO-AUTOR: ANTONIO PONCE DE LEON
ORIENTADOR: PAULO NADANOVSKY
FOMENTO: CNPQ
publicação eletrônica: http://www.ims.uerj.br/sesc
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
O impacto dos serviços de saúde na prevenção de doenças ainda é controverso.
Defensores de que o papel dos serviços é importante, argumentam que o acesso a
tratamentos eficazes pode reduzir o nível de doenças. Entretanto, deve-se considerar
que a eficácia de intervenções preventivas, nem sempre é demonstrada no dia-a-dia
dos serviços, sob condições reais.
A diretriz atual para os serviços públicos odontológicos brasileiros tem como
pressuposto harmonizar ações preventivas com as da assistência, além de “acompanhar
o impacto das ações de saúde bucal por meio de indicadores adequados”. Essa diretriz
aponta pelo menos dois caminhos: verificar tendências na utilização dos serviços
odontológicos pela população que pode se beneficiar dos mesmos (avaliação do
processo), ou avaliar o efeito da utilização desses serviços na saúde bucal dos usuários
(avaliação do resultado).
Assim, o objetivo do nosso estudo foi avaliar a associação entre as atividades
voltadas para a prevenção da cárie dentária pelos dentistas dos serviços públicos de
odontologia e a prevalência de cárie dentária em uma população de usuários em
potencial desses serviços, no estado do Rio Grande do Sul.
Utilizamos dados transversais de duas fontes. Os dados de cárie dentária,
socioeconômicos, demográficos e auto-relato da utilização de serviços odontológicos
foram obtidos de um inquérito epidemiológico realizado no estado do Rio Grande do
Sul entre 2002 e 2003. Dados sobre os procedimentos odontológicos realizados pelos
dentistas que trabalham na rede pública municipal foram obtidos do DATASUS.
Avaliamos a magnitude do efeito da taxa de procedimentos preventivos através de
uma regressão logística multinível com intercepto aleatório. O desfecho considerado
foi ter ao menos uma cárie não restaurada.
As chances de um jovem ter ao menos uma cárie não restaurada, residindo nos
municípios com menores taxas de procedimentos preventivos individualizados (1o
173
Referências
ANDRULIS, D. P. Access to care is the centerpiece in the elimination of
socioeconomic disparities in health. Ann Intern Med., v. 129, n. 5, p. 412-6, Sept.
1998.
BALDANI, M. H.; VASCONCELOS, A. G.; ANTUNES, J. L. Association of the
DMFT index with socioeconomic and dental services indicators in the state of
Parana, Brazil. Cad. Saude Publica, v. 20, n. 1, p. 143-52, Jan-Feb 2004.
LUCAS, S. D.; PORTELA, M. C.; MENDONCA, L. L. Variations in tooth decay
rates among children 5 and 12 years old in Minas Gerais, Brazil. Cad Saude Publica,
v. 21, n. 1, p. 55-63, Jan-Feb 2005.
publicação eletrônica: http://www.ims.uerj.br/sesc
Palavras-chave: atenção primária em saúde; avaliação de serviços de saúde;
prevenção; cárie dental; fatores socioeconômicos.
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
quartil), foram 2,27 vezes maiores do que de jovens residindo nos municípios com
maiores taxas (4o quartil). Essas chances permaneceram estatisticamente significantes
mesmo depois de ajustadas, mas decresceram para 1,76.
Assim como nós, outros também não encontraram associação entre acesso
aos serviços odontológicos e o índice CPOD, nem entre procedimentos preventivos
e o índice CPOD. Uma possível explicação para o fato de terem sido encontradas
mais cavidades não restauradas em municípios com menos atividades preventivas,
porém nenhuma associação dessas atividades com a experiência total de cárie
(CPOD), é que este último pode ter englobado um acúmulo de diagnósticos falsopositivos, refletido em um aumento nos componentes perdido e obturado,
desvinculado da atividade de cárie. Dessa forma, superfícies que a princípio não
foram restauradas devido ao efeito das atividades preventivas teriam sido
subseqüentemente restauradas desnecessariamente.
Quando comparamos os R 2 das variáveis dos serviços com as variáveis
socioeconômicas os valores foram 11% e 14% respectivamente. Estes valores são
consideravelmente diferentes dos valores encontrados por Nadanovsky e Sheiham
(1995) que relataram 65% e 3% para variáveis socioeconômicas e de serviços
odontológicos respectivamente. Acreditamos que tamanha diferença possa ser em
parte explicada pelo tipo de desfecho, ecológico versus individual. É possível que os
serviços tenham tido um efeito benéfico em curto prazo, mostrado na prevenção das
cavidades de cárie no nosso estudo, mas que esse efeito tenha desaparecido numa
avaliação de mais longo prazo da saúde bucal, como foi o caso do CPOD no estudo de
Nadanovsky e Sheiham (1995). Diferenças na composição dos serviços prestados nos
países desenvolvidos ocidentais nas décadas de 1970 e 1980 e no Brasil nos anos 20002002 não devem explicar a diferença que encontramos nos R2, pois nas décadas de
1970 e 1980 em muitos países desenvolvidos, os dentistas realizavam atividades
preventivas assim como os dentistas no Brasil de 2000-2002.
174
NADANOVSKY, P.; SHEIHAM, A. Relative contribution of dental services to the
changes in caries levels of 12-year-old children in 18 industrialized countries in
the 1970s and early 1980s. Community Dent Oral Epidemiol., v. 23, n. 6, p. 331-9,
Dec. 1995.
VICTORA, C. G.; HABICHT, J. P.; BRYCE, J. Evidence-based public health: moving
beyond randomized trials. Am J Public Health., v. 94, n. 3, p. 400-5, Mar 2004.
publicação eletrônica: http://www.ims.uerj.br/sesc
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
175
COBERTURAS VACINAIS CONTRA HEPATITE B E
COM TETRAVALENTE NO ESTADO DO RIO DE
JANEIRO DE 2002 A 2006
MESTRANDAS: ANDRÉIA RODRIGUES
GONÇALVES AYRES
E TATIANA DE SEIXAS TAVARES RIBEIRO
ORIENTADOR: JOAQUIM GONÇALVES VALENTE
MATERIAL E MÉTODOS
Estudo ecológico. Coleta de dados de coberturas vacinais anuais médias de cada
região do estado do Rio de Janeiro, no período 2002 a 2006. Dados de área submetidos
à comparação entre si e relacionados à cobertura de PSF e IDH médio da região, a
fim de que buscássemos correlações nas distribuições da cobertura vacinal. As fontes
dos dados foram: SI-API, SIAB, PNUD, Bancos de Dados Municipais da Fundação
CIDE. Análise exploratória dos dados foi realizada através do pacote estatístico do
software Plataforma R, versão 2.5.0.
RESULTADOS
As coberturas vacinais médias contra hepatite B apresentaram desempenho
ruim, com apenas 56% dos municípios acima da cobertura vacinal mínima. Para a
tetravalente, 80% dos municípios superaram a meta pactuada. Em geral, as coberturas
publicação eletrônica: http://www.ims.uerj.br/sesc
OBJETIVOS
Estimar as coberturas vacinais contra hepatite B e com vacina tetravalente
(DPT+Hib) em menores de um ano no Estado do Rio de Janeiro, no período de 2002
a 2006, e relacioná-las com a cobertura da atenção à saúde, de baixa complexidade.
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
INTRODUÇÃO
As coberturas vacinais com tetravalente e contra hepatite B vêm-se mostrando
úteis na avaliação da execução dos programas de imunização.Acreditamos que o indicador
“cobertura vacinal” reflete um mínimo de estruturação da atenção básica e de acesso aos
serviços de saúde. Ambas as coberturas vacinais têm a sua completude avaliada a partir
do término de um esquema de três doses, ou seja, requerem um seguimento mínimo e
empenho para aproveitar oportunidades em vacinação e para captar as crianças com
estado vacinal incompleto. Além disso, tais vacinas não são administradas em campanhas,
estando suas coberturas associadas à regularidade das ações de rotina.
176
contra hepatite B são mais altas nas regiões Norte e Baixada Litorânea, encontrandose mais estáveis nas regiões Centro-Sul e Serrana. As regiões que apresentam melhor
desempenho de cobertura vacinal com a tetravalente são as regiões Norte e Baixada
Litorânea. A análise temporal indica instabilidade nas coberturas contra hepatite B, e
regularidade no crescimento das coberturas com a tetravalente. Todas as regiões
apresentaram coberturas baixas com a tetravalente em 2002, ano de implantação da
vacina. As coberturas de PSF não parecem estar relacionadas com as coberturas vacinais
obtidas. Observa-se que as coberturas com a tetravalente crescem com uma
regularidade semelhante ao crescimento da cobertura de PSF, não se repetindo tal
comportamento com hepatite B. Ao tentar relacionar as coberturas vacinais com o
IDH médio das regiões no ano de 2000, observamos correlação negativa, ou seja, o
IDH alto das regiões teria efeito deletério sobre as coberturas vacinais.
Palavras-chave: imunização; epidemiologia; hepatite b; tetravalente.
Referências
Fundação CIDE. Disponível em: http://www.cide.rj.gov.br/banco_municipais.php.
Acesso em: 10 jun. 2007
Datasus: Informações de saúde - Indicadores de Saúde / Assistência à Saúde.
Disponível em: http://www.datasus.gov.br Acesso em: 10 jun. 2007.
DUARTE, E. C. et al. Epidemiologia das desigualdades em saúde no Brasil: um estudo
exploratório. Brasília: OPAS, 2002.
publicação eletrônica: http://www.ims.uerj.br/sesc
CONCLUSÕES
As coberturas vacinais contra hepatite B vêm se mostrando baixas ao longo dos
anos, em relação às metas estabelecidas para os municípios. As coberturas vacinais com
vacina tetravalente têm mostrado um desempenho melhor que da hepatite B, e atingido
as metas com maior freqüência. Testes de correlação evidenciaram correlação fraca,
inexistente ou negativa entre indicadores socioeconômicos e as coberturas vacinais.
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
DISCUSSÃO
Em relação às baixas coberturas vacinais contra hepatite B, pode haver relação
entre as datas de início e término do esquema vacinal, que iniciado tardiamente, pode
ser encerrado apenas com a criança maior de 01 ano. Estima-se que ocorram oportunidades
perdidas nas visitas às unidades de saúde, e acreditamos que a vacinação precoce ainda na
maternidade poderia ajudar a aumentar as coberturas, pela adequação da data de término
do esquema básico, coincidindo com a data de término da vacinação com a tetravalente.
Em relação às coberturas vacinais superestimadas, o fato de estar presentes em regiões
com população flutuante pode influenciar de alguma forma os dados obtidos, porém
maior influência deve exercer o registro inadequado do número de doses administradas.
177
MORAES, J. C. et al. Qual é a cobertura vacinal real? Epidemiologia e Serviços de
Saúde, v. 12, n. 3, p. 147-153, 2003.
MIRANDA, A. S. et al. Avaliação da cobertura vacinal do esquema básico para o
primeiro ano de vida. Rev. Saúde Pública, v. 29, n. 3, p. 208-14, 1995.
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Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
178
ENCERRAMENTO
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Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
MESA
DE
ENCERRAMENTO
179
PERSPECTIVAS EDITORIAIS EM SAÚDE
COLETIVA
MEDIADOR: KENNETH CAMARGO – IMS/UERJ
PALESTRANTES:
KENNETH CAMARGO ROCHEL JR.
PHYSIS - REVISTA DE SAÚDE COLETIVA (IMS-UERJ)
CECÍLIA MINAYO
CIÊNCIA E SAÚDE COLETIVA (FIOCRUZ)
CARLOS COIMBRA
CADERNOS DE SAÚDE PÚBLICA (ENSP)
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Em meio ao debate atual sobre critérios adotados pela CAPES como referência
de avaliação no país, a mesa de encerramento trouxe a discussão sobre as perspectivas
editoriais em Saúde Coletiva, contando com representantes de três importantes
revistas científicas da área – Cecília Minayo, Carlos Coimbra e Kenneth Camargo Jr.
Todos estes destacaram a necessidade de tornar público um trabalho realizado na
academia, considerado primordial para a comunicação científica.
Independentemente de o trabalho ter sido realizado durante um projeto, mestrado,
doutorado, iniciação científica ou graduação, é essencial que seja divulgado através de
sua publicação e discussão em fóruns específicos, e também, através da participação em
seminários e congressos, visando à publicação de artigos e livros. O envolvimento dos
pesquisadores nesse processo de intercâmbio acadêmico-científico foi destacado como
uma questão ética, pois se trata de um compromisso imprescindível com o
desenvolvimento da ciência de um modo geral, e da área de Saúde Coletiva, em específico.
Segundo Carlos Coimbra, esse compromisso é ainda maior entre pesquisadores
de universidades públicas e/ou bolsistas. Destacou também a importância de se fazer
chegar aos serviços de saúde os resultados específicos ligados ao saber produzido, uma
vez que este não deve ficar restrito à comunidade científica.
Outro ponto importante no debate enfatizado por Kenneth Camargo é a
persistência que os autores devem ter ao submeter seus trabalhos às comissões
editoriais. Contou sua experiência de ter um mesmo trabalho avaliado de formas
opostas por diferentes examinadores. Acreditando no potencial de seu artigo e
perseverante quanto à sua pertinência teórica, submeteu-o novamente a três
comissões, de três diferentes revistas especializadas, até conseguir que seu trabalho
fosse publicado em uma revista de reconhecida qualidade no meio. Certamente, a
180
maior tolerância à frustração depende da história de vida de cada um, mas, segundo os
debatedores, é importante que sejam criadas “resistências” perante alguns desafios da
comunicação científica.
Cecília Minayo trouxe para o debate a experiência da revista Ciência e Saúde
Coletiva, desde sua origem até sua organização atual, destacando a importância de se
articular diferentes áreas de conhecimento nesse processo. Apresentou os principais
temas publicados entre 1996 e 2006, ressaltando a importância de se aumentar a
quantidade de pesquisadores que participam de comissões avaliadoras, discutindo, ainda,
as dificuldades de padronização de uma revista, de sua periodicidade e infra-estrutura.
Após intenso debate, com a apresentação de diversas dúvidas do público
participante e com a consolidação de uma perspectiva de intensificação das atividades de
promoção e divulgação da circulação de idéias, a partir da cooperação entre os professores,
alunos e servidores do IMS, encerrou-se a mesa, e partimos para a comemoração de
nosso evento, com um coquetel preparado pela comissão organizadora.
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181
Índice dos resumos
Apresentação
Comissão Organizador .................................................................... 7
MESA DE ABERTURA
Saúde Coletiva, Política e Financiamento de Pesquisa............................. 10
MESA 1 - RELAÇÕES DE GÊNERO, SEXUALIDADE E MEDICALIZAÇÃO
A Desculpabilização pela Doença: o alcoolismo no discurso de
mulheres alcoólicas
Ernanda Alzuguir ....................................................................... 12
Construção Política e Hormonal do Corpo Feminino: algumas
considerações
Regina Senna ............................................................................ 15
Performances de Gênero no Ladies’ Club
Marion Arent ............................................................................ 24
Afeto e Intensidade na Construção da Experiência Psicanalítica: a
contribuição das cnsultas terapêuticas de D. Winnicott
Vivian Heringer Pizzinga ............................................................... 28
Psicanálise e Práticas em Saúde Materno-Infantil
Mariana Bteshe .......................................................................... 32
A Integralidade do Cuidado e a Paternidade: a busca da alteridade no
contexto da unidade de terapia intensiva neonatal
Tatiana Coelho Lopes .................................................................... 35
MESA 3 - CONSTRUÇÕES MIDIÁTICAS DA SUBJETIVIDADE
Representações sobre Sexualidade e Gênero na Mídia: análise de uma
edição do programa Globo Repórter
Cláudia Regina Ribeiro ................................................................. 40
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MESA 2 - REFLEXÕES SOBRE PRÁTICAS EM INSTITUIÇÕES DE SAÚDE
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
Um Debate sobre a Medicalização da Sexualidade: as disfunções
sexuais femininas
Livi Faro ................................................................................ 19
182
As Explicações da Sexologia Científica sobre a atração sexual: uma
análise da revista mente e cérebro
Maria Mostafa .......................................................................... 45
A Estética Grotesca como Arma Emancipatória: sobre a trilogia da
vida de Pier Paolo Pasolini
Alexandre Vasilenskas Gil ................................................................ 48
Receitas Pragmatistas contra o Reducionismo
Pedro de Oliveira Schprejer ............................................................. 52
MESA 4 - NOVOS OLHARES SOBRE AS POLÍTICAS DE SAÚDE
A Politização da Vida na Modernidade: notas sobre as idéias de
Foucault e Agamben
Cristiane Oliveira ....................................................................... 57
Em Defesa de uma certa Anomalia
Solange D’Avila-Melo Sarmento ........................................................ 61
Gênero e Saúde: a inclusão da assistência a transexuais no SUS
Daniela Murta .......................................................................... 66
Perfil do Paciente Oncológico com Dor Crônica
Ana Valéria Paranhos Miceli ............................................................. 74
A Experiência da Dor Crônica: subjetividade e práticas médicas
Raquel Alcides dos Santos ............................................................... 78
Da Neurastenia à Síndrome da Fadiga Crônica: em busca de
objetividade para os transtornos ligados à fadiga
Rafaela Teixeira Zorzanelli .............................................................. 82
Gestão da Morte e Práticas de Saúde: uma discussão a partir dos
cuidados paliativos
Suely Oliveira Marinho ................................................................. 86
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MESA 5 - DOR CRÔNICA E CUIDADOS EM SAÚDE
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
Do Humano ao Número: uma breve análise dessa passagem que
ocorre na ciência moderna e das conseqüências dos seus usos na ação
médica
Vera L. Marques da Silva ................................................................ 69
183
MESA 6 - IDENTIDADE HOMOSSEXUAL, HOMOFOBIA E
HOMPARENTALIDADE
Estigma, Desvio e Visibilidade: um ensaio sobre homossexualidade
masculina e identidade social
Gustavo Santa Roza Saggese ............................................................ 91
Masculinidade e Homofobia: produções de sentido acerca do
masculino
Marcos Nascimento ...................................................................... 96
Famílias Homoparentais: uma perspectiva crítico-cultural
Bianca Alfano ........................................................................... 98
MESA 7 - DESAFIOS DA FORMAÇÃO E PRÁTICAS DE PROFISSIONAIS DE
SAÚDE
Atenção Integral ao Idoso no Contexto do Programa Saúde da Família:
um olhar sobre a formação e prática médica
Luciana Branco da Motta .............................................................. 104
Nutrindo a Vitalidade: a promoção de saúde na medicina chinesa
Eduardo Frederico Alexander Amaral de Souza ........................................ 112
Contribuições de Winnicott, Bowlby e Rorty para o Estudo da
Violência Urbana
Sabira Alencar ......................................................................... 117
O Estigma de Corno e a Cultura da Violência em Casais
Marília Etienne Arreguy ............................................................... 121
Violência Física Conjugal e contra Filhos em Serviços de Saúde na
Cidade do Rio de Janeiro
Alessandra Silva Dias, Gustavo Lobato, Claudia Leite Moraes e Michael E. Reichenheim.. 125
Prevalência da Violência Conjugal entre Casais durante a Gestação na
Cidade do Rio de Janeiro
Gustavo Lobato, Alessandra Silva Dias, Claudia Leite Moraes e Michael E.
Reichenheim.............................................................................................. 129
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MESA 8 - VIOLÊNCIA, FAMÍLIA E TRANSDISCIPLINARIDADE - 116
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
Repercussões de Espaços de Articulação Multiprofissional na
Graduação em Saúde
Luciana Alves Pereira .................................................................. 108
184
MESA 9 - REGULAÇÃO, PESQUISA E PROMOÇÃO EM SAÚDE
Crescimento de Beneficiários de Planos de Saúde de Assistência
Médica no Brasil: uma análise multidimensional
Rodrigo Mendes Leal e João Boaventura Branco de Matos ............................. 133
Revisão da Literatura Nacional e Internacional sobre o Estresse no
Trabalho: algumas questões metodológicas
Márcia Guimarães de Mello Alves e Yara Hahr Marques Hokerberg .................... 135
Perfil de Tabagismo na fase 1 (1999) do Estudo Pró-Saúde
Mariana Miranda Autran Sampaio, Eduardo Faestein, Dora Chor e Guilherme Werneck.. 139
MESA 10 - CORPO E CONTEMPORANEIDADE
Culto ao Corpo na Contemporaneidade: é possível uma estratégia de
libertação?
Rafael da Silva Mattos ................................................................. 144
Novas Articulações em Psicanálise: a atualidade do corpo na
obesidade
Cristiane Marques ...................................................................... 149
SESSÃO PÔSTER - 161
Beneficiários de Planos de Saúde de Assistência Médica na População
Brasileira: uma análise segundo gênero
João Boaventura Branco de Matos ..................................................... 162
Mortalidade Específica por Doenças do Aparelho Circulatório e
Fatores Associados nas Capitais Brasileiras e no Distrito Federal
Karine de Lima Sírio Boclin e Ilana Nogueira Bezerra ................................ 164
Distribuição Espacial da Aids no Estado do Rio De Janeiro (2001-2005)
Andréa Sobral de Almeida e Anna Maria Sales ........................................ 167
Caracterização e Predição de Áreas de Alto Risco para Ocorrência de
Leishmaniose Visceral com Base em Informações Ambientais e
Socioeconômicas
Andréa Sobral de Almeida e Guilherme Loureiro Werneck ............................. 170
publicação eletrônica: http://www.ims.uerj.br/sesc
O Manifesto Ciborgue – ciência, tecnologia e feminismo na
contemporaneidade
Marília Rodrigues da Silva ............................................................ 158
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
Magra para Quem? A inefável corporificação do sintoma
Letícia Vargas de Mesquita .............................................................. 154
185
Associação entre Procedimentos Preventivos no Serviço Público de
Odontologia e a Prevalência de Cárie Dentária
Roger Keller Celeste e Antonio Ponce de Leon .......................................... 173
Coberturas Vacinais contra Hepatite B e com Tetravalente no Estado
do Rio de Janeiro de 2002 a 2006
Andréia Rodrigues Gonçalves Ayres e Tatiana de Seixas Tavares Ribeiro ................ 176
MESA DE ENCERRAMENTO
Perspectivas Editoriais em Saúde Coletiva ....................................... 180
publicação eletrônica: http://www.ims.uerj.br/sesc
Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
186
Comissão Organizadora
Bianca Alfano – ME/CHS - Presidente
Cristiane Marques – ME/CHS - Vice-presidente
Marília Arreguy – DO/CHS - Comissão Editorial
Tatiane Coelho – DO/DPAS - Representante DPAS
Colaboradores:
Luciana Alves – DO/DPAS
Tatiana Ribeiro – ME/EPID
Igor Torres – ex-aluno ME/CHS
Apoio:
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Série Estudos em Saúde Coletiva – Nº 223
187
ENVIO DE A RTIGOS, VENDAS E PERMUTAS
SÉRIE ESTUDOS EM SAÚDE COLETIVA (SESC)
INSTITUTO DE MEDICINA SOCIAL - UERJ
RUA SÃO FRANCISCO XAVIER, 524 - 7º ANDAR - BL. D
MARACANÃ - RIO DE JANEIRO - RJ - CEP 20.550-900
TEL.: (0XX21) 2587-7303 RAMAL 248
FAX.: (0XX21) 2264-1142
E-MAIL: [email protected]
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